Poemas neste tema
Outros
Martha Medeiros
a juíza das minhas loucuras
a juíza das minhas loucuras
é severa demais pra me inocentar
não cobra depoimentos
nem sopra os ferimentos da tortura
simplesmente decreta pra minha culpa
prisão domiciliar
é severa demais pra me inocentar
não cobra depoimentos
nem sopra os ferimentos da tortura
simplesmente decreta pra minha culpa
prisão domiciliar
1 220
Martha Medeiros
eu quero em mim
eu quero em mim
uma pessoa
não muito assim
ou muito não
eu quero em mim
uma pessoa
geral
poucos muitos
mas muitas coisas
muitas vidas
pessoa assim
nem muito ou pouco
mas pessoa
em tudo e em todas
total
uma pessoa
não muito assim
ou muito não
eu quero em mim
uma pessoa
geral
poucos muitos
mas muitas coisas
muitas vidas
pessoa assim
nem muito ou pouco
mas pessoa
em tudo e em todas
total
1 026
Martha Medeiros
hoje eu sonhei tão alto
hoje eu sonhei tão alto
que as aves na minha janela pousaram
e pediram que eu sonhasse mais baixo
porque elas lá em cima voavam
que as aves na minha janela pousaram
e pediram que eu sonhasse mais baixo
porque elas lá em cima voavam
1 122
Martha Medeiros
aquele poema em que saiu seu nome
aquele poema em que saiu seu nome
não liga não é você
não vou te comprometer com a minha ilusão
foi erro de revisão
não liga não é você
não vou te comprometer com a minha ilusão
foi erro de revisão
1 127
Martha Medeiros
rock
rock
me faz sentir
de preto
gostosa
me faz dançar o pelo
me pela
me faz sentar de cócoras
me faz sentir
de preto
gostosa
me faz dançar o pelo
me pela
me faz sentar de cócoras
1 113
Martha Medeiros
para encontrar as origens do meu rosto
para encontrar as origens do meu rosto
muçulmano
revistei-me em aeroportos nebulosos
rasguei o véu que me encobria
descobri bombas e granadas no meu peito
tentei lentes azuis e corante no cabelo
nada feito explodi no bar da esquina
muçulmano
revistei-me em aeroportos nebulosos
rasguei o véu que me encobria
descobri bombas e granadas no meu peito
tentei lentes azuis e corante no cabelo
nada feito explodi no bar da esquina
1 174
Martha Medeiros
quando bebo além da conta
quando bebo além da conta
minha língua fica esperta e meus olhos
brilham mais
quem me dera todo dia essa alegria de taberna
minha língua fica esperta e meus olhos
brilham mais
quem me dera todo dia essa alegria de taberna
1 217
Martha Medeiros
way out
way out
saída de metrô
South Kensington Station
você na cabeça
minha mente voou
um museu, um punk
uma saudade
falo inglês pensando em português
eu amo você
como você mudou
saída de metrô
South Kensington Station
você na cabeça
minha mente voou
um museu, um punk
uma saudade
falo inglês pensando em português
eu amo você
como você mudou
1 019
Martha Medeiros
strip-tease
strip-tease
compreender que a gente nasce
e morre e nasce
e morre
e nasce
todo dia
strip-tease
todo dia a gente nasce
pra noite
strip-tease
toda noite
ainda é o mesmo dia
compreender que a gente nasce
e morre e nasce
e morre
e nasce
todo dia
strip-tease
todo dia a gente nasce
pra noite
strip-tease
toda noite
ainda é o mesmo dia
1 668
Martha Medeiros
onde eu pretendo chegar
onde eu pretendo chegar
é um lugar que não se chama pelo nome
é um lugar que não se chama pelo nome
1 023
Martha Medeiros
minh’alma portuguesa
minh’alma portuguesa
pois pois
não tem nada de Portugal
sou Inglaterra descarada
seca e civilizada
performance o dia inteiro
no peito
um coração underground
pois pois
não tem nada de Portugal
sou Inglaterra descarada
seca e civilizada
performance o dia inteiro
no peito
um coração underground
1 104
Martha Medeiros
bem que podia ser diferente
bem que podia ser diferente
mas não foi e eu fiquei assim
pareço estranha mas comum demais
tão óbvia que surpreende a todos
puríssima que embriaga a voz
distante que se sente a pele
tão boa que nem satisfaz
gritona que se pede bis
voraz que se apaixona fácil
mentira que não engana mais
sei lá o que foi que eu fiz
mas não foi e eu fiquei assim
pareço estranha mas comum demais
tão óbvia que surpreende a todos
puríssima que embriaga a voz
distante que se sente a pele
tão boa que nem satisfaz
gritona que se pede bis
voraz que se apaixona fácil
mentira que não engana mais
sei lá o que foi que eu fiz
1 201
Martha Medeiros
Miró me viu
Miró me viu
gostou
recomendou Pueblo Español
artificial
ao Bairro Gótico preferi
Gaudí
no El Corte Inglês
comprei bobagens
do museu Picasso
El Viejo Guitarrista me contempla
que nome lindo
Barcelona
gostou
recomendou Pueblo Español
artificial
ao Bairro Gótico preferi
Gaudí
no El Corte Inglês
comprei bobagens
do museu Picasso
El Viejo Guitarrista me contempla
que nome lindo
Barcelona
904
Martha Medeiros
não devia te contar
não devia te contar
mas se você guardar segredo
eu revelo este meu medo
de não saber amar
não devia te amar
mas se você guardar meu medo
eu revelo este segredo
que não sei contar
mas se você guardar segredo
eu revelo este meu medo
de não saber amar
não devia te amar
mas se você guardar meu medo
eu revelo este segredo
que não sei contar
1 088
Martha Medeiros
não quero mudar o sobrenome
não quero mudar o sobrenome
que carrego sustentando meu nome ateu
ele pode vir, eu deixo dormir na minha cama
mas não quero nada dele
que já não seja meu
que carrego sustentando meu nome ateu
ele pode vir, eu deixo dormir na minha cama
mas não quero nada dele
que já não seja meu
1 194
Martha Medeiros
se vivo só
se vivo só
é marcha a ré
se nego o sol
só penso em mi
se sofro lá
ninguém tem dó
se você fá
eu quero si
é marcha a ré
se nego o sol
só penso em mi
se sofro lá
ninguém tem dó
se você fá
eu quero si
1 049
Martha Medeiros
se vivo só
se vivo só
é marcha a ré
se nego o sol
só penso em mi
se sofro lá
ninguém tem dó
se você fá
eu quero si
é marcha a ré
se nego o sol
só penso em mi
se sofro lá
ninguém tem dó
se você fá
eu quero si
1 049
Martha Medeiros
foi então que ela viu no calendário
foi então que ela viu no calendário
um sofrimento diário
uma dor que tinha número
e uma aflição já havia um mês
foi então que resolveu queimá-lo
e trocá-lo por uma ampulheta
que baixa a dor mais rápido
e mata o amor de vez
um sofrimento diário
uma dor que tinha número
e uma aflição já havia um mês
foi então que resolveu queimá-lo
e trocá-lo por uma ampulheta
que baixa a dor mais rápido
e mata o amor de vez
1 163
Martha Medeiros
eu penso conforme o tempo
eu penso conforme o tempo
eu danço conforme o passo
eu passo conforme o espaço
eu amo conforme a fome
eu como conforme a cama
eu sinto conforme o mundo
mas no fundo
eu não me conformo
eu danço conforme o passo
eu passo conforme o espaço
eu amo conforme a fome
eu como conforme a cama
eu sinto conforme o mundo
mas no fundo
eu não me conformo
1 260
Sophia de Mello Breyner Andresen
Perca
Ainda há luz e já o rumor da tarde
me separa da sombra do pinhal
como viver de novo a alegria una
de ter sido nova que falhei
só o tempo e bem tarde
me envelheceu
depois perdi sem saber como o andar
dos meus passos
Setembro de 2001
me separa da sombra do pinhal
como viver de novo a alegria una
de ter sido nova que falhei
só o tempo e bem tarde
me envelheceu
depois perdi sem saber como o andar
dos meus passos
Setembro de 2001
1 238
Sophia de Mello Breyner Andresen
Cada Manhã o Alvoroço da Luz
Me acorda: a luz atravessa a paisagem e a casa
— A dormir tinha esquecido não as coisas
Mas sua meticulosa beleza
Múltipla
No princípio Deus disse
Faça-se a luz
— E com a luz da manhã o mundo principia
Digo a luz e não o sol
Nos dias de nevoeiro emergem formas brancas
Aqui e além como se vogassem
Numa deriva cismadora e serena
Nos dias de sol os ciprestes enegrecem
E ao longe brilha o regozijo das vidraças
1987
— A dormir tinha esquecido não as coisas
Mas sua meticulosa beleza
Múltipla
No princípio Deus disse
Faça-se a luz
— E com a luz da manhã o mundo principia
Digo a luz e não o sol
Nos dias de nevoeiro emergem formas brancas
Aqui e além como se vogassem
Numa deriva cismadora e serena
Nos dias de sol os ciprestes enegrecem
E ao longe brilha o regozijo das vidraças
1987
1 463
Sophia de Mello Breyner Andresen
Elsinore
1
Cheirava a mar em Elsinore
Um leve cheiro a mar misturado
Com o aroma primaveril de ervas e arvoredo
O castelo fora por várias vezes reconstruído
E uma vez purificado pelo fogo
Tudo fora lavado e pintado
Passado a limpo exorcizado
No entanto
Numa das salas do castelo
Um quadro do século dezoito mostrava
Uma rainha bela imperiosa arrogante
E no seu rosto a sombra de outro se espelhava
E também as muralhas vermelhas de tijolo
Sobre as águas obscuras do fosso projectavam
Uma sombra muito antiga e cor de sangue
2
Cá fora o mar era de um azul claríssimo
Crianças brincavam na relva à luz do sol
E famílias felizes de perto as olhavam
Porém a guia disse que o passado mora do outro lado do castelo
E que o pano só sobe depois do sol descer
E que as palavras só se cruzam como facas
Quando soa a hora em que se embruxa a noite
E eu entre barco e avião cheguei desencontrada
Nada vi da profunda e visionária noite
Cheirava a mar em Elsinore
Um leve cheiro a mar misturado
Com o aroma primaveril de ervas e arvoredo
O castelo fora por várias vezes reconstruído
E uma vez purificado pelo fogo
Tudo fora lavado e pintado
Passado a limpo exorcizado
No entanto
Numa das salas do castelo
Um quadro do século dezoito mostrava
Uma rainha bela imperiosa arrogante
E no seu rosto a sombra de outro se espelhava
E também as muralhas vermelhas de tijolo
Sobre as águas obscuras do fosso projectavam
Uma sombra muito antiga e cor de sangue
2
Cá fora o mar era de um azul claríssimo
Crianças brincavam na relva à luz do sol
E famílias felizes de perto as olhavam
Porém a guia disse que o passado mora do outro lado do castelo
E que o pano só sobe depois do sol descer
E que as palavras só se cruzam como facas
Quando soa a hora em que se embruxa a noite
E eu entre barco e avião cheguei desencontrada
Nada vi da profunda e visionária noite
1 325
Sophia de Mello Breyner Andresen
Elsinore
1
Cheirava a mar em Elsinore
Um leve cheiro a mar misturado
Com o aroma primaveril de ervas e arvoredo
O castelo fora por várias vezes reconstruído
E uma vez purificado pelo fogo
Tudo fora lavado e pintado
Passado a limpo exorcizado
No entanto
Numa das salas do castelo
Um quadro do século dezoito mostrava
Uma rainha bela imperiosa arrogante
E no seu rosto a sombra de outro se espelhava
E também as muralhas vermelhas de tijolo
Sobre as águas obscuras do fosso projectavam
Uma sombra muito antiga e cor de sangue
2
Cá fora o mar era de um azul claríssimo
Crianças brincavam na relva à luz do sol
E famílias felizes de perto as olhavam
Porém a guia disse que o passado mora do outro lado do castelo
E que o pano só sobe depois do sol descer
E que as palavras só se cruzam como facas
Quando soa a hora em que se embruxa a noite
E eu entre barco e avião cheguei desencontrada
Nada vi da profunda e visionária noite
Cheirava a mar em Elsinore
Um leve cheiro a mar misturado
Com o aroma primaveril de ervas e arvoredo
O castelo fora por várias vezes reconstruído
E uma vez purificado pelo fogo
Tudo fora lavado e pintado
Passado a limpo exorcizado
No entanto
Numa das salas do castelo
Um quadro do século dezoito mostrava
Uma rainha bela imperiosa arrogante
E no seu rosto a sombra de outro se espelhava
E também as muralhas vermelhas de tijolo
Sobre as águas obscuras do fosso projectavam
Uma sombra muito antiga e cor de sangue
2
Cá fora o mar era de um azul claríssimo
Crianças brincavam na relva à luz do sol
E famílias felizes de perto as olhavam
Porém a guia disse que o passado mora do outro lado do castelo
E que o pano só sobe depois do sol descer
E que as palavras só se cruzam como facas
Quando soa a hora em que se embruxa a noite
E eu entre barco e avião cheguei desencontrada
Nada vi da profunda e visionária noite
1 325