Outros
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Palavra
«O pior de todos os males seria
A morte da palavra»
Diz o provérbio do Malinké:
«Um homem pode enganar-se em sua parte de alimento
Mas não pode
Enganar-se na sua parte de palavra»
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Palavra
«O pior de todos os males seria
A morte da palavra»
Diz o provérbio do Malinké:
«Um homem pode enganar-se em sua parte de alimento
Mas não pode
Enganar-se na sua parte de palavra»
Sophia de Mello Breyner Andresen
Estrada
Pelas rectas da estrada como se voasse
Mas cada coisa surge nomeada
Clara e nítida
Como se a mão do instante a recortasse
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vi. Eu Vos Direi a Grande Praia Branca
E os homens nus e negros que dançavam
Pra sustentar o céu com suas lanças
1982
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ii. Escuta, Lídia, Como Os Dias Correm
Fingidamente imóveis,
E à sombra de folhagens e palavras
Os deuses transparecem
Como para beber o sangue oculto
Que nos tornou atentos.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ii. Escuta, Lídia, Como Os Dias Correm
Fingidamente imóveis,
E à sombra de folhagens e palavras
Os deuses transparecem
Como para beber o sangue oculto
Que nos tornou atentos.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Torso
Ao cair da tarde num Setembro do século XX
Na estrada que vai de Patras para Atenas
Combatia no poente sua beleza helenística
As massas musculares inchadas pelo esforço
Construíam o tumulto de clarão e sombra
Que dobra os corpos dos deuses já perdidos
Dos frisos de Pérgamo
Pois também no poente onde eu habito
Os deuses são vencidos
Sophia de Mello Breyner Andresen
Torso
Ao cair da tarde num Setembro do século XX
Na estrada que vai de Patras para Atenas
Combatia no poente sua beleza helenística
As massas musculares inchadas pelo esforço
Construíam o tumulto de clarão e sombra
Que dobra os corpos dos deuses já perdidos
Dos frisos de Pérgamo
Pois também no poente onde eu habito
Os deuses são vencidos
Sophia de Mello Breyner Andresen
Torso
Ao cair da tarde num Setembro do século XX
Na estrada que vai de Patras para Atenas
Combatia no poente sua beleza helenística
As massas musculares inchadas pelo esforço
Construíam o tumulto de clarão e sombra
Que dobra os corpos dos deuses já perdidos
Dos frisos de Pérgamo
Pois também no poente onde eu habito
Os deuses são vencidos
Sophia de Mello Breyner Andresen
Tripoli 76
Cruzam-se muitas e diversas gentes
Vindas de muitos e diversos mundos
Vestindo muitas e diversas roupas
Falando muitas e diversas línguas
Vêm de muitos e diversos ritos
E cultos e culturas e paragens
II
O recitador entoa a palavra modulada
Rouca de deserto e sol e imensidão
Entoa a veemência nua da palavra
Fronteira de puro Deus e puro nada
III
E Leptis Magna em sua pedra cor de trigo
E em seu chão de laje pelo sol varrido
Guarda o matinal no mais antigo
Sophia de Mello Breyner Andresen
«À Maneira De…»
Horizonte a luz se desfere. Opaca (ela)
De nós se nutre como lume aceso
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Rapariga E a Praia
São cor de areia suas pernas finas
Seu íris é azul verde e cinzento
Uma rapariga vai como uma espiga
Carnal e cereal intacta cerrada
Mas nela enterra sua faca o vento
E tudo espalha com suas mãos o vento
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ii. Navegação Abstracta
Fito como um peixe o voo segue a rota
Vista de cima tornou-se a terra um mapa
Porém subitamente
Atravessámos do Oriente a grande porta
De safiras azuis no mar luzente
1977
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ii. Navegação Abstracta
Fito como um peixe o voo segue a rota
Vista de cima tornou-se a terra um mapa
Porém subitamente
Atravessámos do Oriente a grande porta
De safiras azuis no mar luzente
1977
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iv. Falamos Junto À Luz. Lá Fora a Noite
Imóvel brilha sobre o mar parado.
À sombra das palavras o teu rosto
Em mim se inscreve como se durasse.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Grécia 72
Afundados em distância confundidos com o vento
De novo o dia será liso sobre a orla do mar
Nada encobrirá a pura manhã da imanência
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vii. Outros Dirão Senhor As Singraduras
Eu vos direi a praia onde luzia
A primitiva manhã da criação
Eu vos direi a nudez recém-criada
A esquiva doçura a leve rapidez
De homens ainda cor de barro que julgaram
Sermos seus antigos deuses tutelares
Que regressavam
1982
Sophia de Mello Breyner Andresen
X. Sombrios Deuses
Senhores do medo antigo
O sopro como estátuas suspendendo
Na movediça luz das lamparinas
1982
Sophia de Mello Breyner Andresen
Dual
Não me guiava a mim mas meus cavalos
E no país de espanto e de tumulto
Em mim se desuniu o que eu unia
Sophia de Mello Breyner Andresen
I. Deslizado Silêncio Sob Alísios
— As velas todas brandamente inchadas —
Brilho de escamas sobre os grandes mares
E a bombordo nas costas avistadas
Sob o clamor de extáticos luares
Um imóvel silêncio de palmares
1982
Sophia de Mello Breyner Andresen
V. Faz da Tua Vida Em Frente À Luz
Um lúcido terraço exacto e branco,
Docemente cortado
Pelo rio das noites.
Alheio o passo em tão perdida estrada
Vive, sem seres ele, o teu destino.
Inflexível assiste
À tua própria ausência.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vi. Irmão do Que Escrevi
Distante me desejo
Como quem ante o quadro
Pra melhor ver recua.
Mas tu, Neera, impões
Leis que não são as minhas.
Teus pés batem a dança
De sombra e desmesura
Em frente da varanda
Fugidia cintilas
Longas mãos brancos pulsos
Torcem os teus cabelos
Quando irrompe da noite
Tua face de toira
E acordas as imagens
Mais antigas que os deuses.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vi. Irmão do Que Escrevi
Distante me desejo
Como quem ante o quadro
Pra melhor ver recua.
Mas tu, Neera, impões
Leis que não são as minhas.
Teus pés batem a dança
De sombra e desmesura
Em frente da varanda
Fugidia cintilas
Longas mãos brancos pulsos
Torcem os teus cabelos
Quando irrompe da noite
Tua face de toira
E acordas as imagens
Mais antigas que os deuses.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vi. Irmão do Que Escrevi
Distante me desejo
Como quem ante o quadro
Pra melhor ver recua.
Mas tu, Neera, impões
Leis que não são as minhas.
Teus pés batem a dança
De sombra e desmesura
Em frente da varanda
Fugidia cintilas
Longas mãos brancos pulsos
Torcem os teus cabelos
Quando irrompe da noite
Tua face de toira
E acordas as imagens
Mais antigas que os deuses.