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Adélia Prado
O Ditador Na Prisão
O ditador escreve poesia.
Coitado dele.
Coitados de nós que dizemos coitado dele,
pois também ele tem memória
para evocar laranjais, tigelas de doce
entre risadas e conversas amenas,
paraíso de ínfimas delícias.
Mal florescem os beijinhos
e as abelhas rodeiam-nos afainosas,
tornando o dia perfeito.
Não tripudiemos sobre o sanguinário
que sob a vista dos guardas
vaza no caderno seu desejo,
em tudo igual ao desejo dos homens,
quero ser feliz, ter um corpo elástico,
quero cavalo, espada e uma boa guerra!
O ditador é devoto,
cumpre as horas canônicas como os monges no coro,
cochila sobre o Alcorão.
Eu que vivo extramuros tremo pelo destino
de quem deprimiu o chão com sua bota de ferro.
Ninguém perturbe a prece do proscrito,
nem zombe de seus versos.
A misericórdia de Deus é esdrúxula,
o mistério, avassalador.
Por insondável razão não sou eu a prisioneira.
Minha compaixão é tal que não pode ser minha.
Quem inventou os corações
se apodera do meu para amar este pobre.
Coitado dele.
Coitados de nós que dizemos coitado dele,
pois também ele tem memória
para evocar laranjais, tigelas de doce
entre risadas e conversas amenas,
paraíso de ínfimas delícias.
Mal florescem os beijinhos
e as abelhas rodeiam-nos afainosas,
tornando o dia perfeito.
Não tripudiemos sobre o sanguinário
que sob a vista dos guardas
vaza no caderno seu desejo,
em tudo igual ao desejo dos homens,
quero ser feliz, ter um corpo elástico,
quero cavalo, espada e uma boa guerra!
O ditador é devoto,
cumpre as horas canônicas como os monges no coro,
cochila sobre o Alcorão.
Eu que vivo extramuros tremo pelo destino
de quem deprimiu o chão com sua bota de ferro.
Ninguém perturbe a prece do proscrito,
nem zombe de seus versos.
A misericórdia de Deus é esdrúxula,
o mistério, avassalador.
Por insondável razão não sou eu a prisioneira.
Minha compaixão é tal que não pode ser minha.
Quem inventou os corações
se apodera do meu para amar este pobre.
2 284
Adélia Prado
No Jardim
Sob sol quente, no jardim flamejante
a varejeira rebrilha, joia viva.
O poder de Deus me aterra em sua inércia.
Não vai impedir a mosca de botar seus ovos
sobre a língua defunta que Lhe cantou as obras.
Tremo, obrigada que sou
a ver Seu rosto sob vermes.
a varejeira rebrilha, joia viva.
O poder de Deus me aterra em sua inércia.
Não vai impedir a mosca de botar seus ovos
sobre a língua defunta que Lhe cantou as obras.
Tremo, obrigada que sou
a ver Seu rosto sob vermes.
1 379
Adélia Prado
Reza do Homem Demente
Senhor deus meu Jesus Cristo,
eu pecador poderoso,
todo-poderoso contemplo
o mistério de ondas marítimas
que chocam meu coração.
Esta noite foi legal,
joguei futebol na Rússia
e fiz conferência à toa
debaixo do viaduto.
As pessoas só olhavam,
ninguém falava miau,
só um velho me entendia.
Ele também não falava
mas discutimos com proveito.
Muito esquisito este sonho,
aliviante demais,
muito engraçado também.
Quero mudar de enfermeiro,
essezinho aí parado
é delicado demaisinho,
seo Luizinho, inho, inho.
Chega, gente, fecha a porta
que eu quero ficar sozinho.
eu pecador poderoso,
todo-poderoso contemplo
o mistério de ondas marítimas
que chocam meu coração.
Esta noite foi legal,
joguei futebol na Rússia
e fiz conferência à toa
debaixo do viaduto.
As pessoas só olhavam,
ninguém falava miau,
só um velho me entendia.
Ele também não falava
mas discutimos com proveito.
Muito esquisito este sonho,
aliviante demais,
muito engraçado também.
Quero mudar de enfermeiro,
essezinho aí parado
é delicado demaisinho,
seo Luizinho, inho, inho.
Chega, gente, fecha a porta
que eu quero ficar sozinho.
1 156
Adélia Prado
Sem Saída
Escreve-se para dizer
sou mais que meu pobre corpo.
Os óculos do escritor o atestam,
lentes que para dentro olham,
sua foto contra a estante,
sempre flagrada a meio desalinho.
Que imensa pedreira aquele monte de livros,
indiferença treinada para esconder sofrimento.
Falsamente humilde, não escreveria mais,
mortal pecado,
pretensão de poder reservada ao divino.
Só lhe resta posar
sem corrigir os ângulos derruídos
à animadora legenda:
O escritor no seu gabinete.
sou mais que meu pobre corpo.
Os óculos do escritor o atestam,
lentes que para dentro olham,
sua foto contra a estante,
sempre flagrada a meio desalinho.
Que imensa pedreira aquele monte de livros,
indiferença treinada para esconder sofrimento.
Falsamente humilde, não escreveria mais,
mortal pecado,
pretensão de poder reservada ao divino.
Só lhe resta posar
sem corrigir os ângulos derruídos
à animadora legenda:
O escritor no seu gabinete.
701
Adélia Prado
Sem Saída
Escreve-se para dizer
sou mais que meu pobre corpo.
Os óculos do escritor o atestam,
lentes que para dentro olham,
sua foto contra a estante,
sempre flagrada a meio desalinho.
Que imensa pedreira aquele monte de livros,
indiferença treinada para esconder sofrimento.
Falsamente humilde, não escreveria mais,
mortal pecado,
pretensão de poder reservada ao divino.
Só lhe resta posar
sem corrigir os ângulos derruídos
à animadora legenda:
O escritor no seu gabinete.
sou mais que meu pobre corpo.
Os óculos do escritor o atestam,
lentes que para dentro olham,
sua foto contra a estante,
sempre flagrada a meio desalinho.
Que imensa pedreira aquele monte de livros,
indiferença treinada para esconder sofrimento.
Falsamente humilde, não escreveria mais,
mortal pecado,
pretensão de poder reservada ao divino.
Só lhe resta posar
sem corrigir os ângulos derruídos
à animadora legenda:
O escritor no seu gabinete.
701
Adélia Prado
Sem Saída
Escreve-se para dizer
sou mais que meu pobre corpo.
Os óculos do escritor o atestam,
lentes que para dentro olham,
sua foto contra a estante,
sempre flagrada a meio desalinho.
Que imensa pedreira aquele monte de livros,
indiferença treinada para esconder sofrimento.
Falsamente humilde, não escreveria mais,
mortal pecado,
pretensão de poder reservada ao divino.
Só lhe resta posar
sem corrigir os ângulos derruídos
à animadora legenda:
O escritor no seu gabinete.
sou mais que meu pobre corpo.
Os óculos do escritor o atestam,
lentes que para dentro olham,
sua foto contra a estante,
sempre flagrada a meio desalinho.
Que imensa pedreira aquele monte de livros,
indiferença treinada para esconder sofrimento.
Falsamente humilde, não escreveria mais,
mortal pecado,
pretensão de poder reservada ao divino.
Só lhe resta posar
sem corrigir os ângulos derruídos
à animadora legenda:
O escritor no seu gabinete.
701
Adélia Prado
Esplendores
Toda compreensão é poesia,
clarão inaugural que névoa densa
faz parecer velados diamantes.
Em pequenos bocados,
como quem dá comida a criancinhas,
a beleza retém seu vórtice.
São águas de compaixão
e eu sobrevivo.
clarão inaugural que névoa densa
faz parecer velados diamantes.
Em pequenos bocados,
como quem dá comida a criancinhas,
a beleza retém seu vórtice.
São águas de compaixão
e eu sobrevivo.
1 262
Adélia Prado
Esplendores
Toda compreensão é poesia,
clarão inaugural que névoa densa
faz parecer velados diamantes.
Em pequenos bocados,
como quem dá comida a criancinhas,
a beleza retém seu vórtice.
São águas de compaixão
e eu sobrevivo.
clarão inaugural que névoa densa
faz parecer velados diamantes.
Em pequenos bocados,
como quem dá comida a criancinhas,
a beleza retém seu vórtice.
São águas de compaixão
e eu sobrevivo.
1 262
Adélia Prado
Esplendores
Toda compreensão é poesia,
clarão inaugural que névoa densa
faz parecer velados diamantes.
Em pequenos bocados,
como quem dá comida a criancinhas,
a beleza retém seu vórtice.
São águas de compaixão
e eu sobrevivo.
clarão inaugural que névoa densa
faz parecer velados diamantes.
Em pequenos bocados,
como quem dá comida a criancinhas,
a beleza retém seu vórtice.
São águas de compaixão
e eu sobrevivo.
1 262
Adélia Prado
Esplendores
Toda compreensão é poesia,
clarão inaugural que névoa densa
faz parecer velados diamantes.
Em pequenos bocados,
como quem dá comida a criancinhas,
a beleza retém seu vórtice.
São águas de compaixão
e eu sobrevivo.
clarão inaugural que névoa densa
faz parecer velados diamantes.
Em pequenos bocados,
como quem dá comida a criancinhas,
a beleza retém seu vórtice.
São águas de compaixão
e eu sobrevivo.
1 262
Adélia Prado
Abrasada
Só trinta anos tinha minha mãe
e já suspirava:
‘Por que não vai todo mundo pro convento?
Qualquer dia, ô cruz, estes peitinhos,
seus paninhos manchados...’
Por que me deixou órfã, minha mãe?
Apesar de seus olhos tristes
e sua boca selada,
vou me casar assim mesmo.
Só vai lhe doer agora
e não muito.
e já suspirava:
‘Por que não vai todo mundo pro convento?
Qualquer dia, ô cruz, estes peitinhos,
seus paninhos manchados...’
Por que me deixou órfã, minha mãe?
Apesar de seus olhos tristes
e sua boca selada,
vou me casar assim mesmo.
Só vai lhe doer agora
e não muito.
1 433
Adélia Prado
Rua do Comércio
Quase fora da loja a balconista
atrás de nesgas de sol.
‘De listrinhas não tem,
só lisa, vermelha e preta,
fico devendo pra senhora.’
Fica não, minha filha,
vamos todos morrer, além do mais, sei não,
quero dizer, com certeza Deus se importa
com este pequeno desvario,
meias de lã com listrinhas.
Preciso delas pra não ficar dissonante,
escuta lá o passarinho,
aproveita o sol como quer,
não peregrina tinhoso atrás de meias de lã
como se tivesse treze anos
e fosse a primeira vez calçar botinhas.
Está gritando agora na mangueira,
estou vestida apenas de minha pele
e tudo está muito bem.
atrás de nesgas de sol.
‘De listrinhas não tem,
só lisa, vermelha e preta,
fico devendo pra senhora.’
Fica não, minha filha,
vamos todos morrer, além do mais, sei não,
quero dizer, com certeza Deus se importa
com este pequeno desvario,
meias de lã com listrinhas.
Preciso delas pra não ficar dissonante,
escuta lá o passarinho,
aproveita o sol como quer,
não peregrina tinhoso atrás de meias de lã
como se tivesse treze anos
e fosse a primeira vez calçar botinhas.
Está gritando agora na mangueira,
estou vestida apenas de minha pele
e tudo está muito bem.
1 270
Adélia Prado
O Enfermo
O doente quer ir-se
para sua casa,
para a cama onde está
e não reconhece mais.
Tenho a fé abalada é o que diz
num espasmo de lucidez.
Seu toque, como o dos cegos,
imperativa, sua voz
de criança gentil contrariada.
Segurou minha mão por uma hora inteira.
Não tem santos estigmas, só escaras
e a vida que vive nele
e o faz brandir, profeta no seu jejum:
ter nascido já é lucro.
para sua casa,
para a cama onde está
e não reconhece mais.
Tenho a fé abalada é o que diz
num espasmo de lucidez.
Seu toque, como o dos cegos,
imperativa, sua voz
de criança gentil contrariada.
Segurou minha mão por uma hora inteira.
Não tem santos estigmas, só escaras
e a vida que vive nele
e o faz brandir, profeta no seu jejum:
ter nascido já é lucro.
1 135
Adélia Prado
O Tesouro Escondido
Tanto mais perto quanto mais remoto,
o tempo burla as ciências.
Quantos milhões de anos tem o fóssil?
A mesma idade do meu sofrimento.
O amor se ri de vanglórias,
de homens insones nas calculadoras.
O inimigo invisível se atavia
pra que eu não diga o que me faz eterna:
te amo, ó mundo, desde quando
irrebelados os querubins assistiam.
De pensamentos aos quais nada se segue,
a salvação vem de dizer: adoro-Vos,
com os joelhos em terra, adoro-Vos,
ó grão de mostarda aurífera,
coração diminuto na entranha dos minerais.
Em lama, excremento e secreção suspeitosa,
adoro-Vos, amo-Vos sobre todas as coisas.
o tempo burla as ciências.
Quantos milhões de anos tem o fóssil?
A mesma idade do meu sofrimento.
O amor se ri de vanglórias,
de homens insones nas calculadoras.
O inimigo invisível se atavia
pra que eu não diga o que me faz eterna:
te amo, ó mundo, desde quando
irrebelados os querubins assistiam.
De pensamentos aos quais nada se segue,
a salvação vem de dizer: adoro-Vos,
com os joelhos em terra, adoro-Vos,
ó grão de mostarda aurífera,
coração diminuto na entranha dos minerais.
Em lama, excremento e secreção suspeitosa,
adoro-Vos, amo-Vos sobre todas as coisas.
1 591
Adélia Prado
Poema Para Menina-Aprendiz
Hoje aqui em Divinópolis
está desesperador
mas ninguém escapará
à sedução da minha paciência.
A meninazinha insiste
em arrumar a cozinha para mim,
parece uma imperatriz: ‘sai daqui’.
O homem sério insinua-se:
‘te aprecio mais sem óculos’,
um homem desanimador.
Pelo que disse
sobre a memória histórica da aldeia,
a edilidade vai me ovacionar;
no entanto,
se me escavarem nada encontrarão
a não ser desejo,
quase ingratidão.
Sai a romaria para Congonhas do Campo,
quero ir também,
pegar poeira por debaixo das unhas.
Tem mais alguma coisa pra lavar?
Tem, sim, o encardido da alma,
um grão de esperança lava.
Pode ir brincar, Beatriz.
está desesperador
mas ninguém escapará
à sedução da minha paciência.
A meninazinha insiste
em arrumar a cozinha para mim,
parece uma imperatriz: ‘sai daqui’.
O homem sério insinua-se:
‘te aprecio mais sem óculos’,
um homem desanimador.
Pelo que disse
sobre a memória histórica da aldeia,
a edilidade vai me ovacionar;
no entanto,
se me escavarem nada encontrarão
a não ser desejo,
quase ingratidão.
Sai a romaria para Congonhas do Campo,
quero ir também,
pegar poeira por debaixo das unhas.
Tem mais alguma coisa pra lavar?
Tem, sim, o encardido da alma,
um grão de esperança lava.
Pode ir brincar, Beatriz.
1 483
Adélia Prado
Presença
Malefício nenhum resiste
ao encantamento da hora
em que percebo as cúpulas,
até um zimbório
eu vejo na mesquita,
até cruz no santuário
— e são árvores na bruma
à luz reflexa da tarde.
O olho de Deus me vê,
o olho amoroso dele.
ao encantamento da hora
em que percebo as cúpulas,
até um zimbório
eu vejo na mesquita,
até cruz no santuário
— e são árvores na bruma
à luz reflexa da tarde.
O olho de Deus me vê,
o olho amoroso dele.
1 360
Adélia Prado
Presença
Malefício nenhum resiste
ao encantamento da hora
em que percebo as cúpulas,
até um zimbório
eu vejo na mesquita,
até cruz no santuário
— e são árvores na bruma
à luz reflexa da tarde.
O olho de Deus me vê,
o olho amoroso dele.
ao encantamento da hora
em que percebo as cúpulas,
até um zimbório
eu vejo na mesquita,
até cruz no santuário
— e são árvores na bruma
à luz reflexa da tarde.
O olho de Deus me vê,
o olho amoroso dele.
1 360
Adélia Prado
Portunhol
Quero dizer
do corpo de Vosso Espírito no jardim,
uma luz sem crueza.
Disse-o?
Só aparentemente
divergem rosa e alecrim.
Um espelho é o que sou,
nem sempre turvo,
veem-se através de mim
os que me julgam clemente.
Entendes
é quando o corpo da luz te escapa
e resta na memória
uma claridade aquecida,
é quando dizes:
é inacreditável
tramas tão delicadas nos teares.
Os computadores sabem
que escrevi rosa com ‘z’,
corrigem-me como professores.
Bate um grande desejo
de torresmos,
garrafa inteira de vinhos,
freme num ponto a vida
— até hoje foi entre as pernas —,
desejo de alabanza,
um desejo de dança e castañuelas,
de falar lindamente errado:
“estou sentindo-me isso”.
Ninguém discordará que Deus é amor.
do corpo de Vosso Espírito no jardim,
uma luz sem crueza.
Disse-o?
Só aparentemente
divergem rosa e alecrim.
Um espelho é o que sou,
nem sempre turvo,
veem-se através de mim
os que me julgam clemente.
Entendes
é quando o corpo da luz te escapa
e resta na memória
uma claridade aquecida,
é quando dizes:
é inacreditável
tramas tão delicadas nos teares.
Os computadores sabem
que escrevi rosa com ‘z’,
corrigem-me como professores.
Bate um grande desejo
de torresmos,
garrafa inteira de vinhos,
freme num ponto a vida
— até hoje foi entre as pernas —,
desejo de alabanza,
um desejo de dança e castañuelas,
de falar lindamente errado:
“estou sentindo-me isso”.
Ninguém discordará que Deus é amor.
1 160
Adélia Prado
Portunhol
Quero dizer
do corpo de Vosso Espírito no jardim,
uma luz sem crueza.
Disse-o?
Só aparentemente
divergem rosa e alecrim.
Um espelho é o que sou,
nem sempre turvo,
veem-se através de mim
os que me julgam clemente.
Entendes
é quando o corpo da luz te escapa
e resta na memória
uma claridade aquecida,
é quando dizes:
é inacreditável
tramas tão delicadas nos teares.
Os computadores sabem
que escrevi rosa com ‘z’,
corrigem-me como professores.
Bate um grande desejo
de torresmos,
garrafa inteira de vinhos,
freme num ponto a vida
— até hoje foi entre as pernas —,
desejo de alabanza,
um desejo de dança e castañuelas,
de falar lindamente errado:
“estou sentindo-me isso”.
Ninguém discordará que Deus é amor.
do corpo de Vosso Espírito no jardim,
uma luz sem crueza.
Disse-o?
Só aparentemente
divergem rosa e alecrim.
Um espelho é o que sou,
nem sempre turvo,
veem-se através de mim
os que me julgam clemente.
Entendes
é quando o corpo da luz te escapa
e resta na memória
uma claridade aquecida,
é quando dizes:
é inacreditável
tramas tão delicadas nos teares.
Os computadores sabem
que escrevi rosa com ‘z’,
corrigem-me como professores.
Bate um grande desejo
de torresmos,
garrafa inteira de vinhos,
freme num ponto a vida
— até hoje foi entre as pernas —,
desejo de alabanza,
um desejo de dança e castañuelas,
de falar lindamente errado:
“estou sentindo-me isso”.
Ninguém discordará que Deus é amor.
1 160
Adélia Prado
Tal Qual Um Macho
Comi em frente da televisão
sem usar faca
e repeti o prato
como os caminhoneiros que falam de boca cheia
e vi um programa até o fim.
Até altas da madrugada
fiquei vendo a moças rebolantes
locutores boçais dizerem
segura meu microfone, gracinha.
Depois fui dormir e sonhei,
voava perseguida por soldados
um voo medroso
temendo me embaraçar na rede elétrica.
Acordei com decepção e ânsias,
macho verdadeiro
sonharia com rebolâncias.
sem usar faca
e repeti o prato
como os caminhoneiros que falam de boca cheia
e vi um programa até o fim.
Até altas da madrugada
fiquei vendo a moças rebolantes
locutores boçais dizerem
segura meu microfone, gracinha.
Depois fui dormir e sonhei,
voava perseguida por soldados
um voo medroso
temendo me embaraçar na rede elétrica.
Acordei com decepção e ânsias,
macho verdadeiro
sonharia com rebolâncias.
1 011
Adélia Prado
Justiça
Nos tinha à roda
ao peito
aos cachorros
diferente da moradora de posses
que ia à missa de carro
e a quem os meninos
não puxavam a saia.
Mas muito mais bonita
era nossa mãe.
ao peito
aos cachorros
diferente da moradora de posses
que ia à missa de carro
e a quem os meninos
não puxavam a saia.
Mas muito mais bonita
era nossa mãe.
1 276
Adélia Prado
Aqui, Tão Longe
Neste bairro pobre todos têm um real
para comprar as frutas
do caminhão de São Paulo.
Homens não pagam às mulheres.
Todas da vida, dão de comer e comem
coisas, de si, agradecidas.
Só morrem os muito velhinhos
que pedem pra descansar.
Pais e mães vão-se às camas
pra fazerem seus filhinhos,
cadelas e cães à rua
fazerem seus cachorrinhos.
Ao crepúsculo me visita
essa memória dourada,
mentira meio existida,
verdade meio inventada.
O sol da tarde finando-se,
ao cheiro de lenha queimada
todos se vão à fogueira
dançar em volta das chamas
para um deus ainda sem nome,
um medo lhes protegendo,
um ritmo lhes ordenando,
jarro, caneca, bacia,
cama, coberta, desejo
que amanhã seja outro dia,
igual a este dia, igual,
igual a este dia, igual.
para comprar as frutas
do caminhão de São Paulo.
Homens não pagam às mulheres.
Todas da vida, dão de comer e comem
coisas, de si, agradecidas.
Só morrem os muito velhinhos
que pedem pra descansar.
Pais e mães vão-se às camas
pra fazerem seus filhinhos,
cadelas e cães à rua
fazerem seus cachorrinhos.
Ao crepúsculo me visita
essa memória dourada,
mentira meio existida,
verdade meio inventada.
O sol da tarde finando-se,
ao cheiro de lenha queimada
todos se vão à fogueira
dançar em volta das chamas
para um deus ainda sem nome,
um medo lhes protegendo,
um ritmo lhes ordenando,
jarro, caneca, bacia,
cama, coberta, desejo
que amanhã seja outro dia,
igual a este dia, igual,
igual a este dia, igual.
1 193
Adélia Prado
Salve Rainha
A melancolia ameaça.
Queria ficar alegre
sem precisar escrever,
sem pensar
que labor de abelhas
e voo de borboletas
precisam desse registro.
Chorando seus casamentos
vejo mulheres que conheci na infância
como crianças felizes.
A vida é assim, Senhor?
Desabam mesmo
pele do rosto e sonhos?
Não é o que anuncio
— já vejo o fim destas linhas,
isto é um poema, tem ritmo,
obedece à ordem mais alta
e parece me ignorar.
Me acontecem maus sonhos:
a casa só tem uma porta,
casa-prisão,
paredes altas, cômodos estreitos.
Chamo pelo homem, ele já se foi,
quem se volta é um negro,
indiferente.
A criança que se perdera,
ou deixei perder-se de mim,
é um menino-lobo,
eu a encontro grunhindo,
com um casal velho de negros.
Por que os negros de novo?
Por que este sonho?
Gasto minhas horas em pedir socorro,
esgotando-me, monja extramuros,
em produzir espaços de silêncio
para encontrar Tua voz.
É medo meu apregoado amor,
uma fita gravada, meu contentamento.
O primeiro santo do Brasil
invocou para um pobre:
“Post-partum, Virgo Inviolata permansisti.
Dei Genitrix, intercede pro nobis.”
Ó Virgem,
volte à minha alma a alegria,
também eu
estendo a mão a esta esmola.
Queria ficar alegre
sem precisar escrever,
sem pensar
que labor de abelhas
e voo de borboletas
precisam desse registro.
Chorando seus casamentos
vejo mulheres que conheci na infância
como crianças felizes.
A vida é assim, Senhor?
Desabam mesmo
pele do rosto e sonhos?
Não é o que anuncio
— já vejo o fim destas linhas,
isto é um poema, tem ritmo,
obedece à ordem mais alta
e parece me ignorar.
Me acontecem maus sonhos:
a casa só tem uma porta,
casa-prisão,
paredes altas, cômodos estreitos.
Chamo pelo homem, ele já se foi,
quem se volta é um negro,
indiferente.
A criança que se perdera,
ou deixei perder-se de mim,
é um menino-lobo,
eu a encontro grunhindo,
com um casal velho de negros.
Por que os negros de novo?
Por que este sonho?
Gasto minhas horas em pedir socorro,
esgotando-me, monja extramuros,
em produzir espaços de silêncio
para encontrar Tua voz.
É medo meu apregoado amor,
uma fita gravada, meu contentamento.
O primeiro santo do Brasil
invocou para um pobre:
“Post-partum, Virgo Inviolata permansisti.
Dei Genitrix, intercede pro nobis.”
Ó Virgem,
volte à minha alma a alegria,
também eu
estendo a mão a esta esmola.
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