Outros
Sophia de Mello Breyner Andresen
V. Faz da Tua Vida Em Frente À Luz
Um lúcido terraço exacto e branco,
Docemente cortado
Pelo rio das noites.
Alheio o passo em tão perdida estrada
Vive, sem seres ele, o teu destino.
Inflexível assiste
À tua própria ausência.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Despedida
O rumor o vaivém as faces
Anónimas
Criam no interior do amor um outro cais
As lágrimas
O fogo da minha alma as queima antes que brotem
Sophia de Mello Breyner Andresen
Grécia 72
Afundados em distância confundidos com o vento
De novo o dia será liso sobre a orla do mar
Nada encobrirá a pura manhã da imanência
Sophia de Mello Breyner Andresen
Cidade
Nascem
Do exausto horizonte mortas luas
E estrangulada sou por grandes polvos
Na tristeza das ruas
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iii. (Antinoos)
Até à mais funda limpidez do instinto
Sob os teus cabelos em anel sombria vinha
Corpo terrestre e solene como o azul mais aceso da montanha
O quase imóvel fogo dos teus beiços
Pesa como o fruto pleno no rumor de brisa da árvore
Porta aberta para toda a natureza
É através de ti que os meus rios caminham como veias
Novilho de testa curta no secreto silêncio do bosque
Sobre os teus ombros poisa terrível o meio-dia
Do divino celebrado no terrestre
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iii. (Antinoos)
Até à mais funda limpidez do instinto
Sob os teus cabelos em anel sombria vinha
Corpo terrestre e solene como o azul mais aceso da montanha
O quase imóvel fogo dos teus beiços
Pesa como o fruto pleno no rumor de brisa da árvore
Porta aberta para toda a natureza
É através de ti que os meus rios caminham como veias
Novilho de testa curta no secreto silêncio do bosque
Sobre os teus ombros poisa terrível o meio-dia
Do divino celebrado no terrestre
Sophia de Mello Breyner Andresen
Eras Bela
Onde cada coisa mostra a nítida atenção
Do olhar soletrando a eternidade
Eras bela como a pintura de Mantegna
Decifrando a escrita da ressurreição
Sophia de Mello Breyner Andresen
Eras Bela
Onde cada coisa mostra a nítida atenção
Do olhar soletrando a eternidade
Eras bela como a pintura de Mantegna
Decifrando a escrita da ressurreição
Sophia de Mello Breyner Andresen
Xi. Final
Daquele escultor:
Nem pedra nem planta
Nem jardim nem flor
Foram seu modelo.
Sevilha/Lisboa, 1959
Sophia de Mello Breyner Andresen
Xi. Final
Daquele escultor:
Nem pedra nem planta
Nem jardim nem flor
Foram seu modelo.
Sevilha/Lisboa, 1959
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ii. Escuta, Lídia, Como Os Dias Correm
Fingidamente imóveis,
E à sombra de folhagens e palavras
Os deuses transparecem
Como para beber o sangue oculto
Que nos tornou atentos.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ii. Escuta, Lídia, Como Os Dias Correm
Fingidamente imóveis,
E à sombra de folhagens e palavras
Os deuses transparecem
Como para beber o sangue oculto
Que nos tornou atentos.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caxias 68
Muros e portões chave após chave
O meu amor por ti é fundo e grave
Confirmado nas grades deste dia
Fevereiro de 1968
Sophia de Mello Breyner Andresen
Um Pálido Inverno
Brancos de silêncio como a névoa
Um frio azul brilhava no vidro das janelas
As coisas povoavam os meus dias
Secretas graves nomeadas
Sophia de Mello Breyner Andresen
V. (O Auriga)
Mostra a pura nudez do teu estar na terra
A longa túnica em seu recto cair diz o austero
Aprumo de prumo da tua juventude
O pulso fino a concisa mão divina dizem
O pensamento rápido e subtil como Athena
E a vontade sensível e serena:
A ti mesmo te guias como a teus cavalos
Os beiços de seiva inchados como fruto
Dizem o teu amor da vida extasiado e grave
E sob as pestanas de bronze nos olhos de esmalte e de ónix
Fita-nos a tua paixão tranquila
O teu projecto
De em ti mesmo celebrares a ordem natural do divino
O número imanente
Sophia de Mello Breyner Andresen
V. (O Auriga)
Mostra a pura nudez do teu estar na terra
A longa túnica em seu recto cair diz o austero
Aprumo de prumo da tua juventude
O pulso fino a concisa mão divina dizem
O pensamento rápido e subtil como Athena
E a vontade sensível e serena:
A ti mesmo te guias como a teus cavalos
Os beiços de seiva inchados como fruto
Dizem o teu amor da vida extasiado e grave
E sob as pestanas de bronze nos olhos de esmalte e de ónix
Fita-nos a tua paixão tranquila
O teu projecto
De em ti mesmo celebrares a ordem natural do divino
O número imanente
Sophia de Mello Breyner Andresen
V. (O Auriga)
Mostra a pura nudez do teu estar na terra
A longa túnica em seu recto cair diz o austero
Aprumo de prumo da tua juventude
O pulso fino a concisa mão divina dizem
O pensamento rápido e subtil como Athena
E a vontade sensível e serena:
A ti mesmo te guias como a teus cavalos
Os beiços de seiva inchados como fruto
Dizem o teu amor da vida extasiado e grave
E sob as pestanas de bronze nos olhos de esmalte e de ónix
Fita-nos a tua paixão tranquila
O teu projecto
De em ti mesmo celebrares a ordem natural do divino
O número imanente
Sophia de Mello Breyner Andresen
Tempo
Tempo sem amor e sem demora
Que de mim me despe pelos caminhos fora
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Rapariga E a Praia
São cor de areia suas pernas finas
Seu íris é azul verde e cinzento
Uma rapariga vai como uma espiga
Carnal e cereal intacta cerrada
Mas nela enterra sua faca o vento
E tudo espalha com suas mãos o vento
Sophia de Mello Breyner Andresen
Labirinto
Aproximei meu rosto do silêncio e da treva
Para buscar a luz dum dia limpo
Sophia de Mello Breyner Andresen
Dual
Não me guiava a mim mas meus cavalos
E no país de espanto e de tumulto
Em mim se desuniu o que eu unia
Sophia de Mello Breyner Andresen
Primavera
E passa devagar memória antiga
Com brisa madressilva e Primavera
E o desejo da jovem noite nua
Música passando pelas veias
E a sombra das folhagens nas paredes
Descalço o passo sobre os musgos verdes
E a noite transparente e distraída
Com seu sabor de rosa densa e breve
Onde me lembro amor de ter morrido
— Sangue feroz do tempo possuído
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vila Adriana
Como aquela
Tarde de outono sob os pinheiros da Vila Adriana
Tempo da fina areia agudamente medido
Os séculos derrubaram estátuas e paredes
Eu destruída serei por breves anos
Mas de repente recupero a antiga
Divindade do ar entre as colunas
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vila Adriana
Como aquela
Tarde de outono sob os pinheiros da Vila Adriana
Tempo da fina areia agudamente medido
Os séculos derrubaram estátuas e paredes
Eu destruída serei por breves anos
Mas de repente recupero a antiga
Divindade do ar entre as colunas