Poemas neste tema
Outros
António Ramos Rosa
Pausas, Pausas Brancas
Pausas, pausas brancas
para que a cabeça
role por uma colina de mil esparsos perfumes.
para que a cabeça
role por uma colina de mil esparsos perfumes.
1 062
António Ramos Rosa
Pausas, Pausas Brancas
Pausas, pausas brancas
para que a cabeça
role por uma colina de mil esparsos perfumes.
para que a cabeça
role por uma colina de mil esparsos perfumes.
1 062
António Ramos Rosa
Enquanto Estamos Vivos
Enquanto estamos vivos
procuramos saber e, mais do que saber,
o sabor que dilata espesso e fúlgido
e que queima como uma axila ou como um púbis
e é nostalgia, paixão, ignorância,
vazio vibrante
e a delícia sem máscaras em que o ar resplandece.
procuramos saber e, mais do que saber,
o sabor que dilata espesso e fúlgido
e que queima como uma axila ou como um púbis
e é nostalgia, paixão, ignorância,
vazio vibrante
e a delícia sem máscaras em que o ar resplandece.
979
António Ramos Rosa
No Cimo
Abolido no cimo com o deus nulo do ar. A verdade apaga-se sem caminho, sem trama, sem as consoantes de pedra. Nudez com a terra e o sol no prisma flexível, no extremo círculo do silêncio. Veias abertas. Sulcos subtis. O corpo abriu-se inteiramente às brancas nascentes do vazio. Enraizado num lugar errante onde tudo respira, o deserto já não é o exílio, mas o astro único onde a sombra reverdece. Terra, ainda, dos ardentes cabelos, das primaveras vivas. O segredo indizível, maravilha discreta, ondula no ar como um aroma, como um murmúrio ou um nome leve que perpassa sem sentido, um sabor apenas, uma luz breve na morada móvel, uma trémula ilha transparente.
1 252
António Ramos Rosa
No Cimo
Abolido no cimo com o deus nulo do ar. A verdade apaga-se sem caminho, sem trama, sem as consoantes de pedra. Nudez com a terra e o sol no prisma flexível, no extremo círculo do silêncio. Veias abertas. Sulcos subtis. O corpo abriu-se inteiramente às brancas nascentes do vazio. Enraizado num lugar errante onde tudo respira, o deserto já não é o exílio, mas o astro único onde a sombra reverdece. Terra, ainda, dos ardentes cabelos, das primaveras vivas. O segredo indizível, maravilha discreta, ondula no ar como um aroma, como um murmúrio ou um nome leve que perpassa sem sentido, um sabor apenas, uma luz breve na morada móvel, uma trémula ilha transparente.
1 252
António Ramos Rosa
A Ausência
Entre a pedra e a seiva, entre a espessura e a clareira,
num sítio de delicadeza e de silêncio,
cintilando do fundo e num nimbo de brancura,
na atenção mais tranquila e vagarosa,
entreabre-se a figura da ausência através da neblina.
Na penumbra onde pousa brilha o inviolável.
Estremece silenciosa, é apenas uma mancha rutilante
que quase não deslumbra e quase acalma.
Ilumina e obscurece ao tremular o véu
que é ela própria em movimento largo
e nada mais que um véu de névoa branca
que não chega a ser corpo ou forma nítida.
Talvez seja de uma idade antiga ou sem idade
e na onda de dolência e nostalgia
nos leve ao fundo de quanto é abolido
e num relâmpago se abra o fundo imerso
em que a vida inteira vem acima num só gume
de insondável tristeza e de desejo. E tudo e nada
se consuma. O silêncio move
a mancha cintilante e escura
que se adensa ou esvai
até que o instante é já o ido
na solidão de ter perdido o inviolável.
num sítio de delicadeza e de silêncio,
cintilando do fundo e num nimbo de brancura,
na atenção mais tranquila e vagarosa,
entreabre-se a figura da ausência através da neblina.
Na penumbra onde pousa brilha o inviolável.
Estremece silenciosa, é apenas uma mancha rutilante
que quase não deslumbra e quase acalma.
Ilumina e obscurece ao tremular o véu
que é ela própria em movimento largo
e nada mais que um véu de névoa branca
que não chega a ser corpo ou forma nítida.
Talvez seja de uma idade antiga ou sem idade
e na onda de dolência e nostalgia
nos leve ao fundo de quanto é abolido
e num relâmpago se abra o fundo imerso
em que a vida inteira vem acima num só gume
de insondável tristeza e de desejo. E tudo e nada
se consuma. O silêncio move
a mancha cintilante e escura
que se adensa ou esvai
até que o instante é já o ido
na solidão de ter perdido o inviolável.
1 182
António Ramos Rosa
A Ausência
Entre a pedra e a seiva, entre a espessura e a clareira,
num sítio de delicadeza e de silêncio,
cintilando do fundo e num nimbo de brancura,
na atenção mais tranquila e vagarosa,
entreabre-se a figura da ausência através da neblina.
Na penumbra onde pousa brilha o inviolável.
Estremece silenciosa, é apenas uma mancha rutilante
que quase não deslumbra e quase acalma.
Ilumina e obscurece ao tremular o véu
que é ela própria em movimento largo
e nada mais que um véu de névoa branca
que não chega a ser corpo ou forma nítida.
Talvez seja de uma idade antiga ou sem idade
e na onda de dolência e nostalgia
nos leve ao fundo de quanto é abolido
e num relâmpago se abra o fundo imerso
em que a vida inteira vem acima num só gume
de insondável tristeza e de desejo. E tudo e nada
se consuma. O silêncio move
a mancha cintilante e escura
que se adensa ou esvai
até que o instante é já o ido
na solidão de ter perdido o inviolável.
num sítio de delicadeza e de silêncio,
cintilando do fundo e num nimbo de brancura,
na atenção mais tranquila e vagarosa,
entreabre-se a figura da ausência através da neblina.
Na penumbra onde pousa brilha o inviolável.
Estremece silenciosa, é apenas uma mancha rutilante
que quase não deslumbra e quase acalma.
Ilumina e obscurece ao tremular o véu
que é ela própria em movimento largo
e nada mais que um véu de névoa branca
que não chega a ser corpo ou forma nítida.
Talvez seja de uma idade antiga ou sem idade
e na onda de dolência e nostalgia
nos leve ao fundo de quanto é abolido
e num relâmpago se abra o fundo imerso
em que a vida inteira vem acima num só gume
de insondável tristeza e de desejo. E tudo e nada
se consuma. O silêncio move
a mancha cintilante e escura
que se adensa ou esvai
até que o instante é já o ido
na solidão de ter perdido o inviolável.
1 182
António Ramos Rosa
Os Reflexos do Corpo
Entre o sono e o sílex, sob a furtiva abóbada,
vou reunindo os reflexos do teu corpo de água.
Quase adormecido o vento, quase suspensa a torrente.
Como dizer o nome da tua boca, o signo do teu sexo?
Não falas como uma fonte, não te abres como uma ferida.
E no entanto despertas-me com a linguagem da espuma.
Deslumbras-me, dilaceras-me nas árvores do teu peito.
Os teus ombros rápidos e negros impedem-me de celebrar-te.
Que sou eu mais do que um jogo de sombras sobre o teu corpo?
Densa como uma pedra não revelada ou uma nuvem vermelha
e contudo oferecida como uma amêndoa ardente
ou um barco de frutos. Quase te sinto a mão
que desata a misteriosa beleza de um desejo.
Apreendo-te quase, mas dispersa entre os meus dedos
como a água. De súbito, já sem violência,
na cega suavidade,
o rosto apazigua-se entre palavras simples.
vou reunindo os reflexos do teu corpo de água.
Quase adormecido o vento, quase suspensa a torrente.
Como dizer o nome da tua boca, o signo do teu sexo?
Não falas como uma fonte, não te abres como uma ferida.
E no entanto despertas-me com a linguagem da espuma.
Deslumbras-me, dilaceras-me nas árvores do teu peito.
Os teus ombros rápidos e negros impedem-me de celebrar-te.
Que sou eu mais do que um jogo de sombras sobre o teu corpo?
Densa como uma pedra não revelada ou uma nuvem vermelha
e contudo oferecida como uma amêndoa ardente
ou um barco de frutos. Quase te sinto a mão
que desata a misteriosa beleza de um desejo.
Apreendo-te quase, mas dispersa entre os meus dedos
como a água. De súbito, já sem violência,
na cega suavidade,
o rosto apazigua-se entre palavras simples.
1 064
António Ramos Rosa
Os Reflexos do Corpo
Entre o sono e o sílex, sob a furtiva abóbada,
vou reunindo os reflexos do teu corpo de água.
Quase adormecido o vento, quase suspensa a torrente.
Como dizer o nome da tua boca, o signo do teu sexo?
Não falas como uma fonte, não te abres como uma ferida.
E no entanto despertas-me com a linguagem da espuma.
Deslumbras-me, dilaceras-me nas árvores do teu peito.
Os teus ombros rápidos e negros impedem-me de celebrar-te.
Que sou eu mais do que um jogo de sombras sobre o teu corpo?
Densa como uma pedra não revelada ou uma nuvem vermelha
e contudo oferecida como uma amêndoa ardente
ou um barco de frutos. Quase te sinto a mão
que desata a misteriosa beleza de um desejo.
Apreendo-te quase, mas dispersa entre os meus dedos
como a água. De súbito, já sem violência,
na cega suavidade,
o rosto apazigua-se entre palavras simples.
vou reunindo os reflexos do teu corpo de água.
Quase adormecido o vento, quase suspensa a torrente.
Como dizer o nome da tua boca, o signo do teu sexo?
Não falas como uma fonte, não te abres como uma ferida.
E no entanto despertas-me com a linguagem da espuma.
Deslumbras-me, dilaceras-me nas árvores do teu peito.
Os teus ombros rápidos e negros impedem-me de celebrar-te.
Que sou eu mais do que um jogo de sombras sobre o teu corpo?
Densa como uma pedra não revelada ou uma nuvem vermelha
e contudo oferecida como uma amêndoa ardente
ou um barco de frutos. Quase te sinto a mão
que desata a misteriosa beleza de um desejo.
Apreendo-te quase, mas dispersa entre os meus dedos
como a água. De súbito, já sem violência,
na cega suavidade,
o rosto apazigua-se entre palavras simples.
1 064
António Ramos Rosa
A Volubilidade do Ser
Um sopro sobre as nuvens, sobre as ondas e as árvores
e a terra iluminou-se como uma fulva corola.
Estamos perto de estar na lucidez aérea.
E todo o ser desperta e longamente esquiva-se.
Que sinuosas cortesias nas evidências que se acendem!
O que não pode ser dito, o que não pode ser amado
fulgura no silêncio numa brancura imóvel.
Que nudez de amantes sem fantasmas, que alegria no vento,
que ouro tão leve, tão dócil, tão alegre!
No ar desenham-se mil caprichos, mil delícias,
mil carícias e é o ócio que vence na harmonia.
Nada interrompe ou obscurece os volúveis enlaces
que se consumam na claridade. O pensamento move-se
na evidência de ser o próprio ritmo do ar.
e a terra iluminou-se como uma fulva corola.
Estamos perto de estar na lucidez aérea.
E todo o ser desperta e longamente esquiva-se.
Que sinuosas cortesias nas evidências que se acendem!
O que não pode ser dito, o que não pode ser amado
fulgura no silêncio numa brancura imóvel.
Que nudez de amantes sem fantasmas, que alegria no vento,
que ouro tão leve, tão dócil, tão alegre!
No ar desenham-se mil caprichos, mil delícias,
mil carícias e é o ócio que vence na harmonia.
Nada interrompe ou obscurece os volúveis enlaces
que se consumam na claridade. O pensamento move-se
na evidência de ser o próprio ritmo do ar.
1 139
António Ramos Rosa
A Volubilidade do Ser
Um sopro sobre as nuvens, sobre as ondas e as árvores
e a terra iluminou-se como uma fulva corola.
Estamos perto de estar na lucidez aérea.
E todo o ser desperta e longamente esquiva-se.
Que sinuosas cortesias nas evidências que se acendem!
O que não pode ser dito, o que não pode ser amado
fulgura no silêncio numa brancura imóvel.
Que nudez de amantes sem fantasmas, que alegria no vento,
que ouro tão leve, tão dócil, tão alegre!
No ar desenham-se mil caprichos, mil delícias,
mil carícias e é o ócio que vence na harmonia.
Nada interrompe ou obscurece os volúveis enlaces
que se consumam na claridade. O pensamento move-se
na evidência de ser o próprio ritmo do ar.
e a terra iluminou-se como uma fulva corola.
Estamos perto de estar na lucidez aérea.
E todo o ser desperta e longamente esquiva-se.
Que sinuosas cortesias nas evidências que se acendem!
O que não pode ser dito, o que não pode ser amado
fulgura no silêncio numa brancura imóvel.
Que nudez de amantes sem fantasmas, que alegria no vento,
que ouro tão leve, tão dócil, tão alegre!
No ar desenham-se mil caprichos, mil delícias,
mil carícias e é o ócio que vence na harmonia.
Nada interrompe ou obscurece os volúveis enlaces
que se consumam na claridade. O pensamento move-se
na evidência de ser o próprio ritmo do ar.
1 139
António Ramos Rosa
Na Perda Sem Perda
Donde parto — acaso partirei? Porque não me poderei manter na expectativa da não-espera, aberto e nulo, ao nível exacto da sombra, apagado e porventura vivo ainda, sobre uma folha, como um insecto, dormindo sem avidez, envolvido por fugidias sombras, igualado ao silêncio de mil rumores vegetais? Porque me abri eu, porque parti? Posso acaso regressar ao primeiro embalo do ar, que não era quimera nem visão, que não era nada ou era a simplicidade aérea, a completa entrega de um corpo verde que se prolongava pelo espaço, que era espaço e se demorava na imobilidade como num sonho? Que volúpia, que nostalgia! Quando fui assim? Quando serei assim? Será que, escrevendo, me aproximo desse letargo ardente, será que, na sombra do que escrevo, no vazio que abro, abrigo a criança feliz que nunca se perdeu e que na perda não permite a perda? Sei agora talvez o sabor de outra ignorância. Dir-se-ia que o impossível desejo se volveu na respiração da página e na abertura do corpo. Nada começou, tudo terá já começado, mas é agora que as palavras se apagam nas veias suaves do ar, é agora que, nas altas ervas do espaço, um corpo se entrega e se consuma unido à boca do silêncio…
1 117
António Ramos Rosa
Na Perda Sem Perda
Donde parto — acaso partirei? Porque não me poderei manter na expectativa da não-espera, aberto e nulo, ao nível exacto da sombra, apagado e porventura vivo ainda, sobre uma folha, como um insecto, dormindo sem avidez, envolvido por fugidias sombras, igualado ao silêncio de mil rumores vegetais? Porque me abri eu, porque parti? Posso acaso regressar ao primeiro embalo do ar, que não era quimera nem visão, que não era nada ou era a simplicidade aérea, a completa entrega de um corpo verde que se prolongava pelo espaço, que era espaço e se demorava na imobilidade como num sonho? Que volúpia, que nostalgia! Quando fui assim? Quando serei assim? Será que, escrevendo, me aproximo desse letargo ardente, será que, na sombra do que escrevo, no vazio que abro, abrigo a criança feliz que nunca se perdeu e que na perda não permite a perda? Sei agora talvez o sabor de outra ignorância. Dir-se-ia que o impossível desejo se volveu na respiração da página e na abertura do corpo. Nada começou, tudo terá já começado, mas é agora que as palavras se apagam nas veias suaves do ar, é agora que, nas altas ervas do espaço, um corpo se entrega e se consuma unido à boca do silêncio…
1 117
António Ramos Rosa
Na Perda Sem Perda
Donde parto — acaso partirei? Porque não me poderei manter na expectativa da não-espera, aberto e nulo, ao nível exacto da sombra, apagado e porventura vivo ainda, sobre uma folha, como um insecto, dormindo sem avidez, envolvido por fugidias sombras, igualado ao silêncio de mil rumores vegetais? Porque me abri eu, porque parti? Posso acaso regressar ao primeiro embalo do ar, que não era quimera nem visão, que não era nada ou era a simplicidade aérea, a completa entrega de um corpo verde que se prolongava pelo espaço, que era espaço e se demorava na imobilidade como num sonho? Que volúpia, que nostalgia! Quando fui assim? Quando serei assim? Será que, escrevendo, me aproximo desse letargo ardente, será que, na sombra do que escrevo, no vazio que abro, abrigo a criança feliz que nunca se perdeu e que na perda não permite a perda? Sei agora talvez o sabor de outra ignorância. Dir-se-ia que o impossível desejo se volveu na respiração da página e na abertura do corpo. Nada começou, tudo terá já começado, mas é agora que as palavras se apagam nas veias suaves do ar, é agora que, nas altas ervas do espaço, um corpo se entrega e se consuma unido à boca do silêncio…
1 117
António Ramos Rosa
O Silêncio No Corpo
Procuro o espaço, procuro o corpo. Escrevo, não para confirmar, mas para descobrir, para iniciar. Como que procuro o gesto que seja o gesto do ar, que inaugure um lugar aberto e transparente. A substância é imponderável, nada prescreve a ordem libertadora, não a conheço, não a pressinto no silêncio e na ausência. Continuo todavia à superfície e é aí, entre a folhagem das letras, que a palavra pode consumar-se e abrir o espaço inteiro. O silêncio que escuto é o silêncio dela e pela sua própria ausência ela me é de algum modo sempre presente. Não posso ouvi-la, mas sem palavras ou mesmo através delas, bebo inteiramente o seu silêncio. Dentro do corpo, o sono, o sangue, a sombra da palavra. A plenitude de uma nascente serena. Não será já preciso dizer a frase que abriria o espaço e inauguraria o lugar aberto e transparente?
1 202
António Ramos Rosa
O Silêncio No Corpo
Procuro o espaço, procuro o corpo. Escrevo, não para confirmar, mas para descobrir, para iniciar. Como que procuro o gesto que seja o gesto do ar, que inaugure um lugar aberto e transparente. A substância é imponderável, nada prescreve a ordem libertadora, não a conheço, não a pressinto no silêncio e na ausência. Continuo todavia à superfície e é aí, entre a folhagem das letras, que a palavra pode consumar-se e abrir o espaço inteiro. O silêncio que escuto é o silêncio dela e pela sua própria ausência ela me é de algum modo sempre presente. Não posso ouvi-la, mas sem palavras ou mesmo através delas, bebo inteiramente o seu silêncio. Dentro do corpo, o sono, o sangue, a sombra da palavra. A plenitude de uma nascente serena. Não será já preciso dizer a frase que abriria o espaço e inauguraria o lugar aberto e transparente?
1 202
António Ramos Rosa
O Silêncio No Corpo
Procuro o espaço, procuro o corpo. Escrevo, não para confirmar, mas para descobrir, para iniciar. Como que procuro o gesto que seja o gesto do ar, que inaugure um lugar aberto e transparente. A substância é imponderável, nada prescreve a ordem libertadora, não a conheço, não a pressinto no silêncio e na ausência. Continuo todavia à superfície e é aí, entre a folhagem das letras, que a palavra pode consumar-se e abrir o espaço inteiro. O silêncio que escuto é o silêncio dela e pela sua própria ausência ela me é de algum modo sempre presente. Não posso ouvi-la, mas sem palavras ou mesmo através delas, bebo inteiramente o seu silêncio. Dentro do corpo, o sono, o sangue, a sombra da palavra. A plenitude de uma nascente serena. Não será já preciso dizer a frase que abriria o espaço e inauguraria o lugar aberto e transparente?
1 202
António Ramos Rosa
Livre E Perdido
Sei a fundura do não-saber: embriaguez perfeita. Como uma folha ou uma pedra ou uma sombra, eis que respiro sem uma ideia, sem uma forma, sem um começo. Não sou mais do que esta prolongada pausa evanescente, mas que se dilata e em si mesma se esconde como uma pedra. Nada tenho a dizer: sou um sopro, um esquecimento que estremece, uma sensação apenas, aérea, desprendida, total. Não fui nem serei, sou simplesmente um âmbito em que a fragilidade não é a fragilidade, e a leveza é a exacta leveza do desconhecido que respira através de mim, comigo. Estou claramente no abandono do obscuro, vivo no espaço, na liberdade simples do ar, ao nível do mínimo e do amplo, sem medidas seguras nem padrões conhecidos. Sou um astro apagado, liberto do seu fulgor, sem destino, sem órbita, mas verticalmente azul, entregue à ondulação de um absoluto que corre no sangue e à superfície da pele. Que embriagada é a fragilidade de estar vivo assim! Que deliciosamente inventada, que verdadeira é esta fuga no espaço, sereno e ébrio com o ar! Sem ilusões na ilusão mais completa, na mais viva, na mais aérea e elementar, sem palavras e com todas as palavras, sombras, pedras, folhas, estrelas, autos, animais, tudo aceso no apagamento interior onde tudo ressoa como liberdade interna, um voo frágil, incerto, vazio, mas viva e central plenitude prolongando-se, dissipando-se, repousando. Como se estivera na água e cego, vejo maravilhosamente as intensidades, as formas, os fluxos, os rios de sombra e luz, os caminhos flutuantes, a sombria folhagem que se dissipa, que renasce… Só, sem estar só, sou o âmbito natural, a inteligência vaga, ligeira, cúmplice do espaço. Ninguém me encontrará. Já não sou: sou o perdido no ar, no vazio: estou embriagado de ser.
1 239
António Ramos Rosa
Osmose
A pausa concêntrica dilata-se ao céu vazio e ao círculo branco do horizonte. Na árvore, o ouvido ouve o rumor distante de uma memória que acaba de nascer da sóbria luz que se levanta. Tudo o que aparece no ar novo e fresco abre-se no oval de uma presença que se faz vagarosa aceitação e serena certeza. De toda a parte aflui uma brisa voluptuosamente suave. A osmose é incessante. O enigma apresenta-se luminoso como uma morada marinha. Todos os meandros circulam perante o olhar intacto e todas as energias redondas vibram nos seus volumes sólidos, completos.
1 091
António Ramos Rosa
Osmose
A pausa concêntrica dilata-se ao céu vazio e ao círculo branco do horizonte. Na árvore, o ouvido ouve o rumor distante de uma memória que acaba de nascer da sóbria luz que se levanta. Tudo o que aparece no ar novo e fresco abre-se no oval de uma presença que se faz vagarosa aceitação e serena certeza. De toda a parte aflui uma brisa voluptuosamente suave. A osmose é incessante. O enigma apresenta-se luminoso como uma morada marinha. Todos os meandros circulam perante o olhar intacto e todas as energias redondas vibram nos seus volumes sólidos, completos.
1 091
António Ramos Rosa
O Que Separa E o Que Une
O que separa prevalece em suas lâmpadas opacas.
A atenção não se comove. Conhecer
não é libertar o mundo.
Não espero na claridade mais do que a monotonia
pungente e corrosiva.
A móvel sombra que diviso não é mais do que uma sombra.
Tudo o que me rodeia não é glória discreta.
É aqui o sítio sem sabor, a superfície
em que a forma não sobe ao poder mais intenso,
aqui não há o ritmo do aberto,
aqui nada está imerso no azul do ser,
aqui não há brisas que transfigurem o quotidiano.
Que vigília de árvores poderá abrir a imóvel passagem
que é uma planura do pensamento e um profundo espaço?
Haverá um rio que passe através de tudo e que tudo limpe
como se fosse uma inteligência em movimento que estremece e abre?
Sinto que singro e que celebro e me desprendo
num retorno a um presente em que confio.
Talvez o anel prenda ainda a substância
que quer a liberdade, a argila ardente
e aérea,
talvez o círculo se cerre ainda sobre o corpo.
Mas uma brisa de sombra imediata
traz a leveza funda que inebria e liberta
e um acorde branco de intemporal frescura.
Tudo agora se diz com a língua do silêncio.
Junto do mais fresco impulso do desejo
participo de uma absoluta harmonia, de uma glória simples.
Nada é secreto ou tudo é secreto e evidente.
Tudo é tão central e tão fluente que dir-se-ia um rio.
Palavras e coisas alcançaram o mais claro apogeu.
Um luminoso rosto nasceu da respiração da água.
A atenção não se comove. Conhecer
não é libertar o mundo.
Não espero na claridade mais do que a monotonia
pungente e corrosiva.
A móvel sombra que diviso não é mais do que uma sombra.
Tudo o que me rodeia não é glória discreta.
É aqui o sítio sem sabor, a superfície
em que a forma não sobe ao poder mais intenso,
aqui não há o ritmo do aberto,
aqui nada está imerso no azul do ser,
aqui não há brisas que transfigurem o quotidiano.
Que vigília de árvores poderá abrir a imóvel passagem
que é uma planura do pensamento e um profundo espaço?
Haverá um rio que passe através de tudo e que tudo limpe
como se fosse uma inteligência em movimento que estremece e abre?
Sinto que singro e que celebro e me desprendo
num retorno a um presente em que confio.
Talvez o anel prenda ainda a substância
que quer a liberdade, a argila ardente
e aérea,
talvez o círculo se cerre ainda sobre o corpo.
Mas uma brisa de sombra imediata
traz a leveza funda que inebria e liberta
e um acorde branco de intemporal frescura.
Tudo agora se diz com a língua do silêncio.
Junto do mais fresco impulso do desejo
participo de uma absoluta harmonia, de uma glória simples.
Nada é secreto ou tudo é secreto e evidente.
Tudo é tão central e tão fluente que dir-se-ia um rio.
Palavras e coisas alcançaram o mais claro apogeu.
Um luminoso rosto nasceu da respiração da água.
579
António Ramos Rosa
O Que Separa E o Que Une
O que separa prevalece em suas lâmpadas opacas.
A atenção não se comove. Conhecer
não é libertar o mundo.
Não espero na claridade mais do que a monotonia
pungente e corrosiva.
A móvel sombra que diviso não é mais do que uma sombra.
Tudo o que me rodeia não é glória discreta.
É aqui o sítio sem sabor, a superfície
em que a forma não sobe ao poder mais intenso,
aqui não há o ritmo do aberto,
aqui nada está imerso no azul do ser,
aqui não há brisas que transfigurem o quotidiano.
Que vigília de árvores poderá abrir a imóvel passagem
que é uma planura do pensamento e um profundo espaço?
Haverá um rio que passe através de tudo e que tudo limpe
como se fosse uma inteligência em movimento que estremece e abre?
Sinto que singro e que celebro e me desprendo
num retorno a um presente em que confio.
Talvez o anel prenda ainda a substância
que quer a liberdade, a argila ardente
e aérea,
talvez o círculo se cerre ainda sobre o corpo.
Mas uma brisa de sombra imediata
traz a leveza funda que inebria e liberta
e um acorde branco de intemporal frescura.
Tudo agora se diz com a língua do silêncio.
Junto do mais fresco impulso do desejo
participo de uma absoluta harmonia, de uma glória simples.
Nada é secreto ou tudo é secreto e evidente.
Tudo é tão central e tão fluente que dir-se-ia um rio.
Palavras e coisas alcançaram o mais claro apogeu.
Um luminoso rosto nasceu da respiração da água.
A atenção não se comove. Conhecer
não é libertar o mundo.
Não espero na claridade mais do que a monotonia
pungente e corrosiva.
A móvel sombra que diviso não é mais do que uma sombra.
Tudo o que me rodeia não é glória discreta.
É aqui o sítio sem sabor, a superfície
em que a forma não sobe ao poder mais intenso,
aqui não há o ritmo do aberto,
aqui nada está imerso no azul do ser,
aqui não há brisas que transfigurem o quotidiano.
Que vigília de árvores poderá abrir a imóvel passagem
que é uma planura do pensamento e um profundo espaço?
Haverá um rio que passe através de tudo e que tudo limpe
como se fosse uma inteligência em movimento que estremece e abre?
Sinto que singro e que celebro e me desprendo
num retorno a um presente em que confio.
Talvez o anel prenda ainda a substância
que quer a liberdade, a argila ardente
e aérea,
talvez o círculo se cerre ainda sobre o corpo.
Mas uma brisa de sombra imediata
traz a leveza funda que inebria e liberta
e um acorde branco de intemporal frescura.
Tudo agora se diz com a língua do silêncio.
Junto do mais fresco impulso do desejo
participo de uma absoluta harmonia, de uma glória simples.
Nada é secreto ou tudo é secreto e evidente.
Tudo é tão central e tão fluente que dir-se-ia um rio.
Palavras e coisas alcançaram o mais claro apogeu.
Um luminoso rosto nasceu da respiração da água.
579
António Ramos Rosa
Matéria do Tempo
O tempo amadureceu as mãos e as lâmpadas.
A noite chegou com os seus prestígios, os seus meandros,
os seus astros. O espírito simplificou-se na folhagem.
E a terra acolhe a palavra inacabada.
A cinza dispersou-se e um vento forte sopra
sobre os flancos desertos. É a verdade do vento
que liberta o sentido e limpa a ferida.
O eclipse é o círculo em que o gérmen se ilumina.
A pedra aberta é a morada delapidada, intacta.
Esta ausência que é um rosto, esta matéria de vento
talvez reconcilie na serena imobilidade
a pobreza que ilumina com a noite invulnerável.
A noite chegou com os seus prestígios, os seus meandros,
os seus astros. O espírito simplificou-se na folhagem.
E a terra acolhe a palavra inacabada.
A cinza dispersou-se e um vento forte sopra
sobre os flancos desertos. É a verdade do vento
que liberta o sentido e limpa a ferida.
O eclipse é o círculo em que o gérmen se ilumina.
A pedra aberta é a morada delapidada, intacta.
Esta ausência que é um rosto, esta matéria de vento
talvez reconcilie na serena imobilidade
a pobreza que ilumina com a noite invulnerável.
1 150
António Ramos Rosa
Matéria do Tempo
O tempo amadureceu as mãos e as lâmpadas.
A noite chegou com os seus prestígios, os seus meandros,
os seus astros. O espírito simplificou-se na folhagem.
E a terra acolhe a palavra inacabada.
A cinza dispersou-se e um vento forte sopra
sobre os flancos desertos. É a verdade do vento
que liberta o sentido e limpa a ferida.
O eclipse é o círculo em que o gérmen se ilumina.
A pedra aberta é a morada delapidada, intacta.
Esta ausência que é um rosto, esta matéria de vento
talvez reconcilie na serena imobilidade
a pobreza que ilumina com a noite invulnerável.
A noite chegou com os seus prestígios, os seus meandros,
os seus astros. O espírito simplificou-se na folhagem.
E a terra acolhe a palavra inacabada.
A cinza dispersou-se e um vento forte sopra
sobre os flancos desertos. É a verdade do vento
que liberta o sentido e limpa a ferida.
O eclipse é o círculo em que o gérmen se ilumina.
A pedra aberta é a morada delapidada, intacta.
Esta ausência que é um rosto, esta matéria de vento
talvez reconcilie na serena imobilidade
a pobreza que ilumina com a noite invulnerável.
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