Poemas neste tema
Outros
António Ramos Rosa
Oscilação No Branco
A oscilação quase, quase pressentida, de um vocábulo ou de uma lâmpada branca. Mas o que oscila, invisível (quase?) não é palavra nem objecto. Poderá ser para um efeito poético uma nuvem ou uma sombra. Não é nada. Nem sequer oscila. Quem escreve sente a matéria gráfica e o branco da superfície da página. O que se passa? Alguém expira. O silêncio é feito da sufocação de uma impossível agonia. Ao sol. Na plenitude do sol. Na plenitude do branco. O que, talvez, oscile será o sentido absoluto de que livro, de que estranha estranheza e ilegível livro? Nenhuma frase pode corresponder à agonia dos que já não podem morrer e sucumbem infindavelmente na sua impossível morte. Nenhuma frase, nenhuma palavra… mas a brancura do sentido que a um tempo corrói e exalta os vocábulos, não é para a definitiva nudez que aponta sem que no entanto a possa alguma vez dizer?
1 129
António Ramos Rosa
Não Dissemos As Palavras Mais Simples
Não dissemos as palavras mais simples
a caligrafia das águas sobre a pedra uma pedra vacila verde
as árvores despertam dormem apertadas na concavidade do rumor
não dissemos ainda as pálpebras longínquas do horizonte
o trémulo deslumbramento da água jorrando lisa da terra
não dissemos a progressão das formigas em torno da árvore
de claras malhas como um leopardo
não dissemos as vagas sombras imóveis as folhas verdes
as altas e negras flores nas varandas suspensas
não dissemos sequer o nascimento da terra e do cavalo
as manhãs a meia-noite o turbilhão
do ventre o arranque para a primeira explosão no mar e o muro
onde o tempo se condensa como um navio suspenso sobre o mar vertical
a caligrafia das águas sobre a pedra uma pedra vacila verde
as árvores despertam dormem apertadas na concavidade do rumor
não dissemos ainda as pálpebras longínquas do horizonte
o trémulo deslumbramento da água jorrando lisa da terra
não dissemos a progressão das formigas em torno da árvore
de claras malhas como um leopardo
não dissemos as vagas sombras imóveis as folhas verdes
as altas e negras flores nas varandas suspensas
não dissemos sequer o nascimento da terra e do cavalo
as manhãs a meia-noite o turbilhão
do ventre o arranque para a primeira explosão no mar e o muro
onde o tempo se condensa como um navio suspenso sobre o mar vertical
1 167
António Ramos Rosa
Matéria Incerta
Em contacto com Matéria ardente
sem visíveis margens Nenhum lugar
ou objecto Cegueira
quase
*
No papel a opacidade é branca
*
Respiro esta matéria
agora fria agora mais ardente
*
Mas o lugar é impensável
nada que possa suscitar uma perspectiva
nem um plano imediatamente presente
*
Mas há o odor do mar Um cheiro a força
e a mão como se estende dilata-se no papel
*
Intensidades breves sem um arco
Vida sem visão autónoma Vazio sem teia
*
É um trabalho incerto reunir estes sinais
*
Estas palavras serão talvez o indício ou o início
das figuras mais frescas da manhã
sem visíveis margens Nenhum lugar
ou objecto Cegueira
quase
*
No papel a opacidade é branca
*
Respiro esta matéria
agora fria agora mais ardente
*
Mas o lugar é impensável
nada que possa suscitar uma perspectiva
nem um plano imediatamente presente
*
Mas há o odor do mar Um cheiro a força
e a mão como se estende dilata-se no papel
*
Intensidades breves sem um arco
Vida sem visão autónoma Vazio sem teia
*
É um trabalho incerto reunir estes sinais
*
Estas palavras serão talvez o indício ou o início
das figuras mais frescas da manhã
1 116
António Ramos Rosa
Matéria Incerta
Em contacto com Matéria ardente
sem visíveis margens Nenhum lugar
ou objecto Cegueira
quase
*
No papel a opacidade é branca
*
Respiro esta matéria
agora fria agora mais ardente
*
Mas o lugar é impensável
nada que possa suscitar uma perspectiva
nem um plano imediatamente presente
*
Mas há o odor do mar Um cheiro a força
e a mão como se estende dilata-se no papel
*
Intensidades breves sem um arco
Vida sem visão autónoma Vazio sem teia
*
É um trabalho incerto reunir estes sinais
*
Estas palavras serão talvez o indício ou o início
das figuras mais frescas da manhã
sem visíveis margens Nenhum lugar
ou objecto Cegueira
quase
*
No papel a opacidade é branca
*
Respiro esta matéria
agora fria agora mais ardente
*
Mas o lugar é impensável
nada que possa suscitar uma perspectiva
nem um plano imediatamente presente
*
Mas há o odor do mar Um cheiro a força
e a mão como se estende dilata-se no papel
*
Intensidades breves sem um arco
Vida sem visão autónoma Vazio sem teia
*
É um trabalho incerto reunir estes sinais
*
Estas palavras serão talvez o indício ou o início
das figuras mais frescas da manhã
1 116
António Ramos Rosa
Matéria Incerta
Em contacto com Matéria ardente
sem visíveis margens Nenhum lugar
ou objecto Cegueira
quase
*
No papel a opacidade é branca
*
Respiro esta matéria
agora fria agora mais ardente
*
Mas o lugar é impensável
nada que possa suscitar uma perspectiva
nem um plano imediatamente presente
*
Mas há o odor do mar Um cheiro a força
e a mão como se estende dilata-se no papel
*
Intensidades breves sem um arco
Vida sem visão autónoma Vazio sem teia
*
É um trabalho incerto reunir estes sinais
*
Estas palavras serão talvez o indício ou o início
das figuras mais frescas da manhã
sem visíveis margens Nenhum lugar
ou objecto Cegueira
quase
*
No papel a opacidade é branca
*
Respiro esta matéria
agora fria agora mais ardente
*
Mas o lugar é impensável
nada que possa suscitar uma perspectiva
nem um plano imediatamente presente
*
Mas há o odor do mar Um cheiro a força
e a mão como se estende dilata-se no papel
*
Intensidades breves sem um arco
Vida sem visão autónoma Vazio sem teia
*
É um trabalho incerto reunir estes sinais
*
Estas palavras serão talvez o indício ou o início
das figuras mais frescas da manhã
1 116
António Ramos Rosa
Na Extrema Claridade
Leve prodígio vegetações
dispersas
de qualidade incerta
mas feliz
*
Ela aparece quando aparece
ela flui desliza eleva-se
e o tremor é exacto no seu ápice
Uma asa dispersa os nomes
a área simplifica-se até ao branco
O seu desaparecimento é vertical
*
Uma vibração suave (talvez ela)
da luz na exactidão completa
Quem a conhece
conhece a simplicidade extrema
a nudez da primeira claridade
*
Estremece estremece quando
a vibração do mundo
se reflecte noutra luz incerta
que a reclama no seu corpo incerto
*
Se é aqui o corpo a exaltação da terra
a cintilação de um corpo submerso
aceitação da água
na transparência tranquila
de outras palavras aqui que se inclinam
*
O temor dos seus olhos o tremor
do seu corpo as linhas
paralelas sombrias
onde se oculta o seio e a água viva
*
Reparte-se divide-se mas inteira
estende-se entre as colunas
prossegue uma viagem imóvel numa nuvem
*
Se a figura atravessa os declives
desce os degraus até à luz mais rasa
se ler agora é o vestido e a sombra
a transparência do animal na sombra
*
Ela é pedra em cada palavra e o fulgor
silencioso
de um torso que avança em transparência aérea
dispersas
de qualidade incerta
mas feliz
*
Ela aparece quando aparece
ela flui desliza eleva-se
e o tremor é exacto no seu ápice
Uma asa dispersa os nomes
a área simplifica-se até ao branco
O seu desaparecimento é vertical
*
Uma vibração suave (talvez ela)
da luz na exactidão completa
Quem a conhece
conhece a simplicidade extrema
a nudez da primeira claridade
*
Estremece estremece quando
a vibração do mundo
se reflecte noutra luz incerta
que a reclama no seu corpo incerto
*
Se é aqui o corpo a exaltação da terra
a cintilação de um corpo submerso
aceitação da água
na transparência tranquila
de outras palavras aqui que se inclinam
*
O temor dos seus olhos o tremor
do seu corpo as linhas
paralelas sombrias
onde se oculta o seio e a água viva
*
Reparte-se divide-se mas inteira
estende-se entre as colunas
prossegue uma viagem imóvel numa nuvem
*
Se a figura atravessa os declives
desce os degraus até à luz mais rasa
se ler agora é o vestido e a sombra
a transparência do animal na sombra
*
Ela é pedra em cada palavra e o fulgor
silencioso
de um torso que avança em transparência aérea
1 152
António Ramos Rosa
Na Extrema Claridade
Leve prodígio vegetações
dispersas
de qualidade incerta
mas feliz
*
Ela aparece quando aparece
ela flui desliza eleva-se
e o tremor é exacto no seu ápice
Uma asa dispersa os nomes
a área simplifica-se até ao branco
O seu desaparecimento é vertical
*
Uma vibração suave (talvez ela)
da luz na exactidão completa
Quem a conhece
conhece a simplicidade extrema
a nudez da primeira claridade
*
Estremece estremece quando
a vibração do mundo
se reflecte noutra luz incerta
que a reclama no seu corpo incerto
*
Se é aqui o corpo a exaltação da terra
a cintilação de um corpo submerso
aceitação da água
na transparência tranquila
de outras palavras aqui que se inclinam
*
O temor dos seus olhos o tremor
do seu corpo as linhas
paralelas sombrias
onde se oculta o seio e a água viva
*
Reparte-se divide-se mas inteira
estende-se entre as colunas
prossegue uma viagem imóvel numa nuvem
*
Se a figura atravessa os declives
desce os degraus até à luz mais rasa
se ler agora é o vestido e a sombra
a transparência do animal na sombra
*
Ela é pedra em cada palavra e o fulgor
silencioso
de um torso que avança em transparência aérea
dispersas
de qualidade incerta
mas feliz
*
Ela aparece quando aparece
ela flui desliza eleva-se
e o tremor é exacto no seu ápice
Uma asa dispersa os nomes
a área simplifica-se até ao branco
O seu desaparecimento é vertical
*
Uma vibração suave (talvez ela)
da luz na exactidão completa
Quem a conhece
conhece a simplicidade extrema
a nudez da primeira claridade
*
Estremece estremece quando
a vibração do mundo
se reflecte noutra luz incerta
que a reclama no seu corpo incerto
*
Se é aqui o corpo a exaltação da terra
a cintilação de um corpo submerso
aceitação da água
na transparência tranquila
de outras palavras aqui que se inclinam
*
O temor dos seus olhos o tremor
do seu corpo as linhas
paralelas sombrias
onde se oculta o seio e a água viva
*
Reparte-se divide-se mas inteira
estende-se entre as colunas
prossegue uma viagem imóvel numa nuvem
*
Se a figura atravessa os declives
desce os degraus até à luz mais rasa
se ler agora é o vestido e a sombra
a transparência do animal na sombra
*
Ela é pedra em cada palavra e o fulgor
silencioso
de um torso que avança em transparência aérea
1 152
António Ramos Rosa
Na Extrema Claridade
Leve prodígio vegetações
dispersas
de qualidade incerta
mas feliz
*
Ela aparece quando aparece
ela flui desliza eleva-se
e o tremor é exacto no seu ápice
Uma asa dispersa os nomes
a área simplifica-se até ao branco
O seu desaparecimento é vertical
*
Uma vibração suave (talvez ela)
da luz na exactidão completa
Quem a conhece
conhece a simplicidade extrema
a nudez da primeira claridade
*
Estremece estremece quando
a vibração do mundo
se reflecte noutra luz incerta
que a reclama no seu corpo incerto
*
Se é aqui o corpo a exaltação da terra
a cintilação de um corpo submerso
aceitação da água
na transparência tranquila
de outras palavras aqui que se inclinam
*
O temor dos seus olhos o tremor
do seu corpo as linhas
paralelas sombrias
onde se oculta o seio e a água viva
*
Reparte-se divide-se mas inteira
estende-se entre as colunas
prossegue uma viagem imóvel numa nuvem
*
Se a figura atravessa os declives
desce os degraus até à luz mais rasa
se ler agora é o vestido e a sombra
a transparência do animal na sombra
*
Ela é pedra em cada palavra e o fulgor
silencioso
de um torso que avança em transparência aérea
dispersas
de qualidade incerta
mas feliz
*
Ela aparece quando aparece
ela flui desliza eleva-se
e o tremor é exacto no seu ápice
Uma asa dispersa os nomes
a área simplifica-se até ao branco
O seu desaparecimento é vertical
*
Uma vibração suave (talvez ela)
da luz na exactidão completa
Quem a conhece
conhece a simplicidade extrema
a nudez da primeira claridade
*
Estremece estremece quando
a vibração do mundo
se reflecte noutra luz incerta
que a reclama no seu corpo incerto
*
Se é aqui o corpo a exaltação da terra
a cintilação de um corpo submerso
aceitação da água
na transparência tranquila
de outras palavras aqui que se inclinam
*
O temor dos seus olhos o tremor
do seu corpo as linhas
paralelas sombrias
onde se oculta o seio e a água viva
*
Reparte-se divide-se mas inteira
estende-se entre as colunas
prossegue uma viagem imóvel numa nuvem
*
Se a figura atravessa os declives
desce os degraus até à luz mais rasa
se ler agora é o vestido e a sombra
a transparência do animal na sombra
*
Ela é pedra em cada palavra e o fulgor
silencioso
de um torso que avança em transparência aérea
1 152
António Ramos Rosa
Para Unir o Ar Ao Ar
Para unir o ar ao ar nos cimos cintilantes…
Talvez a morte ou o lapso inesperado, o vazio vegetal e essa frescura, essa fractura insondável, o húmus da morte.
O princípio será o regresso, a restituição de um fundo imemorial ou a noite iminente, a noite desconhecida e inabolível?
Tudo está pensado, tudo está escavado e completo. Ter a coragem de deixar a sombra ascender aos olhos e que a surpresa nasça do fundo mais sombrio, dos lábios mais espessos como pétalas atrozes.
Para avançar no escuro é necessário que o pensamento se liberte da sua própria matriz. Já não há reflexos, já não há raízes. Que traços poderá ter agora uma figura onde tudo se desfigurou?
Tudo se resume em qualquer coisa de árido e de frio.
Se amas a música, terás de compreender que aqui principia a primeira dissonância, a primeira ruptura…
É esse o círculo da loucura onde a claridade e a sombra se confundem.
E estas folhas desesperadas, estas letras que se propagam como animais mutilados? Delas jorra a única claridade que é distância inacessível, distância incessante, mas distância inicial.
Talvez a morte ou o lapso inesperado, o vazio vegetal e essa frescura, essa fractura insondável, o húmus da morte.
O princípio será o regresso, a restituição de um fundo imemorial ou a noite iminente, a noite desconhecida e inabolível?
Tudo está pensado, tudo está escavado e completo. Ter a coragem de deixar a sombra ascender aos olhos e que a surpresa nasça do fundo mais sombrio, dos lábios mais espessos como pétalas atrozes.
Para avançar no escuro é necessário que o pensamento se liberte da sua própria matriz. Já não há reflexos, já não há raízes. Que traços poderá ter agora uma figura onde tudo se desfigurou?
Tudo se resume em qualquer coisa de árido e de frio.
Se amas a música, terás de compreender que aqui principia a primeira dissonância, a primeira ruptura…
É esse o círculo da loucura onde a claridade e a sombra se confundem.
E estas folhas desesperadas, estas letras que se propagam como animais mutilados? Delas jorra a única claridade que é distância inacessível, distância incessante, mas distância inicial.
1 071
António Ramos Rosa
Para Unir o Ar Ao Ar
Para unir o ar ao ar nos cimos cintilantes…
Talvez a morte ou o lapso inesperado, o vazio vegetal e essa frescura, essa fractura insondável, o húmus da morte.
O princípio será o regresso, a restituição de um fundo imemorial ou a noite iminente, a noite desconhecida e inabolível?
Tudo está pensado, tudo está escavado e completo. Ter a coragem de deixar a sombra ascender aos olhos e que a surpresa nasça do fundo mais sombrio, dos lábios mais espessos como pétalas atrozes.
Para avançar no escuro é necessário que o pensamento se liberte da sua própria matriz. Já não há reflexos, já não há raízes. Que traços poderá ter agora uma figura onde tudo se desfigurou?
Tudo se resume em qualquer coisa de árido e de frio.
Se amas a música, terás de compreender que aqui principia a primeira dissonância, a primeira ruptura…
É esse o círculo da loucura onde a claridade e a sombra se confundem.
E estas folhas desesperadas, estas letras que se propagam como animais mutilados? Delas jorra a única claridade que é distância inacessível, distância incessante, mas distância inicial.
Talvez a morte ou o lapso inesperado, o vazio vegetal e essa frescura, essa fractura insondável, o húmus da morte.
O princípio será o regresso, a restituição de um fundo imemorial ou a noite iminente, a noite desconhecida e inabolível?
Tudo está pensado, tudo está escavado e completo. Ter a coragem de deixar a sombra ascender aos olhos e que a surpresa nasça do fundo mais sombrio, dos lábios mais espessos como pétalas atrozes.
Para avançar no escuro é necessário que o pensamento se liberte da sua própria matriz. Já não há reflexos, já não há raízes. Que traços poderá ter agora uma figura onde tudo se desfigurou?
Tudo se resume em qualquer coisa de árido e de frio.
Se amas a música, terás de compreender que aqui principia a primeira dissonância, a primeira ruptura…
É esse o círculo da loucura onde a claridade e a sombra se confundem.
E estas folhas desesperadas, estas letras que se propagam como animais mutilados? Delas jorra a única claridade que é distância inacessível, distância incessante, mas distância inicial.
1 071
António Ramos Rosa
Para Unir o Ar Ao Ar
Para unir o ar ao ar nos cimos cintilantes…
Talvez a morte ou o lapso inesperado, o vazio vegetal e essa frescura, essa fractura insondável, o húmus da morte.
O princípio será o regresso, a restituição de um fundo imemorial ou a noite iminente, a noite desconhecida e inabolível?
Tudo está pensado, tudo está escavado e completo. Ter a coragem de deixar a sombra ascender aos olhos e que a surpresa nasça do fundo mais sombrio, dos lábios mais espessos como pétalas atrozes.
Para avançar no escuro é necessário que o pensamento se liberte da sua própria matriz. Já não há reflexos, já não há raízes. Que traços poderá ter agora uma figura onde tudo se desfigurou?
Tudo se resume em qualquer coisa de árido e de frio.
Se amas a música, terás de compreender que aqui principia a primeira dissonância, a primeira ruptura…
É esse o círculo da loucura onde a claridade e a sombra se confundem.
E estas folhas desesperadas, estas letras que se propagam como animais mutilados? Delas jorra a única claridade que é distância inacessível, distância incessante, mas distância inicial.
Talvez a morte ou o lapso inesperado, o vazio vegetal e essa frescura, essa fractura insondável, o húmus da morte.
O princípio será o regresso, a restituição de um fundo imemorial ou a noite iminente, a noite desconhecida e inabolível?
Tudo está pensado, tudo está escavado e completo. Ter a coragem de deixar a sombra ascender aos olhos e que a surpresa nasça do fundo mais sombrio, dos lábios mais espessos como pétalas atrozes.
Para avançar no escuro é necessário que o pensamento se liberte da sua própria matriz. Já não há reflexos, já não há raízes. Que traços poderá ter agora uma figura onde tudo se desfigurou?
Tudo se resume em qualquer coisa de árido e de frio.
Se amas a música, terás de compreender que aqui principia a primeira dissonância, a primeira ruptura…
É esse o círculo da loucura onde a claridade e a sombra se confundem.
E estas folhas desesperadas, estas letras que se propagam como animais mutilados? Delas jorra a única claridade que é distância inacessível, distância incessante, mas distância inicial.
1 071
António Ramos Rosa
A Nudez Mais Completa
uma área branca
sem uma árvore um texto opaco
com frases apressadas nuas
com chuva sobre as pedras
sobre os poros
e o desejo do desejo e a sombra nua
palavras animais cor de relâmpago
frutos da sombra e do esplendor
solidárias lâmpadas no deserto
animais animais à chuva à sombra
abrem o espaço ao desejo ao espaço
palavras dilacerando outras palavras
tronco e lua suor e sempre
tecla tábua espuma pedra
vocábulos que desfiguram as imagens
palavras que só amam a figura
da nudez mais completa
do intacto
sem uma árvore um texto opaco
com frases apressadas nuas
com chuva sobre as pedras
sobre os poros
e o desejo do desejo e a sombra nua
palavras animais cor de relâmpago
frutos da sombra e do esplendor
solidárias lâmpadas no deserto
animais animais à chuva à sombra
abrem o espaço ao desejo ao espaço
palavras dilacerando outras palavras
tronco e lua suor e sempre
tecla tábua espuma pedra
vocábulos que desfiguram as imagens
palavras que só amam a figura
da nudez mais completa
do intacto
1 117
António Ramos Rosa
A Nudez Mais Completa
uma área branca
sem uma árvore um texto opaco
com frases apressadas nuas
com chuva sobre as pedras
sobre os poros
e o desejo do desejo e a sombra nua
palavras animais cor de relâmpago
frutos da sombra e do esplendor
solidárias lâmpadas no deserto
animais animais à chuva à sombra
abrem o espaço ao desejo ao espaço
palavras dilacerando outras palavras
tronco e lua suor e sempre
tecla tábua espuma pedra
vocábulos que desfiguram as imagens
palavras que só amam a figura
da nudez mais completa
do intacto
sem uma árvore um texto opaco
com frases apressadas nuas
com chuva sobre as pedras
sobre os poros
e o desejo do desejo e a sombra nua
palavras animais cor de relâmpago
frutos da sombra e do esplendor
solidárias lâmpadas no deserto
animais animais à chuva à sombra
abrem o espaço ao desejo ao espaço
palavras dilacerando outras palavras
tronco e lua suor e sempre
tecla tábua espuma pedra
vocábulos que desfiguram as imagens
palavras que só amam a figura
da nudez mais completa
do intacto
1 117
António Ramos Rosa
Celebração da Terra
Desenhar o sono e o volume da cabeça
que no sóbrio sossego vai caindo
É o momento da terra das cigarras dos montes
a janela está aberta
às presenças intactas
*
É uma presença da água e da luz na água
a superfície isenta límpida de uma página
A palavra é o ar não é ainda a palavra
nada se inventa que não seja um torso aéreo
o dia completa-se com o dia
*
Aqui se recebem as ondas sobre as ondas
o corpo já não espera vive numa planície
Tudo respira e tudo é exacto e puro
Ondulação do simples ondulação do completo
O universo é a terra que respira é o corpo liberto
A luz cria o silêncio e a palavra a indizível unidade
Tudo se compreende no domínio do ar
Não há labirintos mas caminhos e horizontes clareiras
Tudo o que se agita é leve e confirma o silêncio
*
Num tumulto lento quase paralisado
o âmbito dilata-se sobre a sombra
a terra compreende-se nas vertentes duplas
da água nasce a árvore silenciosa
e o ar reconstitui a terra submersa
O fulgor alimenta uma palavra límpida
*
Além do ar o ar azul
além da terra a terra verde e azul
além da água a água verde azul ou cinza
três reinos num só reino um só domínio aéreo
*
Uma névoa se desfaz o céu presença plácida
e completa
nenhuma interrogação trai a claridade viva
nenhum pesar nenhum ardor nenhuma fúria
tudo se consome e reaviva em tranquilas presenças
que no sóbrio sossego vai caindo
É o momento da terra das cigarras dos montes
a janela está aberta
às presenças intactas
*
É uma presença da água e da luz na água
a superfície isenta límpida de uma página
A palavra é o ar não é ainda a palavra
nada se inventa que não seja um torso aéreo
o dia completa-se com o dia
*
Aqui se recebem as ondas sobre as ondas
o corpo já não espera vive numa planície
Tudo respira e tudo é exacto e puro
Ondulação do simples ondulação do completo
O universo é a terra que respira é o corpo liberto
A luz cria o silêncio e a palavra a indizível unidade
Tudo se compreende no domínio do ar
Não há labirintos mas caminhos e horizontes clareiras
Tudo o que se agita é leve e confirma o silêncio
*
Num tumulto lento quase paralisado
o âmbito dilata-se sobre a sombra
a terra compreende-se nas vertentes duplas
da água nasce a árvore silenciosa
e o ar reconstitui a terra submersa
O fulgor alimenta uma palavra límpida
*
Além do ar o ar azul
além da terra a terra verde e azul
além da água a água verde azul ou cinza
três reinos num só reino um só domínio aéreo
*
Uma névoa se desfaz o céu presença plácida
e completa
nenhuma interrogação trai a claridade viva
nenhum pesar nenhum ardor nenhuma fúria
tudo se consome e reaviva em tranquilas presenças
1 032
António Ramos Rosa
Celebração da Terra
Desenhar o sono e o volume da cabeça
que no sóbrio sossego vai caindo
É o momento da terra das cigarras dos montes
a janela está aberta
às presenças intactas
*
É uma presença da água e da luz na água
a superfície isenta límpida de uma página
A palavra é o ar não é ainda a palavra
nada se inventa que não seja um torso aéreo
o dia completa-se com o dia
*
Aqui se recebem as ondas sobre as ondas
o corpo já não espera vive numa planície
Tudo respira e tudo é exacto e puro
Ondulação do simples ondulação do completo
O universo é a terra que respira é o corpo liberto
A luz cria o silêncio e a palavra a indizível unidade
Tudo se compreende no domínio do ar
Não há labirintos mas caminhos e horizontes clareiras
Tudo o que se agita é leve e confirma o silêncio
*
Num tumulto lento quase paralisado
o âmbito dilata-se sobre a sombra
a terra compreende-se nas vertentes duplas
da água nasce a árvore silenciosa
e o ar reconstitui a terra submersa
O fulgor alimenta uma palavra límpida
*
Além do ar o ar azul
além da terra a terra verde e azul
além da água a água verde azul ou cinza
três reinos num só reino um só domínio aéreo
*
Uma névoa se desfaz o céu presença plácida
e completa
nenhuma interrogação trai a claridade viva
nenhum pesar nenhum ardor nenhuma fúria
tudo se consome e reaviva em tranquilas presenças
que no sóbrio sossego vai caindo
É o momento da terra das cigarras dos montes
a janela está aberta
às presenças intactas
*
É uma presença da água e da luz na água
a superfície isenta límpida de uma página
A palavra é o ar não é ainda a palavra
nada se inventa que não seja um torso aéreo
o dia completa-se com o dia
*
Aqui se recebem as ondas sobre as ondas
o corpo já não espera vive numa planície
Tudo respira e tudo é exacto e puro
Ondulação do simples ondulação do completo
O universo é a terra que respira é o corpo liberto
A luz cria o silêncio e a palavra a indizível unidade
Tudo se compreende no domínio do ar
Não há labirintos mas caminhos e horizontes clareiras
Tudo o que se agita é leve e confirma o silêncio
*
Num tumulto lento quase paralisado
o âmbito dilata-se sobre a sombra
a terra compreende-se nas vertentes duplas
da água nasce a árvore silenciosa
e o ar reconstitui a terra submersa
O fulgor alimenta uma palavra límpida
*
Além do ar o ar azul
além da terra a terra verde e azul
além da água a água verde azul ou cinza
três reinos num só reino um só domínio aéreo
*
Uma névoa se desfaz o céu presença plácida
e completa
nenhuma interrogação trai a claridade viva
nenhum pesar nenhum ardor nenhuma fúria
tudo se consome e reaviva em tranquilas presenças
1 032
António Ramos Rosa
Olhar Sem Olhar
Em qualquer parte, talvez, uma palavra arde. Um acto do universo, não uma palavra, mas uma palavra ainda: a chuva cai sobre as cores, lava os pórticos, refresca os deuses. O que me atrai são os confusos indícios de uma prosa marinha, os fluxos, os matizes, as pausas, as minúcias de uma música que se esvai ao mesmo tempo que se abate sobre a muralha a grande ressaca de uma outra escrita ou contra-escrita. Quero seguir o bulício mais vivo de uma outra cidade que nunca vi. As manchas das casas revelariam as relações que só se distinguem nos indefiníveis intervalos em que a morte de súbito se extingue e um rosto intacto se entremostra. Há uma limpidez exacta e uma vivacidade mate nos murmúrios e nas cenas, nas sombras e surpresas. Então, num impulso de atenção outra, cega e vidente, a mão levanta-se e compreende o intenso e inenarrável momento de aliança completa entre o corpo e a terra, entre as sombras e a claridade.
1 052
António Ramos Rosa
Olhar Sem Olhar
Em qualquer parte, talvez, uma palavra arde. Um acto do universo, não uma palavra, mas uma palavra ainda: a chuva cai sobre as cores, lava os pórticos, refresca os deuses. O que me atrai são os confusos indícios de uma prosa marinha, os fluxos, os matizes, as pausas, as minúcias de uma música que se esvai ao mesmo tempo que se abate sobre a muralha a grande ressaca de uma outra escrita ou contra-escrita. Quero seguir o bulício mais vivo de uma outra cidade que nunca vi. As manchas das casas revelariam as relações que só se distinguem nos indefiníveis intervalos em que a morte de súbito se extingue e um rosto intacto se entremostra. Há uma limpidez exacta e uma vivacidade mate nos murmúrios e nas cenas, nas sombras e surpresas. Então, num impulso de atenção outra, cega e vidente, a mão levanta-se e compreende o intenso e inenarrável momento de aliança completa entre o corpo e a terra, entre as sombras e a claridade.
1 052
António Ramos Rosa
Olhar Sem Olhar
Em qualquer parte, talvez, uma palavra arde. Um acto do universo, não uma palavra, mas uma palavra ainda: a chuva cai sobre as cores, lava os pórticos, refresca os deuses. O que me atrai são os confusos indícios de uma prosa marinha, os fluxos, os matizes, as pausas, as minúcias de uma música que se esvai ao mesmo tempo que se abate sobre a muralha a grande ressaca de uma outra escrita ou contra-escrita. Quero seguir o bulício mais vivo de uma outra cidade que nunca vi. As manchas das casas revelariam as relações que só se distinguem nos indefiníveis intervalos em que a morte de súbito se extingue e um rosto intacto se entremostra. Há uma limpidez exacta e uma vivacidade mate nos murmúrios e nas cenas, nas sombras e surpresas. Então, num impulso de atenção outra, cega e vidente, a mão levanta-se e compreende o intenso e inenarrável momento de aliança completa entre o corpo e a terra, entre as sombras e a claridade.
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António Ramos Rosa
Onde Os Deuses Se Encontram
Não busques não esperes
*
Como procurar a nudez do simples?
Os deuses encontram-se no refúgio aberto sombreado
*
O círculo dilata-se e dilata-nos
O lugar revela-se no esplendor da luz
*
O mar levanta as suas lâmpadas brancas
*
Diz de novo a fascinante simplicidade
*
Diz agora as minúcias
deslumbrantes
arcos na areia insectos frutos
*
Tanta luz tanta sombra iluminada!
*
Como procurar a nudez do simples?
Os deuses encontram-se no refúgio aberto sombreado
*
O círculo dilata-se e dilata-nos
O lugar revela-se no esplendor da luz
*
O mar levanta as suas lâmpadas brancas
*
Diz de novo a fascinante simplicidade
*
Diz agora as minúcias
deslumbrantes
arcos na areia insectos frutos
*
Tanta luz tanta sombra iluminada!
599
António Ramos Rosa
Onde Os Deuses Se Encontram
Não busques não esperes
*
Como procurar a nudez do simples?
Os deuses encontram-se no refúgio aberto sombreado
*
O círculo dilata-se e dilata-nos
O lugar revela-se no esplendor da luz
*
O mar levanta as suas lâmpadas brancas
*
Diz de novo a fascinante simplicidade
*
Diz agora as minúcias
deslumbrantes
arcos na areia insectos frutos
*
Tanta luz tanta sombra iluminada!
*
Como procurar a nudez do simples?
Os deuses encontram-se no refúgio aberto sombreado
*
O círculo dilata-se e dilata-nos
O lugar revela-se no esplendor da luz
*
O mar levanta as suas lâmpadas brancas
*
Diz de novo a fascinante simplicidade
*
Diz agora as minúcias
deslumbrantes
arcos na areia insectos frutos
*
Tanta luz tanta sombra iluminada!
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António Ramos Rosa
A Imponderável Abordagem
Nada é necessário nada é suficiente
Que coisa é esta que aqui será presença e além falta?
Uma qualidade de silêncio de vigilância pura?
Um desenlace uma evidência um fogo insinuado
ou talvez o esquecimento
Nada a dizer no entanto Quem sobe à fogueira
quem foi para o deserto? Não há palavras mais
Substância volátil dizemos Mobilidade aérea
e pedra imóvel Tudo é o mesmo e tudo muda
indefinidamente
Não mais que o imponderável Tal é a abordagem
da lâmpada frágil do insecto obscuro
Os intervalos as incertezas são a vida mesma
que se revela Esta fluidez viva
Este campo de energia Lugar donde surge
o vigor verde Célula de gruta
Esta matéria que ascende em nós é inseparável
do pulso que ritma e de uma língua selvagem
intacta
Que inapreensível simplicidade que nudez de assombro
que já não é uma imagem mas um relâmpago
consumindo os contornos da pedra
Que rigor flagrante e improvável
uma espécie de música branca
um canto que não desvela nem anula
um silêncio que não repousa sobre nada
Que coisa é esta que aqui será presença e além falta?
Uma qualidade de silêncio de vigilância pura?
Um desenlace uma evidência um fogo insinuado
ou talvez o esquecimento
Nada a dizer no entanto Quem sobe à fogueira
quem foi para o deserto? Não há palavras mais
Substância volátil dizemos Mobilidade aérea
e pedra imóvel Tudo é o mesmo e tudo muda
indefinidamente
Não mais que o imponderável Tal é a abordagem
da lâmpada frágil do insecto obscuro
Os intervalos as incertezas são a vida mesma
que se revela Esta fluidez viva
Este campo de energia Lugar donde surge
o vigor verde Célula de gruta
Esta matéria que ascende em nós é inseparável
do pulso que ritma e de uma língua selvagem
intacta
Que inapreensível simplicidade que nudez de assombro
que já não é uma imagem mas um relâmpago
consumindo os contornos da pedra
Que rigor flagrante e improvável
uma espécie de música branca
um canto que não desvela nem anula
um silêncio que não repousa sobre nada
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António Ramos Rosa
A Imponderável Abordagem
Nada é necessário nada é suficiente
Que coisa é esta que aqui será presença e além falta?
Uma qualidade de silêncio de vigilância pura?
Um desenlace uma evidência um fogo insinuado
ou talvez o esquecimento
Nada a dizer no entanto Quem sobe à fogueira
quem foi para o deserto? Não há palavras mais
Substância volátil dizemos Mobilidade aérea
e pedra imóvel Tudo é o mesmo e tudo muda
indefinidamente
Não mais que o imponderável Tal é a abordagem
da lâmpada frágil do insecto obscuro
Os intervalos as incertezas são a vida mesma
que se revela Esta fluidez viva
Este campo de energia Lugar donde surge
o vigor verde Célula de gruta
Esta matéria que ascende em nós é inseparável
do pulso que ritma e de uma língua selvagem
intacta
Que inapreensível simplicidade que nudez de assombro
que já não é uma imagem mas um relâmpago
consumindo os contornos da pedra
Que rigor flagrante e improvável
uma espécie de música branca
um canto que não desvela nem anula
um silêncio que não repousa sobre nada
Que coisa é esta que aqui será presença e além falta?
Uma qualidade de silêncio de vigilância pura?
Um desenlace uma evidência um fogo insinuado
ou talvez o esquecimento
Nada a dizer no entanto Quem sobe à fogueira
quem foi para o deserto? Não há palavras mais
Substância volátil dizemos Mobilidade aérea
e pedra imóvel Tudo é o mesmo e tudo muda
indefinidamente
Não mais que o imponderável Tal é a abordagem
da lâmpada frágil do insecto obscuro
Os intervalos as incertezas são a vida mesma
que se revela Esta fluidez viva
Este campo de energia Lugar donde surge
o vigor verde Célula de gruta
Esta matéria que ascende em nós é inseparável
do pulso que ritma e de uma língua selvagem
intacta
Que inapreensível simplicidade que nudez de assombro
que já não é uma imagem mas um relâmpago
consumindo os contornos da pedra
Que rigor flagrante e improvável
uma espécie de música branca
um canto que não desvela nem anula
um silêncio que não repousa sobre nada
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António Ramos Rosa
A Imponderável Abordagem
Nada é necessário nada é suficiente
Que coisa é esta que aqui será presença e além falta?
Uma qualidade de silêncio de vigilância pura?
Um desenlace uma evidência um fogo insinuado
ou talvez o esquecimento
Nada a dizer no entanto Quem sobe à fogueira
quem foi para o deserto? Não há palavras mais
Substância volátil dizemos Mobilidade aérea
e pedra imóvel Tudo é o mesmo e tudo muda
indefinidamente
Não mais que o imponderável Tal é a abordagem
da lâmpada frágil do insecto obscuro
Os intervalos as incertezas são a vida mesma
que se revela Esta fluidez viva
Este campo de energia Lugar donde surge
o vigor verde Célula de gruta
Esta matéria que ascende em nós é inseparável
do pulso que ritma e de uma língua selvagem
intacta
Que inapreensível simplicidade que nudez de assombro
que já não é uma imagem mas um relâmpago
consumindo os contornos da pedra
Que rigor flagrante e improvável
uma espécie de música branca
um canto que não desvela nem anula
um silêncio que não repousa sobre nada
Que coisa é esta que aqui será presença e além falta?
Uma qualidade de silêncio de vigilância pura?
Um desenlace uma evidência um fogo insinuado
ou talvez o esquecimento
Nada a dizer no entanto Quem sobe à fogueira
quem foi para o deserto? Não há palavras mais
Substância volátil dizemos Mobilidade aérea
e pedra imóvel Tudo é o mesmo e tudo muda
indefinidamente
Não mais que o imponderável Tal é a abordagem
da lâmpada frágil do insecto obscuro
Os intervalos as incertezas são a vida mesma
que se revela Esta fluidez viva
Este campo de energia Lugar donde surge
o vigor verde Célula de gruta
Esta matéria que ascende em nós é inseparável
do pulso que ritma e de uma língua selvagem
intacta
Que inapreensível simplicidade que nudez de assombro
que já não é uma imagem mas um relâmpago
consumindo os contornos da pedra
Que rigor flagrante e improvável
uma espécie de música branca
um canto que não desvela nem anula
um silêncio que não repousa sobre nada
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António Ramos Rosa
Presença Solar E Sólida Fugidia…
… Recolho-me para escutar… o silêncio resolver-se-á na conjugação de palavras sólidas e brancas… palavras que substituirão o sentido pela arcaica ressonância de uma disseminação… as palavras serão a realização aberta à qualificação mais livre e nula
… É um novo silêncio e um novo sol
sobre a mesa de pedra
o meu desejo à claridade da folha
lança-se
sobre um campo verde
ao abandono vejo
a força material dos membros e o tronco de mulher
as pernas fortes laceradas pelos espinhos
pernas solares sólidas para os caminhos solitários e íngremes
ignoro se invento esta presença
com as palavras ou se algo se abriu
no interior de um olhar
ignoro se estas palavras vêm da visão
de uma figura entrevista entre as árvores…
uma energia intensa… é quase um grito
que cega e liberta
e se suspende ao abandono na página
e então será o arranque ou a explosão
a planície líquida onde a figura emerge…
a solidez compacta dos seios
o triângulo negro do púbis
o triunfo branco das pernas sólidas redondas
Vejo-te transcrita palpitante seda
forma alta e pura branca e livre
nascida do desejo e da linguagem sólida
quem te chamaria o sol entre as árvores vibrante
se mais que o sol deslumbras e és solar
solar e sólida nos caminhos ásperos
viajante das manhãs de um sossego de fábula
terra terra verde e doirada ó fulva deusa
que corres como um arco sobre as hastes
tuas pernas brancas revelam-se sob as vestes
branquejam sobre a página incendeiam-se
sólidas solares cálidas fogosas
como te materializas se te apagas branca
e mais não és que um sopro dissipado
estas palavras no entanto te levantam
ó amor de um corpo que a linguagem liga
ambígua intermitente e luminosa embora
como transmitir tua geometria das formas
se te fragmento e dilacero te perco…
A presença viva apaga-se entre as pedras no papel… apaga-se mas não se anula… fica o seu rastro alucinante… uma visão vaga mas ardente… o desejo de retornar ao canto… ouvi-la cantar no próprio movimento das formas ó perfume da solidez divina terrena brancura invulnerável…
… É um novo silêncio e um novo sol
sobre a mesa de pedra
o meu desejo à claridade da folha
lança-se
sobre um campo verde
ao abandono vejo
a força material dos membros e o tronco de mulher
as pernas fortes laceradas pelos espinhos
pernas solares sólidas para os caminhos solitários e íngremes
ignoro se invento esta presença
com as palavras ou se algo se abriu
no interior de um olhar
ignoro se estas palavras vêm da visão
de uma figura entrevista entre as árvores…
uma energia intensa… é quase um grito
que cega e liberta
e se suspende ao abandono na página
e então será o arranque ou a explosão
a planície líquida onde a figura emerge…
a solidez compacta dos seios
o triângulo negro do púbis
o triunfo branco das pernas sólidas redondas
Vejo-te transcrita palpitante seda
forma alta e pura branca e livre
nascida do desejo e da linguagem sólida
quem te chamaria o sol entre as árvores vibrante
se mais que o sol deslumbras e és solar
solar e sólida nos caminhos ásperos
viajante das manhãs de um sossego de fábula
terra terra verde e doirada ó fulva deusa
que corres como um arco sobre as hastes
tuas pernas brancas revelam-se sob as vestes
branquejam sobre a página incendeiam-se
sólidas solares cálidas fogosas
como te materializas se te apagas branca
e mais não és que um sopro dissipado
estas palavras no entanto te levantam
ó amor de um corpo que a linguagem liga
ambígua intermitente e luminosa embora
como transmitir tua geometria das formas
se te fragmento e dilacero te perco…
A presença viva apaga-se entre as pedras no papel… apaga-se mas não se anula… fica o seu rastro alucinante… uma visão vaga mas ardente… o desejo de retornar ao canto… ouvi-la cantar no próprio movimento das formas ó perfume da solidez divina terrena brancura invulnerável…
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