Temas
Poemas neste tema

Outros

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Presença Solar E Sólida Fugidia…

… Recolho-me para escutar… o silêncio resolver-se-á na conjugação de palavras sólidas e brancas… palavras que substituirão o sentido pela arcaica ressonância de uma disseminação… as palavras serão a realização aberta à qualificação mais livre e nula

… É um novo silêncio e um novo sol
sobre a mesa de pedra
o meu desejo à claridade da folha
lança-se
sobre um campo verde
ao abandono                 vejo

a força material dos membros e o tronco de mulher
as pernas fortes laceradas pelos espinhos
pernas solares sólidas para os caminhos solitários e íngremes
ignoro se invento esta presença
com as palavras ou se algo se abriu
no interior de um olhar
ignoro se estas palavras vêm da visão
de uma figura entrevista entre as árvores…

uma energia intensa… é quase um grito
que cega e liberta
e se suspende ao abandono na página
e então será o arranque ou a explosão
a planície líquida onde a figura emerge…
a solidez compacta dos seios
o triângulo negro do púbis
o triunfo branco das pernas sólidas redondas

Vejo-te transcrita palpitante seda
forma alta e pura branca e livre
nascida do desejo e da linguagem sólida
quem te chamaria o sol entre as árvores vibrante
se mais que o sol deslumbras e és solar
solar e sólida nos caminhos ásperos
viajante das manhãs de um sossego de fábula
terra terra verde e doirada ó fulva deusa
que corres como um arco sobre as hastes
tuas pernas brancas revelam-se sob as vestes
branquejam sobre a página incendeiam-se
sólidas solares cálidas fogosas
como te materializas se te apagas branca
e mais não és que um sopro dissipado
estas palavras no entanto te levantam
ó amor de um corpo que a linguagem liga
ambígua intermitente e luminosa embora
como transmitir tua geometria das formas
se te fragmento e dilacero te perco…

A presença viva apaga-se entre as pedras no papel… apaga-se mas não se anula… fica o seu rastro alucinante… uma visão vaga mas ardente… o desejo de retornar ao canto… ouvi-la cantar no próprio movimento das formas ó perfume da solidez divina terrena brancura invulnerável…
552
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Presença Solar E Sólida Fugidia…

… Recolho-me para escutar… o silêncio resolver-se-á na conjugação de palavras sólidas e brancas… palavras que substituirão o sentido pela arcaica ressonância de uma disseminação… as palavras serão a realização aberta à qualificação mais livre e nula

… É um novo silêncio e um novo sol
sobre a mesa de pedra
o meu desejo à claridade da folha
lança-se
sobre um campo verde
ao abandono                 vejo

a força material dos membros e o tronco de mulher
as pernas fortes laceradas pelos espinhos
pernas solares sólidas para os caminhos solitários e íngremes
ignoro se invento esta presença
com as palavras ou se algo se abriu
no interior de um olhar
ignoro se estas palavras vêm da visão
de uma figura entrevista entre as árvores…

uma energia intensa… é quase um grito
que cega e liberta
e se suspende ao abandono na página
e então será o arranque ou a explosão
a planície líquida onde a figura emerge…
a solidez compacta dos seios
o triângulo negro do púbis
o triunfo branco das pernas sólidas redondas

Vejo-te transcrita palpitante seda
forma alta e pura branca e livre
nascida do desejo e da linguagem sólida
quem te chamaria o sol entre as árvores vibrante
se mais que o sol deslumbras e és solar
solar e sólida nos caminhos ásperos
viajante das manhãs de um sossego de fábula
terra terra verde e doirada ó fulva deusa
que corres como um arco sobre as hastes
tuas pernas brancas revelam-se sob as vestes
branquejam sobre a página incendeiam-se
sólidas solares cálidas fogosas
como te materializas se te apagas branca
e mais não és que um sopro dissipado
estas palavras no entanto te levantam
ó amor de um corpo que a linguagem liga
ambígua intermitente e luminosa embora
como transmitir tua geometria das formas
se te fragmento e dilacero te perco…

A presença viva apaga-se entre as pedras no papel… apaga-se mas não se anula… fica o seu rastro alucinante… uma visão vaga mas ardente… o desejo de retornar ao canto… ouvi-la cantar no próprio movimento das formas ó perfume da solidez divina terrena brancura invulnerável…
552
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Presença Solar E Sólida Fugidia…

… Recolho-me para escutar… o silêncio resolver-se-á na conjugação de palavras sólidas e brancas… palavras que substituirão o sentido pela arcaica ressonância de uma disseminação… as palavras serão a realização aberta à qualificação mais livre e nula

… É um novo silêncio e um novo sol
sobre a mesa de pedra
o meu desejo à claridade da folha
lança-se
sobre um campo verde
ao abandono                 vejo

a força material dos membros e o tronco de mulher
as pernas fortes laceradas pelos espinhos
pernas solares sólidas para os caminhos solitários e íngremes
ignoro se invento esta presença
com as palavras ou se algo se abriu
no interior de um olhar
ignoro se estas palavras vêm da visão
de uma figura entrevista entre as árvores…

uma energia intensa… é quase um grito
que cega e liberta
e se suspende ao abandono na página
e então será o arranque ou a explosão
a planície líquida onde a figura emerge…
a solidez compacta dos seios
o triângulo negro do púbis
o triunfo branco das pernas sólidas redondas

Vejo-te transcrita palpitante seda
forma alta e pura branca e livre
nascida do desejo e da linguagem sólida
quem te chamaria o sol entre as árvores vibrante
se mais que o sol deslumbras e és solar
solar e sólida nos caminhos ásperos
viajante das manhãs de um sossego de fábula
terra terra verde e doirada ó fulva deusa
que corres como um arco sobre as hastes
tuas pernas brancas revelam-se sob as vestes
branquejam sobre a página incendeiam-se
sólidas solares cálidas fogosas
como te materializas se te apagas branca
e mais não és que um sopro dissipado
estas palavras no entanto te levantam
ó amor de um corpo que a linguagem liga
ambígua intermitente e luminosa embora
como transmitir tua geometria das formas
se te fragmento e dilacero te perco…

A presença viva apaga-se entre as pedras no papel… apaga-se mas não se anula… fica o seu rastro alucinante… uma visão vaga mas ardente… o desejo de retornar ao canto… ouvi-la cantar no próprio movimento das formas ó perfume da solidez divina terrena brancura invulnerável…
552
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Superfície da Página

Seule l’écriture maintient le regard de
l’écrivain à la surface.
EDMOND JABÈS

Escrevo com estas moedas que nada simbolizam e que se elevam e avançam na superfície lisa da página, no dorso ondulante do deserto. É esta superfície que me tenta, como se uma escrita de água percorresse o deserto em cada sílaba, como se em cada letra deflagrasse o escuro sol da sombra. Escrevo sem acreditar, escrevo, isto é, vou de sombra em sombra, apago-me e apago a ordem do discurso, as peremptórias leis dos homens. Há uma palavra que viaja no mar, há uma palavra viva no espaço, no rumor da vida, no silêncio inominável das coisas. Essa palavra não está longe de nenhuma palavra, todas as palavras se dirigem para ela, todas elas morrem e estremecem por essa única palavra que povoa os espaços e os vocábulos. O sol e o mar, os animais, as estrelas, a luz e a noite, tudo se contém, freme e adeja como se na página um pássaro de vento de súbito surgisse, visível, invisível, vivo e apagado como uma sombra branca. Entre as margens e os intervalos das linhas gera-se uma comunicação e é o branco que raia num sentido ou as sombras de súbito se encontram e resplandecem. Este fogo, esta luz, esta pulsação animal, esta sombra fulgurante são a própria substância escrita mas igualmente o segredo incomunicável, a palpitação única de um lábio materno, de uma vegetação elementar, de uma terra secreta e original. Eis que sinto a vida nova dos vocábulos, a sua vocação vocálica, a sua alma livre, a sua orientação seminal. São os vocábulos que perpassam sobre os abismos brancos e as espirais da loucura, são eles que, nas suas volutas, na sua corrente vivaz e obstinada abrem um caminho e criam a possibilidade da infinita palavra impossível.
1 285