Temas
Poemas neste tema

Outros

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Ruptura/Continuidade

Cansei-me não das palavras, nem da vida, cansei-me. Cansei-me da linguagem, não do real. Cansei-me da realidade, não da linguagem. Nunca me cansei, nunca pude cansar-me na (da) realidade. Impossível ter-me cansado se nunca caminhei sobre a língua, sobre a lande, sobre a glande. Que digo eu, que diz a linguagem? Diz a língua urgente, a beleza urgente a pique, a orientação viva? Que é o poema, que é a língua? Perguntas só por perguntar ou porque não há respostas, não há caminho, não há cama, não há coma? O que há é linguagem, é a visão de um ininteligível fragmento do real. Tu viajaste. Nunca saíste do teu quarto. Nunca viajaste no teu quarto. Ignoras o espaço, o eros do espaço. Ignoras o espaço. A linguagem apresenta-te, representa-te a árvore, a pedra, a água, o linho e a seda de um corpo, o rictus da máscara, o ritmo do real inatingível. A linguagem é um corpo vivo, mas também é eloquência, grandiloquência, verbo inflado, empolamento de útero sem nascimento, válvula de hemorragias. Cansaste-te não do sémen nem da disseminação (da utopia) da linguagem, mas das suas versões eloquentes, demasiado belas para poderem corresponder ao (quase) imperceptível murmúrio da realidade? A realidade é linguagem, a linguagem é realidade? Porque te emaranhas nos círculos do inferno cerebral? Não é a realidade que procuras, a realidade natural, a realidade animal, a realidade sensual? Sai, se puderes, deste poema vicioso, abre a janela (abre-a, se puderes) abre e respira. Respira a linguagem (do real), respira o poema (real), não, não podes respirar sem a linguagem, não podes abrir a janela sem romperes o cordão que te liga ao umbigo deste poema fétido que se cerra e que se abre mas que não é como uma pálpebra nem como um lábio, que não é nada, nada, nada, pois nem é um grito, nem uma gruta, nem uma trave, nem uma pedra. A linguagem desdiz tudo o que diz e desdizendo diz. É preciso apagar este poema, enterrá-lo na areia como um animal e que dele reste só a areia redemoinhando acima do focinho que tenta a sufocada respiração. Acima da respiração. A linguagem que respira é o verbo da erva, a palavra verde que murmura e nada diz se diz o nada, o imperceptível sorriso das coisas que não choraram, a alacridade eterna ( efémera) de uma chama, de um espaço, de um corpo.
1 176
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Ruptura/Continuidade

Cansei-me não das palavras, nem da vida, cansei-me. Cansei-me da linguagem, não do real. Cansei-me da realidade, não da linguagem. Nunca me cansei, nunca pude cansar-me na (da) realidade. Impossível ter-me cansado se nunca caminhei sobre a língua, sobre a lande, sobre a glande. Que digo eu, que diz a linguagem? Diz a língua urgente, a beleza urgente a pique, a orientação viva? Que é o poema, que é a língua? Perguntas só por perguntar ou porque não há respostas, não há caminho, não há cama, não há coma? O que há é linguagem, é a visão de um ininteligível fragmento do real. Tu viajaste. Nunca saíste do teu quarto. Nunca viajaste no teu quarto. Ignoras o espaço, o eros do espaço. Ignoras o espaço. A linguagem apresenta-te, representa-te a árvore, a pedra, a água, o linho e a seda de um corpo, o rictus da máscara, o ritmo do real inatingível. A linguagem é um corpo vivo, mas também é eloquência, grandiloquência, verbo inflado, empolamento de útero sem nascimento, válvula de hemorragias. Cansaste-te não do sémen nem da disseminação (da utopia) da linguagem, mas das suas versões eloquentes, demasiado belas para poderem corresponder ao (quase) imperceptível murmúrio da realidade? A realidade é linguagem, a linguagem é realidade? Porque te emaranhas nos círculos do inferno cerebral? Não é a realidade que procuras, a realidade natural, a realidade animal, a realidade sensual? Sai, se puderes, deste poema vicioso, abre a janela (abre-a, se puderes) abre e respira. Respira a linguagem (do real), respira o poema (real), não, não podes respirar sem a linguagem, não podes abrir a janela sem romperes o cordão que te liga ao umbigo deste poema fétido que se cerra e que se abre mas que não é como uma pálpebra nem como um lábio, que não é nada, nada, nada, pois nem é um grito, nem uma gruta, nem uma trave, nem uma pedra. A linguagem desdiz tudo o que diz e desdizendo diz. É preciso apagar este poema, enterrá-lo na areia como um animal e que dele reste só a areia redemoinhando acima do focinho que tenta a sufocada respiração. Acima da respiração. A linguagem que respira é o verbo da erva, a palavra verde que murmura e nada diz se diz o nada, o imperceptível sorriso das coisas que não choraram, a alacridade eterna ( efémera) de uma chama, de um espaço, de um corpo.
1 176
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Limite da Noite, Princípio do Corpo

Escolho o lugar do vento, o sopro
da lâmina.
Um sulco rasga o corpo. Não há nomes.
Quero os ombros mais rápidos na frescura.
Há uma entrada no chão? Há uma trave.
Esta é a proa de uma ave estilhaçada.
Quem resiste? E onde? Esta pedra é uma ilha.
Caminho acaso ou divago entre sombras?

Eu não sei se caminho, se destruo o lugar.
Cego avanço numa paisagem branca.
Entre ossos e cinza procuro a luz de um templo.
De vértebras estilhaçadas, avanço no interminável
átrio.

As palavras sonham talvez aqui, excessivas, ofegantes
na sua nulidade. Ouve-se acaso
o rumor do sangue? Eu digo e não vejo,
digo este deserto esta sede este sopro nulo.

Quem habita o caminho que se apaga,
procuro o sossego de um silêncio habitável,
o princípio do corpo.

Quem espera ainda um nome? Eu escolhi o lugar
do vento. Para dormir no alto
da folha. Estar com o céu estrelado e as cigarras
no frágil tumulto do silêncio do lugar.
E a nudez do mar, a nudez do corpo vivo.
Estilhaçado vivo ainda, vivo ou morro?
Quem escreve é uma sombra, quem respira é uma sombra?
O corpo não respira. Ardem apenas sílabas
no vento.

Estou vivo na pedra. Entro na página
e sob a cinza atinjo uma palavra nua.
Há um sinal de insecto e uma obscura estrela
no cimo do vagar.
Alguém se detém na noite vertical
e diz: é aqui,
o templo está vivo na poeira.
E eu morro na margem inacessível, escrevo
para as órbitas vazias
para o abismo da morte.

Abjectas sombras ou amorosas sombras.
Luz em excesso, luz da palavra autoritária,
frígida.

Quem pode esperar ou caminhar ou respirar
se tudo em torno apodrece no círculo?
Escrevo no meio do esterco e da cinza.
Que ninguém me responda.
Quem pode erguer o corpo?
Caem amorosas sombras, amorosas, vivas.

O sopro da lâmina para quem perdeu a terra.
O lugar do vento. O lugar da claridade
móvel. Reúne
aqui a fugaz eternidade. Mais
rápidos os ombros na frescura.
E a noite do corpo, a vermelha noite
do corpo
no limiar da terra.
No meio de destroços, de sílabas perdidas,
canto cego e nu.
Quem povoa este deserto, quem partilha o crime
de escrever à margem sem o corpo,
quem ama o templo do instante renascido
da poeira, o silêncio
habitável,
a nudez luminosa além dos ossos e das cinzas?

A voz obscura a voz que cega este caminho branco
enuncia o horror
da violência permanente e do desastre.
Eu digo aqui o amontoado mudo dos sinais
a paragem da roda sinistra
o oco de umas sílabas sem sombra.

Que luz ainda se ergueria que arco de espuma
por que veredas matinais por que colinas
onde as raparigas adormecem com o sol
que nostalgia de palavras ébrias
que trabalho feliz junto das árvores
que coincidência com o movimento da terra
que relação tão vasta e tão serena
não mais que uma passagem tranquila
em que o espaço se dilata espaço lúcido.

Que seria se eu avançasse sem sinais?
Um sinal ainda. No centro, ao lado.
Um animal submerso, uma rapariga nua?
Esquece ou não esqueças. Espera
o imprevisível. Trabalha no obscuro.
Respira com o fogo, respira com a sombra.
Caminha ao encontro das raízes do espaço.
Nada mais que uma relação, uma passagem.
Múltipla de olhos diversos repousada
no centro vazio do movimento
a língua azul e que anéis de claridade
que bálsamo no ventre que primavera de sombra
que segredos que noite tranquila em pleno dia!
1 230
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Limite da Noite, Princípio do Corpo

Escolho o lugar do vento, o sopro
da lâmina.
Um sulco rasga o corpo. Não há nomes.
Quero os ombros mais rápidos na frescura.
Há uma entrada no chão? Há uma trave.
Esta é a proa de uma ave estilhaçada.
Quem resiste? E onde? Esta pedra é uma ilha.
Caminho acaso ou divago entre sombras?

Eu não sei se caminho, se destruo o lugar.
Cego avanço numa paisagem branca.
Entre ossos e cinza procuro a luz de um templo.
De vértebras estilhaçadas, avanço no interminável
átrio.

As palavras sonham talvez aqui, excessivas, ofegantes
na sua nulidade. Ouve-se acaso
o rumor do sangue? Eu digo e não vejo,
digo este deserto esta sede este sopro nulo.

Quem habita o caminho que se apaga,
procuro o sossego de um silêncio habitável,
o princípio do corpo.

Quem espera ainda um nome? Eu escolhi o lugar
do vento. Para dormir no alto
da folha. Estar com o céu estrelado e as cigarras
no frágil tumulto do silêncio do lugar.
E a nudez do mar, a nudez do corpo vivo.
Estilhaçado vivo ainda, vivo ou morro?
Quem escreve é uma sombra, quem respira é uma sombra?
O corpo não respira. Ardem apenas sílabas
no vento.

Estou vivo na pedra. Entro na página
e sob a cinza atinjo uma palavra nua.
Há um sinal de insecto e uma obscura estrela
no cimo do vagar.
Alguém se detém na noite vertical
e diz: é aqui,
o templo está vivo na poeira.
E eu morro na margem inacessível, escrevo
para as órbitas vazias
para o abismo da morte.

Abjectas sombras ou amorosas sombras.
Luz em excesso, luz da palavra autoritária,
frígida.

Quem pode esperar ou caminhar ou respirar
se tudo em torno apodrece no círculo?
Escrevo no meio do esterco e da cinza.
Que ninguém me responda.
Quem pode erguer o corpo?
Caem amorosas sombras, amorosas, vivas.

O sopro da lâmina para quem perdeu a terra.
O lugar do vento. O lugar da claridade
móvel. Reúne
aqui a fugaz eternidade. Mais
rápidos os ombros na frescura.
E a noite do corpo, a vermelha noite
do corpo
no limiar da terra.
No meio de destroços, de sílabas perdidas,
canto cego e nu.
Quem povoa este deserto, quem partilha o crime
de escrever à margem sem o corpo,
quem ama o templo do instante renascido
da poeira, o silêncio
habitável,
a nudez luminosa além dos ossos e das cinzas?

A voz obscura a voz que cega este caminho branco
enuncia o horror
da violência permanente e do desastre.
Eu digo aqui o amontoado mudo dos sinais
a paragem da roda sinistra
o oco de umas sílabas sem sombra.

Que luz ainda se ergueria que arco de espuma
por que veredas matinais por que colinas
onde as raparigas adormecem com o sol
que nostalgia de palavras ébrias
que trabalho feliz junto das árvores
que coincidência com o movimento da terra
que relação tão vasta e tão serena
não mais que uma passagem tranquila
em que o espaço se dilata espaço lúcido.

Que seria se eu avançasse sem sinais?
Um sinal ainda. No centro, ao lado.
Um animal submerso, uma rapariga nua?
Esquece ou não esqueças. Espera
o imprevisível. Trabalha no obscuro.
Respira com o fogo, respira com a sombra.
Caminha ao encontro das raízes do espaço.
Nada mais que uma relação, uma passagem.
Múltipla de olhos diversos repousada
no centro vazio do movimento
a língua azul e que anéis de claridade
que bálsamo no ventre que primavera de sombra
que segredos que noite tranquila em pleno dia!
1 230
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Limite da Noite, Princípio do Corpo

Escolho o lugar do vento, o sopro
da lâmina.
Um sulco rasga o corpo. Não há nomes.
Quero os ombros mais rápidos na frescura.
Há uma entrada no chão? Há uma trave.
Esta é a proa de uma ave estilhaçada.
Quem resiste? E onde? Esta pedra é uma ilha.
Caminho acaso ou divago entre sombras?

Eu não sei se caminho, se destruo o lugar.
Cego avanço numa paisagem branca.
Entre ossos e cinza procuro a luz de um templo.
De vértebras estilhaçadas, avanço no interminável
átrio.

As palavras sonham talvez aqui, excessivas, ofegantes
na sua nulidade. Ouve-se acaso
o rumor do sangue? Eu digo e não vejo,
digo este deserto esta sede este sopro nulo.

Quem habita o caminho que se apaga,
procuro o sossego de um silêncio habitável,
o princípio do corpo.

Quem espera ainda um nome? Eu escolhi o lugar
do vento. Para dormir no alto
da folha. Estar com o céu estrelado e as cigarras
no frágil tumulto do silêncio do lugar.
E a nudez do mar, a nudez do corpo vivo.
Estilhaçado vivo ainda, vivo ou morro?
Quem escreve é uma sombra, quem respira é uma sombra?
O corpo não respira. Ardem apenas sílabas
no vento.

Estou vivo na pedra. Entro na página
e sob a cinza atinjo uma palavra nua.
Há um sinal de insecto e uma obscura estrela
no cimo do vagar.
Alguém se detém na noite vertical
e diz: é aqui,
o templo está vivo na poeira.
E eu morro na margem inacessível, escrevo
para as órbitas vazias
para o abismo da morte.

Abjectas sombras ou amorosas sombras.
Luz em excesso, luz da palavra autoritária,
frígida.

Quem pode esperar ou caminhar ou respirar
se tudo em torno apodrece no círculo?
Escrevo no meio do esterco e da cinza.
Que ninguém me responda.
Quem pode erguer o corpo?
Caem amorosas sombras, amorosas, vivas.

O sopro da lâmina para quem perdeu a terra.
O lugar do vento. O lugar da claridade
móvel. Reúne
aqui a fugaz eternidade. Mais
rápidos os ombros na frescura.
E a noite do corpo, a vermelha noite
do corpo
no limiar da terra.
No meio de destroços, de sílabas perdidas,
canto cego e nu.
Quem povoa este deserto, quem partilha o crime
de escrever à margem sem o corpo,
quem ama o templo do instante renascido
da poeira, o silêncio
habitável,
a nudez luminosa além dos ossos e das cinzas?

A voz obscura a voz que cega este caminho branco
enuncia o horror
da violência permanente e do desastre.
Eu digo aqui o amontoado mudo dos sinais
a paragem da roda sinistra
o oco de umas sílabas sem sombra.

Que luz ainda se ergueria que arco de espuma
por que veredas matinais por que colinas
onde as raparigas adormecem com o sol
que nostalgia de palavras ébrias
que trabalho feliz junto das árvores
que coincidência com o movimento da terra
que relação tão vasta e tão serena
não mais que uma passagem tranquila
em que o espaço se dilata espaço lúcido.

Que seria se eu avançasse sem sinais?
Um sinal ainda. No centro, ao lado.
Um animal submerso, uma rapariga nua?
Esquece ou não esqueças. Espera
o imprevisível. Trabalha no obscuro.
Respira com o fogo, respira com a sombra.
Caminha ao encontro das raízes do espaço.
Nada mais que uma relação, uma passagem.
Múltipla de olhos diversos repousada
no centro vazio do movimento
a língua azul e que anéis de claridade
que bálsamo no ventre que primavera de sombra
que segredos que noite tranquila em pleno dia!
1 230
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Metamorfose Branca

Por toda a parte
um corpo
o mesmo corpo
Para mutilar
Para eliminar

Por toda a parte
a anarquia do canto
dos nervos
da escrita
do único corpo?

O universo escreve-se no corpo
Tudo se escreve no corpo
A mulher     o animal     a noite intacta
a morte
a ferida permanente

(A mão fora do abismo tenta escrever ainda mas quê? Com que instrumento subtil paciente impaciente? Com que matéria? Em que rectângulo do ar recortado no vazio?)

Tudo desaparece
A nitidez da letra
apaga-se
no papel
Uma palavra subsiste uma marca
no corpo
no texto

A marca do corpo desfaz
o texto
que se apaga
e arde
de letra em letra
de ferida em ferida

Cruel nudez do texto e do corpo
do corpo perdido
fixo
na letra do texto
que o devora
que o desnuda
anula

O texto apaga-se
e acende-se
no limite
metamorfose da morte do corpo
vida do corpo impossível
em cada letra flui o sangue novo
da palavra do corpo

Uma ferida só uma longa ferida
de terra
vocábulo de sangue e pedra
………………………………………………
Este é o espaço mortal do corpo
Este é o corpo nascente e branco do vocábulo
Esta é a respiração da página
Constelações navios promessas
Sangue da metamorfose da palavra

No limiar do deserto as palavras de fogo branco são a cinza de um fogo perdido de um fogo a acender com a respiração do deserto ou do mar.
As palavras encrespam-se acendem-se ao vento que as despe e as despoja avivando com o ar vivo do sal e da areia a rosa de um dizer que nasce da incessante solidão da sua sede.

Os vocábulos são como um rumor de cavalos
adormecidos
e a sua brancura é vida
através da morte e do branco

Cada caminho de palavras na página
conduz-nos
a uma pedra
Esta pedra é a do sepulcro ou o sinal de um perpétuo adiamento
uma espera indefinida sem esperança
sinal de suspensão
que se anula
para que o caminho prossiga
de novo
as palavras vivem solitárias
o sal o vento e o sol despertam
uma boca ressequida e verde uma boca lenta longínqua de ócio fresco

Vivem as palavras
do suicídio da brancura
renascem     brancas
espuma breve
de que pureza mortal
para que sede sempre insatisfeita
de um início de água
de uma linguagem de água

(A morte das palavras na página será a metamorfose que não foge à morte a vida a outra vida que seria o início sempre possível e impossível do nosso nascimento.)

Mas que palavras dirão a morte impossível inominável? Que morte é a morte da linguagem e do corpo? Simulacro aparência espectáculo fumo de palavras sem sangue e sem corpo
infinita e ridícula hemorragia em torno de um ponto
morto que nada reflecte nem o eco sequer de qualquer vida. Por momentos e num espaço que logo se olvida a palavra morre com a morte sem a morte irrecuperável soberana

o hiato aqui é inenarrável
A linguagem renascerá além na margem fria da manhã
A linguagem será o corpo o corpo nu(lo)

O corpo de metamorfose é o corpo que já não pertence à vida nem à morte tornou-se na linguagem obscura e branca de cada vocábulo fechado e aberto como uma ferida. Quem fala é a língua desta morte-vida aqui e para além sempre no limiar do inacessível. Milhares de pálpebras se fecham sob cada palavra que se levanta e o silêncio desses olhos perturba a palavra, torna-a ilegível na sua legibilidade

O vocábulo não é plano e liso Nos seus subterrâneos milhares de vozes se calaram para que o vocábulo emergisse como a palavra da metamorfose no limiar do nada

Na sua impossibilidade esta é a única voz que atravessa o inexorável a voz paciente e sôfrega ardente e impaciente a voz que espera sem esperança
1 049
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Metamorfose Branca

Por toda a parte
um corpo
o mesmo corpo
Para mutilar
Para eliminar

Por toda a parte
a anarquia do canto
dos nervos
da escrita
do único corpo?

O universo escreve-se no corpo
Tudo se escreve no corpo
A mulher     o animal     a noite intacta
a morte
a ferida permanente

(A mão fora do abismo tenta escrever ainda mas quê? Com que instrumento subtil paciente impaciente? Com que matéria? Em que rectângulo do ar recortado no vazio?)

Tudo desaparece
A nitidez da letra
apaga-se
no papel
Uma palavra subsiste uma marca
no corpo
no texto

A marca do corpo desfaz
o texto
que se apaga
e arde
de letra em letra
de ferida em ferida

Cruel nudez do texto e do corpo
do corpo perdido
fixo
na letra do texto
que o devora
que o desnuda
anula

O texto apaga-se
e acende-se
no limite
metamorfose da morte do corpo
vida do corpo impossível
em cada letra flui o sangue novo
da palavra do corpo

Uma ferida só uma longa ferida
de terra
vocábulo de sangue e pedra
………………………………………………
Este é o espaço mortal do corpo
Este é o corpo nascente e branco do vocábulo
Esta é a respiração da página
Constelações navios promessas
Sangue da metamorfose da palavra

No limiar do deserto as palavras de fogo branco são a cinza de um fogo perdido de um fogo a acender com a respiração do deserto ou do mar.
As palavras encrespam-se acendem-se ao vento que as despe e as despoja avivando com o ar vivo do sal e da areia a rosa de um dizer que nasce da incessante solidão da sua sede.

Os vocábulos são como um rumor de cavalos
adormecidos
e a sua brancura é vida
através da morte e do branco

Cada caminho de palavras na página
conduz-nos
a uma pedra
Esta pedra é a do sepulcro ou o sinal de um perpétuo adiamento
uma espera indefinida sem esperança
sinal de suspensão
que se anula
para que o caminho prossiga
de novo
as palavras vivem solitárias
o sal o vento e o sol despertam
uma boca ressequida e verde uma boca lenta longínqua de ócio fresco

Vivem as palavras
do suicídio da brancura
renascem     brancas
espuma breve
de que pureza mortal
para que sede sempre insatisfeita
de um início de água
de uma linguagem de água

(A morte das palavras na página será a metamorfose que não foge à morte a vida a outra vida que seria o início sempre possível e impossível do nosso nascimento.)

Mas que palavras dirão a morte impossível inominável? Que morte é a morte da linguagem e do corpo? Simulacro aparência espectáculo fumo de palavras sem sangue e sem corpo
infinita e ridícula hemorragia em torno de um ponto
morto que nada reflecte nem o eco sequer de qualquer vida. Por momentos e num espaço que logo se olvida a palavra morre com a morte sem a morte irrecuperável soberana

o hiato aqui é inenarrável
A linguagem renascerá além na margem fria da manhã
A linguagem será o corpo o corpo nu(lo)

O corpo de metamorfose é o corpo que já não pertence à vida nem à morte tornou-se na linguagem obscura e branca de cada vocábulo fechado e aberto como uma ferida. Quem fala é a língua desta morte-vida aqui e para além sempre no limiar do inacessível. Milhares de pálpebras se fecham sob cada palavra que se levanta e o silêncio desses olhos perturba a palavra, torna-a ilegível na sua legibilidade

O vocábulo não é plano e liso Nos seus subterrâneos milhares de vozes se calaram para que o vocábulo emergisse como a palavra da metamorfose no limiar do nada

Na sua impossibilidade esta é a única voz que atravessa o inexorável a voz paciente e sôfrega ardente e impaciente a voz que espera sem esperança
1 049