Poemas neste tema
Outros
António Ramos Rosa
Ambos Nos Transformámos, Ambos Somos
Ambos nos transformámos, ambos somos.
Mas quem somos?
Alguém nos indicou no espelho. E nós olhámos
o estranho homem que desceu as escadas.
Eu não sou tu. Tu não virás se
eu não souber
transformar a ignorância no trajecto
das palavras à imagem
nua.
Ambos nos separamos, confundidos.
Não somos mais que esta passagem única
mas agora quem escreve sou eu ou tu
e somos ambos a pergunta viva.
Mas quem somos?
Alguém nos indicou no espelho. E nós olhámos
o estranho homem que desceu as escadas.
Eu não sou tu. Tu não virás se
eu não souber
transformar a ignorância no trajecto
das palavras à imagem
nua.
Ambos nos separamos, confundidos.
Não somos mais que esta passagem única
mas agora quem escreve sou eu ou tu
e somos ambos a pergunta viva.
964
António Ramos Rosa
Adormecendo, Procura Como Que
Adormecendo, procura como que
uma folha perdida, branca.
Como se a vida fosse lisa
respira um sono à beira de água.
Acordá-lo seria destruí-lo.
Agora ele é o bafo da folhagem,
uma pedra sem arestas e sem nome,
um campo de murmúrios,
um começo infinito.
uma folha perdida, branca.
Como se a vida fosse lisa
respira um sono à beira de água.
Acordá-lo seria destruí-lo.
Agora ele é o bafo da folhagem,
uma pedra sem arestas e sem nome,
um campo de murmúrios,
um começo infinito.
929
António Ramos Rosa
O Sol Negro o Sol Branco
Pedras sombras árvores. Palavras
consciência negra do sol. Consciência da contínua
explosão.
Consciência do inifinitamente frágil e mortal.
Consciência da consciência efémera.
Sabor fúnebre da iminência.
Vácuo na cabeça e a mão que escreve
lenta, consciente? Estas palavras
que não são do desejo
nem de combate
nem são ainda do completo abandono
do desencontro mortal.
Podem dizer-me que estas pedras não são pedras
que acumulo sombras
e que não respiro as árvores
que ignoro tudo e escrevo nada.
Vivo ainda destas palavras
as mais pobres que encontro
nenhuma delas tão pobre como eu
nenhuma delas tão nua que te atinja a ti
a nós.
Disse sol outrora como se dissesse o sol
e era a morte viva que designava
era o negro esplendor do nada
era o vazio entre os espaços
de cada ser e cada coisa.
Mas era a vontade de um combate.
Era o desejo de alcançar a força viva
de lhe criar um espaço para mim e para ti
para viver ao sol desperto e nu
para viver no ser aberto
como um animal
como uma força fraterna
um corpo livre.
Cada palavra como uma pedra sobre a pedra
exacta e verdadeira.
E entre sombras e ramos entrar na clareira
do ser
onde a luz é a do encontro e do repouso
a perfeição tranquila e vegetal
a unidade íntima
o amor de estar.
consciência negra do sol. Consciência da contínua
explosão.
Consciência do inifinitamente frágil e mortal.
Consciência da consciência efémera.
Sabor fúnebre da iminência.
Vácuo na cabeça e a mão que escreve
lenta, consciente? Estas palavras
que não são do desejo
nem de combate
nem são ainda do completo abandono
do desencontro mortal.
Podem dizer-me que estas pedras não são pedras
que acumulo sombras
e que não respiro as árvores
que ignoro tudo e escrevo nada.
Vivo ainda destas palavras
as mais pobres que encontro
nenhuma delas tão pobre como eu
nenhuma delas tão nua que te atinja a ti
a nós.
Disse sol outrora como se dissesse o sol
e era a morte viva que designava
era o negro esplendor do nada
era o vazio entre os espaços
de cada ser e cada coisa.
Mas era a vontade de um combate.
Era o desejo de alcançar a força viva
de lhe criar um espaço para mim e para ti
para viver ao sol desperto e nu
para viver no ser aberto
como um animal
como uma força fraterna
um corpo livre.
Cada palavra como uma pedra sobre a pedra
exacta e verdadeira.
E entre sombras e ramos entrar na clareira
do ser
onde a luz é a do encontro e do repouso
a perfeição tranquila e vegetal
a unidade íntima
o amor de estar.
637
António Ramos Rosa
O Sol Negro o Sol Branco
Pedras sombras árvores. Palavras
consciência negra do sol. Consciência da contínua
explosão.
Consciência do inifinitamente frágil e mortal.
Consciência da consciência efémera.
Sabor fúnebre da iminência.
Vácuo na cabeça e a mão que escreve
lenta, consciente? Estas palavras
que não são do desejo
nem de combate
nem são ainda do completo abandono
do desencontro mortal.
Podem dizer-me que estas pedras não são pedras
que acumulo sombras
e que não respiro as árvores
que ignoro tudo e escrevo nada.
Vivo ainda destas palavras
as mais pobres que encontro
nenhuma delas tão pobre como eu
nenhuma delas tão nua que te atinja a ti
a nós.
Disse sol outrora como se dissesse o sol
e era a morte viva que designava
era o negro esplendor do nada
era o vazio entre os espaços
de cada ser e cada coisa.
Mas era a vontade de um combate.
Era o desejo de alcançar a força viva
de lhe criar um espaço para mim e para ti
para viver ao sol desperto e nu
para viver no ser aberto
como um animal
como uma força fraterna
um corpo livre.
Cada palavra como uma pedra sobre a pedra
exacta e verdadeira.
E entre sombras e ramos entrar na clareira
do ser
onde a luz é a do encontro e do repouso
a perfeição tranquila e vegetal
a unidade íntima
o amor de estar.
consciência negra do sol. Consciência da contínua
explosão.
Consciência do inifinitamente frágil e mortal.
Consciência da consciência efémera.
Sabor fúnebre da iminência.
Vácuo na cabeça e a mão que escreve
lenta, consciente? Estas palavras
que não são do desejo
nem de combate
nem são ainda do completo abandono
do desencontro mortal.
Podem dizer-me que estas pedras não são pedras
que acumulo sombras
e que não respiro as árvores
que ignoro tudo e escrevo nada.
Vivo ainda destas palavras
as mais pobres que encontro
nenhuma delas tão pobre como eu
nenhuma delas tão nua que te atinja a ti
a nós.
Disse sol outrora como se dissesse o sol
e era a morte viva que designava
era o negro esplendor do nada
era o vazio entre os espaços
de cada ser e cada coisa.
Mas era a vontade de um combate.
Era o desejo de alcançar a força viva
de lhe criar um espaço para mim e para ti
para viver ao sol desperto e nu
para viver no ser aberto
como um animal
como uma força fraterna
um corpo livre.
Cada palavra como uma pedra sobre a pedra
exacta e verdadeira.
E entre sombras e ramos entrar na clareira
do ser
onde a luz é a do encontro e do repouso
a perfeição tranquila e vegetal
a unidade íntima
o amor de estar.
637
António Ramos Rosa
6. Aquela Linha Ou Esta ——
6
Aquela linha ou esta ——
para a figura aberta para o voo
da figura destruída ou destruída folha.
Ontem era manhã da mão e ave
emboscada na folhagem e agora o que
resta do acto ainda é o acto aqui acto do pássaro.
Vi-o. Não o vi na visão gasta. Aqui
sem número no escuro da mão desgasta
finda destruindo o nome — pássaro.
Aquela linha ou esta ——
para a figura aberta para o voo
da figura destruída ou destruída folha.
Ontem era manhã da mão e ave
emboscada na folhagem e agora o que
resta do acto ainda é o acto aqui acto do pássaro.
Vi-o. Não o vi na visão gasta. Aqui
sem número no escuro da mão desgasta
finda destruindo o nome — pássaro.
998
António Ramos Rosa
6. Aquela Linha Ou Esta ——
6
Aquela linha ou esta ——
para a figura aberta para o voo
da figura destruída ou destruída folha.
Ontem era manhã da mão e ave
emboscada na folhagem e agora o que
resta do acto ainda é o acto aqui acto do pássaro.
Vi-o. Não o vi na visão gasta. Aqui
sem número no escuro da mão desgasta
finda destruindo o nome — pássaro.
Aquela linha ou esta ——
para a figura aberta para o voo
da figura destruída ou destruída folha.
Ontem era manhã da mão e ave
emboscada na folhagem e agora o que
resta do acto ainda é o acto aqui acto do pássaro.
Vi-o. Não o vi na visão gasta. Aqui
sem número no escuro da mão desgasta
finda destruindo o nome — pássaro.
998
António Ramos Rosa
Desejo E Deserto,…
Desejo e deserto, primeira e última sombra suscitando sobre o muro a respiração de um nada, estática sombra de ar, clarão de pedra negra que mal vejo, que retém o nada da sombra, a sombra de um nada quase terra, indelével a para sempre nesse instante perdida, aérea no muro.
1 295
António Ramos Rosa
Desejo E Deserto,…
Desejo e deserto, primeira e última sombra suscitando sobre o muro a respiração de um nada, estática sombra de ar, clarão de pedra negra que mal vejo, que retém o nada da sombra, a sombra de um nada quase terra, indelével a para sempre nesse instante perdida, aérea no muro.
1 295
António Ramos Rosa
A Espessura É Branca
A espessura da árvore
é branca
A casa repercute
os favos do silêncio
Ouço a medula da madeira
o pudor do silêncio jovem
O sangue circula sem bandeiras
ri na brancura
do corpo
Um rosto sob a cabeleira
rompe
no ardor do instante
em relâmpagos de ternura
Todas as hastes livres nascem
do quadrado aberto
sobre o rio
A palavra é um rosto que deixa ver o branco
do seu tremor
Do branco ao negro o branco
fogo
de uma árvore que estala em cada mão
O tronco antigo
é a casa nova
nos seus ramos vivos
*
Não uma escrita invulgar mas como as ervas
pobres. Como as pedras.
Tu poderás captar o esplendor.
Chamar-lhe-ás suave sob um sono de árvores.
Caminharás entre as plantas. Sentirás a sua sede.
E o olhar abrir-se-á no escuro fresco.
Ninguém te dirá que não te perdes na
densa água negra. Ou no branco papel.
Nunca apagarás o desejo. Nem
desistirás de procurar o lugar
ainda que lhe chames ausência.
Procura e não procures. Não existe um centro.
Mas a clareira por vezes
de súbito retém-nos.
*
Não é o tempo da lucidez amada.
Não é o tempo do templo, não invoques
a chama da árvore. Estende o braço na água.
Escreve como se não escrevesses.
Este é um campo onde plantas brancas
se avermelham às vezes nos quadrados.
Se puderes aviva as fugidias
relações
de uma parede de sombra
interrompe o clamor da cidade
lê os indecifráveis signos da força silenciosa.
Que os insectos estalem de súbito no ardor
de uma estação precária
e entre as ruínas, a frescura da luz,
de umas palavras: argila fogo pedra
iluminem o frágil rosto macerado.
*
A linguagem das coisas é um sono
verde. E tu não procuras
ver, tu vês a sombra e o espaço.
E o teu desejo é no lugar a água branca.
A casa junto aos juncos,
memória anulada, amor de nada e súbita
queda num apagado rumor de um nome.
A terra que pronuncias sabe ao desejo
de uma boca nas ervas
ou de um vaso escuro cheio de água clara.
Tudo o que se diz fica por dizer.
Como se um elemento faltasse na paisagem,
mas de súbito na distância próxima
a figura de luz do horizonte.
é branca
A casa repercute
os favos do silêncio
Ouço a medula da madeira
o pudor do silêncio jovem
O sangue circula sem bandeiras
ri na brancura
do corpo
Um rosto sob a cabeleira
rompe
no ardor do instante
em relâmpagos de ternura
Todas as hastes livres nascem
do quadrado aberto
sobre o rio
A palavra é um rosto que deixa ver o branco
do seu tremor
Do branco ao negro o branco
fogo
de uma árvore que estala em cada mão
O tronco antigo
é a casa nova
nos seus ramos vivos
*
Não uma escrita invulgar mas como as ervas
pobres. Como as pedras.
Tu poderás captar o esplendor.
Chamar-lhe-ás suave sob um sono de árvores.
Caminharás entre as plantas. Sentirás a sua sede.
E o olhar abrir-se-á no escuro fresco.
Ninguém te dirá que não te perdes na
densa água negra. Ou no branco papel.
Nunca apagarás o desejo. Nem
desistirás de procurar o lugar
ainda que lhe chames ausência.
Procura e não procures. Não existe um centro.
Mas a clareira por vezes
de súbito retém-nos.
*
Não é o tempo da lucidez amada.
Não é o tempo do templo, não invoques
a chama da árvore. Estende o braço na água.
Escreve como se não escrevesses.
Este é um campo onde plantas brancas
se avermelham às vezes nos quadrados.
Se puderes aviva as fugidias
relações
de uma parede de sombra
interrompe o clamor da cidade
lê os indecifráveis signos da força silenciosa.
Que os insectos estalem de súbito no ardor
de uma estação precária
e entre as ruínas, a frescura da luz,
de umas palavras: argila fogo pedra
iluminem o frágil rosto macerado.
*
A linguagem das coisas é um sono
verde. E tu não procuras
ver, tu vês a sombra e o espaço.
E o teu desejo é no lugar a água branca.
A casa junto aos juncos,
memória anulada, amor de nada e súbita
queda num apagado rumor de um nome.
A terra que pronuncias sabe ao desejo
de uma boca nas ervas
ou de um vaso escuro cheio de água clara.
Tudo o que se diz fica por dizer.
Como se um elemento faltasse na paisagem,
mas de súbito na distância próxima
a figura de luz do horizonte.
1 070
António Ramos Rosa
A Espessura É Branca
A espessura da árvore
é branca
A casa repercute
os favos do silêncio
Ouço a medula da madeira
o pudor do silêncio jovem
O sangue circula sem bandeiras
ri na brancura
do corpo
Um rosto sob a cabeleira
rompe
no ardor do instante
em relâmpagos de ternura
Todas as hastes livres nascem
do quadrado aberto
sobre o rio
A palavra é um rosto que deixa ver o branco
do seu tremor
Do branco ao negro o branco
fogo
de uma árvore que estala em cada mão
O tronco antigo
é a casa nova
nos seus ramos vivos
*
Não uma escrita invulgar mas como as ervas
pobres. Como as pedras.
Tu poderás captar o esplendor.
Chamar-lhe-ás suave sob um sono de árvores.
Caminharás entre as plantas. Sentirás a sua sede.
E o olhar abrir-se-á no escuro fresco.
Ninguém te dirá que não te perdes na
densa água negra. Ou no branco papel.
Nunca apagarás o desejo. Nem
desistirás de procurar o lugar
ainda que lhe chames ausência.
Procura e não procures. Não existe um centro.
Mas a clareira por vezes
de súbito retém-nos.
*
Não é o tempo da lucidez amada.
Não é o tempo do templo, não invoques
a chama da árvore. Estende o braço na água.
Escreve como se não escrevesses.
Este é um campo onde plantas brancas
se avermelham às vezes nos quadrados.
Se puderes aviva as fugidias
relações
de uma parede de sombra
interrompe o clamor da cidade
lê os indecifráveis signos da força silenciosa.
Que os insectos estalem de súbito no ardor
de uma estação precária
e entre as ruínas, a frescura da luz,
de umas palavras: argila fogo pedra
iluminem o frágil rosto macerado.
*
A linguagem das coisas é um sono
verde. E tu não procuras
ver, tu vês a sombra e o espaço.
E o teu desejo é no lugar a água branca.
A casa junto aos juncos,
memória anulada, amor de nada e súbita
queda num apagado rumor de um nome.
A terra que pronuncias sabe ao desejo
de uma boca nas ervas
ou de um vaso escuro cheio de água clara.
Tudo o que se diz fica por dizer.
Como se um elemento faltasse na paisagem,
mas de súbito na distância próxima
a figura de luz do horizonte.
é branca
A casa repercute
os favos do silêncio
Ouço a medula da madeira
o pudor do silêncio jovem
O sangue circula sem bandeiras
ri na brancura
do corpo
Um rosto sob a cabeleira
rompe
no ardor do instante
em relâmpagos de ternura
Todas as hastes livres nascem
do quadrado aberto
sobre o rio
A palavra é um rosto que deixa ver o branco
do seu tremor
Do branco ao negro o branco
fogo
de uma árvore que estala em cada mão
O tronco antigo
é a casa nova
nos seus ramos vivos
*
Não uma escrita invulgar mas como as ervas
pobres. Como as pedras.
Tu poderás captar o esplendor.
Chamar-lhe-ás suave sob um sono de árvores.
Caminharás entre as plantas. Sentirás a sua sede.
E o olhar abrir-se-á no escuro fresco.
Ninguém te dirá que não te perdes na
densa água negra. Ou no branco papel.
Nunca apagarás o desejo. Nem
desistirás de procurar o lugar
ainda que lhe chames ausência.
Procura e não procures. Não existe um centro.
Mas a clareira por vezes
de súbito retém-nos.
*
Não é o tempo da lucidez amada.
Não é o tempo do templo, não invoques
a chama da árvore. Estende o braço na água.
Escreve como se não escrevesses.
Este é um campo onde plantas brancas
se avermelham às vezes nos quadrados.
Se puderes aviva as fugidias
relações
de uma parede de sombra
interrompe o clamor da cidade
lê os indecifráveis signos da força silenciosa.
Que os insectos estalem de súbito no ardor
de uma estação precária
e entre as ruínas, a frescura da luz,
de umas palavras: argila fogo pedra
iluminem o frágil rosto macerado.
*
A linguagem das coisas é um sono
verde. E tu não procuras
ver, tu vês a sombra e o espaço.
E o teu desejo é no lugar a água branca.
A casa junto aos juncos,
memória anulada, amor de nada e súbita
queda num apagado rumor de um nome.
A terra que pronuncias sabe ao desejo
de uma boca nas ervas
ou de um vaso escuro cheio de água clara.
Tudo o que se diz fica por dizer.
Como se um elemento faltasse na paisagem,
mas de súbito na distância próxima
a figura de luz do horizonte.
1 070
António Ramos Rosa
A Espessura É Branca
A espessura da árvore
é branca
A casa repercute
os favos do silêncio
Ouço a medula da madeira
o pudor do silêncio jovem
O sangue circula sem bandeiras
ri na brancura
do corpo
Um rosto sob a cabeleira
rompe
no ardor do instante
em relâmpagos de ternura
Todas as hastes livres nascem
do quadrado aberto
sobre o rio
A palavra é um rosto que deixa ver o branco
do seu tremor
Do branco ao negro o branco
fogo
de uma árvore que estala em cada mão
O tronco antigo
é a casa nova
nos seus ramos vivos
*
Não uma escrita invulgar mas como as ervas
pobres. Como as pedras.
Tu poderás captar o esplendor.
Chamar-lhe-ás suave sob um sono de árvores.
Caminharás entre as plantas. Sentirás a sua sede.
E o olhar abrir-se-á no escuro fresco.
Ninguém te dirá que não te perdes na
densa água negra. Ou no branco papel.
Nunca apagarás o desejo. Nem
desistirás de procurar o lugar
ainda que lhe chames ausência.
Procura e não procures. Não existe um centro.
Mas a clareira por vezes
de súbito retém-nos.
*
Não é o tempo da lucidez amada.
Não é o tempo do templo, não invoques
a chama da árvore. Estende o braço na água.
Escreve como se não escrevesses.
Este é um campo onde plantas brancas
se avermelham às vezes nos quadrados.
Se puderes aviva as fugidias
relações
de uma parede de sombra
interrompe o clamor da cidade
lê os indecifráveis signos da força silenciosa.
Que os insectos estalem de súbito no ardor
de uma estação precária
e entre as ruínas, a frescura da luz,
de umas palavras: argila fogo pedra
iluminem o frágil rosto macerado.
*
A linguagem das coisas é um sono
verde. E tu não procuras
ver, tu vês a sombra e o espaço.
E o teu desejo é no lugar a água branca.
A casa junto aos juncos,
memória anulada, amor de nada e súbita
queda num apagado rumor de um nome.
A terra que pronuncias sabe ao desejo
de uma boca nas ervas
ou de um vaso escuro cheio de água clara.
Tudo o que se diz fica por dizer.
Como se um elemento faltasse na paisagem,
mas de súbito na distância próxima
a figura de luz do horizonte.
é branca
A casa repercute
os favos do silêncio
Ouço a medula da madeira
o pudor do silêncio jovem
O sangue circula sem bandeiras
ri na brancura
do corpo
Um rosto sob a cabeleira
rompe
no ardor do instante
em relâmpagos de ternura
Todas as hastes livres nascem
do quadrado aberto
sobre o rio
A palavra é um rosto que deixa ver o branco
do seu tremor
Do branco ao negro o branco
fogo
de uma árvore que estala em cada mão
O tronco antigo
é a casa nova
nos seus ramos vivos
*
Não uma escrita invulgar mas como as ervas
pobres. Como as pedras.
Tu poderás captar o esplendor.
Chamar-lhe-ás suave sob um sono de árvores.
Caminharás entre as plantas. Sentirás a sua sede.
E o olhar abrir-se-á no escuro fresco.
Ninguém te dirá que não te perdes na
densa água negra. Ou no branco papel.
Nunca apagarás o desejo. Nem
desistirás de procurar o lugar
ainda que lhe chames ausência.
Procura e não procures. Não existe um centro.
Mas a clareira por vezes
de súbito retém-nos.
*
Não é o tempo da lucidez amada.
Não é o tempo do templo, não invoques
a chama da árvore. Estende o braço na água.
Escreve como se não escrevesses.
Este é um campo onde plantas brancas
se avermelham às vezes nos quadrados.
Se puderes aviva as fugidias
relações
de uma parede de sombra
interrompe o clamor da cidade
lê os indecifráveis signos da força silenciosa.
Que os insectos estalem de súbito no ardor
de uma estação precária
e entre as ruínas, a frescura da luz,
de umas palavras: argila fogo pedra
iluminem o frágil rosto macerado.
*
A linguagem das coisas é um sono
verde. E tu não procuras
ver, tu vês a sombra e o espaço.
E o teu desejo é no lugar a água branca.
A casa junto aos juncos,
memória anulada, amor de nada e súbita
queda num apagado rumor de um nome.
A terra que pronuncias sabe ao desejo
de uma boca nas ervas
ou de um vaso escuro cheio de água clara.
Tudo o que se diz fica por dizer.
Como se um elemento faltasse na paisagem,
mas de súbito na distância próxima
a figura de luz do horizonte.
1 070
António Ramos Rosa
Corpo Solto Instantâneo…
Corpo solto instantâneo entre as árvores e o mar, margem de uma claridade de lâmina deserta, corpo devastado pela usura última, caminhando como na primeira página do deserto e já pressentindo e perdendo a primeira palavra do mar.
1 102
António Ramos Rosa
Ela Desloca o Corpo Ao Alto
Ela desloca o corpo ao alto, esse perfeito
campo
das palavras
As carícias nos ombros, nos seios ressoam
na linguagem
As densas coxas altas ostentam o suor
Lança as suas palmas brancas sobre as pernas
Sim Contra o seu ventre contra os seus dentes
contra o musgo, o centro
opaco e negro, vermelho e negro
A língua trabalha as suas cores, penetra
o sexo duro e aberto
E bebe a terra líquida, boca e mãos,
e alta desce aos pés, o sopro cálido
ascende até ao sexo, crispando as palmas brancas
abrindo
a fenda onde as palavras ferem
a fúria verde da sua língua salva
ela lança ela penetra ela levanta-se
branca no espasmo branca no espaço branco
como ela se levanta e arde branca
branca
coluna de silêncio, palmas, boca, espáduas
esplendor da água compacta e alta
horizontal linguagem
campo
das palavras
As carícias nos ombros, nos seios ressoam
na linguagem
As densas coxas altas ostentam o suor
Lança as suas palmas brancas sobre as pernas
Sim Contra o seu ventre contra os seus dentes
contra o musgo, o centro
opaco e negro, vermelho e negro
A língua trabalha as suas cores, penetra
o sexo duro e aberto
E bebe a terra líquida, boca e mãos,
e alta desce aos pés, o sopro cálido
ascende até ao sexo, crispando as palmas brancas
abrindo
a fenda onde as palavras ferem
a fúria verde da sua língua salva
ela lança ela penetra ela levanta-se
branca no espasmo branca no espaço branco
como ela se levanta e arde branca
branca
coluna de silêncio, palmas, boca, espáduas
esplendor da água compacta e alta
horizontal linguagem
1 081
António Ramos Rosa
Ela Desloca o Corpo Ao Alto
Ela desloca o corpo ao alto, esse perfeito
campo
das palavras
As carícias nos ombros, nos seios ressoam
na linguagem
As densas coxas altas ostentam o suor
Lança as suas palmas brancas sobre as pernas
Sim Contra o seu ventre contra os seus dentes
contra o musgo, o centro
opaco e negro, vermelho e negro
A língua trabalha as suas cores, penetra
o sexo duro e aberto
E bebe a terra líquida, boca e mãos,
e alta desce aos pés, o sopro cálido
ascende até ao sexo, crispando as palmas brancas
abrindo
a fenda onde as palavras ferem
a fúria verde da sua língua salva
ela lança ela penetra ela levanta-se
branca no espasmo branca no espaço branco
como ela se levanta e arde branca
branca
coluna de silêncio, palmas, boca, espáduas
esplendor da água compacta e alta
horizontal linguagem
campo
das palavras
As carícias nos ombros, nos seios ressoam
na linguagem
As densas coxas altas ostentam o suor
Lança as suas palmas brancas sobre as pernas
Sim Contra o seu ventre contra os seus dentes
contra o musgo, o centro
opaco e negro, vermelho e negro
A língua trabalha as suas cores, penetra
o sexo duro e aberto
E bebe a terra líquida, boca e mãos,
e alta desce aos pés, o sopro cálido
ascende até ao sexo, crispando as palmas brancas
abrindo
a fenda onde as palavras ferem
a fúria verde da sua língua salva
ela lança ela penetra ela levanta-se
branca no espasmo branca no espaço branco
como ela se levanta e arde branca
branca
coluna de silêncio, palmas, boca, espáduas
esplendor da água compacta e alta
horizontal linguagem
1 081
António Ramos Rosa
Ela Desloca o Corpo Ao Alto
Ela desloca o corpo ao alto, esse perfeito
campo
das palavras
As carícias nos ombros, nos seios ressoam
na linguagem
As densas coxas altas ostentam o suor
Lança as suas palmas brancas sobre as pernas
Sim Contra o seu ventre contra os seus dentes
contra o musgo, o centro
opaco e negro, vermelho e negro
A língua trabalha as suas cores, penetra
o sexo duro e aberto
E bebe a terra líquida, boca e mãos,
e alta desce aos pés, o sopro cálido
ascende até ao sexo, crispando as palmas brancas
abrindo
a fenda onde as palavras ferem
a fúria verde da sua língua salva
ela lança ela penetra ela levanta-se
branca no espasmo branca no espaço branco
como ela se levanta e arde branca
branca
coluna de silêncio, palmas, boca, espáduas
esplendor da água compacta e alta
horizontal linguagem
campo
das palavras
As carícias nos ombros, nos seios ressoam
na linguagem
As densas coxas altas ostentam o suor
Lança as suas palmas brancas sobre as pernas
Sim Contra o seu ventre contra os seus dentes
contra o musgo, o centro
opaco e negro, vermelho e negro
A língua trabalha as suas cores, penetra
o sexo duro e aberto
E bebe a terra líquida, boca e mãos,
e alta desce aos pés, o sopro cálido
ascende até ao sexo, crispando as palmas brancas
abrindo
a fenda onde as palavras ferem
a fúria verde da sua língua salva
ela lança ela penetra ela levanta-se
branca no espasmo branca no espaço branco
como ela se levanta e arde branca
branca
coluna de silêncio, palmas, boca, espáduas
esplendor da água compacta e alta
horizontal linguagem
1 081
António Ramos Rosa
Não Reflectir Não Pousar Isto É Uma
Não reflectir não pousar isto é uma
modulação uma parcela viva uma outra forma do ar
(mas uma parede separa-te da própria folha onde escreves)
todas as palavras se buscam sobre degraus de espuma
aproximamo-nos de uma montanha ou de um parágrafo luminoso
Desejaria escrever sobre a perfeita unidade nocturna
sobre o eclipse do teu corpo que é uma única sílaba e uma elipse
e as cores e as pausas das cores no teu corpo os teus ombros nas ervas
que abstracções tão vivas que intensidades leves
eu lembro-me sempre dessa lâmpada que se extingue no teu quarto
a uma hora indeterminável e absolutamente incoincidente
eu guardo na boca o sabor das tuas coxas cálidas e musgosas
e esta é a hora do silêncio nas ervas e nos pulsos flutuantes
modulação uma parcela viva uma outra forma do ar
(mas uma parede separa-te da própria folha onde escreves)
todas as palavras se buscam sobre degraus de espuma
aproximamo-nos de uma montanha ou de um parágrafo luminoso
Desejaria escrever sobre a perfeita unidade nocturna
sobre o eclipse do teu corpo que é uma única sílaba e uma elipse
e as cores e as pausas das cores no teu corpo os teus ombros nas ervas
que abstracções tão vivas que intensidades leves
eu lembro-me sempre dessa lâmpada que se extingue no teu quarto
a uma hora indeterminável e absolutamente incoincidente
eu guardo na boca o sabor das tuas coxas cálidas e musgosas
e esta é a hora do silêncio nas ervas e nos pulsos flutuantes
1 018
António Ramos Rosa
Não Reflectir Não Pousar Isto É Uma
Não reflectir não pousar isto é uma
modulação uma parcela viva uma outra forma do ar
(mas uma parede separa-te da própria folha onde escreves)
todas as palavras se buscam sobre degraus de espuma
aproximamo-nos de uma montanha ou de um parágrafo luminoso
Desejaria escrever sobre a perfeita unidade nocturna
sobre o eclipse do teu corpo que é uma única sílaba e uma elipse
e as cores e as pausas das cores no teu corpo os teus ombros nas ervas
que abstracções tão vivas que intensidades leves
eu lembro-me sempre dessa lâmpada que se extingue no teu quarto
a uma hora indeterminável e absolutamente incoincidente
eu guardo na boca o sabor das tuas coxas cálidas e musgosas
e esta é a hora do silêncio nas ervas e nos pulsos flutuantes
modulação uma parcela viva uma outra forma do ar
(mas uma parede separa-te da própria folha onde escreves)
todas as palavras se buscam sobre degraus de espuma
aproximamo-nos de uma montanha ou de um parágrafo luminoso
Desejaria escrever sobre a perfeita unidade nocturna
sobre o eclipse do teu corpo que é uma única sílaba e uma elipse
e as cores e as pausas das cores no teu corpo os teus ombros nas ervas
que abstracções tão vivas que intensidades leves
eu lembro-me sempre dessa lâmpada que se extingue no teu quarto
a uma hora indeterminável e absolutamente incoincidente
eu guardo na boca o sabor das tuas coxas cálidas e musgosas
e esta é a hora do silêncio nas ervas e nos pulsos flutuantes
1 018
António Ramos Rosa
Não Reflectir Não Pousar Isto É Uma
Não reflectir não pousar isto é uma
modulação uma parcela viva uma outra forma do ar
(mas uma parede separa-te da própria folha onde escreves)
todas as palavras se buscam sobre degraus de espuma
aproximamo-nos de uma montanha ou de um parágrafo luminoso
Desejaria escrever sobre a perfeita unidade nocturna
sobre o eclipse do teu corpo que é uma única sílaba e uma elipse
e as cores e as pausas das cores no teu corpo os teus ombros nas ervas
que abstracções tão vivas que intensidades leves
eu lembro-me sempre dessa lâmpada que se extingue no teu quarto
a uma hora indeterminável e absolutamente incoincidente
eu guardo na boca o sabor das tuas coxas cálidas e musgosas
e esta é a hora do silêncio nas ervas e nos pulsos flutuantes
modulação uma parcela viva uma outra forma do ar
(mas uma parede separa-te da própria folha onde escreves)
todas as palavras se buscam sobre degraus de espuma
aproximamo-nos de uma montanha ou de um parágrafo luminoso
Desejaria escrever sobre a perfeita unidade nocturna
sobre o eclipse do teu corpo que é uma única sílaba e uma elipse
e as cores e as pausas das cores no teu corpo os teus ombros nas ervas
que abstracções tão vivas que intensidades leves
eu lembro-me sempre dessa lâmpada que se extingue no teu quarto
a uma hora indeterminável e absolutamente incoincidente
eu guardo na boca o sabor das tuas coxas cálidas e musgosas
e esta é a hora do silêncio nas ervas e nos pulsos flutuantes
1 018
António Ramos Rosa
Caminho Com a Pobreza Das Pedras,…
Caminho com a pobreza das pedras, soletrando a areia, soletrando um nome e outro nome na estranheza incerta mas rasgada, vasta como o espaço que me falta e se me abre demais numa branca clareira do olhar.
1 267
António Ramos Rosa
Pulsações da Terra
o gérmen na página o puro
espaço
como o sinal branco
da transgressão feliz
da margem
que o desejo ainda
não atinge
e que poderia
ser
escrever
a lâmpada nas ervas
*
será como desnudar
um corpo no campo
ávido silêncio
voracidade verde
a pulsação da terra
*
não é como um ninho
um ninho verde
o que construo não tem o rosto
de luz e água
mas o sopro da sombra
azul e negro
sob o muro
o que construo vem do desejo
ignorado
e é talvez o arco
do espaço
do silêncio
*
há como que uma densidade
dúctil
um grau variável nas palavras
o sopro de uma praia
e estas linhas
mais livres
mais perto de uma forma de água
de um torso
liso
de um objecto
incontornável
um círculo aberto
impossível possível
*
aqui o braço sem sinal
de sangue
como um pulso sem
vagar
sem saber escrever
e sem a praia
desejando a vaga
a ululante ondulação
caindo no silêncio
da pedra do poema
*
onde a ferida se escreve
lentamente
com os sinais da saliva e do sangue
o murmúrio redondo
a dança
da chama dos músculos
no terraço branco
onde pulsa o desejo
entre o fogo e a sombra
*
eis que o silêncio
assume
a forma do silêncio
eis que a palavra encontra
o seu lugar no muro
oiço o diálogo da terra
com a terra
vejo um frágil arbusto
com o seu nome aceso
no silêncio da terra
espaço
como o sinal branco
da transgressão feliz
da margem
que o desejo ainda
não atinge
e que poderia
ser
escrever
a lâmpada nas ervas
*
será como desnudar
um corpo no campo
ávido silêncio
voracidade verde
a pulsação da terra
*
não é como um ninho
um ninho verde
o que construo não tem o rosto
de luz e água
mas o sopro da sombra
azul e negro
sob o muro
o que construo vem do desejo
ignorado
e é talvez o arco
do espaço
do silêncio
*
há como que uma densidade
dúctil
um grau variável nas palavras
o sopro de uma praia
e estas linhas
mais livres
mais perto de uma forma de água
de um torso
liso
de um objecto
incontornável
um círculo aberto
impossível possível
*
aqui o braço sem sinal
de sangue
como um pulso sem
vagar
sem saber escrever
e sem a praia
desejando a vaga
a ululante ondulação
caindo no silêncio
da pedra do poema
*
onde a ferida se escreve
lentamente
com os sinais da saliva e do sangue
o murmúrio redondo
a dança
da chama dos músculos
no terraço branco
onde pulsa o desejo
entre o fogo e a sombra
*
eis que o silêncio
assume
a forma do silêncio
eis que a palavra encontra
o seu lugar no muro
oiço o diálogo da terra
com a terra
vejo um frágil arbusto
com o seu nome aceso
no silêncio da terra
1 133
António Ramos Rosa
Pulsações da Terra
o gérmen na página o puro
espaço
como o sinal branco
da transgressão feliz
da margem
que o desejo ainda
não atinge
e que poderia
ser
escrever
a lâmpada nas ervas
*
será como desnudar
um corpo no campo
ávido silêncio
voracidade verde
a pulsação da terra
*
não é como um ninho
um ninho verde
o que construo não tem o rosto
de luz e água
mas o sopro da sombra
azul e negro
sob o muro
o que construo vem do desejo
ignorado
e é talvez o arco
do espaço
do silêncio
*
há como que uma densidade
dúctil
um grau variável nas palavras
o sopro de uma praia
e estas linhas
mais livres
mais perto de uma forma de água
de um torso
liso
de um objecto
incontornável
um círculo aberto
impossível possível
*
aqui o braço sem sinal
de sangue
como um pulso sem
vagar
sem saber escrever
e sem a praia
desejando a vaga
a ululante ondulação
caindo no silêncio
da pedra do poema
*
onde a ferida se escreve
lentamente
com os sinais da saliva e do sangue
o murmúrio redondo
a dança
da chama dos músculos
no terraço branco
onde pulsa o desejo
entre o fogo e a sombra
*
eis que o silêncio
assume
a forma do silêncio
eis que a palavra encontra
o seu lugar no muro
oiço o diálogo da terra
com a terra
vejo um frágil arbusto
com o seu nome aceso
no silêncio da terra
espaço
como o sinal branco
da transgressão feliz
da margem
que o desejo ainda
não atinge
e que poderia
ser
escrever
a lâmpada nas ervas
*
será como desnudar
um corpo no campo
ávido silêncio
voracidade verde
a pulsação da terra
*
não é como um ninho
um ninho verde
o que construo não tem o rosto
de luz e água
mas o sopro da sombra
azul e negro
sob o muro
o que construo vem do desejo
ignorado
e é talvez o arco
do espaço
do silêncio
*
há como que uma densidade
dúctil
um grau variável nas palavras
o sopro de uma praia
e estas linhas
mais livres
mais perto de uma forma de água
de um torso
liso
de um objecto
incontornável
um círculo aberto
impossível possível
*
aqui o braço sem sinal
de sangue
como um pulso sem
vagar
sem saber escrever
e sem a praia
desejando a vaga
a ululante ondulação
caindo no silêncio
da pedra do poema
*
onde a ferida se escreve
lentamente
com os sinais da saliva e do sangue
o murmúrio redondo
a dança
da chama dos músculos
no terraço branco
onde pulsa o desejo
entre o fogo e a sombra
*
eis que o silêncio
assume
a forma do silêncio
eis que a palavra encontra
o seu lugar no muro
oiço o diálogo da terra
com a terra
vejo um frágil arbusto
com o seu nome aceso
no silêncio da terra
1 133
António Ramos Rosa
Pulsações da Terra
o gérmen na página o puro
espaço
como o sinal branco
da transgressão feliz
da margem
que o desejo ainda
não atinge
e que poderia
ser
escrever
a lâmpada nas ervas
*
será como desnudar
um corpo no campo
ávido silêncio
voracidade verde
a pulsação da terra
*
não é como um ninho
um ninho verde
o que construo não tem o rosto
de luz e água
mas o sopro da sombra
azul e negro
sob o muro
o que construo vem do desejo
ignorado
e é talvez o arco
do espaço
do silêncio
*
há como que uma densidade
dúctil
um grau variável nas palavras
o sopro de uma praia
e estas linhas
mais livres
mais perto de uma forma de água
de um torso
liso
de um objecto
incontornável
um círculo aberto
impossível possível
*
aqui o braço sem sinal
de sangue
como um pulso sem
vagar
sem saber escrever
e sem a praia
desejando a vaga
a ululante ondulação
caindo no silêncio
da pedra do poema
*
onde a ferida se escreve
lentamente
com os sinais da saliva e do sangue
o murmúrio redondo
a dança
da chama dos músculos
no terraço branco
onde pulsa o desejo
entre o fogo e a sombra
*
eis que o silêncio
assume
a forma do silêncio
eis que a palavra encontra
o seu lugar no muro
oiço o diálogo da terra
com a terra
vejo um frágil arbusto
com o seu nome aceso
no silêncio da terra
espaço
como o sinal branco
da transgressão feliz
da margem
que o desejo ainda
não atinge
e que poderia
ser
escrever
a lâmpada nas ervas
*
será como desnudar
um corpo no campo
ávido silêncio
voracidade verde
a pulsação da terra
*
não é como um ninho
um ninho verde
o que construo não tem o rosto
de luz e água
mas o sopro da sombra
azul e negro
sob o muro
o que construo vem do desejo
ignorado
e é talvez o arco
do espaço
do silêncio
*
há como que uma densidade
dúctil
um grau variável nas palavras
o sopro de uma praia
e estas linhas
mais livres
mais perto de uma forma de água
de um torso
liso
de um objecto
incontornável
um círculo aberto
impossível possível
*
aqui o braço sem sinal
de sangue
como um pulso sem
vagar
sem saber escrever
e sem a praia
desejando a vaga
a ululante ondulação
caindo no silêncio
da pedra do poema
*
onde a ferida se escreve
lentamente
com os sinais da saliva e do sangue
o murmúrio redondo
a dança
da chama dos músculos
no terraço branco
onde pulsa o desejo
entre o fogo e a sombra
*
eis que o silêncio
assume
a forma do silêncio
eis que a palavra encontra
o seu lugar no muro
oiço o diálogo da terra
com a terra
vejo um frágil arbusto
com o seu nome aceso
no silêncio da terra
1 133
António Ramos Rosa
Pulsações da Terra
o gérmen na página o puro
espaço
como o sinal branco
da transgressão feliz
da margem
que o desejo ainda
não atinge
e que poderia
ser
escrever
a lâmpada nas ervas
*
será como desnudar
um corpo no campo
ávido silêncio
voracidade verde
a pulsação da terra
*
não é como um ninho
um ninho verde
o que construo não tem o rosto
de luz e água
mas o sopro da sombra
azul e negro
sob o muro
o que construo vem do desejo
ignorado
e é talvez o arco
do espaço
do silêncio
*
há como que uma densidade
dúctil
um grau variável nas palavras
o sopro de uma praia
e estas linhas
mais livres
mais perto de uma forma de água
de um torso
liso
de um objecto
incontornável
um círculo aberto
impossível possível
*
aqui o braço sem sinal
de sangue
como um pulso sem
vagar
sem saber escrever
e sem a praia
desejando a vaga
a ululante ondulação
caindo no silêncio
da pedra do poema
*
onde a ferida se escreve
lentamente
com os sinais da saliva e do sangue
o murmúrio redondo
a dança
da chama dos músculos
no terraço branco
onde pulsa o desejo
entre o fogo e a sombra
*
eis que o silêncio
assume
a forma do silêncio
eis que a palavra encontra
o seu lugar no muro
oiço o diálogo da terra
com a terra
vejo um frágil arbusto
com o seu nome aceso
no silêncio da terra
espaço
como o sinal branco
da transgressão feliz
da margem
que o desejo ainda
não atinge
e que poderia
ser
escrever
a lâmpada nas ervas
*
será como desnudar
um corpo no campo
ávido silêncio
voracidade verde
a pulsação da terra
*
não é como um ninho
um ninho verde
o que construo não tem o rosto
de luz e água
mas o sopro da sombra
azul e negro
sob o muro
o que construo vem do desejo
ignorado
e é talvez o arco
do espaço
do silêncio
*
há como que uma densidade
dúctil
um grau variável nas palavras
o sopro de uma praia
e estas linhas
mais livres
mais perto de uma forma de água
de um torso
liso
de um objecto
incontornável
um círculo aberto
impossível possível
*
aqui o braço sem sinal
de sangue
como um pulso sem
vagar
sem saber escrever
e sem a praia
desejando a vaga
a ululante ondulação
caindo no silêncio
da pedra do poema
*
onde a ferida se escreve
lentamente
com os sinais da saliva e do sangue
o murmúrio redondo
a dança
da chama dos músculos
no terraço branco
onde pulsa o desejo
entre o fogo e a sombra
*
eis que o silêncio
assume
a forma do silêncio
eis que a palavra encontra
o seu lugar no muro
oiço o diálogo da terra
com a terra
vejo um frágil arbusto
com o seu nome aceso
no silêncio da terra
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