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António Ramos Rosa
Uma Caligrafia Calma
Quem dispõe de uma cor
ou linha
e forma o espaço no tempo
e o espaço acaricia
a fluida razão de uma caligrafia
o dia (hipótese)
inerte. Sem nenhum sopro
ou voo de escrita.
A loucura fácil dos vocábulos.
Um fogo?
Outra razão de ser.
Razão-surpresa.
Um novo alento
nas palavras-mãos.
Uma linha, um bloco, uma cor — o espaço.
Separadas sílabas.
Pétalas.
O tempo necessário de atingir as margens.
Quem habita o bloco transparente?
Compacto?
A noite varre.
A noite varrerá.
Quem dispõe de uma cor feliz
modula
a carícia de ser.
Um bloco na noite.
Um bloco de acaso.
Uma caligrafia calma, isenta,
liberta um bloco do espaço.
ou linha
e forma o espaço no tempo
e o espaço acaricia
a fluida razão de uma caligrafia
o dia (hipótese)
inerte. Sem nenhum sopro
ou voo de escrita.
A loucura fácil dos vocábulos.
Um fogo?
Outra razão de ser.
Razão-surpresa.
Um novo alento
nas palavras-mãos.
Uma linha, um bloco, uma cor — o espaço.
Separadas sílabas.
Pétalas.
O tempo necessário de atingir as margens.
Quem habita o bloco transparente?
Compacto?
A noite varre.
A noite varrerá.
Quem dispõe de uma cor feliz
modula
a carícia de ser.
Um bloco na noite.
Um bloco de acaso.
Uma caligrafia calma, isenta,
liberta um bloco do espaço.
1 045
António Ramos Rosa
Uma Caligrafia Calma
Quem dispõe de uma cor
ou linha
e forma o espaço no tempo
e o espaço acaricia
a fluida razão de uma caligrafia
o dia (hipótese)
inerte. Sem nenhum sopro
ou voo de escrita.
A loucura fácil dos vocábulos.
Um fogo?
Outra razão de ser.
Razão-surpresa.
Um novo alento
nas palavras-mãos.
Uma linha, um bloco, uma cor — o espaço.
Separadas sílabas.
Pétalas.
O tempo necessário de atingir as margens.
Quem habita o bloco transparente?
Compacto?
A noite varre.
A noite varrerá.
Quem dispõe de uma cor feliz
modula
a carícia de ser.
Um bloco na noite.
Um bloco de acaso.
Uma caligrafia calma, isenta,
liberta um bloco do espaço.
ou linha
e forma o espaço no tempo
e o espaço acaricia
a fluida razão de uma caligrafia
o dia (hipótese)
inerte. Sem nenhum sopro
ou voo de escrita.
A loucura fácil dos vocábulos.
Um fogo?
Outra razão de ser.
Razão-surpresa.
Um novo alento
nas palavras-mãos.
Uma linha, um bloco, uma cor — o espaço.
Separadas sílabas.
Pétalas.
O tempo necessário de atingir as margens.
Quem habita o bloco transparente?
Compacto?
A noite varre.
A noite varrerá.
Quem dispõe de uma cor feliz
modula
a carícia de ser.
Um bloco na noite.
Um bloco de acaso.
Uma caligrafia calma, isenta,
liberta um bloco do espaço.
1 045
António Ramos Rosa
Entre o Frio E o Sol
A casa, a luz, o espaço.
Em vão escritas, sem a luz.
O espaço sem o espaço.
O corpo sem a casa.
Um sopro sobre o espaço
desta folha.
Sem a chama.
E sem a mão que ascende sobre
a superfície iluminada.
*
Um débil sopro. Demasiado
débil.
Porquê chamar-lhe pulso
ou lâmpada?
Nenhum ardor possível.
Nenhuma violência viva
na mão nua.
*
Onde dissesse verde, a água,
intenso, azul, as ervas, livres,
ar, selvagem,
o pulso incandescente,
a língua sobre a língua.
*
Quem desenha o dia?
Muro a muro?
E quem respira?
*
Um furor branco
contra a folha branca.
Oh, se o desejo deflagrasse
num incêndio verde.
*
De casa a casa, de rosto
a rosto.
Um espaço.
E a água no braço.
Como um fogo
para ver
a chama da folha.
*
Nomeio a chama verde, a veemência
tranquila,
uma lâmpada nova.
O que toca a mão é a água viva.
*
Apenas uma lâmina. De terra?
E um sopro.
A sombra acesa? A luz?
A parede na água.
A lâmpada flutuando.
A mão na terra.
*
Entre o frio e o sol
a mão ensaia
um só desejo
entre a pedra e a água.
Os dedos hirtos. Luz gelada.
Lâmpada abolida.
Mão aniquilada.
Só vivas as margens brancas.
*
Que reste apenas esta parede branca.
O incompleto ser,
brusco animal,
tem aqui a sua boca de água.
Em vão escritas, sem a luz.
O espaço sem o espaço.
O corpo sem a casa.
Um sopro sobre o espaço
desta folha.
Sem a chama.
E sem a mão que ascende sobre
a superfície iluminada.
*
Um débil sopro. Demasiado
débil.
Porquê chamar-lhe pulso
ou lâmpada?
Nenhum ardor possível.
Nenhuma violência viva
na mão nua.
*
Onde dissesse verde, a água,
intenso, azul, as ervas, livres,
ar, selvagem,
o pulso incandescente,
a língua sobre a língua.
*
Quem desenha o dia?
Muro a muro?
E quem respira?
*
Um furor branco
contra a folha branca.
Oh, se o desejo deflagrasse
num incêndio verde.
*
De casa a casa, de rosto
a rosto.
Um espaço.
E a água no braço.
Como um fogo
para ver
a chama da folha.
*
Nomeio a chama verde, a veemência
tranquila,
uma lâmpada nova.
O que toca a mão é a água viva.
*
Apenas uma lâmina. De terra?
E um sopro.
A sombra acesa? A luz?
A parede na água.
A lâmpada flutuando.
A mão na terra.
*
Entre o frio e o sol
a mão ensaia
um só desejo
entre a pedra e a água.
Os dedos hirtos. Luz gelada.
Lâmpada abolida.
Mão aniquilada.
Só vivas as margens brancas.
*
Que reste apenas esta parede branca.
O incompleto ser,
brusco animal,
tem aqui a sua boca de água.
1 048
António Ramos Rosa
Entre o Frio E o Sol
A casa, a luz, o espaço.
Em vão escritas, sem a luz.
O espaço sem o espaço.
O corpo sem a casa.
Um sopro sobre o espaço
desta folha.
Sem a chama.
E sem a mão que ascende sobre
a superfície iluminada.
*
Um débil sopro. Demasiado
débil.
Porquê chamar-lhe pulso
ou lâmpada?
Nenhum ardor possível.
Nenhuma violência viva
na mão nua.
*
Onde dissesse verde, a água,
intenso, azul, as ervas, livres,
ar, selvagem,
o pulso incandescente,
a língua sobre a língua.
*
Quem desenha o dia?
Muro a muro?
E quem respira?
*
Um furor branco
contra a folha branca.
Oh, se o desejo deflagrasse
num incêndio verde.
*
De casa a casa, de rosto
a rosto.
Um espaço.
E a água no braço.
Como um fogo
para ver
a chama da folha.
*
Nomeio a chama verde, a veemência
tranquila,
uma lâmpada nova.
O que toca a mão é a água viva.
*
Apenas uma lâmina. De terra?
E um sopro.
A sombra acesa? A luz?
A parede na água.
A lâmpada flutuando.
A mão na terra.
*
Entre o frio e o sol
a mão ensaia
um só desejo
entre a pedra e a água.
Os dedos hirtos. Luz gelada.
Lâmpada abolida.
Mão aniquilada.
Só vivas as margens brancas.
*
Que reste apenas esta parede branca.
O incompleto ser,
brusco animal,
tem aqui a sua boca de água.
Em vão escritas, sem a luz.
O espaço sem o espaço.
O corpo sem a casa.
Um sopro sobre o espaço
desta folha.
Sem a chama.
E sem a mão que ascende sobre
a superfície iluminada.
*
Um débil sopro. Demasiado
débil.
Porquê chamar-lhe pulso
ou lâmpada?
Nenhum ardor possível.
Nenhuma violência viva
na mão nua.
*
Onde dissesse verde, a água,
intenso, azul, as ervas, livres,
ar, selvagem,
o pulso incandescente,
a língua sobre a língua.
*
Quem desenha o dia?
Muro a muro?
E quem respira?
*
Um furor branco
contra a folha branca.
Oh, se o desejo deflagrasse
num incêndio verde.
*
De casa a casa, de rosto
a rosto.
Um espaço.
E a água no braço.
Como um fogo
para ver
a chama da folha.
*
Nomeio a chama verde, a veemência
tranquila,
uma lâmpada nova.
O que toca a mão é a água viva.
*
Apenas uma lâmina. De terra?
E um sopro.
A sombra acesa? A luz?
A parede na água.
A lâmpada flutuando.
A mão na terra.
*
Entre o frio e o sol
a mão ensaia
um só desejo
entre a pedra e a água.
Os dedos hirtos. Luz gelada.
Lâmpada abolida.
Mão aniquilada.
Só vivas as margens brancas.
*
Que reste apenas esta parede branca.
O incompleto ser,
brusco animal,
tem aqui a sua boca de água.
1 048
António Ramos Rosa
Entre o Frio E o Sol
A casa, a luz, o espaço.
Em vão escritas, sem a luz.
O espaço sem o espaço.
O corpo sem a casa.
Um sopro sobre o espaço
desta folha.
Sem a chama.
E sem a mão que ascende sobre
a superfície iluminada.
*
Um débil sopro. Demasiado
débil.
Porquê chamar-lhe pulso
ou lâmpada?
Nenhum ardor possível.
Nenhuma violência viva
na mão nua.
*
Onde dissesse verde, a água,
intenso, azul, as ervas, livres,
ar, selvagem,
o pulso incandescente,
a língua sobre a língua.
*
Quem desenha o dia?
Muro a muro?
E quem respira?
*
Um furor branco
contra a folha branca.
Oh, se o desejo deflagrasse
num incêndio verde.
*
De casa a casa, de rosto
a rosto.
Um espaço.
E a água no braço.
Como um fogo
para ver
a chama da folha.
*
Nomeio a chama verde, a veemência
tranquila,
uma lâmpada nova.
O que toca a mão é a água viva.
*
Apenas uma lâmina. De terra?
E um sopro.
A sombra acesa? A luz?
A parede na água.
A lâmpada flutuando.
A mão na terra.
*
Entre o frio e o sol
a mão ensaia
um só desejo
entre a pedra e a água.
Os dedos hirtos. Luz gelada.
Lâmpada abolida.
Mão aniquilada.
Só vivas as margens brancas.
*
Que reste apenas esta parede branca.
O incompleto ser,
brusco animal,
tem aqui a sua boca de água.
Em vão escritas, sem a luz.
O espaço sem o espaço.
O corpo sem a casa.
Um sopro sobre o espaço
desta folha.
Sem a chama.
E sem a mão que ascende sobre
a superfície iluminada.
*
Um débil sopro. Demasiado
débil.
Porquê chamar-lhe pulso
ou lâmpada?
Nenhum ardor possível.
Nenhuma violência viva
na mão nua.
*
Onde dissesse verde, a água,
intenso, azul, as ervas, livres,
ar, selvagem,
o pulso incandescente,
a língua sobre a língua.
*
Quem desenha o dia?
Muro a muro?
E quem respira?
*
Um furor branco
contra a folha branca.
Oh, se o desejo deflagrasse
num incêndio verde.
*
De casa a casa, de rosto
a rosto.
Um espaço.
E a água no braço.
Como um fogo
para ver
a chama da folha.
*
Nomeio a chama verde, a veemência
tranquila,
uma lâmpada nova.
O que toca a mão é a água viva.
*
Apenas uma lâmina. De terra?
E um sopro.
A sombra acesa? A luz?
A parede na água.
A lâmpada flutuando.
A mão na terra.
*
Entre o frio e o sol
a mão ensaia
um só desejo
entre a pedra e a água.
Os dedos hirtos. Luz gelada.
Lâmpada abolida.
Mão aniquilada.
Só vivas as margens brancas.
*
Que reste apenas esta parede branca.
O incompleto ser,
brusco animal,
tem aqui a sua boca de água.
1 048
António Ramos Rosa
Daqui Deste Deserto Em Que Persisto
Nenhum ruído no branco.
Nesta mesa onde cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra
escrevo cavo e escavo na cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente
uma pedra
busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo o corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras
Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto
Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia,
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto
As minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito
Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único no abismo branco
Sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total
Que tenho eu a dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que de mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada
Nesta mesa onde cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra
escrevo cavo e escavo na cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente
uma pedra
busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo o corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras
Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto
Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia,
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto
As minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito
Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único no abismo branco
Sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total
Que tenho eu a dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que de mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada
1 220
António Ramos Rosa
Daqui Deste Deserto Em Que Persisto
Nenhum ruído no branco.
Nesta mesa onde cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra
escrevo cavo e escavo na cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente
uma pedra
busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo o corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras
Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto
Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia,
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto
As minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito
Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único no abismo branco
Sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total
Que tenho eu a dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que de mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada
Nesta mesa onde cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra
escrevo cavo e escavo na cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente
uma pedra
busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo o corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras
Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto
Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia,
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto
As minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito
Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único no abismo branco
Sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total
Que tenho eu a dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que de mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada
1 220
António Ramos Rosa
Daqui Deste Deserto Em Que Persisto
Nenhum ruído no branco.
Nesta mesa onde cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra
escrevo cavo e escavo na cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente
uma pedra
busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo o corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras
Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto
Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia,
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto
As minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito
Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único no abismo branco
Sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total
Que tenho eu a dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que de mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada
Nesta mesa onde cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra
escrevo cavo e escavo na cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente
uma pedra
busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo o corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras
Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto
Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia,
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto
As minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito
Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único no abismo branco
Sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total
Que tenho eu a dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que de mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada
1 220
António Ramos Rosa
Daqui Deste Deserto Em Que Persisto
Nenhum ruído no branco.
Nesta mesa onde cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra
escrevo cavo e escavo na cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente
uma pedra
busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo o corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras
Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto
Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia,
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto
As minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito
Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único no abismo branco
Sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total
Que tenho eu a dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que de mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada
Nesta mesa onde cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra
escrevo cavo e escavo na cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente
uma pedra
busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo o corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras
Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto
Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia,
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto
As minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito
Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único no abismo branco
Sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total
Que tenho eu a dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que de mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada
1 220
António Ramos Rosa
Na Morte de Celestino Alves
O lugar abandonado
Estes serão os membros de um silêncio
ou de uma súplica
na folha desesperada.
Por alguém, por cujas pálpebras
cerradas
nada eu saberei dizer.
Mas se … tu o dizes,
mesmo esta erva rasa
sem tremor
despertará um ruído abandonado.
Por alguém, por ninguém,
por cujas pálpebras
cerradas,
o olhar aqui liberto
diria a claridade de um lugar
aqui abandonado.
O cavalo vivo
Estes os membros mudos
e no entanto do branco sem paisagem
consistentes já de que desejo
de pedra e de tremor de linhas puras.
Ervas rasas, cavalo caído, sem a sombra
os acordes serão
de cores sóbrias. A mão ligada à linha
da terra, e o cavalo
no seu dorso verde
de terra reunida.
Estes os membros já perdidos
de insectos sobre
o crânio branco.
Mas eis os troncos negros
das raízes
vermelhas,
o vigor vivo do cavalo.
O sulco do rosto
Que sulco traça o teu rosto
na cinza branca
se o vejo vivo ardendo em vida?
Se as palavras corressem como as nuvens
respirando
dir-te-ia as palavras que desejo.
Oiço o silêncio inteiro sobre o teu rosto.
Estes serão os membros de um silêncio
ou de uma súplica
na folha desesperada.
Por alguém, por cujas pálpebras
cerradas
nada eu saberei dizer.
Mas se … tu o dizes,
mesmo esta erva rasa
sem tremor
despertará um ruído abandonado.
Por alguém, por ninguém,
por cujas pálpebras
cerradas,
o olhar aqui liberto
diria a claridade de um lugar
aqui abandonado.
O cavalo vivo
Estes os membros mudos
e no entanto do branco sem paisagem
consistentes já de que desejo
de pedra e de tremor de linhas puras.
Ervas rasas, cavalo caído, sem a sombra
os acordes serão
de cores sóbrias. A mão ligada à linha
da terra, e o cavalo
no seu dorso verde
de terra reunida.
Estes os membros já perdidos
de insectos sobre
o crânio branco.
Mas eis os troncos negros
das raízes
vermelhas,
o vigor vivo do cavalo.
O sulco do rosto
Que sulco traça o teu rosto
na cinza branca
se o vejo vivo ardendo em vida?
Se as palavras corressem como as nuvens
respirando
dir-te-ia as palavras que desejo.
Oiço o silêncio inteiro sobre o teu rosto.
1 130
António Ramos Rosa
Na Morte de Celestino Alves
O lugar abandonado
Estes serão os membros de um silêncio
ou de uma súplica
na folha desesperada.
Por alguém, por cujas pálpebras
cerradas
nada eu saberei dizer.
Mas se … tu o dizes,
mesmo esta erva rasa
sem tremor
despertará um ruído abandonado.
Por alguém, por ninguém,
por cujas pálpebras
cerradas,
o olhar aqui liberto
diria a claridade de um lugar
aqui abandonado.
O cavalo vivo
Estes os membros mudos
e no entanto do branco sem paisagem
consistentes já de que desejo
de pedra e de tremor de linhas puras.
Ervas rasas, cavalo caído, sem a sombra
os acordes serão
de cores sóbrias. A mão ligada à linha
da terra, e o cavalo
no seu dorso verde
de terra reunida.
Estes os membros já perdidos
de insectos sobre
o crânio branco.
Mas eis os troncos negros
das raízes
vermelhas,
o vigor vivo do cavalo.
O sulco do rosto
Que sulco traça o teu rosto
na cinza branca
se o vejo vivo ardendo em vida?
Se as palavras corressem como as nuvens
respirando
dir-te-ia as palavras que desejo.
Oiço o silêncio inteiro sobre o teu rosto.
Estes serão os membros de um silêncio
ou de uma súplica
na folha desesperada.
Por alguém, por cujas pálpebras
cerradas
nada eu saberei dizer.
Mas se … tu o dizes,
mesmo esta erva rasa
sem tremor
despertará um ruído abandonado.
Por alguém, por ninguém,
por cujas pálpebras
cerradas,
o olhar aqui liberto
diria a claridade de um lugar
aqui abandonado.
O cavalo vivo
Estes os membros mudos
e no entanto do branco sem paisagem
consistentes já de que desejo
de pedra e de tremor de linhas puras.
Ervas rasas, cavalo caído, sem a sombra
os acordes serão
de cores sóbrias. A mão ligada à linha
da terra, e o cavalo
no seu dorso verde
de terra reunida.
Estes os membros já perdidos
de insectos sobre
o crânio branco.
Mas eis os troncos negros
das raízes
vermelhas,
o vigor vivo do cavalo.
O sulco do rosto
Que sulco traça o teu rosto
na cinza branca
se o vejo vivo ardendo em vida?
Se as palavras corressem como as nuvens
respirando
dir-te-ia as palavras que desejo.
Oiço o silêncio inteiro sobre o teu rosto.
1 130
António Ramos Rosa
Conduz a Mão
Conduz a mão
a negro
vela plástica
rugosa e larga grave
ó boca que
te entreabres
devagar e sobre a perna
silenciosa Soberba linha que
se fez trave
e torno
e dói de ser
torso da latitude pura e alta
lâmina quente
gume cume gomo
coxas para envolver cabeças braços
um arranque total
o ser no vértice
do chão
a negro
vela plástica
rugosa e larga grave
ó boca que
te entreabres
devagar e sobre a perna
silenciosa Soberba linha que
se fez trave
e torno
e dói de ser
torso da latitude pura e alta
lâmina quente
gume cume gomo
coxas para envolver cabeças braços
um arranque total
o ser no vértice
do chão
949
António Ramos Rosa
O Seio Jovem
O seio jovem,
móvel repouso de onda
e de universo
que tudo diz em sua redondez
e no côncavo escuro o olhar elide.
Diferença pura
em que o olhar não sustém
o seio a apagar-se
em branco esplendor.
Por isso se olha de novo
e de o ver não se vê.
Quem o vê quer vê-lo.
Vê-lo é só desejo
de vê-lo?
Ou de anular tudo o mais?
Ser só o olhar de um seio?
Ser só o branco círculo
túmido, girando
até à louca perfeição
da felicidade?
Mas quem o vê não o vê.
móvel repouso de onda
e de universo
que tudo diz em sua redondez
e no côncavo escuro o olhar elide.
Diferença pura
em que o olhar não sustém
o seio a apagar-se
em branco esplendor.
Por isso se olha de novo
e de o ver não se vê.
Quem o vê quer vê-lo.
Vê-lo é só desejo
de vê-lo?
Ou de anular tudo o mais?
Ser só o olhar de um seio?
Ser só o branco círculo
túmido, girando
até à louca perfeição
da felicidade?
Mas quem o vê não o vê.
1 127
António Ramos Rosa
O Seio Jovem
O seio jovem,
móvel repouso de onda
e de universo
que tudo diz em sua redondez
e no côncavo escuro o olhar elide.
Diferença pura
em que o olhar não sustém
o seio a apagar-se
em branco esplendor.
Por isso se olha de novo
e de o ver não se vê.
Quem o vê quer vê-lo.
Vê-lo é só desejo
de vê-lo?
Ou de anular tudo o mais?
Ser só o olhar de um seio?
Ser só o branco círculo
túmido, girando
até à louca perfeição
da felicidade?
Mas quem o vê não o vê.
móvel repouso de onda
e de universo
que tudo diz em sua redondez
e no côncavo escuro o olhar elide.
Diferença pura
em que o olhar não sustém
o seio a apagar-se
em branco esplendor.
Por isso se olha de novo
e de o ver não se vê.
Quem o vê quer vê-lo.
Vê-lo é só desejo
de vê-lo?
Ou de anular tudo o mais?
Ser só o olhar de um seio?
Ser só o branco círculo
túmido, girando
até à louca perfeição
da felicidade?
Mas quem o vê não o vê.
1 127
António Ramos Rosa
Atravessar o Deserto
Repetem-se as palavras como a erva.
Entre o corpo e o muro há um vazio voraz.
Este é o intervalo entre os flancos da terra.
Esta a boca sem lábios que lê os ossos da página.
O poema reúne todas as partes vivas.
A palavra apaga-se na nudez que se propaga.
As letras renascem de uma inércia atroz.
O corpo é um soluço sem sol e sem palavras.
Como passar o deserto sem a água do silêncio?
Como atravessar a página sem a sombra das letras?
As perguntas são ardentes imagens que se despem.
A nudez recomeça entre todas as letras.
O sentido percorre os ombros do silêncio.
Não há diferença alguma entre o corpo e a sombra.
O poema é legível nesta unidade obscura.
A claridade é o livre interrogar que avança.
O poema é o ardor do espaço, o deserto incandescente.
Entre o corpo e o muro há um vazio voraz.
Este é o intervalo entre os flancos da terra.
Esta a boca sem lábios que lê os ossos da página.
O poema reúne todas as partes vivas.
A palavra apaga-se na nudez que se propaga.
As letras renascem de uma inércia atroz.
O corpo é um soluço sem sol e sem palavras.
Como passar o deserto sem a água do silêncio?
Como atravessar a página sem a sombra das letras?
As perguntas são ardentes imagens que se despem.
A nudez recomeça entre todas as letras.
O sentido percorre os ombros do silêncio.
Não há diferença alguma entre o corpo e a sombra.
O poema é legível nesta unidade obscura.
A claridade é o livre interrogar que avança.
O poema é o ardor do espaço, o deserto incandescente.
1 285
António Ramos Rosa
Atravessar o Deserto
Repetem-se as palavras como a erva.
Entre o corpo e o muro há um vazio voraz.
Este é o intervalo entre os flancos da terra.
Esta a boca sem lábios que lê os ossos da página.
O poema reúne todas as partes vivas.
A palavra apaga-se na nudez que se propaga.
As letras renascem de uma inércia atroz.
O corpo é um soluço sem sol e sem palavras.
Como passar o deserto sem a água do silêncio?
Como atravessar a página sem a sombra das letras?
As perguntas são ardentes imagens que se despem.
A nudez recomeça entre todas as letras.
O sentido percorre os ombros do silêncio.
Não há diferença alguma entre o corpo e a sombra.
O poema é legível nesta unidade obscura.
A claridade é o livre interrogar que avança.
O poema é o ardor do espaço, o deserto incandescente.
Entre o corpo e o muro há um vazio voraz.
Este é o intervalo entre os flancos da terra.
Esta a boca sem lábios que lê os ossos da página.
O poema reúne todas as partes vivas.
A palavra apaga-se na nudez que se propaga.
As letras renascem de uma inércia atroz.
O corpo é um soluço sem sol e sem palavras.
Como passar o deserto sem a água do silêncio?
Como atravessar a página sem a sombra das letras?
As perguntas são ardentes imagens que se despem.
A nudez recomeça entre todas as letras.
O sentido percorre os ombros do silêncio.
Não há diferença alguma entre o corpo e a sombra.
O poema é legível nesta unidade obscura.
A claridade é o livre interrogar que avança.
O poema é o ardor do espaço, o deserto incandescente.
1 285
António Ramos Rosa
Atravessar o Deserto
Repetem-se as palavras como a erva.
Entre o corpo e o muro há um vazio voraz.
Este é o intervalo entre os flancos da terra.
Esta a boca sem lábios que lê os ossos da página.
O poema reúne todas as partes vivas.
A palavra apaga-se na nudez que se propaga.
As letras renascem de uma inércia atroz.
O corpo é um soluço sem sol e sem palavras.
Como passar o deserto sem a água do silêncio?
Como atravessar a página sem a sombra das letras?
As perguntas são ardentes imagens que se despem.
A nudez recomeça entre todas as letras.
O sentido percorre os ombros do silêncio.
Não há diferença alguma entre o corpo e a sombra.
O poema é legível nesta unidade obscura.
A claridade é o livre interrogar que avança.
O poema é o ardor do espaço, o deserto incandescente.
Entre o corpo e o muro há um vazio voraz.
Este é o intervalo entre os flancos da terra.
Esta a boca sem lábios que lê os ossos da página.
O poema reúne todas as partes vivas.
A palavra apaga-se na nudez que se propaga.
As letras renascem de uma inércia atroz.
O corpo é um soluço sem sol e sem palavras.
Como passar o deserto sem a água do silêncio?
Como atravessar a página sem a sombra das letras?
As perguntas são ardentes imagens que se despem.
A nudez recomeça entre todas as letras.
O sentido percorre os ombros do silêncio.
Não há diferença alguma entre o corpo e a sombra.
O poema é legível nesta unidade obscura.
A claridade é o livre interrogar que avança.
O poema é o ardor do espaço, o deserto incandescente.
1 285
António Ramos Rosa
À Memória de Vítor Matos E Sá
Não te encontrarei antes da noite
e este é o dia da pedra o dia único
em que não te conheço e te procuro
Estas palavras são sombras numa pedra
E estes olhos não vêem senão vértebras
de pedra antes da noite antes do dia
As palavras não sabem o caminho
É preciso entrar na noite e ver a luz
Eu só vi a luz quando escrevia
na amizade da terra de outro dia
Era quando não era ou quando era
mas agora é o país das mãos nas ervas
Esta sombra escrita sobre a sombra
não descerra os olhos sob as pálpebras
mas que passo transparente sob a sombra
É preciso entrar na noite desse dia
Há uma pedra na erva sobre a pedra
há um olho através da sombra escrita
há um campo de sombra além da luz
há uma terra em que te posso ver o rosto
Comecei a escrever no meio da sombra
sem o teu espírito de terra sem teus braços
sem a inteligência viva do abraço
sem o rumor do teu peito sob a erva
Escrever é não saber da vida ou morte
avançar na sombra para a luz
não saber de que lado nasce a água
e correr com a água sob a pedra
É pesada a pedra desta vida
que a morte enterra a cada passo
mas quem vive a luz da nova vida
senão a palavra que levanta a pedra
e este é o dia da pedra o dia único
em que não te conheço e te procuro
Estas palavras são sombras numa pedra
E estes olhos não vêem senão vértebras
de pedra antes da noite antes do dia
As palavras não sabem o caminho
É preciso entrar na noite e ver a luz
Eu só vi a luz quando escrevia
na amizade da terra de outro dia
Era quando não era ou quando era
mas agora é o país das mãos nas ervas
Esta sombra escrita sobre a sombra
não descerra os olhos sob as pálpebras
mas que passo transparente sob a sombra
É preciso entrar na noite desse dia
Há uma pedra na erva sobre a pedra
há um olho através da sombra escrita
há um campo de sombra além da luz
há uma terra em que te posso ver o rosto
Comecei a escrever no meio da sombra
sem o teu espírito de terra sem teus braços
sem a inteligência viva do abraço
sem o rumor do teu peito sob a erva
Escrever é não saber da vida ou morte
avançar na sombra para a luz
não saber de que lado nasce a água
e correr com a água sob a pedra
É pesada a pedra desta vida
que a morte enterra a cada passo
mas quem vive a luz da nova vida
senão a palavra que levanta a pedra
977
António Ramos Rosa
À Memória de Vítor Matos E Sá
Não te encontrarei antes da noite
e este é o dia da pedra o dia único
em que não te conheço e te procuro
Estas palavras são sombras numa pedra
E estes olhos não vêem senão vértebras
de pedra antes da noite antes do dia
As palavras não sabem o caminho
É preciso entrar na noite e ver a luz
Eu só vi a luz quando escrevia
na amizade da terra de outro dia
Era quando não era ou quando era
mas agora é o país das mãos nas ervas
Esta sombra escrita sobre a sombra
não descerra os olhos sob as pálpebras
mas que passo transparente sob a sombra
É preciso entrar na noite desse dia
Há uma pedra na erva sobre a pedra
há um olho através da sombra escrita
há um campo de sombra além da luz
há uma terra em que te posso ver o rosto
Comecei a escrever no meio da sombra
sem o teu espírito de terra sem teus braços
sem a inteligência viva do abraço
sem o rumor do teu peito sob a erva
Escrever é não saber da vida ou morte
avançar na sombra para a luz
não saber de que lado nasce a água
e correr com a água sob a pedra
É pesada a pedra desta vida
que a morte enterra a cada passo
mas quem vive a luz da nova vida
senão a palavra que levanta a pedra
e este é o dia da pedra o dia único
em que não te conheço e te procuro
Estas palavras são sombras numa pedra
E estes olhos não vêem senão vértebras
de pedra antes da noite antes do dia
As palavras não sabem o caminho
É preciso entrar na noite e ver a luz
Eu só vi a luz quando escrevia
na amizade da terra de outro dia
Era quando não era ou quando era
mas agora é o país das mãos nas ervas
Esta sombra escrita sobre a sombra
não descerra os olhos sob as pálpebras
mas que passo transparente sob a sombra
É preciso entrar na noite desse dia
Há uma pedra na erva sobre a pedra
há um olho através da sombra escrita
há um campo de sombra além da luz
há uma terra em que te posso ver o rosto
Comecei a escrever no meio da sombra
sem o teu espírito de terra sem teus braços
sem a inteligência viva do abraço
sem o rumor do teu peito sob a erva
Escrever é não saber da vida ou morte
avançar na sombra para a luz
não saber de que lado nasce a água
e correr com a água sob a pedra
É pesada a pedra desta vida
que a morte enterra a cada passo
mas quem vive a luz da nova vida
senão a palavra que levanta a pedra
977
António Ramos Rosa
Instante
Som velado. Beijo
calmo. E a chama
de uma árvore. O verde
imóvel. Lâmina
irradiante. Sol, o som,
obscura luz de sílaba
interiormente.
Tréguas com o espaço. Interrupção
contínua.
Não sei porquê a luz
se lê
na folha verde calma.
calmo. E a chama
de uma árvore. O verde
imóvel. Lâmina
irradiante. Sol, o som,
obscura luz de sílaba
interiormente.
Tréguas com o espaço. Interrupção
contínua.
Não sei porquê a luz
se lê
na folha verde calma.
1 046
António Ramos Rosa
Instante
Som velado. Beijo
calmo. E a chama
de uma árvore. O verde
imóvel. Lâmina
irradiante. Sol, o som,
obscura luz de sílaba
interiormente.
Tréguas com o espaço. Interrupção
contínua.
Não sei porquê a luz
se lê
na folha verde calma.
calmo. E a chama
de uma árvore. O verde
imóvel. Lâmina
irradiante. Sol, o som,
obscura luz de sílaba
interiormente.
Tréguas com o espaço. Interrupção
contínua.
Não sei porquê a luz
se lê
na folha verde calma.
1 046
António Ramos Rosa
Que Sinal Acender?
Que sinal acender?
A mão na terra sem o fogo.
O suporte inicial? A boca unânime?
A mão na folha procura a fenda.
Desesperados insectos sobre o pulso.
Onde vive o desejo? Nestes resíduos ténues?
Onde. Soa a pedra. Recorda a pedra.
Ou a sombra do corpo. A leve
circunferência em torno da nudez.
Um nome de ar e terra, um nome só.
Agora no centro desolado. Um nome acorda?
Um flanco alvo
no desolado centro.
Ó tangência feliz dos dedos sobre o cimo
de um corpo em gestação.
Que nome
és tu,
que nome ou nomes
onde e onde
e boca ou folha
e não só os resíduos sob a sombra.
Onde tocasse o corpo. Onde o corpo.
A mão na terra sem o fogo.
O suporte inicial? A boca unânime?
A mão na folha procura a fenda.
Desesperados insectos sobre o pulso.
Onde vive o desejo? Nestes resíduos ténues?
Onde. Soa a pedra. Recorda a pedra.
Ou a sombra do corpo. A leve
circunferência em torno da nudez.
Um nome de ar e terra, um nome só.
Agora no centro desolado. Um nome acorda?
Um flanco alvo
no desolado centro.
Ó tangência feliz dos dedos sobre o cimo
de um corpo em gestação.
Que nome
és tu,
que nome ou nomes
onde e onde
e boca ou folha
e não só os resíduos sob a sombra.
Onde tocasse o corpo. Onde o corpo.
981
António Ramos Rosa
Um Sorriso No Silêncio
a Jorge de Sena
Houve um sorriso no silêncio
(estes limites traço, não sei quais)
houve um sorriso no silêncio,
janela e sol, um só brilho na sala
— que possibilidades suscitavam?
A mão que traça estes sinais não o sabe.
Não era a manhã que em mim se abria
nem o dia na sala.
Silêncio e luz, a alegria da sala,
uma atmosfera leve e tão presente
— que possibilidades suscitavam?
Não o quero dizer, nem a mão o sabe.
Nem o sorriso adeja, ausente agora.
Houve um sorriso… e já disse demais
por não dizer o nada que brincava,
o só possível em luz, presença, nada!
Houve um momento… O edifício
de uma vida, o alento? Estes limites
arfam talvez desse momento claro.
Limites que ao silêncio a mão impõe.
O jogo brinca aqui? Não é aqui que reina
«houve um sorriso…»? Ausência, nada?
Houve um sorriso no silêncio
(estes limites traço, não sei quais)
houve um sorriso no silêncio,
janela e sol, um só brilho na sala
— que possibilidades suscitavam?
A mão que traça estes sinais não o sabe.
Não era a manhã que em mim se abria
nem o dia na sala.
Silêncio e luz, a alegria da sala,
uma atmosfera leve e tão presente
— que possibilidades suscitavam?
Não o quero dizer, nem a mão o sabe.
Nem o sorriso adeja, ausente agora.
Houve um sorriso… e já disse demais
por não dizer o nada que brincava,
o só possível em luz, presença, nada!
Houve um momento… O edifício
de uma vida, o alento? Estes limites
arfam talvez desse momento claro.
Limites que ao silêncio a mão impõe.
O jogo brinca aqui? Não é aqui que reina
«houve um sorriso…»? Ausência, nada?
517
António Ramos Rosa
Um Sorriso No Silêncio
a Jorge de Sena
Houve um sorriso no silêncio
(estes limites traço, não sei quais)
houve um sorriso no silêncio,
janela e sol, um só brilho na sala
— que possibilidades suscitavam?
A mão que traça estes sinais não o sabe.
Não era a manhã que em mim se abria
nem o dia na sala.
Silêncio e luz, a alegria da sala,
uma atmosfera leve e tão presente
— que possibilidades suscitavam?
Não o quero dizer, nem a mão o sabe.
Nem o sorriso adeja, ausente agora.
Houve um sorriso… e já disse demais
por não dizer o nada que brincava,
o só possível em luz, presença, nada!
Houve um momento… O edifício
de uma vida, o alento? Estes limites
arfam talvez desse momento claro.
Limites que ao silêncio a mão impõe.
O jogo brinca aqui? Não é aqui que reina
«houve um sorriso…»? Ausência, nada?
Houve um sorriso no silêncio
(estes limites traço, não sei quais)
houve um sorriso no silêncio,
janela e sol, um só brilho na sala
— que possibilidades suscitavam?
A mão que traça estes sinais não o sabe.
Não era a manhã que em mim se abria
nem o dia na sala.
Silêncio e luz, a alegria da sala,
uma atmosfera leve e tão presente
— que possibilidades suscitavam?
Não o quero dizer, nem a mão o sabe.
Nem o sorriso adeja, ausente agora.
Houve um sorriso… e já disse demais
por não dizer o nada que brincava,
o só possível em luz, presença, nada!
Houve um momento… O edifício
de uma vida, o alento? Estes limites
arfam talvez desse momento claro.
Limites que ao silêncio a mão impõe.
O jogo brinca aqui? Não é aqui que reina
«houve um sorriso…»? Ausência, nada?
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