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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Corpo Sob As Palavras

à Maria Eduarda
Dorme o sono na folha dorme o braço na folha
O que desperta é um olho verde sob o musgo da árvore

Dorme o ar em torno
da página dorme sob o pólen
das pálpebras de terra

Dorme o corpo sob a mão inerte Dorme a boca do barco
Dorme uma nuvem devagar
Quando quando
se abrirão os lábios
daquela ferida vermelha     Para quando
a dança sobre a pedra negra e o furor branco
das palavras no corpo?
*
Chamar-lhe-ia barco pedra dança
chamar-lhe-ia pedra
chamar-lhe-ia dança
mas seria mulher seria praia
seria areia acesa

Chamar-lhe-ia se pudesse
a alegria ávida
ávida
de uma boca
sobre a espuma da praia

Chamar-lhe-ia o centro
da espessura
roxa
de um bosque
e beijá-la-ia como um olho

Mas não posso acordá-la
sob tantas pálpebras
São palavras demais
se eu soubesse
dizia
só a sua sombra na água
*
Como acender o corpo? Estou atento à pedra sobre a pedra e vejo a água nua no silêncio

O corpo possui uma ferida violenta um lugar branco um ombro na muralha

Ouço o muro ouço o ar da praia A casa é uma carícia pressentida um olho oculto na sombra     azul

Esta é a folha sobre as pálpebras do corpo adormecido. Nenhum nome acorda. É uma pedra que toco ou uma sombra?

Junto à muralha onde os cães urinam o corpo adormeceu. Algo cessou há muito no silêncio

Como se nunca mais pudesse despertar como se houvesse um único nome: pedra. E o eco desse nome: pedra E nem sequer a memória do que foi outrora uma dança vermelha.

O que toco é a pedra do sono
*
(Foi outrora o corpo folha ardente
Foi mão de fogo abelha de alegria
Quando? Quando?)
*
Será o rumor do mar ou será na sombra o rumor do próprio corpo branco? Serão folhas que tombam sobre a pedra ou os olhos que se movem sob as pálpebras?

Eu nada espero e espero Caminho no silêncio da folha Será esta a praia onde o corpo deixou os seus sinais?

O fogo verde escuro daqueles olhos sob a sombra da muralha A antiga e branca árvore do mar
*
Tento acordar o corpo Toco a língua de pedra o sinal do fogo Toco uma palavra minúscula na erva

Toco a sombria perfeição da perna Toco membro a membro dedo a dedo todos os sinais do corpo apodrecido

Toco todos os nomes do corpo: os braços de água na sombra da pedra a clareira branca do umbigo o negro crespo onde a ferida sangra

Beijo pálpebras olhos ombros Toco o segredo mais ardente frio língua a língua insuflo o meu desejo respiro a boca branca húmida de sombra

As palavras não despertam os membros estão dispersos é quase noite sobre o muro
Uma folha cai sobre o rosto putrefacto Os insectos corroem-lhe os pulsos e o ventre O corpo não estremece
*
Uma paciência ardente uma paciência de sombra sinuosa uma alta pedra do silêncio

Um ardor pulso a pulso insuflado sobre a espuma negra dessa boca

Uma língua que suba as silenciosas colunas até à terna e alucinante perfeição redonda

Umas palavras rasgadas na muralha sangrando nas mãos sobre a brancura mortal do corpo
*
Boca a boca nesta folha no teu corpo respirar-te-ei pela primeira vez

Recém-acordada recém-nascida da pedra dilacerada da parede do sono

Beijo-te a língua verde a língua vermelha a língua ainda de sombra

e fria

O teu olhar atónito ofuscado é ainda uma palavra destroçada e branca

Libertas-te do sono e da vertigem com a lentidão de uma onda negra

O teu corpo forte estremece finalmente sob as minhas mãos sob o meu corpo sob as minhas palavras vivas
*
Que suavidade de lençol que língua que mão ou lâmpada
te desnudou tão lenta tão vermelha e branca

Levantas-te e és alta muito alta sobre pernas claras
e perfeitas

E a praia é tua Esta mão pertence-te Este pulso
rasgado
(Eu fui o teu sono
a tua pedra
negra)

Agora insuflo-te as palavras com que danças
sobre a praia Agora explode a boca em palavras
mudas como lâmpadas
secretas e nuas crespas e negras suaves crispadas
lâminas
1 073
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Corpo Sob As Palavras

à Maria Eduarda
Dorme o sono na folha dorme o braço na folha
O que desperta é um olho verde sob o musgo da árvore

Dorme o ar em torno
da página dorme sob o pólen
das pálpebras de terra

Dorme o corpo sob a mão inerte Dorme a boca do barco
Dorme uma nuvem devagar
Quando quando
se abrirão os lábios
daquela ferida vermelha     Para quando
a dança sobre a pedra negra e o furor branco
das palavras no corpo?
*
Chamar-lhe-ia barco pedra dança
chamar-lhe-ia pedra
chamar-lhe-ia dança
mas seria mulher seria praia
seria areia acesa

Chamar-lhe-ia se pudesse
a alegria ávida
ávida
de uma boca
sobre a espuma da praia

Chamar-lhe-ia o centro
da espessura
roxa
de um bosque
e beijá-la-ia como um olho

Mas não posso acordá-la
sob tantas pálpebras
São palavras demais
se eu soubesse
dizia
só a sua sombra na água
*
Como acender o corpo? Estou atento à pedra sobre a pedra e vejo a água nua no silêncio

O corpo possui uma ferida violenta um lugar branco um ombro na muralha

Ouço o muro ouço o ar da praia A casa é uma carícia pressentida um olho oculto na sombra     azul

Esta é a folha sobre as pálpebras do corpo adormecido. Nenhum nome acorda. É uma pedra que toco ou uma sombra?

Junto à muralha onde os cães urinam o corpo adormeceu. Algo cessou há muito no silêncio

Como se nunca mais pudesse despertar como se houvesse um único nome: pedra. E o eco desse nome: pedra E nem sequer a memória do que foi outrora uma dança vermelha.

O que toco é a pedra do sono
*
(Foi outrora o corpo folha ardente
Foi mão de fogo abelha de alegria
Quando? Quando?)
*
Será o rumor do mar ou será na sombra o rumor do próprio corpo branco? Serão folhas que tombam sobre a pedra ou os olhos que se movem sob as pálpebras?

Eu nada espero e espero Caminho no silêncio da folha Será esta a praia onde o corpo deixou os seus sinais?

O fogo verde escuro daqueles olhos sob a sombra da muralha A antiga e branca árvore do mar
*
Tento acordar o corpo Toco a língua de pedra o sinal do fogo Toco uma palavra minúscula na erva

Toco a sombria perfeição da perna Toco membro a membro dedo a dedo todos os sinais do corpo apodrecido

Toco todos os nomes do corpo: os braços de água na sombra da pedra a clareira branca do umbigo o negro crespo onde a ferida sangra

Beijo pálpebras olhos ombros Toco o segredo mais ardente frio língua a língua insuflo o meu desejo respiro a boca branca húmida de sombra

As palavras não despertam os membros estão dispersos é quase noite sobre o muro
Uma folha cai sobre o rosto putrefacto Os insectos corroem-lhe os pulsos e o ventre O corpo não estremece
*
Uma paciência ardente uma paciência de sombra sinuosa uma alta pedra do silêncio

Um ardor pulso a pulso insuflado sobre a espuma negra dessa boca

Uma língua que suba as silenciosas colunas até à terna e alucinante perfeição redonda

Umas palavras rasgadas na muralha sangrando nas mãos sobre a brancura mortal do corpo
*
Boca a boca nesta folha no teu corpo respirar-te-ei pela primeira vez

Recém-acordada recém-nascida da pedra dilacerada da parede do sono

Beijo-te a língua verde a língua vermelha a língua ainda de sombra

e fria

O teu olhar atónito ofuscado é ainda uma palavra destroçada e branca

Libertas-te do sono e da vertigem com a lentidão de uma onda negra

O teu corpo forte estremece finalmente sob as minhas mãos sob o meu corpo sob as minhas palavras vivas
*
Que suavidade de lençol que língua que mão ou lâmpada
te desnudou tão lenta tão vermelha e branca

Levantas-te e és alta muito alta sobre pernas claras
e perfeitas

E a praia é tua Esta mão pertence-te Este pulso
rasgado
(Eu fui o teu sono
a tua pedra
negra)

Agora insuflo-te as palavras com que danças
sobre a praia Agora explode a boca em palavras
mudas como lâmpadas
secretas e nuas crespas e negras suaves crispadas
lâminas
1 073
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Caminho Na Ausência

à Ângela Maria
É talvez uma pedra ou talvez uma folha
uma pedra sem sombra uma folha sem sangue

Talvez o primeiro nome o primeiro grito
seja esta pedra ou esta folha ou este nome

Este é o único lado da sombra
mas qual é a ferida
de que lado é a boca
a sombra oculta um rosto
o muro terá uma boca?
onde é que a ferida fala?

A mão conhece a pedra
o lugar do silêncio
mas o frio desta pedra
a sombra desta folha
não desoculta o nome
e apenas no branco
um ombro se desenha
o ombro do muro e não do corpo

A sede desta boca sobre a página
não inicia o nome que a mão tacteia em vão
Onde é que a folha ou a boca sabe a sangue
onde está o sangue desta sombra?

A porta aonde bate a mão não soa
são pedras e folhas nomes sem o nome
abraço os braços mas são braços de terra
e a terra é uma palavra no papel

Digo árvore árvore como um grito
ou chamo as folhas o vento a terra o fogo
Onde é que o pulso vibra com a tensão do nome?
Onde é que pedra a pedra se diz o nome e a ferida?

O grito desenha um rasto na sombra das palavras
O corpo encontrará sobre os ossos das letras
a graça dos músculos a música da água?

O que resta é a ferida silenciosa
a pedra silenciosa
resíduos filamentos ervas palavras sombras
entre as folhas
uma lâmpada escura
entre as mãos
esta folha
esta folha
silenciosa

O quarto está vazio e o eco só responde
a palavras indistintas

Interrogo a página
a porta branca do vazio
Até a sede morreu junto ao poço de escombros
A mão desenha o gesto vão de afugentar
a própria mão
O pulso ainda palpita
e a boca ainda deseja

Mas a mão não desiste de tocar pedras sombras
as raízes duras das palavras escuras
as pálpebras vazias
e o vazio entre as letras
e nunca a serenidade do nome

Onde é o outro lado da sombra?
A mão busca entre as folhas a lâmpada clara
Há um caminho que conduz ao horizonte
à casa
onde as palavras repousam
e a ferida fala o seu nome obscuro

A ausência renasce sob cada palavra
Um paciente furor apossa-se do corpo
Um paciente furor rasga a folha violenta
arranca a primeira pedra
o primeiro passo
sobre a água
de uma boca outra boca outro corpo

O caminho não cessa entre esta mão
e a folha
A mão há-de encontrar a mão
novas palavras nascerão
sobre outros lábios noutro muro noutro caminho

E talvez o caminho seja o princípio sempre
Sempre a ausência e o desejo ardente
Sempre o grito a renascer da ferida silenciosa
Sempre o silêncio e o seu nome incessante
1 106
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Caminho Na Ausência

à Ângela Maria
É talvez uma pedra ou talvez uma folha
uma pedra sem sombra uma folha sem sangue

Talvez o primeiro nome o primeiro grito
seja esta pedra ou esta folha ou este nome

Este é o único lado da sombra
mas qual é a ferida
de que lado é a boca
a sombra oculta um rosto
o muro terá uma boca?
onde é que a ferida fala?

A mão conhece a pedra
o lugar do silêncio
mas o frio desta pedra
a sombra desta folha
não desoculta o nome
e apenas no branco
um ombro se desenha
o ombro do muro e não do corpo

A sede desta boca sobre a página
não inicia o nome que a mão tacteia em vão
Onde é que a folha ou a boca sabe a sangue
onde está o sangue desta sombra?

A porta aonde bate a mão não soa
são pedras e folhas nomes sem o nome
abraço os braços mas são braços de terra
e a terra é uma palavra no papel

Digo árvore árvore como um grito
ou chamo as folhas o vento a terra o fogo
Onde é que o pulso vibra com a tensão do nome?
Onde é que pedra a pedra se diz o nome e a ferida?

O grito desenha um rasto na sombra das palavras
O corpo encontrará sobre os ossos das letras
a graça dos músculos a música da água?

O que resta é a ferida silenciosa
a pedra silenciosa
resíduos filamentos ervas palavras sombras
entre as folhas
uma lâmpada escura
entre as mãos
esta folha
esta folha
silenciosa

O quarto está vazio e o eco só responde
a palavras indistintas

Interrogo a página
a porta branca do vazio
Até a sede morreu junto ao poço de escombros
A mão desenha o gesto vão de afugentar
a própria mão
O pulso ainda palpita
e a boca ainda deseja

Mas a mão não desiste de tocar pedras sombras
as raízes duras das palavras escuras
as pálpebras vazias
e o vazio entre as letras
e nunca a serenidade do nome

Onde é o outro lado da sombra?
A mão busca entre as folhas a lâmpada clara
Há um caminho que conduz ao horizonte
à casa
onde as palavras repousam
e a ferida fala o seu nome obscuro

A ausência renasce sob cada palavra
Um paciente furor apossa-se do corpo
Um paciente furor rasga a folha violenta
arranca a primeira pedra
o primeiro passo
sobre a água
de uma boca outra boca outro corpo

O caminho não cessa entre esta mão
e a folha
A mão há-de encontrar a mão
novas palavras nascerão
sobre outros lábios noutro muro noutro caminho

E talvez o caminho seja o princípio sempre
Sempre a ausência e o desejo ardente
Sempre o grito a renascer da ferida silenciosa
Sempre o silêncio e o seu nome incessante
1 106
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Caminho Na Ausência

à Ângela Maria
É talvez uma pedra ou talvez uma folha
uma pedra sem sombra uma folha sem sangue

Talvez o primeiro nome o primeiro grito
seja esta pedra ou esta folha ou este nome

Este é o único lado da sombra
mas qual é a ferida
de que lado é a boca
a sombra oculta um rosto
o muro terá uma boca?
onde é que a ferida fala?

A mão conhece a pedra
o lugar do silêncio
mas o frio desta pedra
a sombra desta folha
não desoculta o nome
e apenas no branco
um ombro se desenha
o ombro do muro e não do corpo

A sede desta boca sobre a página
não inicia o nome que a mão tacteia em vão
Onde é que a folha ou a boca sabe a sangue
onde está o sangue desta sombra?

A porta aonde bate a mão não soa
são pedras e folhas nomes sem o nome
abraço os braços mas são braços de terra
e a terra é uma palavra no papel

Digo árvore árvore como um grito
ou chamo as folhas o vento a terra o fogo
Onde é que o pulso vibra com a tensão do nome?
Onde é que pedra a pedra se diz o nome e a ferida?

O grito desenha um rasto na sombra das palavras
O corpo encontrará sobre os ossos das letras
a graça dos músculos a música da água?

O que resta é a ferida silenciosa
a pedra silenciosa
resíduos filamentos ervas palavras sombras
entre as folhas
uma lâmpada escura
entre as mãos
esta folha
esta folha
silenciosa

O quarto está vazio e o eco só responde
a palavras indistintas

Interrogo a página
a porta branca do vazio
Até a sede morreu junto ao poço de escombros
A mão desenha o gesto vão de afugentar
a própria mão
O pulso ainda palpita
e a boca ainda deseja

Mas a mão não desiste de tocar pedras sombras
as raízes duras das palavras escuras
as pálpebras vazias
e o vazio entre as letras
e nunca a serenidade do nome

Onde é o outro lado da sombra?
A mão busca entre as folhas a lâmpada clara
Há um caminho que conduz ao horizonte
à casa
onde as palavras repousam
e a ferida fala o seu nome obscuro

A ausência renasce sob cada palavra
Um paciente furor apossa-se do corpo
Um paciente furor rasga a folha violenta
arranca a primeira pedra
o primeiro passo
sobre a água
de uma boca outra boca outro corpo

O caminho não cessa entre esta mão
e a folha
A mão há-de encontrar a mão
novas palavras nascerão
sobre outros lábios noutro muro noutro caminho

E talvez o caminho seja o princípio sempre
Sempre a ausência e o desejo ardente
Sempre o grito a renascer da ferida silenciosa
Sempre o silêncio e o seu nome incessante
1 106
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Grito Cego

à Ana
e ao Raul
A forma do grito um reflexo ardente
no extremo do visível rosto cego
a chama alta nas vertentes negras

linguagem densa a desfazer-se em espuma
a nudez do olhar sem as árvores duras
como um músculo de água apenas sob as pálpebras

aqui quando deslizam
arcos sob as sombras do desejo
substância porosa verde inerte
a mão sem o olhar na líquida viuvez

caudal abrindo o ciclo do declive

A paisagem fechou-se sobre o corpo como um poço as evidências ruíram arrastando os limos sobre os membros o contínuo rumor do sangue inundou o espaço disponível da visão perderam-se os nomes das pedras a distância dissipou-se

a explosão do grito na ávida parede
das virilhas à garganta em frémitos de fulgor
corpo envolvido pelo corpo rio viscoso
epiderme ligada às trevas interiores

vagas de frémitos
ruídos que deslizam nas margens líquidas
interminável fluxo apagando os nomes e as formas
o infinito ardor em ínfimas vibrações
de uma língua sem língua de uma boca hiante
cavidade do inarticulado furor cavo do grito
incessante redemoinho a destruir a visão
das possíveis formas dos limites dos sinais
numa confusão de manchas e linhas fugitivas
nas raízes da água escura alucinada
……………………………………………
O cerne do grito
ponto infinito inesgotável nó
dilacerante lento
sem espaço

corpo negro informe enterrado
em si mesmo
com o sabor último da terra rente à boca
e todavia desperto difuso ardente
na oclusão compacta sem princípio
sem memória sem futuro
retornando a si
……………………………………………
grito
no espaço deserto
linguagem espessa em glóbulos densos
amálgama igual à polpa do seu antro
carne igual ao interior da terra
deflagração quase inaudível
enigma
resíduo apenas
numa praia invisível ainda
que forma primeira
que visão abres
nas margens já possíveis?
1 187
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Grito Cego

à Ana
e ao Raul
A forma do grito um reflexo ardente
no extremo do visível rosto cego
a chama alta nas vertentes negras

linguagem densa a desfazer-se em espuma
a nudez do olhar sem as árvores duras
como um músculo de água apenas sob as pálpebras

aqui quando deslizam
arcos sob as sombras do desejo
substância porosa verde inerte
a mão sem o olhar na líquida viuvez

caudal abrindo o ciclo do declive

A paisagem fechou-se sobre o corpo como um poço as evidências ruíram arrastando os limos sobre os membros o contínuo rumor do sangue inundou o espaço disponível da visão perderam-se os nomes das pedras a distância dissipou-se

a explosão do grito na ávida parede
das virilhas à garganta em frémitos de fulgor
corpo envolvido pelo corpo rio viscoso
epiderme ligada às trevas interiores

vagas de frémitos
ruídos que deslizam nas margens líquidas
interminável fluxo apagando os nomes e as formas
o infinito ardor em ínfimas vibrações
de uma língua sem língua de uma boca hiante
cavidade do inarticulado furor cavo do grito
incessante redemoinho a destruir a visão
das possíveis formas dos limites dos sinais
numa confusão de manchas e linhas fugitivas
nas raízes da água escura alucinada
……………………………………………
O cerne do grito
ponto infinito inesgotável nó
dilacerante lento
sem espaço

corpo negro informe enterrado
em si mesmo
com o sabor último da terra rente à boca
e todavia desperto difuso ardente
na oclusão compacta sem princípio
sem memória sem futuro
retornando a si
……………………………………………
grito
no espaço deserto
linguagem espessa em glóbulos densos
amálgama igual à polpa do seu antro
carne igual ao interior da terra
deflagração quase inaudível
enigma
resíduo apenas
numa praia invisível ainda
que forma primeira
que visão abres
nas margens já possíveis?
1 187
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Antes do Poema

à Eusa
e ao António
O que antes se desenha antes
do poema e da folhagem o branco quarto é o animal branco
antes da boca e do barco no próprio muro

gota de água que encerra
o ponto do espaço em que as formas
se debruçam sobre um olho negro um olho verde
nulo

aqui onde tudo pode começar nada começa
livre e branco (livro branco)
luz nua que atravessa o espaço
das palavras nunca ditas
asas que nunca voaram actos incidências pausas
estático e branco e nulo um grande passo
para começar de vez o inacabável
princípio
o corpo insondável na água nua
o que nunca se encontrará secretamente
em vocábulos vivos através da página
um olhar que se encerra no seu espaço puro
onde se desenha um dedo de ar
a insinuação de um sulco
a ficção do início a boca ausente
do poema

eu não escrevo no lugar que se abriu
estou dentro e fora de uma caverna branca mas fechada
continuo sempre dentro dentro e sempre fora
sem encontrar o lugar material e transparente e nulo
que seria a boca do poema e do corpo vivo

se encontro a palavra encontro o muro antes da palavra antes do mundo
nada encontro que não seja o ar da árvore que não rompe
porque as palavras separam-se das palavras
e apagam o silêncio branco do lugar
no não princípio de um muro sem princípio nem fim
dia único e neutro de sol implacável sobre o muro
Aqui é para sempre estar-se fixo e perdido
com as palavras só sem as palavras
porque nada dizem não dizem o nada
deste lugar ausente
onde a diferença é nula
de palavra a palavra

Aqui é um espaço um lugar Posso habitá-lo
mesmo sem ervas sem sombras unicamente branco?
Um desejo o futuro de um desejo no espaço irrespirável
Como pode ser um lugar invisível não é visível o branco
o nu o nulo?
Eu disse um espaço para respirar E digo um braço
para continuar mas não descrevo
este lugar
nu
onde dar um passo é construir a boca
do chão
habitar o lugar
repetir a diferença de palavra a palavra
num eterno num secreto
recomeçar

Este lugar é impossível mas é um lugar que nasce
de um extremo É um lugar muito rápido e
no entanto para descrevê-lo são necessárias pausas
numa vertigem lenta minuciosa
É um lugar compacto e lúcido Atravessa-o uma trave
de sinais brancos Uma frescura perpassa
no cimo de um arvoredo que não está lá
Nada se passa senão qualquer coisa que passa
e não se sabe bem se passou E é apenas esta
habitação a cair no nulo que suspensa
é a palavra do invisível lugar ausente

Disse que o lugar era compacto e todavia que leveza
que ténue é a folhagem invisível!
A dor torna-se branca Na nudez nua
o corpo delicia-se na superfície livre
que se abre no interior e as imagens brancas
aguardam as cores iminentes Sente-se
os animais próximos
um rumor da água rasa diz um segredo de folhas
como se algo estivesse a passar-se ou algo fosse passar-se
mas nada nada se sabe e é exactamente aí
que o eu principia
a sua própria fábula

O ilegível rumor nas palavras legíveis
o legível rumor nas palavras ilegíveis
Tudo se anuncia tudo é possível porque se está no centro
ou no extremo de algo impossível e irredutivelmente obscuro
Mas que claridade nas palavras desertas!
Que volúpia ténue como se o ar fosse um rosto
como se o corpo se desse na água nua invisível
como se tudo começasse ó boca do poema!

Nada começa afinal E é esse o preço e o prémio
Tudo cessou há muito O que se ouve é o futuro
começo e onde estou é o livre intervalo
que o rastro das palavras restitui
Assim tudo é possível até o próprio princípio
É iminente a cor no muro As vozes de todo o mundo
Mas sobretudo a ausência de tudo abre o caminho
que não se descobre senão nas trevas do lugar
É aqui sabe-se que é aqui e não aqui sabe-se
que os animais caminham na claridade
que o corpo se anuncia
através das palavras mais cinzentas
mais nuas
mais nulas

O deserto é fecundo Fica sempre à beira de
nada
de
tudo

Há uma língua que inunda a língua ferida
no deserto A língua consumida exausta terminada
Já nada se espera desta língua perdida
Esta língua feriu-se no extremo do possível
e eis que ela diz a própria limpidez
das palavras nuas como o corpo entrevisto
como a água que passa invisível na berma
como o leve sorriso que paira no lugar

Lugar branco pedra negra palavra dita sobre o mar
quem a ouve ouvirá mais do que o sussurro das ondas
quem a compreende compreenderá o ar
compreenderá o nulo e leve sorriso que paira no lugar?
As palavras perpassam Que aconteceu? Ou algo
acontece ou acontecerá? O que está antes ou depois ou entre
é o ar e a folhagem o quarto branco
o espaço livre intermitente a água
o possível de tudo a repetição da diferença
o princípio de tudo?
1 068
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Antes do Poema

à Eusa
e ao António
O que antes se desenha antes
do poema e da folhagem o branco quarto é o animal branco
antes da boca e do barco no próprio muro

gota de água que encerra
o ponto do espaço em que as formas
se debruçam sobre um olho negro um olho verde
nulo

aqui onde tudo pode começar nada começa
livre e branco (livro branco)
luz nua que atravessa o espaço
das palavras nunca ditas
asas que nunca voaram actos incidências pausas
estático e branco e nulo um grande passo
para começar de vez o inacabável
princípio
o corpo insondável na água nua
o que nunca se encontrará secretamente
em vocábulos vivos através da página
um olhar que se encerra no seu espaço puro
onde se desenha um dedo de ar
a insinuação de um sulco
a ficção do início a boca ausente
do poema

eu não escrevo no lugar que se abriu
estou dentro e fora de uma caverna branca mas fechada
continuo sempre dentro dentro e sempre fora
sem encontrar o lugar material e transparente e nulo
que seria a boca do poema e do corpo vivo

se encontro a palavra encontro o muro antes da palavra antes do mundo
nada encontro que não seja o ar da árvore que não rompe
porque as palavras separam-se das palavras
e apagam o silêncio branco do lugar
no não princípio de um muro sem princípio nem fim
dia único e neutro de sol implacável sobre o muro
Aqui é para sempre estar-se fixo e perdido
com as palavras só sem as palavras
porque nada dizem não dizem o nada
deste lugar ausente
onde a diferença é nula
de palavra a palavra

Aqui é um espaço um lugar Posso habitá-lo
mesmo sem ervas sem sombras unicamente branco?
Um desejo o futuro de um desejo no espaço irrespirável
Como pode ser um lugar invisível não é visível o branco
o nu o nulo?
Eu disse um espaço para respirar E digo um braço
para continuar mas não descrevo
este lugar
nu
onde dar um passo é construir a boca
do chão
habitar o lugar
repetir a diferença de palavra a palavra
num eterno num secreto
recomeçar

Este lugar é impossível mas é um lugar que nasce
de um extremo É um lugar muito rápido e
no entanto para descrevê-lo são necessárias pausas
numa vertigem lenta minuciosa
É um lugar compacto e lúcido Atravessa-o uma trave
de sinais brancos Uma frescura perpassa
no cimo de um arvoredo que não está lá
Nada se passa senão qualquer coisa que passa
e não se sabe bem se passou E é apenas esta
habitação a cair no nulo que suspensa
é a palavra do invisível lugar ausente

Disse que o lugar era compacto e todavia que leveza
que ténue é a folhagem invisível!
A dor torna-se branca Na nudez nua
o corpo delicia-se na superfície livre
que se abre no interior e as imagens brancas
aguardam as cores iminentes Sente-se
os animais próximos
um rumor da água rasa diz um segredo de folhas
como se algo estivesse a passar-se ou algo fosse passar-se
mas nada nada se sabe e é exactamente aí
que o eu principia
a sua própria fábula

O ilegível rumor nas palavras legíveis
o legível rumor nas palavras ilegíveis
Tudo se anuncia tudo é possível porque se está no centro
ou no extremo de algo impossível e irredutivelmente obscuro
Mas que claridade nas palavras desertas!
Que volúpia ténue como se o ar fosse um rosto
como se o corpo se desse na água nua invisível
como se tudo começasse ó boca do poema!

Nada começa afinal E é esse o preço e o prémio
Tudo cessou há muito O que se ouve é o futuro
começo e onde estou é o livre intervalo
que o rastro das palavras restitui
Assim tudo é possível até o próprio princípio
É iminente a cor no muro As vozes de todo o mundo
Mas sobretudo a ausência de tudo abre o caminho
que não se descobre senão nas trevas do lugar
É aqui sabe-se que é aqui e não aqui sabe-se
que os animais caminham na claridade
que o corpo se anuncia
através das palavras mais cinzentas
mais nuas
mais nulas

O deserto é fecundo Fica sempre à beira de
nada
de
tudo

Há uma língua que inunda a língua ferida
no deserto A língua consumida exausta terminada
Já nada se espera desta língua perdida
Esta língua feriu-se no extremo do possível
e eis que ela diz a própria limpidez
das palavras nuas como o corpo entrevisto
como a água que passa invisível na berma
como o leve sorriso que paira no lugar

Lugar branco pedra negra palavra dita sobre o mar
quem a ouve ouvirá mais do que o sussurro das ondas
quem a compreende compreenderá o ar
compreenderá o nulo e leve sorriso que paira no lugar?
As palavras perpassam Que aconteceu? Ou algo
acontece ou acontecerá? O que está antes ou depois ou entre
é o ar e a folhagem o quarto branco
o espaço livre intermitente a água
o possível de tudo a repetição da diferença
o princípio de tudo?
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Antes do Poema

à Eusa
e ao António
O que antes se desenha antes
do poema e da folhagem o branco quarto é o animal branco
antes da boca e do barco no próprio muro

gota de água que encerra
o ponto do espaço em que as formas
se debruçam sobre um olho negro um olho verde
nulo

aqui onde tudo pode começar nada começa
livre e branco (livro branco)
luz nua que atravessa o espaço
das palavras nunca ditas
asas que nunca voaram actos incidências pausas
estático e branco e nulo um grande passo
para começar de vez o inacabável
princípio
o corpo insondável na água nua
o que nunca se encontrará secretamente
em vocábulos vivos através da página
um olhar que se encerra no seu espaço puro
onde se desenha um dedo de ar
a insinuação de um sulco
a ficção do início a boca ausente
do poema

eu não escrevo no lugar que se abriu
estou dentro e fora de uma caverna branca mas fechada
continuo sempre dentro dentro e sempre fora
sem encontrar o lugar material e transparente e nulo
que seria a boca do poema e do corpo vivo

se encontro a palavra encontro o muro antes da palavra antes do mundo
nada encontro que não seja o ar da árvore que não rompe
porque as palavras separam-se das palavras
e apagam o silêncio branco do lugar
no não princípio de um muro sem princípio nem fim
dia único e neutro de sol implacável sobre o muro
Aqui é para sempre estar-se fixo e perdido
com as palavras só sem as palavras
porque nada dizem não dizem o nada
deste lugar ausente
onde a diferença é nula
de palavra a palavra

Aqui é um espaço um lugar Posso habitá-lo
mesmo sem ervas sem sombras unicamente branco?
Um desejo o futuro de um desejo no espaço irrespirável
Como pode ser um lugar invisível não é visível o branco
o nu o nulo?
Eu disse um espaço para respirar E digo um braço
para continuar mas não descrevo
este lugar
nu
onde dar um passo é construir a boca
do chão
habitar o lugar
repetir a diferença de palavra a palavra
num eterno num secreto
recomeçar

Este lugar é impossível mas é um lugar que nasce
de um extremo É um lugar muito rápido e
no entanto para descrevê-lo são necessárias pausas
numa vertigem lenta minuciosa
É um lugar compacto e lúcido Atravessa-o uma trave
de sinais brancos Uma frescura perpassa
no cimo de um arvoredo que não está lá
Nada se passa senão qualquer coisa que passa
e não se sabe bem se passou E é apenas esta
habitação a cair no nulo que suspensa
é a palavra do invisível lugar ausente

Disse que o lugar era compacto e todavia que leveza
que ténue é a folhagem invisível!
A dor torna-se branca Na nudez nua
o corpo delicia-se na superfície livre
que se abre no interior e as imagens brancas
aguardam as cores iminentes Sente-se
os animais próximos
um rumor da água rasa diz um segredo de folhas
como se algo estivesse a passar-se ou algo fosse passar-se
mas nada nada se sabe e é exactamente aí
que o eu principia
a sua própria fábula

O ilegível rumor nas palavras legíveis
o legível rumor nas palavras ilegíveis
Tudo se anuncia tudo é possível porque se está no centro
ou no extremo de algo impossível e irredutivelmente obscuro
Mas que claridade nas palavras desertas!
Que volúpia ténue como se o ar fosse um rosto
como se o corpo se desse na água nua invisível
como se tudo começasse ó boca do poema!

Nada começa afinal E é esse o preço e o prémio
Tudo cessou há muito O que se ouve é o futuro
começo e onde estou é o livre intervalo
que o rastro das palavras restitui
Assim tudo é possível até o próprio princípio
É iminente a cor no muro As vozes de todo o mundo
Mas sobretudo a ausência de tudo abre o caminho
que não se descobre senão nas trevas do lugar
É aqui sabe-se que é aqui e não aqui sabe-se
que os animais caminham na claridade
que o corpo se anuncia
através das palavras mais cinzentas
mais nuas
mais nulas

O deserto é fecundo Fica sempre à beira de
nada
de
tudo

Há uma língua que inunda a língua ferida
no deserto A língua consumida exausta terminada
Já nada se espera desta língua perdida
Esta língua feriu-se no extremo do possível
e eis que ela diz a própria limpidez
das palavras nuas como o corpo entrevisto
como a água que passa invisível na berma
como o leve sorriso que paira no lugar

Lugar branco pedra negra palavra dita sobre o mar
quem a ouve ouvirá mais do que o sussurro das ondas
quem a compreende compreenderá o ar
compreenderá o nulo e leve sorriso que paira no lugar?
As palavras perpassam Que aconteceu? Ou algo
acontece ou acontecerá? O que está antes ou depois ou entre
é o ar e a folhagem o quarto branco
o espaço livre intermitente a água
o possível de tudo a repetição da diferença
o princípio de tudo?
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