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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Exploração Submarina

a Jean Laude
Quando
a partir do centro
da água vermelha que não cessa
as formas se iluminam

de uma parede que treme como a espuma
de um corpo obscuro em parte descoberto

primeiro um braço negro
escreve-se rasgando o branco
isolado trémulo um vocábulo
no fogo azul de um céu ausente

aqui mais forte o nome

da personagem branca numa visão aberta sinais
de uma leveza firme
de um sulco atravessando o espaço
a mão tocando

o pulso da paisagem nua
visível já o núcleo negro                 onde culminam
secretas palavras                     que iluminam um rosto

as formas emergem como lâmpadas
de um abismo um jardim submarino
separam-se nos limites como traços
de uma presença absolvida que se alonga
em filamentos coloridos e precisos
como cílios num declive de água
semelhantes a faces esquecidas

evidência da fragilidade
de uma líquida pupila de árvore
E a língua de um lado
estende-se sobre o corpo             O corpo abre-se

Do outro lado
os espelhos das sombras verdes do lago em que
pássaros fascinados deixam um rastro de letras
numa parede que arrasta o sol da água

a pupila dilata-se

a pele entrega-se             só um corpo
existe             entre as palavras
encontra-se no vazio a forma oculta
da sede (um peixe segue o vento)

e a figura ilumina-se

no lugar onde brilha
o negro interior do núcleo
que explode em minúsculas imagens
vestígios vagos de uma calma luminosa

Vêem-se deste lado
os telhados azuis
imóveis quase                                 e os vários níveis
dos templos                                    do tempo

(no centro onde se acende agora a forma
dos lábios do exílio das sinuosas
pedras dos beijos
a erva é deliciosa sob os arcos
frescos)
mas do outro lado

um palácio de papel da China
desloca os signos um a um
nas janelas atravessadas pelas correntes
avermelhadas pelo sol da página
aberta pelo corpo na erva negra
sobre as pedras novas
e a madeira da terra na margem límpida
1 027
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Exploração Submarina

a Jean Laude
Quando
a partir do centro
da água vermelha que não cessa
as formas se iluminam

de uma parede que treme como a espuma
de um corpo obscuro em parte descoberto

primeiro um braço negro
escreve-se rasgando o branco
isolado trémulo um vocábulo
no fogo azul de um céu ausente

aqui mais forte o nome

da personagem branca numa visão aberta sinais
de uma leveza firme
de um sulco atravessando o espaço
a mão tocando

o pulso da paisagem nua
visível já o núcleo negro                 onde culminam
secretas palavras                     que iluminam um rosto

as formas emergem como lâmpadas
de um abismo um jardim submarino
separam-se nos limites como traços
de uma presença absolvida que se alonga
em filamentos coloridos e precisos
como cílios num declive de água
semelhantes a faces esquecidas

evidência da fragilidade
de uma líquida pupila de árvore
E a língua de um lado
estende-se sobre o corpo             O corpo abre-se

Do outro lado
os espelhos das sombras verdes do lago em que
pássaros fascinados deixam um rastro de letras
numa parede que arrasta o sol da água

a pupila dilata-se

a pele entrega-se             só um corpo
existe             entre as palavras
encontra-se no vazio a forma oculta
da sede (um peixe segue o vento)

e a figura ilumina-se

no lugar onde brilha
o negro interior do núcleo
que explode em minúsculas imagens
vestígios vagos de uma calma luminosa

Vêem-se deste lado
os telhados azuis
imóveis quase                                 e os vários níveis
dos templos                                    do tempo

(no centro onde se acende agora a forma
dos lábios do exílio das sinuosas
pedras dos beijos
a erva é deliciosa sob os arcos
frescos)
mas do outro lado

um palácio de papel da China
desloca os signos um a um
nas janelas atravessadas pelas correntes
avermelhadas pelo sol da página
aberta pelo corpo na erva negra
sobre as pedras novas
e a madeira da terra na margem límpida
1 027
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Exploração Submarina

a Jean Laude
Quando
a partir do centro
da água vermelha que não cessa
as formas se iluminam

de uma parede que treme como a espuma
de um corpo obscuro em parte descoberto

primeiro um braço negro
escreve-se rasgando o branco
isolado trémulo um vocábulo
no fogo azul de um céu ausente

aqui mais forte o nome

da personagem branca numa visão aberta sinais
de uma leveza firme
de um sulco atravessando o espaço
a mão tocando

o pulso da paisagem nua
visível já o núcleo negro                 onde culminam
secretas palavras                     que iluminam um rosto

as formas emergem como lâmpadas
de um abismo um jardim submarino
separam-se nos limites como traços
de uma presença absolvida que se alonga
em filamentos coloridos e precisos
como cílios num declive de água
semelhantes a faces esquecidas

evidência da fragilidade
de uma líquida pupila de árvore
E a língua de um lado
estende-se sobre o corpo             O corpo abre-se

Do outro lado
os espelhos das sombras verdes do lago em que
pássaros fascinados deixam um rastro de letras
numa parede que arrasta o sol da água

a pupila dilata-se

a pele entrega-se             só um corpo
existe             entre as palavras
encontra-se no vazio a forma oculta
da sede (um peixe segue o vento)

e a figura ilumina-se

no lugar onde brilha
o negro interior do núcleo
que explode em minúsculas imagens
vestígios vagos de uma calma luminosa

Vêem-se deste lado
os telhados azuis
imóveis quase                                 e os vários níveis
dos templos                                    do tempo

(no centro onde se acende agora a forma
dos lábios do exílio das sinuosas
pedras dos beijos
a erva é deliciosa sob os arcos
frescos)
mas do outro lado

um palácio de papel da China
desloca os signos um a um
nas janelas atravessadas pelas correntes
avermelhadas pelo sol da página
aberta pelo corpo na erva negra
sobre as pedras novas
e a madeira da terra na margem límpida
1 027
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Mão Ainda Resiste

à Maria Inês
A princípio a queda sobre a boca
sem intervalo
o frémito apodrecido no ar escuro

Nenhum aspecto da palavra ou da figura se ergue da sombra
onde o corpo se perdia Algures
um tumulto de folhas e de vozes As sombras geladas
sobre o corpo

Que ocorre quando
na folha a mão se perde
quando não há a esperar senão a pedra
do silêncio                    ou talvez um ininteligível
grito?

O corpo jaz sobre a boca sobre
escombros A mão resiste
à suavidade mortal                 Tropeço
em membros de palavras         um jogo
quase de acaso e pura perda

Mas joga no acaso e ainda resiste
um espaço
uma paisagem quase                um negro violento
um ruído branco     áspero     surdo

As árvores são de sombra     Não cantam pássaros
nas sombras

As pedras tombaram sobre o rosto
que sangra de silêncio
como um óleo na terra putrefacta

A mão escreve sangue            e o sangue é branco
ou negro                             e um espaço
interminável
e cinzento
envolve o olhar que mal distingue as coisas das palavras
e as palavras
das pedras
e as pedras do silêncio

Ouvem-se ruídos velozes estridentes sopra tanto vento
sobre o corpo
e sombras nulas acumulam-se nos membros
dispersos e inertes

Mas a mão ainda resiste é um insecto ferido
a caminhar no muro
em busca da palavra
de uma trémula folha
uma figura
na intermitência livre

Talvez um movimento surja
em que a figura súbito estremeça
libertando o corpo da pedra do silêncio
ou do vão acaso
ou talvez nunca
a mão se acenda
e nada ocorra além do silêncio ou ruídos vãos

mas ela insiste
pedra sobre
pedra
na espera
do ardor súbito
de uma cor
como se de uma palavra incandescente
o corpo renascesse

A mão vive da esperança sem esperança do próprio vão da distância em que se esvai Quem sabe se as pálpebras se abrem se o olhar descobre a trémula figura
se tudo principia
de cada vez que a mão traça palavras sobre o muro
ignorante incerta e quase calma

Nada ocorreu senão a queda e a busca vã E só palavras sem a figura e sem o rosto A mão insiste sem saber no risco de juntar-se ao próprio nada que é Ó paciência vã mortal serás tu ainda a última palpitação do corpo a única possível e incessante respiração?
996
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Mão Ainda Resiste

à Maria Inês
A princípio a queda sobre a boca
sem intervalo
o frémito apodrecido no ar escuro

Nenhum aspecto da palavra ou da figura se ergue da sombra
onde o corpo se perdia Algures
um tumulto de folhas e de vozes As sombras geladas
sobre o corpo

Que ocorre quando
na folha a mão se perde
quando não há a esperar senão a pedra
do silêncio                    ou talvez um ininteligível
grito?

O corpo jaz sobre a boca sobre
escombros A mão resiste
à suavidade mortal                 Tropeço
em membros de palavras         um jogo
quase de acaso e pura perda

Mas joga no acaso e ainda resiste
um espaço
uma paisagem quase                um negro violento
um ruído branco     áspero     surdo

As árvores são de sombra     Não cantam pássaros
nas sombras

As pedras tombaram sobre o rosto
que sangra de silêncio
como um óleo na terra putrefacta

A mão escreve sangue            e o sangue é branco
ou negro                             e um espaço
interminável
e cinzento
envolve o olhar que mal distingue as coisas das palavras
e as palavras
das pedras
e as pedras do silêncio

Ouvem-se ruídos velozes estridentes sopra tanto vento
sobre o corpo
e sombras nulas acumulam-se nos membros
dispersos e inertes

Mas a mão ainda resiste é um insecto ferido
a caminhar no muro
em busca da palavra
de uma trémula folha
uma figura
na intermitência livre

Talvez um movimento surja
em que a figura súbito estremeça
libertando o corpo da pedra do silêncio
ou do vão acaso
ou talvez nunca
a mão se acenda
e nada ocorra além do silêncio ou ruídos vãos

mas ela insiste
pedra sobre
pedra
na espera
do ardor súbito
de uma cor
como se de uma palavra incandescente
o corpo renascesse

A mão vive da esperança sem esperança do próprio vão da distância em que se esvai Quem sabe se as pálpebras se abrem se o olhar descobre a trémula figura
se tudo principia
de cada vez que a mão traça palavras sobre o muro
ignorante incerta e quase calma

Nada ocorreu senão a queda e a busca vã E só palavras sem a figura e sem o rosto A mão insiste sem saber no risco de juntar-se ao próprio nada que é Ó paciência vã mortal serás tu ainda a última palpitação do corpo a única possível e incessante respiração?
996
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Mão Ainda Resiste

à Maria Inês
A princípio a queda sobre a boca
sem intervalo
o frémito apodrecido no ar escuro

Nenhum aspecto da palavra ou da figura se ergue da sombra
onde o corpo se perdia Algures
um tumulto de folhas e de vozes As sombras geladas
sobre o corpo

Que ocorre quando
na folha a mão se perde
quando não há a esperar senão a pedra
do silêncio                    ou talvez um ininteligível
grito?

O corpo jaz sobre a boca sobre
escombros A mão resiste
à suavidade mortal                 Tropeço
em membros de palavras         um jogo
quase de acaso e pura perda

Mas joga no acaso e ainda resiste
um espaço
uma paisagem quase                um negro violento
um ruído branco     áspero     surdo

As árvores são de sombra     Não cantam pássaros
nas sombras

As pedras tombaram sobre o rosto
que sangra de silêncio
como um óleo na terra putrefacta

A mão escreve sangue            e o sangue é branco
ou negro                             e um espaço
interminável
e cinzento
envolve o olhar que mal distingue as coisas das palavras
e as palavras
das pedras
e as pedras do silêncio

Ouvem-se ruídos velozes estridentes sopra tanto vento
sobre o corpo
e sombras nulas acumulam-se nos membros
dispersos e inertes

Mas a mão ainda resiste é um insecto ferido
a caminhar no muro
em busca da palavra
de uma trémula folha
uma figura
na intermitência livre

Talvez um movimento surja
em que a figura súbito estremeça
libertando o corpo da pedra do silêncio
ou do vão acaso
ou talvez nunca
a mão se acenda
e nada ocorra além do silêncio ou ruídos vãos

mas ela insiste
pedra sobre
pedra
na espera
do ardor súbito
de uma cor
como se de uma palavra incandescente
o corpo renascesse

A mão vive da esperança sem esperança do próprio vão da distância em que se esvai Quem sabe se as pálpebras se abrem se o olhar descobre a trémula figura
se tudo principia
de cada vez que a mão traça palavras sobre o muro
ignorante incerta e quase calma

Nada ocorreu senão a queda e a busca vã E só palavras sem a figura e sem o rosto A mão insiste sem saber no risco de juntar-se ao próprio nada que é Ó paciência vã mortal serás tu ainda a última palpitação do corpo a única possível e incessante respiração?
996
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Imagem Que Conduz Ao Corpo

A mão dispersa na folhagem
a mão perdida a boca já exausta
onde tocar a pedra as sílabas da pedra?

Aqui uma sombra branca Não inicial
Este lugar inabitável não é o princípio nem o centro
Como alcançar o coração de alguma coisa
a substância o centro ou a terra do poema

Começo sem amor sempre demasiado cedo
Interrogo não um insecto nem uma pedra
Percorro um muro com um olhar cego
Estou tão longe da realidade como do poema
A distância é infinita Tu não estás aqui
E não sou eu e sou eu ainda Tudo é de menos
e de mais

A mão toca não um silêncio não as sílabas
de um corpo longo e fresco mas uma corrente
congelada uma parede árida calcinada

Como encontrar a imagem que conduz ao corpo
como percorrer as veias vivas do silêncio
e fazer-te estremecer os leves lábios?
Como estar sendo ser estando
junto à boca unida e firme
e trémula
do poema?

Se soubesse desenhar as linhas negras
que abrem a brancura completa
do corpo
que deixam entrever a espuma nos cabelos
no sulco que divide as amorosas pernas
onde o murmúrio permanece do sangue sob as mãos
escreveria as linhas intensas do poema?

As mãos completar-se-iam no perfil ardente
O presente seria o instante do abrigo imenso
A luz dos teus olhos banharia as palavras
e tu serias o corpo luminoso
com os membros libertos sob a água viva

Escrever seria amar-te? Seria
interromper este deserto limpar a ferida aberta?
Seria entrar no interior do centro fresco
percorrer essa praia que ninguém ainda pisou
beijar os teus sinais e a sede límpida
que desenha toda a chama alta do teu corpo?

Escrever seria estar contigo no interior da chama
beber o orvalho das palavras nos teus lábios?
No interior de um barco de folhagem verde
animado de um braço intensamente vivo
ligando-me cada vez mais à linguagem do teu corpo?

Estou já tão perto de ti que uma sombra soluça
Estou tão perto de ti que o poema principia
Toco as sílabas da pedra as sílabas do corpo
A minha língua arde sobre o teu ombro frágil
O perdão do teu olhar é o amor da luz
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Imagem Que Conduz Ao Corpo

A mão dispersa na folhagem
a mão perdida a boca já exausta
onde tocar a pedra as sílabas da pedra?

Aqui uma sombra branca Não inicial
Este lugar inabitável não é o princípio nem o centro
Como alcançar o coração de alguma coisa
a substância o centro ou a terra do poema

Começo sem amor sempre demasiado cedo
Interrogo não um insecto nem uma pedra
Percorro um muro com um olhar cego
Estou tão longe da realidade como do poema
A distância é infinita Tu não estás aqui
E não sou eu e sou eu ainda Tudo é de menos
e de mais

A mão toca não um silêncio não as sílabas
de um corpo longo e fresco mas uma corrente
congelada uma parede árida calcinada

Como encontrar a imagem que conduz ao corpo
como percorrer as veias vivas do silêncio
e fazer-te estremecer os leves lábios?
Como estar sendo ser estando
junto à boca unida e firme
e trémula
do poema?

Se soubesse desenhar as linhas negras
que abrem a brancura completa
do corpo
que deixam entrever a espuma nos cabelos
no sulco que divide as amorosas pernas
onde o murmúrio permanece do sangue sob as mãos
escreveria as linhas intensas do poema?

As mãos completar-se-iam no perfil ardente
O presente seria o instante do abrigo imenso
A luz dos teus olhos banharia as palavras
e tu serias o corpo luminoso
com os membros libertos sob a água viva

Escrever seria amar-te? Seria
interromper este deserto limpar a ferida aberta?
Seria entrar no interior do centro fresco
percorrer essa praia que ninguém ainda pisou
beijar os teus sinais e a sede límpida
que desenha toda a chama alta do teu corpo?

Escrever seria estar contigo no interior da chama
beber o orvalho das palavras nos teus lábios?
No interior de um barco de folhagem verde
animado de um braço intensamente vivo
ligando-me cada vez mais à linguagem do teu corpo?

Estou já tão perto de ti que uma sombra soluça
Estou tão perto de ti que o poema principia
Toco as sílabas da pedra as sílabas do corpo
A minha língua arde sobre o teu ombro frágil
O perdão do teu olhar é o amor da luz
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