Poemas neste tema
Outros
António Ramos Rosa
Manchas
Uma palavra aberta
uma palavra torre
de espaço
uma veia sonora
germinação clara
espiral para o sol
Uma teia que vive
sobre a água sem medo
uma estrela na rua
tão rápida
sobre o muro incendiado
Disseminada sede
rede na terra verde
larga vela
violenta e alta
sobe
passa uma sombra azul
Passos na terra
marcas de lábios
poças de tempo minúsculo
para um insecto lento
Terra que desce às mãos
sono de poço branco
flexível lentidão
de uma árvore que caminha
uma palavra torre
de espaço
uma veia sonora
germinação clara
espiral para o sol
Uma teia que vive
sobre a água sem medo
uma estrela na rua
tão rápida
sobre o muro incendiado
Disseminada sede
rede na terra verde
larga vela
violenta e alta
sobe
passa uma sombra azul
Passos na terra
marcas de lábios
poças de tempo minúsculo
para um insecto lento
Terra que desce às mãos
sono de poço branco
flexível lentidão
de uma árvore que caminha
1 022
António Ramos Rosa
Esplendor Calcinado
Calcando o solo, colado ao vento,
ardo de secura, a fronte aberta
para a chama da terra.
Caminho e ardo, o vento sopra
a chama viva,
o sangue sobe, a fome rompe
a parede de ar, a terra cresta
entre instrumentos frios. A terra nasce,
a terra gira no silêncio, o olhar morre.
Voltar à fonte, ao nulo centro,
refluir à vaga fria e dura,
ao extenso campo do abandono errado,
ao rés da terra, ao sono animal,
ao largo ouvido murmurante e escuro.
Caminho e ardo de secura, errante.
Há palavras soltas como terra, há dedos de água esparsos,
sono não reunido, membros entre espaços,
nomes, corpos, pedras, animais de rastos,
a fome crestada sobre um muro branco,
um tronco obscuro à sede morta,
uma tristeza opaca de água estagnada,
a terra com seus dentes calcinados, mortos.
Caminho ao sol. A fome é uma oca brasa
sobre a página vazia do areal.
A terra é um corpo cego na luz, um tronco
sem braços, uma cintura informe.
O sol sobre os terraços mil quadrados vazios,
mil espaços vazios, o espaço da secura
e da sede. Da sede multiplicada ao sol, vazia.
E o sol bate na fronte fria, obscura, da sede obscura.
Minha fronte é de terra, meu corpo terra seca,
meus braços soltos, duros, sobre as dunas desertas,
meu olhar aberto sobre um golfo deserto.
E o sol estampando a nu a sombra fria,
casas, areia, pedra, pedras
e a minha sombra fria.
Terra deserta ao sol.
Corpo deserto ao sol.
Que palavra sobe desta brancura cega, deste olhar branco,
que palavra respira em teu olhar perdido sobre este centro deserto?
Que palavra aquece e esfria, da sombra à luz, do teu corpo ao sol,
da tua sombra ao sol,
que palavra caminha, vive ou morre
no esplendor calcinado?
Abre-te aqui ao refluir sem pálpebras
num corpo de cal, de lágrimas sem memória,
abre-te aqui entre a sombra e a luz,
corpo de terra e ossos, de água obscura e fome
e sede, ó corpo nu, ansiosamente nu,
aberto à luz do sol, à secura da terra!
Caminho e ardo sempre na secura calcinada
sobre a página vazia de um areal sem fim,
assento as plantas firmes sobre a areia lisa.
A cada passo a sede sobe à garganta seca,
a cada passo a terra se cresta sob os pés.
Ó palavras crestadas, secas, como pedras.
Palavras ásperas que desenham ossos, pedras, urtigas.
Palavras com nervuras, com veios, palavras que são lascas
de pedra, palavras que não refrescam,
quentes, obscuras como o pêlo dos animais,
deslocadas e nuas, separadas como pedras,
entre espaços, desertas palavras no deserto.
Palavras áridas,
fronte deserta,
pulso do sol.
ardo de secura, a fronte aberta
para a chama da terra.
Caminho e ardo, o vento sopra
a chama viva,
o sangue sobe, a fome rompe
a parede de ar, a terra cresta
entre instrumentos frios. A terra nasce,
a terra gira no silêncio, o olhar morre.
Voltar à fonte, ao nulo centro,
refluir à vaga fria e dura,
ao extenso campo do abandono errado,
ao rés da terra, ao sono animal,
ao largo ouvido murmurante e escuro.
Caminho e ardo de secura, errante.
Há palavras soltas como terra, há dedos de água esparsos,
sono não reunido, membros entre espaços,
nomes, corpos, pedras, animais de rastos,
a fome crestada sobre um muro branco,
um tronco obscuro à sede morta,
uma tristeza opaca de água estagnada,
a terra com seus dentes calcinados, mortos.
Caminho ao sol. A fome é uma oca brasa
sobre a página vazia do areal.
A terra é um corpo cego na luz, um tronco
sem braços, uma cintura informe.
O sol sobre os terraços mil quadrados vazios,
mil espaços vazios, o espaço da secura
e da sede. Da sede multiplicada ao sol, vazia.
E o sol bate na fronte fria, obscura, da sede obscura.
Minha fronte é de terra, meu corpo terra seca,
meus braços soltos, duros, sobre as dunas desertas,
meu olhar aberto sobre um golfo deserto.
E o sol estampando a nu a sombra fria,
casas, areia, pedra, pedras
e a minha sombra fria.
Terra deserta ao sol.
Corpo deserto ao sol.
Que palavra sobe desta brancura cega, deste olhar branco,
que palavra respira em teu olhar perdido sobre este centro deserto?
Que palavra aquece e esfria, da sombra à luz, do teu corpo ao sol,
da tua sombra ao sol,
que palavra caminha, vive ou morre
no esplendor calcinado?
Abre-te aqui ao refluir sem pálpebras
num corpo de cal, de lágrimas sem memória,
abre-te aqui entre a sombra e a luz,
corpo de terra e ossos, de água obscura e fome
e sede, ó corpo nu, ansiosamente nu,
aberto à luz do sol, à secura da terra!
Caminho e ardo sempre na secura calcinada
sobre a página vazia de um areal sem fim,
assento as plantas firmes sobre a areia lisa.
A cada passo a sede sobe à garganta seca,
a cada passo a terra se cresta sob os pés.
Ó palavras crestadas, secas, como pedras.
Palavras ásperas que desenham ossos, pedras, urtigas.
Palavras com nervuras, com veios, palavras que são lascas
de pedra, palavras que não refrescam,
quentes, obscuras como o pêlo dos animais,
deslocadas e nuas, separadas como pedras,
entre espaços, desertas palavras no deserto.
Palavras áridas,
fronte deserta,
pulso do sol.
1 141
António Ramos Rosa
Esplendor Calcinado
Calcando o solo, colado ao vento,
ardo de secura, a fronte aberta
para a chama da terra.
Caminho e ardo, o vento sopra
a chama viva,
o sangue sobe, a fome rompe
a parede de ar, a terra cresta
entre instrumentos frios. A terra nasce,
a terra gira no silêncio, o olhar morre.
Voltar à fonte, ao nulo centro,
refluir à vaga fria e dura,
ao extenso campo do abandono errado,
ao rés da terra, ao sono animal,
ao largo ouvido murmurante e escuro.
Caminho e ardo de secura, errante.
Há palavras soltas como terra, há dedos de água esparsos,
sono não reunido, membros entre espaços,
nomes, corpos, pedras, animais de rastos,
a fome crestada sobre um muro branco,
um tronco obscuro à sede morta,
uma tristeza opaca de água estagnada,
a terra com seus dentes calcinados, mortos.
Caminho ao sol. A fome é uma oca brasa
sobre a página vazia do areal.
A terra é um corpo cego na luz, um tronco
sem braços, uma cintura informe.
O sol sobre os terraços mil quadrados vazios,
mil espaços vazios, o espaço da secura
e da sede. Da sede multiplicada ao sol, vazia.
E o sol bate na fronte fria, obscura, da sede obscura.
Minha fronte é de terra, meu corpo terra seca,
meus braços soltos, duros, sobre as dunas desertas,
meu olhar aberto sobre um golfo deserto.
E o sol estampando a nu a sombra fria,
casas, areia, pedra, pedras
e a minha sombra fria.
Terra deserta ao sol.
Corpo deserto ao sol.
Que palavra sobe desta brancura cega, deste olhar branco,
que palavra respira em teu olhar perdido sobre este centro deserto?
Que palavra aquece e esfria, da sombra à luz, do teu corpo ao sol,
da tua sombra ao sol,
que palavra caminha, vive ou morre
no esplendor calcinado?
Abre-te aqui ao refluir sem pálpebras
num corpo de cal, de lágrimas sem memória,
abre-te aqui entre a sombra e a luz,
corpo de terra e ossos, de água obscura e fome
e sede, ó corpo nu, ansiosamente nu,
aberto à luz do sol, à secura da terra!
Caminho e ardo sempre na secura calcinada
sobre a página vazia de um areal sem fim,
assento as plantas firmes sobre a areia lisa.
A cada passo a sede sobe à garganta seca,
a cada passo a terra se cresta sob os pés.
Ó palavras crestadas, secas, como pedras.
Palavras ásperas que desenham ossos, pedras, urtigas.
Palavras com nervuras, com veios, palavras que são lascas
de pedra, palavras que não refrescam,
quentes, obscuras como o pêlo dos animais,
deslocadas e nuas, separadas como pedras,
entre espaços, desertas palavras no deserto.
Palavras áridas,
fronte deserta,
pulso do sol.
ardo de secura, a fronte aberta
para a chama da terra.
Caminho e ardo, o vento sopra
a chama viva,
o sangue sobe, a fome rompe
a parede de ar, a terra cresta
entre instrumentos frios. A terra nasce,
a terra gira no silêncio, o olhar morre.
Voltar à fonte, ao nulo centro,
refluir à vaga fria e dura,
ao extenso campo do abandono errado,
ao rés da terra, ao sono animal,
ao largo ouvido murmurante e escuro.
Caminho e ardo de secura, errante.
Há palavras soltas como terra, há dedos de água esparsos,
sono não reunido, membros entre espaços,
nomes, corpos, pedras, animais de rastos,
a fome crestada sobre um muro branco,
um tronco obscuro à sede morta,
uma tristeza opaca de água estagnada,
a terra com seus dentes calcinados, mortos.
Caminho ao sol. A fome é uma oca brasa
sobre a página vazia do areal.
A terra é um corpo cego na luz, um tronco
sem braços, uma cintura informe.
O sol sobre os terraços mil quadrados vazios,
mil espaços vazios, o espaço da secura
e da sede. Da sede multiplicada ao sol, vazia.
E o sol bate na fronte fria, obscura, da sede obscura.
Minha fronte é de terra, meu corpo terra seca,
meus braços soltos, duros, sobre as dunas desertas,
meu olhar aberto sobre um golfo deserto.
E o sol estampando a nu a sombra fria,
casas, areia, pedra, pedras
e a minha sombra fria.
Terra deserta ao sol.
Corpo deserto ao sol.
Que palavra sobe desta brancura cega, deste olhar branco,
que palavra respira em teu olhar perdido sobre este centro deserto?
Que palavra aquece e esfria, da sombra à luz, do teu corpo ao sol,
da tua sombra ao sol,
que palavra caminha, vive ou morre
no esplendor calcinado?
Abre-te aqui ao refluir sem pálpebras
num corpo de cal, de lágrimas sem memória,
abre-te aqui entre a sombra e a luz,
corpo de terra e ossos, de água obscura e fome
e sede, ó corpo nu, ansiosamente nu,
aberto à luz do sol, à secura da terra!
Caminho e ardo sempre na secura calcinada
sobre a página vazia de um areal sem fim,
assento as plantas firmes sobre a areia lisa.
A cada passo a sede sobe à garganta seca,
a cada passo a terra se cresta sob os pés.
Ó palavras crestadas, secas, como pedras.
Palavras ásperas que desenham ossos, pedras, urtigas.
Palavras com nervuras, com veios, palavras que são lascas
de pedra, palavras que não refrescam,
quentes, obscuras como o pêlo dos animais,
deslocadas e nuas, separadas como pedras,
entre espaços, desertas palavras no deserto.
Palavras áridas,
fronte deserta,
pulso do sol.
1 141
António Ramos Rosa
Momento 1
O calor dum sopro
sobre as colheres limpas
a construção repetida de bocas díspares
sobre um grande lago quase inexistente
O recomeço é uma hora de simplicidade
extremamente ténue
De novo voltamos
a uma hora mais leve
a um cavalo que segue silencioso
na infinita lisura do momento
sobre as colheres limpas
a construção repetida de bocas díspares
sobre um grande lago quase inexistente
O recomeço é uma hora de simplicidade
extremamente ténue
De novo voltamos
a uma hora mais leve
a um cavalo que segue silencioso
na infinita lisura do momento
1 115
António Ramos Rosa
Parede E Altamente a Luz Soou…
Ali se é livre no saber-se leve
e centrado Escreve esses largos traços
esse pautado repetido multiforme
e temperado gosto da laranja
Ali se sabe quanto no segredo
foi só verdade obscura e agora é luz
é vórtice renascido nas agulhas
de um tapete alerta e sobtudo
Ali se encrespa sob o tecto a noite
ou floresta ou mulher intacta e verde
coluna lenta ao sol das areias
Ali nos damos todos à matéria
branca e vermelha de ossos redivivos
o esqueleto alimento de homem forte
*
Essa é a palavra que jorrou
como uma cor e encontrou o espaço
e em espaço convertida outra palavra
como árvore árvore de sol se renovou
Assim acesa brilha branca e alta
lâmpada sob os pés tapete longo
e orelha envolvendo o nosso olhar
e abraço dado ainda a dar parede
Cobertos descobrimos o aberto
que há no dentro deste espaço aberto
É todo o olhar e o ouvir no centro
onde os raios da laranja se despedem
como cavalos desabridos e domados
no pulso que os estampa sobre o chão
*
É terra vitoriosa e são as cascas
da árvore que tombou sobre o telhado
e a pedra do mar vertida em tempo
e a palavra de um bicho que acordou
São duras rectas vertigens trucidadas
que em feixe a mão desalinhou
e sob graves pentes desnudada
a matéria casta ser e nada
Assim a terra dormida despertou
e subiu de nós um mar de coisas vivas
num arremesso de forças despejadas
Parede e altamente a luz soou
de pedras de silêncios terras vozes
As mãos duras detonaram sol
e centrado Escreve esses largos traços
esse pautado repetido multiforme
e temperado gosto da laranja
Ali se sabe quanto no segredo
foi só verdade obscura e agora é luz
é vórtice renascido nas agulhas
de um tapete alerta e sobtudo
Ali se encrespa sob o tecto a noite
ou floresta ou mulher intacta e verde
coluna lenta ao sol das areias
Ali nos damos todos à matéria
branca e vermelha de ossos redivivos
o esqueleto alimento de homem forte
*
Essa é a palavra que jorrou
como uma cor e encontrou o espaço
e em espaço convertida outra palavra
como árvore árvore de sol se renovou
Assim acesa brilha branca e alta
lâmpada sob os pés tapete longo
e orelha envolvendo o nosso olhar
e abraço dado ainda a dar parede
Cobertos descobrimos o aberto
que há no dentro deste espaço aberto
É todo o olhar e o ouvir no centro
onde os raios da laranja se despedem
como cavalos desabridos e domados
no pulso que os estampa sobre o chão
*
É terra vitoriosa e são as cascas
da árvore que tombou sobre o telhado
e a pedra do mar vertida em tempo
e a palavra de um bicho que acordou
São duras rectas vertigens trucidadas
que em feixe a mão desalinhou
e sob graves pentes desnudada
a matéria casta ser e nada
Assim a terra dormida despertou
e subiu de nós um mar de coisas vivas
num arremesso de forças despejadas
Parede e altamente a luz soou
de pedras de silêncios terras vozes
As mãos duras detonaram sol
1 028
António Ramos Rosa
Parede E Altamente a Luz Soou…
Ali se é livre no saber-se leve
e centrado Escreve esses largos traços
esse pautado repetido multiforme
e temperado gosto da laranja
Ali se sabe quanto no segredo
foi só verdade obscura e agora é luz
é vórtice renascido nas agulhas
de um tapete alerta e sobtudo
Ali se encrespa sob o tecto a noite
ou floresta ou mulher intacta e verde
coluna lenta ao sol das areias
Ali nos damos todos à matéria
branca e vermelha de ossos redivivos
o esqueleto alimento de homem forte
*
Essa é a palavra que jorrou
como uma cor e encontrou o espaço
e em espaço convertida outra palavra
como árvore árvore de sol se renovou
Assim acesa brilha branca e alta
lâmpada sob os pés tapete longo
e orelha envolvendo o nosso olhar
e abraço dado ainda a dar parede
Cobertos descobrimos o aberto
que há no dentro deste espaço aberto
É todo o olhar e o ouvir no centro
onde os raios da laranja se despedem
como cavalos desabridos e domados
no pulso que os estampa sobre o chão
*
É terra vitoriosa e são as cascas
da árvore que tombou sobre o telhado
e a pedra do mar vertida em tempo
e a palavra de um bicho que acordou
São duras rectas vertigens trucidadas
que em feixe a mão desalinhou
e sob graves pentes desnudada
a matéria casta ser e nada
Assim a terra dormida despertou
e subiu de nós um mar de coisas vivas
num arremesso de forças despejadas
Parede e altamente a luz soou
de pedras de silêncios terras vozes
As mãos duras detonaram sol
e centrado Escreve esses largos traços
esse pautado repetido multiforme
e temperado gosto da laranja
Ali se sabe quanto no segredo
foi só verdade obscura e agora é luz
é vórtice renascido nas agulhas
de um tapete alerta e sobtudo
Ali se encrespa sob o tecto a noite
ou floresta ou mulher intacta e verde
coluna lenta ao sol das areias
Ali nos damos todos à matéria
branca e vermelha de ossos redivivos
o esqueleto alimento de homem forte
*
Essa é a palavra que jorrou
como uma cor e encontrou o espaço
e em espaço convertida outra palavra
como árvore árvore de sol se renovou
Assim acesa brilha branca e alta
lâmpada sob os pés tapete longo
e orelha envolvendo o nosso olhar
e abraço dado ainda a dar parede
Cobertos descobrimos o aberto
que há no dentro deste espaço aberto
É todo o olhar e o ouvir no centro
onde os raios da laranja se despedem
como cavalos desabridos e domados
no pulso que os estampa sobre o chão
*
É terra vitoriosa e são as cascas
da árvore que tombou sobre o telhado
e a pedra do mar vertida em tempo
e a palavra de um bicho que acordou
São duras rectas vertigens trucidadas
que em feixe a mão desalinhou
e sob graves pentes desnudada
a matéria casta ser e nada
Assim a terra dormida despertou
e subiu de nós um mar de coisas vivas
num arremesso de forças despejadas
Parede e altamente a luz soou
de pedras de silêncios terras vozes
As mãos duras detonaram sol
1 028
António Ramos Rosa
Parede E Altamente a Luz Soou…
Ali se é livre no saber-se leve
e centrado Escreve esses largos traços
esse pautado repetido multiforme
e temperado gosto da laranja
Ali se sabe quanto no segredo
foi só verdade obscura e agora é luz
é vórtice renascido nas agulhas
de um tapete alerta e sobtudo
Ali se encrespa sob o tecto a noite
ou floresta ou mulher intacta e verde
coluna lenta ao sol das areias
Ali nos damos todos à matéria
branca e vermelha de ossos redivivos
o esqueleto alimento de homem forte
*
Essa é a palavra que jorrou
como uma cor e encontrou o espaço
e em espaço convertida outra palavra
como árvore árvore de sol se renovou
Assim acesa brilha branca e alta
lâmpada sob os pés tapete longo
e orelha envolvendo o nosso olhar
e abraço dado ainda a dar parede
Cobertos descobrimos o aberto
que há no dentro deste espaço aberto
É todo o olhar e o ouvir no centro
onde os raios da laranja se despedem
como cavalos desabridos e domados
no pulso que os estampa sobre o chão
*
É terra vitoriosa e são as cascas
da árvore que tombou sobre o telhado
e a pedra do mar vertida em tempo
e a palavra de um bicho que acordou
São duras rectas vertigens trucidadas
que em feixe a mão desalinhou
e sob graves pentes desnudada
a matéria casta ser e nada
Assim a terra dormida despertou
e subiu de nós um mar de coisas vivas
num arremesso de forças despejadas
Parede e altamente a luz soou
de pedras de silêncios terras vozes
As mãos duras detonaram sol
e centrado Escreve esses largos traços
esse pautado repetido multiforme
e temperado gosto da laranja
Ali se sabe quanto no segredo
foi só verdade obscura e agora é luz
é vórtice renascido nas agulhas
de um tapete alerta e sobtudo
Ali se encrespa sob o tecto a noite
ou floresta ou mulher intacta e verde
coluna lenta ao sol das areias
Ali nos damos todos à matéria
branca e vermelha de ossos redivivos
o esqueleto alimento de homem forte
*
Essa é a palavra que jorrou
como uma cor e encontrou o espaço
e em espaço convertida outra palavra
como árvore árvore de sol se renovou
Assim acesa brilha branca e alta
lâmpada sob os pés tapete longo
e orelha envolvendo o nosso olhar
e abraço dado ainda a dar parede
Cobertos descobrimos o aberto
que há no dentro deste espaço aberto
É todo o olhar e o ouvir no centro
onde os raios da laranja se despedem
como cavalos desabridos e domados
no pulso que os estampa sobre o chão
*
É terra vitoriosa e são as cascas
da árvore que tombou sobre o telhado
e a pedra do mar vertida em tempo
e a palavra de um bicho que acordou
São duras rectas vertigens trucidadas
que em feixe a mão desalinhou
e sob graves pentes desnudada
a matéria casta ser e nada
Assim a terra dormida despertou
e subiu de nós um mar de coisas vivas
num arremesso de forças despejadas
Parede e altamente a luz soou
de pedras de silêncios terras vozes
As mãos duras detonaram sol
1 028
António Ramos Rosa
Primavera
Falo por palavras
duras rasas
Uma raiva tranquila
habita-me
O meu dia existe
neste punho de pedra
nesta serra verde
nesta casa fria
Uma folha canta
É um lábio livre
Uma folha olha
tranquilamente
Olho é bom olhar
ver o tronco
as ramagens finas
a boca que espera
no murmúrio das folhas
Estou só e o sol sobe
num céu que desconheço
duras rasas
Uma raiva tranquila
habita-me
O meu dia existe
neste punho de pedra
nesta serra verde
nesta casa fria
Uma folha canta
É um lábio livre
Uma folha olha
tranquilamente
Olho é bom olhar
ver o tronco
as ramagens finas
a boca que espera
no murmúrio das folhas
Estou só e o sol sobe
num céu que desconheço
1 051
António Ramos Rosa
A Coexistência No Muro
A boca inerte na parede,
um sol,
um peixe,
uma estrela,
um dedo.
A boca escura
no chão levantado,
os olhos nas mãos.
Um sol,
um peixe
uma estrela,
um dedo.
um sol,
um peixe,
uma estrela,
um dedo.
A boca escura
no chão levantado,
os olhos nas mãos.
Um sol,
um peixe
uma estrela,
um dedo.
1 061
António Ramos Rosa
A Coexistência No Muro
A boca inerte na parede,
um sol,
um peixe,
uma estrela,
um dedo.
A boca escura
no chão levantado,
os olhos nas mãos.
Um sol,
um peixe
uma estrela,
um dedo.
um sol,
um peixe,
uma estrela,
um dedo.
A boca escura
no chão levantado,
os olhos nas mãos.
Um sol,
um peixe
uma estrela,
um dedo.
1 061
António Ramos Rosa
A Sombra de Uma Face a Face de Uma Sombra
Há uma face que não sei,
que não sou.
E o que sou é a face de uma sombra.
Escrever para essa sombra sem face.
Sou uma sombra sem face
na sombra da rua.
Escrevo nesse intervalo,
nessa sombra onde ninguém suspira,
onde ninguém passa,
onde ninguém me vê passar,
onde não passo,
onde vou passar.
Há uma face
página onde a sombra se fez face
frente à sombra.
Escrever contra a face sem face.
Escrever acender na sombra
árvores
mover a sombra até ao céu da rua.
Caminhar na sombra desatar a sombra
alta e viva
contra a face aberta
contra a face viva.
Sou somos uma face uma sombra
uma sombra uma face.
Escrever é abrir na sombra uma sombra
e respirar na sombra
um corpo de sombra.
Ninguém nos vê nem nos verá jamais.
Respirar a sombra viva.
que não sou.
E o que sou é a face de uma sombra.
Escrever para essa sombra sem face.
Sou uma sombra sem face
na sombra da rua.
Escrevo nesse intervalo,
nessa sombra onde ninguém suspira,
onde ninguém passa,
onde ninguém me vê passar,
onde não passo,
onde vou passar.
Há uma face
página onde a sombra se fez face
frente à sombra.
Escrever contra a face sem face.
Escrever acender na sombra
árvores
mover a sombra até ao céu da rua.
Caminhar na sombra desatar a sombra
alta e viva
contra a face aberta
contra a face viva.
Sou somos uma face uma sombra
uma sombra uma face.
Escrever é abrir na sombra uma sombra
e respirar na sombra
um corpo de sombra.
Ninguém nos vê nem nos verá jamais.
Respirar a sombra viva.
1 033
António Ramos Rosa
A Sombra de Uma Face a Face de Uma Sombra
Há uma face que não sei,
que não sou.
E o que sou é a face de uma sombra.
Escrever para essa sombra sem face.
Sou uma sombra sem face
na sombra da rua.
Escrevo nesse intervalo,
nessa sombra onde ninguém suspira,
onde ninguém passa,
onde ninguém me vê passar,
onde não passo,
onde vou passar.
Há uma face
página onde a sombra se fez face
frente à sombra.
Escrever contra a face sem face.
Escrever acender na sombra
árvores
mover a sombra até ao céu da rua.
Caminhar na sombra desatar a sombra
alta e viva
contra a face aberta
contra a face viva.
Sou somos uma face uma sombra
uma sombra uma face.
Escrever é abrir na sombra uma sombra
e respirar na sombra
um corpo de sombra.
Ninguém nos vê nem nos verá jamais.
Respirar a sombra viva.
que não sou.
E o que sou é a face de uma sombra.
Escrever para essa sombra sem face.
Sou uma sombra sem face
na sombra da rua.
Escrevo nesse intervalo,
nessa sombra onde ninguém suspira,
onde ninguém passa,
onde ninguém me vê passar,
onde não passo,
onde vou passar.
Há uma face
página onde a sombra se fez face
frente à sombra.
Escrever contra a face sem face.
Escrever acender na sombra
árvores
mover a sombra até ao céu da rua.
Caminhar na sombra desatar a sombra
alta e viva
contra a face aberta
contra a face viva.
Sou somos uma face uma sombra
uma sombra uma face.
Escrever é abrir na sombra uma sombra
e respirar na sombra
um corpo de sombra.
Ninguém nos vê nem nos verá jamais.
Respirar a sombra viva.
1 033
António Ramos Rosa
A Sombra de Uma Face a Face de Uma Sombra
Há uma face que não sei,
que não sou.
E o que sou é a face de uma sombra.
Escrever para essa sombra sem face.
Sou uma sombra sem face
na sombra da rua.
Escrevo nesse intervalo,
nessa sombra onde ninguém suspira,
onde ninguém passa,
onde ninguém me vê passar,
onde não passo,
onde vou passar.
Há uma face
página onde a sombra se fez face
frente à sombra.
Escrever contra a face sem face.
Escrever acender na sombra
árvores
mover a sombra até ao céu da rua.
Caminhar na sombra desatar a sombra
alta e viva
contra a face aberta
contra a face viva.
Sou somos uma face uma sombra
uma sombra uma face.
Escrever é abrir na sombra uma sombra
e respirar na sombra
um corpo de sombra.
Ninguém nos vê nem nos verá jamais.
Respirar a sombra viva.
que não sou.
E o que sou é a face de uma sombra.
Escrever para essa sombra sem face.
Sou uma sombra sem face
na sombra da rua.
Escrevo nesse intervalo,
nessa sombra onde ninguém suspira,
onde ninguém passa,
onde ninguém me vê passar,
onde não passo,
onde vou passar.
Há uma face
página onde a sombra se fez face
frente à sombra.
Escrever contra a face sem face.
Escrever acender na sombra
árvores
mover a sombra até ao céu da rua.
Caminhar na sombra desatar a sombra
alta e viva
contra a face aberta
contra a face viva.
Sou somos uma face uma sombra
uma sombra uma face.
Escrever é abrir na sombra uma sombra
e respirar na sombra
um corpo de sombra.
Ninguém nos vê nem nos verá jamais.
Respirar a sombra viva.
1 033
António Ramos Rosa
De Bruços Sobre a Margem
A mão seca o abre: é um sabor vago.
Direitas letras: trémulas no branco.
Olhar a pele da face.
Uma diferença treme no vazio.
Jogar com, amar sem,
a forma justa à beira.
A boca sóbria e a mão deserta sobre.
Seria demasiado viva uma guitarra.
O olhar aflora: o branco o negro
sem vírgulas na rede exacta
a elegância paralela dos signos
na água.
Uma ordem desliza
e se perfaz em ramos.
A árvore surpreendente em cada folha.
Os seus caprichos verdes necessários.
Lenta paixão do olhar.
Poder horizontal
sem música.
Alimento tecido no vazio,
branca igualdade.
Concavidade súbita
mas plana no obscuro.
Seta que aponta sempre
ao branco intérmino.
Talvez só para chegar à mão.
Entre o olhar e a sombra.
Estar onde a chama
abre a distância mínima, informe.
A iminência de
um sopro que forme a boca
que sopre o sopro limpo:
a água vem à mão.
Sempre deserta, errante.
A sede que ondula o pulso:
aproximar o perto
de bruços sobre a margem.
Direitas letras: trémulas no branco.
Olhar a pele da face.
Uma diferença treme no vazio.
Jogar com, amar sem,
a forma justa à beira.
A boca sóbria e a mão deserta sobre.
Seria demasiado viva uma guitarra.
O olhar aflora: o branco o negro
sem vírgulas na rede exacta
a elegância paralela dos signos
na água.
Uma ordem desliza
e se perfaz em ramos.
A árvore surpreendente em cada folha.
Os seus caprichos verdes necessários.
Lenta paixão do olhar.
Poder horizontal
sem música.
Alimento tecido no vazio,
branca igualdade.
Concavidade súbita
mas plana no obscuro.
Seta que aponta sempre
ao branco intérmino.
Talvez só para chegar à mão.
Entre o olhar e a sombra.
Estar onde a chama
abre a distância mínima, informe.
A iminência de
um sopro que forme a boca
que sopre o sopro limpo:
a água vem à mão.
Sempre deserta, errante.
A sede que ondula o pulso:
aproximar o perto
de bruços sobre a margem.
1 055
António Ramos Rosa
De Bruços Sobre a Margem
A mão seca o abre: é um sabor vago.
Direitas letras: trémulas no branco.
Olhar a pele da face.
Uma diferença treme no vazio.
Jogar com, amar sem,
a forma justa à beira.
A boca sóbria e a mão deserta sobre.
Seria demasiado viva uma guitarra.
O olhar aflora: o branco o negro
sem vírgulas na rede exacta
a elegância paralela dos signos
na água.
Uma ordem desliza
e se perfaz em ramos.
A árvore surpreendente em cada folha.
Os seus caprichos verdes necessários.
Lenta paixão do olhar.
Poder horizontal
sem música.
Alimento tecido no vazio,
branca igualdade.
Concavidade súbita
mas plana no obscuro.
Seta que aponta sempre
ao branco intérmino.
Talvez só para chegar à mão.
Entre o olhar e a sombra.
Estar onde a chama
abre a distância mínima, informe.
A iminência de
um sopro que forme a boca
que sopre o sopro limpo:
a água vem à mão.
Sempre deserta, errante.
A sede que ondula o pulso:
aproximar o perto
de bruços sobre a margem.
Direitas letras: trémulas no branco.
Olhar a pele da face.
Uma diferença treme no vazio.
Jogar com, amar sem,
a forma justa à beira.
A boca sóbria e a mão deserta sobre.
Seria demasiado viva uma guitarra.
O olhar aflora: o branco o negro
sem vírgulas na rede exacta
a elegância paralela dos signos
na água.
Uma ordem desliza
e se perfaz em ramos.
A árvore surpreendente em cada folha.
Os seus caprichos verdes necessários.
Lenta paixão do olhar.
Poder horizontal
sem música.
Alimento tecido no vazio,
branca igualdade.
Concavidade súbita
mas plana no obscuro.
Seta que aponta sempre
ao branco intérmino.
Talvez só para chegar à mão.
Entre o olhar e a sombra.
Estar onde a chama
abre a distância mínima, informe.
A iminência de
um sopro que forme a boca
que sopre o sopro limpo:
a água vem à mão.
Sempre deserta, errante.
A sede que ondula o pulso:
aproximar o perto
de bruços sobre a margem.
1 055
António Ramos Rosa
Ver
ao Luís Pignatelli
De um olhar livre
se vive
Olhando a folha
abria-se
Da superfície ao fundo
exactamente assim
É um muro onde se vence
a inércia cega
O pó que pisas
é de um astro
A terra gira
em ti
devagar
É bom por vezes estar
Os olhos vêem dentro da tela
É uma tempestade
(mas não te abrigues)
O olho faz uma pausa
na espiral que te conduz ao silêncio
Lembras-te de um jantar antigo
É a língua da pedra
O olho faz-se víbora
e lambe o fogo
A terra é um planeta
são os teus pés que vêem
A tua mão tem olhos
Abriu-se o muro de dentro
Caminhas com teus olhos
De um olhar livre
se vive
Olhando a folha
abria-se
Da superfície ao fundo
exactamente assim
É um muro onde se vence
a inércia cega
O pó que pisas
é de um astro
A terra gira
em ti
devagar
É bom por vezes estar
Os olhos vêem dentro da tela
É uma tempestade
(mas não te abrigues)
O olho faz uma pausa
na espiral que te conduz ao silêncio
Lembras-te de um jantar antigo
É a língua da pedra
O olho faz-se víbora
e lambe o fogo
A terra é um planeta
são os teus pés que vêem
A tua mão tem olhos
Abriu-se o muro de dentro
Caminhas com teus olhos
803
António Ramos Rosa
Ver
ao Luís Pignatelli
De um olhar livre
se vive
Olhando a folha
abria-se
Da superfície ao fundo
exactamente assim
É um muro onde se vence
a inércia cega
O pó que pisas
é de um astro
A terra gira
em ti
devagar
É bom por vezes estar
Os olhos vêem dentro da tela
É uma tempestade
(mas não te abrigues)
O olho faz uma pausa
na espiral que te conduz ao silêncio
Lembras-te de um jantar antigo
É a língua da pedra
O olho faz-se víbora
e lambe o fogo
A terra é um planeta
são os teus pés que vêem
A tua mão tem olhos
Abriu-se o muro de dentro
Caminhas com teus olhos
De um olhar livre
se vive
Olhando a folha
abria-se
Da superfície ao fundo
exactamente assim
É um muro onde se vence
a inércia cega
O pó que pisas
é de um astro
A terra gira
em ti
devagar
É bom por vezes estar
Os olhos vêem dentro da tela
É uma tempestade
(mas não te abrigues)
O olho faz uma pausa
na espiral que te conduz ao silêncio
Lembras-te de um jantar antigo
É a língua da pedra
O olho faz-se víbora
e lambe o fogo
A terra é um planeta
são os teus pés que vêem
A tua mão tem olhos
Abriu-se o muro de dentro
Caminhas com teus olhos
803
António Ramos Rosa
Antes da Noite
Eu não fabrico a água.
Estas árvores existem. Estas mãos
estendem-se. Os meus passos
conjugam-se entre árvores, ruas, muita gente.
Mas eis a distância (a do deserto)
e aqui aproximo-me, é um desvio
verde, não a terra encantada,
à beira de ser eu, antecipo a vaga
que a língua move,
parede que foge e que se eleva
sobre a água, sombra e relvas.
O percurso é incerto. A cidade
é longe. E aqui a ausência
de uma árvore.
Interminável suspensão.
Mas a transparência existe.
Os músculos da boca são redondos.
No pulso bate a seiva. Sinto-me vivo.
Ó móvel vagar que eu pronuncio.
E a luz sempre, a luz e a sombra.
Entre uma e outra estendo a rede.
Eu quero beber a água deste dia
antes da noite.
Estas árvores existem. Estas mãos
estendem-se. Os meus passos
conjugam-se entre árvores, ruas, muita gente.
Mas eis a distância (a do deserto)
e aqui aproximo-me, é um desvio
verde, não a terra encantada,
à beira de ser eu, antecipo a vaga
que a língua move,
parede que foge e que se eleva
sobre a água, sombra e relvas.
O percurso é incerto. A cidade
é longe. E aqui a ausência
de uma árvore.
Interminável suspensão.
Mas a transparência existe.
Os músculos da boca são redondos.
No pulso bate a seiva. Sinto-me vivo.
Ó móvel vagar que eu pronuncio.
E a luz sempre, a luz e a sombra.
Entre uma e outra estendo a rede.
Eu quero beber a água deste dia
antes da noite.
1 002
António Ramos Rosa
Horizonte Imediato
Todos os dias me apoio em qualquer coisa
ando, como, esqueço
alguma coisa aprendo
e desaprendo
alguma coisa limpa nua grave
surge
ao lado passa
eu não sou este desejo
que às vezes arde
alto sobre o chão
ando, como, esqueço
alguma coisa aprendo
e desaprendo
alguma coisa limpa nua grave
surge
ao lado passa
eu não sou este desejo
que às vezes arde
alto sobre o chão
1 085
António Ramos Rosa
O Aparato Silencioso Das Coisas
As coisas surgem vivas
obscuras nuas secas e marinhas
mar e som desveladas
são paredes redondas
e palmas e jarros no silêncio vivo jorros
surdas surdas mar silêncio
teclas quase pungentes brancas na memória
mais que serenas temperadas
trémulas imóveis altas impenetráveis rudes
presenças intocáveis sem espanto assombro puro
ó terra modelada a pão e vinho ó gérmenes
de água
o sol é fibra e fome alimento do olhar
feliz repouso apaixonada mão contida
e o espaço que limpais
respira ó profundas
teclas
temperadas trémulas
Ó fontes de vertigem lenta parede branca
dispostas como as torres neutras simples
definindo ombros braços punhos mãos
matéria desnuda formas só de matéria
terra dura
veias que assomam sulcos
próximas profundas trémulas
teclas
obscuras nuas secas e marinhas
mar e som desveladas
são paredes redondas
e palmas e jarros no silêncio vivo jorros
surdas surdas mar silêncio
teclas quase pungentes brancas na memória
mais que serenas temperadas
trémulas imóveis altas impenetráveis rudes
presenças intocáveis sem espanto assombro puro
ó terra modelada a pão e vinho ó gérmenes
de água
o sol é fibra e fome alimento do olhar
feliz repouso apaixonada mão contida
e o espaço que limpais
respira ó profundas
teclas
temperadas trémulas
Ó fontes de vertigem lenta parede branca
dispostas como as torres neutras simples
definindo ombros braços punhos mãos
matéria desnuda formas só de matéria
terra dura
veias que assomam sulcos
próximas profundas trémulas
teclas
1 002
António Ramos Rosa
O Aparato Silencioso Das Coisas
As coisas surgem vivas
obscuras nuas secas e marinhas
mar e som desveladas
são paredes redondas
e palmas e jarros no silêncio vivo jorros
surdas surdas mar silêncio
teclas quase pungentes brancas na memória
mais que serenas temperadas
trémulas imóveis altas impenetráveis rudes
presenças intocáveis sem espanto assombro puro
ó terra modelada a pão e vinho ó gérmenes
de água
o sol é fibra e fome alimento do olhar
feliz repouso apaixonada mão contida
e o espaço que limpais
respira ó profundas
teclas
temperadas trémulas
Ó fontes de vertigem lenta parede branca
dispostas como as torres neutras simples
definindo ombros braços punhos mãos
matéria desnuda formas só de matéria
terra dura
veias que assomam sulcos
próximas profundas trémulas
teclas
obscuras nuas secas e marinhas
mar e som desveladas
são paredes redondas
e palmas e jarros no silêncio vivo jorros
surdas surdas mar silêncio
teclas quase pungentes brancas na memória
mais que serenas temperadas
trémulas imóveis altas impenetráveis rudes
presenças intocáveis sem espanto assombro puro
ó terra modelada a pão e vinho ó gérmenes
de água
o sol é fibra e fome alimento do olhar
feliz repouso apaixonada mão contida
e o espaço que limpais
respira ó profundas
teclas
temperadas trémulas
Ó fontes de vertigem lenta parede branca
dispostas como as torres neutras simples
definindo ombros braços punhos mãos
matéria desnuda formas só de matéria
terra dura
veias que assomam sulcos
próximas profundas trémulas
teclas
1 002
António Ramos Rosa
Caminhar Habitar
Se não tenho a força
que é tão fácil,
se não sei, não vejo,
não posso e desejo.
Se procuro, desfaço,
me entrego, não vou,
algo precipito,
tão pouco, e já é tudo.
Entre nada e nada,
nada se passou,
ou passou uma sombra
e é o espaço. E sou.
*
Aqui está a mão,
ali está a folha.
Acendo o cigarro.
Tudo começou.
É a vida aberta?
É a ilusão
da morte deserta.
É o sim e o não.
É, não é ainda:
mas o que vai ser
e nunca será?
Aqui, não jazer.
Eis a folha branca.
Eis talvez o mar.
Contra ela, o quê?
Um barco, uma caixa?
Ou algo mais neutro.
Uma pedra escura,
um calhau polido,
uma coisa opaca.
Que a palavra tenha
dureza de quina,
firmeza de punho.
Que a palavra seja.
*
Quem sou quando escrevo?
Quem sou? Eu vou ser
algo que não sou.
Eu vou e já voo.
Mas não vou e não voo
porque sempre aqui estou
onde o onde não é
senão onde vou.
*
Onde vou? Que ilusão
de ar, de algo vão?
Mas que importa sabê-lo,
se isto é respirar!
Se isto é querer e andar,
como o vento nas pedras,
se isto é desatar:
Caminhar. Habitar.
que é tão fácil,
se não sei, não vejo,
não posso e desejo.
Se procuro, desfaço,
me entrego, não vou,
algo precipito,
tão pouco, e já é tudo.
Entre nada e nada,
nada se passou,
ou passou uma sombra
e é o espaço. E sou.
*
Aqui está a mão,
ali está a folha.
Acendo o cigarro.
Tudo começou.
É a vida aberta?
É a ilusão
da morte deserta.
É o sim e o não.
É, não é ainda:
mas o que vai ser
e nunca será?
Aqui, não jazer.
Eis a folha branca.
Eis talvez o mar.
Contra ela, o quê?
Um barco, uma caixa?
Ou algo mais neutro.
Uma pedra escura,
um calhau polido,
uma coisa opaca.
Que a palavra tenha
dureza de quina,
firmeza de punho.
Que a palavra seja.
*
Quem sou quando escrevo?
Quem sou? Eu vou ser
algo que não sou.
Eu vou e já voo.
Mas não vou e não voo
porque sempre aqui estou
onde o onde não é
senão onde vou.
*
Onde vou? Que ilusão
de ar, de algo vão?
Mas que importa sabê-lo,
se isto é respirar!
Se isto é querer e andar,
como o vento nas pedras,
se isto é desatar:
Caminhar. Habitar.
1 028
António Ramos Rosa
Uma Só Palavra
São quatro ou cinco ou duas
palavras duras e uma só mão.
Para o corpo inteiro a boca única,
o braço estende-se aos limites: quatro.
O pulso livre o branco aberto
um único sol pelo corpo todo
enche a cabeça o tronco o ventre
um sol interior no corpo.
É uma palavra ou quatro
ou todas as palavras rodando num olho fixo
ou só duas palavras dois ovos sobre o branco
duas iguais sobre a branca igualdade.
Duas brancas alvo, quatro cinco
proliferam moscas negras azuis
mas o suspiro do ventre sobe
à garganta, à língua, à fronte,
as comportas do cérebro abrem-se uma
bola branca solta e tensa
sol terra e ar: brancura extrema
um solo essencial um único solo
adere.
Um pé que ganhou gosto e sabor adere
a um soalho limpo, uma madeira cálida,
onde a nudez se sente e sabe viva. Uma palavra
em corpo ganhou o pé redondo e firme.
Eis no extremo limite o peso material
a que a língua adere: planta, dorso, palma.
Dali, do solo liso, jorra uma água sólida,
articulada e ágil, repousa, ascende em corpo,
pesa, pesa, eleva-se, massa de altura viva,
sol que se aperta, sol e solo, sol.
palavras duras e uma só mão.
Para o corpo inteiro a boca única,
o braço estende-se aos limites: quatro.
O pulso livre o branco aberto
um único sol pelo corpo todo
enche a cabeça o tronco o ventre
um sol interior no corpo.
É uma palavra ou quatro
ou todas as palavras rodando num olho fixo
ou só duas palavras dois ovos sobre o branco
duas iguais sobre a branca igualdade.
Duas brancas alvo, quatro cinco
proliferam moscas negras azuis
mas o suspiro do ventre sobe
à garganta, à língua, à fronte,
as comportas do cérebro abrem-se uma
bola branca solta e tensa
sol terra e ar: brancura extrema
um solo essencial um único solo
adere.
Um pé que ganhou gosto e sabor adere
a um soalho limpo, uma madeira cálida,
onde a nudez se sente e sabe viva. Uma palavra
em corpo ganhou o pé redondo e firme.
Eis no extremo limite o peso material
a que a língua adere: planta, dorso, palma.
Dali, do solo liso, jorra uma água sólida,
articulada e ágil, repousa, ascende em corpo,
pesa, pesa, eleva-se, massa de altura viva,
sol que se aperta, sol e solo, sol.
1 156
António Ramos Rosa
Uma Só Palavra
São quatro ou cinco ou duas
palavras duras e uma só mão.
Para o corpo inteiro a boca única,
o braço estende-se aos limites: quatro.
O pulso livre o branco aberto
um único sol pelo corpo todo
enche a cabeça o tronco o ventre
um sol interior no corpo.
É uma palavra ou quatro
ou todas as palavras rodando num olho fixo
ou só duas palavras dois ovos sobre o branco
duas iguais sobre a branca igualdade.
Duas brancas alvo, quatro cinco
proliferam moscas negras azuis
mas o suspiro do ventre sobe
à garganta, à língua, à fronte,
as comportas do cérebro abrem-se uma
bola branca solta e tensa
sol terra e ar: brancura extrema
um solo essencial um único solo
adere.
Um pé que ganhou gosto e sabor adere
a um soalho limpo, uma madeira cálida,
onde a nudez se sente e sabe viva. Uma palavra
em corpo ganhou o pé redondo e firme.
Eis no extremo limite o peso material
a que a língua adere: planta, dorso, palma.
Dali, do solo liso, jorra uma água sólida,
articulada e ágil, repousa, ascende em corpo,
pesa, pesa, eleva-se, massa de altura viva,
sol que se aperta, sol e solo, sol.
palavras duras e uma só mão.
Para o corpo inteiro a boca única,
o braço estende-se aos limites: quatro.
O pulso livre o branco aberto
um único sol pelo corpo todo
enche a cabeça o tronco o ventre
um sol interior no corpo.
É uma palavra ou quatro
ou todas as palavras rodando num olho fixo
ou só duas palavras dois ovos sobre o branco
duas iguais sobre a branca igualdade.
Duas brancas alvo, quatro cinco
proliferam moscas negras azuis
mas o suspiro do ventre sobe
à garganta, à língua, à fronte,
as comportas do cérebro abrem-se uma
bola branca solta e tensa
sol terra e ar: brancura extrema
um solo essencial um único solo
adere.
Um pé que ganhou gosto e sabor adere
a um soalho limpo, uma madeira cálida,
onde a nudez se sente e sabe viva. Uma palavra
em corpo ganhou o pé redondo e firme.
Eis no extremo limite o peso material
a que a língua adere: planta, dorso, palma.
Dali, do solo liso, jorra uma água sólida,
articulada e ágil, repousa, ascende em corpo,
pesa, pesa, eleva-se, massa de altura viva,
sol que se aperta, sol e solo, sol.
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