Poemas neste tema
Outros
Fernando Pessoa
Loura, teus olhos de céu
Loura, teus olhos de céu
Têm um azul que é fatal.
Bem sei: foi Deus que tos deu.
Mas então Deus fez o mal?
Têm um azul que é fatal.
Bem sei: foi Deus que tos deu.
Mas então Deus fez o mal?
1 420
Fernando Pessoa
Rezas porque outros rezaram,
Rezas porque outros rezaram,
E vestes à moda alheia...
Quando amares vê se amas
Sem teres o amor na ideia.
E vestes à moda alheia...
Quando amares vê se amas
Sem teres o amor na ideia.
1 282
Fernando Pessoa
The day is glad and golden.
The day is glad and golden.
Over the sunhit beach
The waves do gladly embolden
Their crisp and clinging reach.
Would I were one as they
With the natural hour,
With the wide sunlit day
And the ancient sea's power.
I would not be here weeping
That I am not aught else,
My waking would be a sleeping
Like this of the sea swells
Not like an outcast from
A home I never knew
Would I be pining for home,
……
Not like a tossed sea‑weed
Between the wave and the wave,
And restless with a mute greed
For something I cannot have.
Something I cannot een dream,
Some spent life I know not...
Oh how fair would nature seem
Were it not for thought!
Dark is the golden day
Unto mine eyes that stare
Brightness and joy away
From sky and shore and here.
Dead is the changing sea,
The wind a monotone,
Oh ever to be he
That never is but alone,
I cannot dream of heaven,
Nor create one in the hour...
Pass, day, and ask not even
For my grateful eyes' dower...
Over the sunhit beach
The waves do gladly embolden
Their crisp and clinging reach.
Would I were one as they
With the natural hour,
With the wide sunlit day
And the ancient sea's power.
I would not be here weeping
That I am not aught else,
My waking would be a sleeping
Like this of the sea swells
Not like an outcast from
A home I never knew
Would I be pining for home,
……
Not like a tossed sea‑weed
Between the wave and the wave,
And restless with a mute greed
For something I cannot have.
Something I cannot een dream,
Some spent life I know not...
Oh how fair would nature seem
Were it not for thought!
Dark is the golden day
Unto mine eyes that stare
Brightness and joy away
From sky and shore and here.
Dead is the changing sea,
The wind a monotone,
Oh ever to be he
That never is but alone,
I cannot dream of heaven,
Nor create one in the hour...
Pass, day, and ask not even
For my grateful eyes' dower...
1 504
Fernando Pessoa
51 - INVERSION
Here in this wilderness
Each tree and stone fills me
With the sadness of a great glee.
God in His altogetherness
Is whole‑part of each stone and tree.
An inner outward seeingness
Makes my clear self unknown.
(O Godfully alone!)
God in His overbeingness
Survives His death each tree and every stone
Ay, in the barkness and clodfulness
Of tree and sand and stone
God is only His Own,
God in all His godfulness,
Whose concrete soul's each thing's abstraction.
Each tree and stone fills me
With the sadness of a great glee.
God in His altogetherness
Is whole‑part of each stone and tree.
An inner outward seeingness
Makes my clear self unknown.
(O Godfully alone!)
God in His overbeingness
Survives His death each tree and every stone
Ay, in the barkness and clodfulness
Of tree and sand and stone
God is only His Own,
God in all His godfulness,
Whose concrete soul's each thing's abstraction.
1 450
Fernando Pessoa
Vejo lágrimas luzir
Vejo lágrimas luzir
Nos teus olhos de fingida.
É como quando à janela
Chegas, um pouco escondida.
Nos teus olhos de fingida.
É como quando à janela
Chegas, um pouco escondida.
1 430
Fernando Pessoa
Duas vezes jurei ser
Duas vezes jurei ser
O que julgo que sou,
Só para desconhecer
Que não sei para onde vou.
O que julgo que sou,
Só para desconhecer
Que não sei para onde vou.
1 239
Fernando Pessoa
Deixaste o dedal na mesa
Deixaste o dedal na mesa
Só pelo tempo da ausência —
Se eu to roubasse dirias
Que eu não tinha consciência.
Só pelo tempo da ausência —
Se eu to roubasse dirias
Que eu não tinha consciência.
792
Fernando Pessoa
Tens uns brincos sem valia
Tens uns brincos sem valia
E um lenço que não é nada,
Mas quem dera ter o dia
De quem és a madrugada.
E um lenço que não é nada,
Mas quem dera ter o dia
De quem és a madrugada.
1 467
Fernando Pessoa
48 - A SUMMER ECSTASY
Beside a summer's day
I lay me down and dreamed.
The light from far away
In my withinned self gleamed,
An unreal true glow,
Spiritually somehow.
I saw the inner side
Of summer, earth and morn.
I heard the rivers glide
From Within. l was borne
To see, through mysteries,
How God everything is.
The motes of sun that dance
Are audibly whispered.
All is an utterance.
The sight may hear. I shed
Vision of things as things.
My thoughts are angels' wings.
The corpses of known hours
In barks unsteered and left
Float, covered with mute flowers,
Down my dream that is cleft
In banks of mystery -
This summer day and I.
And something like a greed
And yet unlike a wish,
The power to have a need
Which doth not needing reach,
But is dissolved again
Ere its sad joy reach pain,
A shadowy lightness woven
Of the day and of me,
Like sparkling water driven
Never but where we see,
A gap, a pause, a dim
Looking over things' rim,
Starts like a sudden flute
Pastoral with tuneless notes
Out of the unseen root
Of all my being denotes,
Spreads, till I feel it not,
O'er my lost sense of thought.
And lo! I am another.
My senses taste not‑mine.
A hand my sight doth smother
To a blind sight divine.
I am a lost tune, a mood
Of the finger‑tips of God.
So, like a child‑king crowned,
I feel new with fear‑pride.
I am robed with sky and ground.
My inmost soul's outside
Is sunlit seas and lands.
My dreams are seraphs' hands.
I lay me down and dreamed.
The light from far away
In my withinned self gleamed,
An unreal true glow,
Spiritually somehow.
I saw the inner side
Of summer, earth and morn.
I heard the rivers glide
From Within. l was borne
To see, through mysteries,
How God everything is.
The motes of sun that dance
Are audibly whispered.
All is an utterance.
The sight may hear. I shed
Vision of things as things.
My thoughts are angels' wings.
The corpses of known hours
In barks unsteered and left
Float, covered with mute flowers,
Down my dream that is cleft
In banks of mystery -
This summer day and I.
And something like a greed
And yet unlike a wish,
The power to have a need
Which doth not needing reach,
But is dissolved again
Ere its sad joy reach pain,
A shadowy lightness woven
Of the day and of me,
Like sparkling water driven
Never but where we see,
A gap, a pause, a dim
Looking over things' rim,
Starts like a sudden flute
Pastoral with tuneless notes
Out of the unseen root
Of all my being denotes,
Spreads, till I feel it not,
O'er my lost sense of thought.
And lo! I am another.
My senses taste not‑mine.
A hand my sight doth smother
To a blind sight divine.
I am a lost tune, a mood
Of the finger‑tips of God.
So, like a child‑king crowned,
I feel new with fear‑pride.
I am robed with sky and ground.
My inmost soul's outside
Is sunlit seas and lands.
My dreams are seraphs' hands.
1 685
Fernando Pessoa
No ocaso, sobre Lisboa, no tédio dos dias que passam,
No ocaso, sobre Lisboa, no tédio dos dias que passam,
Fixo no tédio do dia que passa permanentemente
Moro na vigília involuntária como um fecho de porta
Que não fecha coisa nenhuma.
Meu coração involuntário, impulsivo,
Naufraga a esfinges indigentes
Nas consequências e fins, [acordando?] no [além?]...
Fixo no tédio do dia que passa permanentemente
Moro na vigília involuntária como um fecho de porta
Que não fecha coisa nenhuma.
Meu coração involuntário, impulsivo,
Naufraga a esfinges indigentes
Nas consequências e fins, [acordando?] no [além?]...
1 399
Fernando Pessoa
TRAMWAY
TRAMWAY
Aqui vou eu num carro eléctrico, mais umas trinta ou quarenta pessoas,
Cheio (só) das minhas ideias imortais, (creio que boas).
Amanhã elas, postas em verso, serão
Por toda a Europa, por todo o mundo (quem sabe?!)
Triunfo meta, início, clarão
Que talvez não acabe.
E quem sobe? Que sente? O que vai a meu lado
Só sente em mim que sou o que, estrangeiro,
Tem o lugar da ponta, e do extremo, apanhado
Por quem entra primeiro.
Que o que vale são as ideias que tenho, enfim,
O resto, o que aqui está sentado, sou eu,
Vestido, visual, regular, sempre em mim,
Sob o azul do céu.
Ah, Destino dos deuses, dai-me ao menos o siso
Ao que em mim pensa a vida de ter um profundo
Senso essencial, mas certeiro e conciso
Da vida e do mundo!
Sei, sob o céu que é que toca as minhas ideias,
Sob o céu mais análogo ao que penso comigo
Que este carro vai com os bancos cheios
Para onde eu sigo.
E o ponto de absurdo de tudo isto qual é?
Onde é que está aqui o erro que sinto?
A minha razão enternecida aqui perde pé
E pensando minto,
Mas a que verdade minto, que ponte,
Há entre o que é falso aqui e o que é certo?
Se o que sinto e penso, não sei sequer como o conte,
Se o que está a descoberto
Agora no meu meditar é uma treva e um abismo
Que hei-de fazer da minha consciência dividida?
Oh, carro absurdo e irreal, onde está quanto cismo?
De que lado é que é a vida?
Aqui vou eu num carro eléctrico, mais umas trinta ou quarenta pessoas,
Cheio (só) das minhas ideias imortais, (creio que boas).
Amanhã elas, postas em verso, serão
Por toda a Europa, por todo o mundo (quem sabe?!)
Triunfo meta, início, clarão
Que talvez não acabe.
E quem sobe? Que sente? O que vai a meu lado
Só sente em mim que sou o que, estrangeiro,
Tem o lugar da ponta, e do extremo, apanhado
Por quem entra primeiro.
Que o que vale são as ideias que tenho, enfim,
O resto, o que aqui está sentado, sou eu,
Vestido, visual, regular, sempre em mim,
Sob o azul do céu.
Ah, Destino dos deuses, dai-me ao menos o siso
Ao que em mim pensa a vida de ter um profundo
Senso essencial, mas certeiro e conciso
Da vida e do mundo!
Sei, sob o céu que é que toca as minhas ideias,
Sob o céu mais análogo ao que penso comigo
Que este carro vai com os bancos cheios
Para onde eu sigo.
E o ponto de absurdo de tudo isto qual é?
Onde é que está aqui o erro que sinto?
A minha razão enternecida aqui perde pé
E pensando minto,
Mas a que verdade minto, que ponte,
Há entre o que é falso aqui e o que é certo?
Se o que sinto e penso, não sei sequer como o conte,
Se o que está a descoberto
Agora no meu meditar é uma treva e um abismo
Que hei-de fazer da minha consciência dividida?
Oh, carro absurdo e irreal, onde está quanto cismo?
De que lado é que é a vida?
949
Fernando Pessoa
TRAMWAY
TRAMWAY
Aqui vou eu num carro eléctrico, mais umas trinta ou quarenta pessoas,
Cheio (só) das minhas ideias imortais, (creio que boas).
Amanhã elas, postas em verso, serão
Por toda a Europa, por todo o mundo (quem sabe?!)
Triunfo meta, início, clarão
Que talvez não acabe.
E quem sobe? Que sente? O que vai a meu lado
Só sente em mim que sou o que, estrangeiro,
Tem o lugar da ponta, e do extremo, apanhado
Por quem entra primeiro.
Que o que vale são as ideias que tenho, enfim,
O resto, o que aqui está sentado, sou eu,
Vestido, visual, regular, sempre em mim,
Sob o azul do céu.
Ah, Destino dos deuses, dai-me ao menos o siso
Ao que em mim pensa a vida de ter um profundo
Senso essencial, mas certeiro e conciso
Da vida e do mundo!
Sei, sob o céu que é que toca as minhas ideias,
Sob o céu mais análogo ao que penso comigo
Que este carro vai com os bancos cheios
Para onde eu sigo.
E o ponto de absurdo de tudo isto qual é?
Onde é que está aqui o erro que sinto?
A minha razão enternecida aqui perde pé
E pensando minto,
Mas a que verdade minto, que ponte,
Há entre o que é falso aqui e o que é certo?
Se o que sinto e penso, não sei sequer como o conte,
Se o que está a descoberto
Agora no meu meditar é uma treva e um abismo
Que hei-de fazer da minha consciência dividida?
Oh, carro absurdo e irreal, onde está quanto cismo?
De que lado é que é a vida?
Aqui vou eu num carro eléctrico, mais umas trinta ou quarenta pessoas,
Cheio (só) das minhas ideias imortais, (creio que boas).
Amanhã elas, postas em verso, serão
Por toda a Europa, por todo o mundo (quem sabe?!)
Triunfo meta, início, clarão
Que talvez não acabe.
E quem sobe? Que sente? O que vai a meu lado
Só sente em mim que sou o que, estrangeiro,
Tem o lugar da ponta, e do extremo, apanhado
Por quem entra primeiro.
Que o que vale são as ideias que tenho, enfim,
O resto, o que aqui está sentado, sou eu,
Vestido, visual, regular, sempre em mim,
Sob o azul do céu.
Ah, Destino dos deuses, dai-me ao menos o siso
Ao que em mim pensa a vida de ter um profundo
Senso essencial, mas certeiro e conciso
Da vida e do mundo!
Sei, sob o céu que é que toca as minhas ideias,
Sob o céu mais análogo ao que penso comigo
Que este carro vai com os bancos cheios
Para onde eu sigo.
E o ponto de absurdo de tudo isto qual é?
Onde é que está aqui o erro que sinto?
A minha razão enternecida aqui perde pé
E pensando minto,
Mas a que verdade minto, que ponte,
Há entre o que é falso aqui e o que é certo?
Se o que sinto e penso, não sei sequer como o conte,
Se o que está a descoberto
Agora no meu meditar é uma treva e um abismo
Que hei-de fazer da minha consciência dividida?
Oh, carro absurdo e irreal, onde está quanto cismo?
De que lado é que é a vida?
949
Fernando Pessoa
Sorrow no more for the faded rose,
Sorrow no more for the faded rose,
Nor of the yellow lily despair.
These, as we see them, are but their shows.
They are elsewhere.
Tis but their shadow lives in our light.
As we see them (...)
They live more truly in our delight
Than in their forms.
The beauty they had was never lost,
It moved away
From the present hour and the form once tossed
Into space and day.
But the undying essence of the (...)
The rose that faded from yesterday
Is where yesterday is.
I shall have again the flower and the day,
The self and the bliss.
Nor of the yellow lily despair.
These, as we see them, are but their shows.
They are elsewhere.
Tis but their shadow lives in our light.
As we see them (...)
They live more truly in our delight
Than in their forms.
The beauty they had was never lost,
It moved away
From the present hour and the form once tossed
Into space and day.
But the undying essence of the (...)
The rose that faded from yesterday
Is where yesterday is.
I shall have again the flower and the day,
The self and the bliss.
1 424
Fernando Pessoa
Mas que grande disparate
Mas que grande disparate
É o que penso e o que sinto.
Meu coração bate, bate
E se sonho muito, minto.
É o que penso e o que sinto.
Meu coração bate, bate
E se sonho muito, minto.
1 841
Fernando Pessoa
She lives on the cover
She lives on the cover
Of a chocolate‑box.
Her wide hat comes over
Her too golden locks.
Near her many a blossom
Of a bad green tree
Her hand's on her bosom
And she looks past me.
Haply she is like
Someone I ne'er knew,
And can memory strike
In a way untrue.
A vague maiden made
Of bad printing work,
Of colours ill‑laid
……
Haply she's someone,
Real, person, and true
In a world, or none,
Our thoughts can construe.
Somehow she is there
And that means something
Real, but not near
Our imagining.
Why was she made that
There and thus, if she
Is not God‑known. What
Is reality?
Nothing that we can
Interpret or dream
Quite exhausts the span
Of what she can seem.
God is very complex.
Life is very wide.
Who knows? She resembles
Much that is denied.
This is idle, but
Perhaps out of here
Its sense may abut
On some notion clear.
Life is shallow water,
Dreams are ripples gone.
To think is to falter
What's known is unknown.
Of a chocolate‑box.
Her wide hat comes over
Her too golden locks.
Near her many a blossom
Of a bad green tree
Her hand's on her bosom
And she looks past me.
Haply she is like
Someone I ne'er knew,
And can memory strike
In a way untrue.
A vague maiden made
Of bad printing work,
Of colours ill‑laid
……
Haply she's someone,
Real, person, and true
In a world, or none,
Our thoughts can construe.
Somehow she is there
And that means something
Real, but not near
Our imagining.
Why was she made that
There and thus, if she
Is not God‑known. What
Is reality?
Nothing that we can
Interpret or dream
Quite exhausts the span
Of what she can seem.
God is very complex.
Life is very wide.
Who knows? She resembles
Much that is denied.
This is idle, but
Perhaps out of here
Its sense may abut
On some notion clear.
Life is shallow water,
Dreams are ripples gone.
To think is to falter
What's known is unknown.
1 411
Fernando Pessoa
She lives on the cover
She lives on the cover
Of a chocolate‑box.
Her wide hat comes over
Her too golden locks.
Near her many a blossom
Of a bad green tree
Her hand's on her bosom
And she looks past me.
Haply she is like
Someone I ne'er knew,
And can memory strike
In a way untrue.
A vague maiden made
Of bad printing work,
Of colours ill‑laid
……
Haply she's someone,
Real, person, and true
In a world, or none,
Our thoughts can construe.
Somehow she is there
And that means something
Real, but not near
Our imagining.
Why was she made that
There and thus, if she
Is not God‑known. What
Is reality?
Nothing that we can
Interpret or dream
Quite exhausts the span
Of what she can seem.
God is very complex.
Life is very wide.
Who knows? She resembles
Much that is denied.
This is idle, but
Perhaps out of here
Its sense may abut
On some notion clear.
Life is shallow water,
Dreams are ripples gone.
To think is to falter
What's known is unknown.
Of a chocolate‑box.
Her wide hat comes over
Her too golden locks.
Near her many a blossom
Of a bad green tree
Her hand's on her bosom
And she looks past me.
Haply she is like
Someone I ne'er knew,
And can memory strike
In a way untrue.
A vague maiden made
Of bad printing work,
Of colours ill‑laid
……
Haply she's someone,
Real, person, and true
In a world, or none,
Our thoughts can construe.
Somehow she is there
And that means something
Real, but not near
Our imagining.
Why was she made that
There and thus, if she
Is not God‑known. What
Is reality?
Nothing that we can
Interpret or dream
Quite exhausts the span
Of what she can seem.
God is very complex.
Life is very wide.
Who knows? She resembles
Much that is denied.
This is idle, but
Perhaps out of here
Its sense may abut
On some notion clear.
Life is shallow water,
Dreams are ripples gone.
To think is to falter
What's known is unknown.
1 411
Fernando Pessoa
She lives on the cover
She lives on the cover
Of a chocolate‑box.
Her wide hat comes over
Her too golden locks.
Near her many a blossom
Of a bad green tree
Her hand's on her bosom
And she looks past me.
Haply she is like
Someone I ne'er knew,
And can memory strike
In a way untrue.
A vague maiden made
Of bad printing work,
Of colours ill‑laid
……
Haply she's someone,
Real, person, and true
In a world, or none,
Our thoughts can construe.
Somehow she is there
And that means something
Real, but not near
Our imagining.
Why was she made that
There and thus, if she
Is not God‑known. What
Is reality?
Nothing that we can
Interpret or dream
Quite exhausts the span
Of what she can seem.
God is very complex.
Life is very wide.
Who knows? She resembles
Much that is denied.
This is idle, but
Perhaps out of here
Its sense may abut
On some notion clear.
Life is shallow water,
Dreams are ripples gone.
To think is to falter
What's known is unknown.
Of a chocolate‑box.
Her wide hat comes over
Her too golden locks.
Near her many a blossom
Of a bad green tree
Her hand's on her bosom
And she looks past me.
Haply she is like
Someone I ne'er knew,
And can memory strike
In a way untrue.
A vague maiden made
Of bad printing work,
Of colours ill‑laid
……
Haply she's someone,
Real, person, and true
In a world, or none,
Our thoughts can construe.
Somehow she is there
And that means something
Real, but not near
Our imagining.
Why was she made that
There and thus, if she
Is not God‑known. What
Is reality?
Nothing that we can
Interpret or dream
Quite exhausts the span
Of what she can seem.
God is very complex.
Life is very wide.
Who knows? She resembles
Much that is denied.
This is idle, but
Perhaps out of here
Its sense may abut
On some notion clear.
Life is shallow water,
Dreams are ripples gone.
To think is to falter
What's known is unknown.
1 411
Fernando Pessoa
Ai, Margarida,
Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.
Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.
E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.
Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.
Comunicado pelo Engenheiro Naval
Sr. Álvaro de Campos em estado
de inconsciência
alcoólica.
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.
Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.
E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.
Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.
Comunicado pelo Engenheiro Naval
Sr. Álvaro de Campos em estado
de inconsciência
alcoólica.
2 070
Fernando Pessoa
Seguro assento na coluna firme [ 2]
Seguro assento na coluna firme
Dos versos em que fico.
Aquele agudo interno movimento
Por quem os fiz pensados
Passa, e eu, outro já que o factor deles,
Póstumo substituo-me.
Chegada a hora, eu próprio serei todo
Menos que essas palavras
E papel, ou papiro escrito e morto
Será mais eu que eu mesmo.
A obra imortal excede o autor da obra;
E é menos dono dela
Quem a fez do que o tempo em que perdura.
Morre a obra a vida nossa.
Durar, sentir, só os altos deuses unem.
Nós não somos inteiros.
Assim os deuses esta nossa regem
Mortal e imortal vida;
Assim o Fado rege que assim rejam.
Mas se assim é, é assim.
Dos versos em que fico.
Aquele agudo interno movimento
Por quem os fiz pensados
Passa, e eu, outro já que o factor deles,
Póstumo substituo-me.
Chegada a hora, eu próprio serei todo
Menos que essas palavras
E papel, ou papiro escrito e morto
Será mais eu que eu mesmo.
A obra imortal excede o autor da obra;
E é menos dono dela
Quem a fez do que o tempo em que perdura.
Morre a obra a vida nossa.
Durar, sentir, só os altos deuses unem.
Nós não somos inteiros.
Assim os deuses esta nossa regem
Mortal e imortal vida;
Assim o Fado rege que assim rejam.
Mas se assim é, é assim.
1 369
Fernando Pessoa
Seguro assento na coluna firme [ 2]
Seguro assento na coluna firme
Dos versos em que fico.
Aquele agudo interno movimento
Por quem os fiz pensados
Passa, e eu, outro já que o factor deles,
Póstumo substituo-me.
Chegada a hora, eu próprio serei todo
Menos que essas palavras
E papel, ou papiro escrito e morto
Será mais eu que eu mesmo.
A obra imortal excede o autor da obra;
E é menos dono dela
Quem a fez do que o tempo em que perdura.
Morre a obra a vida nossa.
Durar, sentir, só os altos deuses unem.
Nós não somos inteiros.
Assim os deuses esta nossa regem
Mortal e imortal vida;
Assim o Fado rege que assim rejam.
Mas se assim é, é assim.
Dos versos em que fico.
Aquele agudo interno movimento
Por quem os fiz pensados
Passa, e eu, outro já que o factor deles,
Póstumo substituo-me.
Chegada a hora, eu próprio serei todo
Menos que essas palavras
E papel, ou papiro escrito e morto
Será mais eu que eu mesmo.
A obra imortal excede o autor da obra;
E é menos dono dela
Quem a fez do que o tempo em que perdura.
Morre a obra a vida nossa.
Durar, sentir, só os altos deuses unem.
Nós não somos inteiros.
Assim os deuses esta nossa regem
Mortal e imortal vida;
Assim o Fado rege que assim rejam.
Mas se assim é, é assim.
1 369
Fernando Pessoa
Quero, Neera, que os teus lábios laves
Quero, Neera, que os teus lábios laves
Na nascente tranquila
Para que contra a tua febre e a triste
Dor que pões em viver,
Sintas a fresca e calma natureza
Da água, e reconheças
Que não têm penas nem desassossegos
As ninfas das nascentes
Nem mais soluços do que o som da água
Alegre e natural.
As nossas dores, não, Neera, vêm
Das causas naturais
Datam da alma e do infeliz fruir
Da vida com os homens.
Aprende pois, ó aprendiza jovem
Das clássicas delícias,
A não pôr mais tristeza que um suspiro
No modo como vives.
Nasceste pálida, deitando a regra
Da tua vã beleza
Sob a estólida fé das nossas mãos
Medrosas de ter gozo
Demasiado preso à desconfiança
Que vem de teu saber,
Não para essa vã mnemónica
Do futuro fatal.
Façamos vívidas grinaldas várias
De sol, flores e risos
Para ocultar o fundo fiel à Noite
Do nosso pensamento
Curvado já em vida sob a ideia
Do plutónico jugo
Cônscia já da lívida aguardança
Do caos redivivo.
Na nascente tranquila
Para que contra a tua febre e a triste
Dor que pões em viver,
Sintas a fresca e calma natureza
Da água, e reconheças
Que não têm penas nem desassossegos
As ninfas das nascentes
Nem mais soluços do que o som da água
Alegre e natural.
As nossas dores, não, Neera, vêm
Das causas naturais
Datam da alma e do infeliz fruir
Da vida com os homens.
Aprende pois, ó aprendiza jovem
Das clássicas delícias,
A não pôr mais tristeza que um suspiro
No modo como vives.
Nasceste pálida, deitando a regra
Da tua vã beleza
Sob a estólida fé das nossas mãos
Medrosas de ter gozo
Demasiado preso à desconfiança
Que vem de teu saber,
Não para essa vã mnemónica
Do futuro fatal.
Façamos vívidas grinaldas várias
De sol, flores e risos
Para ocultar o fundo fiel à Noite
Do nosso pensamento
Curvado já em vida sob a ideia
Do plutónico jugo
Cônscia já da lívida aguardança
Do caos redivivo.
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Fernando Pessoa
Não tenhas nada nas mãos [2]
Não tenhas nada nas mãos
Salvo uma memória na alma
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último
Nada terás deixado.
Tu serás só tu próprio
Não poderão roubar-te
O que nunca tiveste.
Que trono te querem dar
Que Atropos to não tire?...
Que Coroa que não fane
No arbítrio de Minos?
Que horas que não te tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores
O fim da tua estrada?
Colhe as flores. Abdica
E sê Rei de ti próprio.
Salvo uma memória na alma
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último
Nada terás deixado.
Tu serás só tu próprio
Não poderão roubar-te
O que nunca tiveste.
Que trono te querem dar
Que Atropos to não tire?...
Que Coroa que não fane
No arbítrio de Minos?
Que horas que não te tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores
O fim da tua estrada?
Colhe as flores. Abdica
E sê Rei de ti próprio.
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Fernando Pessoa
Não tenhas nada nas mãos [2]
Não tenhas nada nas mãos
Salvo uma memória na alma
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último
Nada terás deixado.
Tu serás só tu próprio
Não poderão roubar-te
O que nunca tiveste.
Que trono te querem dar
Que Atropos to não tire?...
Que Coroa que não fane
No arbítrio de Minos?
Que horas que não te tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores
O fim da tua estrada?
Colhe as flores. Abdica
E sê Rei de ti próprio.
Salvo uma memória na alma
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último
Nada terás deixado.
Tu serás só tu próprio
Não poderão roubar-te
O que nunca tiveste.
Que trono te querem dar
Que Atropos to não tire?...
Que Coroa que não fane
No arbítrio de Minos?
Que horas que não te tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores
O fim da tua estrada?
Colhe as flores. Abdica
E sê Rei de ti próprio.
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Fernando Pessoa
Os deuses desterrados [2]
Os deuses desterrados
Os irmãos de Saturno
Às vezes no crepúsculo
Vêm espreitar a vida…
Vêm então ter connosco
Remorsos e saudades...
É a presença deles,
Deuses que o destroná-los
Tornou espirituais,
De matéria divina
Longínqua e inactiva...
E o poente tem cores
De tristeza e cansaços.
E ouve-se soluçar
Para além das esferas
Hipérion que chora
O seu palácio antigo
Que Apolo lhe roubou...
Os irmãos de Saturno
Às vezes no crepúsculo
Vêm espreitar a vida…
Vêm então ter connosco
Remorsos e saudades...
É a presença deles,
Deuses que o destroná-los
Tornou espirituais,
De matéria divina
Longínqua e inactiva...
E o poente tem cores
De tristeza e cansaços.
E ouve-se soluçar
Para além das esferas
Hipérion que chora
O seu palácio antigo
Que Apolo lhe roubou...
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