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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

LITTLE BIRD

Poet

Little bird, sing me a sweet song deep
        Of what is not to‑day;
Be it not the future that yet doth sleep
In the hall where Time his hours doth keep,
        More than far away.

Sing me a song of the things thou knew'st
        And desirest e'er,
Be it a song to which but is used
The heart that has to love refused
        What is merely fair.

Bird

Young, too young hither I was brought
        From the dells and trees;
Weep with me - I remember them not
Save with a vague and a pining thought:
        Can I sing of these?

Poet

Sing, little bird, sing me that song -­
        None can be more dear -
Come of the spirit that doth long
Not for the past with a sadness strong,
        But for what was never here.

Sing me, sing me that song, little bird;
        I would also sing
Of sounds I remember yet never heard,
Of wishes by which my soul is stirred
        Till then bliss doth sting.

Bird

To breathe that singing I have no might;
        Sing it deeply thou!
I sing when the day is clear and bright
And when the moon is so much in night
        That thy tears do flow.

But thou, thou sing'st in woe, in ill,
        And thy voice is fit
To speak of what the wish doth fill
With pinings indescribable,
        Shadows vague of it.

Poet

Ay, little bird, let us sing in all weather
        A song, of to‑day,
Come of the sense we feel together
That nothing that doth die and wither
        Truly goes away.
1 613
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

LITTLE BIRD

Poet

Little bird, sing me a sweet song deep
        Of what is not to‑day;
Be it not the future that yet doth sleep
In the hall where Time his hours doth keep,
        More than far away.

Sing me a song of the things thou knew'st
        And desirest e'er,
Be it a song to which but is used
The heart that has to love refused
        What is merely fair.

Bird

Young, too young hither I was brought
        From the dells and trees;
Weep with me - I remember them not
Save with a vague and a pining thought:
        Can I sing of these?

Poet

Sing, little bird, sing me that song -­
        None can be more dear -
Come of the spirit that doth long
Not for the past with a sadness strong,
        But for what was never here.

Sing me, sing me that song, little bird;
        I would also sing
Of sounds I remember yet never heard,
Of wishes by which my soul is stirred
        Till then bliss doth sting.

Bird

To breathe that singing I have no might;
        Sing it deeply thou!
I sing when the day is clear and bright
And when the moon is so much in night
        That thy tears do flow.

But thou, thou sing'st in woe, in ill,
        And thy voice is fit
To speak of what the wish doth fill
With pinings indescribable,
        Shadows vague of it.

Poet

Ay, little bird, let us sing in all weather
        A song, of to‑day,
Come of the sense we feel together
That nothing that doth die and wither
        Truly goes away.
1 613
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SAUDAÇÃO [b]

Heia? Heia o quê e porquê?
O que tiro eu de heia! ou de qualquer coisa,
Que valha pensar em heia!?
Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos...
No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder,
E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio
Mas o Império finda nas nossas veias aguadas
E a Poesia foi a da nossa incompetência para agir...
Tu, cantador de profissões enérgicas, Tu o Poeta do Extremo, do Porto,
Tu, músculo da inspiração, com musas masculinas por destaque,
Tu, afinal, inocente em viva histeria,
Afinal apenas “acariciador da vida”,
Mole ocioso, paneleiro pelo menos na intenção,
— Bem... isso era contigo — mas onde é que aí está a Vida?

Eu, engenheiro como profissão, Farto de tudo e de todos,
Eu, exageradamente supérfluo, guerreando as coisas
Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral,
Bóia das minhas sensações desgarradas pelo temporal,
Âncora do meu navio já quebrada pr'ó fundo
Eu feito cantor da Vida e da Força — acreditas?
Eu, como tu, enérgico, salutar, nos versos —
E afinal sincero como tu, ardendo em ter toda a Europa no cérebro,
No cérebro explosivo e sem diques,
Na inteligência mestra e dinâmica,
Na sensualidade carimbo, projector, marca, cheque
P’ra que diabo vivemos, e fazemos versos?
Raios partam a mandriice que nos faz poetas,
A degenerescência que nos engana artistas,
O tédio fundamental que nos pretende enérgicos e modernos,
Quando o que queremos é distrair-nos, dar-nos ideia da vida
Porque nada fazemos e nada somos, a vida corre-nos lenta nas veias.
Vejamos ao menos, Walt, as coisas bem pela verdade...
Bebamos isto como um remédio amargo
E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida
Sem quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão

Isto, afinal é saudar-te?
Seja o que for, é saudar-te,
Seja o que valha, é amar-te,
Seja o que calhe, é concordar contigo...
Seja o que for é isto. E tu compreendes, tu gostas,
Tu, a chorar no meu ombro, concordas, meu velho, comigo —
(Quando parte o último comboio? —
Vilegiatura em Deus...)
Vamos, confiadamente, vamos...
Isto tudo deve ter um outro sentido
Melhor que viver e ter tudo...
Deve haver um ponto da consciência
Em que a paisagem se transforme
E comece a interessar-nos, a acudir-nos, a sacudir-nos...
Em que comece ti haver fresco na alma
E sol e campo nos sentidos despertos [...]
Seja onde for a Estação, lá nos encontraremos...
Espera-me à porta, Walt; lá estarei...
Lá estarei sem o universo, sem a vida, sem eu-próprio, sem nada...
E relembraremos, a sós, silenciosos, com a nossa dor
O grande absurdo do mundo, a dura inépcia das coisas
E sentirei, o mistério sentirei tão longe, tão longe, tão longe,
Tão absoluta e abstractamente longe,
Definitivamente longe.
1 565
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SAUDAÇÃO [b]

Heia? Heia o quê e porquê?
O que tiro eu de heia! ou de qualquer coisa,
Que valha pensar em heia!?
Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos...
No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder,
E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio
Mas o Império finda nas nossas veias aguadas
E a Poesia foi a da nossa incompetência para agir...
Tu, cantador de profissões enérgicas, Tu o Poeta do Extremo, do Porto,
Tu, músculo da inspiração, com musas masculinas por destaque,
Tu, afinal, inocente em viva histeria,
Afinal apenas “acariciador da vida”,
Mole ocioso, paneleiro pelo menos na intenção,
— Bem... isso era contigo — mas onde é que aí está a Vida?

Eu, engenheiro como profissão, Farto de tudo e de todos,
Eu, exageradamente supérfluo, guerreando as coisas
Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral,
Bóia das minhas sensações desgarradas pelo temporal,
Âncora do meu navio já quebrada pr'ó fundo
Eu feito cantor da Vida e da Força — acreditas?
Eu, como tu, enérgico, salutar, nos versos —
E afinal sincero como tu, ardendo em ter toda a Europa no cérebro,
No cérebro explosivo e sem diques,
Na inteligência mestra e dinâmica,
Na sensualidade carimbo, projector, marca, cheque
P’ra que diabo vivemos, e fazemos versos?
Raios partam a mandriice que nos faz poetas,
A degenerescência que nos engana artistas,
O tédio fundamental que nos pretende enérgicos e modernos,
Quando o que queremos é distrair-nos, dar-nos ideia da vida
Porque nada fazemos e nada somos, a vida corre-nos lenta nas veias.
Vejamos ao menos, Walt, as coisas bem pela verdade...
Bebamos isto como um remédio amargo
E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida
Sem quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão

Isto, afinal é saudar-te?
Seja o que for, é saudar-te,
Seja o que valha, é amar-te,
Seja o que calhe, é concordar contigo...
Seja o que for é isto. E tu compreendes, tu gostas,
Tu, a chorar no meu ombro, concordas, meu velho, comigo —
(Quando parte o último comboio? —
Vilegiatura em Deus...)
Vamos, confiadamente, vamos...
Isto tudo deve ter um outro sentido
Melhor que viver e ter tudo...
Deve haver um ponto da consciência
Em que a paisagem se transforme
E comece a interessar-nos, a acudir-nos, a sacudir-nos...
Em que comece ti haver fresco na alma
E sol e campo nos sentidos despertos [...]
Seja onde for a Estação, lá nos encontraremos...
Espera-me à porta, Walt; lá estarei...
Lá estarei sem o universo, sem a vida, sem eu-próprio, sem nada...
E relembraremos, a sós, silenciosos, com a nossa dor
O grande absurdo do mundo, a dura inépcia das coisas
E sentirei, o mistério sentirei tão longe, tão longe, tão longe,
Tão absoluta e abstractamente longe,
Definitivamente longe.
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