Poemas neste tema
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Fernando Pessoa
III - Adagas cujas jóias velhas galas...
III
Adagas cujas jóias velhas galas...
Opalesci amar-me entre mãos raras,
E, fluido a febres entre um lembrar de aras,
O convés sem ninguém cheio de malas...
O íntimo silêncio das opalas
Conduz orientes até jóias caras,
E o meu anseio vai nas rotas claras
De um grande sonho cheio de ócio e salas...
Passa o cortejo imperial, e ao longe
O povo só pelo cessar das lanças
Sabe que passa o seu tirano, e estruge
Sua ovação, e erguem as crianças...
Mas no teclado as tuas mãos pararam
E indefinidamente repousaram...
Adagas cujas jóias velhas galas...
Opalesci amar-me entre mãos raras,
E, fluido a febres entre um lembrar de aras,
O convés sem ninguém cheio de malas...
O íntimo silêncio das opalas
Conduz orientes até jóias caras,
E o meu anseio vai nas rotas claras
De um grande sonho cheio de ócio e salas...
Passa o cortejo imperial, e ao longe
O povo só pelo cessar das lanças
Sabe que passa o seu tirano, e estruge
Sua ovação, e erguem as crianças...
Mas no teclado as tuas mãos pararam
E indefinidamente repousaram...
1 061
Fernando Pessoa
III - Corre, raio de rio, e leva ao mar
III
Corre, raio de rio, e leva ao mar
A minha indiferença subjectiva!
Qual «leva ao mar»! Tua presença esquiva
Que tem comigo e com o meu pensar?
Lesma de sorte! Vivo a cavalgar
A sombra de um jumento. A vida viva
Vive a dar nomes ao que não se activa,
Morre a pôr etiquetas ao grande ar...
Escancarado Furness, mais três dias
Te aturarei, pobre engenheiro preso
A sucessibilíssimas vistorias...
Depois, ir-me-ei embora, eu e o desprezo
(E tu irás do mesmo modo que ias),
Qualquer, na gare, de cigarro aceso...
Corre, raio de rio, e leva ao mar
A minha indiferença subjectiva!
Qual «leva ao mar»! Tua presença esquiva
Que tem comigo e com o meu pensar?
Lesma de sorte! Vivo a cavalgar
A sombra de um jumento. A vida viva
Vive a dar nomes ao que não se activa,
Morre a pôr etiquetas ao grande ar...
Escancarado Furness, mais três dias
Te aturarei, pobre engenheiro preso
A sucessibilíssimas vistorias...
Depois, ir-me-ei embora, eu e o desprezo
(E tu irás do mesmo modo que ias),
Qualquer, na gare, de cigarro aceso...
1 100
Fernando Pessoa
Acendeste uma candeia
Acendeste uma candeia
Com esse ar que Deus te deu.
Já não é noite na aldeia
E, se calhar, nem no céu.
Com esse ar que Deus te deu.
Já não é noite na aldeia
E, se calhar, nem no céu.
1 472
Fernando Pessoa
Em tempos quis o mundo inteiro.
Em tempos quis o mundo inteiro.
Era criança e havia amar.
Hoje sou lúcido e estrangeiro.
(Acabarei por não pensar.)
A quem o mundo não bastava,
(Porque depois não bastaria)
E a alma era um céu, e havia lava
Dos vulcões do que eu não sabia,
Basta hoje o dia não ser feio,
Haver brisa que em sombras flui,
Nem se perder de todo o enleio
De ter sido quem nunca fui.
Era criança e havia amar.
Hoje sou lúcido e estrangeiro.
(Acabarei por não pensar.)
A quem o mundo não bastava,
(Porque depois não bastaria)
E a alma era um céu, e havia lava
Dos vulcões do que eu não sabia,
Basta hoje o dia não ser feio,
Haver brisa que em sombras flui,
Nem se perder de todo o enleio
De ter sido quem nunca fui.
1 442
Fernando Pessoa
Cuidas tu, louro Flacco, que cansando [2]
In Flaccum
Cuidas tu, louro Flacco, que cansando
Os teus estéreis trabalhosos dias
Darás mais sorrisos ao campo
E serão mais altos os peitos de Ceres
Põe mais vista em notares que tens flores
No teu jardim (...)
Cuidas tu, louro Flacco, que cansando
Os teus estéreis trabalhosos dias
Darás mais sorrisos ao campo
E serão mais altos os peitos de Ceres
Põe mais vista em notares que tens flores
No teu jardim (...)
1 303
Fernando Pessoa
Não sei em que coisa pensas
Não sei em que coisa pensas
Quando coses sossegada...
Talvez naquelas ofensas
Que fazes sem dizer nada.
Quando coses sossegada...
Talvez naquelas ofensas
Que fazes sem dizer nada.
1 452
Fernando Pessoa
II - Deuses, forças, almas de ciência ou fé,
II
Deuses, forças, almas de ciência ou fé,
Eh! Tanta explicação que nada explica!
Estou sentado no cais, numa barrica,
E não compreendo mais do que de pé.
Porque o havia de compreender?
Pois sim, mas também porque o não havia?
Água do rio, correndo suja e fria,
Eu passo como tu, sem mais valer...
Ó universo, novelo emaranhado,
Que paciência de dedos de quem pensa
Em outra coisa te põe separado?
Deixa de ser novelo o que nos fica...
A que brincar? Ao amor?, à indiferença?
Por mim, só me levanto da barrica.
Deuses, forças, almas de ciência ou fé,
Eh! Tanta explicação que nada explica!
Estou sentado no cais, numa barrica,
E não compreendo mais do que de pé.
Porque o havia de compreender?
Pois sim, mas também porque o não havia?
Água do rio, correndo suja e fria,
Eu passo como tu, sem mais valer...
Ó universo, novelo emaranhado,
Que paciência de dedos de quem pensa
Em outra coisa te põe separado?
Deixa de ser novelo o que nos fica...
A que brincar? Ao amor?, à indiferença?
Por mim, só me levanto da barrica.
1 349
Fernando Pessoa
JULIANO EM ANTIOQUIA [b]
Agir, sabendo
Que a acção é vil e o esforço nada.
Ir para a frente por dever, mas vendo
Que não há estrada.
Tomar a pôr altares, templos mortos
Aos deuses reerguer, sem ignorar
Que as almas são de Cristo já, e há outros
Homens (...)
O esforço inútil feito por dever
E o amor à verdade inaceitável,
A teimosia estóica em dever ser.
Venceste, Galileu. Mas nada prova
Da verdade de ti teres vencido.
Constantemente o mundo se renova
Um dia é o dia do mal (…)
Que a acção é vil e o esforço nada.
Ir para a frente por dever, mas vendo
Que não há estrada.
Tomar a pôr altares, templos mortos
Aos deuses reerguer, sem ignorar
Que as almas são de Cristo já, e há outros
Homens (...)
O esforço inútil feito por dever
E o amor à verdade inaceitável,
A teimosia estóica em dever ser.
Venceste, Galileu. Mas nada prova
Da verdade de ti teres vencido.
Constantemente o mundo se renova
Um dia é o dia do mal (…)
1 001
Fernando Pessoa
Quando é o tempo do trigo
Quando é o tempo do trigo
É o tempo de trigar.
A verdade é um postigo
A que ninguém vem falar.
É o tempo de trigar.
A verdade é um postigo
A que ninguém vem falar.
1 335
Fernando Pessoa
Cumpre a lei, seja vil ou vil tu sejas.
Cumpre a lei, seja vil ou vil tu sejas.
Pouco pode o homem contra a externa vida.
Deixa haver a injustiça.
Nada muda, que mudes.
Não tens mais reino que a doada mente.
Essa, em que és servo, grato o Fado e os Deuses,
Governa, até à fronteira,
Onde a vontade finge.
Aí vencido, tu por vencedores
Os grandes deuses e o Destino ostentas.
Não há a dupla derrota
De derrota e vileza.
Assim penso, e esta súbita justiça
Com que queremos moderar as cousas,
Expilo, como a um servo
Intromissor da mente.
Se nem de mim posso ser dono, como
Quero ser dono ou lei do que acontece
Onde me a mente e corpo
Não são mais do que parte?
Basta-me que me baste, e o resto gire
Na órbita prevista, em que até os deuses
Giram, sois centros servos
De um movimento externo.
Pouco pode o homem contra a externa vida.
Deixa haver a injustiça.
Nada muda, que mudes.
Não tens mais reino que a doada mente.
Essa, em que és servo, grato o Fado e os Deuses,
Governa, até à fronteira,
Onde a vontade finge.
Aí vencido, tu por vencedores
Os grandes deuses e o Destino ostentas.
Não há a dupla derrota
De derrota e vileza.
Assim penso, e esta súbita justiça
Com que queremos moderar as cousas,
Expilo, como a um servo
Intromissor da mente.
Se nem de mim posso ser dono, como
Quero ser dono ou lei do que acontece
Onde me a mente e corpo
Não são mais do que parte?
Basta-me que me baste, e o resto gire
Na órbita prevista, em que até os deuses
Giram, sois centros servos
De um movimento externo.
1 134
Fernando Pessoa
Que linda é quem não és!
Que linda é quem não és!
Teu anonimato vivo
Dorme, da cabeça aos pés,
Teu corpo, de ti cativo.
Teu corpo é teu prisioneiro.
Vive na cela de ti,
Íntegro, móbil, inteiro,
Ébrio de ti e de si.
És uma frase perfeita
De um livro escrito na vida.
E as vozes com que és eleita
Deixam-te falsa e esquecida.
Entre ti e o que és de bela
Grandes paisagens estão.
(…)
Não existes como estás.
Existe-te uma intenção
Que teu lindo corpo traz
À tona da sensação.
És uma alma em cuja vida
Puseram teu corpo a ser.
Essa beleza vivida
És tu, sem te pertencer.
Qualquer espírito alto
Serviu-se de haveres tu
Para esculpir no basalto
Do abismo teu corpo nu.
E assim olhas-me distante,
Mas não te olho. Vejo em ti
Não a alma flutuante
Que usas, mas teu corpo em si.
Bem podes usar em gozo
Do corpo que deram teu.
Fica sempre misterioso,
Filho da terra e do céu.
Não te pertence. Passou
Na terra como o que tem
Mais que tua alma sonhou.
Não vives, e ele é alguém.
Teu anonimato vivo
Dorme, da cabeça aos pés,
Teu corpo, de ti cativo.
Teu corpo é teu prisioneiro.
Vive na cela de ti,
Íntegro, móbil, inteiro,
Ébrio de ti e de si.
És uma frase perfeita
De um livro escrito na vida.
E as vozes com que és eleita
Deixam-te falsa e esquecida.
Entre ti e o que és de bela
Grandes paisagens estão.
(…)
Não existes como estás.
Existe-te uma intenção
Que teu lindo corpo traz
À tona da sensação.
És uma alma em cuja vida
Puseram teu corpo a ser.
Essa beleza vivida
És tu, sem te pertencer.
Qualquer espírito alto
Serviu-se de haveres tu
Para esculpir no basalto
Do abismo teu corpo nu.
E assim olhas-me distante,
Mas não te olho. Vejo em ti
Não a alma flutuante
Que usas, mas teu corpo em si.
Bem podes usar em gozo
Do corpo que deram teu.
Fica sempre misterioso,
Filho da terra e do céu.
Não te pertence. Passou
Na terra como o que tem
Mais que tua alma sonhou.
Não vives, e ele é alguém.
1 390
Fernando Pessoa
Que linda é quem não és!
Que linda é quem não és!
Teu anonimato vivo
Dorme, da cabeça aos pés,
Teu corpo, de ti cativo.
Teu corpo é teu prisioneiro.
Vive na cela de ti,
Íntegro, móbil, inteiro,
Ébrio de ti e de si.
És uma frase perfeita
De um livro escrito na vida.
E as vozes com que és eleita
Deixam-te falsa e esquecida.
Entre ti e o que és de bela
Grandes paisagens estão.
(…)
Não existes como estás.
Existe-te uma intenção
Que teu lindo corpo traz
À tona da sensação.
És uma alma em cuja vida
Puseram teu corpo a ser.
Essa beleza vivida
És tu, sem te pertencer.
Qualquer espírito alto
Serviu-se de haveres tu
Para esculpir no basalto
Do abismo teu corpo nu.
E assim olhas-me distante,
Mas não te olho. Vejo em ti
Não a alma flutuante
Que usas, mas teu corpo em si.
Bem podes usar em gozo
Do corpo que deram teu.
Fica sempre misterioso,
Filho da terra e do céu.
Não te pertence. Passou
Na terra como o que tem
Mais que tua alma sonhou.
Não vives, e ele é alguém.
Teu anonimato vivo
Dorme, da cabeça aos pés,
Teu corpo, de ti cativo.
Teu corpo é teu prisioneiro.
Vive na cela de ti,
Íntegro, móbil, inteiro,
Ébrio de ti e de si.
És uma frase perfeita
De um livro escrito na vida.
E as vozes com que és eleita
Deixam-te falsa e esquecida.
Entre ti e o que és de bela
Grandes paisagens estão.
(…)
Não existes como estás.
Existe-te uma intenção
Que teu lindo corpo traz
À tona da sensação.
És uma alma em cuja vida
Puseram teu corpo a ser.
Essa beleza vivida
És tu, sem te pertencer.
Qualquer espírito alto
Serviu-se de haveres tu
Para esculpir no basalto
Do abismo teu corpo nu.
E assim olhas-me distante,
Mas não te olho. Vejo em ti
Não a alma flutuante
Que usas, mas teu corpo em si.
Bem podes usar em gozo
Do corpo que deram teu.
Fica sempre misterioso,
Filho da terra e do céu.
Não te pertence. Passou
Na terra como o que tem
Mais que tua alma sonhou.
Não vives, e ele é alguém.
1 390
Fernando Pessoa
IV - MINUETE INVISÍVEL
IV
MINUETE INVISÍVEL
Elas são vaporosas,
Pálidas sombras, as rosas
Nadas da hora lunar..
Vêm, aéreas, dançar
Com perfumes soltos
Entre os canteiros e os buxos...
Chora no som dos repuxos
O ritmo que há nos seus vultos...
Passam e agitam a brisa...
Pálida, a pompa indecisa
Da sua flébil demora
Paira em auréola à hora...
Passam nos ritmos da sombra...
Ora é uma folha que tomba,
Ora uma brisa que treme
Sua leveza solene...
E assim vão indo, delindo
Seu perfil único e lindo,
Seu vulto feito de todas,
Nas alamedas, em rodas,
No jardim lívido e frio...
Passam sozinhas, a fio,
Como um fumo indo, a rarear,
Pelo ar longínquo e vazio,
Sob o, disperso pelo ar,
Pálido pálio lunar...
MINUETE INVISÍVEL
Elas são vaporosas,
Pálidas sombras, as rosas
Nadas da hora lunar..
Vêm, aéreas, dançar
Com perfumes soltos
Entre os canteiros e os buxos...
Chora no som dos repuxos
O ritmo que há nos seus vultos...
Passam e agitam a brisa...
Pálida, a pompa indecisa
Da sua flébil demora
Paira em auréola à hora...
Passam nos ritmos da sombra...
Ora é uma folha que tomba,
Ora uma brisa que treme
Sua leveza solene...
E assim vão indo, delindo
Seu perfil único e lindo,
Seu vulto feito de todas,
Nas alamedas, em rodas,
No jardim lívido e frio...
Passam sozinhas, a fio,
Como um fumo indo, a rarear,
Pelo ar longínquo e vazio,
Sob o, disperso pelo ar,
Pálido pálio lunar...
853
Fernando Pessoa
Amei-te e por te amar
Amei-te e por te amar
Só a ti eu não via...
Eras o céu e o mar,
Eras a noite e o dia...
Só quando te perdi
É que eu te conheci...
Quando te tinha diante
Do meu olhar submerso
Não eras minha amante...
Eras o Universo...
Agora que te não tenho,
És só do teu tamanho.
Estavas-me longe na alma,
Por isso eu não te via...
Presença em mim tão calma,
Que eu a não sentia.
Só quando meu ser te perdeu
Vi que não eras eu.
Não sei o que eras. Creio
Que o meu modo de olhar,
Meu sentir meu anseio
Meu jeito de pensar...
Eras minha alma, fora
Do Lugar e da Hora...
Hoje eu busco-te e choro
Por te poder achar
Não sequer te memoro
Como te tive a amar...
Nem foste um sonho meu...
Porque te choro eu?
Não sei... Perdi-te, e és hoje
Real no [...] real...
Como a hora que foge,
Foges e tudo é igual
A si-próprio e é tão triste
O que vejo que existe.
Em que és [...J fictício,
Em que tempo parado
Foste o (...) cilício
Que quando em fé fechado
Não sentia e hoje sinto
Que acordo e não me minto...
[...] tuas mãos, contudo,
Sinto nas minhas mãos,
Nosso olhar fixo e mudo
Quantos momentos vãos
Pra além de nós viveu
Nem nosso, teu ou meu...
Quantas vezes sentimos
Alma nosso contacto
Quantas vezes seguimos
Pelo caminho abstracto
Que vai entre alma e alma…
Horas de inquieta calma!
E hoje pergunto em mim
Quem foi que amei, beijei
Com quem perdi o fim
Aos sonhos que sonhei…
Procuro-te e nem vejo
O meu próprio desejo…
Que foi real em nós?
Que houve em nós de sonho?
De que Nós fomos de que voz
O duplo eco risonho
Que unidade tivemos?
O que foi que perdemos?
Nós não sonhámos. Eras
Real e eu era real.
Tuas mãos — tão sinceras…
Meu gesto — tão leal...
Tu e eu lado a lado...
Isto... e isto acabado...
Como houve em nós amor
E deixou de o haver?
Sei que hoje é vaga dor
O que era então prazer...
Mas não sei que passou
Por nós e acordou...
Amámo-nos deveras?
Amamo-nos ainda?
Se penso vejo que eras
A mesma que és... E finda
Tudo o que foi o amor;
Assim quase sem dor.
Sem dor... Um pasmo vago
De ter havido amar...
Quase que me embriago
De mal poder pensar...
O que mudou e onde?
O que é que em nós se esconde?
Talvez sintas como eu
E não saibas sentil-o...
Ser é ser nosso véu
Amar é encobril-o,
Hoje que te deixei
É que sei que te amei...
Somos a nossa bruma…
É pra dentro que vemos...
Caem-nos uma a uma
As compreensões que temos
E ficamos no frio
Do Universo vazio...
Que importa? Se o que foi
Entre nós foi amor,
Se por te amar me dói
Já não te amar, e a dor
Tem um íntimo sentido,
Nada será perdido...
E além de nós, no Agora
Que não nos tem por véus
Viveremos a Hora
Virados para Deus
E n'um (...) mudo
Compreenderemos tudo.
Só a ti eu não via...
Eras o céu e o mar,
Eras a noite e o dia...
Só quando te perdi
É que eu te conheci...
Quando te tinha diante
Do meu olhar submerso
Não eras minha amante...
Eras o Universo...
Agora que te não tenho,
És só do teu tamanho.
Estavas-me longe na alma,
Por isso eu não te via...
Presença em mim tão calma,
Que eu a não sentia.
Só quando meu ser te perdeu
Vi que não eras eu.
Não sei o que eras. Creio
Que o meu modo de olhar,
Meu sentir meu anseio
Meu jeito de pensar...
Eras minha alma, fora
Do Lugar e da Hora...
Hoje eu busco-te e choro
Por te poder achar
Não sequer te memoro
Como te tive a amar...
Nem foste um sonho meu...
Porque te choro eu?
Não sei... Perdi-te, e és hoje
Real no [...] real...
Como a hora que foge,
Foges e tudo é igual
A si-próprio e é tão triste
O que vejo que existe.
Em que és [...J fictício,
Em que tempo parado
Foste o (...) cilício
Que quando em fé fechado
Não sentia e hoje sinto
Que acordo e não me minto...
[...] tuas mãos, contudo,
Sinto nas minhas mãos,
Nosso olhar fixo e mudo
Quantos momentos vãos
Pra além de nós viveu
Nem nosso, teu ou meu...
Quantas vezes sentimos
Alma nosso contacto
Quantas vezes seguimos
Pelo caminho abstracto
Que vai entre alma e alma…
Horas de inquieta calma!
E hoje pergunto em mim
Quem foi que amei, beijei
Com quem perdi o fim
Aos sonhos que sonhei…
Procuro-te e nem vejo
O meu próprio desejo…
Que foi real em nós?
Que houve em nós de sonho?
De que Nós fomos de que voz
O duplo eco risonho
Que unidade tivemos?
O que foi que perdemos?
Nós não sonhámos. Eras
Real e eu era real.
Tuas mãos — tão sinceras…
Meu gesto — tão leal...
Tu e eu lado a lado...
Isto... e isto acabado...
Como houve em nós amor
E deixou de o haver?
Sei que hoje é vaga dor
O que era então prazer...
Mas não sei que passou
Por nós e acordou...
Amámo-nos deveras?
Amamo-nos ainda?
Se penso vejo que eras
A mesma que és... E finda
Tudo o que foi o amor;
Assim quase sem dor.
Sem dor... Um pasmo vago
De ter havido amar...
Quase que me embriago
De mal poder pensar...
O que mudou e onde?
O que é que em nós se esconde?
Talvez sintas como eu
E não saibas sentil-o...
Ser é ser nosso véu
Amar é encobril-o,
Hoje que te deixei
É que sei que te amei...
Somos a nossa bruma…
É pra dentro que vemos...
Caem-nos uma a uma
As compreensões que temos
E ficamos no frio
Do Universo vazio...
Que importa? Se o que foi
Entre nós foi amor,
Se por te amar me dói
Já não te amar, e a dor
Tem um íntimo sentido,
Nada será perdido...
E além de nós, no Agora
Que não nos tem por véus
Viveremos a Hora
Virados para Deus
E n'um (...) mudo
Compreenderemos tudo.
1 732
Fernando Pessoa
IV - Ó tocadora de harpa, se eu beijasse
IV
Ó tocadora de harpa, se eu beijasse
Teu gesto, sem beijar as tuas mãos!,
E, beijando-o, descesse pelos desvãos
Do sonho, até que enfim eu o encontrasse
Tornado Puro Gesto, gesto-face
Da medalha sinistra — reis cristãos
Ajoelhando, inimigos e irmãos,
Quando processional o andor passasse!...
Teu gesto que arrepanha e se extasia...
O teu gesto completo, lua fria
Subindo, e em baixo, negros, os juncais...
Caverna em estalactites o teu gesto...
Não poder eu prendê-lo, fazer mais
Que vê-lo e que perdê-lo!... E o sonho é o resto...
Ó tocadora de harpa, se eu beijasse
Teu gesto, sem beijar as tuas mãos!,
E, beijando-o, descesse pelos desvãos
Do sonho, até que enfim eu o encontrasse
Tornado Puro Gesto, gesto-face
Da medalha sinistra — reis cristãos
Ajoelhando, inimigos e irmãos,
Quando processional o andor passasse!...
Teu gesto que arrepanha e se extasia...
O teu gesto completo, lua fria
Subindo, e em baixo, negros, os juncais...
Caverna em estalactites o teu gesto...
Não poder eu prendê-lo, fazer mais
Que vê-lo e que perdê-lo!... E o sonho é o resto...
1 508
Fernando Pessoa
IV - Ó tocadora de harpa, se eu beijasse
IV
Ó tocadora de harpa, se eu beijasse
Teu gesto, sem beijar as tuas mãos!,
E, beijando-o, descesse pelos desvãos
Do sonho, até que enfim eu o encontrasse
Tornado Puro Gesto, gesto-face
Da medalha sinistra — reis cristãos
Ajoelhando, inimigos e irmãos,
Quando processional o andor passasse!...
Teu gesto que arrepanha e se extasia...
O teu gesto completo, lua fria
Subindo, e em baixo, negros, os juncais...
Caverna em estalactites o teu gesto...
Não poder eu prendê-lo, fazer mais
Que vê-lo e que perdê-lo!... E o sonho é o resto...
Ó tocadora de harpa, se eu beijasse
Teu gesto, sem beijar as tuas mãos!,
E, beijando-o, descesse pelos desvãos
Do sonho, até que enfim eu o encontrasse
Tornado Puro Gesto, gesto-face
Da medalha sinistra — reis cristãos
Ajoelhando, inimigos e irmãos,
Quando processional o andor passasse!...
Teu gesto que arrepanha e se extasia...
O teu gesto completo, lua fria
Subindo, e em baixo, negros, os juncais...
Caverna em estalactites o teu gesto...
Não poder eu prendê-lo, fazer mais
Que vê-lo e que perdê-lo!... E o sonho é o resto...
1 508
Fernando Pessoa
IV - Ó tocadora de harpa, se eu beijasse
IV
Ó tocadora de harpa, se eu beijasse
Teu gesto, sem beijar as tuas mãos!,
E, beijando-o, descesse pelos desvãos
Do sonho, até que enfim eu o encontrasse
Tornado Puro Gesto, gesto-face
Da medalha sinistra — reis cristãos
Ajoelhando, inimigos e irmãos,
Quando processional o andor passasse!...
Teu gesto que arrepanha e se extasia...
O teu gesto completo, lua fria
Subindo, e em baixo, negros, os juncais...
Caverna em estalactites o teu gesto...
Não poder eu prendê-lo, fazer mais
Que vê-lo e que perdê-lo!... E o sonho é o resto...
Ó tocadora de harpa, se eu beijasse
Teu gesto, sem beijar as tuas mãos!,
E, beijando-o, descesse pelos desvãos
Do sonho, até que enfim eu o encontrasse
Tornado Puro Gesto, gesto-face
Da medalha sinistra — reis cristãos
Ajoelhando, inimigos e irmãos,
Quando processional o andor passasse!...
Teu gesto que arrepanha e se extasia...
O teu gesto completo, lua fria
Subindo, e em baixo, negros, os juncais...
Caverna em estalactites o teu gesto...
Não poder eu prendê-lo, fazer mais
Que vê-lo e que perdê-lo!... E o sonho é o resto...
1 508
Fernando Pessoa
Em vez da saia de chita
Em vez da saia de chita
Tens uma saia melhor.
De qualquer modo és bonita,
E o bonita é o pior.
Tens uma saia melhor.
De qualquer modo és bonita,
E o bonita é o pior.
1 533
Fernando Pessoa
VI - Venho de longe e trago no perfil,
VI
Venho de longe e trago no perfil,
Em forma nevoenta e afastada,
O perfil de outro ser que desagrada
Ao meu actual recorte humano e vil.
Outrora fui talvez, não Boabdil,
Mas o seu mero último olhar, da estrada
Dado ao deixado vulto de Granada,
Recorte frio sob o unido anil...
Hoje sou a saudade imperial
Do que já na distância de mim vi...
Eu próprio sou aquilo que perdi...
E nesta estrada para Desigual
Florem em esguia glória marginal
Os girassóis do império que morri...
Venho de longe e trago no perfil,
Em forma nevoenta e afastada,
O perfil de outro ser que desagrada
Ao meu actual recorte humano e vil.
Outrora fui talvez, não Boabdil,
Mas o seu mero último olhar, da estrada
Dado ao deixado vulto de Granada,
Recorte frio sob o unido anil...
Hoje sou a saudade imperial
Do que já na distância de mim vi...
Eu próprio sou aquilo que perdi...
E nesta estrada para Desigual
Florem em esguia glória marginal
Os girassóis do império que morri...
1 199
Fernando Pessoa
Não como ante donzela ou mulher viva
Não como ante donzela ou mulher viva
Com calor na beleza humana delas
Devemos dar os olhos
À beleza imortal.
Eternamente longe ela se mostra
E calma e para os calmos adorarem
Não de outro modo é ela
Imortal como os deuses.
Que nunca a alegria transitória
Nem a paixão que busca — porque exige
Devemos olhar de néscios
Olhos para a beleza.
Como quem vê um Deus e nunca ousa
Amá-lo mais que como a um Deus se ama
Diante da beleza
Façamo-nos sóbrios.
Para outra cousa não a dão os deuses
À nossa febre humana e vil da vida,
Por isso a contemplemos
Num claro esquecimento.
E de tudo tiremos a beleza
Como a presença altiva e encoberta
E o longínquo sorriso
De quem assiste à vida.
Com calor na beleza humana delas
Devemos dar os olhos
À beleza imortal.
Eternamente longe ela se mostra
E calma e para os calmos adorarem
Não de outro modo é ela
Imortal como os deuses.
Que nunca a alegria transitória
Nem a paixão que busca — porque exige
Devemos olhar de néscios
Olhos para a beleza.
Como quem vê um Deus e nunca ousa
Amá-lo mais que como a um Deus se ama
Diante da beleza
Façamo-nos sóbrios.
Para outra cousa não a dão os deuses
À nossa febre humana e vil da vida,
Por isso a contemplemos
Num claro esquecimento.
E de tudo tiremos a beleza
Como a presença altiva e encoberta
E o longínquo sorriso
De quem assiste à vida.
1 360
Fernando Pessoa
Não como ante donzela ou mulher viva
Não como ante donzela ou mulher viva
Com calor na beleza humana delas
Devemos dar os olhos
À beleza imortal.
Eternamente longe ela se mostra
E calma e para os calmos adorarem
Não de outro modo é ela
Imortal como os deuses.
Que nunca a alegria transitória
Nem a paixão que busca — porque exige
Devemos olhar de néscios
Olhos para a beleza.
Como quem vê um Deus e nunca ousa
Amá-lo mais que como a um Deus se ama
Diante da beleza
Façamo-nos sóbrios.
Para outra cousa não a dão os deuses
À nossa febre humana e vil da vida,
Por isso a contemplemos
Num claro esquecimento.
E de tudo tiremos a beleza
Como a presença altiva e encoberta
E o longínquo sorriso
De quem assiste à vida.
Com calor na beleza humana delas
Devemos dar os olhos
À beleza imortal.
Eternamente longe ela se mostra
E calma e para os calmos adorarem
Não de outro modo é ela
Imortal como os deuses.
Que nunca a alegria transitória
Nem a paixão que busca — porque exige
Devemos olhar de néscios
Olhos para a beleza.
Como quem vê um Deus e nunca ousa
Amá-lo mais que como a um Deus se ama
Diante da beleza
Façamo-nos sóbrios.
Para outra cousa não a dão os deuses
À nossa febre humana e vil da vida,
Por isso a contemplemos
Num claro esquecimento.
E de tudo tiremos a beleza
Como a presença altiva e encoberta
E o longínquo sorriso
De quem assiste à vida.
1 360
Fernando Pessoa
Não como ante donzela ou mulher viva
Não como ante donzela ou mulher viva
Com calor na beleza humana delas
Devemos dar os olhos
À beleza imortal.
Eternamente longe ela se mostra
E calma e para os calmos adorarem
Não de outro modo é ela
Imortal como os deuses.
Que nunca a alegria transitória
Nem a paixão que busca — porque exige
Devemos olhar de néscios
Olhos para a beleza.
Como quem vê um Deus e nunca ousa
Amá-lo mais que como a um Deus se ama
Diante da beleza
Façamo-nos sóbrios.
Para outra cousa não a dão os deuses
À nossa febre humana e vil da vida,
Por isso a contemplemos
Num claro esquecimento.
E de tudo tiremos a beleza
Como a presença altiva e encoberta
E o longínquo sorriso
De quem assiste à vida.
Com calor na beleza humana delas
Devemos dar os olhos
À beleza imortal.
Eternamente longe ela se mostra
E calma e para os calmos adorarem
Não de outro modo é ela
Imortal como os deuses.
Que nunca a alegria transitória
Nem a paixão que busca — porque exige
Devemos olhar de néscios
Olhos para a beleza.
Como quem vê um Deus e nunca ousa
Amá-lo mais que como a um Deus se ama
Diante da beleza
Façamo-nos sóbrios.
Para outra cousa não a dão os deuses
À nossa febre humana e vil da vida,
Por isso a contemplemos
Num claro esquecimento.
E de tudo tiremos a beleza
Como a presença altiva e encoberta
E o longínquo sorriso
De quem assiste à vida.
1 360
Fernando Pessoa
Neste dia em que os campos são de Apolo
Neste dia em que os campos são de Apolo
Verde colónia dominada a ouro,
Seja como uma dança dentro em nós
O sentirmos a vida.
Não turbulenta, mas com os seus ritmos
Que a nossa sensação como uma ninfa
Acompanhe em cadências suas a
Disciplina da dança...
Ao fim do dia quando os campos forem
Império conquistado pelas sombras
Como uma legião que segue marcha
Abdiquemos do dia,
E na nossa memória coloquemos,
Com um deus novo duma nova terra
Trazido, o que ficou em nós da calma
Do dia passageiro.
Verde colónia dominada a ouro,
Seja como uma dança dentro em nós
O sentirmos a vida.
Não turbulenta, mas com os seus ritmos
Que a nossa sensação como uma ninfa
Acompanhe em cadências suas a
Disciplina da dança...
Ao fim do dia quando os campos forem
Império conquistado pelas sombras
Como uma legião que segue marcha
Abdiquemos do dia,
E na nossa memória coloquemos,
Com um deus novo duma nova terra
Trazido, o que ficou em nós da calma
Do dia passageiro.
1 478
Fernando Pessoa
Tece, amor, as grinaldas com que queres
Tece, amor, as grinaldas com que queres
Coroar o amor que nem sabemos ter,
Com brancas mãos em lento movimento
De papoulas e pobres malmequeres...
Tece-as para que ao menos o momento
Em que as teces nos possa pertencer.
Se para coroar o amor as teces
Pensas no amor tecendo-as, e assim amas;
Se vendo-te, em ti vejo que o conheces
Amo contigo o amor em que tu pensas.
E um momento o amor queima as suas chamas
Na ara das nossas almas já pretensas.
Mas se a grinalda é feita, o amor cessou.
Se é preciso entre nós o gesto e o gozo
Nunca o pensado amor levanta o voo.
Nunca da nossa noite de sentir
Raiou o sol do acto, e o olhar cobiçou
Uma coisa real que vá fruir.
No sonho do que nunca pode haver
Entre nós, porque há em nós o pensamento,
Gastamos o desejo sem o ter.
A taça cai do gesto mal seguro
Porque pensamos em beber, e o intento
Cansa o braço, e é entornado o néctar puro.
Viemos, meu amor, no fim da tarde.
O que há de sol é o que resta acima
Dos montes, poesia baça e sonho que arde,
E só pura saudade os céus anima.
O nosso olhar não ousa olhar o outro.
Outros tiveram por seu tempo o dia
Gozaram outros quando o sol era alto,
A vergonha que há em nós de sua orgia
É a vergonha de nós a não ousarmos.
Nós pensamos no amor em sobressalto
E para amarmos só nos falta amarmos.
Os deuses foram-se, e consigo foi
A clareza de alma para (com) a vida.
O que ontem era o gozo, é o que hoje dói.
O que ontem era a coisa possuída
É hoje só a coisa apetecida,
Ainda desejada e não ousada.
Coroar o amor que nem sabemos ter,
Com brancas mãos em lento movimento
De papoulas e pobres malmequeres...
Tece-as para que ao menos o momento
Em que as teces nos possa pertencer.
Se para coroar o amor as teces
Pensas no amor tecendo-as, e assim amas;
Se vendo-te, em ti vejo que o conheces
Amo contigo o amor em que tu pensas.
E um momento o amor queima as suas chamas
Na ara das nossas almas já pretensas.
Mas se a grinalda é feita, o amor cessou.
Se é preciso entre nós o gesto e o gozo
Nunca o pensado amor levanta o voo.
Nunca da nossa noite de sentir
Raiou o sol do acto, e o olhar cobiçou
Uma coisa real que vá fruir.
No sonho do que nunca pode haver
Entre nós, porque há em nós o pensamento,
Gastamos o desejo sem o ter.
A taça cai do gesto mal seguro
Porque pensamos em beber, e o intento
Cansa o braço, e é entornado o néctar puro.
Viemos, meu amor, no fim da tarde.
O que há de sol é o que resta acima
Dos montes, poesia baça e sonho que arde,
E só pura saudade os céus anima.
O nosso olhar não ousa olhar o outro.
Outros tiveram por seu tempo o dia
Gozaram outros quando o sol era alto,
A vergonha que há em nós de sua orgia
É a vergonha de nós a não ousarmos.
Nós pensamos no amor em sobressalto
E para amarmos só nos falta amarmos.
Os deuses foram-se, e consigo foi
A clareza de alma para (com) a vida.
O que ontem era o gozo, é o que hoje dói.
O que ontem era a coisa possuída
É hoje só a coisa apetecida,
Ainda desejada e não ousada.
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