Poemas neste tema
Outros
Fernando Pessoa
Há verdades que se dizem
Há verdades que se dizem
E outras que ninguém dirá.
Tenho uma coisa a dizer-te
Mas não sei onde ela está.
E outras que ninguém dirá.
Tenho uma coisa a dizer-te
Mas não sei onde ela está.
881
Fernando Pessoa
Não batas palmas diante da beleza.
Não batas palmas diante da beleza.
Não se sente a beleza demasiado.
A beleza não passa
É a sombra dos Deuses.
Mexa-se embora a nossa estéril vida,
Desdobre Éolo sobre nós seus sopros
(...)
(...)
As estátuas aos deuses representam
Porque as estátuas são calmas e eternas
Nem lhes fiam seu curto
E negro linho as Parcas.
Segundo frias leis Júpiter troa
Em certas noites aparece Diana
E as leis porque aparece
Dão-lhe a divina calma.
O que chamamos leis na acção dos Deuses
São apenas a calma que eles têm
Não de cima lhes vêm.
São a vida que querem.
Não se sente a beleza demasiado.
A beleza não passa
É a sombra dos Deuses.
Mexa-se embora a nossa estéril vida,
Desdobre Éolo sobre nós seus sopros
(...)
(...)
As estátuas aos deuses representam
Porque as estátuas são calmas e eternas
Nem lhes fiam seu curto
E negro linho as Parcas.
Segundo frias leis Júpiter troa
Em certas noites aparece Diana
E as leis porque aparece
Dão-lhe a divina calma.
O que chamamos leis na acção dos Deuses
São apenas a calma que eles têm
Não de cima lhes vêm.
São a vida que querem.
805
Fernando Pessoa
Rosa verde, rosa verde...
Rosa verde, rosa verde...
Rosa verde é coisa que há?
É uma coisa que se perde
Quando a gente não está lá.
Rosa verde é coisa que há?
É uma coisa que se perde
Quando a gente não está lá.
1 961
Fernando Pessoa
A rosa que se não colhe
A rosa que se não colhe
Nem por isso tem mais vida.
Ninguém há que te não olhe
Que te não queira colhida.
Nem por isso tem mais vida.
Ninguém há que te não olhe
Que te não queira colhida.
2 946
Fernando Pessoa
Cedo demais vem sempre, Cloé, o inverno.
Cedo de mais vem sempre, Cloé, o inverno.
É sempre prematuro, inda que o espere
Nosso hábito, o esfriar
Do desejo que houve.
Não entardece que não morra o dia.
Não nasce amor ou fé em nós que não
Morra com isso ao menos
O não amar ou crer.
Todo o gesto que o nosso corpo faz
Com o repouso anterior contrasta.
Nesta má circunstância
Do tempo eternos somos.
Só sabe da arte com que viva a vida
Aquele que, de tão contínua usá-la,
Furte ao tempo a vitória
Das mudanças depressa,
E entardecendo como um dia trópico,
Até ao fim inevitável guie
Uma igual vida, súbito
Precipite no abismo.
É sempre prematuro, inda que o espere
Nosso hábito, o esfriar
Do desejo que houve.
Não entardece que não morra o dia.
Não nasce amor ou fé em nós que não
Morra com isso ao menos
O não amar ou crer.
Todo o gesto que o nosso corpo faz
Com o repouso anterior contrasta.
Nesta má circunstância
Do tempo eternos somos.
Só sabe da arte com que viva a vida
Aquele que, de tão contínua usá-la,
Furte ao tempo a vitória
Das mudanças depressa,
E entardecendo como um dia trópico,
Até ao fim inevitável guie
Uma igual vida, súbito
Precipite no abismo.
1 537
Fernando Pessoa
Que linda é quem não és!
Que linda é quem não és!
Teu anonimato vivo
Dorme, da cabeça aos pés,
Teu corpo, de ti cativo.
Teu corpo é teu prisioneiro.
Vive na cela de ti,
Íntegro, móbil, inteiro,
Ébrio de ti e de si.
És uma frase perfeita
De um livro escrito na vida.
E as vozes com que és eleita
Deixam-te falsa e esquecida.
Entre ti e o que és de bela
Grandes paisagens estão.
(…)
Não existes como estás.
Existe-te uma intenção
Que teu lindo corpo traz
À tona da sensação.
És uma alma em cuja vida
Puseram teu corpo a ser.
Essa beleza vivida
És tu, sem te pertencer.
Qualquer espírito alto
Serviu-se de haveres tu
Para esculpir no basalto
Do abismo teu corpo nu.
E assim olhas-me distante,
Mas não te olho. Vejo em ti
Não a alma flutuante
Que usas, mas teu corpo em si.
Bem podes usar em gozo
Do corpo que deram teu.
Fica sempre misterioso,
Filho da terra e do céu.
Não te pertence. Passou
Na terra como o que tem
Mais que tua alma sonhou.
Não vives, e ele é alguém.
Teu anonimato vivo
Dorme, da cabeça aos pés,
Teu corpo, de ti cativo.
Teu corpo é teu prisioneiro.
Vive na cela de ti,
Íntegro, móbil, inteiro,
Ébrio de ti e de si.
És uma frase perfeita
De um livro escrito na vida.
E as vozes com que és eleita
Deixam-te falsa e esquecida.
Entre ti e o que és de bela
Grandes paisagens estão.
(…)
Não existes como estás.
Existe-te uma intenção
Que teu lindo corpo traz
À tona da sensação.
És uma alma em cuja vida
Puseram teu corpo a ser.
Essa beleza vivida
És tu, sem te pertencer.
Qualquer espírito alto
Serviu-se de haveres tu
Para esculpir no basalto
Do abismo teu corpo nu.
E assim olhas-me distante,
Mas não te olho. Vejo em ti
Não a alma flutuante
Que usas, mas teu corpo em si.
Bem podes usar em gozo
Do corpo que deram teu.
Fica sempre misterioso,
Filho da terra e do céu.
Não te pertence. Passou
Na terra como o que tem
Mais que tua alma sonhou.
Não vives, e ele é alguém.
1 398
Fernando Pessoa
Que linda é quem não és!
Que linda é quem não és!
Teu anonimato vivo
Dorme, da cabeça aos pés,
Teu corpo, de ti cativo.
Teu corpo é teu prisioneiro.
Vive na cela de ti,
Íntegro, móbil, inteiro,
Ébrio de ti e de si.
És uma frase perfeita
De um livro escrito na vida.
E as vozes com que és eleita
Deixam-te falsa e esquecida.
Entre ti e o que és de bela
Grandes paisagens estão.
(…)
Não existes como estás.
Existe-te uma intenção
Que teu lindo corpo traz
À tona da sensação.
És uma alma em cuja vida
Puseram teu corpo a ser.
Essa beleza vivida
És tu, sem te pertencer.
Qualquer espírito alto
Serviu-se de haveres tu
Para esculpir no basalto
Do abismo teu corpo nu.
E assim olhas-me distante,
Mas não te olho. Vejo em ti
Não a alma flutuante
Que usas, mas teu corpo em si.
Bem podes usar em gozo
Do corpo que deram teu.
Fica sempre misterioso,
Filho da terra e do céu.
Não te pertence. Passou
Na terra como o que tem
Mais que tua alma sonhou.
Não vives, e ele é alguém.
Teu anonimato vivo
Dorme, da cabeça aos pés,
Teu corpo, de ti cativo.
Teu corpo é teu prisioneiro.
Vive na cela de ti,
Íntegro, móbil, inteiro,
Ébrio de ti e de si.
És uma frase perfeita
De um livro escrito na vida.
E as vozes com que és eleita
Deixam-te falsa e esquecida.
Entre ti e o que és de bela
Grandes paisagens estão.
(…)
Não existes como estás.
Existe-te uma intenção
Que teu lindo corpo traz
À tona da sensação.
És uma alma em cuja vida
Puseram teu corpo a ser.
Essa beleza vivida
És tu, sem te pertencer.
Qualquer espírito alto
Serviu-se de haveres tu
Para esculpir no basalto
Do abismo teu corpo nu.
E assim olhas-me distante,
Mas não te olho. Vejo em ti
Não a alma flutuante
Que usas, mas teu corpo em si.
Bem podes usar em gozo
Do corpo que deram teu.
Fica sempre misterioso,
Filho da terra e do céu.
Não te pertence. Passou
Na terra como o que tem
Mais que tua alma sonhou.
Não vives, e ele é alguém.
1 398
Fernando Pessoa
Ó loura dos olhos tristes
Ó loura dos olhos tristes
Que me não quis escutar...
Quero só saber se existes
Para ver se te hei-de amar.
Que me não quis escutar...
Quero só saber se existes
Para ver se te hei-de amar.
1 324
Fernando Pessoa
Quantas vezes a memória
Quantas vezes a memória
Para fingir que inda é gente,
Nos conta uma grande história
Em que ninguém está presente.
Para fingir que inda é gente,
Nos conta uma grande história
Em que ninguém está presente.
1 308
Fernando Pessoa
Tenho um livrinho onde escrevo
Tenho um livrinho onde escrevo
Quando me esqueço de ti.
É um livro de capa negra
Onde inda nada escrevi.
Quando me esqueço de ti.
É um livro de capa negra
Onde inda nada escrevi.
1 990
Fernando Pessoa
Meu coração a bater
Meu coração a bater
Parece estar-me a lembrar
Que, se um dia te esquecer,
Será por ele parar.
Parece estar-me a lembrar
Que, se um dia te esquecer,
Será por ele parar.
2 674
Fernando Pessoa
Toda a visão da crença se acompanha,
Toda visão da crença se acompanha,
Toda crença da acção; e a acção se perde,
Água em água entre tudo.
Conhece-te, se podes. Se não podes
Conhece que não podes. Saber sabe.
Sê teu. Não dês nem operes.
Toda crença da acção; e a acção se perde,
Água em água entre tudo.
Conhece-te, se podes. Se não podes
Conhece que não podes. Saber sabe.
Sê teu. Não dês nem operes.
1 321
Fernando Pessoa
Toda a visão da crença se acompanha,
Toda visão da crença se acompanha,
Toda crença da acção; e a acção se perde,
Água em água entre tudo.
Conhece-te, se podes. Se não podes
Conhece que não podes. Saber sabe.
Sê teu. Não dês nem operes.
Toda crença da acção; e a acção se perde,
Água em água entre tudo.
Conhece-te, se podes. Se não podes
Conhece que não podes. Saber sabe.
Sê teu. Não dês nem operes.
1 321
Fernando Pessoa
Vem de lá do monte verde
Vem de lá do monte verde
A trova que não entendo.
É um som bom que se perde
Enquanto se vai vivendo.
A trova que não entendo.
É um som bom que se perde
Enquanto se vai vivendo.
1 706
Fernando Pessoa
E ao acabar estes versos
E ao acabar estes versos
Feitos em modo menor
Cumpre prestar homenagem
À bebedeira do cantor.
Feitos em modo menor
Cumpre prestar homenagem
À bebedeira do cantor.
1 142
Fernando Pessoa
E ao acabar estes versos
E ao acabar estes versos
Feitos em modo menor
Cumpre prestar homenagem
À bebedeira do cantor.
Feitos em modo menor
Cumpre prestar homenagem
À bebedeira do cantor.
1 142
Fernando Pessoa
APOLLO UNTO NEPTUNE
Apollo unto Neptune said:
«Come, I shall drink the sea!»
But Neptune laughed out like a lad
In his boyish jollity,
And cried: «You would drink the earth, if you could,
And infinity.»
And the poet the symbol who understood
Felt his misery.
«Come, I shall drink the sea!»
But Neptune laughed out like a lad
In his boyish jollity,
And cried: «You would drink the earth, if you could,
And infinity.»
And the poet the symbol who understood
Felt his misery.
1 465
Fernando Pessoa
O papagaio do paço
O papagaio do paço
Não falava — assobiava.
Sabia bem que a verdade
Não é coisa de palavra.
Não falava — assobiava.
Sabia bem que a verdade
Não é coisa de palavra.
2 342
Fernando Pessoa
O papagaio do paço
O papagaio do paço
Não falava — assobiava.
Sabia bem que a verdade
Não é coisa de palavra.
Não falava — assobiava.
Sabia bem que a verdade
Não é coisa de palavra.
2 342
Fernando Pessoa
Quantos gozam o gozo de gozar
Quantos gozam o gozo de gozar
Sem que gozem o gozo, e o dividem
Entre eles e o verem
Os outros que eles gozam.
Ah, Lídia, os trajos do gozar omite,
Que o gozo é um, se é nosso, nem o damos
Aos outros como prémio
De verem nosso gozo.
Cada um é ele só, e se com outros
Goza, dos outros goza, e não para eles.
Aprende o que te ensina
Teu corpo, teu limite.
Sem que gozem o gozo, e o dividem
Entre eles e o verem
Os outros que eles gozam.
Ah, Lídia, os trajos do gozar omite,
Que o gozo é um, se é nosso, nem o damos
Aos outros como prémio
De verem nosso gozo.
Cada um é ele só, e se com outros
Goza, dos outros goza, e não para eles.
Aprende o que te ensina
Teu corpo, teu limite.
2 467
Fernando Pessoa
Quantos gozam o gozo de gozar
Quantos gozam o gozo de gozar
Sem que gozem o gozo, e o dividem
Entre eles e o verem
Os outros que eles gozam.
Ah, Lídia, os trajos do gozar omite,
Que o gozo é um, se é nosso, nem o damos
Aos outros como prémio
De verem nosso gozo.
Cada um é ele só, e se com outros
Goza, dos outros goza, e não para eles.
Aprende o que te ensina
Teu corpo, teu limite.
Sem que gozem o gozo, e o dividem
Entre eles e o verem
Os outros que eles gozam.
Ah, Lídia, os trajos do gozar omite,
Que o gozo é um, se é nosso, nem o damos
Aos outros como prémio
De verem nosso gozo.
Cada um é ele só, e se com outros
Goza, dos outros goza, e não para eles.
Aprende o que te ensina
Teu corpo, teu limite.
2 467
Fernando Pessoa
Vou dormir, dormir, dormir,
Nirvana
Vou dormir, dormir, dormir,
Vou dormir sem despertar,
Mas não dormir sem sentir
Que estou dormindo a sonhar.
Não insciência e só treva
Mas também estrelas a abrir
Olhos cujo olhar me enleva,
Que estou sonhando a dormir.
Constelada inexistência
Em que subsiste de meu
Só uma abstracta insciência
Una com estrelas e céu.
Vou dormir, dormir, dormir,
Vou dormir sem despertar,
Mas não dormir sem sentir
Que estou dormindo a sonhar.
Não insciência e só treva
Mas também estrelas a abrir
Olhos cujo olhar me enleva,
Que estou sonhando a dormir.
Constelada inexistência
Em que subsiste de meu
Só uma abstracta insciência
Una com estrelas e céu.
1 936