Poemas neste tema
Outros
Fernando Pessoa
Ah, abram-me outra realidade!
Ah, abram-me outra realidade!
Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos
E ter visões por almoço.
Quero encontrar as fadas na rua!
Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras,
Desta civilização feita com pregos.
Quero viver como uma bandeira à brisa,
Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer!
Depois encerrem-me onde queiram.
Meu coração verdadeiro continuará velando
Pano brasonado a esfinges,
No alto do mastro das visões
Aos quatro ventos do Mistério.
O Norte — o que todos querem
O Sul — o que todos desejam
O Este — de onde tudo vem
O Oeste — aonde tudo finda
— Os quatro ventos do místico ar da civilização
— Os quatro modos de não ter razão, e de entender o mundo
Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos
E ter visões por almoço.
Quero encontrar as fadas na rua!
Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras,
Desta civilização feita com pregos.
Quero viver como uma bandeira à brisa,
Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer!
Depois encerrem-me onde queiram.
Meu coração verdadeiro continuará velando
Pano brasonado a esfinges,
No alto do mastro das visões
Aos quatro ventos do Mistério.
O Norte — o que todos querem
O Sul — o que todos desejam
O Este — de onde tudo vem
O Oeste — aonde tudo finda
— Os quatro ventos do místico ar da civilização
— Os quatro modos de não ter razão, e de entender o mundo
856
Fernando Pessoa
SOUL-SYMBOLS
My soul ‑ what is my soul? But symbols mute
Its horror and confusion can give out:
A desert out of space where absolute
Reigns expectation full of horrid doubt.
It gives the sense that giveth, strange and dark,
Some unknown river weird, hauntingly lone,
In some old picture storiless, sole work
Of some great painter horribly unknown.
It is an island out of human track,
Mysterious, old within the sea and full
Of caves and grottoes unexplored and black,
Pregnant with many horrors possible.
It is an olden inn with corridors
Woven in a labyrinth and scarce of light,
Where through the night the sound of shutting doors,
Vague in its cause and place, fills us with fright.
It is a mountain region wild and free,
Precipiced, hid and silent, never seen,
Where we dare not think of what might have been
Nor wish idea of what things may be.
If ever mystery, romance and fear
Have shown their heart on canvas and on scroll,
It must assuredly to men appear
As to mine inner sense appears my soul.
It is a vision-desert full of rocks
Where all than reason is both more and less,
'Tis a lone coast where the sea's endless shocks
Fill with an empty sound its lifelessness.
Something of lost, forgotten, vague and dead,
Yet waking, as a slumberer mystical
Seems to perceive, for who looks knows with dread
That something he doth see to make appal.
All this my soul is in its weak despair,
Full of sense unto pain, of thought to tears,
Having for meed of reason a mute care,
For company to feeling - woes and fears.
So to my glance, as if with opium wide,
My very self is grown a mystery;
In inexstatic fear Life doth abide
And madness like my breath is within me.
Its horror and confusion can give out:
A desert out of space where absolute
Reigns expectation full of horrid doubt.
It gives the sense that giveth, strange and dark,
Some unknown river weird, hauntingly lone,
In some old picture storiless, sole work
Of some great painter horribly unknown.
It is an island out of human track,
Mysterious, old within the sea and full
Of caves and grottoes unexplored and black,
Pregnant with many horrors possible.
It is an olden inn with corridors
Woven in a labyrinth and scarce of light,
Where through the night the sound of shutting doors,
Vague in its cause and place, fills us with fright.
It is a mountain region wild and free,
Precipiced, hid and silent, never seen,
Where we dare not think of what might have been
Nor wish idea of what things may be.
If ever mystery, romance and fear
Have shown their heart on canvas and on scroll,
It must assuredly to men appear
As to mine inner sense appears my soul.
It is a vision-desert full of rocks
Where all than reason is both more and less,
'Tis a lone coast where the sea's endless shocks
Fill with an empty sound its lifelessness.
Something of lost, forgotten, vague and dead,
Yet waking, as a slumberer mystical
Seems to perceive, for who looks knows with dread
That something he doth see to make appal.
All this my soul is in its weak despair,
Full of sense unto pain, of thought to tears,
Having for meed of reason a mute care,
For company to feeling - woes and fears.
So to my glance, as if with opium wide,
My very self is grown a mystery;
In inexstatic fear Life doth abide
And madness like my breath is within me.
1 415
Fernando Pessoa
SAUDAÇÃO A W. WHITMAN [c]
SAUDAÇÂO A W. WHITMAN
Para cantar-te,
Para cantar-te como tu quererias que te cantassem,
Melhor é cantar a terra, o mar, as cidades e os campos —
Os homens, as mulheres, as crianças,
As profissões, [...], as (...)
Todas as coisas que, juntas, formam a síntese-universo,
Todas as coisas que, separadas, valem a síntese-Universo,
Todas as coisas que universais formam a síntese Deus.
Ah, o poema que te cantasse bem,
Seria o poema que todo cantasse tudo,
O poema em que estivessem todas as vestes e todas as sedas —
Todos os perfumes e todos os sabores
E o contacto em todos os sentidos do tacto de todas as coisas tangíveis.
Poema que dispensasse a música, música com vida,
Poema que transcendesse a pintura, pintura com alma
Para cantar-te,
Para cantar-te como tu quererias que te cantassem,
Melhor é cantar a terra, o mar, as cidades e os campos —
Os homens, as mulheres, as crianças,
As profissões, [...], as (...)
Todas as coisas que, juntas, formam a síntese-universo,
Todas as coisas que, separadas, valem a síntese-Universo,
Todas as coisas que universais formam a síntese Deus.
Ah, o poema que te cantasse bem,
Seria o poema que todo cantasse tudo,
O poema em que estivessem todas as vestes e todas as sedas —
Todos os perfumes e todos os sabores
E o contacto em todos os sentidos do tacto de todas as coisas tangíveis.
Poema que dispensasse a música, música com vida,
Poema que transcendesse a pintura, pintura com alma
1 301
Fernando Pessoa
SAUDAÇÃO A W. WHITMAN [c]
SAUDAÇÂO A W. WHITMAN
Para cantar-te,
Para cantar-te como tu quererias que te cantassem,
Melhor é cantar a terra, o mar, as cidades e os campos —
Os homens, as mulheres, as crianças,
As profissões, [...], as (...)
Todas as coisas que, juntas, formam a síntese-universo,
Todas as coisas que, separadas, valem a síntese-Universo,
Todas as coisas que universais formam a síntese Deus.
Ah, o poema que te cantasse bem,
Seria o poema que todo cantasse tudo,
O poema em que estivessem todas as vestes e todas as sedas —
Todos os perfumes e todos os sabores
E o contacto em todos os sentidos do tacto de todas as coisas tangíveis.
Poema que dispensasse a música, música com vida,
Poema que transcendesse a pintura, pintura com alma
Para cantar-te,
Para cantar-te como tu quererias que te cantassem,
Melhor é cantar a terra, o mar, as cidades e os campos —
Os homens, as mulheres, as crianças,
As profissões, [...], as (...)
Todas as coisas que, juntas, formam a síntese-universo,
Todas as coisas que, separadas, valem a síntese-Universo,
Todas as coisas que universais formam a síntese Deus.
Ah, o poema que te cantasse bem,
Seria o poema que todo cantasse tudo,
O poema em que estivessem todas as vestes e todas as sedas —
Todos os perfumes e todos os sabores
E o contacto em todos os sentidos do tacto de todas as coisas tangíveis.
Poema que dispensasse a música, música com vida,
Poema que transcendesse a pintura, pintura com alma
1 301
Fernando Pessoa
Bem sei que ela era a Rainha.
Bem sei que ela era a Rainha.
Tantas vezes a sonhei
Que julguei até que a tinha
Com quanto a imaginei…
Porque a gente, por pensar,
Talvez que pode querer,
Até sentir que sonhar
É pensar sem poder ter.
Bem sei. Mas era a Rainha
E não abdico encontrá-la.
Faltam-me o ser ela minha
E as condições e a sala.
Tantas vezes a sonhei
Que julguei até que a tinha
Com quanto a imaginei…
Porque a gente, por pensar,
Talvez que pode querer,
Até sentir que sonhar
É pensar sem poder ter.
Bem sei. Mas era a Rainha
E não abdico encontrá-la.
Faltam-me o ser ela minha
E as condições e a sala.
1 770
Fernando Pessoa
Horror! Não sei ser inconsciente
Horror! Não sei ser inconsciente
E tenho para tudo, do que é bom
À inconsciência, o pensamento aberto,
Tornando-o impossível.
O amor causa-me horror é abandono,
Intimidade, mostrar (...) do ser
E eu tenho do alto orgulho a timidez
E sinto horror a abrir o ser a alguém,
A confiar n'alguém. Horror eu sinto
A que prescrute alguém, ou levemente
Ou não, quaisquer recantos do meu ser.
Abandonar-me em braços nus e belos
(Inda que deles o amor viesse)
No conceber de tudo me horroriza;
Seria violar meu ser profundo,
Aproximar-me muito doutros homens;
Uma nudez qualquer — espírito ou corpo (
Confrange-me: acostumei-me cedo
Aos despimentos do meu ser,
A fixar olhos púdicos, conscientes
Demais. Pensar em dizer «amo-te»
E «amo-te» só — só isto me angustia...
Pensar que ao rir (e mesmo que o não seja)
Exponho uma íntima parte de mim,
Para poder amar eu precisava
Esquecer que sou Fausto o pensador.
Eu queria era dormir, dormi, dormir,
Longo dormir, meio sentindo em sono,
E dormir sempre, sem consciência ter
Do tempo, só do sono sonolento
E da vacuidade do meu ser;
Dormir sem vir a morte, nem sonhar
Mas dormir só dormir, sempre dormir.
Que hoje já de dormir desaprendi.
Cansado de pensar, a pensar fico,
E as noites longas, longas, longas, longas,
E o pálido raiar de inda doutro dia...
Inda outro dia que trará ainda
Uma outra noite e essa mais dias, mais...
Insone sentir isto, e o deslizar
Suave e horroroso do tempo.
Cai então sobre mim todo o horror claro
E nítido e visível do mistério,
E eu tal fico em abalo e em comoção
Que durmo — sim que durmo de pesar-me
Tudo de mais p'ra mais poder sentir.
Então durmo... e antes eu não dormisse
Porque desordenadas incoerências
Mas não visões, só abstracções terríveis
(...)
E tenho para tudo, do que é bom
À inconsciência, o pensamento aberto,
Tornando-o impossível.
O amor causa-me horror é abandono,
Intimidade, mostrar (...) do ser
E eu tenho do alto orgulho a timidez
E sinto horror a abrir o ser a alguém,
A confiar n'alguém. Horror eu sinto
A que prescrute alguém, ou levemente
Ou não, quaisquer recantos do meu ser.
Abandonar-me em braços nus e belos
(Inda que deles o amor viesse)
No conceber de tudo me horroriza;
Seria violar meu ser profundo,
Aproximar-me muito doutros homens;
Uma nudez qualquer — espírito ou corpo (
Confrange-me: acostumei-me cedo
Aos despimentos do meu ser,
A fixar olhos púdicos, conscientes
Demais. Pensar em dizer «amo-te»
E «amo-te» só — só isto me angustia...
Pensar que ao rir (e mesmo que o não seja)
Exponho uma íntima parte de mim,
Para poder amar eu precisava
Esquecer que sou Fausto o pensador.
Eu queria era dormir, dormi, dormir,
Longo dormir, meio sentindo em sono,
E dormir sempre, sem consciência ter
Do tempo, só do sono sonolento
E da vacuidade do meu ser;
Dormir sem vir a morte, nem sonhar
Mas dormir só dormir, sempre dormir.
Que hoje já de dormir desaprendi.
Cansado de pensar, a pensar fico,
E as noites longas, longas, longas, longas,
E o pálido raiar de inda doutro dia...
Inda outro dia que trará ainda
Uma outra noite e essa mais dias, mais...
Insone sentir isto, e o deslizar
Suave e horroroso do tempo.
Cai então sobre mim todo o horror claro
E nítido e visível do mistério,
E eu tal fico em abalo e em comoção
Que durmo — sim que durmo de pesar-me
Tudo de mais p'ra mais poder sentir.
Então durmo... e antes eu não dormisse
Porque desordenadas incoerências
Mas não visões, só abstracções terríveis
(...)
1 426
Fernando Pessoa
Dá-me as mãos por brincadeira
Dá-me as mãos por brincadeira
Na dança que não dançamos,
Porque isso é uma maneira
De dizer o que pensamos.
Dá-me as mãos e sorri alto,
A vigiar o que rio,
Bem sabes que assim já falto
A pensar coisas a fio.
Não quero largar as mãos
Assim dadas por brinquedo.
Deixa-as ficar: há irmãos
Que brincam assim a medo.
Não largues, ou faz demora
A arrastar, a demorar,
As mãos pelas minhas fora,
E já deixando de olhar.
Que segredos num contacto!
Que coisas diz quem não fala!
Que boa vista a do tacto
Quando a vista desiguala!
Deixa os dedos, deixa os dedos,
Deixa-os ainda dizer
Aqueles dos teus segredos
Que não podes prometer!
Deixa-me os dedos e a vida!
Os outros dançam no chão,
E eu tenho a alma esquecida
Dentro do teu coração.
Todo o teu corpo está dado
Nas tuas mãos que retenho.
Mais vale ter enganado
Do que ter porque não tenho.
Na dança que não dançamos,
Porque isso é uma maneira
De dizer o que pensamos.
Dá-me as mãos e sorri alto,
A vigiar o que rio,
Bem sabes que assim já falto
A pensar coisas a fio.
Não quero largar as mãos
Assim dadas por brinquedo.
Deixa-as ficar: há irmãos
Que brincam assim a medo.
Não largues, ou faz demora
A arrastar, a demorar,
As mãos pelas minhas fora,
E já deixando de olhar.
Que segredos num contacto!
Que coisas diz quem não fala!
Que boa vista a do tacto
Quando a vista desiguala!
Deixa os dedos, deixa os dedos,
Deixa-os ainda dizer
Aqueles dos teus segredos
Que não podes prometer!
Deixa-me os dedos e a vida!
Os outros dançam no chão,
E eu tenho a alma esquecida
Dentro do teu coração.
Todo o teu corpo está dado
Nas tuas mãos que retenho.
Mais vale ter enganado
Do que ter porque não tenho.
1 580
Fernando Pessoa
A quem a Natureza não fez belo
A quem a Natureza não fez belo
Com seu corpo lhe disse: Tu não ames!
A fealdade é o destinado selo
Com que uma alma é votada à solidão.
Com seu corpo lhe disse: Tu não ames!
A fealdade é o destinado selo
Com que uma alma é votada à solidão.
1 427
Fernando Pessoa
A quem a Natureza não fez belo
A quem a Natureza não fez belo
Com seu corpo lhe disse: Tu não ames!
A fealdade é o destinado selo
Com que uma alma é votada à solidão.
Com seu corpo lhe disse: Tu não ames!
A fealdade é o destinado selo
Com que uma alma é votada à solidão.
1 427
Fernando Pessoa
Os galos cantam e estou bebedíssimo.
Os galos cantam e estou bebedíssimo.
Não fiz nada da vida senão tê-la.
Mal amei, bebi bem, sonhei muitíssimo.
Minha intenção não foi a minha estrela.
Os galos cantam e eu cada vez mais
Absorto no disperso que o álcool dá.
Curara-me talvez a vida, ou sais,
Ou poder crer, ou desejar o que há.
Cantam tantos tão galos que me irrita
Que a noite que ainda dura possa ser.
Mas virá o dia, e, ao fim da parte escrita,
A morte marra e eu deixo-me colher.
Não fiz nada da vida senão tê-la.
Mal amei, bebi bem, sonhei muitíssimo.
Minha intenção não foi a minha estrela.
Os galos cantam e eu cada vez mais
Absorto no disperso que o álcool dá.
Curara-me talvez a vida, ou sais,
Ou poder crer, ou desejar o que há.
Cantam tantos tão galos que me irrita
Que a noite que ainda dura possa ser.
Mas virá o dia, e, ao fim da parte escrita,
A morte marra e eu deixo-me colher.
1 440
Fernando Pessoa
Desperto de sonhar-te
Desperto de sonhar-te
Quando inda a noite é funda,
E um céu estelar faz parte
Do silêncio que inunda.
Perdi poder amar-te
E a treva me circunda.
Talvez que relembrasse,
Sonhando-te, outro ser,
E aquilo que sonhasse
Fosse tornar a ter.
Mas despertei, e faz-se
Claro em meu quarto a ver.
Insónia de perder-te!
Quem foste já não sei.
Pela janela verte
Cada astro a sua lei.
Como, sem sonhar ter-te?...
Porque não dormirei?
Quando inda a noite é funda,
E um céu estelar faz parte
Do silêncio que inunda.
Perdi poder amar-te
E a treva me circunda.
Talvez que relembrasse,
Sonhando-te, outro ser,
E aquilo que sonhasse
Fosse tornar a ter.
Mas despertei, e faz-se
Claro em meu quarto a ver.
Insónia de perder-te!
Quem foste já não sei.
Pela janela verte
Cada astro a sua lei.
Como, sem sonhar ter-te?...
Porque não dormirei?
1 398
Fernando Pessoa
Estou cheio de tédio, de nada. Em cima da cama
Estou cheio de tédio, de nada. Em cima da cama
Leio, com uma minuciosidade atómica,
Lentamente, com uma atenção sem chama,
A Nova Enciclopédia Maçónica.
Penso no que fui (não me escapam as entrelinhas),
E o que a minha alma quis e a minha vida fez.
Coube-me, como a uma senhora um carrinho de linhas,
No meio do Grau 32 do Rito Escocês.
O que quis do passado por brisas se esfolha,
O que pude de oculto teve a tempo medo;
E olho a sorrir o título no alto da folha:
Sublime Príncipe do Real Segredo...
Leio, com uma minuciosidade atómica,
Lentamente, com uma atenção sem chama,
A Nova Enciclopédia Maçónica.
Penso no que fui (não me escapam as entrelinhas),
E o que a minha alma quis e a minha vida fez.
Coube-me, como a uma senhora um carrinho de linhas,
No meio do Grau 32 do Rito Escocês.
O que quis do passado por brisas se esfolha,
O que pude de oculto teve a tempo medo;
E olho a sorrir o título no alto da folha:
Sublime Príncipe do Real Segredo...
1 330
Fernando Pessoa
O cão que veio do abismo
O cão que veio do abismo
Roeu-me os ossos da alma,
E erguendo a perna — o que eu cismo —
Mijou no meu misticismo
Que me dava a minha calma.
O cão veio de onde dorme
Aquele anseio que tenho
Por qualquer coisa de enorme
Que indistintamente forme
A forma de quanto estranho.
E depois de isso completo
O cão que veio do abismo
Que estava inteiro e repleto
Fez sobre tudo o dejecto
Que é hoje o meu misticismo.
Roeu-me os ossos da alma,
E erguendo a perna — o que eu cismo —
Mijou no meu misticismo
Que me dava a minha calma.
O cão veio de onde dorme
Aquele anseio que tenho
Por qualquer coisa de enorme
Que indistintamente forme
A forma de quanto estranho.
E depois de isso completo
O cão que veio do abismo
Que estava inteiro e repleto
Fez sobre tudo o dejecto
Que é hoje o meu misticismo.
1 540
Fernando Pessoa
Onde a serenata?
Onde a serenata?
Dormem os arvoredos.
Há mosqueiros de prata,
Luar em rastos e enredos...
Cantam que vozes suaves?
Enche-se a alma de querer
Ter qualquer coisa das aves
Para a poder entender...
Oh, sombras longas, levai-me
Até a quem vós cantais...
Na vossa música dai-me
Melhor dor que a dos meus ais...
Vinde buscar-me ao desejo,
Despi-me da ilusão...
Vosso murmúrio não vejo…
Não ouço a vossa canção...
Mas na cor oca do luar,
No lago alado da brisa,
Há vozes indo a cantar
Pela floresta indecisa…
E em serenata levantam
Os seus suspiros ao céu,
Qual é a mágoa que contam
Que é melhor que o gozo meu?
O que é [que] buscam que qu'rê-lo
Vale mais que em nós ter?
Que olhos tem, que cabelo,
Essa invisível mulher?
Dormem os arvoredos.
Há mosqueiros de prata,
Luar em rastos e enredos...
Cantam que vozes suaves?
Enche-se a alma de querer
Ter qualquer coisa das aves
Para a poder entender...
Oh, sombras longas, levai-me
Até a quem vós cantais...
Na vossa música dai-me
Melhor dor que a dos meus ais...
Vinde buscar-me ao desejo,
Despi-me da ilusão...
Vosso murmúrio não vejo…
Não ouço a vossa canção...
Mas na cor oca do luar,
No lago alado da brisa,
Há vozes indo a cantar
Pela floresta indecisa…
E em serenata levantam
Os seus suspiros ao céu,
Qual é a mágoa que contam
Que é melhor que o gozo meu?
O que é [que] buscam que qu'rê-lo
Vale mais que em nós ter?
Que olhos tem, que cabelo,
Essa invisível mulher?
991
Fernando Pessoa
Onde a serenata?
Onde a serenata?
Dormem os arvoredos.
Há mosqueiros de prata,
Luar em rastos e enredos...
Cantam que vozes suaves?
Enche-se a alma de querer
Ter qualquer coisa das aves
Para a poder entender...
Oh, sombras longas, levai-me
Até a quem vós cantais...
Na vossa música dai-me
Melhor dor que a dos meus ais...
Vinde buscar-me ao desejo,
Despi-me da ilusão...
Vosso murmúrio não vejo…
Não ouço a vossa canção...
Mas na cor oca do luar,
No lago alado da brisa,
Há vozes indo a cantar
Pela floresta indecisa…
E em serenata levantam
Os seus suspiros ao céu,
Qual é a mágoa que contam
Que é melhor que o gozo meu?
O que é [que] buscam que qu'rê-lo
Vale mais que em nós ter?
Que olhos tem, que cabelo,
Essa invisível mulher?
Dormem os arvoredos.
Há mosqueiros de prata,
Luar em rastos e enredos...
Cantam que vozes suaves?
Enche-se a alma de querer
Ter qualquer coisa das aves
Para a poder entender...
Oh, sombras longas, levai-me
Até a quem vós cantais...
Na vossa música dai-me
Melhor dor que a dos meus ais...
Vinde buscar-me ao desejo,
Despi-me da ilusão...
Vosso murmúrio não vejo…
Não ouço a vossa canção...
Mas na cor oca do luar,
No lago alado da brisa,
Há vozes indo a cantar
Pela floresta indecisa…
E em serenata levantam
Os seus suspiros ao céu,
Qual é a mágoa que contam
Que é melhor que o gozo meu?
O que é [que] buscam que qu'rê-lo
Vale mais que em nós ter?
Que olhos tem, que cabelo,
Essa invisível mulher?
991
Fernando Pessoa
Cesário, que conseguiu
Cesário, que conseguiu
Ver claro, ver simples ver puro,
Ver o mundo nas suas coisas,
Ser um olhar com uma alma por trás, e que vida tão breve!
Criança alfacinha do Universo.
Bendita sejas com tudo quanto está à vista!
Enfeito, no meu coração, a Praça da Figueira para ti
E não há recanto que não veja para ti, nos recantos de seus recantos.
Ver claro, ver simples ver puro,
Ver o mundo nas suas coisas,
Ser um olhar com uma alma por trás, e que vida tão breve!
Criança alfacinha do Universo.
Bendita sejas com tudo quanto está à vista!
Enfeito, no meu coração, a Praça da Figueira para ti
E não há recanto que não veja para ti, nos recantos de seus recantos.
1 266
Fernando Pessoa
Cesário, que conseguiu
Cesário, que conseguiu
Ver claro, ver simples ver puro,
Ver o mundo nas suas coisas,
Ser um olhar com uma alma por trás, e que vida tão breve!
Criança alfacinha do Universo.
Bendita sejas com tudo quanto está à vista!
Enfeito, no meu coração, a Praça da Figueira para ti
E não há recanto que não veja para ti, nos recantos de seus recantos.
Ver claro, ver simples ver puro,
Ver o mundo nas suas coisas,
Ser um olhar com uma alma por trás, e que vida tão breve!
Criança alfacinha do Universo.
Bendita sejas com tudo quanto está à vista!
Enfeito, no meu coração, a Praça da Figueira para ti
E não há recanto que não veja para ti, nos recantos de seus recantos.
1 266
Fernando Pessoa
Cesário, que conseguiu
Cesário, que conseguiu
Ver claro, ver simples ver puro,
Ver o mundo nas suas coisas,
Ser um olhar com uma alma por trás, e que vida tão breve!
Criança alfacinha do Universo.
Bendita sejas com tudo quanto está à vista!
Enfeito, no meu coração, a Praça da Figueira para ti
E não há recanto que não veja para ti, nos recantos de seus recantos.
Ver claro, ver simples ver puro,
Ver o mundo nas suas coisas,
Ser um olhar com uma alma por trás, e que vida tão breve!
Criança alfacinha do Universo.
Bendita sejas com tudo quanto está à vista!
Enfeito, no meu coração, a Praça da Figueira para ti
E não há recanto que não veja para ti, nos recantos de seus recantos.
1 266
Fernando Pessoa
BLIND EAGLE
What is thy name? and is it true that thou
A land unknown of men inhabitest?
What pain obscure is figured on thy brow?
What cares upon thy heart contrive their nest?
Of human things the purest and the best
No constant beauty doth thy soul allow;
And through the world thou bear'st thy deep unrest
Lock'd in a smile thine eyes do disavow.
Being of wild and weird imaginings,
Whose thoughts are greater than mere things can bind,
What is the thing thou seekest within things?
What is that thought thy thinking cannot find?
For what high air has thy strong spirit wings?
To what high vision aches it to be blind?
A land unknown of men inhabitest?
What pain obscure is figured on thy brow?
What cares upon thy heart contrive their nest?
Of human things the purest and the best
No constant beauty doth thy soul allow;
And through the world thou bear'st thy deep unrest
Lock'd in a smile thine eyes do disavow.
Being of wild and weird imaginings,
Whose thoughts are greater than mere things can bind,
What is the thing thou seekest within things?
What is that thought thy thinking cannot find?
For what high air has thy strong spirit wings?
To what high vision aches it to be blind?
1 651
Fernando Pessoa
BLIND EAGLE
What is thy name? and is it true that thou
A land unknown of men inhabitest?
What pain obscure is figured on thy brow?
What cares upon thy heart contrive their nest?
Of human things the purest and the best
No constant beauty doth thy soul allow;
And through the world thou bear'st thy deep unrest
Lock'd in a smile thine eyes do disavow.
Being of wild and weird imaginings,
Whose thoughts are greater than mere things can bind,
What is the thing thou seekest within things?
What is that thought thy thinking cannot find?
For what high air has thy strong spirit wings?
To what high vision aches it to be blind?
A land unknown of men inhabitest?
What pain obscure is figured on thy brow?
What cares upon thy heart contrive their nest?
Of human things the purest and the best
No constant beauty doth thy soul allow;
And through the world thou bear'st thy deep unrest
Lock'd in a smile thine eyes do disavow.
Being of wild and weird imaginings,
Whose thoughts are greater than mere things can bind,
What is the thing thou seekest within things?
What is that thought thy thinking cannot find?
For what high air has thy strong spirit wings?
To what high vision aches it to be blind?
1 651
Fernando Pessoa
CORPOS
O meu corpo é o abismo entre eu e eu.
Se tudo é um sonho sob o sonho aberto
Do céu irreal, sonhar-te é possuir-te,
E possuir-te é sonhar-te de mais perto
As almas sempre separadas,
Os corpos são o sonho de uma ponte
Sobre um abismo que nem margens tem
Eu porque me conheço, me separo
De mim, e penso, e o pensamento é avaro
A hora passa. Mas meu sonho é meu.
Se tudo é um sonho sob o sonho aberto
Do céu irreal, sonhar-te é possuir-te,
E possuir-te é sonhar-te de mais perto
As almas sempre separadas,
Os corpos são o sonho de uma ponte
Sobre um abismo que nem margens tem
Eu porque me conheço, me separo
De mim, e penso, e o pensamento é avaro
A hora passa. Mas meu sonho é meu.
2 206
Fernando Pessoa
A rapariga inglesa, uma loura, tão jovem, tão boa
A rapariga inglesa, uma loura, tão jovem, tão boa
Que queria casar comigo...
Que pena eu não ter casado com ela...
Teria sido feliz
Mas como é que eu sei se teria sido feliz?
Como é que eu sei qualquer coisa a respeito do que teria sido
Do que teria sido, que é o que nunca foi?
Hoje arrependo-me de não ter casado com ela,
Mas antes que até a hipótese de me poder arrepender de ter casado com ela.
E assim é tudo arrependimento,
E o arrependimento é pura abstracção.
Dá um certo desconforto
Mas também dá um certo sonho...
Sim, aquela rapariga foi uma oportunidade da minha alma.
Hoje o arrependimento é que é afastado da minha alma.
Santo Deus! que complicação por não ter casado com uma inglesa que já me deve ter esquecido!...
Mas se não me esqueceu?
Se (porque há disso) me lembra ainda e é constante
(Escuso de me achar feio, porque os feios também são amados
E às vezes por mulheres!)
Se não me esqueceu, ainda me lembra.
Isto, realmente, é já outra espécie de arrependimento.
E fazer sofrer alguém não tem esquecimento.
Mas, afinal, isto são conjecturas da vaidade.
Bem se há-de ela lembrar de mim, com o quarto filho nos braços,
Debruçada sobre o Daily Mirror a ver a Pussy Maria.
Pelo menos é melhor pensar que é assim.
É um quadro de casa suburbana inglesa,
É uma boa paisagem íntima de cabelos louros,
E os remorsos são sombras...
Em todo o caso, se assim é, fica um bocado de ciúme.
O quarto filho do outro, o Daily Mirror na outra casa.
O que podia ter sido...
Sim, sempre o abstracto, o impossível, o irreal mas perverso —
O que podia ter sido.
Comem marmelade ao pequeno almoço em Inglaterra...
Vingo-me em toda a linguagem inglesa de ser um parvo português.
Ah, mas ainda vejo
O teu olhar realmente tão sincero como azul
A olhar como uma outra criança para mim...
E não é com piadas de sal do verso que te apago da imagem
Que tens no meu coração;
Não te disfarço, meu único amor, e não quero nada da vida.
Que queria casar comigo...
Que pena eu não ter casado com ela...
Teria sido feliz
Mas como é que eu sei se teria sido feliz?
Como é que eu sei qualquer coisa a respeito do que teria sido
Do que teria sido, que é o que nunca foi?
Hoje arrependo-me de não ter casado com ela,
Mas antes que até a hipótese de me poder arrepender de ter casado com ela.
E assim é tudo arrependimento,
E o arrependimento é pura abstracção.
Dá um certo desconforto
Mas também dá um certo sonho...
Sim, aquela rapariga foi uma oportunidade da minha alma.
Hoje o arrependimento é que é afastado da minha alma.
Santo Deus! que complicação por não ter casado com uma inglesa que já me deve ter esquecido!...
Mas se não me esqueceu?
Se (porque há disso) me lembra ainda e é constante
(Escuso de me achar feio, porque os feios também são amados
E às vezes por mulheres!)
Se não me esqueceu, ainda me lembra.
Isto, realmente, é já outra espécie de arrependimento.
E fazer sofrer alguém não tem esquecimento.
Mas, afinal, isto são conjecturas da vaidade.
Bem se há-de ela lembrar de mim, com o quarto filho nos braços,
Debruçada sobre o Daily Mirror a ver a Pussy Maria.
Pelo menos é melhor pensar que é assim.
É um quadro de casa suburbana inglesa,
É uma boa paisagem íntima de cabelos louros,
E os remorsos são sombras...
Em todo o caso, se assim é, fica um bocado de ciúme.
O quarto filho do outro, o Daily Mirror na outra casa.
O que podia ter sido...
Sim, sempre o abstracto, o impossível, o irreal mas perverso —
O que podia ter sido.
Comem marmelade ao pequeno almoço em Inglaterra...
Vingo-me em toda a linguagem inglesa de ser um parvo português.
Ah, mas ainda vejo
O teu olhar realmente tão sincero como azul
A olhar como uma outra criança para mim...
E não é com piadas de sal do verso que te apago da imagem
Que tens no meu coração;
Não te disfarço, meu único amor, e não quero nada da vida.
1 266
Fernando Pessoa
Há tantos deuses!
Há tantos deuses!
São como os livros — não se pode ler tudo, nunca se sabe nada.
Feliz quem conhece só um deus, e o guarda em segredo.
Tenho todos os dias crenças diferentes
Às vezes no mesmo dia tenho crenças diferentes
E gostava de ser a criança que me atravessa agora
A visão da janela abaixo —
Comendo um bolo barato (ela é pobre) sem causa aparente nem final,
Animal inutilmente erguido acima dos outros vertebrados
E cantando, entre os dentes, uma cantiga obscena de revista...
Sim, há muitos deuses...
Mas dava eu tudo ao deus que me levasse aquela criança de aqui p'ra fora...
São como os livros — não se pode ler tudo, nunca se sabe nada.
Feliz quem conhece só um deus, e o guarda em segredo.
Tenho todos os dias crenças diferentes
Às vezes no mesmo dia tenho crenças diferentes
E gostava de ser a criança que me atravessa agora
A visão da janela abaixo —
Comendo um bolo barato (ela é pobre) sem causa aparente nem final,
Animal inutilmente erguido acima dos outros vertebrados
E cantando, entre os dentes, uma cantiga obscena de revista...
Sim, há muitos deuses...
Mas dava eu tudo ao deus que me levasse aquela criança de aqui p'ra fora...
1 047
Fernando Pessoa
Hoje que tudo me falta, como se fosse o chão,
Hoje que tudo me falta, como se fosse o chão,
Que me conheço atrozmente, que toda a literatura
Que uso de mim para mim, para ter consciência de mim,
Caiu, como o papel que embrulhou um rebuçado mau —
Hoje tenho uma alma parecida com a morte dos nervos
Necrose da alma,
Apodrecimento dos sentidos.
Tudo quanto tenho feito conheço-o claramente: é nada.
Tudo quanto sonhei, podia tê-lo sonhado o moço de fretes.
Tudo quanto amei, se hoje me lembro que o amei, morreu há muito.
Ó Paraíso Perdido da minha infância burguesa,
Meu Éden agasalhando o chá nocturno,
Minha colcha limpa de menino!
O Destino acabou-me como a um manuscrito interrompido.
Nem altos nem baixos — consciência de nem sequer a ter...
Papelotes da velha solteira — toda a minha vida.
Tenho uma náusea do estômago nos pulmões.
Custa-me a respirar para sustentar a alma.
Tenho uma quantidade de doenças tristes nas juntas da vontade.
Minha grinalda de poeta — eras de flores de papel,
A tua imortalidade presumida era o não teres vida.
Minha coroa de louros de poeta — sonhada petrarquicamente,
Sem capotinho mas com fama,
Sem dados mas com Deus —
Tabuleta [de] vinho falsificado na última taberna da esquina!
Que me conheço atrozmente, que toda a literatura
Que uso de mim para mim, para ter consciência de mim,
Caiu, como o papel que embrulhou um rebuçado mau —
Hoje tenho uma alma parecida com a morte dos nervos
Necrose da alma,
Apodrecimento dos sentidos.
Tudo quanto tenho feito conheço-o claramente: é nada.
Tudo quanto sonhei, podia tê-lo sonhado o moço de fretes.
Tudo quanto amei, se hoje me lembro que o amei, morreu há muito.
Ó Paraíso Perdido da minha infância burguesa,
Meu Éden agasalhando o chá nocturno,
Minha colcha limpa de menino!
O Destino acabou-me como a um manuscrito interrompido.
Nem altos nem baixos — consciência de nem sequer a ter...
Papelotes da velha solteira — toda a minha vida.
Tenho uma náusea do estômago nos pulmões.
Custa-me a respirar para sustentar a alma.
Tenho uma quantidade de doenças tristes nas juntas da vontade.
Minha grinalda de poeta — eras de flores de papel,
A tua imortalidade presumida era o não teres vida.
Minha coroa de louros de poeta — sonhada petrarquicamente,
Sem capotinho mas com fama,
Sem dados mas com Deus —
Tabuleta [de] vinho falsificado na última taberna da esquina!
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