Poemas neste tema
Outros
Fernando Pessoa
Ver as coisas até ao fundo...
Ver as coisas até ao fundo...
E se as coisas não tiverem fundo?
Ah, que bela a superfície!
Talvez a superfície seja a essência
E o mais que a superfície seja o mais que tudo
E o mais que tudo não é nada.
Ó face do mundo, só tu, de todas as faces,
És a própria alma que reflectes
E se as coisas não tiverem fundo?
Ah, que bela a superfície!
Talvez a superfície seja a essência
E o mais que a superfície seja o mais que tudo
E o mais que tudo não é nada.
Ó face do mundo, só tu, de todas as faces,
És a própria alma que reflectes
1 448
Fernando Pessoa
Ver as coisas até ao fundo...
Ver as coisas até ao fundo...
E se as coisas não tiverem fundo?
Ah, que bela a superfície!
Talvez a superfície seja a essência
E o mais que a superfície seja o mais que tudo
E o mais que tudo não é nada.
Ó face do mundo, só tu, de todas as faces,
És a própria alma que reflectes
E se as coisas não tiverem fundo?
Ah, que bela a superfície!
Talvez a superfície seja a essência
E o mais que a superfície seja o mais que tudo
E o mais que tudo não é nada.
Ó face do mundo, só tu, de todas as faces,
És a própria alma que reflectes
1 448
Fernando Pessoa
Ver as coisas até ao fundo...
Ver as coisas até ao fundo...
E se as coisas não tiverem fundo?
Ah, que bela a superfície!
Talvez a superfície seja a essência
E o mais que a superfície seja o mais que tudo
E o mais que tudo não é nada.
Ó face do mundo, só tu, de todas as faces,
És a própria alma que reflectes
E se as coisas não tiverem fundo?
Ah, que bela a superfície!
Talvez a superfície seja a essência
E o mais que a superfície seja o mais que tudo
E o mais que tudo não é nada.
Ó face do mundo, só tu, de todas as faces,
És a própria alma que reflectes
1 448
Fernando Pessoa
O que é haver ser
O que é haver ser, o que é haver seres, o que é haver coisas,
O que é haver vida em plantas e nas gentes,
E coisas que a gente constrói —
Maravilhosa alegria de coisas e de seres —
Perante a ignorância em que estamos de como isto tudo pode ser.
O que é haver vida em plantas e nas gentes,
E coisas que a gente constrói —
Maravilhosa alegria de coisas e de seres —
Perante a ignorância em que estamos de como isto tudo pode ser.
1 048
Fernando Pessoa
Mas não e só o cadáver
Mas não e só o cadáver
Essa pessoa horrível que não é ninguém,
Essa novidade abísmica do corpo usual,
Esse desconhecido que aparece por ausência na pessoa que conhecemos,
Esse abismo cavado entre vermos e entendermos —
Não é só o cadáver que dói na alma com medo,
Que põe um silêncio no fundo do coração,
As coisas usuais externas de quem morreu
Também perturbam a alma, mas com mais ternura no medo.
Sejam de um inimigo,
Quem pode ver sem saudade a mesa a que ele sentava,
A caneta com que escrevia?
Quem pode ver sem uma angústia própria
A espingarda do caçador desaparecido sem ela para alívio de todos os montes?
O casaco do mendigo morto, onde ele metia as mãos (já ausentes para sempre) na algibeira,
Os brinquedos, horrivelmente arrumados já, da criança morta,
Tudo isso me pesa de repente no entendimento estrangeiro
E uma saudade do tamanho do espaço apavora-me a alma...
Essa pessoa horrível que não é ninguém,
Essa novidade abísmica do corpo usual,
Esse desconhecido que aparece por ausência na pessoa que conhecemos,
Esse abismo cavado entre vermos e entendermos —
Não é só o cadáver que dói na alma com medo,
Que põe um silêncio no fundo do coração,
As coisas usuais externas de quem morreu
Também perturbam a alma, mas com mais ternura no medo.
Sejam de um inimigo,
Quem pode ver sem saudade a mesa a que ele sentava,
A caneta com que escrevia?
Quem pode ver sem uma angústia própria
A espingarda do caçador desaparecido sem ela para alívio de todos os montes?
O casaco do mendigo morto, onde ele metia as mãos (já ausentes para sempre) na algibeira,
Os brinquedos, horrivelmente arrumados já, da criança morta,
Tudo isso me pesa de repente no entendimento estrangeiro
E uma saudade do tamanho do espaço apavora-me a alma...
2 514
Fernando Pessoa
Morrer — esta palavra toda horror —
Morrer — esta palavra toda horror —
Repito-a e re-repito-a para ver
Se aumenta em mim 'té à compreensão
O pensamento e sentimento vagos
Que produz, e dos quais a intensidade
Em contraste com esse vago imenso
Faz dum horror um horror supremo;
Repito sim — Morrer — e não obtenho
Uma qualquer nitidificação
Do desolado caos do meu ser.
Agonia suprema! Suma dor
Não poder eu — sem morte, sem (...)
Tornar-me em um estranho inanimado
D'inconcebida essência que encontrasse
O impensável desejo da minha alma.
Tudo é mistério e o mistério é tudo
E a mais próxima forma, essa mais nossa
A sua forma mais (...)
É a morte.
Uns têm — e é sofrer — o duvidar:
Há Deus ou não há Deus? Há alma ou não?
Eu não duvido, ignoro. E se o horror
De duvidar é grande o de ignorar
Não tem nome nem entre os pensamentos.
Hesitar: «Há Deus ou não há?» é triste
Mas saber: «Não há Deus» e perguntar
«O que há então?» Aqui dúvida e ânsia
Por humildes em dor não se concebem.
Eu, Fausto, achei a ciência suprema
Que o homem pode ter; nela encontrei
O (...) de desolação
D'ânsia, d'horror, de medo, de delírio,
De hesitação, de estranheza na terra,
De vacuidade em mim e em todo o mundo,
E em todo o pensamento e em todo o Ser.
Repito-a e re-repito-a para ver
Se aumenta em mim 'té à compreensão
O pensamento e sentimento vagos
Que produz, e dos quais a intensidade
Em contraste com esse vago imenso
Faz dum horror um horror supremo;
Repito sim — Morrer — e não obtenho
Uma qualquer nitidificação
Do desolado caos do meu ser.
Agonia suprema! Suma dor
Não poder eu — sem morte, sem (...)
Tornar-me em um estranho inanimado
D'inconcebida essência que encontrasse
O impensável desejo da minha alma.
Tudo é mistério e o mistério é tudo
E a mais próxima forma, essa mais nossa
A sua forma mais (...)
É a morte.
Uns têm — e é sofrer — o duvidar:
Há Deus ou não há Deus? Há alma ou não?
Eu não duvido, ignoro. E se o horror
De duvidar é grande o de ignorar
Não tem nome nem entre os pensamentos.
Hesitar: «Há Deus ou não há?» é triste
Mas saber: «Não há Deus» e perguntar
«O que há então?» Aqui dúvida e ânsia
Por humildes em dor não se concebem.
Eu, Fausto, achei a ciência suprema
Que o homem pode ter; nela encontrei
O (...) de desolação
D'ânsia, d'horror, de medo, de delírio,
De hesitação, de estranheza na terra,
De vacuidade em mim e em todo o mundo,
E em todo o pensamento e em todo o Ser.
1 137
Fernando Pessoa
Azul, ou verde, ou roxo, quando o sol
Azul, ou verde, ou roxo, quando o sol
O doura falsamente de vermelho,
O mar é áspero [?], casual [?] ou mo(le),
É uma vez abismo e outra espelho.
Evoco porque sinto velho
O que em mim quereria mais que o mar
Já que nada ali há por desvendar.
Os grandes capitães e os marinheiros
Com que fizeram a navegação,
Jazem longínquos, lúgubres parceiros
Do nosso esquecimento e ingratidão.
Só o mar, às vezes, quando são
Grandes as ondas e é deveras mar
Parece incertamente recordar.
Mas sonho... O mar é água, é agua nua,
Serva do obscuro ímpeto distante
Que, como a poesia, vem da lua
Que uma vez o abate outra o levanta.
Mas, por mais que descante
Sobre a ignorância natural do mar,
Pressinto-o, vazante, a murmurar.
Quem sabe o que é a alma? Quem conhece
Que alma há nas coisas que parecem mortas.
Quanto em terra ou em nada nunca esquece.
Quem sabe se no espaço vácuo há portas?
Ó sonho que me exortas
A meditar assim a voz do mar,
Ensina-me a saber-te meditar.
Capitães, contramestres — todos nautas
Da descoberta infiel de cada dia ó
Acaso vos chamou de ignotas flautas
A vaga e impossível melodia.
Acaso o vosso ouvido ouvia
Qualquer coisa do mar sem ser o mar
Sereias só de ouvir e não de achar?
Quem atrás de intérminos oceanos
Vos chamou à distância como [?] quem
Sabe que há nos corações humanos
Não só uma ânsia natural de bem
Mas, mais vaga, mais subtil também,
Uma coisa que quer o som do mar
E o estar longe de tudo e não parar.
Se assim é, e se vós e o mar imenso
Sois qualquer coisa, vós por o sentir
E o mar por o ser, disto que penso;
Se no fundo ignorado do existir
Há mais alma que a que pode vir
À tona vã de nós, como à do mar,
Fazei‑me livre, enfim, de o ignorar.
Dai-me uma alma transposta de argonauta,
Fazei que eu tenha, como o capitão
Ou o contramestre, ouvidos para a flauta
Que chama ao longe o nosso coração,
Fazei-me ouvir, como a um perdão,
Numa reminiscência de ensinar,
O antigo português que fala o mar!
O doura falsamente de vermelho,
O mar é áspero [?], casual [?] ou mo(le),
É uma vez abismo e outra espelho.
Evoco porque sinto velho
O que em mim quereria mais que o mar
Já que nada ali há por desvendar.
Os grandes capitães e os marinheiros
Com que fizeram a navegação,
Jazem longínquos, lúgubres parceiros
Do nosso esquecimento e ingratidão.
Só o mar, às vezes, quando são
Grandes as ondas e é deveras mar
Parece incertamente recordar.
Mas sonho... O mar é água, é agua nua,
Serva do obscuro ímpeto distante
Que, como a poesia, vem da lua
Que uma vez o abate outra o levanta.
Mas, por mais que descante
Sobre a ignorância natural do mar,
Pressinto-o, vazante, a murmurar.
Quem sabe o que é a alma? Quem conhece
Que alma há nas coisas que parecem mortas.
Quanto em terra ou em nada nunca esquece.
Quem sabe se no espaço vácuo há portas?
Ó sonho que me exortas
A meditar assim a voz do mar,
Ensina-me a saber-te meditar.
Capitães, contramestres — todos nautas
Da descoberta infiel de cada dia ó
Acaso vos chamou de ignotas flautas
A vaga e impossível melodia.
Acaso o vosso ouvido ouvia
Qualquer coisa do mar sem ser o mar
Sereias só de ouvir e não de achar?
Quem atrás de intérminos oceanos
Vos chamou à distância como [?] quem
Sabe que há nos corações humanos
Não só uma ânsia natural de bem
Mas, mais vaga, mais subtil também,
Uma coisa que quer o som do mar
E o estar longe de tudo e não parar.
Se assim é, e se vós e o mar imenso
Sois qualquer coisa, vós por o sentir
E o mar por o ser, disto que penso;
Se no fundo ignorado do existir
Há mais alma que a que pode vir
À tona vã de nós, como à do mar,
Fazei‑me livre, enfim, de o ignorar.
Dai-me uma alma transposta de argonauta,
Fazei que eu tenha, como o capitão
Ou o contramestre, ouvidos para a flauta
Que chama ao longe o nosso coração,
Fazei-me ouvir, como a um perdão,
Numa reminiscência de ensinar,
O antigo português que fala o mar!
1 320
Fernando Pessoa
SONNET OF A SCEPTIC
Long ere now Phoebus sunk in western skies
Behind his dreamy hills of tinted rose;
When I in pain my troubled eyelids close
And look upon the world that in me lies.
For in the night the silent river flows,
In darkness hid the bat unheeded flies:
In my soul's night, alas! no calmness lies,
With Nature's night too well my horror grows.
Darkness I hate, for I am like the night,
And yet in me no star, serenely bright,
The clouds of mind and soul so purely clears.
But as night with its pall of shades of old,
Unheard, unseen, l sit in heatless cold,
Enwrapped in my doubts and in my fears.
Behind his dreamy hills of tinted rose;
When I in pain my troubled eyelids close
And look upon the world that in me lies.
For in the night the silent river flows,
In darkness hid the bat unheeded flies:
In my soul's night, alas! no calmness lies,
With Nature's night too well my horror grows.
Darkness I hate, for I am like the night,
And yet in me no star, serenely bright,
The clouds of mind and soul so purely clears.
But as night with its pall of shades of old,
Unheard, unseen, l sit in heatless cold,
Enwrapped in my doubts and in my fears.
1 599
Fernando Pessoa
No fim do mundo de tudo
No fim do mundo de tudo
Há grandes montes que têm
Ainda além para além —
Um grande além mago e mudo.
São paisagens escondidas
Que são o que a alma quer.
Ali ser, ali viver
Vale por vidas e vidas.
Todos nós, que aqui cansamos
A alma com a negar,
Nesse momento de sonhar
Ali somos, ali estamos.
Mas, depois, volvidos onde
Há só a vida que há
Vemos que ante nós está
Só o que vela e que esconde.
Só dormindo os horizontes
Se alargam e há a visão
Dos montes que ao fundo estão
E o saber do além dos montes [...]
Há grandes montes que têm
Ainda além para além —
Um grande além mago e mudo.
São paisagens escondidas
Que são o que a alma quer.
Ali ser, ali viver
Vale por vidas e vidas.
Todos nós, que aqui cansamos
A alma com a negar,
Nesse momento de sonhar
Ali somos, ali estamos.
Mas, depois, volvidos onde
Há só a vida que há
Vemos que ante nós está
Só o que vela e que esconde.
Só dormindo os horizontes
Se alargam e há a visão
Dos montes que ao fundo estão
E o saber do além dos montes [...]
1 481
Fernando Pessoa
SÁ CARNEIRO
Nesse número do Orpheu que há-de ser feito
Com rosas e estrelas em um mundo novo.
Nunca supus que isto que chamam morte
Tivesse qualquer espécie de sentido...
Cada um de nós, aqui aparecido,
Onde manda a lei e a falsa sorte,
Tem só uma demora de passagem
Entre um comboio e outro, entroncamento
Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;
Mas, seja como for, segue a viagem.
Passei, embora num comboio expresso
Seguisses, e adiante do em que vou;
No términus de tudo, ao fim lá estou
Nessa ida que afinal é um regresso.
Porque na enorme gare onde Deus manda
Grandes acolhimentos se darão
Para cada prolixo coração
Que com seu próprio ser vive em demanda.
Hoje, falho de ti, sou dois a sós.
Há almas pares, as que conheceram
Onde os seres são almas.
Como éramos só um, falando! Nós
Éramos como um diálogo numa alma.
Não sei se dormes [...] calma,
Sei que, falho de ti, estou um a sós.
É como se esperasse eternamente
A tua vida certa e conhecida
Aí em baixo, no café Arcada —
Quase no extremo deste [...]
Aí onde escreveste aqueles versos
Do trapézio, doriu-nos [...]
Aquilo tudo que dizes no «Orpheu».
Ah, meu maior amigo, nunca mais
Na paisagem sepulta desta vida
Encontrarei uma alma tão querida
Às coisas que em meu ser são as reais.
[...]
Não mais, não mais, e desde que saíste
Desta prisão fechada que é o mundo,
Meu coração é inerte e infecundo
E o que sou é um sonho que está triste.
Porque há em nós, por mais que consigamos
Ser nós mesmos a sós sem nostalgia,
Um desejo de termos companhia —
O amigo como esse que a falar amamos.
Com rosas e estrelas em um mundo novo.
Nunca supus que isto que chamam morte
Tivesse qualquer espécie de sentido...
Cada um de nós, aqui aparecido,
Onde manda a lei e a falsa sorte,
Tem só uma demora de passagem
Entre um comboio e outro, entroncamento
Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;
Mas, seja como for, segue a viagem.
Passei, embora num comboio expresso
Seguisses, e adiante do em que vou;
No términus de tudo, ao fim lá estou
Nessa ida que afinal é um regresso.
Porque na enorme gare onde Deus manda
Grandes acolhimentos se darão
Para cada prolixo coração
Que com seu próprio ser vive em demanda.
Hoje, falho de ti, sou dois a sós.
Há almas pares, as que conheceram
Onde os seres são almas.
Como éramos só um, falando! Nós
Éramos como um diálogo numa alma.
Não sei se dormes [...] calma,
Sei que, falho de ti, estou um a sós.
É como se esperasse eternamente
A tua vida certa e conhecida
Aí em baixo, no café Arcada —
Quase no extremo deste [...]
Aí onde escreveste aqueles versos
Do trapézio, doriu-nos [...]
Aquilo tudo que dizes no «Orpheu».
Ah, meu maior amigo, nunca mais
Na paisagem sepulta desta vida
Encontrarei uma alma tão querida
Às coisas que em meu ser são as reais.
[...]
Não mais, não mais, e desde que saíste
Desta prisão fechada que é o mundo,
Meu coração é inerte e infecundo
E o que sou é um sonho que está triste.
Porque há em nós, por mais que consigamos
Ser nós mesmos a sós sem nostalgia,
Um desejo de termos companhia —
O amigo como esse que a falar amamos.
1 602
Fernando Pessoa
Ás vezes, quando cismo, e incerto vou
Às vezes, quando cismo, e incerto vou
Através do meu ser em confusão
Procuro ver, sentir, sem olhos ler
Na minha consciência a alvorecer
De que anterior Presença humana sou
A reincarnação.
Então, aos olhos com que sonho olhando,
Meu próprio vulto outro se ergue, e eu sei
Que fui, num grande ocaso de (...) gentes
Entre sonhos nas almas confluentes
Alguém com gesto e mando,
Imperador ou rei.
Triste, profundamente triste, calmo
Sim, calmo como a morte, eu quis fazer
Com que em não sei que terra revivesse
Um belo culto morto, a incerta messe (…)
Através do meu ser em confusão
Procuro ver, sentir, sem olhos ler
Na minha consciência a alvorecer
De que anterior Presença humana sou
A reincarnação.
Então, aos olhos com que sonho olhando,
Meu próprio vulto outro se ergue, e eu sei
Que fui, num grande ocaso de (...) gentes
Entre sonhos nas almas confluentes
Alguém com gesto e mando,
Imperador ou rei.
Triste, profundamente triste, calmo
Sim, calmo como a morte, eu quis fazer
Com que em não sei que terra revivesse
Um belo culto morto, a incerta messe (…)
1 497
Fernando Pessoa
II - Ah o crepúsculo
II
Ah o crepúsculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades
E a mão de mistério que abafa o bulício,
E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe
Para uma sensação exacta e precisa e activa da Vida!
Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios
E que misterioso o fundo unânime das ruas,
Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre,
Ó do «Sentimento de um Ocidental»!
Que inquietação profunda, que desejo de outras coisas.
Que nem são países, nem momentos, nem vidas.
Que desejo talvez de outros modos de estados de alma
Humedece interiormente o instante lento e longínquo!
Um horror sonâmbulo entre luzes que se acendem,
Um pavor terno e líquido, encostado às esquinas
Como um mendigo de sensações impossíveis
Que não sabe quem lhas possa dar...
Quando eu morrer,
Quando me for, ignobilmente, como toda a gente,
Por aquele caminho cuja ideia se não pode encarar de frente,
Por aquela porta a que, se pudéssemos assomar, não assomaríamos
Para aquele porto que o capitão do Navio não conhece,
Seja por esta hora condigna dos tédios que tive,
Por esta hora mística e espiritual e antiquíssima,
Por esta hora em que talvez, há muito mais tempo do que parece,
Platão sonhando viu a ideia de Deus
Esculpir corpo e existência nitidamente plausível.
Dentro do seu pensamento exteriorizado como um campo.
Seja por esta hora que me leveis a enterrar,
Por esta hora que eu não sei como viver,
Em que não sei que sensações ter ou fingir que tenho,
Por esta hora cuja misericórdia é torturada e excessiva,
Cujas sombras vêm de qualquer outra coisa que não as coisas,
Cuja passagem não roça vestes no chão da Vida Sensível
Nem deixa perfume nos caminhos do Olhar.
Cruza as mãos sobre o joelho, ó companheira que eu não tenho nem quero ter.
Cruza as mãos sobre o joelho e olha-me em silêncio
A esta hora em que eu não posso ver que tu me olhas,
Olha-me em silêncio e em segredo e pergunta a ti própria
— Tu que me conheces — quem eu sou...
Ah o crepúsculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades
E a mão de mistério que abafa o bulício,
E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe
Para uma sensação exacta e precisa e activa da Vida!
Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios
E que misterioso o fundo unânime das ruas,
Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre,
Ó do «Sentimento de um Ocidental»!
Que inquietação profunda, que desejo de outras coisas.
Que nem são países, nem momentos, nem vidas.
Que desejo talvez de outros modos de estados de alma
Humedece interiormente o instante lento e longínquo!
Um horror sonâmbulo entre luzes que se acendem,
Um pavor terno e líquido, encostado às esquinas
Como um mendigo de sensações impossíveis
Que não sabe quem lhas possa dar...
Quando eu morrer,
Quando me for, ignobilmente, como toda a gente,
Por aquele caminho cuja ideia se não pode encarar de frente,
Por aquela porta a que, se pudéssemos assomar, não assomaríamos
Para aquele porto que o capitão do Navio não conhece,
Seja por esta hora condigna dos tédios que tive,
Por esta hora mística e espiritual e antiquíssima,
Por esta hora em que talvez, há muito mais tempo do que parece,
Platão sonhando viu a ideia de Deus
Esculpir corpo e existência nitidamente plausível.
Dentro do seu pensamento exteriorizado como um campo.
Seja por esta hora que me leveis a enterrar,
Por esta hora que eu não sei como viver,
Em que não sei que sensações ter ou fingir que tenho,
Por esta hora cuja misericórdia é torturada e excessiva,
Cujas sombras vêm de qualquer outra coisa que não as coisas,
Cuja passagem não roça vestes no chão da Vida Sensível
Nem deixa perfume nos caminhos do Olhar.
Cruza as mãos sobre o joelho, ó companheira que eu não tenho nem quero ter.
Cruza as mãos sobre o joelho e olha-me em silêncio
A esta hora em que eu não posso ver que tu me olhas,
Olha-me em silêncio e em segredo e pergunta a ti própria
— Tu que me conheces — quem eu sou...
1 293
Fernando Pessoa
A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as coisas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em um ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as coisas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em um ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.
1 411
Fernando Pessoa
AUTO DAS BACANTES - Qual é, senhor, a melhor sorte?
Qual é, senhor, a melhor sorte?
Mais vale a vida ou mais querer?
Há, além do portal da morte,
Melhor viver?
Será melhor viver amando
E buscar o amor entre a vida,
Ou, inda que chorando,
Buscar o amor
Onde tudo é a sombra e o vago,
E o guarda negro a fauce estende
Por sobre o desolado lago
Haverá escondida margem,
Oculta região feliz,
Onde outra mais (...) aragem
Banhe um amor como se quis?
Mais vale a vida ou mais querer?
Há, além do portal da morte,
Melhor viver?
Será melhor viver amando
E buscar o amor entre a vida,
Ou, inda que chorando,
Buscar o amor
Onde tudo é a sombra e o vago,
E o guarda negro a fauce estende
Por sobre o desolado lago
Haverá escondida margem,
Oculta região feliz,
Onde outra mais (...) aragem
Banhe um amor como se quis?
1 492
Fernando Pessoa
Nunca busquei viver a minha vida
Nunca busquei viver a minha vida
A minha vida viveu-se sem que eu quisesse ou não quisesse.
Só quis ver como se não tivesse alma
Só quis ver como se fosse eterno.
A minha vida viveu-se sem que eu quisesse ou não quisesse.
Só quis ver como se não tivesse alma
Só quis ver como se fosse eterno.
1 626
Fernando Pessoa
Porque o olhar de quem não merece
Porque o olhar de quem não merece
O meu amor para outro olhou,
Uma dor fria me enfurece,
Decido odiar quem me insultou.
Vil dor, vil causa e vil remédio!
Quanto melhor não fora achar-se
No antigo sem-amor, com tédio,
Mas sem dor de que envergonhar-se!
O meu amor para outro olhou,
Uma dor fria me enfurece,
Decido odiar quem me insultou.
Vil dor, vil causa e vil remédio!
Quanto melhor não fora achar-se
No antigo sem-amor, com tédio,
Mas sem dor de que envergonhar-se!
1 534
Fernando Pessoa
Não creio ainda no que sinto -
Não creio ainda no que sinto -
Teus beijos, meu amor, que são
A aurora ao fundo do recinto
Do meu sentido coração...
Não creio ainda nessa boca
Que, por tua alma em beijos dada,
Na minha boca estaca e toca
E ali (...) fica parada.
Não creio ainda. Poderia
Acaso a mim acontecer
Tu, e teus beijos, e a alegria?
Tudo isto é, e não pode ser.
……
Teus beijos, meu amor, que são
A aurora ao fundo do recinto
Do meu sentido coração...
Não creio ainda nessa boca
Que, por tua alma em beijos dada,
Na minha boca estaca e toca
E ali (...) fica parada.
Não creio ainda. Poderia
Acaso a mim acontecer
Tu, e teus beijos, e a alegria?
Tudo isto é, e não pode ser.
……
1 381
Fernando Pessoa
A manhã raia. Não: a manhã não raia.
A manhã raia. Não: a manhã não raia.
A manhã é uma coisa abstracta, está, não é uma coisa.
Começamos a ver o sol, a esta hora, aqui.
Se o sol matutino dando nas árvores é belo,
É tão belo se chamarmos à manhã «Começarmos a ver o sol»
Como o é se lhe chamarmos a manhã,
Por isso se não há vantagem em por nomes errados às coisas,
Devemos nunca lhes por nomes alguns.
A manhã é uma coisa abstracta, está, não é uma coisa.
Começamos a ver o sol, a esta hora, aqui.
Se o sol matutino dando nas árvores é belo,
É tão belo se chamarmos à manhã «Começarmos a ver o sol»
Como o é se lhe chamarmos a manhã,
Por isso se não há vantagem em por nomes errados às coisas,
Devemos nunca lhes por nomes alguns.
1 496
Fernando Pessoa
Tens um livro que não lês,
Tens um livro que não lês,
Tens uma flor que desfolhas;
Tens um coração aos pés
E para ele não olhas.
Tens uma flor que desfolhas;
Tens um coração aos pés
E para ele não olhas.
1 823
Fernando Pessoa
Nunca dizes se gostaste
Nunca dizes se gostaste
Daquilo que te calei.
Sei bem que o adivinhaste.
O que pensaste não sei.
Daquilo que te calei.
Sei bem que o adivinhaste.
O que pensaste não sei.
1 466
Fernando Pessoa
Ah, bate levemente, mais levemente!
Ah, bate leve, mais levemente!
Eu julguei morto meu coração
Na hora passa, como demente
Ophelia indo para a corrente,
Não sei que incerta minha emoção,
Julguei-te morto, coração triste,
Que nada fazes salvo doer.
Julguei-te morto, e ainda existe
Na tua cinza algum fogo e resiste
Em ti ainda o mal de sofrer.
……
Coração triste, vibras incerto,
Gemes na tua desolação.
Que oásis falso no teu deserto
Não foi esta vaga miragem perto
Da tua inútil consolação!
……
Recolhe, monge definitivo
Ao peito aonde te abrigas
(…)
……
Sê firme, crê que ninguém deseja
O teu asilo ou o teu abrigo.
Em teu deserto nada viceja.
Quem queres tu que te queira...
Coração triste, vive contigo.
……
Abdica e vive de não viver!
……
Pobre criança que queria ter
Em toda a vida canções de amor (…)
Eu julguei morto meu coração
Na hora passa, como demente
Ophelia indo para a corrente,
Não sei que incerta minha emoção,
Julguei-te morto, coração triste,
Que nada fazes salvo doer.
Julguei-te morto, e ainda existe
Na tua cinza algum fogo e resiste
Em ti ainda o mal de sofrer.
……
Coração triste, vibras incerto,
Gemes na tua desolação.
Que oásis falso no teu deserto
Não foi esta vaga miragem perto
Da tua inútil consolação!
……
Recolhe, monge definitivo
Ao peito aonde te abrigas
(…)
……
Sê firme, crê que ninguém deseja
O teu asilo ou o teu abrigo.
Em teu deserto nada viceja.
Quem queres tu que te queira...
Coração triste, vive contigo.
……
Abdica e vive de não viver!
……
Pobre criança que queria ter
Em toda a vida canções de amor (…)
1 533
Fernando Pessoa
Teus olhos tristes, parados,
Teus olhos tristes, parados,
Coisa nenhuma a fitar...
Ah meu amor, meu amor,
Se eu fora nenhum lugar!
Coisa nenhuma a fitar...
Ah meu amor, meu amor,
Se eu fora nenhum lugar!
1 167
Fernando Pessoa
Creio que irei morrer.
Creio que irei morrer.
Mas o sentido de morrer não me ocorre [?],
Lembra-me que morrer não deve ter sentido.
Isto de viver e morrer são classificações como as das plantas.
Que folhas ou que flores tem uma classificação?
Que vida tem a vida ou que morte a morte?
Tudo são termos nada se define. A única diferença é um contorno, uma paragem, uma cor que destinge, uma (...)
...mas o Universo existe mesmo sem o Universo.
Esta verdade capital é falsa só quando é dita.
Mas o sentido de morrer não me ocorre [?],
Lembra-me que morrer não deve ter sentido.
Isto de viver e morrer são classificações como as das plantas.
Que folhas ou que flores tem uma classificação?
Que vida tem a vida ou que morte a morte?
Tudo são termos nada se define. A única diferença é um contorno, uma paragem, uma cor que destinge, uma (...)
...mas o Universo existe mesmo sem o Universo.
Esta verdade capital é falsa só quando é dita.
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