Poemas neste tema
Outros
Fernando Pessoa
Não sem lei, mas segundo leis diversas
Não sem lei, mas segundo leis diversas
Entre os homens reparte o fado e os deuses
Sem justiça ou injustiça
Prazeres, dores, gozos e perigos.
Bem ou mal, não terás o que mereces.
Querem os deuses a isto obrigar
Porque o Fado não tem
Leis nossas com que reja a sua lei.
Quem é rei hoje, amanhã escravo cruza
Com o escravo de ontem que é depois rei.
Sem razão um caiu,
Sem causa nele o outro ascenderá.
Não em nós, mas dos deuses no capricho
E nas sombras p'ra além do seu domínio
Está o que somos, e temos,
A vida e a morte do que somos nós.
Se te apraz mereceres, que te apraza
Por mereceres, não porque te o Fado
Dê o prémio ou a paga
De com constância haveres merecido.
Dúbia é a vida, inconstante o que a governa.
O que esperamos nem sempre acontece
Nem nos falece sempre,
Nem há com que a alma uma ou outra cousa espere.
Torna teu coração digno dos deuses
E deixa a vida incerta ser quem seja.
O que te acontecer
Aceita. Os deuses nunca se rebelam.
Nas mãos inevitáveis do destino
A roda rápida soterra hoje
Quem ontem viu o céu
Do transitório auge do seu giro.
Entre os homens reparte o fado e os deuses
Sem justiça ou injustiça
Prazeres, dores, gozos e perigos.
Bem ou mal, não terás o que mereces.
Querem os deuses a isto obrigar
Porque o Fado não tem
Leis nossas com que reja a sua lei.
Quem é rei hoje, amanhã escravo cruza
Com o escravo de ontem que é depois rei.
Sem razão um caiu,
Sem causa nele o outro ascenderá.
Não em nós, mas dos deuses no capricho
E nas sombras p'ra além do seu domínio
Está o que somos, e temos,
A vida e a morte do que somos nós.
Se te apraz mereceres, que te apraza
Por mereceres, não porque te o Fado
Dê o prémio ou a paga
De com constância haveres merecido.
Dúbia é a vida, inconstante o que a governa.
O que esperamos nem sempre acontece
Nem nos falece sempre,
Nem há com que a alma uma ou outra cousa espere.
Torna teu coração digno dos deuses
E deixa a vida incerta ser quem seja.
O que te acontecer
Aceita. Os deuses nunca se rebelam.
Nas mãos inevitáveis do destino
A roda rápida soterra hoje
Quem ontem viu o céu
Do transitório auge do seu giro.
1 291
Florbela Espanca
Desafio
Ela
“Ó luar que lindo és,
Luar branco de janeiro!
Não há luar como tu,
Nem amor como o primeiro.”
Ele
Deixa-me rir, ó Maria!
Qual é para ti o primeiro?!
Chamas o mesmo ao segundo,
Chamas o mesmo ao terceiro!
Ela
O que Deus disse uma vez
Na minh’alma já é velho;
Vai pedir ao Senhor Cura
Que o leia no Evangelho!
...........................................
Uma voz ouve-se ao longe
Que sobe alto, desgarrada:
“Por muito amar, Madalena,
No céu serás perdoada!”
“Ó luar que lindo és,
Luar branco de janeiro!
Não há luar como tu,
Nem amor como o primeiro.”
Ele
Deixa-me rir, ó Maria!
Qual é para ti o primeiro?!
Chamas o mesmo ao segundo,
Chamas o mesmo ao terceiro!
Ela
O que Deus disse uma vez
Na minh’alma já é velho;
Vai pedir ao Senhor Cura
Que o leia no Evangelho!
...........................................
Uma voz ouve-se ao longe
Que sobe alto, desgarrada:
“Por muito amar, Madalena,
No céu serás perdoada!”
3 441
Florbela Espanca
Crisântemos
Sombrios mensageiros das violetas,
De longas e revoltas cabeleiras;
Brancos, sois o casto olhar das virgens
Pálidas que ao luar, sonham nas eiras.
Vermelhos, gargalhadas triunfantes,
Lábios quentes de sonhos e desejos,
Carícias sensuais d’amor e gozo;
Crisântemos de sangue, vós sois beijos!
Os amarelos riem amarguras,
Os roxos dizem prantos e torturas,
Há-os também cor de fogo, sensuais...
Eu amo os crisântemos misteriosos
Por serem lindos, tristes e mimosos,
Por ser a flor de que tu gostas mais!
De longas e revoltas cabeleiras;
Brancos, sois o casto olhar das virgens
Pálidas que ao luar, sonham nas eiras.
Vermelhos, gargalhadas triunfantes,
Lábios quentes de sonhos e desejos,
Carícias sensuais d’amor e gozo;
Crisântemos de sangue, vós sois beijos!
Os amarelos riem amarguras,
Os roxos dizem prantos e torturas,
Há-os também cor de fogo, sensuais...
Eu amo os crisântemos misteriosos
Por serem lindos, tristes e mimosos,
Por ser a flor de que tu gostas mais!
3 586
Ibn Ammar
Do amor
olhai quão grande é o amor apaixonado
que é vício e delícia e fogo ardente.
não busqueis pelo amor um dominado
sede antes escravos pela sua lei
e assim sereis livres finalmente.
disseram: «fez-te o amor sofrer intensamente!»
«me agradam suas penas!» foi o que afirmei.
o coração quis doença p"rò corpo nos vestir
a liberdade da escolha eu lhe outorguei.
censurais-me de emagrecido andar.
mas a excelência d"adaga, a que se resume
senão à finura do seu gume?
troçastes por a amada me deixar
mas a noite derradeira de cada lunação
rouba dos olhares a face do crescente.
pensastes que a brisa da consolação,
como um sono profundo, está presente?
secou-se o amor com o fogo do amor
com ela ficará meu pranto defensor.
como o meu coração se lacerava
quando se inclinava graciosa
e a redenção das madeixas despontava!
a quem foi dado contemplar seu véu
escondendo uma manhã tão luminosa
que abraçava um nocturno céu?
dona da alma do jardim, é terno ramo,
coração de zimbro, corça que eu amo*
o brilho do seu rosto amarfanhava
a própria lua em todo o seu esplendor
e o grasnar dos gansos em redor
era o ornamento que a cercava.
da noite da união nasce o dia enfim
e o odor da volúpia vem a mim.
minhas lágrimas caíram copiosas
sobre o belo jardim daquela face
assim humedecendo suas rosas
até que o destino o desenlace
me fez beber da taça da separação
e me tornei ébrio desde então
que é vício e delícia e fogo ardente.
não busqueis pelo amor um dominado
sede antes escravos pela sua lei
e assim sereis livres finalmente.
disseram: «fez-te o amor sofrer intensamente!»
«me agradam suas penas!» foi o que afirmei.
o coração quis doença p"rò corpo nos vestir
a liberdade da escolha eu lhe outorguei.
censurais-me de emagrecido andar.
mas a excelência d"adaga, a que se resume
senão à finura do seu gume?
troçastes por a amada me deixar
mas a noite derradeira de cada lunação
rouba dos olhares a face do crescente.
pensastes que a brisa da consolação,
como um sono profundo, está presente?
secou-se o amor com o fogo do amor
com ela ficará meu pranto defensor.
como o meu coração se lacerava
quando se inclinava graciosa
e a redenção das madeixas despontava!
a quem foi dado contemplar seu véu
escondendo uma manhã tão luminosa
que abraçava um nocturno céu?
dona da alma do jardim, é terno ramo,
coração de zimbro, corça que eu amo*
o brilho do seu rosto amarfanhava
a própria lua em todo o seu esplendor
e o grasnar dos gansos em redor
era o ornamento que a cercava.
da noite da união nasce o dia enfim
e o odor da volúpia vem a mim.
minhas lágrimas caíram copiosas
sobre o belo jardim daquela face
assim humedecendo suas rosas
até que o destino o desenlace
me fez beber da taça da separação
e me tornei ébrio desde então
1 296
Florbela Espanca
Poder da Graça
Altiva e perfumada em cetinoso trem
Passeia uma mundana à luz da tarde quente,
O seu olhar gelado onde se lê desdém
Passeia pela rua, altivo e insolente.
Para ninguém abaixa o orgulhoso olhar;
Passa o luxo da alta em luminoso traço;
Parece não ouvir da rua o murmurar
Que o seu olhar altivo é sempre triste e baço.
Nem o rir da criança ou o sorrir da luz
Dão vida àquela sombra altiva que seduz
A multidão absorta em roda, a murmurar...
Uma mendiga passa. É ’ma beleza ideal!
Nasceu do seu olhar o céu de Portugal!
...............................................................
Abaixa então a rica o luminoso olhar!
Passeia uma mundana à luz da tarde quente,
O seu olhar gelado onde se lê desdém
Passeia pela rua, altivo e insolente.
Para ninguém abaixa o orgulhoso olhar;
Passa o luxo da alta em luminoso traço;
Parece não ouvir da rua o murmurar
Que o seu olhar altivo é sempre triste e baço.
Nem o rir da criança ou o sorrir da luz
Dão vida àquela sombra altiva que seduz
A multidão absorta em roda, a murmurar...
Uma mendiga passa. É ’ma beleza ideal!
Nasceu do seu olhar o céu de Portugal!
...............................................................
Abaixa então a rica o luminoso olhar!
1 858
Florbela Espanca
Às Mães de Portugal
Ó mães doloridas, celestiais,
Misericordiosas,
Ó mães d’olhos benditos, liriais,
Ó mães piedosas
Calai as vossas mágoas, vossas dores!
Longe na crua guerra
Vossos filhos defendem, vencedores,
A nossa linda terra!
E se eles defendem a bandeira
Da terra que adorais,
Onde viram um dia a luz primeira
Ó mães porque chorais?!
Uma lágrima triste, agora é
Cobardia, fraqueza!
Nos campos de batalha cai de pé
A alma portuguesa!
Pela terra de estrelas e tomilhos,
De sol, e de luar;
Deixai ir combater os vossos filhos
Ao longe, heróis do mar!
Dum português bendito, sem igual
Eu sigo o mesmo trilho:
Por cada pedra deste Portugal
Eu arriscava um filho!
Por isso ó mães doridas, pelo leito
De morte, onde ajoelhais,
Esmagai vossa dor dentro do peito,
Ó mães não choreis mais!
A Pátria rouba os filhos, mas é mãe
A mãe de todos nós
Direito de a trair não tem ninguém
Ó mães nem sequer vós!
Misericordiosas,
Ó mães d’olhos benditos, liriais,
Ó mães piedosas
Calai as vossas mágoas, vossas dores!
Longe na crua guerra
Vossos filhos defendem, vencedores,
A nossa linda terra!
E se eles defendem a bandeira
Da terra que adorais,
Onde viram um dia a luz primeira
Ó mães porque chorais?!
Uma lágrima triste, agora é
Cobardia, fraqueza!
Nos campos de batalha cai de pé
A alma portuguesa!
Pela terra de estrelas e tomilhos,
De sol, e de luar;
Deixai ir combater os vossos filhos
Ao longe, heróis do mar!
Dum português bendito, sem igual
Eu sigo o mesmo trilho:
Por cada pedra deste Portugal
Eu arriscava um filho!
Por isso ó mães doridas, pelo leito
De morte, onde ajoelhais,
Esmagai vossa dor dentro do peito,
Ó mães não choreis mais!
A Pátria rouba os filhos, mas é mãe
A mãe de todos nós
Direito de a trair não tem ninguém
Ó mães nem sequer vós!
3 969
Florbela Espanca
Matei a ilusão
Matei a ilusão dentro de mira
Toda a quimera em mim despedacei
Rosas e lírios tudo arranquei
Do meu tranquilo e plácido jardim
Toda a quimera em mim despedacei
Rosas e lírios tudo arranquei
Do meu tranquilo e plácido jardim
1 613
Florbela Espanca
Com a doçura
Com a doçura de urna linda ave
Bateu as asas brancas e voou.
Era meiga, era pura, era suave
Não viveu! Foi um anjo que passou.
Bateu as asas brancas e voou.
Era meiga, era pura, era suave
Não viveu! Foi um anjo que passou.
1 588
Florbela Espanca
Há nos teus olhos
Há nos teus olhos de dominador,
No teu perfil altivo de romano,
No teu riso de graça e de esplendor
Um misterioso ideal divino e humano.
Cruz de Cristo sangrando sobre o pano
Das velas altas, lá vai, sobre o fragor
Dum mar sereno, cristalino e plano,
A tua barca de conquistador!
Eu quero ir contigo a esses distantes
Reinos! Deixa-me erguer as brancas velas,
Ser um dos teus audazes navegantes!
Meus olhos cegos são dois poços fundos...
— Conta-me o céu! Ensina-me as estrelas!
Mostra-me a estrada dos teus Novos Mundos!
No teu perfil altivo de romano,
No teu riso de graça e de esplendor
Um misterioso ideal divino e humano.
Cruz de Cristo sangrando sobre o pano
Das velas altas, lá vai, sobre o fragor
Dum mar sereno, cristalino e plano,
A tua barca de conquistador!
Eu quero ir contigo a esses distantes
Reinos! Deixa-me erguer as brancas velas,
Ser um dos teus audazes navegantes!
Meus olhos cegos são dois poços fundos...
— Conta-me o céu! Ensina-me as estrelas!
Mostra-me a estrada dos teus Novos Mundos!
1 828
Manuel António Pina
Tanto silêncio
Para cá de mim e para lá de mim, antes e depois.
E entre mim eu, isto é, palavras,
formas indecisas
procurando um eixo que
lhes dê peso, um sentido capaz de conter
a sua inocência,
uma voz (uma palavra) a que se prender
antes de se despedaçarem
contra tanto silêncio.
São elas, as tuas palavras, quem diz "eu";
se tiveres ouvidos suficientemente privados
podes escutar o seu coração
pulsando sob a palavra da tua existência,
entre o para cá de ti e o para lá de ti.
Tu és aquilo que as tuas palavras ouvem,
ouves o teu coração (as tuas palavras "o teu coração")?
Manuel António Pina | "Todas as Palavras - Poesia Reunida (1974 - 2011)", pág. 316 | Assírio & Alvim, Abril 2012
E entre mim eu, isto é, palavras,
formas indecisas
procurando um eixo que
lhes dê peso, um sentido capaz de conter
a sua inocência,
uma voz (uma palavra) a que se prender
antes de se despedaçarem
contra tanto silêncio.
São elas, as tuas palavras, quem diz "eu";
se tiveres ouvidos suficientemente privados
podes escutar o seu coração
pulsando sob a palavra da tua existência,
entre o para cá de ti e o para lá de ti.
Tu és aquilo que as tuas palavras ouvem,
ouves o teu coração (as tuas palavras "o teu coração")?
Manuel António Pina | "Todas as Palavras - Poesia Reunida (1974 - 2011)", pág. 316 | Assírio & Alvim, Abril 2012
1 484
Manuel António Pina
Tanto silêncio
Para cá de mim e para lá de mim, antes e depois.
E entre mim eu, isto é, palavras,
formas indecisas
procurando um eixo que
lhes dê peso, um sentido capaz de conter
a sua inocência,
uma voz (uma palavra) a que se prender
antes de se despedaçarem
contra tanto silêncio.
São elas, as tuas palavras, quem diz "eu";
se tiveres ouvidos suficientemente privados
podes escutar o seu coração
pulsando sob a palavra da tua existência,
entre o para cá de ti e o para lá de ti.
Tu és aquilo que as tuas palavras ouvem,
ouves o teu coração (as tuas palavras "o teu coração")?
Manuel António Pina | "Todas as Palavras - Poesia Reunida (1974 - 2011)", pág. 316 | Assírio & Alvim, Abril 2012
E entre mim eu, isto é, palavras,
formas indecisas
procurando um eixo que
lhes dê peso, um sentido capaz de conter
a sua inocência,
uma voz (uma palavra) a que se prender
antes de se despedaçarem
contra tanto silêncio.
São elas, as tuas palavras, quem diz "eu";
se tiveres ouvidos suficientemente privados
podes escutar o seu coração
pulsando sob a palavra da tua existência,
entre o para cá de ti e o para lá de ti.
Tu és aquilo que as tuas palavras ouvem,
ouves o teu coração (as tuas palavras "o teu coração")?
Manuel António Pina | "Todas as Palavras - Poesia Reunida (1974 - 2011)", pág. 316 | Assírio & Alvim, Abril 2012
1 484
Florbela Espanca
As Quadras D’Ele Iv
[1]
Sou mais infeliz que os pobres
Que têm fome na rua.
Também eu ando faminta
De beijos da boca tua.
[2]
A saudade é tão cruel,
É uma tão profunda dor,
Que em troca eu quisera o fel
Que bebeu Nosso Senhor!
[3]
A tristeza mais amarga,
A mais negra, a mais tristonha,
Dantes, morava em teus olhos
De luz bendita e risonha.
Dava-se mal a tristeza
Com essa luz d’alegria,
Mudou-se então pros meus olhos
Que choram de noite e dia.
[4]
Há uma palavra na terra
Que tem encantos do céu;
Não é amor, nem esperança.
Nem sequer o nome teu.
Essa palavra tão doce,
De tanta suavidade,
Que me faz chorar de dor
Quando a murmuro: é saudade!
[5]
Amor, é comunhão d’almas
No mesmo sagrado altar;
Contigo, amor da minh’alma,
Quem me dera comungar!
[6]
Não julgues tu que m’importo
Quando passas sem me olhar;
Lembra-me logo o ditado:
“Quem desdenha, quer comprar”!
[7]
Parte a minh’alma em pedaços
E atira-os pelo mundo fora;
Pequenas almas que sentem
Como a grande sente agora!
Chega para encher o mundo
O céu, a terra, os espaços,
Estas almas pequeninas,
Estes pequenos pedaços!
Mesmo assim sendo tão grande
Esta alma, ó sonhos meus!
É pequena pra conter
O fulgor dos olhos teus!
[8]
Abaixo sempre os meus olhos
Quando encontro o teu olhar;
De ver o sol de frente
Ninguém se pode gabar!
Sou mais infeliz que os pobres
Que têm fome na rua.
Também eu ando faminta
De beijos da boca tua.
[2]
A saudade é tão cruel,
É uma tão profunda dor,
Que em troca eu quisera o fel
Que bebeu Nosso Senhor!
[3]
A tristeza mais amarga,
A mais negra, a mais tristonha,
Dantes, morava em teus olhos
De luz bendita e risonha.
Dava-se mal a tristeza
Com essa luz d’alegria,
Mudou-se então pros meus olhos
Que choram de noite e dia.
[4]
Há uma palavra na terra
Que tem encantos do céu;
Não é amor, nem esperança.
Nem sequer o nome teu.
Essa palavra tão doce,
De tanta suavidade,
Que me faz chorar de dor
Quando a murmuro: é saudade!
[5]
Amor, é comunhão d’almas
No mesmo sagrado altar;
Contigo, amor da minh’alma,
Quem me dera comungar!
[6]
Não julgues tu que m’importo
Quando passas sem me olhar;
Lembra-me logo o ditado:
“Quem desdenha, quer comprar”!
[7]
Parte a minh’alma em pedaços
E atira-os pelo mundo fora;
Pequenas almas que sentem
Como a grande sente agora!
Chega para encher o mundo
O céu, a terra, os espaços,
Estas almas pequeninas,
Estes pequenos pedaços!
Mesmo assim sendo tão grande
Esta alma, ó sonhos meus!
É pequena pra conter
O fulgor dos olhos teus!
[8]
Abaixo sempre os meus olhos
Quando encontro o teu olhar;
De ver o sol de frente
Ninguém se pode gabar!
1 823
Fernando Pessoa
Segundo: ANTÓNIO VIEIRA
O céu estrela o azul e tem grandeza.
Este, que teve a fama e a glória tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também.
No imenso espaço seu de meditar,
Constelado de forma e de visão,
Surge, prenúncio claro do luar,
El-Rei D. Sebastião.
Mas não, não é luar: é luz do etéreo.
É um dia; e, no céu amplo de desejo,
A madrugada irreal do Quinto Império
Doira as margens do Tejo.
Este, que teve a fama e a glória tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também.
No imenso espaço seu de meditar,
Constelado de forma e de visão,
Surge, prenúncio claro do luar,
El-Rei D. Sebastião.
Mas não, não é luar: é luz do etéreo.
É um dia; e, no céu amplo de desejo,
A madrugada irreal do Quinto Império
Doira as margens do Tejo.
2 494
Florbela Espanca
Súplica
Digo pra mim
Quando ele passa:
Ave-Maria
Cheia de graça!
E quando ainda
Mal posso vê-lo:
Bendito Deus
Como ele é belo!
Embalada num sonho aurifulgente
Sei apenas que sonho vagamente,
Ao avistar, amor, teus olhos belos,
Em castelãs altivas, medievais,
Que choram às janelas ogivais,
Perdidas em românticos castelos!
Quando ele passa:
Ave-Maria
Cheia de graça!
E quando ainda
Mal posso vê-lo:
Bendito Deus
Como ele é belo!
Embalada num sonho aurifulgente
Sei apenas que sonho vagamente,
Ao avistar, amor, teus olhos belos,
Em castelãs altivas, medievais,
Que choram às janelas ogivais,
Perdidas em românticos castelos!
2 337
Florbela Espanca
Num Postal
Luar! Lírio branco que se esfolha...
Neve, que do céu, anda perdida,
Asas leves d’anjo, que pairando,
Reza pela terra adormecida...
Neve, que do céu, anda perdida,
Asas leves d’anjo, que pairando,
Reza pela terra adormecida...
1 963
Florbela Espanca
Num Postal
Luar! Lírio branco que se esfolha...
Neve, que do céu, anda perdida,
Asas leves d’anjo, que pairando,
Reza pela terra adormecida...
Neve, que do céu, anda perdida,
Asas leves d’anjo, que pairando,
Reza pela terra adormecida...
1 963
Florbela Espanca
Cegueira Bendita
Ando perdida nestes Sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tactear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!
Não vejo nada, tudo é morto e vago...
E a minha alma cega, ao abandono
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago
’Stendendo as asas brancas cor do sono...
Ter dentro d’alma a luz de todo o mundo
E não ver nada neste mar sem fundo,
Poetas meus Irmãos, que triste sorte!...
E chamam-nos a nós Iluminados!
Pobres cegos sem culpas, sem pecados
A sofrer pelos outros ’té à morte!
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tactear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!
Não vejo nada, tudo é morto e vago...
E a minha alma cega, ao abandono
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago
’Stendendo as asas brancas cor do sono...
Ter dentro d’alma a luz de todo o mundo
E não ver nada neste mar sem fundo,
Poetas meus Irmãos, que triste sorte!...
E chamam-nos a nós Iluminados!
Pobres cegos sem culpas, sem pecados
A sofrer pelos outros ’té à morte!
2 144
Florbela Espanca
Trazes-me em tuas mãos
Trazes-me em tuas mãos de vitorioso
Todos os bens que a vida me negou,
E todo um roseiral, a abrir, glorioso,
Que a solitária estrada perfumou.
Neste meio-dia límpido, radioso,
Sinto o teu coração que Deus talhou
Num pedaço de bronze luminoso,
Como um berço onde a vida me poisou.
0 silencio, em redor, é urna asa quieta...
E a tua boca que sorri e anseia,
Lembra um cálix de túlipa entreaberta...
Cheira a ervas amargas, cheira a sándalo...
E o meu corpo ondulante de sereia
Dorme em teus braços másculos de vândalo...
Todos os bens que a vida me negou,
E todo um roseiral, a abrir, glorioso,
Que a solitária estrada perfumou.
Neste meio-dia límpido, radioso,
Sinto o teu coração que Deus talhou
Num pedaço de bronze luminoso,
Como um berço onde a vida me poisou.
0 silencio, em redor, é urna asa quieta...
E a tua boca que sorri e anseia,
Lembra um cálix de túlipa entreaberta...
Cheira a ervas amargas, cheira a sándalo...
E o meu corpo ondulante de sereia
Dorme em teus braços másculos de vândalo...
1 659
Fernando Pessoa
Primeiro: D. SEBASTIÃO
Esperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.
Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.
Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.
4 025
Fernando Pessoa
Quem lavra julga que lavra
Quem lavra julga que lavra
Mas quem lavra é o que acontece...
Não me dás uma palavra
E a palavra não me esquece.
Mas quem lavra é o que acontece...
Não me dás uma palavra
E a palavra não me esquece.
1 206
Fernando Pessoa
Já estou tranquilo. Já não espero nada.
Já estou tranquilo. Já não espero nada.
Já sobre meu vazio coração
Desceu a inconsciência abençoada
De nem querer uma ilusão.
Já sobre meu vazio coração
Desceu a inconsciência abençoada
De nem querer uma ilusão.
1 716
Florbela Espanca
As Quadras D’Ele I
[1]
Andam sonhos cor do mar
Nas minhas quadras, imersos,
Se queres comigo sonhar,
Canta baixinho os meus versos.
[2]
Saudades e amarguras
Tenho eu todos os dias,
Não podem pois adejar
Em meus versos, alegrias.
Saudades e amarguras
Tenho eu todas as horas,
Quem noites só conheceu,
Não pode cantar auroras.
[3]
Se é um pecado sonhar
Tenho um pecado na vida,
Peço a Deus por tal pecado
A penitência merecida.
Quando o meu sonho morrer
(Que penitência tão dura!)
Vá encontrar em teu peito
Carinhosa sepultura.
[4]
Onde estás ó meu amor,
Que te não vejo apar’cer?
Para que quero eu os olhos
Se não servem pra te ver?
Que m’importa a luz suave
Dos olhos que o mundo tem?
Não posso ver os teus olhos
Não quero ver os de ninguém.
[5]
Tens um coração de pedra
Dentro dum peito de lama
Pois nem sabes distinguir
Quem te odeia ou quem te ama.
Por uma que te despreza,
Teu coração endoidece,
E a pobre que te quer bem
Só teus desprezos merece!
[6]
Desde que o meu bem partiu
Parecem outras as cousas;
Até as pedras da rua
Têm aspectos de lousas!
Quando por acaso as piso,
Perturba-me um tal mistério!...
Como se pisasse à noite
As pedras dum cemitério...
[7]
Teus olhos têm uma cor
Duma expressão tão divina,
Tão misteriosa, tão triste,
Como foi a minha sina.
É uma expressão de saudade
Vogando num mar incerto.
Parecem negros de longe,
Parecem azuis de perto.
Mas nem negros nem azuis
São teus olhos, meu amor,
Seriam da cor da mágoa
Se a mágoa tivesse cor!
[8]
Nem o perfume dos cravos,
Nem a cor das violetas,
Nem o brilho das estrelas,
Nem o sonhar dos poetas,
Pode igualar a beleza
Da primorosa flor,
Que abre na tua boca
O teu riso encantador.
[9]
Levanta os olhos do chão,
Olha de frente pra mim
Fingindo tanto desprezo,
Que podes ganhar assim?
Não andes tão distraído,
Contando as pedras da rua,
Não sei pra que finges tanto...
Tu és meu e eu sou tua...
Levanta os olhos do chão.
Que podes ganhar assim?
Se Deus nos fez um pro outro,
Para que foges de mim?!
[10]
Coveiros, sombrios, desgrenhados,
Fazei-me depressa a cova,
Quero enterrar minha dor
Quero enterrar-me assim nova.
Coveiros, só o corpo é novo,
Que há poucos anos nasceu;
Fazei-me depressa a cova
Que a minha alma morreu.
[11]
Amar a quem nos despreza
É sina que a gente tem;
Eu desprezo quem m’odeia
E adoro quem me quer bem.
[12]
Ai, tirem-me o coração
Que o tenho todo desfeito!
Cada pedaço um punhal
Que trago dentro do peito.
[13]
Eu quero viver contigo
Muito juntinhos os dois
O tempo que dura um beijo,
Embora eu morra depois.
[14]
Meu coração é ruína
Caindo todo a pedaços,
Oh, dai-lhe a hera piedosa
Bendita desses teus braços!
[15]
Quando fito o teu olhar
Tão frio e tão indiferente,
Fico a chorar um amor
Que o teu coração não sente.
[16]
O fado não é da terra,
O fado criou-o Deus,
O fado é andar doidinha
Perdida p’los olhos teus.
[17]
Esmaguei meu coração
Para o triste te esquecer,
Mas ao sentir os teus passos,
Põe-se a bater... a bater...
[18]
Andam pombas assustadas
No teu olhar, adejando,
Mal sentem os meus olhos,
Batem as asas, voando.
[19]
Há sonhos que ao enterrar-se,
Levam dentro do caixão,
Bocados da nossa alma,
Pedaços de coração!
Andam sonhos cor do mar
Nas minhas quadras, imersos,
Se queres comigo sonhar,
Canta baixinho os meus versos.
[2]
Saudades e amarguras
Tenho eu todos os dias,
Não podem pois adejar
Em meus versos, alegrias.
Saudades e amarguras
Tenho eu todas as horas,
Quem noites só conheceu,
Não pode cantar auroras.
[3]
Se é um pecado sonhar
Tenho um pecado na vida,
Peço a Deus por tal pecado
A penitência merecida.
Quando o meu sonho morrer
(Que penitência tão dura!)
Vá encontrar em teu peito
Carinhosa sepultura.
[4]
Onde estás ó meu amor,
Que te não vejo apar’cer?
Para que quero eu os olhos
Se não servem pra te ver?
Que m’importa a luz suave
Dos olhos que o mundo tem?
Não posso ver os teus olhos
Não quero ver os de ninguém.
[5]
Tens um coração de pedra
Dentro dum peito de lama
Pois nem sabes distinguir
Quem te odeia ou quem te ama.
Por uma que te despreza,
Teu coração endoidece,
E a pobre que te quer bem
Só teus desprezos merece!
[6]
Desde que o meu bem partiu
Parecem outras as cousas;
Até as pedras da rua
Têm aspectos de lousas!
Quando por acaso as piso,
Perturba-me um tal mistério!...
Como se pisasse à noite
As pedras dum cemitério...
[7]
Teus olhos têm uma cor
Duma expressão tão divina,
Tão misteriosa, tão triste,
Como foi a minha sina.
É uma expressão de saudade
Vogando num mar incerto.
Parecem negros de longe,
Parecem azuis de perto.
Mas nem negros nem azuis
São teus olhos, meu amor,
Seriam da cor da mágoa
Se a mágoa tivesse cor!
[8]
Nem o perfume dos cravos,
Nem a cor das violetas,
Nem o brilho das estrelas,
Nem o sonhar dos poetas,
Pode igualar a beleza
Da primorosa flor,
Que abre na tua boca
O teu riso encantador.
[9]
Levanta os olhos do chão,
Olha de frente pra mim
Fingindo tanto desprezo,
Que podes ganhar assim?
Não andes tão distraído,
Contando as pedras da rua,
Não sei pra que finges tanto...
Tu és meu e eu sou tua...
Levanta os olhos do chão.
Que podes ganhar assim?
Se Deus nos fez um pro outro,
Para que foges de mim?!
[10]
Coveiros, sombrios, desgrenhados,
Fazei-me depressa a cova,
Quero enterrar minha dor
Quero enterrar-me assim nova.
Coveiros, só o corpo é novo,
Que há poucos anos nasceu;
Fazei-me depressa a cova
Que a minha alma morreu.
[11]
Amar a quem nos despreza
É sina que a gente tem;
Eu desprezo quem m’odeia
E adoro quem me quer bem.
[12]
Ai, tirem-me o coração
Que o tenho todo desfeito!
Cada pedaço um punhal
Que trago dentro do peito.
[13]
Eu quero viver contigo
Muito juntinhos os dois
O tempo que dura um beijo,
Embora eu morra depois.
[14]
Meu coração é ruína
Caindo todo a pedaços,
Oh, dai-lhe a hera piedosa
Bendita desses teus braços!
[15]
Quando fito o teu olhar
Tão frio e tão indiferente,
Fico a chorar um amor
Que o teu coração não sente.
[16]
O fado não é da terra,
O fado criou-o Deus,
O fado é andar doidinha
Perdida p’los olhos teus.
[17]
Esmaguei meu coração
Para o triste te esquecer,
Mas ao sentir os teus passos,
Põe-se a bater... a bater...
[18]
Andam pombas assustadas
No teu olhar, adejando,
Mal sentem os meus olhos,
Batem as asas, voando.
[19]
Há sonhos que ao enterrar-se,
Levam dentro do caixão,
Bocados da nossa alma,
Pedaços de coração!
3 159
Florbela Espanca
Errante
Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando,
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.
Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta
Vai procurar o Paço da Ventura...
Meu coração não chega lá decerto...
Não conhece o caminho nem o trilho,
Nem há memória desse sítio incerto...
Eu tecerei uns sonhos irreais...
Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais!...
Rasga a mortalha do meu peito brando,
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.
Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta
Vai procurar o Paço da Ventura...
Meu coração não chega lá decerto...
Não conhece o caminho nem o trilho,
Nem há memória desse sítio incerto...
Eu tecerei uns sonhos irreais...
Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais!...
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Florbela Espanca
A Uma Saudade
Roxa saudade, roxa! Triste... Triste!...
Um doce olhar aveludado e puro
Fazes surgir do meu passado escuro,
Na mesma dor imensa em que surgiste!
És cinza dum amor que Não existe!
Evocas na minh’alma o que murmuro
Sem saber o que, o que procuro
Na minha vida amargamente triste!
Roxa saudade, és um soluço imenso!
O símbolo de tudo quanto penso!
Única luz de tudo quanto eu vejo!
Roxa saudade! Ó meu perfume leve
És um amor que se esqueceu tão breve,
Que nem durou o frémito dum beijo...
Um doce olhar aveludado e puro
Fazes surgir do meu passado escuro,
Na mesma dor imensa em que surgiste!
És cinza dum amor que Não existe!
Evocas na minh’alma o que murmuro
Sem saber o que, o que procuro
Na minha vida amargamente triste!
Roxa saudade, és um soluço imenso!
O símbolo de tudo quanto penso!
Única luz de tudo quanto eu vejo!
Roxa saudade! Ó meu perfume leve
És um amor que se esqueceu tão breve,
Que nem durou o frémito dum beijo...
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