Poemas neste tema
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Roberto Pontes
E O Verbo Se Fez Carne
por Margarida Maria Moreira Rodrigues
Verbalizar é transformar o inexistente, o abstrato e o vago em matéria viva e pulsante. Não foi dessa forma que Deus criou o mundo e os homens? O homem é linguagem. É preciso atribuir sentido ao desconhecido e angustiante mundo que o abarca e, ao mesmo tempo, o liberta. Como bem assinalou Wilhelm von Humboldt: "O homem vive com seus objetos relação fundamental, tal como a linguagem lhos apresenta, pois nele o sentir e o atuar dependem de suas representações."
A poesia não é nada senão uma das tantas tentativas desesperadas de ordenar e significar o mundo. Nos versos de Verbo Encarnado, podemos vislumbrar essa tentativa desesperada de compreender o homem e o mundo:
Que sentido tem o céu?
Tingir os olhos de azul.
Deixar voar qualquer asa.
[...]
Que sentido tem o homem?
[...]
Homem, o homem terá sentido?
(VE, p. 41)
No entanto, o Verbo não se limita apenas a construir uma semântica da vida. Ele também se torna um eficaz instrumento de denúncia, uma arma que tem por objetivo o lançar-se e ferir as consciências:
A palavra há de trazer
o peso do chumbo
a quentura
a explosão do peito
enquanto o amor
não for reconhecido.
(VE, p. 21)
A poesia de Roberto Pontes vergasta e acalenta. A leitura de cada verso perpassa paradoxalmente o desconforto e o consolo. Há uma crítica mordaz a todo tipo de opressão e de miséria. Quando o poeta se apropria da gemedeira – forma popular nordestina – é evidente que sua intenção além de valorizar a cultura do Nordeste – é a de colocar em foco a condição miserável das vendedoras de flores do Ceará. Assim, a gemedeira representa a dor e o sofrimento dessas mulheres. E o que aparece de mais belo no lamento da florista é a maneira como seu trabalho é descrito:
Florista fabrica flores
e seu ritual de rua
é um bailado sem som
um triste cantar de loa...
(VE, p. 31)
A poesia oferece ao leitor a imagem triste dessas singulares mulheres que são tão frágeis e belas quanto as flores que produzem. Nesse momento, a sensação de desconforto é inevitável: o leitor não consegue permanecer isento de certa culpa. Entretanto, logo em seguida, após a chamada de consciência para os problemas sociais, o poeta vem afagar e consolar o leitor, porque o sonho ainda é possível: "o amanhã é sempre diferente" (VE, p. 55):
Não desesperes nunca.
A vida é asssim mesmo.
Um dia para a dor
Um outro pra esperança.
(VE, p. 55)
O poeta acredita que o mundo possa renascer, mas, antes de tudo, deve "merecer o flagelo". Somente a dor é capaz de libertar o homem dos mecanismos de opressão que ele próprio constrói. Para isso importa desconstruir o mundo para reconstruí-lo, de tal modo, que o homem, em sua breve existência reconheça a relevância de transformar a sociedade, a fim de que a felicidade não seja somente privilégio de poucos que detêm o poder pelo poder – como nos admoesta Aristóteles – e sim patrimônio dos corações mais puros e das inteligências mais brilhantes.
MARGARIDA MARIA MOREIRA RODRIGUES é do Curso de Letras
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro–UERJ. Participa do
Núcleo de Literatura Comparada e colabora no jornal Comunicando
do Instituto de Letras da mesma Instituição.
Verbalizar é transformar o inexistente, o abstrato e o vago em matéria viva e pulsante. Não foi dessa forma que Deus criou o mundo e os homens? O homem é linguagem. É preciso atribuir sentido ao desconhecido e angustiante mundo que o abarca e, ao mesmo tempo, o liberta. Como bem assinalou Wilhelm von Humboldt: "O homem vive com seus objetos relação fundamental, tal como a linguagem lhos apresenta, pois nele o sentir e o atuar dependem de suas representações."
A poesia não é nada senão uma das tantas tentativas desesperadas de ordenar e significar o mundo. Nos versos de Verbo Encarnado, podemos vislumbrar essa tentativa desesperada de compreender o homem e o mundo:
Que sentido tem o céu?
Tingir os olhos de azul.
Deixar voar qualquer asa.
[...]
Que sentido tem o homem?
[...]
Homem, o homem terá sentido?
(VE, p. 41)
No entanto, o Verbo não se limita apenas a construir uma semântica da vida. Ele também se torna um eficaz instrumento de denúncia, uma arma que tem por objetivo o lançar-se e ferir as consciências:
A palavra há de trazer
o peso do chumbo
a quentura
a explosão do peito
enquanto o amor
não for reconhecido.
(VE, p. 21)
A poesia de Roberto Pontes vergasta e acalenta. A leitura de cada verso perpassa paradoxalmente o desconforto e o consolo. Há uma crítica mordaz a todo tipo de opressão e de miséria. Quando o poeta se apropria da gemedeira – forma popular nordestina – é evidente que sua intenção além de valorizar a cultura do Nordeste – é a de colocar em foco a condição miserável das vendedoras de flores do Ceará. Assim, a gemedeira representa a dor e o sofrimento dessas mulheres. E o que aparece de mais belo no lamento da florista é a maneira como seu trabalho é descrito:
Florista fabrica flores
e seu ritual de rua
é um bailado sem som
um triste cantar de loa...
(VE, p. 31)
A poesia oferece ao leitor a imagem triste dessas singulares mulheres que são tão frágeis e belas quanto as flores que produzem. Nesse momento, a sensação de desconforto é inevitável: o leitor não consegue permanecer isento de certa culpa. Entretanto, logo em seguida, após a chamada de consciência para os problemas sociais, o poeta vem afagar e consolar o leitor, porque o sonho ainda é possível: "o amanhã é sempre diferente" (VE, p. 55):
Não desesperes nunca.
A vida é asssim mesmo.
Um dia para a dor
Um outro pra esperança.
(VE, p. 55)
O poeta acredita que o mundo possa renascer, mas, antes de tudo, deve "merecer o flagelo". Somente a dor é capaz de libertar o homem dos mecanismos de opressão que ele próprio constrói. Para isso importa desconstruir o mundo para reconstruí-lo, de tal modo, que o homem, em sua breve existência reconheça a relevância de transformar a sociedade, a fim de que a felicidade não seja somente privilégio de poucos que detêm o poder pelo poder – como nos admoesta Aristóteles – e sim patrimônio dos corações mais puros e das inteligências mais brilhantes.
MARGARIDA MARIA MOREIRA RODRIGUES é do Curso de Letras
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro–UERJ. Participa do
Núcleo de Literatura Comparada e colabora no jornal Comunicando
do Instituto de Letras da mesma Instituição.
1 473
Renato Russo
Um dia perfeito
Quase morri
Há menos de trinta e duas horas atrás
Hoje a gente fica na varanda
Um dia perfeito com as crianças
São as pequenas coisas que valem mais
É tão bom estarmos juntos
E tão simples: um dia perfeito
Corre corre corre
Que vai chover
Olha a chuva !
Não vou me deixar embrutecer
Eu acredito nos meus ideais
Podem até maltratar meu coração
Que meu espírito
Ninguém vai conseguir quebrar
Há menos de trinta e duas horas atrás
Hoje a gente fica na varanda
Um dia perfeito com as crianças
São as pequenas coisas que valem mais
É tão bom estarmos juntos
E tão simples: um dia perfeito
Corre corre corre
Que vai chover
Olha a chuva !
Não vou me deixar embrutecer
Eu acredito nos meus ideais
Podem até maltratar meu coração
Que meu espírito
Ninguém vai conseguir quebrar
1 320
Roberto Pontes
Poema de Descrença
Não acredito no poeta banqueiro
E ainda menos no poeta bancário
Ambos se estragam
O primeiro por muito, o outro
Por pouquíssimo dinheiro
E mal assim começa a vida acaba
Não confio no poeta banqueiro
Porque camufla na palavra sonho
As moedas que a caixa-forte guarda
E onde ele escreve a palavra amor
Esta vai ditada pelos cifrões do subconsciente
Não confio no poeta bancário
Pois seu emprego, afinal, é tudo
E quando quer dizer que é explorado
Esquece das palavras, perde a fala
E a poesia no tampo de sua mesa vai sacrificada
Por isso, meus amigos
O cavalo Pegasus não lambe o ouro de Midas
O ouro, todos sabem, não voa
Mas o cavalo, sim, porque tem duas asas
Para fugir das operações de crédito e usura
E ainda menos no poeta bancário
Ambos se estragam
O primeiro por muito, o outro
Por pouquíssimo dinheiro
E mal assim começa a vida acaba
Não confio no poeta banqueiro
Porque camufla na palavra sonho
As moedas que a caixa-forte guarda
E onde ele escreve a palavra amor
Esta vai ditada pelos cifrões do subconsciente
Não confio no poeta bancário
Pois seu emprego, afinal, é tudo
E quando quer dizer que é explorado
Esquece das palavras, perde a fala
E a poesia no tampo de sua mesa vai sacrificada
Por isso, meus amigos
O cavalo Pegasus não lambe o ouro de Midas
O ouro, todos sabem, não voa
Mas o cavalo, sim, porque tem duas asas
Para fugir das operações de crédito e usura
1 060
Roberto Pontes
A Flor Anídrica
A Mirtes Brígido Machado
Por quem bate o coração da amiga
Já esquecida das pecas pétalas
A dessangrada papoula entre grafemas
Na revista contendo manchas pardas?
Ser vivo ainda? Borboleta ou forma?
Que importa o dobre de um sino
Abafado, ao rés do lado esquerdo?
Ter-se exaurido a força em certas mãos
Se o corpo frágil, os olhos da menina
São estampa que nunca se desfaz?
Horizontalizada, resguarda os segredos
Talvez de múmia, inseto ou arabesco
Discreto modo de assim permanecer
Ali imóvel, a marca de um momento
A sensação, impulso terno, gesto
De preservar a vida em tempo breve
A mão que o pôs ali.
Por quem pulsa o coração que esquece?
Bate pela flor? Ou sua ausência?
(De A Poesia Cearense no Século XX [Org. Assis Brasil]. Rio de Janeiro: 1996)
Por quem bate o coração da amiga
Já esquecida das pecas pétalas
A dessangrada papoula entre grafemas
Na revista contendo manchas pardas?
Ser vivo ainda? Borboleta ou forma?
Que importa o dobre de um sino
Abafado, ao rés do lado esquerdo?
Ter-se exaurido a força em certas mãos
Se o corpo frágil, os olhos da menina
São estampa que nunca se desfaz?
Horizontalizada, resguarda os segredos
Talvez de múmia, inseto ou arabesco
Discreto modo de assim permanecer
Ali imóvel, a marca de um momento
A sensação, impulso terno, gesto
De preservar a vida em tempo breve
A mão que o pôs ali.
Por quem pulsa o coração que esquece?
Bate pela flor? Ou sua ausência?
(De A Poesia Cearense no Século XX [Org. Assis Brasil]. Rio de Janeiro: 1996)
921
Roberto Pontes
Pequenina e Frágil
Para Beth.
Porque és tão pequenina e frágil
És bela e me dás o sonho
Da trêmula luz de uma vela.
Te amo entre os lençóis na cama
As palavras do dicionário
O vento que assusta os coqueiros
E a esmeralda líquida do oceano.
E de manhã, quando na palha canta a primavera
É como se teu corpo modulasse para mim
E invadisse meu coração com as águas da felicidade.
Porque és tão pequenina e frágil
És bela e me dás o sonho
Da trêmula luz de uma vela.
Te amo entre os lençóis na cama
As palavras do dicionário
O vento que assusta os coqueiros
E a esmeralda líquida do oceano.
E de manhã, quando na palha canta a primavera
É como se teu corpo modulasse para mim
E invadisse meu coração com as águas da felicidade.
1 033
Renata Trocoli
Sem Titulo VI
É engraçado como a amizade
pode mudar as coisas.
A amizade chegou toda meiguinha, sorridente.
E não é que era amizade verdadeira!?
Veio devagarinho,
chegou para mim com jeitinho carinhoso
e olharzinho meio perdido, seguro e inseguro.
Mas com sorriso maroto.
Andou até mim e entrou mais uma vez,
mas dessa vez foi para ficar.
Essa amizade substitui um amor perdido,
supera uma dor aguda
e cura desilusões profundas...
Porque é simplesmente amizade verdadeira,
que vem do coração sem pedir nada,
sem exigir nada.
Quem sabe apenas um sorriso sincero
e um aperto de mão.
Talvez uma abraço, uma ombro,
um carinho, amor de irmão.
Amizade é assim.
Vem, fica e ilumina.
Com apenas um olhar
e um esboço de sorriso.
Assim a amizade cativa
e dura até o fim da vida.
pode mudar as coisas.
A amizade chegou toda meiguinha, sorridente.
E não é que era amizade verdadeira!?
Veio devagarinho,
chegou para mim com jeitinho carinhoso
e olharzinho meio perdido, seguro e inseguro.
Mas com sorriso maroto.
Andou até mim e entrou mais uma vez,
mas dessa vez foi para ficar.
Essa amizade substitui um amor perdido,
supera uma dor aguda
e cura desilusões profundas...
Porque é simplesmente amizade verdadeira,
que vem do coração sem pedir nada,
sem exigir nada.
Quem sabe apenas um sorriso sincero
e um aperto de mão.
Talvez uma abraço, uma ombro,
um carinho, amor de irmão.
Amizade é assim.
Vem, fica e ilumina.
Com apenas um olhar
e um esboço de sorriso.
Assim a amizade cativa
e dura até o fim da vida.
850
Raul Seixas
Óculos Escuros
Esta luz tá muito forte
Tenho medo de cegar
Os meus olhos tão manchados
Com teus raios de luar
Eu deixei a vela acesa
Para a bruxa não voltar
Acendi a luz de dia
Para a noite não chiar
Já bebi daquela água
Quero agora vomitar
Uma vez a gente aceita
Duas tem que reclamar
A serpente está na terra
O programa está no ar
Vim de longe, de outra terra
Pra mirder teu calcanhar
Esta noite eu tive um sonho
Eu queria me matar
Com dois galos a galinha não tem tempo de chocar
Tanto pé na nossa frente que não sabe como andar
Quem não tem colírio usa óculos escuros
Quem não tem papel dá recado pelo muro
Quem não tem presente se conforma com o futuro!
Tenho medo de cegar
Os meus olhos tão manchados
Com teus raios de luar
Eu deixei a vela acesa
Para a bruxa não voltar
Acendi a luz de dia
Para a noite não chiar
Já bebi daquela água
Quero agora vomitar
Uma vez a gente aceita
Duas tem que reclamar
A serpente está na terra
O programa está no ar
Vim de longe, de outra terra
Pra mirder teu calcanhar
Esta noite eu tive um sonho
Eu queria me matar
Com dois galos a galinha não tem tempo de chocar
Tanto pé na nossa frente que não sabe como andar
Quem não tem colírio usa óculos escuros
Quem não tem papel dá recado pelo muro
Quem não tem presente se conforma com o futuro!
1 779
Roberto Pontes
Verbo Encarnado e seu Autor
por Elizabeth Dias Martins
Verbo Encarnado é o quarto livro de poemas de Roberto Pontes, que já publicou Contracanto (Fortaleza: SIN Edições, 1968), Lições de Espaço (Fortaleza: Imprensa Universitária, 1970) e Memória Corporal (Rio: Edições Antares, 1982).
Verbo Encarnado vem a público quatorze anos após seu último livro, apesar de anunciado desde 1976, no extinto Jornal de Letras, em coluna assinada por Pedro Lyra.
Os poemas reunidos em Verbo Encarnado são antecedidos de prefácio escrito pelo poeta Moacyr Félix, e apresentados, nas abas, por texto assinado pelo poeta-crítico Fernando Py, da geração 60.
O livro contém cinqüenta e nove poemas e mais a tradução francesa de "Os ausentes" feita pelos frades do convento de La Tourette, Lyon, que acolheram Frei Tito de Alencar Lima, quando de seu exílio, e a quem os versos são dedicados.
Todos os poemas do livro são de natureza política, em parte dedicados a vergastar a tirania dos regimes de exceção, em parte para registrar e denunciar as mazelas universais que intranqüilizam o homem. Poemas circunstanciais e datados, é certo, mas realizados com muita habilidade técnica, o que os faz transcender o reles plano do panfletarismo, como ressaltaram Moacyr Félix e Fernando Py. O volume se encerra com notas posteriores, do próprio A., nas quais o leitor pode informar-se acerca da gênese textual e do fato histórico motivador de cada peça.
RP tem uma proposta criativa que fecha agora seu primeiro ciclo. Seu livro de estréia continha três vertentes: a lírica, a experimental e a política. O segundo, ganhador do "Prêmio Universidade Federal do Ceará", desenvolveu linguagem experimental, recolhendo as contribuições do que se convencionou chamar "vanguarda". O terceiro, trabalho inteiramente lírico, é marcado por intensa carga de erotismo já ressaltada por Lúcia Helena e Carlos d’Alge. Por sua vez, Verbo Encarnado realiza exclusivamente a última diretriz do citado ciclo.
A retomada da proposta criativa do A. já está definida. Ainda em 1996 será publicado Tempo Único & Os Movimentos de Chronos, retorno e ao mesmo tempo avanço na poetização de uma categoria, a exemplo do que fez em Lições de Espaço.
Nascido em 1944, RP é ex-militante da Juventude Estudantil Católica-JEC e da Ação Popular-AP. Enquadrado na Lei de Segurança Nacional, respondeu a IPM durante o regime de exceção em 1964. Foi integrante da Comissão de Direitos Humanos da OAB-Ce., Vice-Presidente do Centro Brasil Democrático-Ce., e um dos fundadores do PT no Brasil e em seu Estado.
Cursou Direito (1969), Mestrado em Literatura Brasileira (1991), na UFC, e cursa o Doutorado em Literaturas de Língua Portuguesa na PUC-Rio. É professor de Literatura Portuguesa da UFC. A convite da Fundação Biblioteca Nacional, tem ministrado oficinas de poesia para quem já se dedica ao gênero.
Colaborou em revistas como Encontros com a Civilização Brasileira, Tempo Brasileiro, Vozes e, na imprensa, com o Jornal de Letras (RJ), Suplemento Literário Minas Gerais (BH) e Correio das Artes (PB). Atualmente, vem colaborando com as revistas Poesia Sempre (RJ) e Brazilian Book Magazine (RJ), ambas da Fundação Biblioteca Nacional e com o jornal Poiésis Literatura (Petrópolis).
O A. foi traduzido para o francês e o espanhol e participa de oito antologias, dentre as quais, SINCRETISMO: A poesia da geração 60, organizada por Pedro Lyra, figurando ao lado de Mário Faustino, Marly de Oliveira, Carlos Nejar, Fernando Py, Ivan Junqueira, Neide Archanjo, Affonso Romano de Sant’anna, Cláudio Murilo, Olga Savary, Carlos Lima, Lindolf Bell, Astrid Cabral, Orides Fontela, Sérgio de Castro Pinto, entre outros.
ELIZABETH DIAS MARTINS é Mestre em Literatura Brasileira/UFC
e doutoranda em Literaturas de Língua Portuguesa /PUC-Rio.
Foi professora de Literatura Portuguesa na Universidade Federal
do Ceará. Atualmente ministra Oficina de Interpretação Literária na
Fundação Biblioteca Nacional (RJ).
Verbo Encarnado é o quarto livro de poemas de Roberto Pontes, que já publicou Contracanto (Fortaleza: SIN Edições, 1968), Lições de Espaço (Fortaleza: Imprensa Universitária, 1970) e Memória Corporal (Rio: Edições Antares, 1982).
Verbo Encarnado vem a público quatorze anos após seu último livro, apesar de anunciado desde 1976, no extinto Jornal de Letras, em coluna assinada por Pedro Lyra.
Os poemas reunidos em Verbo Encarnado são antecedidos de prefácio escrito pelo poeta Moacyr Félix, e apresentados, nas abas, por texto assinado pelo poeta-crítico Fernando Py, da geração 60.
O livro contém cinqüenta e nove poemas e mais a tradução francesa de "Os ausentes" feita pelos frades do convento de La Tourette, Lyon, que acolheram Frei Tito de Alencar Lima, quando de seu exílio, e a quem os versos são dedicados.
Todos os poemas do livro são de natureza política, em parte dedicados a vergastar a tirania dos regimes de exceção, em parte para registrar e denunciar as mazelas universais que intranqüilizam o homem. Poemas circunstanciais e datados, é certo, mas realizados com muita habilidade técnica, o que os faz transcender o reles plano do panfletarismo, como ressaltaram Moacyr Félix e Fernando Py. O volume se encerra com notas posteriores, do próprio A., nas quais o leitor pode informar-se acerca da gênese textual e do fato histórico motivador de cada peça.
RP tem uma proposta criativa que fecha agora seu primeiro ciclo. Seu livro de estréia continha três vertentes: a lírica, a experimental e a política. O segundo, ganhador do "Prêmio Universidade Federal do Ceará", desenvolveu linguagem experimental, recolhendo as contribuições do que se convencionou chamar "vanguarda". O terceiro, trabalho inteiramente lírico, é marcado por intensa carga de erotismo já ressaltada por Lúcia Helena e Carlos d’Alge. Por sua vez, Verbo Encarnado realiza exclusivamente a última diretriz do citado ciclo.
A retomada da proposta criativa do A. já está definida. Ainda em 1996 será publicado Tempo Único & Os Movimentos de Chronos, retorno e ao mesmo tempo avanço na poetização de uma categoria, a exemplo do que fez em Lições de Espaço.
Nascido em 1944, RP é ex-militante da Juventude Estudantil Católica-JEC e da Ação Popular-AP. Enquadrado na Lei de Segurança Nacional, respondeu a IPM durante o regime de exceção em 1964. Foi integrante da Comissão de Direitos Humanos da OAB-Ce., Vice-Presidente do Centro Brasil Democrático-Ce., e um dos fundadores do PT no Brasil e em seu Estado.
Cursou Direito (1969), Mestrado em Literatura Brasileira (1991), na UFC, e cursa o Doutorado em Literaturas de Língua Portuguesa na PUC-Rio. É professor de Literatura Portuguesa da UFC. A convite da Fundação Biblioteca Nacional, tem ministrado oficinas de poesia para quem já se dedica ao gênero.
Colaborou em revistas como Encontros com a Civilização Brasileira, Tempo Brasileiro, Vozes e, na imprensa, com o Jornal de Letras (RJ), Suplemento Literário Minas Gerais (BH) e Correio das Artes (PB). Atualmente, vem colaborando com as revistas Poesia Sempre (RJ) e Brazilian Book Magazine (RJ), ambas da Fundação Biblioteca Nacional e com o jornal Poiésis Literatura (Petrópolis).
O A. foi traduzido para o francês e o espanhol e participa de oito antologias, dentre as quais, SINCRETISMO: A poesia da geração 60, organizada por Pedro Lyra, figurando ao lado de Mário Faustino, Marly de Oliveira, Carlos Nejar, Fernando Py, Ivan Junqueira, Neide Archanjo, Affonso Romano de Sant’anna, Cláudio Murilo, Olga Savary, Carlos Lima, Lindolf Bell, Astrid Cabral, Orides Fontela, Sérgio de Castro Pinto, entre outros.
ELIZABETH DIAS MARTINS é Mestre em Literatura Brasileira/UFC
e doutoranda em Literaturas de Língua Portuguesa /PUC-Rio.
Foi professora de Literatura Portuguesa na Universidade Federal
do Ceará. Atualmente ministra Oficina de Interpretação Literária na
Fundação Biblioteca Nacional (RJ).
1 162
Renata Trocoli
Teu Amor
Como uma luz aquecida e suave
Senti teu amor chegando para me presentear.
Teus olhos transmitem carinho.
Tua boca me fala de mansinho
tudo que eu sempre quis escutar.
Tuas m2os me tocam com ternura,
meu rosto, meus cabelos, minhas m2os.
Teu doce beijo acaricia meus l5bios
com teus olhos fixos aos meus.
Esse amor 0 novo e puro.
Chegou devagar, me conquistou com ternura.
Tu me envolves com teus abraTos
apertados e amorosos.
E me enche de medo de perder-te ainda mais uma vez.
Perder teus carinhos,
teus olhares,
tua boca,
tuas palavras
e teu amor ...
Amor este que me renova a alma,
e me d5 esperanTas de viver alegre
e sonhando sempre com tua doce presenTa.
A vida nem sempre atende nossos pedidos
de amor e felicidade.
Mas peTo com todo coraT2o que ela me abenToe
com tua presenTa a meu lado sempre.
Me dando carinho e um amor t2o puro
e doce que sentimentos juntos dentro de nossos coraTes.
Este amor vem de longe,
vem do alto e 0 benT2o dos c0us.
+ perfeito e verdadeiro,
0 sentimento que n2o se sente por qualquer um,
que n2o brinca com o coraT2o
mas que envolve a alma e o corpo
como brisa suave e morna que sopra do mar.
Senti teu amor chegando para me presentear.
Teus olhos transmitem carinho.
Tua boca me fala de mansinho
tudo que eu sempre quis escutar.
Tuas m2os me tocam com ternura,
meu rosto, meus cabelos, minhas m2os.
Teu doce beijo acaricia meus l5bios
com teus olhos fixos aos meus.
Esse amor 0 novo e puro.
Chegou devagar, me conquistou com ternura.
Tu me envolves com teus abraTos
apertados e amorosos.
E me enche de medo de perder-te ainda mais uma vez.
Perder teus carinhos,
teus olhares,
tua boca,
tuas palavras
e teu amor ...
Amor este que me renova a alma,
e me d5 esperanTas de viver alegre
e sonhando sempre com tua doce presenTa.
A vida nem sempre atende nossos pedidos
de amor e felicidade.
Mas peTo com todo coraT2o que ela me abenToe
com tua presenTa a meu lado sempre.
Me dando carinho e um amor t2o puro
e doce que sentimentos juntos dentro de nossos coraTes.
Este amor vem de longe,
vem do alto e 0 benT2o dos c0us.
+ perfeito e verdadeiro,
0 sentimento que n2o se sente por qualquer um,
que n2o brinca com o coraT2o
mas que envolve a alma e o corpo
como brisa suave e morna que sopra do mar.
1 007
Renata Trocoli
Sem Titulo VII
Meu coração se despedaça...
Desta vez a dor é ainda mais aguda,
pois você me deu a esperança de uma nova vida...
Teu amor foi novo e
a coisa mais doce que eu podia sentir.
Seus lábios e suas mãos
me tocavam com carinho e ternura
que só você tinha...
só você tinha o poder de me alegrar e fazer palpitar
meu tão sensível e triste coração...
Com você longe de mim
me sinto mais uma vez perdida e solitária...
totalmente confusa e sem rumo.
Sem motivação para seguir meu caminho sozinha...
Sinto como se tivessem arrancado se aviso
meu bem mais precioso e amado...
Como se me tivessem roubado você de mim meu amor,
como se no caminho não existisse mais luz nem sentido...
Desta vez a dor é ainda mais aguda,
pois você me deu a esperança de uma nova vida...
Teu amor foi novo e
a coisa mais doce que eu podia sentir.
Seus lábios e suas mãos
me tocavam com carinho e ternura
que só você tinha...
só você tinha o poder de me alegrar e fazer palpitar
meu tão sensível e triste coração...
Com você longe de mim
me sinto mais uma vez perdida e solitária...
totalmente confusa e sem rumo.
Sem motivação para seguir meu caminho sozinha...
Sinto como se tivessem arrancado se aviso
meu bem mais precioso e amado...
Como se me tivessem roubado você de mim meu amor,
como se no caminho não existisse mais luz nem sentido...
812
Roque da Silva Ferreira
Haicai
Marinha
farol da barra
clareia um barco na areia
que a maré agarra...
Atração
Há uma estrela boa
no olhar que me faz lembrar
uma ave que voa...
farol da barra
clareia um barco na areia
que a maré agarra...
Atração
Há uma estrela boa
no olhar que me faz lembrar
uma ave que voa...
913
Renata Trocoli
Sem Titulo I
Vejo tua imagem no espelho.
Cada vez que imagino teu rosto
lembro de um sorriso doce e sincero.
Teus olhos tem um brilho único e especial
E sempre tiveram tranqüilidade e carinho.
Sem teus olhos não consigo imaginar vida nem beleza.
Sem tua boca e teu sorriso,
cada dia que passa fica mais vazio e triste.
Sem teu amor o dia escurece
A Noite entristece.
Os dias sem teus carinhos, sem tua voz,
parecem eternos martírios de lembranças.
Lembranças essas que por vezes me fazem sorrir,
e sempre me fazer chorar de saudades de você.
Esperanças de tocar teu rosto não tenho mais
Elas se acabaram
Na ultima vez que olhei
para teus olhos lindos.
Quem sabe a vida não me ensina
a te esquecer e não mais te esperar...
Quem sabe a noite não me mostra que a Lua
ainda continua linda sem você...
Quem sabe o dia não me diz que o céu e perfeito
e infinito mesmo sem ter você ao meu lado...
Te amo com todo meu coração...
Cada vez que imagino teu rosto
lembro de um sorriso doce e sincero.
Teus olhos tem um brilho único e especial
E sempre tiveram tranqüilidade e carinho.
Sem teus olhos não consigo imaginar vida nem beleza.
Sem tua boca e teu sorriso,
cada dia que passa fica mais vazio e triste.
Sem teu amor o dia escurece
A Noite entristece.
Os dias sem teus carinhos, sem tua voz,
parecem eternos martírios de lembranças.
Lembranças essas que por vezes me fazem sorrir,
e sempre me fazer chorar de saudades de você.
Esperanças de tocar teu rosto não tenho mais
Elas se acabaram
Na ultima vez que olhei
para teus olhos lindos.
Quem sabe a vida não me ensina
a te esquecer e não mais te esperar...
Quem sabe a noite não me mostra que a Lua
ainda continua linda sem você...
Quem sabe o dia não me diz que o céu e perfeito
e infinito mesmo sem ter você ao meu lado...
Te amo com todo meu coração...
1 095
Renata Trocoli
Sem Titulo IV
Quando sentimos em nosso coração
um palpitar diferente,
uma alegria extasiante,
uma ansiedade insuportável e forte
Deixemos que os sentimentos
tomem conta de nosso corpo.
Escutar uma voz, sentir um carinho,
ter vontade de ver, tocar, estar sempre ao lado,
ser amado... isto sim é prazer real e total...
O amor não é pedir,
é saber dar e estar preparado a receber.
É receber e ter a consciência de devolver,
com a mesma intensidade e atenção.
Então, nós amantes e amados,
possamos aprender a acreditar no amor,
acreditar que ele é luz e calor
que é alimento e força,
que é pureza e ingenuidade...
um palpitar diferente,
uma alegria extasiante,
uma ansiedade insuportável e forte
Deixemos que os sentimentos
tomem conta de nosso corpo.
Escutar uma voz, sentir um carinho,
ter vontade de ver, tocar, estar sempre ao lado,
ser amado... isto sim é prazer real e total...
O amor não é pedir,
é saber dar e estar preparado a receber.
É receber e ter a consciência de devolver,
com a mesma intensidade e atenção.
Então, nós amantes e amados,
possamos aprender a acreditar no amor,
acreditar que ele é luz e calor
que é alimento e força,
que é pureza e ingenuidade...
767
Roberto Pontes
Poesia e Libertação em Roberto Pontes
por Pedro Lyra
Um dos temas mais problemáticos da teoria literária contemporânea é a sobrevivência do épico. Dada a natureza por essência histórica deste gênero, creio que o problema não pode ser questionado antes de colocado num determinado tempo. Deste modo, a falência e/ou apogeu do épico se encontram vinculados à existência/inexistência de grandes acontecimentos sociais que, numa certa fase da história humana, ofereçam ou não temas de conteúdo épico.
Por que a Antigüidade e o Renascimento foram tão fecundos neste gênero? Simplesmente: pela ocorrência, nessas épocas, de fatos sociais de grandes implicações humanas no sentido universal. Aplicada a tese ao momento presente, o problema se resolve: não foi o épico que morreu como gênero literário, mas um certo épico de linguagem inadequada ao nosso tempo, um épico de conceituação sedimentada nos limites de uma estética restrita ao ideário clássico – o pomposo e solene épico de Homero, Virgílio, Camões, próprio para as sociedades que o gerararm e consumiram, como só elas poderiam gerá-lo e consumí-lo.
A aparente falência do épico em nossa época se explica por esta evidência: a instabilidade do mundo contemporâneo – este pragmatismo materialesco a que nos atiraram – por um lado nega ao escritor o tempo indispensável para o labor épico (pelo menos, para o labor épico "a la antigua") e, por outro lado, nega também ao leitor essa mesma parcela de tempo necessário para o convívio com os longos poemas que requerem exegese.
Mas o epos está presente em qualquer tempo. E a nossa época é, sem talvez, a mais fecunda de toda a história humana em essência épica: aí estão ainda as radiações atômicas da última guerra mundial e das mais recentes bombas de intimidação e exibição; aí estão as lutas de classe propagando a revolução socialista por todo o globo; aí está o surgimento deste vasto Terceiro Mundo para uma nova realidade mundial; e aí está, por fim, a conquista do espaço, afirmando o domínio do homem sobre o seu universo próximo. Tudo isso, junto ou isolado, se oferece ao poeta contemporâneo como num desafio: um desafio àquele que se proponha a deixar, numa obra de fôlego, uma imagem poética deste tempo desesperado.
Pois bem: um desses temas – o último – acaba de ser tratado, num longo poema, por um jovem poeta cearense: Roberto Pontes, prêmio "Esso–Jornal de Letras" de 1970 (com o ensaio Vanguarda Brasileira: Introdução e Tese), no livro-poema Lições de Espaço: Teletipos, Módulos e Quânticas 1 , premiado pela Universidade Federal no mesmo ano.
Com certeza, podemos vincular este poema à corrente vanguardista da poesia brasileira: vanguarda pelo tema, vanguarda pela linguagem. Nisto, cabe notar que Roberto não circunscreveu o fazer vanguardista ao problema da linguagem: sendo vanguarda o que sugere um passo à frente – o que, incorporando um dado novo ao patrimônio preexistente, aponte um rumo a seguir – ele se situa como vanguardista menos numa perspectiva lingüística do que numa perspectiva social.
Trabalhando exclusivamente com a palavra, Roberto Pontes compreende que tem de explorá-la ao máximo, para compensar a ausência da contribuição não-solicitada ao figurativo. Por isso ele está sempre experimentando, reinventando, neologizando a matéria-prima do verbo. As múltiplas tendências, os vários processos, a polivalência usual da palavra – todas as diretivas da vanguarada vocabular foram amalgamadas em Lições de Espaço por um tenaz esforço pessoal crítico-teórico-criativo em torno de poetas e movimentos vanguardistas, donde resultou um poema antes de tudo pesquisa-informação, atualizadas pela unidade de linguagem conseguida do primeiro ao último verso.
Através da simples leitura do poema é possível notar a familiaridade do autor com os experimentalistas da tradição internacional, como Mallarmé, Pound, Joyce, Cummings, Apollinaire, Maiacovski, ou com os da melhor vertente nacional nacional, como Oswald de Andrade, Cassiano Ricardo, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral, Haroldo de Campos, Mário Chamie. Através dessa convergência de processos, o autor destas lições de espaço integra-se, via experimentalismo com a palavra, na determinante verbal da vanguarda brasileira – na mesma perspectiva em que Guimarães Rosa também é vanguarda, na prosa.
Ele consegue reinventar o épico através de uma inusitada contenção verbal, de uma fala renovada, de um discurso condensado, na melhor terminologia poundiana. Por isso, sendo os seus blocos de verso uma síntese da cultura humana, eles requerem um nível receptor exigente. Mas é exatamente no nível solicitado que se concentra a melhor poesia.
O poema está dividido em três livros.
O primeiro apresenta, em doze pequenos poemas, a problemática do espaço numa perspectiva regional. O espaço é o Nordeste brasileiro. Os poemas vão abrindo, pouco a pouco, um leque de problemas ecológicos, econômicos, antropológicos e sociais de sua sofrida região, ao mesmo tempo em que anatemiza a conivência que os conserva.
O poeta se define diante dos problemas em apenas um texto, apesar de sempre curto, apresentados numa linguagem tão estéril quanto a própria natureza nordestina. Mais que em qualquer outra parte do poema, é neste primeiro livro que se tem a perfeita adequação da linguagem ao tema focalizado: através da aridez da linguagem chega-se a uma idéia da aridez da vida que ela representa.
No poema
o piso não fabula a verdura
engastada na poeira e no salitre
nem mesmo as próprias raízes
desbebidas no lençol de anidro
o solo ingere as forras tessituras
dessangradas dos folículos e folhas
ele suga a sudorência do granito
seus produtos se arrimam na caliça
a terra não concebe o nobre cepo do cedro
cisma a figura inane do xerófito
o gozo estriado dos fibromas
e a indigência epitelial da citra (p.10)
o poeta descreve esse espaço e revela a natureza do solo naquilo que ele pode germinar. Mas esse solo não germina o que pode – "a terra não concebe" – esterilizado pela incipiência da agricultura:
o fazedeiro
de safras
lavra a dor
e lavrador
lavra dores
dá cifras
e não decifra
a grandeza do lavrar (p.22)
uma agricultura desinstrumentalizada, que explora mais o homem ("lavra a dor") do que a terra, num processo onde o sertanejo, ignorante de sua função social ("dá cifras/ e não decifra/ a grandeza do lavrar"), é o forte que, antes de tudo, ainda depende da chuva, preso a um sistema medievalizado que lhe proporciona uma subsistência de conveniência, como na expressiva síntese práxis-concretista destes dois versos-palavra:
salário
solário (p.18)
O segundo livro apresenta, em quarenta poemas de seis versos em média, a configuração do espaço numa perspectiva planetária. O espaço é a Terra. E, para entendê-lo, o poeta ressalta o uso que o homem faz do raciocínio, da inteligência, da sensibilidade e do seu poder de criação. Com o espaço circundante compreendido, vem a apreensão do universo – tônica do segundo livro. E, numa linguagem agora lírica, o poeta tenta uma definição do planeta, apoiado em informações científicas:
o universo
tem seu porte e suporte
em elétrons nêutrons prótons
é urgência ao poema
a fissão da massa atômica
a micro física quântica
os princípia matemática
tem o limite dos cardos
cortantes da metafísica
estrela sistema cosmos
o fascínio da galáxia
o silêncio da palavra
o carpir em abstrato
cem mil milhares de sóis
igual lote de anos-luz
o poeta assim disserta
premissas e teoremas
de sua esfera anilada
entre parábolas e elipses
que vagam por aí em expansão
burila zumbidos de metal (p. 37-40)
Nesse livro, n
Um dos temas mais problemáticos da teoria literária contemporânea é a sobrevivência do épico. Dada a natureza por essência histórica deste gênero, creio que o problema não pode ser questionado antes de colocado num determinado tempo. Deste modo, a falência e/ou apogeu do épico se encontram vinculados à existência/inexistência de grandes acontecimentos sociais que, numa certa fase da história humana, ofereçam ou não temas de conteúdo épico.
Por que a Antigüidade e o Renascimento foram tão fecundos neste gênero? Simplesmente: pela ocorrência, nessas épocas, de fatos sociais de grandes implicações humanas no sentido universal. Aplicada a tese ao momento presente, o problema se resolve: não foi o épico que morreu como gênero literário, mas um certo épico de linguagem inadequada ao nosso tempo, um épico de conceituação sedimentada nos limites de uma estética restrita ao ideário clássico – o pomposo e solene épico de Homero, Virgílio, Camões, próprio para as sociedades que o gerararm e consumiram, como só elas poderiam gerá-lo e consumí-lo.
A aparente falência do épico em nossa época se explica por esta evidência: a instabilidade do mundo contemporâneo – este pragmatismo materialesco a que nos atiraram – por um lado nega ao escritor o tempo indispensável para o labor épico (pelo menos, para o labor épico "a la antigua") e, por outro lado, nega também ao leitor essa mesma parcela de tempo necessário para o convívio com os longos poemas que requerem exegese.
Mas o epos está presente em qualquer tempo. E a nossa época é, sem talvez, a mais fecunda de toda a história humana em essência épica: aí estão ainda as radiações atômicas da última guerra mundial e das mais recentes bombas de intimidação e exibição; aí estão as lutas de classe propagando a revolução socialista por todo o globo; aí está o surgimento deste vasto Terceiro Mundo para uma nova realidade mundial; e aí está, por fim, a conquista do espaço, afirmando o domínio do homem sobre o seu universo próximo. Tudo isso, junto ou isolado, se oferece ao poeta contemporâneo como num desafio: um desafio àquele que se proponha a deixar, numa obra de fôlego, uma imagem poética deste tempo desesperado.
Pois bem: um desses temas – o último – acaba de ser tratado, num longo poema, por um jovem poeta cearense: Roberto Pontes, prêmio "Esso–Jornal de Letras" de 1970 (com o ensaio Vanguarda Brasileira: Introdução e Tese), no livro-poema Lições de Espaço: Teletipos, Módulos e Quânticas 1 , premiado pela Universidade Federal no mesmo ano.
Com certeza, podemos vincular este poema à corrente vanguardista da poesia brasileira: vanguarda pelo tema, vanguarda pela linguagem. Nisto, cabe notar que Roberto não circunscreveu o fazer vanguardista ao problema da linguagem: sendo vanguarda o que sugere um passo à frente – o que, incorporando um dado novo ao patrimônio preexistente, aponte um rumo a seguir – ele se situa como vanguardista menos numa perspectiva lingüística do que numa perspectiva social.
Trabalhando exclusivamente com a palavra, Roberto Pontes compreende que tem de explorá-la ao máximo, para compensar a ausência da contribuição não-solicitada ao figurativo. Por isso ele está sempre experimentando, reinventando, neologizando a matéria-prima do verbo. As múltiplas tendências, os vários processos, a polivalência usual da palavra – todas as diretivas da vanguarada vocabular foram amalgamadas em Lições de Espaço por um tenaz esforço pessoal crítico-teórico-criativo em torno de poetas e movimentos vanguardistas, donde resultou um poema antes de tudo pesquisa-informação, atualizadas pela unidade de linguagem conseguida do primeiro ao último verso.
Através da simples leitura do poema é possível notar a familiaridade do autor com os experimentalistas da tradição internacional, como Mallarmé, Pound, Joyce, Cummings, Apollinaire, Maiacovski, ou com os da melhor vertente nacional nacional, como Oswald de Andrade, Cassiano Ricardo, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral, Haroldo de Campos, Mário Chamie. Através dessa convergência de processos, o autor destas lições de espaço integra-se, via experimentalismo com a palavra, na determinante verbal da vanguarda brasileira – na mesma perspectiva em que Guimarães Rosa também é vanguarda, na prosa.
Ele consegue reinventar o épico através de uma inusitada contenção verbal, de uma fala renovada, de um discurso condensado, na melhor terminologia poundiana. Por isso, sendo os seus blocos de verso uma síntese da cultura humana, eles requerem um nível receptor exigente. Mas é exatamente no nível solicitado que se concentra a melhor poesia.
O poema está dividido em três livros.
O primeiro apresenta, em doze pequenos poemas, a problemática do espaço numa perspectiva regional. O espaço é o Nordeste brasileiro. Os poemas vão abrindo, pouco a pouco, um leque de problemas ecológicos, econômicos, antropológicos e sociais de sua sofrida região, ao mesmo tempo em que anatemiza a conivência que os conserva.
O poeta se define diante dos problemas em apenas um texto, apesar de sempre curto, apresentados numa linguagem tão estéril quanto a própria natureza nordestina. Mais que em qualquer outra parte do poema, é neste primeiro livro que se tem a perfeita adequação da linguagem ao tema focalizado: através da aridez da linguagem chega-se a uma idéia da aridez da vida que ela representa.
No poema
o piso não fabula a verdura
engastada na poeira e no salitre
nem mesmo as próprias raízes
desbebidas no lençol de anidro
o solo ingere as forras tessituras
dessangradas dos folículos e folhas
ele suga a sudorência do granito
seus produtos se arrimam na caliça
a terra não concebe o nobre cepo do cedro
cisma a figura inane do xerófito
o gozo estriado dos fibromas
e a indigência epitelial da citra (p.10)
o poeta descreve esse espaço e revela a natureza do solo naquilo que ele pode germinar. Mas esse solo não germina o que pode – "a terra não concebe" – esterilizado pela incipiência da agricultura:
o fazedeiro
de safras
lavra a dor
e lavrador
lavra dores
dá cifras
e não decifra
a grandeza do lavrar (p.22)
uma agricultura desinstrumentalizada, que explora mais o homem ("lavra a dor") do que a terra, num processo onde o sertanejo, ignorante de sua função social ("dá cifras/ e não decifra/ a grandeza do lavrar"), é o forte que, antes de tudo, ainda depende da chuva, preso a um sistema medievalizado que lhe proporciona uma subsistência de conveniência, como na expressiva síntese práxis-concretista destes dois versos-palavra:
salário
solário (p.18)
O segundo livro apresenta, em quarenta poemas de seis versos em média, a configuração do espaço numa perspectiva planetária. O espaço é a Terra. E, para entendê-lo, o poeta ressalta o uso que o homem faz do raciocínio, da inteligência, da sensibilidade e do seu poder de criação. Com o espaço circundante compreendido, vem a apreensão do universo – tônica do segundo livro. E, numa linguagem agora lírica, o poeta tenta uma definição do planeta, apoiado em informações científicas:
o universo
tem seu porte e suporte
em elétrons nêutrons prótons
é urgência ao poema
a fissão da massa atômica
a micro física quântica
os princípia matemática
tem o limite dos cardos
cortantes da metafísica
estrela sistema cosmos
o fascínio da galáxia
o silêncio da palavra
o carpir em abstrato
cem mil milhares de sóis
igual lote de anos-luz
o poeta assim disserta
premissas e teoremas
de sua esfera anilada
entre parábolas e elipses
que vagam por aí em expansão
burila zumbidos de metal (p. 37-40)
Nesse livro, n
1 111
Raul Seixas
Eu Preciso de Ajuda
Para todos os insonemaníacos da Terra
Eu quero construir um tipo novo de máquina
Para voar de noite saindo do corpo
Ela ganhará prêmios de paz, eu sei disso
Mas eu mesmo não posso fazê-la
Estou exausto, eu preciso de ajuda
Admito meu desespero, eu sei
Que as pernas em minha pernas estão tremendo
E o esqueleto quer sair do meu corpo
Porque a noite de pedra já está concreta
Eu quero alguém para içar uma imensa roldana
E içá-la de volta sobre a montanha
Eu preciso de ajuda
Porque eu não posso fazer isso sozinho
Está tão escuro aqui fora
Que estou cambaleando
Rua abaixo como bêbado
Se bêbado não sou, talvez aleijado
Eu preciso de ajuda.
Eu quero construir um tipo novo de máquina
Para voar de noite saindo do corpo
Ela ganhará prêmios de paz, eu sei disso
Mas eu mesmo não posso fazê-la
Estou exausto, eu preciso de ajuda
Admito meu desespero, eu sei
Que as pernas em minha pernas estão tremendo
E o esqueleto quer sair do meu corpo
Porque a noite de pedra já está concreta
Eu quero alguém para içar uma imensa roldana
E içá-la de volta sobre a montanha
Eu preciso de ajuda
Porque eu não posso fazer isso sozinho
Está tão escuro aqui fora
Que estou cambaleando
Rua abaixo como bêbado
Se bêbado não sou, talvez aleijado
Eu preciso de ajuda.
1 198
Renata Trocoli
Moreno
L5 vem meu amor chegando.
Ele veio para me envolver em seus braTos,
me pegar no colo, me beijar com carinho,
me enlouquecer os desejos como sS ele sabe fazer.
L5 vem ele chegando pertinho,
me olhando e me tocando devagarinho.
Com sua pele morena, seus olhos t2o negros
e seus l5bios macios.
Sua voz me embala,
e me abraTando me diz com ternura
que me ama e que me quer sS pra ele...
Como se eu quisesse ser de mais outro algu0m!!!
E quando ele sorri!??
N2o h5 nada mais lindo que seu sorriso!
Um sorriso sincero e delicado,
que ilumina seu rosto...
Esse rosto de um doce menino,
que esconde bem dentro de seu olhar
a malCcia de algu0m que
n2o mais um menino 0.
Vem ent2o ele a me amar
como nunca algu0m foi capaz.
E me envolve com esse carinho diferente
que sS ele sabe me dar!
Ele veio para me envolver em seus braTos,
me pegar no colo, me beijar com carinho,
me enlouquecer os desejos como sS ele sabe fazer.
L5 vem ele chegando pertinho,
me olhando e me tocando devagarinho.
Com sua pele morena, seus olhos t2o negros
e seus l5bios macios.
Sua voz me embala,
e me abraTando me diz com ternura
que me ama e que me quer sS pra ele...
Como se eu quisesse ser de mais outro algu0m!!!
E quando ele sorri!??
N2o h5 nada mais lindo que seu sorriso!
Um sorriso sincero e delicado,
que ilumina seu rosto...
Esse rosto de um doce menino,
que esconde bem dentro de seu olhar
a malCcia de algu0m que
n2o mais um menino 0.
Vem ent2o ele a me amar
como nunca algu0m foi capaz.
E me envolve com esse carinho diferente
que sS ele sabe me dar!
1 059
Roberto Pontes
O Deputado Discurso de Memória Corporal
por Luiz F. Papi
Quando o amor faz dos amantes os "animais enternecidos"de que nos fala o poeta cearense Roberto Pontes em Memória Corporal, esse achado elide a conotação antitética que em outro contexto estaria evidente. E isto ocorre simplesmente porque o amor, tal como o poeta o concebe e revitaliza literariamente, confere ao homem, enquanto bicho-amante, a mais completa e diversificada dimensão humanista. A depuradíssima imagem do enternecimento do animal-homem – uma entre muitas mais – como que sintetiza em seu despojamento calidoscópico metafórico de um discurso que dispensa, por desnecessários, os suportes da veemência usual e convencional dos poemas de amor. O reparo não equivale a repúdio aos que sabem exercitar a veemência de seus arroubos, mas não resta dúvida de que a ruptura aqui assinalada se opera em proveito de uma expressividade de elegância substantiva e sóbria. E não se trata de mera contenção verbal, já que o poeta assume o risco de fazer sua Memória Corporal fluir em liberdade, dentro dos condutos líricos que armou para "esta reflexão amadurecida e vivenciada sobre o amor", conforme escreve Carlos d’Alge nas abas da capa deste livro primorosamente ilustrado por Ana e Paulo Brandão.
O valor do texto de Roberto Pontes está realmente na força da palavra, na versátil inventiva e na amplitude dada ao velho tema. Sente-se, por exemplo, o pulsar do poema nesta confissão do poeta: "Quando me afoguei na região das termas/ bebi da mais profunda natureza." Mas o panteísmo não é o limite da amplitude do projeto poético do autor. Ele vai mais longe na escalada lírica e tece ainda segundo Carlos d’Alge – "um canto geral de integração e de ternura, de paz e realização humana". Tanto quanto a música, como queria Shakespeare, Roberto Pontes quer também a poesia como alimento do amor. E esse alimento ele o distribui sem apelar para a linguagem hiperbólica tão cara aos amantes. Curiosamente até, em certos passos de Memória Corporal o amor se nutre de poesia numa atmosfera de forte realismo imagístico, como no poema "Faltando Leite, Faltando Pão". Daí não ser "excessivo afirmar – com Lúcia helena no prefácio-ensaio intitulado "Sutil Tecido de Sal e Concha" – que a personagem central deste texto desejante é Eros, captado em todos os seus poros e latências".
Roberto Pontes iniciou-se na literatura nos anos 60 através do Grupo SIN (de sincretismo) e teve seu primeiro livro de poesia, Contracanto, publicado em Fortaleza pela Edições SIN, em 1968. O Grupo SIN, fundado por ele, Pedro Lyra, Horácio Dídimo, Linhares Filho e Rogério Bessa, desfez-se em 1969, porém marcou sua efêmera presença com a publicação de uma Sinantologia, reunindo aqueles poetas e alguns outros que haviam aderido ao movimento, cuja meta era a renovação das letras cearenses.
Em 1970 Roberto Pontes teve editado pela Imprensa Universitária do Ceará o volume Lições de Espaço – Teletipos, Módulos e Quânticas, um poema longo que naquele ano conquistou o Prêmio Universidade Federal do ceará. Ainda em 1970 o poeta publica o ensaio Vanguarda Brasileira: Introdução e tese, com que obtém o Pêmio Esso-Jornal de Letras, e no ano seguinte ganha em Brasília o Prêmio Fundação Nacional dos Garimpeiros com o poema Garimpo.
LUIZ F. PAPI é jornalista, poeta, tradutor e crítico.
Por muitos anos militou em O Globo e atualmente
trabalha na agência de notícias UPI. É autor de Arado Branco
(1957), livro apreendido pelos órgãos da repressão, em 1964,
no Rio de Janeiro; Poemas do Ofício (1964), Os Artífices (1967)
Este Ofício (1976) , e Desarvorárvore (1982) , todos de poesia.
Cartilha Anticrítica (1979) reúne artigos literários publicados
em vários órgãos da imprensa brasileira. Traduziu Konstantin Fédin,
Mikhail Cholokov, Jorge Icaza e Juan José Arreola. Militante
político do antigo Partido Comunista Brasileiro, seu nome figura
no mesmo inquérito do DOPS em que também está o de Graciliano Ramos.
Quando o amor faz dos amantes os "animais enternecidos"de que nos fala o poeta cearense Roberto Pontes em Memória Corporal, esse achado elide a conotação antitética que em outro contexto estaria evidente. E isto ocorre simplesmente porque o amor, tal como o poeta o concebe e revitaliza literariamente, confere ao homem, enquanto bicho-amante, a mais completa e diversificada dimensão humanista. A depuradíssima imagem do enternecimento do animal-homem – uma entre muitas mais – como que sintetiza em seu despojamento calidoscópico metafórico de um discurso que dispensa, por desnecessários, os suportes da veemência usual e convencional dos poemas de amor. O reparo não equivale a repúdio aos que sabem exercitar a veemência de seus arroubos, mas não resta dúvida de que a ruptura aqui assinalada se opera em proveito de uma expressividade de elegância substantiva e sóbria. E não se trata de mera contenção verbal, já que o poeta assume o risco de fazer sua Memória Corporal fluir em liberdade, dentro dos condutos líricos que armou para "esta reflexão amadurecida e vivenciada sobre o amor", conforme escreve Carlos d’Alge nas abas da capa deste livro primorosamente ilustrado por Ana e Paulo Brandão.
O valor do texto de Roberto Pontes está realmente na força da palavra, na versátil inventiva e na amplitude dada ao velho tema. Sente-se, por exemplo, o pulsar do poema nesta confissão do poeta: "Quando me afoguei na região das termas/ bebi da mais profunda natureza." Mas o panteísmo não é o limite da amplitude do projeto poético do autor. Ele vai mais longe na escalada lírica e tece ainda segundo Carlos d’Alge – "um canto geral de integração e de ternura, de paz e realização humana". Tanto quanto a música, como queria Shakespeare, Roberto Pontes quer também a poesia como alimento do amor. E esse alimento ele o distribui sem apelar para a linguagem hiperbólica tão cara aos amantes. Curiosamente até, em certos passos de Memória Corporal o amor se nutre de poesia numa atmosfera de forte realismo imagístico, como no poema "Faltando Leite, Faltando Pão". Daí não ser "excessivo afirmar – com Lúcia helena no prefácio-ensaio intitulado "Sutil Tecido de Sal e Concha" – que a personagem central deste texto desejante é Eros, captado em todos os seus poros e latências".
Roberto Pontes iniciou-se na literatura nos anos 60 através do Grupo SIN (de sincretismo) e teve seu primeiro livro de poesia, Contracanto, publicado em Fortaleza pela Edições SIN, em 1968. O Grupo SIN, fundado por ele, Pedro Lyra, Horácio Dídimo, Linhares Filho e Rogério Bessa, desfez-se em 1969, porém marcou sua efêmera presença com a publicação de uma Sinantologia, reunindo aqueles poetas e alguns outros que haviam aderido ao movimento, cuja meta era a renovação das letras cearenses.
Em 1970 Roberto Pontes teve editado pela Imprensa Universitária do Ceará o volume Lições de Espaço – Teletipos, Módulos e Quânticas, um poema longo que naquele ano conquistou o Prêmio Universidade Federal do ceará. Ainda em 1970 o poeta publica o ensaio Vanguarda Brasileira: Introdução e tese, com que obtém o Pêmio Esso-Jornal de Letras, e no ano seguinte ganha em Brasília o Prêmio Fundação Nacional dos Garimpeiros com o poema Garimpo.
LUIZ F. PAPI é jornalista, poeta, tradutor e crítico.
Por muitos anos militou em O Globo e atualmente
trabalha na agência de notícias UPI. É autor de Arado Branco
(1957), livro apreendido pelos órgãos da repressão, em 1964,
no Rio de Janeiro; Poemas do Ofício (1964), Os Artífices (1967)
Este Ofício (1976) , e Desarvorárvore (1982) , todos de poesia.
Cartilha Anticrítica (1979) reúne artigos literários publicados
em vários órgãos da imprensa brasileira. Traduziu Konstantin Fédin,
Mikhail Cholokov, Jorge Icaza e Juan José Arreola. Militante
político do antigo Partido Comunista Brasileiro, seu nome figura
no mesmo inquérito do DOPS em que também está o de Graciliano Ramos.
1 223
Raul Seixas
Esse Negodiamô
Sem concepção de tempo,
O papel já terminou
Você vê que nada ficou
Sem poder dormir você pensa em fugir
Mas não há pra onde ir
Lá trancado no porão
Que é escuro mas é clara sua visão
Daquilo que você tanto esperou
Não passava de um sonho
Sobre esse negócio de amor
Doeu na hora que você acordou
Ao som agudo de um despertador
Mais barulhento que o apito
Do guarda abrindo o sinal.
Você procura entender,
Sabendo que não há porquê
Tudo é apenas o que é
Vai morrendo firme em pé
Você vê que não sabe de nada
Você louco e ela calada
Ela foi linda e clara esta noite
Inevitável, claro o açoite
E a dor foi mais que demais
Tudo que cê aprendeu desde que você nasceu
Embora sempre cê desconfiou
Que a gente é gente e é isso aí
Mas no entanto cê esperou
Sei lá, um milagre ou coisa assim
De repente o punhal
Mostrando as frestas do que é
Aí se entende o que é morrer
Estando vivo pra saber
Que cê não passa de um guri
Sua mente flashbacka atrás
aos catorze anos ou pouco mais
As meninas coloridas de batom
de rouge de risadinhas freteiras
Eram todas tão iguais
Sempre elas e sempre o rapaz
Transbordando de amor
Preferi ser escritor sem mesmo sequer saber
Que eu também queria amor
Como um susto bem pregado
De repente vi que tinha esse negócio mesmo
De estar apaixonado
Vi o mundo do outro lado
Tudo tão certo e tudo tão errado
O papel já terminou
Você vê que nada ficou
Sem poder dormir você pensa em fugir
Mas não há pra onde ir
Lá trancado no porão
Que é escuro mas é clara sua visão
Daquilo que você tanto esperou
Não passava de um sonho
Sobre esse negócio de amor
Doeu na hora que você acordou
Ao som agudo de um despertador
Mais barulhento que o apito
Do guarda abrindo o sinal.
Você procura entender,
Sabendo que não há porquê
Tudo é apenas o que é
Vai morrendo firme em pé
Você vê que não sabe de nada
Você louco e ela calada
Ela foi linda e clara esta noite
Inevitável, claro o açoite
E a dor foi mais que demais
Tudo que cê aprendeu desde que você nasceu
Embora sempre cê desconfiou
Que a gente é gente e é isso aí
Mas no entanto cê esperou
Sei lá, um milagre ou coisa assim
De repente o punhal
Mostrando as frestas do que é
Aí se entende o que é morrer
Estando vivo pra saber
Que cê não passa de um guri
Sua mente flashbacka atrás
aos catorze anos ou pouco mais
As meninas coloridas de batom
de rouge de risadinhas freteiras
Eram todas tão iguais
Sempre elas e sempre o rapaz
Transbordando de amor
Preferi ser escritor sem mesmo sequer saber
Que eu também queria amor
Como um susto bem pregado
De repente vi que tinha esse negócio mesmo
De estar apaixonado
Vi o mundo do outro lado
Tudo tão certo e tudo tão errado
1 077
Romero Tavares da Silva
Saudade
Saudade em mim não falta
Por ter conhecido singela dama
Moça de estirpe tão alta
Que por ela todo o meu ser clama.
A princípio notei seu perfume
Me aproximei e percebi seu encanto
Me enredei em situação tão grave
Mas depois, sua lembrança foi um acalanto.
Acalanto do qual eu fugia
Como antigamente em alto mar temia
O marinheiro, da sereia, o canto.
Ao voltar como cometa ou estrela Dalva
Ela me ofuscou com sua tez tão alva
Que seu fulgor ainda me causa espanto.
Por ter conhecido singela dama
Moça de estirpe tão alta
Que por ela todo o meu ser clama.
A princípio notei seu perfume
Me aproximei e percebi seu encanto
Me enredei em situação tão grave
Mas depois, sua lembrança foi um acalanto.
Acalanto do qual eu fugia
Como antigamente em alto mar temia
O marinheiro, da sereia, o canto.
Ao voltar como cometa ou estrela Dalva
Ela me ofuscou com sua tez tão alva
Que seu fulgor ainda me causa espanto.
911
Romero Tavares da Silva
Saudade
Saudade em mim não falta
Por ter conhecido singela dama
Moça de estirpe tão alta
Que por ela todo o meu ser clama.
A princípio notei seu perfume
Me aproximei e percebi seu encanto
Me enredei em situação tão grave
Mas depois, sua lembrança foi um acalanto.
Acalanto do qual eu fugia
Como antigamente em alto mar temia
O marinheiro, da sereia, o canto.
Ao voltar como cometa ou estrela Dalva
Ela me ofuscou com sua tez tão alva
Que seu fulgor ainda me causa espanto.
Por ter conhecido singela dama
Moça de estirpe tão alta
Que por ela todo o meu ser clama.
A princípio notei seu perfume
Me aproximei e percebi seu encanto
Me enredei em situação tão grave
Mas depois, sua lembrança foi um acalanto.
Acalanto do qual eu fugia
Como antigamente em alto mar temia
O marinheiro, da sereia, o canto.
Ao voltar como cometa ou estrela Dalva
Ela me ofuscou com sua tez tão alva
Que seu fulgor ainda me causa espanto.
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Roberto Pontes
A Que Saiu do Cântico dos Cânticos
A que sempre chega
Traz a fala morna e mansa
Sabe a prática lasciva do desejo.
Em seu corpo trigueiro vem o sol.
Está e não está na incerteza,
Mas tem do mormaço, sol a pino,
A magia da terra iridescente.
A que sempre chega
É o amor, o mito, vindo e partindo,
Aprisco e dor, mas feliz contentamento.
E são os ombros, são as ancas,
As virilhas, as nádegas sedosas,
Os pequeninos seios, o sexo mordente,
Os tesouros que só eu pude achar.
A que sempre chega
Escapou de um versículo do Cântico dos Cânticos
Enquanto Salomão se ocupava demais
Com a pastorinha Sulamita.
E até hoje ele a procura, desesperado,
Naquelas linhas.
Mas em vão. É muito tarde. Está comigo.
( In: jornal Diário do Povo. Teresina-PI, 27 abr. 1991)
Traz a fala morna e mansa
Sabe a prática lasciva do desejo.
Em seu corpo trigueiro vem o sol.
Está e não está na incerteza,
Mas tem do mormaço, sol a pino,
A magia da terra iridescente.
A que sempre chega
É o amor, o mito, vindo e partindo,
Aprisco e dor, mas feliz contentamento.
E são os ombros, são as ancas,
As virilhas, as nádegas sedosas,
Os pequeninos seios, o sexo mordente,
Os tesouros que só eu pude achar.
A que sempre chega
Escapou de um versículo do Cântico dos Cânticos
Enquanto Salomão se ocupava demais
Com a pastorinha Sulamita.
E até hoje ele a procura, desesperado,
Naquelas linhas.
Mas em vão. É muito tarde. Está comigo.
( In: jornal Diário do Povo. Teresina-PI, 27 abr. 1991)
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Roberto Pontes
Poema para Foto Antiga
Vivo sem medida essa ausência
Que mesmo basta o teu retrato.
Mas, se a todo instante mudamos
O teu sorriso fixado no papel
Continua sereno e suplicante
Como antigamente.
Por isso, enquanto se abre a meus olhos
O heliotropo plantado há tempos,
Fujo com eles da fotografia
Porque não sei onde te encontras
E se o mesmo sorriso ainda nos pertence.
Por isso é que não basta o tal retrato
E ponho meus olhos na flor que foi semente.
Que mesmo basta o teu retrato.
Mas, se a todo instante mudamos
O teu sorriso fixado no papel
Continua sereno e suplicante
Como antigamente.
Por isso, enquanto se abre a meus olhos
O heliotropo plantado há tempos,
Fujo com eles da fotografia
Porque não sei onde te encontras
E se o mesmo sorriso ainda nos pertence.
Por isso é que não basta o tal retrato
E ponho meus olhos na flor que foi semente.
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Roberto Pontes
Olhe a Poça
Há quem olhe a poça e veja a lua
Numa noite de intenso tremedal
Nela viaja a sede acre, insaciável
Do homem que trabalha, mas não vive
Daquele que não sabe já quem é
A sede é de tudo e de justiça
E o sedento não vê flores no caminho
A não ser nos canteiros do futuro
Mas como o advir não lhe pertence
Sendo a certeza um fruto de amanhã
Pisar na poça talvez não lhe pareça
Senão mero obstáculo a vencer
Um passo a mais do corpo que carrega
E enquanto a vida for seus dias de alugado
O seu suor, o seu sangue, o excremento
Para ele todo o céu será cinzento
Ter nascido foi ganhar uma sentença
Vai o homem, pisa a poça na calçada
E há quem olhe a mesma poça e veja a lua
Numa noite de intenso tremedal
Nela viaja a sede acre, insaciável
Do homem que trabalha, mas não vive
Daquele que não sabe já quem é
A sede é de tudo e de justiça
E o sedento não vê flores no caminho
A não ser nos canteiros do futuro
Mas como o advir não lhe pertence
Sendo a certeza um fruto de amanhã
Pisar na poça talvez não lhe pareça
Senão mero obstáculo a vencer
Um passo a mais do corpo que carrega
E enquanto a vida for seus dias de alugado
O seu suor, o seu sangue, o excremento
Para ele todo o céu será cinzento
Ter nascido foi ganhar uma sentença
Vai o homem, pisa a poça na calçada
E há quem olhe a mesma poça e veja a lua
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Roberto Pontes
Sugestões
Se me dizem a palavra trigo
quero possuir a lírica semente.
Se me falam a palavra pedra
Logo imagino o leito de uma estrada.
Se a palavra polícia é-me dita
Sonho com a segurança da cidade.
Porém, se os valores vão ficando invertidos,
Se me dizem a palavra trigo
Penso então nas mãos mais calejadas;
Se me falam a palavra pedra
Logo explode a idéia de confronto;
E se a palavra polícia é ouvida
Vem com os berros e o gemer dos torturados.
(De Sincretismo: A poesia da Geração 60 [Org. Pedro
Lyra]. Rio de Janeiro, Topbooks, 1995)
quero possuir a lírica semente.
Se me falam a palavra pedra
Logo imagino o leito de uma estrada.
Se a palavra polícia é-me dita
Sonho com a segurança da cidade.
Porém, se os valores vão ficando invertidos,
Se me dizem a palavra trigo
Penso então nas mãos mais calejadas;
Se me falam a palavra pedra
Logo explode a idéia de confronto;
E se a palavra polícia é ouvida
Vem com os berros e o gemer dos torturados.
(De Sincretismo: A poesia da Geração 60 [Org. Pedro
Lyra]. Rio de Janeiro, Topbooks, 1995)
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