Poemas neste tema
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Majela Colares
Soneto Para uma Estação
Estas sombras antigas de poente
guardam arcos de sol - dias de outono -
desfolhados na noite, nunca ausente,
quando as horas bocejam voz de sono.
São instantes maduros de nascente
na surpresa incessante do mês nono,
concebidos em gestos, mão silente,
quando as horas bocejam cor de sono.
Entre os cílios, o mundo em movimento,
sob as asas dos olhos morre um vento
para não ser sequer restos de sono.
Mas ao leste dos lábios pousa a aurora
fogem sombras antigas, vão-se embora...
surgem arcos de sol - dias de outono.
guardam arcos de sol - dias de outono -
desfolhados na noite, nunca ausente,
quando as horas bocejam voz de sono.
São instantes maduros de nascente
na surpresa incessante do mês nono,
concebidos em gestos, mão silente,
quando as horas bocejam cor de sono.
Entre os cílios, o mundo em movimento,
sob as asas dos olhos morre um vento
para não ser sequer restos de sono.
Mas ao leste dos lábios pousa a aurora
fogem sombras antigas, vão-se embora...
surgem arcos de sol - dias de outono.
978
Mário Hélio
33-III-(Bird)
a fragata espera na porta do circo
lábicos tão fechados
bocas entreabertas a ponto de gritar
a fraca esperança espera na porta do coração
lábios tão fechados
bocas entreabertas a ponto de gritar
mas não há gritos
nem haverá
lábicos tão fechados
bocas entreabertas a ponto de gritar
a fraca esperança espera na porta do coração
lábios tão fechados
bocas entreabertas a ponto de gritar
mas não há gritos
nem haverá
1 012
Majela Colares
O Soldador de Palavras
Fazer poemas é soldar palavras,
fundir o signo - literal sentido -
do verbo frio, transformado em chama,
aceso verso, pensado e medido
sob a moldura da expressão intensa
fingem palavras um som mais fingido
além, no ocaso, da sintaxe extrema,
fuga do verbo não mais definido.
Criado o texto, com idéia e tinta,
forma e figura na linguagem extinta,
quebrando regras de comuns fonemas.
A idéia é fogo. Fogo... o verbo aquece.
A tinta é solda que remenda e tece
versos, metáforas e, por fim, poemas.
fundir o signo - literal sentido -
do verbo frio, transformado em chama,
aceso verso, pensado e medido
sob a moldura da expressão intensa
fingem palavras um som mais fingido
além, no ocaso, da sintaxe extrema,
fuga do verbo não mais definido.
Criado o texto, com idéia e tinta,
forma e figura na linguagem extinta,
quebrando regras de comuns fonemas.
A idéia é fogo. Fogo... o verbo aquece.
A tinta é solda que remenda e tece
versos, metáforas e, por fim, poemas.
2 137
Majela Colares
O Soldador de Palavras
Fazer poemas é soldar palavras,
fundir o signo - literal sentido -
do verbo frio, transformado em chama,
aceso verso, pensado e medido
sob a moldura da expressão intensa
fingem palavras um som mais fingido
além, no ocaso, da sintaxe extrema,
fuga do verbo não mais definido.
Criado o texto, com idéia e tinta,
forma e figura na linguagem extinta,
quebrando regras de comuns fonemas.
A idéia é fogo. Fogo... o verbo aquece.
A tinta é solda que remenda e tece
versos, metáforas e, por fim, poemas.
fundir o signo - literal sentido -
do verbo frio, transformado em chama,
aceso verso, pensado e medido
sob a moldura da expressão intensa
fingem palavras um som mais fingido
além, no ocaso, da sintaxe extrema,
fuga do verbo não mais definido.
Criado o texto, com idéia e tinta,
forma e figura na linguagem extinta,
quebrando regras de comuns fonemas.
A idéia é fogo. Fogo... o verbo aquece.
A tinta é solda que remenda e tece
versos, metáforas e, por fim, poemas.
2 137
Majela Colares
O Soldador de Palavras
Fazer poemas é soldar palavras,
fundir o signo - literal sentido -
do verbo frio, transformado em chama,
aceso verso, pensado e medido
sob a moldura da expressão intensa
fingem palavras um som mais fingido
além, no ocaso, da sintaxe extrema,
fuga do verbo não mais definido.
Criado o texto, com idéia e tinta,
forma e figura na linguagem extinta,
quebrando regras de comuns fonemas.
A idéia é fogo. Fogo... o verbo aquece.
A tinta é solda que remenda e tece
versos, metáforas e, por fim, poemas.
fundir o signo - literal sentido -
do verbo frio, transformado em chama,
aceso verso, pensado e medido
sob a moldura da expressão intensa
fingem palavras um som mais fingido
além, no ocaso, da sintaxe extrema,
fuga do verbo não mais definido.
Criado o texto, com idéia e tinta,
forma e figura na linguagem extinta,
quebrando regras de comuns fonemas.
A idéia é fogo. Fogo... o verbo aquece.
A tinta é solda que remenda e tece
versos, metáforas e, por fim, poemas.
2 137
Majela Colares
Vertigem
Já se ouviam, de estrelas, rebramidos
entre as sombras da noite camuflada.
Rumores de horas mortas... tempos idos.
- Era a tarde batendo em retirada.
Lábios mudos fendidos pelos gestos...
pálida boca (a noite escancarada).
Consumidos olhares, quase restos.
- Era a tarde batendo em retirada.
A voz frágil, o braço já pendia.
Vago, inerte, rumando pela estrada,
raios cegos o sol oferecia.
- Era a tarde batendo em retirada.
Os ecos projetados no futuro.
Vã imagem, figura rebuscada.
Na linha do horizonte um traço escuro.
- Era a tarde batendo em retirada.
As palavras... a frase repetida,
denso texto, linguagem retratada.
Verso e verbo, no entanto, morte e vida.
Sempre a tarde batendo em retirada.
As medidas da mão, agora ausente,
conduzidas para hora anunciada.
A vertigem, por fim, não se pressente?
Quando é tarde batendo em retirada.
entre as sombras da noite camuflada.
Rumores de horas mortas... tempos idos.
- Era a tarde batendo em retirada.
Lábios mudos fendidos pelos gestos...
pálida boca (a noite escancarada).
Consumidos olhares, quase restos.
- Era a tarde batendo em retirada.
A voz frágil, o braço já pendia.
Vago, inerte, rumando pela estrada,
raios cegos o sol oferecia.
- Era a tarde batendo em retirada.
Os ecos projetados no futuro.
Vã imagem, figura rebuscada.
Na linha do horizonte um traço escuro.
- Era a tarde batendo em retirada.
As palavras... a frase repetida,
denso texto, linguagem retratada.
Verso e verbo, no entanto, morte e vida.
Sempre a tarde batendo em retirada.
As medidas da mão, agora ausente,
conduzidas para hora anunciada.
A vertigem, por fim, não se pressente?
Quando é tarde batendo em retirada.
1 013
Marcelo Almeida de Oliveira
Chega! De novo
Desculpa, amor, mas hoje não vou te amar,
nem vou deixar minha cabeça se encher de você,
segurem as garrafas porque não vou tomar,
seda e veludo também pode esquecer.
Porque hoje quero saber a verdade.
Já estou cançado de rir sem saber o porquê.
Que o ópio que pelos meus ouvidos entra
só me deixe entorpecido quando permitir;
e que a cobra que encanta da caixa
não me enfeitice com seus olhos argibi.
Mais um bufão vai tirar a fantasia,
mais uma vaia na pequena platéia descontente.
nem vou deixar minha cabeça se encher de você,
segurem as garrafas porque não vou tomar,
seda e veludo também pode esquecer.
Porque hoje quero saber a verdade.
Já estou cançado de rir sem saber o porquê.
Que o ópio que pelos meus ouvidos entra
só me deixe entorpecido quando permitir;
e que a cobra que encanta da caixa
não me enfeitice com seus olhos argibi.
Mais um bufão vai tirar a fantasia,
mais uma vaia na pequena platéia descontente.
618
Majela Colares
Poema da Improvável Véspera
Foi em vão a batalha da voz tensa
que findou na gagueira atormentada
mais em vão foi pensar que não se pensa
quanto a vida é promessa, só, mais nada
que se oculta na fala e se afugenta
na certeza da angústia aprofundada
nos suspiros da ânsia que alimenta
os desejos ambíguos desvendados
essa febre que a mente humana inventa
refúgio de mistérios confinados
pressentidos em gestos inconstantes
dos momentos agrestes exalados
entre os mitos dos sensos conflitantes
que a memória retarda quando ausente
o perfeito equilíbrio exposto e antes
da sensata mudez que se consente
no final da batalha a reticência
conspirando a cegueira do presente
em linguagem fingindo à evidência...
nos limites dos sons ecoa a infância
reescrita nos olhos da existência.
que findou na gagueira atormentada
mais em vão foi pensar que não se pensa
quanto a vida é promessa, só, mais nada
que se oculta na fala e se afugenta
na certeza da angústia aprofundada
nos suspiros da ânsia que alimenta
os desejos ambíguos desvendados
essa febre que a mente humana inventa
refúgio de mistérios confinados
pressentidos em gestos inconstantes
dos momentos agrestes exalados
entre os mitos dos sensos conflitantes
que a memória retarda quando ausente
o perfeito equilíbrio exposto e antes
da sensata mudez que se consente
no final da batalha a reticência
conspirando a cegueira do presente
em linguagem fingindo à evidência...
nos limites dos sons ecoa a infância
reescrita nos olhos da existência.
889
Marcelo Almeida de Oliveira
Adormecendo
O cansaço é tanto
que as lágrimas saem da pena
em camera lenta.
.
.
.
Tudo é turvo
até o estorvo.
.
.
.
Não tenho mais forças
para fingir.
que as lágrimas saem da pena
em camera lenta.
.
.
.
Tudo é turvo
até o estorvo.
.
.
.
Não tenho mais forças
para fingir.
925
Majela Colares
As Cores do Tempo
Eu canto a passagem do tempo
Clarice Lispector
Percebo o tempo farejando as cores
de um já vencido e desbotado instante,
tingidas horas (reluzente tinta)
preserva apenas um azul distante...
pelas arestas espirais dos tons
embaça o risco do momento diante
frágil moldura irregular do tempo
descolorido feito sombra errante.
riscamt as cores novo instante súbito
(um branco espaço a revolver o caos...)
traçando o tempo - qual íris perfeito -
agora a tinta condensando as cores
consagra breve, colorido intenso,
marcas do tempo que jamais desfeito...
Clarice Lispector
Percebo o tempo farejando as cores
de um já vencido e desbotado instante,
tingidas horas (reluzente tinta)
preserva apenas um azul distante...
pelas arestas espirais dos tons
embaça o risco do momento diante
frágil moldura irregular do tempo
descolorido feito sombra errante.
riscamt as cores novo instante súbito
(um branco espaço a revolver o caos...)
traçando o tempo - qual íris perfeito -
agora a tinta condensando as cores
consagra breve, colorido intenso,
marcas do tempo que jamais desfeito...
1 400
Marcelo Almeida de Oliveira
Dom quixote I
Se demônios te atormentam,
em casa ou na rua,
quando sol ou quando lua,
olhe para qualquer lado e me veja,
espelho de carne;
escute os murmuros que o vento carrega e me ouça,
eco distante;
certeza que desta vez não é sua cabeça
que doente te prega peças;
esqueça a paranóia e perceba
que louco, você me é,
louco, você sou eu,
louco, você e eu.
Penso naquilo que você pensa, mas não fala;
temo aquilo que você teme, mas não demonstra;
sei das flores na sua cabeça, mas você não as mostra;
sei que sua vontade é gritar, então apenas o faça,
como tiro de fuzil,
alívio como nunca sentiu,
na língua, baioneta,
como lança, uma caneta;
espantando os demônios...
guerreiro, você sou eu,
guerreiro, você e eu.
em casa ou na rua,
quando sol ou quando lua,
olhe para qualquer lado e me veja,
espelho de carne;
escute os murmuros que o vento carrega e me ouça,
eco distante;
certeza que desta vez não é sua cabeça
que doente te prega peças;
esqueça a paranóia e perceba
que louco, você me é,
louco, você sou eu,
louco, você e eu.
Penso naquilo que você pensa, mas não fala;
temo aquilo que você teme, mas não demonstra;
sei das flores na sua cabeça, mas você não as mostra;
sei que sua vontade é gritar, então apenas o faça,
como tiro de fuzil,
alívio como nunca sentiu,
na língua, baioneta,
como lança, uma caneta;
espantando os demônios...
guerreiro, você sou eu,
guerreiro, você e eu.
937
Marcelo Almeida de Oliveira
Dom quixote I
Se demônios te atormentam,
em casa ou na rua,
quando sol ou quando lua,
olhe para qualquer lado e me veja,
espelho de carne;
escute os murmuros que o vento carrega e me ouça,
eco distante;
certeza que desta vez não é sua cabeça
que doente te prega peças;
esqueça a paranóia e perceba
que louco, você me é,
louco, você sou eu,
louco, você e eu.
Penso naquilo que você pensa, mas não fala;
temo aquilo que você teme, mas não demonstra;
sei das flores na sua cabeça, mas você não as mostra;
sei que sua vontade é gritar, então apenas o faça,
como tiro de fuzil,
alívio como nunca sentiu,
na língua, baioneta,
como lança, uma caneta;
espantando os demônios...
guerreiro, você sou eu,
guerreiro, você e eu.
em casa ou na rua,
quando sol ou quando lua,
olhe para qualquer lado e me veja,
espelho de carne;
escute os murmuros que o vento carrega e me ouça,
eco distante;
certeza que desta vez não é sua cabeça
que doente te prega peças;
esqueça a paranóia e perceba
que louco, você me é,
louco, você sou eu,
louco, você e eu.
Penso naquilo que você pensa, mas não fala;
temo aquilo que você teme, mas não demonstra;
sei das flores na sua cabeça, mas você não as mostra;
sei que sua vontade é gritar, então apenas o faça,
como tiro de fuzil,
alívio como nunca sentiu,
na língua, baioneta,
como lança, uma caneta;
espantando os demônios...
guerreiro, você sou eu,
guerreiro, você e eu.
937
Manuel Lima
São Meus Estes Rios
São meus estes rios
que buscam caminho
rastejando entre luar e silêncio,
sombra e madrugada,
até ao seu fim marítimo.
A minha alma está neles,
líquida e sonora
como a água entre o quissange das pedras,
o anoitecer nas fontes.
Tenho rios vermelhos e quentes
na minha dimensão física,
rios remotos, remotos como eu.
que buscam caminho
rastejando entre luar e silêncio,
sombra e madrugada,
até ao seu fim marítimo.
A minha alma está neles,
líquida e sonora
como a água entre o quissange das pedras,
o anoitecer nas fontes.
Tenho rios vermelhos e quentes
na minha dimensão física,
rios remotos, remotos como eu.
1 685
Mário Hélio
29-IX(Choro e luz)
num dia de festa de muita alegria
lavei meus sonhos na velha pia
e tive medo de quem sorria
e do segredo de quem morria
mas era festa de só um dia
já não bastava tanta agonia?
eu precisava da tal fatia
de choro e luz de fantasia
mas a batalha era que ardia
a sarça ardente na mente fria
meu ser uma linha já que seguia
seu próprio passo de travessia
e para longe do espaço ia
e até bastante cedo descobria
não era amor o que se amou um dia
era outra alegria que irônica ria
era o nome do bicho que verônica via
que me espantava mas não fugia
que me matava mas nãomorria
era outra alegria... e é triste toda alegria
lavei meus sonhos na velha pia
e tive medo de quem sorria
e do segredo de quem morria
mas era festa de só um dia
já não bastava tanta agonia?
eu precisava da tal fatia
de choro e luz de fantasia
mas a batalha era que ardia
a sarça ardente na mente fria
meu ser uma linha já que seguia
seu próprio passo de travessia
e para longe do espaço ia
e até bastante cedo descobria
não era amor o que se amou um dia
era outra alegria que irônica ria
era o nome do bicho que verônica via
que me espantava mas não fugia
que me matava mas nãomorria
era outra alegria... e é triste toda alegria
906
Mário de Alencar
Depois de Ler a Ode I de Horácio
Nem tudo, sábio Horácio, o que aspiravas
E a Mecenas pedias, é o que aspiro.
A mim basta-me um plácido retiro,
Entre árvores, ao pé da água corrente,
Ouvindo a voz das musas que invocavas.
Com isso apenas viverei contente.
Longe da turba inquieta que aborreço,
Nem teria ambições, nem cuidaria
De haver glórias da terra. Na poesia
É o grande prêmio dela o vago sonho,
Com que eu, vivendo embora, a vida esqueço
E num mundo melhor viver suponho.
Tão alto não irei no imenso espaço
Que toque os astros como tu, amigo.
Mas sei que astros e céus tenho comigo
Enquanto com estes sonhos bons me iludo;
E como as aves cantam, versos faço.
Isso — que vale o mais ? vale-me tudo.
E a Mecenas pedias, é o que aspiro.
A mim basta-me um plácido retiro,
Entre árvores, ao pé da água corrente,
Ouvindo a voz das musas que invocavas.
Com isso apenas viverei contente.
Longe da turba inquieta que aborreço,
Nem teria ambições, nem cuidaria
De haver glórias da terra. Na poesia
É o grande prêmio dela o vago sonho,
Com que eu, vivendo embora, a vida esqueço
E num mundo melhor viver suponho.
Tão alto não irei no imenso espaço
Que toque os astros como tu, amigo.
Mas sei que astros e céus tenho comigo
Enquanto com estes sonhos bons me iludo;
E como as aves cantam, versos faço.
Isso — que vale o mais ? vale-me tudo.
1 022
Mário de Alencar
Depois de Ler a Ode I de Horácio
Nem tudo, sábio Horácio, o que aspiravas
E a Mecenas pedias, é o que aspiro.
A mim basta-me um plácido retiro,
Entre árvores, ao pé da água corrente,
Ouvindo a voz das musas que invocavas.
Com isso apenas viverei contente.
Longe da turba inquieta que aborreço,
Nem teria ambições, nem cuidaria
De haver glórias da terra. Na poesia
É o grande prêmio dela o vago sonho,
Com que eu, vivendo embora, a vida esqueço
E num mundo melhor viver suponho.
Tão alto não irei no imenso espaço
Que toque os astros como tu, amigo.
Mas sei que astros e céus tenho comigo
Enquanto com estes sonhos bons me iludo;
E como as aves cantam, versos faço.
Isso — que vale o mais ? vale-me tudo.
E a Mecenas pedias, é o que aspiro.
A mim basta-me um plácido retiro,
Entre árvores, ao pé da água corrente,
Ouvindo a voz das musas que invocavas.
Com isso apenas viverei contente.
Longe da turba inquieta que aborreço,
Nem teria ambições, nem cuidaria
De haver glórias da terra. Na poesia
É o grande prêmio dela o vago sonho,
Com que eu, vivendo embora, a vida esqueço
E num mundo melhor viver suponho.
Tão alto não irei no imenso espaço
Que toque os astros como tu, amigo.
Mas sei que astros e céus tenho comigo
Enquanto com estes sonhos bons me iludo;
E como as aves cantam, versos faço.
Isso — que vale o mais ? vale-me tudo.
1 022
Mário Hélio
31-I(Sol Incompleto)
a manhã
lilases lilases
perdizes e avestruzes
aprisionadas em minha mente
e as marcas dorvalho descoram descrentes
na minha casa o sol é incompleto
o dia cresce na face e a noite nasce
para-
lela-
mente
porque não há escolha
no templo há somente hastes e naves inconseqüentes
as flores não nascem
existem pura e simplesmente
porque não há escolha
a manhã recebeu a angústia
dos primeiros raios que ressecam as folhas
lilases lilases
perdizes e avestruzes
aprisionadas em minha mente
e as marcas dorvalho descoram descrentes
na minha casa o sol é incompleto
o dia cresce na face e a noite nasce
para-
lela-
mente
porque não há escolha
no templo há somente hastes e naves inconseqüentes
as flores não nascem
existem pura e simplesmente
porque não há escolha
a manhã recebeu a angústia
dos primeiros raios que ressecam as folhas
835
Mário Hélio
30-X-(Dos que vivem na sombra)
ontem suspeitei o cego em mim
andei errante por ruas e não encontrei luas
e me castiguei com medo de mim
ontem descobri o monstro hurrando em mim
quisera que meu corpo fosse vosso corpo
o sombrio vagalume por pousadas de mim.
ontem suspeitei o descoberto em mim
e pensei em andar pra sempre nutando
pra ver o rosto vasto que se esmaga em mim
vencido contrafeito morto
me agarrei ao quindavia de intato em mim
há muito eu constatei a insegurânsia em mim
o anjo rebelde que havia em mim
o estranho prisioneiro nas masmorras em mim
escrevi versos duros de dura ansiedade
mas não constatei verdade alguma
escrevi versos pálidos num suspiro
mas não encontrei nenhuma só lição
à tona tropeçando nos meus passos
penso que é angústia o sentimento vácuo
mas não sei ao certo se existe angústia.
quisera que meu bálsamo fosse o vosso beijo
tendes lábios enormes e eu não os vejo
mas no alto do rosto se incendeia
a mesma luz sombria que me guia.
as forças me forçam a fins que desconheço
mas suspeito que está no universo falido
ontem descobri o pouco que conheço
e me vi trancado pelo avesso
não sei se foi remorso o que passou por mim
ou foi vontade de fugir de mim.
ontem descobri o desespero em mim
verti meu sangue no vasto mundo
amorte doido feito busquei
rasguei papéis desfiz contratos
que com meu ego o tempo fez,
sonhei loucuras calei-me há tempo
meu sofrimento é tão imenso e tão presente
que nem notei
é lodo e mundo ida sem volta
amorte é sangue maldiçoado
corpo do livro pastirrasgado
amorte é medo nunca explicado
há sempre uma possibilidade de não me esconder,
e vocês sorririam se eu dissesse que a tristeza
é supérflua enquanto importa esta análise?
deixa nua a verdade do medo todos temos medo
talvez seja pela cereja que tenho no corpo
e ninguém a colheu.
nunca mais amorte amarei
nunca direi sim direi sempre talvez.
ontem suspeitei o inacabado em mim
orgasma prometida à minha estrela
à custa da revolta que houve sempre em mim
os conhecidos seres conformados como eu
inconformado que apesar da fraqueza
nunca olhei pro fim
às vezes penso que somos frutos das ondas dos instantes
que arrebatadas nos levam distante
mas é bastante pra da tal verdade ficar mais distante
ontem constatei o espectro em mim
com sua mão de fogo exorcizando a dor
mas sei e muito sei que não existem santos
apesar do ódio que sou eu amo tanto.
ontem cobri redescobri grotescos arabescos
ridículo estranho e iníquo eu era para mim.
há sempre uma possibilidade (mesmo que longínqua)
de esquecer a culpa e escapar de mim.
andei errante por ruas e não encontrei luas
e me castiguei com medo de mim
ontem descobri o monstro hurrando em mim
quisera que meu corpo fosse vosso corpo
o sombrio vagalume por pousadas de mim.
ontem suspeitei o descoberto em mim
e pensei em andar pra sempre nutando
pra ver o rosto vasto que se esmaga em mim
vencido contrafeito morto
me agarrei ao quindavia de intato em mim
há muito eu constatei a insegurânsia em mim
o anjo rebelde que havia em mim
o estranho prisioneiro nas masmorras em mim
escrevi versos duros de dura ansiedade
mas não constatei verdade alguma
escrevi versos pálidos num suspiro
mas não encontrei nenhuma só lição
à tona tropeçando nos meus passos
penso que é angústia o sentimento vácuo
mas não sei ao certo se existe angústia.
quisera que meu bálsamo fosse o vosso beijo
tendes lábios enormes e eu não os vejo
mas no alto do rosto se incendeia
a mesma luz sombria que me guia.
as forças me forçam a fins que desconheço
mas suspeito que está no universo falido
ontem descobri o pouco que conheço
e me vi trancado pelo avesso
não sei se foi remorso o que passou por mim
ou foi vontade de fugir de mim.
ontem descobri o desespero em mim
verti meu sangue no vasto mundo
amorte doido feito busquei
rasguei papéis desfiz contratos
que com meu ego o tempo fez,
sonhei loucuras calei-me há tempo
meu sofrimento é tão imenso e tão presente
que nem notei
é lodo e mundo ida sem volta
amorte é sangue maldiçoado
corpo do livro pastirrasgado
amorte é medo nunca explicado
há sempre uma possibilidade de não me esconder,
e vocês sorririam se eu dissesse que a tristeza
é supérflua enquanto importa esta análise?
deixa nua a verdade do medo todos temos medo
talvez seja pela cereja que tenho no corpo
e ninguém a colheu.
nunca mais amorte amarei
nunca direi sim direi sempre talvez.
ontem suspeitei o inacabado em mim
orgasma prometida à minha estrela
à custa da revolta que houve sempre em mim
os conhecidos seres conformados como eu
inconformado que apesar da fraqueza
nunca olhei pro fim
às vezes penso que somos frutos das ondas dos instantes
que arrebatadas nos levam distante
mas é bastante pra da tal verdade ficar mais distante
ontem constatei o espectro em mim
com sua mão de fogo exorcizando a dor
mas sei e muito sei que não existem santos
apesar do ódio que sou eu amo tanto.
ontem cobri redescobri grotescos arabescos
ridículo estranho e iníquo eu era para mim.
há sempre uma possibilidade (mesmo que longínqua)
de esquecer a culpa e escapar de mim.
880
Mário Hélio
36-VI-(Litografia)
que voz sopra os sons
nessas horas sincopadas
no silêncio dos homens?
que voz assoprará
o assombro
o sombrio ressumbro
os sobrolhos selvagens
da solidão?
e sobrará um silvo
seda e sono solto.
nessas horas sincopadas
no silêncio dos homens?
que voz assoprará
o assombro
o sombrio ressumbro
os sobrolhos selvagens
da solidão?
e sobrará um silvo
seda e sono solto.
918
Mário Hélio
36-VI-(Litografia)
que voz sopra os sons
nessas horas sincopadas
no silêncio dos homens?
que voz assoprará
o assombro
o sombrio ressumbro
os sobrolhos selvagens
da solidão?
e sobrará um silvo
seda e sono solto.
nessas horas sincopadas
no silêncio dos homens?
que voz assoprará
o assombro
o sombrio ressumbro
os sobrolhos selvagens
da solidão?
e sobrará um silvo
seda e sono solto.
918
Majela Colares
Verde Pelúcia
A semente vislumbra em breve tempo
irromper contra a terra umedecida
no húmus da manhã adormecida...
germinar e crescer e dar-se ao vento.
Fecundar neste chão rijo e sedento,
(ledo aroma de chuva acontecida)
no mormaço da véspera, confluída...
germinar e crescer e dar-se ao vento.
Mas a nômade nuvem rara e única
é que traz embuçada em frágil túnica,
o sagrado segredo derradeiro,
que ao certo, lançará feito neblina
a viçosa semente então germina,
na manhã, a saber, de algum janeiro.
irromper contra a terra umedecida
no húmus da manhã adormecida...
germinar e crescer e dar-se ao vento.
Fecundar neste chão rijo e sedento,
(ledo aroma de chuva acontecida)
no mormaço da véspera, confluída...
germinar e crescer e dar-se ao vento.
Mas a nômade nuvem rara e única
é que traz embuçada em frágil túnica,
o sagrado segredo derradeiro,
que ao certo, lançará feito neblina
a viçosa semente então germina,
na manhã, a saber, de algum janeiro.
1 042
Marcelo Almeida de Oliveira
Podem tentar, mas o homem não cabe
Dr. Hermínio?
O melhor mindinhologista que conheço.
Francisco?
O melhor mecânico de corcel 73.
Afonso?
A melhor feijoada da cidade.
Manuel?
Campeão estadual de pinball.
Alfredo?
Pintava peixes como ninguém.
Ford?
Último modelo.
Da Vinci?
Desculpa, tô sem dinheiro.
Vida, competição.
Vence a menor alma.
O melhor mindinhologista que conheço.
Francisco?
O melhor mecânico de corcel 73.
Afonso?
A melhor feijoada da cidade.
Manuel?
Campeão estadual de pinball.
Alfredo?
Pintava peixes como ninguém.
Ford?
Último modelo.
Da Vinci?
Desculpa, tô sem dinheiro.
Vida, competição.
Vence a menor alma.
733
Majela Colares
Outono de Pedra
O sol posto
em cada pálpebra
um sol posto
os cílios não terão amanhãs?
- Desde que estou retirando
só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
e às vezes até festiva
só morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,
........
João Cabral de Mello Neto
CANTO-II
Pau de arara em marés de asfalto
matolão aposentado na esquina
becos & guetos
aboios perdidos na avenida paulista
abstrato versus concreto
o dia morto rente ao viaduto
lágrimas de ocasos
suicídio das horas
chuvas cerebrais
penumbra ao meio dia
tatuada no olhar.
CANTO-III
No divã
argamassa de cimento
vida quase morte
(o complexo das unhas...)
indelével memória
arredia hipnose
divagações:
naquela terra distante
muitos sonhos se evadiram
levados pela distância
de noites cosmopolitas
sob o império do sol
e barricadas de chuvas
muitas vidas sucumbiram
perante a gota de orvalho
naquela terra distante
na palma da mão sedenta
nos dedos dos meus avós
nos traçaram esse destino:
L
É
G
U
A
S
t
i
r
a
n
a
s
a fio
de caminho e de poeira
e de areia em vez de rio
- a vida sujigada entre os dentes.
CANTO-IV
E no entanto ainda salta
ritmada da garganta
verso/rima: poesia
no mormaço dos alpendres
sob a luz do candeeiro
ou da vela de 100 Watts
e se é lua e mês de abril
o repente é mais vibrante
se exalando no galope
caudaloso e repicado
da viola enamorada
do poeta e cantador:
quando digo das coisas do sertão
este solo que inunda o meu cantar
vem a lua silente me escutar
debruçada em perdida solidão
canto os vícios sublimes da paixão
aflorada no rosto feminino
também canto este povo e seu destino
a incerteza no tempo inconseqüente
refletido por alma, corpo e mente
saga-gênese do homem nordestino
o meu canto é de rima soletrada
dissidente da língua adormecida
na rudez da palavra convergida
nas pupilas do verso represada
é a voz, dessa gente, entresonhada
entoando um galope à beira-mar
vem de longe segredos desvendar
o meu canto é enfim de vida e morte
palmilhado no peito livre e forte
do poeta que sabe improvisar.
CANTO-V
Muros sombrios, limites
fantasmas de coronéis
no subsolo gargalham
choramingam velhas mágoas
na memória do porão
sopra um vento frio e brando
com um cheiro melancólico
condensando nas narinas
pesadelos ancestrais
(muita terra, poucos donos
de tão longe este refrão)
no porão, calada História:
espinho de xiquexique
atravessado na artéria
cravado no calcanhar
medula-farpa da História
transpassado sobre a pele
ressecada pelo sol
de sangue-suor tingida
espichada na caatinga
espectro de rija sombra
consumido no serrote
esculpido pela goiva
no repuxo de aroeira
estaca/roseta/arame
entrecasca do pau-darco
dura imagem pressentida
moldurando o latifúndio
a flor do mandacaru
estampa um sorriso largo
brotado por entre espinhos
na solidão dessas tardes
qual homem sofrido e pasmo
que se contenta com o nada
nessa miséria de morte
no rude rosto de cáctus
a seca consome léguas
retirantes pés ao pó
resumidas nas estradas
do silêncio ruminado
suplicantes romarias
clamando nuvens errantes
em nome de Deus cavalgam
palavras, desilusões
a chuva vem afagar
o sertão com água santa
afaga também os lábios
ressequidos, a garganta
um brilho reluz nos olhos
transbordantes de esperança
de ver o grão desolado
vingar no magro torrão
a terra seca ou molhada
pelo sol mais causticante
ou pela chuva mais densa
é sempre esta mesma terra
ou tão molhada ou tão seca
que não mata a seca-fome
da mente sã e semi-árida
nesta escassez e descaso.
CANTO-VI
Essa História
longa e árdua
vem escrita
vem traçada
pela tinta
vil e trágica
rascunhando
noutras linhas
transcrevendo
noutras páginas
falsas letras
desbotadas
no silêncio
das palavras.
CANTO-VII
Áspero corpo
qual pedra granizo
sôfrega alma
de sonhos marcada
as mãos para o céu
louvando a Deus
os pés sobre o chão
entre o tudo e o nada
a vista acesa
buscando horizontes
ofusca no cinza
dos olhos calados
singrando a vida
embora inerte
atentos momentos
em dias fadados
partido do ontem
sem rumo e sem medo
veredas seguidas
acasos remotos
desertos cortados
de fome e de sede
galgando na pedra
futuro ignoto
rastro incansável
o sol feito abrigo
silhueta sinistra
alçando o infinito
geométrica figura
sangrando o ocaso
tempo infecundo
instante proscrito
o sangue que corre
em veias opacas
vias serenas
oculta segredos
do tardo momento
esculpido na rocha
do efêmero viver
de ânsia e degredo.
CANTO-VIII
O cantador repentista
e peregrino da viola
conhece o rumor dos ventos:
inesquecíveis memórias
marcam homens e destinos
a saga dos nordestinos
entrelaça a mesma História
na parca crença irrisória
este caos mais se afigura
exposta em tosca moldura
na forma: fome e miséria
o tênue pulsar da artéria
esvai-se na desventura
nos três mundos consagrados
divisas separam vidas
opressoras, oprimidas,
limites bem demarcados
em marcos configurados
simbólica ideologia
predomina e contagia
de vício a humana gente
falsa idéia incoerente
de mortal hipocrisia.
poesia em tempo de fome
fome em tempo de poesia
.............
nomeio o nome
nomeio o homem
no meio a fome
nomeio a fome
Haroldo de Campos
CANTO-IX
Unhas encravadas
fixadas
fichadas
no esmalte-sangue
do tijolo
subindo no asco da noite
possantes\imponentes\frias
colunas verticais
subindo no asco da noite
frágeis\humildes\tensas
colunas cervicais
andaimeandaime
\andaime
passaporte
para a vida extraida dos músculos
passaporte
para a morte fincada nos calos
antagônicos limites
sobem e descem
nas fibras de aço
nas fibras de nervos
CANTO-X
A colher alimenta
rica estrutura
substâncias imprescindíveis
para crescer
breve
para crescer
firme
para crescer
lorde
para crescer
nobre
para crescer
crescer para
pára crescer
cimento\ferro
pedra
tijolo
pedra\tijolo
ferro
cimento
tijolo
pedra
cimento\ferro
cimento
ferro
tijolo\pedra
homens\fome\homens
vida
poder\mais-valia
a l v e n a r i a
CANTO-XI
a
em cada pálpebra
um sol posto
os cílios não terão amanhãs?
- Desde que estou retirando
só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
e às vezes até festiva
só morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,
........
João Cabral de Mello Neto
CANTO-II
Pau de arara em marés de asfalto
matolão aposentado na esquina
becos & guetos
aboios perdidos na avenida paulista
abstrato versus concreto
o dia morto rente ao viaduto
lágrimas de ocasos
suicídio das horas
chuvas cerebrais
penumbra ao meio dia
tatuada no olhar.
CANTO-III
No divã
argamassa de cimento
vida quase morte
(o complexo das unhas...)
indelével memória
arredia hipnose
divagações:
naquela terra distante
muitos sonhos se evadiram
levados pela distância
de noites cosmopolitas
sob o império do sol
e barricadas de chuvas
muitas vidas sucumbiram
perante a gota de orvalho
naquela terra distante
na palma da mão sedenta
nos dedos dos meus avós
nos traçaram esse destino:
L
É
G
U
A
S
t
i
r
a
n
a
s
a fio
de caminho e de poeira
e de areia em vez de rio
- a vida sujigada entre os dentes.
CANTO-IV
E no entanto ainda salta
ritmada da garganta
verso/rima: poesia
no mormaço dos alpendres
sob a luz do candeeiro
ou da vela de 100 Watts
e se é lua e mês de abril
o repente é mais vibrante
se exalando no galope
caudaloso e repicado
da viola enamorada
do poeta e cantador:
quando digo das coisas do sertão
este solo que inunda o meu cantar
vem a lua silente me escutar
debruçada em perdida solidão
canto os vícios sublimes da paixão
aflorada no rosto feminino
também canto este povo e seu destino
a incerteza no tempo inconseqüente
refletido por alma, corpo e mente
saga-gênese do homem nordestino
o meu canto é de rima soletrada
dissidente da língua adormecida
na rudez da palavra convergida
nas pupilas do verso represada
é a voz, dessa gente, entresonhada
entoando um galope à beira-mar
vem de longe segredos desvendar
o meu canto é enfim de vida e morte
palmilhado no peito livre e forte
do poeta que sabe improvisar.
CANTO-V
Muros sombrios, limites
fantasmas de coronéis
no subsolo gargalham
choramingam velhas mágoas
na memória do porão
sopra um vento frio e brando
com um cheiro melancólico
condensando nas narinas
pesadelos ancestrais
(muita terra, poucos donos
de tão longe este refrão)
no porão, calada História:
espinho de xiquexique
atravessado na artéria
cravado no calcanhar
medula-farpa da História
transpassado sobre a pele
ressecada pelo sol
de sangue-suor tingida
espichada na caatinga
espectro de rija sombra
consumido no serrote
esculpido pela goiva
no repuxo de aroeira
estaca/roseta/arame
entrecasca do pau-darco
dura imagem pressentida
moldurando o latifúndio
a flor do mandacaru
estampa um sorriso largo
brotado por entre espinhos
na solidão dessas tardes
qual homem sofrido e pasmo
que se contenta com o nada
nessa miséria de morte
no rude rosto de cáctus
a seca consome léguas
retirantes pés ao pó
resumidas nas estradas
do silêncio ruminado
suplicantes romarias
clamando nuvens errantes
em nome de Deus cavalgam
palavras, desilusões
a chuva vem afagar
o sertão com água santa
afaga também os lábios
ressequidos, a garganta
um brilho reluz nos olhos
transbordantes de esperança
de ver o grão desolado
vingar no magro torrão
a terra seca ou molhada
pelo sol mais causticante
ou pela chuva mais densa
é sempre esta mesma terra
ou tão molhada ou tão seca
que não mata a seca-fome
da mente sã e semi-árida
nesta escassez e descaso.
CANTO-VI
Essa História
longa e árdua
vem escrita
vem traçada
pela tinta
vil e trágica
rascunhando
noutras linhas
transcrevendo
noutras páginas
falsas letras
desbotadas
no silêncio
das palavras.
CANTO-VII
Áspero corpo
qual pedra granizo
sôfrega alma
de sonhos marcada
as mãos para o céu
louvando a Deus
os pés sobre o chão
entre o tudo e o nada
a vista acesa
buscando horizontes
ofusca no cinza
dos olhos calados
singrando a vida
embora inerte
atentos momentos
em dias fadados
partido do ontem
sem rumo e sem medo
veredas seguidas
acasos remotos
desertos cortados
de fome e de sede
galgando na pedra
futuro ignoto
rastro incansável
o sol feito abrigo
silhueta sinistra
alçando o infinito
geométrica figura
sangrando o ocaso
tempo infecundo
instante proscrito
o sangue que corre
em veias opacas
vias serenas
oculta segredos
do tardo momento
esculpido na rocha
do efêmero viver
de ânsia e degredo.
CANTO-VIII
O cantador repentista
e peregrino da viola
conhece o rumor dos ventos:
inesquecíveis memórias
marcam homens e destinos
a saga dos nordestinos
entrelaça a mesma História
na parca crença irrisória
este caos mais se afigura
exposta em tosca moldura
na forma: fome e miséria
o tênue pulsar da artéria
esvai-se na desventura
nos três mundos consagrados
divisas separam vidas
opressoras, oprimidas,
limites bem demarcados
em marcos configurados
simbólica ideologia
predomina e contagia
de vício a humana gente
falsa idéia incoerente
de mortal hipocrisia.
poesia em tempo de fome
fome em tempo de poesia
.............
nomeio o nome
nomeio o homem
no meio a fome
nomeio a fome
Haroldo de Campos
CANTO-IX
Unhas encravadas
fixadas
fichadas
no esmalte-sangue
do tijolo
subindo no asco da noite
possantes\imponentes\frias
colunas verticais
subindo no asco da noite
frágeis\humildes\tensas
colunas cervicais
andaimeandaime
\andaime
passaporte
para a vida extraida dos músculos
passaporte
para a morte fincada nos calos
antagônicos limites
sobem e descem
nas fibras de aço
nas fibras de nervos
CANTO-X
A colher alimenta
rica estrutura
substâncias imprescindíveis
para crescer
breve
para crescer
firme
para crescer
lorde
para crescer
nobre
para crescer
crescer para
pára crescer
cimento\ferro
pedra
tijolo
pedra\tijolo
ferro
cimento
tijolo
pedra
cimento\ferro
cimento
ferro
tijolo\pedra
homens\fome\homens
vida
poder\mais-valia
a l v e n a r i a
CANTO-XI
a
1 059
Mário Hélio
34-IV(Vegeptil)
lâmina de carne
carne de aço
expássaro vidrarte
rasga esse deus
tira a tua parte
o mundo é teu
a morte é uma arte
domina a dor
sereia de corpo na mão
centauro de nuvens azuis
braços nas mãos
lábios no fóssil
seios de vidro
musicacústica
baobás barrocos
vegetanimal
almas de metal
armas de ar puro
bizâncio lustral
cavaleiro eleito
nas mãos o cavalo
traga esse deus
arte da arte
a morte é uma parte
o mundo é teu
carne de aço
expássaro vidrarte
rasga esse deus
tira a tua parte
o mundo é teu
a morte é uma arte
domina a dor
sereia de corpo na mão
centauro de nuvens azuis
braços nas mãos
lábios no fóssil
seios de vidro
musicacústica
baobás barrocos
vegetanimal
almas de metal
armas de ar puro
bizâncio lustral
cavaleiro eleito
nas mãos o cavalo
traga esse deus
arte da arte
a morte é uma parte
o mundo é teu
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