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Poemas neste tema

Humor e Ironia

Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Dia Em Que Mandei Meu Pé-De-Meia Pro Espaço

e, eu disse, você pode pegar seus tios e tias ricos
e avós e pais
e todo o petróleo fétido deles
e seus sete lagos
e todos os seus perus
e búfalos
e o estado inteiro do Texas,
quer dizer, seus espantalhos
e suas caminhadas de sábado à noite no calçadão,
e sua biblioteca de 50 centavos
e seus vereadores corruptos
e seus artistas aveadados –
pode pegar tudo isso
e seu jornal semanal
e seus famosos tornados,
e suas nojentas enchentes
e todos os seus gatos miantes
e sua assinatura da Time,
e enfiar no rabo, baby,
bem no meio do rabo.
posso voltar a manusear uma picareta e um machado (acho)
e posso arranjar
25 pratas por uma luta de 4 assaltos (talvez);
claro, estou com 38
mas um pouco de tintura pode esconder os fios
grisalhos do meu cabelo;
e ainda posso escrever um poema (às vezes),
não se esqueça disso, e mesmo que
não rendam nada,
é melhor do que esperar por mortes e petróleo,
e dar tiros em perus selvagens,
e esperar que o mundo
comece a girar.
tudo bem, vagabundo, ela disse,
dê o fora.
o quê? eu disse
dê o fora. você teve seu
último acesso de fúria.
cansei dos seus acessos de fúria:
você sempre atua como um
personagem de uma peça de O’Neill.
mas eu sou diferente, baby,
não consigo
evitar.
você é diferente, essa é boa!
Nossa, quanta diferença!
não bata
a porta
quando sair.
mas, baby, eu amo o seu
dinheiro!
você nunca me disse
que me ama!
o que você quer afinal
um mentiroso ou um
amante?
de você não quero nada! se manda, vagabundo,
se manda!
... mas baby!
volta lá pro seu O’Neill!
fui até a porta,
fechei-a com cuidado e me afastei,
pensando: tudo o que elas querem
é um índio de madeira
que diga sim e não
e fique parado junto ao fogo e
não faça muito barulho;
mas acontece que você já não é mais
uma criança, rapaz;
da próxima vez jogue visando
o pé-de-
meia.

Passei o Natal com Betty. Ela assou um peru e nós bebemos. Betty sempre gostou de grandes árvores de Natal. Essa devia ter uns dois metros de altura por um de largura, coberta com luzes, lâmpadas elétricas, lantejoulas e outras porcarias. Bebemos várias doses de uísque, fizemos amor, comemos nosso peru, bebemos mais um pouco. O prego da base estava frouxo e a base não era grande o suficiente para dar suporte à árvore. Eu ficava tentando ajeitá-lo. Betty se esticou na cama e apagou. Eu bebia no chão, de cuecas. Então também me estiquei. Fechei os olhos. Alguma coisa me despertou. Abri os olhos. Bem a tempo de ver a enorme árvore coberta de luzes quentes se inclinar devagar em minha direção, a estrela pontuda descendo como uma adaga. Não consegui entender muito bem o que estava acontecendo. Parecia o fim do mundo. Não conseguia me mexer. Os galhos da árvore me impediam. Eu estava debaixo dela. As lâmpadas incandesciam.
– Oh, OH, JESUS CRISTO, TENHA PIEDADE! SENHOR, ME AJUDE! JESUS! JESUS! SOCORRO!
As lâmpadas me queimavam. Rolei para a esquerda, mas não consegui me libertar, depois rolei para a direita.
– AI!
Finalmente consegui escapar rolando de baixo da árvore. Betty estava de pé, parada.
– O que aconteceu? O que é isso?
– NÃO ESTÁ VENDO? ESSA MALDITA ÁRVORE TENTOU ME MATAR!
– O quê?
– SIM, OLHA PRA MIM!
Meu corpo estava coberto de marcas vermelhas.
– Oh, pobrezinho!
Segui até a parede e desliguei a árvore da tomada. As luzes se apagaram. A coisa estava morta.
– Oh, minha pobre arvorezinha!
– Pobre arvorezinha?
– É, me deu tanta pena!
– Amanhã de manhã eu boto ela de pé de novo. Não confio nela agora. Vou deixar que descanse durante a noite.
Ela não gostou da ideia. Senti que teria de enfrentar um bate-boca, então coloquei o negócio de pé, apoiado numa cadeira, e acendi as luzes outra vez. Se a coisa tivesse queimado seus peitos ou seu rabo, ela teria jogado o negócio pela janela. Aquilo me pareceu uma extrema gentileza da minha parte.
Alguns dias depois do Natal apareci na casa de Betti para vê-la. Ela estava sentada em seu quarto, bêbada, às 8h45 da manhã. Seu aspecto não era nada bom, o que também se poderia dizer de mim naquela ocasião. Era como se cada um dos pensionistas tivesse dado a ela um pouco de bebida. Havia de tudo: vinho, vodca, uísque, scotch. Das marcas mais baratas. As garrafas enchiam o quarto.
– Esses cretinos! Será que eles não conhecem ninguém melhor? Se você beber todo esse negócio é morte na certa!
Betty apenas me olhou. Pude perceber tudo naquele olhar.
Ela tinha um filho e uma filha que nunca vinham visitá-la, sequer lhe escreviam. Era uma faxineira num hotel barato. Quando a conheci, suas roupas eram caras, tornozelos bem torneados em sapatos de luxo. Era toda rija, quase bela. Olhos selvagens. Sorridente. Vinda de um marido rico, recém-divorciada, ele que logo morreria num acidente de carro, bêbado, queimado vivo em Connecticut.
– Você jamais irá domá-la – me diziam.
Ali estava ela. Mas eu tinha recebido alguma ajuda.
– Escute – eu disse –, tenho que levar uma parte desse negócio. Quero dizer, de vez em quando eu lhe entrego uma garrafa. Não vou bebê-las.
– Deixe as garrafas – disse Betty. Não me olhava. Seu quarto ficava no último andar e ela se sentava junto à janela, acompanhando o tráfego da manhã.
Me aproximei.
– Veja, estou acabado. Tenho que ir embora. Mas pelo amor de Deus, pegue leve com esse negócio!
– Claro – ela disse.
Inclinei-me e lhe dei um beijo de despedida.
Retornei cerca de uma semana e meia depois. Não houve qualquer resposta para as minhas batidas.
– Betty! Betty! Você está bem?
Girei a maçaneta. A porta estava aberta. A cama estava virada. Havia uma enorme mancha de sangue no lençol.
– Ah, caralho! – eu disse. Olhei em volta. Todas as garrafas tinham sumido.
Então olhei mais uma vez ao meu redor. Ali estava a francesa de meia-idade que era dona do lugar. Ficou junto à porta.
– Ela está no Hospital Geral do Condado. Estava muito doente. Chamei a ambulância na noite passada.
– Ela bebeu todo aquele negócio?
– Teve alguma ajuda.
Desci correndo as escadas e entrei no meu carro. Logo cheguei lá. Conhecia bem o lugar. Informaram-me o número do quarto.
Havia três ou quatro camas num quarto apertado. Uma mulher estava sentada sobre a sua no sentido cruzado, mastigando uma maçã e rindo com duas visitantes do sexo feminino. Puxei a cortina divisória que circundava a cama de Betty, sentei-me no banquinho e me inclinei sobre ela.
– Betty! Betty!
Toquei seu braço.
– Betty!
Seus olhos se abriram. Eram novamente belos. De um azul sereno e brilhante.
– Tinha certeza de que era você – ela disse.
Em seguida voltou a fechar os olhos. Seus lábios estavam ressecados. Restos de saliva amarelada haviam se acumulado no canto esquerdo de sua boca. Peguei um lenço e removi os resíduos. Limpei seu rosto, suas mãos, sua garganta. Peguei outro lenço e espremi um pouco de água em sua língua. Depois um pouco mais. Molhei seus lábios. Ajeitei seus cabelos. Podia ouvir as mulheres rindo através da cortina que nos separava.
– Betty, Betty, Betty. Por favor, quero que você beba um pouco de água, apenas um golinho, não precisa ser muito, só um gole.
Ela não respondeu. Tentei aquilo por uns dez minutos. Nada.
Mais restos de saliva se formaram em sua boca. Removi-os.
Então me levantei e fechei a cortina. Fiquei olhando para as três mulheres.
Me afastei e falei com a enfermeira encarregada.
– Escute, por que ninguém faz nada em relação à mulher do 45-c? Betty Williams.
– A gente faz o que pode, senhor.
– Mas não há ninguém ali.
– Fazemos nossas rondas regulares.
– Mas onde estão os médicos? Não vi nenhum médico.
– O doutor já a examinou, senhor.
– Como é que vocês a abandonam lá daquele jeito?
– A gente faz o que pode, senhor.
– SENHOR! SENHOR! SENHOR! ESQUEÇA ESSA PORRA DE “SENHOR”! Aposto que se fosse o presidente ou o governador ou o prefeito ou um filho da puta qualquer cheio da grana, então haveria um montão de médicos ao redor do quarto fazendo alguma coisa! Por que vocês simplesmente não deixam o pessoal morrer? Que pecado há em ser pobre?
– Já lhe disse, meu senhor, estamos fazendo TUDO ao nosso alcance.
– Voltarei em duas horas.
– O senhor é o marido?
– Eu vivia com ela em concubinato.
– Pode nos deixar seu nome e um número de telefone?
Passei-lhe as informações e saí apressado.
O funeral estava marcado para as dez e meia e já fazia calor. Eu vestia um terno preto barato, comprado e ajustado às pressas. Era o meu primeiro terno novo em anos. Conseguira localizar o filho. Seguimos em seu Mercedes-Benz novinho. Tinha conseguido localizá-lo com a ajuda de uma tira de papel com o endereço de seu sogro. Duas chamadas de longa distância e cheguei até ele. Quando finalmente conseguiu se deslocar até aqui, sua mãe já estava morta. Morreu enquanto eu fazia as ligações. O rapaz, Larry, jamais tinha se enquadrado nas normas da sociedade. Tinha o hábito de roubar os carros dos amigos, mas entre os amigos e o tribunal dava um jeito de resolver as coisas. Então o exército o apanhou, e, de alguma maneira, entrou para um programa de treinamento, o que fez com que, assim que saísse, arranjasse um emprego muito bem pago. Foi quando deixou de ver a mãe, quando conseguiu esse bom emprego.
– Onde está sua irmã? – perguntei.
– Não sei.
– É um carro bacana. Não dá nem pra ouvir o motor.
Larry sorriu. Gostou do comentário.
Havia apenas três pessoas acompanhando o funeral: o filho, o amante e a irmã retardada da dona do hotel. Seu nome era Marcia. Marcia nunca dizia nada. Ficava apenas sentada, com um sorriso vazio nos lábios. Sua pele era branca como esmalte. Tinha um cabelo armado, de um amarelo mortiço, e um chapéu que não assentava. Marcia havia sido mandada pela dona do hotel para representá-la. A dona não podia perder seu negócio de vista.
Claro, eu estava com uma ressaca dos diabos. Paramos para tomar um café.
Àquela altura, então, já tinham ocorrido alguns problemas com o funeral. Larry tivera uma discussão com o padre católico. O padre não queria realizar o serviço. Finalmente foi decidido que ele faria o serviço pela metade. Bem, metade era melhor do que nada.
Tivemos problemas até com as flores. Eu havia comprado uma coroa de rosas, rosas misturadas, que foram arranjadas de modo a compor uma coroa. A floricultura passou a tarde inteira em cima do arranjo. A dona da floricultura tinha conhecido Betty. Haviam tomado umas e outras na época em que Betty e eu, alguns anos antes, morávamos numa casa com cachorro. Seu nome era Delsie. Sempre desejara chegar ao que estava debaixo das calcinhas de Delsie, mas nunca tinha conseguido.
Delsie tinha me telefonado.
– Hank, qual é o problema com esses cretinos?
– Que cretinos?
– Esses caras da funerária.
– Qual é o problema?
– Bem, eu mandei um rapaz na caminhonete para entregar a coroa e eles não deixaram ele entrar. Disseram que estavam fechados. Você sabe, é uma distância enorme.
– E aí, Delsie?
– Bem, por fim os caras deixaram ele pôr as flores para dentro, mas não pôde colocá-las no refrigerador. Então o rapaz teve que deixar elas ali mesmo. Que diabos há com essas pessoas?
– Não sei. Que diabos há com todo mundo?
– Não conseguirei ir ao funeral. Você está bem, Hank?
– Por que você não vem me consolar?
– Teria que levar o Paul.
Paul era seu marido.
– Esqueça.
Então assim estávamos, a caminho de nosso meio-funeral.
Larry ergueu os olhos do café.
– Vou escrever para você mais tarde para a gente ver o negócio da lápide. Agora estou pelado.
– Tudo bem – eu disse.
Larry pagou os cafés, então nós saímos e embarcamos no Mercedes-Benz.
– Espere um minuto – eu disse.
– O que foi? – perguntou Larry.
– Acho que esquecemos alguma coisa.
Retornei ao café.
– Marcia.
Ela seguia sentada à mesa.
– Estamos indo, Marcia.
Ela se levantou e me seguiu até a rua.
– Cartas na rua
1 261
Charles Bukowski

Charles Bukowski

retrato de uma alma para moscas

ele é um homem com camisa de baixo usadíssima de desbotada
revolução
avançando a matemática de sua impureza rumo ao
zero final
e despertando esta manhã com o sabor do salmão
em minha língua
pensei nele
embora eu sentisse precisar de um sacerdote
ou pelo menos da carícia de sua mulher do lar
para devolver a minhas partes íntimas alguma partícula de
majestade

há uma carta na mão dele
de um homem rico em Santa Fé:
"Você está deslizando, você está deslizando, V. e eu
que somos seus fãs de muitos anos
estamos seriamente preocupados com seu declínio
artístico - muito embora sua popularidade ainda pareça estar
subindo. por que você não consulta um psiquiatra e faz com que a
rolha seja expelida de sua
bunda?

os comprimidos de Alka-Seltzer, como aranhas rastejantes,
ganham vida enquanto seu gato branco se senta dentro da janela
olhando para ele
meu gato é bonitão, ele pensa,
meu gato não precisa ficar SE FAZENDO
na labuta
do ideal americano
e ele mete seu nariz
seu nariz ideal americano
nas bolhas nítidas de que o gato nunca precisa
e bebe as bolhas
enquanto a transpiração da noite -18 cervejas e meio litro de scotch ontem
moureja por suas orelhas e pescoço

eu devia chamar Fat Freddy o Arremessador de Bosta
eu devia encontrar uma montanha de bronze para esconder minha
psique de quitandeiro ambulante embaixo

um pássaro se eleva na moita lá fora
apanhado entre o sol e ele mesmo
e a mancha de uma enorme sombra de asa
passa por cima dele
passa por cima do canto da casa -

o gato pula contra a tela
e tudo é mais velho do que a Normandia e Stalingrado
e o bombardeio dos portos

Winston Churchill
com cérebro de criança

cuspe no queixo
acena para a multidão desnorteada de amor
da janela alta
e então ele está morto
como quase tudo
mais

mas o homem com a camisa de baixo usadíssima:
seu gato está zangado
a tela o enganou
e os olhos amarelos do gato despencam sobre os dele
que nem os olhos de um pequeno empresário
que certa vez o demitiu por vadiar
no almoxarifado

"vai à merda você", ele diz ao gato, "e
à merda todas as condutas pouco talentosas de meu
talento minguante."

30 minutos depois
aquela primeira garrafa de cerveja
é melhor do que qualquer sexo em qualquer lugar do mundo
com qualquer vaca de bunda grande
da qual
ele jamais rasgou seda e renda

ele entra no quarto em que sua mulher está sentada
embalando na barriga o filho dele
e tira o cigarro da mão dela
coloca na própria boca
e tosse tosse tosse
e ainda o talento minguante
ele pensa, já ouvi essa tosse antes:

cavalo trincando lavagem de saliva em bocal de ferro
enquanto puxa sua primeira carroça de lixo
pela inútil e gélida manhã
em certa cidade pequena
na qual um único homem possui um
Mercedes

ele está suando
deve estar fedendo
mas as paredes são educadas
e ele segura meia cerveja numa garrafa
e a mulher fala:
espero que não tenha sido a sério tudo aquilo que você disse ontem à noite."

"ah, só as coisas boas."

"bem, isso já é uma redução.
você não vai beber hoje?"

"só um pouquinho, querida. eu sou um covarde."

"alimente o gato."

"tá."

na porta está um mensageiro da Western Union. ele lhe dá uma
gorjeta insubstancial e o mensageiro se manda
suando
o batalhador americano
Deus o proteja
PRAZO FINAL PARA NOSSA EDIÇÃO DE POESIA ORIGINAL
A SAIR EM SETEMBRO É 17 DE AGOSTO EU
GOSTARIA MUITO DE UMA CONTRIBUIÇÃO SUA A ESSA
EDIÇÃO EXCLUSIVA MEUS MELHORES CUMPRIMENTOS
GENE COLE INTERMISSION MAGAZINE
3212 NORTH BROADWAY
CHICAGO
ILL
"alguém morreu?"

ele passa para ela
o telegrama

"uuuh, você está famoso!"
"consigo até ver agora: eu e Genet e Sartre
bebendo juntos num café de calçada em Parri."
"quem são eles?"

"ninguém. outros geni."

"ah. bem, alimente o gato."

então alimentei o gato
bebi mais 18 latas de cerveja e
escrevi
isto.
1 140
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Treinando para Kid Aztec

eu era um cara moço em Los Angeles.
havia uns bares pequenos
em torno do Plaza, pequenos bares
mexicanos, e havia um
grande, bem-freqüentado, e eu
comecei a noite por ele
mas ele estava muito comportado
cheio de trabalhadores decentes
e aí eu saí
e encontrei um beco pequeno e torto,
escuro,
e segui por ele
com meu canivete no bolso até
que encontrei esse pequeno bar
lá no fim
e entrei
sentei num banco e pedi
uma garrafa de cerveja.
havia quatro mexicanos lá dentro
incluindo o cara do balcão

e eu sentei olhando firme
para a frente
tomando um gole do meu copo
de quando em quando.

eu estava um filho-da-puta muito louco
pronto para ir até o fim
melhor não me
sacanear...

acabei a garrafa
pedi outra.

"onde diabos
estão as mulheres?" perguntei.

nenhuma resposta.

"eu não devia estar aqui",
eu disse, "estou treinando para uma
luta no Olímpico, uma de
quatro rounds, contra o Kid
Aztec..."

silêncio.

desci do meu banco, fiquei
de pé, escarneci: "alguém aqui topa
treinar um pouquinho, hã?"

nenhuma resposta.

botei uma moeda na
vitrola de ficha.
a música começou e comecei
a fazer boxe-sombra
com ela.

quando acabou
eu sentei e
pedi outra cerveja.

"sou um matador", eu disse
ao dono do bar, "um matador
nato... tenho pena
do Kid Aztec..."

o homem recebeu meu
dinheiro, e guardou
na registradora tilitante
de costas para mim.

eu disse para as costas
dele: "e acima de tudo
eu sou um escritor.
escrevo contos,
romances, poemas,
ensaios..."

"Señor, escreve
poemas?", perguntou um
mexicano grandão lá do fim
do bar.

"pô, claro..."

"e sobre que são
esses' poemas?"

"o amor..."

"oh, o amor, Señor?"

"poemas de amor para a
Morte..."

esvaziei minha garrafa
e pedi outra.

"eu também escrevo,
Señor..."

"ah, é?”

"oh, sim, eu meto minha caneta
nas mulheres e escrevo
lá dentro delas."

os outros mexicanos
riram.
esperei até que
parassem.

"vocês são uns idiotas, vocês
riem como uns idiotas!"

"talvez, Señor, mas até idiotas
têm direito de rir,
não?"

tirei o rótulo da cerveja,
colei-o no tampo
do bar, terminei
a garrafa.

"outra cerveja, Señor?", perguntou
o dono do bar.

"nah, já chega, tenho que
descansar..."

caminhei para a
saída.

"boa sorte na sua luta com
Kid Aztec, Senör", disse
alguém.

caminhei de volta pelo
pequeno beco, parei para vomitar num
canto escuro, terminei e alcancei
a rua,
procurando um poema, um bar
melhor, alguma coisa,
qualquer coisa.

eu só tinha enchido o saco deles com
minha periculosidade.
toda noite era a
mesma coisa e de dia era ainda
pior.

parei numa árvore na
esquina do Plaza
para acender um cigarro
e para tentar parecer com
um matador

ninguém notou.

talvez não viessem
a notar nunca.

segurei o fósforo aceso
por tempo demais, ele queimou meus
dedos.
praguejei alto, dei partida e
comecei a caminhar
para a estação de
trem

alguém tinha me avisado
que as putas estavam
chupando bem, lá,
nas escuras rampas de acesso...
1 114
Charles Bukowski

Charles Bukowski

o tortuoso bem de socorrer quem sofre

tendo ficado muito magro e nervoso
como um músico passando fome
alimentei-o bem
e ele ficou gordo
como um texano magnata do petróleo e não tão
nervoso
mas mesmo assim
esquisito.

adormecido na cama eu desperto
e seu nariz está tocando meu
nariz e aqueles
grandes olhos amarelos
SONDANDO
o que resta de minha alma
e aí eu digo -
Sai, desgraçado!
tira esse seu nariz do meu
nariz!
ronronando como uma aranha cheia de
moscas ele se afasta um
pouco.

eu estava na banheira ontem
e ele veio andando
pernas esticadas alto
cauda sacudindo
e eu ali
fumando um charuto e lendo a
NEW YORKER
e ele pulou na borda da
banheira
equilibrando-se sobre o marfim escorregadio
curvando-se
e eu disse a ele:
meu caro, o senhor é um gato e gatos
não gostam de água.
mas ele se voltou rumo às torneiras
e ficou pendurado ali com seus pés pretos
e a outra parte dele estava
de cabeça para baixo
farejando a água e a água estava
QUENTE e ele começou a bebê-la
a fina língua vermelha
acanhada e milagrosa
mergulhando na água quente
e ele continuou
farejando
tentando imaginar o que eu estava fazendo ali dentro
o que eu via de tão bom naquilo
e então aquele tolo branco e gordo
caiu na água! -
nós todos saímos dali
molhados e velozes;
gato, eu, charuto e NEW YORKER
salivando, soando, silvando, ensaboados
e minha esposa entrou correndo
MEU DEUS! O QUE ACONTECEU? O QUE ACONTECEU?
falei por entre meu charuto desemaranhado:
o cara não pode nem mesmo ter um pouco de privacidade
em sua própria banheira, foi isso!
ela somente riu de nós
e O gato sequer ficou zangado
ainda estava molhado e inchado
exceto pelo rabo
que agora parecia quase tão fino quanto um
rabo de rato e muito triste e
ele começou a se
lamber.
usei uma toalha,
então fui para o quarto
deitei na cama
e tentei encontrar meu lugar na
revista.

mas o bom humor estava desfeito
larguei a publicação de lado
e olhei para o teto
lá para o espaço onde Deus supostamente
estava
então escutei:
MIIIAuiAU!

o próximo gato desgarrado que aparecer na minha porta vai
continuar sendo um
desgarrado.
1 161
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Entrevistado por um Ganhador do Guggenheim

esse sul-americano ganhador de um Gugg
entrou aqui com a prostituta dele
e ela sentou na beira da minha cama e
cruzou suas pernas ótimas
e eu fiquei olhando para as pernas dela
e ele apertou o nó da gravata
e eu estava de ressaca
e ele me perguntou
QUE PENSA VOCÊ DOS POETAS
AMERICANOS?
e eu disse que não pensava muita coisa
dos poetas americanos
e aí ele foi em frente e perguntou alguma
outra coisa bem idiota
(enquanto as pernas da puta se estendiam ao longo
do meu cérebro) como por exemplo
BEM, VOCÊ NÃO SE INCOMODA COM NADA,
MAS SE VOCÊ ESTIVESSE DANDO UMA AULA E UM DOS
ALUNOS PERGUNTASSE QUAIS OS POETAS AMERICANOS QUE
ELE DEVERIA LER,
O QUE VOCÊ RESPONDERIA?

ela cruzava as pernas enquanto eu olhava e pensei
que podia botar ele a nocaute com um direto só
estuprar a mulher em 4 minutos
pegar um trem para LA
saltar no Arizona e caminhar para o deserto
e poderia dizer a ele que eu nunca ensinaria a uma
turma
que além de não gostar da poesia americana
eu também não gostava de alunos americanos
nem do trabalho que eles esperariam que
eu fizesse,
então eu disse
Whitman, T. S.Eliot, D. H. Lawrence nos poemas sobre
cobras e bichos, Auden. e aí
constatei que Whitman era o único americano verdadeiro,
que Eliot de certo modo não era americano e os
outros também não, e
ele também sabia disso
ele sabia que eu estava cagando
mas não me desculpei
pensei um pouco mais sobre o estupro
quase amei a mulher mas sabia que quando ela se mandasse
nunca mais a vería de novo
e apertamos as mãos e o Gugg disse

que mandaria o artigo quando fosse publicado
mas eu sabia que ele não conseguira um artigo
e ele também sabia
e então ele disse
vou lhe mandar alguns dos meus poemas traduzidos
para o inglês
e eu disse ótimo
e fiquei vendo eles irem embora
os saltos altos dela batendo
nos degraus verdes
e logo tinham ido
mas eu fiquei me lembrando do vestido dela deslizando sobre tudo nela
como uma segunda pele
e fiquei furioso me lamentando e com amor e tristeza
e por ser um imbecil incapaz de
comunicar
nada
e entrei e terminei aquela cerveja
abri outra
vesti meu velho manto real
e saí para a rua de New Orleans
e nessa mesma noite
sentei com meus amigos e fui cafajeste e
um cretino
todo cheio de bravata e maldade
e eles nunca
e crueldade
souberam por quê.
1 096
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Nós, Os Artistas...

em São Francisco a senhoria, 80, me ajudou a arrastar a vitrola
verde escada acima e eu tocava a Quinta do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um grande balde no meio do quarto
cheio de garrafas de vinho e cerveja;
então, deve ter sido delirium tremens, pois certa tarde
ouvi um som parecido com uma campainha
exceto pelo fato de que a campainha zunia em vez de bater,
e então uma luz dourada apareceu no canto da peça
junto ao teto
a através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, maltratada mas bonita,
e ela me olhou lá de cima
e depois a face de um homem juntou-se à dela,
a luz se tornou mais forte o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o rapazinho está assustado,
e eu estava, e logo desapareceram.
levantei, me vesti, e fui para o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que deveriam se
orgulhar de mim. havia algumas almas no bar
e descolei uns drinques de graça, pus fogo nas minhas calças com as
cinzas do meu cachimbo de vime, quebrei um copo deliberadamente,
não fui expulso, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos juntos até uma mulher entrar e
puxá-lo pela orelha e então pensei, não, esse não pode ser
William, e outro cara entrou e disse: cara, você fala
grosso, bem, escute, acabei de sair por roubo e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, era um cara legal, sabia como brigar, e aquela luta seguiu
bastante parelha, então eles pararam e nós voltamos para
dentro e bebemos por mais um par de horas. Voltei para
casa, coloquei a Quinta de Beethoven e
quando eles batem nas paredes eu bato
de volta.
sigo pensando em quando eu era jovem, naquela época, em como eu era,
e mal posso acreditar nisso tudo, mas não importa.
espero que os artistas continuem orgulhosos de mim
mas eles jamais voltaram a
aparecer.
a guerra irrompeu e quando percebi
estava em Nova Orleans
entrando bêbado em um bar
após ter caído na lama numa noite chuvosa.
Vi um homem esfaquear outro e não me importei e
pus um níquel no jukebox.
era um jeito de começar. San
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
1 157
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Para o Engraxate

o equilíbrio está nas lesmas escalando as
falésias de Santa Monica;
a sorte está em descer a Western Avenue
e acontecer que uma das garotas de uma casa
de massagem grite pra você “Alô, Doçura!”
o milagre está em ter cinco mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos de idade,
e o bom de tudo é que você só é capaz
de amar uma delas.
o dom está em ter uma filha mais delicada
do que você é, cuja risada é mais bela
do que a sua.
a placidez está em ser capaz de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado no Apresentador que Mais Ama
Você, sentindo o sol, sentindo o sólido ronco
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego
e deixa os mortos putos da cara.
a graça está em ser capaz de gostar de rock,
música sinfônica, jazz...
tudo que contenha o júbilo da energia
original.
e a matemática que retorna
é o profundo baixo-astral sob
você estendido sobre você
entre as paredes de guilhotina –
furioso com o som do telefone
ou com os passos de qualquer um passando;
e a outra matemática:
a iminente animação que se segue
fazendo com que os caras sentados nos bancos
junto aos carrinhos de taco
pareçam gurus
fazendo com que a garota do caixa no
supermercado pareça
Marilyn
ou Zsa Zsa
ou Jackie antes de pegarem seu amante de Harvard
ou a garota do ensino médio que
todos nós garotos seguíamos até em casa.
e a pureza que ajuda você a crer
em algo além da morte
é Sandy Hawley montando
cinco vencedores no Hollywood Park, cavalos fora de forma,
nenhum deles favorito,
ou alguém num carro que se aproxima de você
numa rua estreita demais,
e ele ou ela desvia de lado pra deixar você
passar, ou o velho lutador Beau Jack
engraxando sapatos
após ter torrado seu pé-de-meia todo
com festas
com mulheres
com parasitas,
cantarolando, soprando no couro,
mandando ver com o trapo,
olhando pra cima e dizendo:
“Que diabo, por um momento
eu tive tudo. uma coisa ganha da
outra”.
por vezes me mostro muito amargo
mas o gosto tem sido com frequência
doce, é só que tive
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz
“fala que me ama”
e você não consegue dizer.
se você chegar a me ver sorrindo em
meu Fusca azul
cruzando um sinal amarelo
dirigindo direto rumo ao sol
sem óculos escuros
estarei apenas trancado na
tarde de uma
vida louca
pensando em trapezistas de circo
em anões com charutos enormes
num inverno russo no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polonesa
ou numa velha garçonete me trazendo uma xícara
extra de café e parecendo rir de mim
enquanto me serve.
do melhor de você
eu gosto mais do que você imagina.
os outros não contam
exceto que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos bons e ruins
e um caminho para seguir.
o equilíbrio está em toda parte e está funcionando
e as metralhadoras e as rãs
e as sebes podem lhe contar
isso.
712
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Uma Definição

o amor não passa de farol aceso à
noite cortando a névoa
o amor não passa de uma tampinha de cerveja
na qual você pisa a caminho
do banheiro
o amor é a chave perdida da sua porta
quando você está bêbado
o amor é o que acontece um dia por
ano
um ano a cada dez
o amor são os gatos esmagados
do universo
o amor é um jornaleiro na
esquina que
desistiu
o amor são as primeiras 3 filas de
potenciais matadores no
Olympic Auditorium
o amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu
o amor é o que desapareceu com a
era dos encouraçados de batalha
o amor é o telefone tocando
e a mesma voz ou outra
voz mas nunca a voz
certa
o amor é traição
o amor é o bebum
sendo queimado no beco
o amor é aço
o amor é a barata
o amor é uma caixa de correio
o amor é chuva batendo no telhado
do hotel mais barato
de Los Angeles
o amor é o seu pai que
detestava você dentro de um caixão
o amor é um cavalo com a
perna quebrada
tentando ficar de pé
enquanto 55.000 pessoas
observam
o amor é o nosso jeito de ferver
como a lagosta
o amor é um cigarro de filtro
preso na sua boca e
aceso pela ponta errada
o amor é tudo que dissemos
que não era
o amor é o Corcunda de
Notre Dame
o amor é a pulga que você não consegue
encontrar
o amor é o mosquito
o amor são 50 granadeiros
o amor é o mais vazio dos
urinóis
o amor é uma rebelião em Quentin
o amor é um manicômio lotado
o amor é um burro cagando numa
rua de moscas
o amor é um banco de bar quando
ninguém está sentado nele
o amor é um filme do Hindenburg
se desmanchando em pedaços
em tempos que ainda gritam
o amor é Dostoiévski na
roleta
o amor é o que rasteja
pelo chão
o amor é a sua mulher dançando
apertada nos braços de um estranho
o amor é uma mulher velha
beliscando um naco de pão
o amor é uma palavra usada
constantemente
muitíssimo constantemente
o amor são telhados vermelhos e telhados
verdes e telhados azuis
e voar em aviões a jato
isso é tudo.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Fim de Um Breve Caso

tentei fazer de pé
dessa vez.
geralmente não
funciona
dessa vez parecia
estar...
ela ficava dizendo
“ah, meu Deus, você tem
pernas lindas!”
tudo ia bem
até que ela tirou os pés do
chão e
enroscou as pernas
em volta da minha cintura.
“ah, meu Deus, você tem
pernas lindas!”
ela pesava uns 63
quilos e ficou ali pendurada enquanto eu
trabalhava.
foi quando cheguei ao clímax
que senti a dor
subir voando por minha
espinha.
larguei-a no
sofá e andei ao redor
da sala.
a dor continuava.
“olha só”, eu lhe falei,
“é melhor você ir. preciso
revelar um filme
na minha câmara escura.”
ela se vestiu e foi embora
e eu fui até a
cozinha para tomar um copo
d’água. peguei um copo cheio
com a mão esquerda.
a dor subiu por trás das minhas
orelhas e
deixei cair o copo
que se quebrou no chão.
entrei numa banheira cheia de
água quente e sais de Epsom.
mal tinha acabado de me esticar
quando o telefone tocou.
tentei endireitar
minhas costas
a dor se estendeu por meu
pescoço e braços.
fiquei baqueando,
agarrei as bordas da banheira,
saí
com jatos luminosos verdes e amarelos
e vermelhos
turbilhonando na minha cabeça.
o telefone continuava tocando.
atendi.
“alô?”
“EU TE AMO!”, ela disse.
“obrigado”, eu disse.
“isso é tudo que você tem
pra dizer?”
“sim.”
“vá à merda!”, ela falou e
desligou.
o amor se esgota, pensei
enquanto voltava para o
banheiro, quase tão rápido quanto
esperma.

"NÃO ESTÁ FUNCIONANDO, ESTÁ?"
1 403
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Dia Em Que Joguei Pela Janela Uma Grana Preta

e, eu disse, você pode pegar seus ricos tios e tias
e avós e pais
e todo aquele petróleo escroto deles
e seus sete lagos
e seus selvagens perus
e búfalos
e o estado inteiro do Texas,
quer dizer, seus fuzilamentos de corvos
e seus calçadões de sábado à noite,
e sua biblioteca de meia-tigela
e seus vereadores corruptos
e seus artistas veadinhos –
você pode pegar tudo isso
e o seu jornal semanal
e os seus famosos tornados
e as suas enchentes imundas
e todos os seus gatos uivantes
e a sua assinatura da Time,
e enfiar lá, bebê,
enfiar lá.
posso empunhar de novo a picareta e o machado (acho)
e posso descolar
25 pratas por uma luta de 4 assaltos (talvez);
claro, estou com 38
mas um pouco de tintura pode tirar o grisalho
do meu cabelo;
e ainda consigo escrever poemas (às vezes),
não se esqueça disso, e mesmo que
não rendam nada,
é melhor do que esperar por mortes e petróleo,
e atirar em perus selvagens,
e esperar que o mundo
comece.
tá bom, vagabundo, ela disse,
cai fora.
o quê?, eu disse
cai fora. você teve o seu último
acesso de fúria.
cansei dos seus malditos acessos de fúria:
você está sempre agindo como um
personagem
de uma peça de O’Neill.
mas eu sou diferente, bebê,
não consigo
evitar.
você é diferente, tá bom!
meu Deus, quanta diferença!
não bata
a porta
quando sair.
mas, bebê, eu amo o seu
dinheiro!
você nunca me disse
que me ama!
o que você quer
um mentiroso ou um
amante?
você não é nenhum dos dois! fora, vagabundo,
fora!
...mas bebê!
volte pro O’Neill!
fui até a porta,
fechei-a sem barulho e fui embora,
pensando: tudo que elas querem
é um índio de madeira
que diga sim e não
e fique parado acima do fogo e
não infernize demais;
mas você já está ficando
velho, garoto;
da próxima vez não abra
tanto
o jogo.
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