Poemas neste tema
Humor e Ironia
Charles Bukowski
Batendo Pé No Savoy
agora ouça, Capitão, eu quero os andantes feridos em
seus postos, não podemos poupar um só homem, se esses
chucrutes soubessem que nossas fileiras estão escasseando eles
nos comeriam vivos e estuprariam nossas mulheres e crianças
e, deus nos ajude, nossos bichinhos
também!
sem água? faça com que bebam o próprio sangue!
o que você acha que isso é, um maldito
piquenique?
vou te dar um piquenique enfiado no teu
rabo! tá
entendendo?
agora ouça... nós atraímos eles, flanqueamos,
eles vão engolir a própria merda de
pânico!
usaremos seus ossos pra fazer estacadas!
vocês serão heróis para nossas damas, elas
lamberão suas bolas com gratidão Eternidade adentro!
entendeu?
desistentes não vencem, e além disso, qualquer
homem que eu ver recuando eu vou abrir nele um
buraco tão grande que você vai poder ver
o cu da sua vó colhendo margaridas em
Petaluma!
tá me ouvindo?
ah, merda! me acertaram! chama o doutor! chama todos
os doutores!
veado! quem podia imaginar? deu sorte!
esses chucrutes não acertam um sonho molhado a
3 passos!
Capitão! você está no comando! se você fizer
cagada eu torço suas pernas e meto
as duas no seu traseiro idiota! entendeu?
não quero esses chucrutes enfiando os dedos na Melba
na varanda!
Deus está do nosso lado! Ele me disse uma vez, “Ouça,
esses chucrutes precisam ter fim! eles não lavam
os sovacos e penteiam os cabelos com
geleia de pêssego!”
Capitão! acho que vou indo! chame uma enfermeira
aqui, preciso de um boquete! e depressa! essa
guerra não pode esperar o dia todo!
seus postos, não podemos poupar um só homem, se esses
chucrutes soubessem que nossas fileiras estão escasseando eles
nos comeriam vivos e estuprariam nossas mulheres e crianças
e, deus nos ajude, nossos bichinhos
também!
sem água? faça com que bebam o próprio sangue!
o que você acha que isso é, um maldito
piquenique?
vou te dar um piquenique enfiado no teu
rabo! tá
entendendo?
agora ouça... nós atraímos eles, flanqueamos,
eles vão engolir a própria merda de
pânico!
usaremos seus ossos pra fazer estacadas!
vocês serão heróis para nossas damas, elas
lamberão suas bolas com gratidão Eternidade adentro!
entendeu?
desistentes não vencem, e além disso, qualquer
homem que eu ver recuando eu vou abrir nele um
buraco tão grande que você vai poder ver
o cu da sua vó colhendo margaridas em
Petaluma!
tá me ouvindo?
ah, merda! me acertaram! chama o doutor! chama todos
os doutores!
veado! quem podia imaginar? deu sorte!
esses chucrutes não acertam um sonho molhado a
3 passos!
Capitão! você está no comando! se você fizer
cagada eu torço suas pernas e meto
as duas no seu traseiro idiota! entendeu?
não quero esses chucrutes enfiando os dedos na Melba
na varanda!
Deus está do nosso lado! Ele me disse uma vez, “Ouça,
esses chucrutes precisam ter fim! eles não lavam
os sovacos e penteiam os cabelos com
geleia de pêssego!”
Capitão! acho que vou indo! chame uma enfermeira
aqui, preciso de um boquete! e depressa! essa
guerra não pode esperar o dia todo!
989
Charles Bukowski
Os Dias Gloriosos
os rios mortos correm para trás em direção a lugar nenhum,
os peixes gritam através das memórias de neon,
e me lembro de você bêbada na cama
naquele quarto barato de hotel
sem ninguém com quem morar além de mim,
que inferno arrastado deve ter
sido, você com
um jovem beberrão dez anos mais novo
andando pelo quarto de cueca e
se gabando aos deuses surdos enquanto
estilhaçava copos nas paredes.
você certamente se viu deslocada no espaço e no
tempo,
seu casamento quebrado sobre ladrilhos
manchados
e você
sendo comida por um
otário de suíças aterrorizado pela
vida, surrado pelo acaso, aquela
coisa
andando pelo quarto, úmido cigarro enrolado
na boca de macaco, então
parando para
abrir outra garrafa de vinho
vagabundo.
os rios mortos de nossas vidas,
corações como pedras.
sirva o sangue vermelho do vinho.
pragueje, reclame, chore, cante
naquele quarto barato de hotel.
você, acordando... “Hank?”
“hã... aqui... que porra você
quer?”
“diabo, me dá uma bebida...”
o desperdício
mas a coragem da
aposta.
de onde virá o aluguel devido?
vou arranjar um emprego.
você vai arranjar um emprego.
sim, baita chance, baita bosta de
chance
seja como for, vinho suficiente nos leva além do
pensamento.
eu quebro um enorme copo na
parede.
o telefone toca.
é o recepcionista de novo:
“Sr. Chinaski, devo advertir...”
“ah, vai advertir a boceta da tua mãe!”
o telefone batido com força.
poder.
sou um homem.
se você gosta de mim, gosta disso.
e sou inteligente também, sempre te
disse isso.
“Hank?”
“hã?”
“quantas garrafas temos ainda?”
“3.”
“que bom.”
andando pelo quarto, tentando voar, tentando
viver.
memórias de neon gritam o peixe.
4o andar de um hotel da 6th street, janelas
abertas para a cidade do inferno, a preciosa respiração
dos pombos solitários.
você bêbada na cama, eu brincando de milagre,
rolhas de garrafa de vinho e cinzeiros cheios.
e como se todo mundo estivesse morto, todo mundo
morto com as cabeças no lugar,
precisamos conquistar o açoite do
lugar nenhum.
me veja de camiseta e cueca,
pés descalços sangrando cacos de vidro.
existe certa saída que começa com
3 garrafas
restantes.
os peixes gritam através das memórias de neon,
e me lembro de você bêbada na cama
naquele quarto barato de hotel
sem ninguém com quem morar além de mim,
que inferno arrastado deve ter
sido, você com
um jovem beberrão dez anos mais novo
andando pelo quarto de cueca e
se gabando aos deuses surdos enquanto
estilhaçava copos nas paredes.
você certamente se viu deslocada no espaço e no
tempo,
seu casamento quebrado sobre ladrilhos
manchados
e você
sendo comida por um
otário de suíças aterrorizado pela
vida, surrado pelo acaso, aquela
coisa
andando pelo quarto, úmido cigarro enrolado
na boca de macaco, então
parando para
abrir outra garrafa de vinho
vagabundo.
os rios mortos de nossas vidas,
corações como pedras.
sirva o sangue vermelho do vinho.
pragueje, reclame, chore, cante
naquele quarto barato de hotel.
você, acordando... “Hank?”
“hã... aqui... que porra você
quer?”
“diabo, me dá uma bebida...”
o desperdício
mas a coragem da
aposta.
de onde virá o aluguel devido?
vou arranjar um emprego.
você vai arranjar um emprego.
sim, baita chance, baita bosta de
chance
seja como for, vinho suficiente nos leva além do
pensamento.
eu quebro um enorme copo na
parede.
o telefone toca.
é o recepcionista de novo:
“Sr. Chinaski, devo advertir...”
“ah, vai advertir a boceta da tua mãe!”
o telefone batido com força.
poder.
sou um homem.
se você gosta de mim, gosta disso.
e sou inteligente também, sempre te
disse isso.
“Hank?”
“hã?”
“quantas garrafas temos ainda?”
“3.”
“que bom.”
andando pelo quarto, tentando voar, tentando
viver.
memórias de neon gritam o peixe.
4o andar de um hotel da 6th street, janelas
abertas para a cidade do inferno, a preciosa respiração
dos pombos solitários.
você bêbada na cama, eu brincando de milagre,
rolhas de garrafa de vinho e cinzeiros cheios.
e como se todo mundo estivesse morto, todo mundo
morto com as cabeças no lugar,
precisamos conquistar o açoite do
lugar nenhum.
me veja de camiseta e cueca,
pés descalços sangrando cacos de vidro.
existe certa saída que começa com
3 garrafas
restantes.
1 003
Charles Bukowski
Ai Disse a Vaca À Cerca Que Ligava
, esperneiam esses bebês idiotas,
os leprosos se embebedaram de leite
de coco
, o último sonho do pervertido foi
bacon misturado com torta
de anca
, morto é morto que chega
torto é torto que chega
e o cavalo falhou na
cara da rainha
e uma hora depois
ela estava com as bolas dele na mão
e a cabeça dele montada entre
as manoplas da motocicleta de
Hades
, as verdes florestas na minha mente
estão cegas
enquanto levo a mão ao rolo de papel
higiênico
o mundo late uma vez e
desaparece
, baunilha, baunilha, baunilha,
imagine você no bolso traseiro
de Prokofiev durante uma tempestade
de verão perante a casa de campo de um
comedor de cães bebedor de
vermute
, Paris é um lugar nas cercanias de
lugar nenhum que costumava
ser
, fico recebendo ligações telefônicas
de pessoas totalmente loucas que
me amam porque acreditam
que a minha loucura justifica a delas
o que é pior do que baixíssima
categoria
, a dor é como um foguete, sinta
o bastante
que ela te projeta através
e além de toda a baboseira
por um tempo
apenas
, a dama me trouxe uma bebida
e eu trouxe à dama uma bebida
e a dama me trouxe uma
bebida
e aí eu trouxe à dama uma
bebida
e aí o bartender
arrancou o olho esquerdo
enfiou na boca e
o cuspiu para o teto
enquanto um cara cruzava pela
porta e perguntava
“Godot está aqui?”
, a placenta é o hino da
ferida esquecida
e você não está me devendo 20
pratas que eu te emprestei durante
o
Mardi Gras?
, ah, que se danem todas as coisas e
os pássaros e os lagos e as cintas-
ligas
ah, por que somos tão estufados
dessa merda de hélio?
ah, quem roubou os olhos
e botou as tampas de garrafa na
bunda da Georgia?
, por que a porta abre
para trás?
, ei, a rançosa respiração
dos fedorentos tambores...
tais armas vêm dentro de quê?
peguem a calhandra bêbada!
, essa chicana de perfeição...
esse pelúcido bocejo de
incêndio...
, Cristo parou num tranco,
pneu estourou,
abri o porta-malas e
não achei o
macaco.
os leprosos se embebedaram de leite
de coco
, o último sonho do pervertido foi
bacon misturado com torta
de anca
, morto é morto que chega
torto é torto que chega
e o cavalo falhou na
cara da rainha
e uma hora depois
ela estava com as bolas dele na mão
e a cabeça dele montada entre
as manoplas da motocicleta de
Hades
, as verdes florestas na minha mente
estão cegas
enquanto levo a mão ao rolo de papel
higiênico
o mundo late uma vez e
desaparece
, baunilha, baunilha, baunilha,
imagine você no bolso traseiro
de Prokofiev durante uma tempestade
de verão perante a casa de campo de um
comedor de cães bebedor de
vermute
, Paris é um lugar nas cercanias de
lugar nenhum que costumava
ser
, fico recebendo ligações telefônicas
de pessoas totalmente loucas que
me amam porque acreditam
que a minha loucura justifica a delas
o que é pior do que baixíssima
categoria
, a dor é como um foguete, sinta
o bastante
que ela te projeta através
e além de toda a baboseira
por um tempo
apenas
, a dama me trouxe uma bebida
e eu trouxe à dama uma bebida
e a dama me trouxe uma
bebida
e aí eu trouxe à dama uma
bebida
e aí o bartender
arrancou o olho esquerdo
enfiou na boca e
o cuspiu para o teto
enquanto um cara cruzava pela
porta e perguntava
“Godot está aqui?”
, a placenta é o hino da
ferida esquecida
e você não está me devendo 20
pratas que eu te emprestei durante
o
Mardi Gras?
, ah, que se danem todas as coisas e
os pássaros e os lagos e as cintas-
ligas
ah, por que somos tão estufados
dessa merda de hélio?
ah, quem roubou os olhos
e botou as tampas de garrafa na
bunda da Georgia?
, por que a porta abre
para trás?
, ei, a rançosa respiração
dos fedorentos tambores...
tais armas vêm dentro de quê?
peguem a calhandra bêbada!
, essa chicana de perfeição...
esse pelúcido bocejo de
incêndio...
, Cristo parou num tranco,
pneu estourou,
abri o porta-malas e
não achei o
macaco.
1 003
Charles Bukowski
Couvert Artístico
Doug e eu pegamos uma mesa na frente,
uma das melhores, as garotas
chutavam as pernas lá no alto, a música
era boa e as bebidas não
paravam.
mas bem no meio da diversão eu
vi algo passar.
ah não, pensei, era a minha
morte, acabei de ver minha morte
passar.
“acabei de ver minha morte passar”, falei
ao Doug.
“o quê?”, ele perguntou, “não dá pra
escutar!”
“MORTE!”, gritei.
“esquece”, ele disse, “bebe mais!”
ao fim da apresentação, uma das
garotas, Mandy, Doug a
conhecia, veio e se sentou.
sua cabeça era a cabeça da
Morte.
“por que você está me encarando?”,
ela perguntou.
“você me lembra de algo”,
falei.
“o quê?”, ela perguntou.
apenas sorri.
“preciso ir”, ela disse.
“você assustou ela”, disse
Doug.
“ela me assustou”, eu disse.
então olhei para Doug.
a cabeça dele era a cabeça da
Morte.
ele não sabia disso, só eu
sabia.
“que diabo você tá
olhando?”, ele me perguntou.
“nada”, respondi.
“você tá com cara de quem viu
fantasma”, ele disse, “tá doente
ou algo assim?”
“estou bem, Doug.”
“bem, Jesus, quer dizer, a gente
gasta um monte de grana pra
fazer a farra e você age
como se fosse um
enterro.”
aí o comediante subiu
no palco, um cara gordão com
chapéu de papel, ele soprou um
apito e tirou um
balão da bunda
e disse algo que
não escutei direito
e todo mundo riu
e riu.
não consegui rir.
vi minha morte passando.
era o garçom.
fiz sinal para ele
trazer uma bebida.
de repente ele virou uma
dura bola de aço
e veio ribombando na
minha direção veloz como
bala enquanto eu me levantava
arrancando a mesa do chão,
lâmpada estilhaçada.
algumas pessoas riram
e outras gritaram.
uma das melhores, as garotas
chutavam as pernas lá no alto, a música
era boa e as bebidas não
paravam.
mas bem no meio da diversão eu
vi algo passar.
ah não, pensei, era a minha
morte, acabei de ver minha morte
passar.
“acabei de ver minha morte passar”, falei
ao Doug.
“o quê?”, ele perguntou, “não dá pra
escutar!”
“MORTE!”, gritei.
“esquece”, ele disse, “bebe mais!”
ao fim da apresentação, uma das
garotas, Mandy, Doug a
conhecia, veio e se sentou.
sua cabeça era a cabeça da
Morte.
“por que você está me encarando?”,
ela perguntou.
“você me lembra de algo”,
falei.
“o quê?”, ela perguntou.
apenas sorri.
“preciso ir”, ela disse.
“você assustou ela”, disse
Doug.
“ela me assustou”, eu disse.
então olhei para Doug.
a cabeça dele era a cabeça da
Morte.
ele não sabia disso, só eu
sabia.
“que diabo você tá
olhando?”, ele me perguntou.
“nada”, respondi.
“você tá com cara de quem viu
fantasma”, ele disse, “tá doente
ou algo assim?”
“estou bem, Doug.”
“bem, Jesus, quer dizer, a gente
gasta um monte de grana pra
fazer a farra e você age
como se fosse um
enterro.”
aí o comediante subiu
no palco, um cara gordão com
chapéu de papel, ele soprou um
apito e tirou um
balão da bunda
e disse algo que
não escutei direito
e todo mundo riu
e riu.
não consegui rir.
vi minha morte passando.
era o garçom.
fiz sinal para ele
trazer uma bebida.
de repente ele virou uma
dura bola de aço
e veio ribombando na
minha direção veloz como
bala enquanto eu me levantava
arrancando a mesa do chão,
lâmpada estilhaçada.
algumas pessoas riram
e outras gritaram.
1 084
Charles Bukowski
Reflexões
o templo do vão da minha porta está
trancado.
só concordo com meus críticos quando eles estão
errados.
meu pai era cego de um olho, surdo de um ouvido
e errado de uma vida.
os selos postais dos Estados Unidos são os mais feios
do mundo.
os personagens de Hemingway eram consistentemente
sombrios, ou seja, eles se esforçavam
demais.
as manhãs são o pior, os meios-dias um pouco
melhor e as noites o melhor de tudo.
pela altura em que você está pronto pra dormir você
sente a melhor sensação de todas.
os constantes vazamentos de esgoto apenas fortalecem minhas
convicções.
a melhor coisa sobre Immanuel Kant era
seu nome.
viver bem é uma questão de definição.
Deus é uma invenção do Homem; a Mulher, do
Diabo.
só pessoas entediantes se entediam.
todos fogem das pessoas solitárias porque elas são
solitárias e elas são solitárias porque todos
fogem delas.
pessoas que preferem ficar sozinhas têm
belíssimas razões para tal preferência.
pessoas que preferem ficar sozinhas e pessoas solitárias
não podem ser colocadas juntas no mesmo recinto.
se você colar um coco na bunda por baixo das calças,
você pode andar por aí com ele por duas semanas antes
que alguém pergunte a respeito.
o melhor livro é aquele que você nunca leu; a
melhor mulher, aquela que você nunca conheceu.
se o homem fosse feito para voar ele teria
nascido com asas ligadas ao corpo.
admito que já voei sem elas mas é
um ato antinatural, é por isso que não paro de pedir
bebidas à comissária de bordo.
se ficar sentado num quarto escuro por alguns meses você
terá uns pensamentos maravilhosos antes de
enlouquecer.
dificilmente haverá coisa mais triste do que um gato
atropelado.
a base do capitalismo é vender algo por
bem mais do que seu valor.
quanto mais você conseguir fazer isso, tanto mais rico poderá
ficar.
todo mundo ferra alguém de um jeito
diferente.
eu ferro você escrevendo palavras.
bem-aventurança só significa esquecer por um tempo o que há
de vir.
o Inferno nunca para ele só pausa.
isto é uma pausa.
aproveite enquanto puder.
trancado.
só concordo com meus críticos quando eles estão
errados.
meu pai era cego de um olho, surdo de um ouvido
e errado de uma vida.
os selos postais dos Estados Unidos são os mais feios
do mundo.
os personagens de Hemingway eram consistentemente
sombrios, ou seja, eles se esforçavam
demais.
as manhãs são o pior, os meios-dias um pouco
melhor e as noites o melhor de tudo.
pela altura em que você está pronto pra dormir você
sente a melhor sensação de todas.
os constantes vazamentos de esgoto apenas fortalecem minhas
convicções.
a melhor coisa sobre Immanuel Kant era
seu nome.
viver bem é uma questão de definição.
Deus é uma invenção do Homem; a Mulher, do
Diabo.
só pessoas entediantes se entediam.
todos fogem das pessoas solitárias porque elas são
solitárias e elas são solitárias porque todos
fogem delas.
pessoas que preferem ficar sozinhas têm
belíssimas razões para tal preferência.
pessoas que preferem ficar sozinhas e pessoas solitárias
não podem ser colocadas juntas no mesmo recinto.
se você colar um coco na bunda por baixo das calças,
você pode andar por aí com ele por duas semanas antes
que alguém pergunte a respeito.
o melhor livro é aquele que você nunca leu; a
melhor mulher, aquela que você nunca conheceu.
se o homem fosse feito para voar ele teria
nascido com asas ligadas ao corpo.
admito que já voei sem elas mas é
um ato antinatural, é por isso que não paro de pedir
bebidas à comissária de bordo.
se ficar sentado num quarto escuro por alguns meses você
terá uns pensamentos maravilhosos antes de
enlouquecer.
dificilmente haverá coisa mais triste do que um gato
atropelado.
a base do capitalismo é vender algo por
bem mais do que seu valor.
quanto mais você conseguir fazer isso, tanto mais rico poderá
ficar.
todo mundo ferra alguém de um jeito
diferente.
eu ferro você escrevendo palavras.
bem-aventurança só significa esquecer por um tempo o que há
de vir.
o Inferno nunca para ele só pausa.
isto é uma pausa.
aproveite enquanto puder.
1 072
Charles Bukowski
Nem Sempre Funciona
conheci um escritor uma vez
que sempre tentava enxugar suas frases
tipo ele escrevia:
um velho com chapéu de feltro verde caminhava pela
rua.
mudava para:
um velho de verde caminhava na rua.
mudava para:
um velho verde caminhava na rua.
mudava para:
velho verde caminhava.
mudava para:
verde caminhava.
por fim esse escritor dizia
merda, não consigo peidar,
e ele explodia o próprio
cérebro.
explodia próprio cérebro.
explodia cérebro.
explodia.
que sempre tentava enxugar suas frases
tipo ele escrevia:
um velho com chapéu de feltro verde caminhava pela
rua.
mudava para:
um velho de verde caminhava na rua.
mudava para:
um velho verde caminhava na rua.
mudava para:
velho verde caminhava.
mudava para:
verde caminhava.
por fim esse escritor dizia
merda, não consigo peidar,
e ele explodia o próprio
cérebro.
explodia próprio cérebro.
explodia cérebro.
explodia.
1 117
Charles Bukowski
Estar Aqui
quando chega o pior, não há nada a se
fazer, é quase caso de você rir, vestir suas roupas
de novo, sair, ver rostos, máquinas,
ruas, prédios, o desenrolar do
mundo.
eu expresso gestos, troco somas de dinheiro, respondo a
perguntas, pouco pergunto, com as horas marchando,
me seguindo, elas não são sempre constantemente
terríveis – por vezes sou acometido por uma louca
alegria e rio, mal sabendo
por quê.
talvez o pior truque que aprendi seja o de
resistir; preciso aprender a ceder, isso não é
algo suspeito.
somos sérios demais, precisamos aprender a lograr
nossos céus e nossos infernos – a brincadeira está jogando
conosco, precisamos jogar de volta.
nossos sapatos vão andando, carregando-
nos.
quando chega o pior, nada deveria ser
pior.
a exatidão é a liberdade: cem
mil muros ou mais
e mais
de nada, seus ossos sabem mais do que a sua
mente.
fazer, é quase caso de você rir, vestir suas roupas
de novo, sair, ver rostos, máquinas,
ruas, prédios, o desenrolar do
mundo.
eu expresso gestos, troco somas de dinheiro, respondo a
perguntas, pouco pergunto, com as horas marchando,
me seguindo, elas não são sempre constantemente
terríveis – por vezes sou acometido por uma louca
alegria e rio, mal sabendo
por quê.
talvez o pior truque que aprendi seja o de
resistir; preciso aprender a ceder, isso não é
algo suspeito.
somos sérios demais, precisamos aprender a lograr
nossos céus e nossos infernos – a brincadeira está jogando
conosco, precisamos jogar de volta.
nossos sapatos vão andando, carregando-
nos.
quando chega o pior, nada deveria ser
pior.
a exatidão é a liberdade: cem
mil muros ou mais
e mais
de nada, seus ossos sabem mais do que a sua
mente.
1 010
Charles Bukowski
O Mundo Dos Manobristas
depois de ter meu carro arrombado duas vezes
no hipódromo –
você sabe como é: sua porta está
arrombada quando você
chega
e dentro não há nada além de
grandes buracos vazios onde antes
havia o equipamento, nada além dos
fios
enrolados...
então me decidi pelo estacionamento
com manobristas
sentindo que seria mais barato
no longo
prazo...
e a primeira coisa que notei
no meu primeiro dia de estacionamento
com manobristas
foi que pelo preço
extra
eles serviam uma
conversinha
“ei, amigão, como você arranjou
um carro desses? você não tem cara
de muito inteligente... você deve ter
herdado uma grana do seu
pai...”
“você adivinhou”, eu disse ao
manobrista.
no dia seguinte outro manobrista
me disse “escuta, posso te arranjar
uma caixa barata de vinho e tem uma
garota aleijada no motel do outro lado do
hipódromo que faz o melhor boquete desde
Cleópatra...”
o manobrista seguinte disse “ei, cara de cu,
como é que vai?”
eu observava e percebia que os
manobristas tratavam os outros clientes com
civilidade padrão.
então
um dia
não quiseram me dar
recibo para o meu
carro.
“como vou provar que esse
carro é
meu?”
“você vai ter que
nos convencer...”
quando saí naquela
tarde
lá estava o meu carro
estacionado numa
saída junto à
cerca viva, não precisei
esperar como os
outros
e eu sempre escutava
alguma
historinha:
“ei, cara, minha esposa tentou
cometer suicídio...”
“eu acho
compreensível...”
dia após dia
diferentes histórias de
diferentes
manobristas:
“eu amo a minha esposa mas tenho uma
namorada e eu como ela que nem
louco... quer dizer, um dia tudo que eu vou ficar
fazendo é queimar uma fumacinha azul, então que
merda?”
“Frank”, eu disse a ele, “como você estica a sua
jogada é problema seu...”
e
tipo digamos
quarta passada houve uma estranha
ocorrência:
lá está o manobrista-chefe
e ele tem uns fones de ouvido e
microfone
que usava pra passar os carros dos
clientes
para os motoristas das picapes
distantes
e ele colocou os fones de ouvido
na minha cabeça e ali estava
o microfone
e ele me disse
“o Frank quer uma palavra
sua...”
e eu o vi lá adiante
operando a picape
branca
e falei no
microfone:
“Frank, bebê, tudo é
morte!”
e o escutei responder pelos
fones de ouvido:
“isso-aí porra!”
ele acenou e então precisou
pisar fundo no freio
e quase acertou um
Caddy 86 azul
foi nas corridas do Hollywood Park
verão de 1986
e os manobristas que estacionaram o
detonado BMW 1979 do
velho com os faróis de neblina
arrancados
e as pequenas cores da
bandeira alemã
canto esquerdo
janela traseira
entrei nessa máquina e rodei
pra longe de lá, os séculos ainda
avançando rumo ao escuro
para sempre e
para sempre
e rodei para o leste pelo Century
entrei na Harbor Freeway
ao sul
há muito mais coisa envolvida nas apostas
em cavalos do que pagar ou rasgar
recibos.
no hipódromo –
você sabe como é: sua porta está
arrombada quando você
chega
e dentro não há nada além de
grandes buracos vazios onde antes
havia o equipamento, nada além dos
fios
enrolados...
então me decidi pelo estacionamento
com manobristas
sentindo que seria mais barato
no longo
prazo...
e a primeira coisa que notei
no meu primeiro dia de estacionamento
com manobristas
foi que pelo preço
extra
eles serviam uma
conversinha
“ei, amigão, como você arranjou
um carro desses? você não tem cara
de muito inteligente... você deve ter
herdado uma grana do seu
pai...”
“você adivinhou”, eu disse ao
manobrista.
no dia seguinte outro manobrista
me disse “escuta, posso te arranjar
uma caixa barata de vinho e tem uma
garota aleijada no motel do outro lado do
hipódromo que faz o melhor boquete desde
Cleópatra...”
o manobrista seguinte disse “ei, cara de cu,
como é que vai?”
eu observava e percebia que os
manobristas tratavam os outros clientes com
civilidade padrão.
então
um dia
não quiseram me dar
recibo para o meu
carro.
“como vou provar que esse
carro é
meu?”
“você vai ter que
nos convencer...”
quando saí naquela
tarde
lá estava o meu carro
estacionado numa
saída junto à
cerca viva, não precisei
esperar como os
outros
e eu sempre escutava
alguma
historinha:
“ei, cara, minha esposa tentou
cometer suicídio...”
“eu acho
compreensível...”
dia após dia
diferentes histórias de
diferentes
manobristas:
“eu amo a minha esposa mas tenho uma
namorada e eu como ela que nem
louco... quer dizer, um dia tudo que eu vou ficar
fazendo é queimar uma fumacinha azul, então que
merda?”
“Frank”, eu disse a ele, “como você estica a sua
jogada é problema seu...”
e
tipo digamos
quarta passada houve uma estranha
ocorrência:
lá está o manobrista-chefe
e ele tem uns fones de ouvido e
microfone
que usava pra passar os carros dos
clientes
para os motoristas das picapes
distantes
e ele colocou os fones de ouvido
na minha cabeça e ali estava
o microfone
e ele me disse
“o Frank quer uma palavra
sua...”
e eu o vi lá adiante
operando a picape
branca
e falei no
microfone:
“Frank, bebê, tudo é
morte!”
e o escutei responder pelos
fones de ouvido:
“isso-aí porra!”
ele acenou e então precisou
pisar fundo no freio
e quase acertou um
Caddy 86 azul
foi nas corridas do Hollywood Park
verão de 1986
e os manobristas que estacionaram o
detonado BMW 1979 do
velho com os faróis de neblina
arrancados
e as pequenas cores da
bandeira alemã
canto esquerdo
janela traseira
entrei nessa máquina e rodei
pra longe de lá, os séculos ainda
avançando rumo ao escuro
para sempre e
para sempre
e rodei para o leste pelo Century
entrei na Harbor Freeway
ao sul
há muito mais coisa envolvida nas apostas
em cavalos do que pagar ou rasgar
recibos.
1 031
Charles Bukowski
Todos Os Meus Amigos
Van Gogh acabou de vir aqui me reclamar
que Theo tinha lhe mandado as tintas
erradas.
mal passara um momento desde sua saída
quando Dostoiévski bateu e pediu um
empréstimo para pagar a roleta,
alegou estar trabalhando numa obra-prima,
algo chamado Crime e castigo
então Chatterton bateu e perguntou se eu não
tinha um pouco de veneno de rato, disse que tinha uma ideia de
como se livrar dos ratos.
Villon ficou sentado dando chilique metade da noite sobre
como tinha sido banido de Paris – não por sua
escrita mas simplesmente por causa de certo roubo
trivial, sério, ele disse, titica de galinha.
depois o Ernie chegou, ele estava bêbado e começou
a falar sobre as touradas, é só disso que ele fala:
touradas e pescaria, o GRANDE que escapou,
e ele não se desliga da guerra, da guerra, da guerra.
fiquei contente quando ele saiu.
Picasso chegou em seguida e reclamou que sua
amante da vez, também uma pintora, tinha inveja
dele, ela achava que sabia pintar mas era
contida por ser mulher e que um
dia pintaria um livro sobre ele chamando-o
de reles monstro babaca e com isso ela ganharia
a única fama pela qual tanto ansiava.
então Knut Hamsun apareceu e afirmou ter sofrido
armação na história dos crimes de guerra.
seguido por Ezra que falou do mesmo assunto.
seguido pelo bom doutor Céline.
então H.D. veio e disse “agora eu só queria que eu
tivesse usado meu nome verdadeiro, Hilda Doolittle, que vá pro inferno
o Manifesto Imagista, acabou acontecendo de todo modo que quando
as pessoas viam ‘H.D.’ tudo que faziam era inverter as iniciais
e pensar naquele merda do D.H. Lawrence.”
depois Mozart, o ex-menino prodígio, bateu e pediu
uma moedinha, eu dei, que impostor fingindo estar
em apuros depois de escrever mais sinfonias do que qualquer homem
que eu consiga lembrar.
depois o Ernie veio de novo, pedindo pra pegar emprestado um cartucho
de espingarda, dizendo ter uma caça especial em
mente.
deixei que ele levasse.
aí Borodin bateu, alegando que sua esposa o fazia dormir nas
escadas e sempre virava um demônio quando ele apertava o saquinho de chá
com a colher.
depois disso me cansei de todas as batidas e de todas as pessoas – fiquei
gritando para Beethoven ir embora mas ele não parava de bater –
então desliguei as luzes, meti meus tampões de ouvido e fui dormir
mas não adiantou porque tive um pesadelo e eis ali
o tal Van Gogh de novo, só que ele não tinha cortado fora só uma orelha
e sim as duas orelhas, quero dizer, ele realmente parecia fodido, e ele mandou
uma orelha para uma prostituta e a outra para outra e a primeira
prostituta teve ânsia de vômito e jogou a orelha por cima do ombro esquerdo mas
a segunda prostituta só riu, baixou as calcinhas e
enfiou a orelha no reto dizendo “agora posso escutar os cacetes
entrando e a merda caindo.”
então acordei e os ossos do crânio e o sangue de Hemingway pingaram
em mim do
teto.
que Theo tinha lhe mandado as tintas
erradas.
mal passara um momento desde sua saída
quando Dostoiévski bateu e pediu um
empréstimo para pagar a roleta,
alegou estar trabalhando numa obra-prima,
algo chamado Crime e castigo
então Chatterton bateu e perguntou se eu não
tinha um pouco de veneno de rato, disse que tinha uma ideia de
como se livrar dos ratos.
Villon ficou sentado dando chilique metade da noite sobre
como tinha sido banido de Paris – não por sua
escrita mas simplesmente por causa de certo roubo
trivial, sério, ele disse, titica de galinha.
depois o Ernie chegou, ele estava bêbado e começou
a falar sobre as touradas, é só disso que ele fala:
touradas e pescaria, o GRANDE que escapou,
e ele não se desliga da guerra, da guerra, da guerra.
fiquei contente quando ele saiu.
Picasso chegou em seguida e reclamou que sua
amante da vez, também uma pintora, tinha inveja
dele, ela achava que sabia pintar mas era
contida por ser mulher e que um
dia pintaria um livro sobre ele chamando-o
de reles monstro babaca e com isso ela ganharia
a única fama pela qual tanto ansiava.
então Knut Hamsun apareceu e afirmou ter sofrido
armação na história dos crimes de guerra.
seguido por Ezra que falou do mesmo assunto.
seguido pelo bom doutor Céline.
então H.D. veio e disse “agora eu só queria que eu
tivesse usado meu nome verdadeiro, Hilda Doolittle, que vá pro inferno
o Manifesto Imagista, acabou acontecendo de todo modo que quando
as pessoas viam ‘H.D.’ tudo que faziam era inverter as iniciais
e pensar naquele merda do D.H. Lawrence.”
depois Mozart, o ex-menino prodígio, bateu e pediu
uma moedinha, eu dei, que impostor fingindo estar
em apuros depois de escrever mais sinfonias do que qualquer homem
que eu consiga lembrar.
depois o Ernie veio de novo, pedindo pra pegar emprestado um cartucho
de espingarda, dizendo ter uma caça especial em
mente.
deixei que ele levasse.
aí Borodin bateu, alegando que sua esposa o fazia dormir nas
escadas e sempre virava um demônio quando ele apertava o saquinho de chá
com a colher.
depois disso me cansei de todas as batidas e de todas as pessoas – fiquei
gritando para Beethoven ir embora mas ele não parava de bater –
então desliguei as luzes, meti meus tampões de ouvido e fui dormir
mas não adiantou porque tive um pesadelo e eis ali
o tal Van Gogh de novo, só que ele não tinha cortado fora só uma orelha
e sim as duas orelhas, quero dizer, ele realmente parecia fodido, e ele mandou
uma orelha para uma prostituta e a outra para outra e a primeira
prostituta teve ânsia de vômito e jogou a orelha por cima do ombro esquerdo mas
a segunda prostituta só riu, baixou as calcinhas e
enfiou a orelha no reto dizendo “agora posso escutar os cacetes
entrando e a merda caindo.”
então acordei e os ossos do crânio e o sangue de Hemingway pingaram
em mim do
teto.
1 062
Charles Bukowski
Henry Miller E Burroughs
você quer dizer que não gosta deles?,
me perguntam toda
hora.
não.
qual é?
só não gosto.
não posso acreditar. por que
você não gosta
deles?
ah, meu deus, vai à merda.
você gosta de alguém?
claro.
cite os nomes.
Céline, Turguêniev, Dostoiévski, o Górki
do começo, J.D. Salinger, e.e. cummings,
Jeffers, Sherwood Anderson, Li Po,
Pound, Carson McCullers...
ok, ok, mas não acredito que
você não goste de Henry Miller ou Burroughs,
principalmente Henry Miller.
vai à merda.
chegou a conhecer o Miller?
não.
acho que você está brincando comigo sobre não gostar de
Henry Miller.
hmm hmm.
é inveja profissional?
não creio que seja.
o Miller abriu as portas pra todos
nós.
e eu estou abrindo a minha porta pra
você.
por que você está irritado com tudo
isso?
não irritado, mas você já comeu o
cu de uma galinha?
não.
faça isso, então volte que a gente
conversa sobre William B. e principalmente
Henry M.
eu te acho um babaca esquisito...
cai fora ou eu te tiro daqui na
porrada.
você vai ouvir falar de mim.
se um dia ouvirem falar de você vai
ser porque escrevo sobre
você, agora cai
fora!
boa noite.
boa, falei com a porta
fechando,
noite.
me perguntam toda
hora.
não.
qual é?
só não gosto.
não posso acreditar. por que
você não gosta
deles?
ah, meu deus, vai à merda.
você gosta de alguém?
claro.
cite os nomes.
Céline, Turguêniev, Dostoiévski, o Górki
do começo, J.D. Salinger, e.e. cummings,
Jeffers, Sherwood Anderson, Li Po,
Pound, Carson McCullers...
ok, ok, mas não acredito que
você não goste de Henry Miller ou Burroughs,
principalmente Henry Miller.
vai à merda.
chegou a conhecer o Miller?
não.
acho que você está brincando comigo sobre não gostar de
Henry Miller.
hmm hmm.
é inveja profissional?
não creio que seja.
o Miller abriu as portas pra todos
nós.
e eu estou abrindo a minha porta pra
você.
por que você está irritado com tudo
isso?
não irritado, mas você já comeu o
cu de uma galinha?
não.
faça isso, então volte que a gente
conversa sobre William B. e principalmente
Henry M.
eu te acho um babaca esquisito...
cai fora ou eu te tiro daqui na
porrada.
você vai ouvir falar de mim.
se um dia ouvirem falar de você vai
ser porque escrevo sobre
você, agora cai
fora!
boa noite.
boa, falei com a porta
fechando,
noite.
1 100
Charles Bukowski
Paz E Amor
nos anos 60
escrevi uma coluna para um jornal
hippie.
eu não era um hippie (já tinha
40 e poucos) mas achei
legal que o jornal
me permitisse expor minhas
errantes
visões
uma vez por
semana.
para cada uma daquelas obras
geniais
eu ganhava
$10 (às vezes).
agora
havia outro jornal
hippie
querendo comprar meus
serviços.
estavam me oferecendo
$15 para cada
coluna.
não querendo parecer um
desertor
eu estava pedindo
$20.
então
eu visitava o outro
jornal
com bastante frequência
negociando com o
editor
a diferença de
5 pratas
enquanto esvaziávamos uma
dúzia de latinhas.
uma coisa legal desse
jornal hippie é que
quando eu entrava
todo mundo começava
a gritar meu
nome:
“Ei, Chinaski!”
“Chinaski!”
eu gostava,
ficava me sentindo uma
estrela.
e eles também
gritavam
“paz e amor!”
“paz e amor!”
várias gatinhas
gritavam isso pra
mim
e eu gostava
disso
embora eu nunca tenha
respondido às
saudações
exceto por um leve
sorriso
e um quase
invisível
aceno da mão
esquerda
eu ia falar com o
editor e dizia
pra ele “escuta, legal o
ambiente de vocês aqui, a gente
precisa bolar
algo...”
no entanto
nunca bolávamos
nada
mas decidi
continuar
insistindo...
então
houve a semana
em que fui
lá
e o lugar todo estava
fechado: ninguém, na-
da
lá
dentro...
bem, pensei, quem sabe
se mudaram, quem sabe acharam
um
lugar mais barato.
então
me afastei de lá
e segui caminhando
e no meu caminho
olhei para dentro de um café
e a mais estranha das
improbabilidades
aconteceu:
lá estava o editor
sentado a uma
mesa
então
entrei
e ele me viu
chegando
e falou “senta aqui,
Chinaski.”
eu sentei
e perguntei
a ele:
“o que aconteceu?”
“é triste, tivemos que
fechar justo quando estávamos
crescendo em circulação
e
anúncios.”
“ah é? e?”
“bem, 4 ou 5 deles
não tinham onde dormir então
falei que podiam
dormir no escritório à
noite desde que não fizessem
barulho e desligassem as luzes... então
eles trouxeram seus colchões
d’água, seus cachimbos, seu ácido,
seus violões, sua erva, seus
discos do Bobby Dylan e
parecia correr tudo
bem...”
“ah é? e??...”
“eles usavam os telefones de
noite. longa distância pra vários lugares,
alguns deles pra
França, Índia ou China
mas
na maioria
pra
lugares nos E.U.A.
mas pra onde quer que ligassem
era sempre por um longo
tempo, algo entre 45
minutos e 3 horas e
meia...”
“Jesus...”
“é, não conseguimos pagar a conta,
portanto adeus ligações, cobradores
atrás da gente, tivemos que
fechar...”
“sinto muito, cara...”
“tá tudo
bem...”
“eu tenho umas
verdinhas”, falei, “vamos
achar um
bar...”
bem, achamos
um e ele pediu um
scotch & soda e eu
pedi um whiskey
sour
e ficamos ali sentados
olhando reto
pra frente
realmente
sem ter muito a
dizer
exceto que
algum tempo depois
nós dois ainda ali
bebendo mais do
mesmo
ele me contou
que sua esposa o tinha
trocado
por um corretor
de imóveis
que trabalhava baseado no
Arizona e no
Novo México
onde as coisas estavam
indo
incrivelmente bem
sobretudo na área de
Santa
Fé.
escrevi uma coluna para um jornal
hippie.
eu não era um hippie (já tinha
40 e poucos) mas achei
legal que o jornal
me permitisse expor minhas
errantes
visões
uma vez por
semana.
para cada uma daquelas obras
geniais
eu ganhava
$10 (às vezes).
agora
havia outro jornal
hippie
querendo comprar meus
serviços.
estavam me oferecendo
$15 para cada
coluna.
não querendo parecer um
desertor
eu estava pedindo
$20.
então
eu visitava o outro
jornal
com bastante frequência
negociando com o
editor
a diferença de
5 pratas
enquanto esvaziávamos uma
dúzia de latinhas.
uma coisa legal desse
jornal hippie é que
quando eu entrava
todo mundo começava
a gritar meu
nome:
“Ei, Chinaski!”
“Chinaski!”
eu gostava,
ficava me sentindo uma
estrela.
e eles também
gritavam
“paz e amor!”
“paz e amor!”
várias gatinhas
gritavam isso pra
mim
e eu gostava
disso
embora eu nunca tenha
respondido às
saudações
exceto por um leve
sorriso
e um quase
invisível
aceno da mão
esquerda
eu ia falar com o
editor e dizia
pra ele “escuta, legal o
ambiente de vocês aqui, a gente
precisa bolar
algo...”
no entanto
nunca bolávamos
nada
mas decidi
continuar
insistindo...
então
houve a semana
em que fui
lá
e o lugar todo estava
fechado: ninguém, na-
da
lá
dentro...
bem, pensei, quem sabe
se mudaram, quem sabe acharam
um
lugar mais barato.
então
me afastei de lá
e segui caminhando
e no meu caminho
olhei para dentro de um café
e a mais estranha das
improbabilidades
aconteceu:
lá estava o editor
sentado a uma
mesa
então
entrei
e ele me viu
chegando
e falou “senta aqui,
Chinaski.”
eu sentei
e perguntei
a ele:
“o que aconteceu?”
“é triste, tivemos que
fechar justo quando estávamos
crescendo em circulação
e
anúncios.”
“ah é? e?”
“bem, 4 ou 5 deles
não tinham onde dormir então
falei que podiam
dormir no escritório à
noite desde que não fizessem
barulho e desligassem as luzes... então
eles trouxeram seus colchões
d’água, seus cachimbos, seu ácido,
seus violões, sua erva, seus
discos do Bobby Dylan e
parecia correr tudo
bem...”
“ah é? e??...”
“eles usavam os telefones de
noite. longa distância pra vários lugares,
alguns deles pra
França, Índia ou China
mas
na maioria
pra
lugares nos E.U.A.
mas pra onde quer que ligassem
era sempre por um longo
tempo, algo entre 45
minutos e 3 horas e
meia...”
“Jesus...”
“é, não conseguimos pagar a conta,
portanto adeus ligações, cobradores
atrás da gente, tivemos que
fechar...”
“sinto muito, cara...”
“tá tudo
bem...”
“eu tenho umas
verdinhas”, falei, “vamos
achar um
bar...”
bem, achamos
um e ele pediu um
scotch & soda e eu
pedi um whiskey
sour
e ficamos ali sentados
olhando reto
pra frente
realmente
sem ter muito a
dizer
exceto que
algum tempo depois
nós dois ainda ali
bebendo mais do
mesmo
ele me contou
que sua esposa o tinha
trocado
por um corretor
de imóveis
que trabalhava baseado no
Arizona e no
Novo México
onde as coisas estavam
indo
incrivelmente bem
sobretudo na área de
Santa
Fé.
1 103
Charles Bukowski
A Lésbica
(dedicado a todas elas)
eu estava sentado no meu sofá certa noite,
como de costume, de cueca e camiseta,
bebendo cerveja e sem pensar em grande coisa
quando houve uma batida na porta –
“uuh huuu! uuh huuu!”
que diabo agora?, pensei.
“uuh huuu! uuh huuu!”
“o que é?”, perguntei.
“consegui uma magrinha! consegui uma magrinha pra você!”
uma magrinha?
o som era de voz feminina.
“espera um minuto”, pedi.
fui até o banheiro, vesti uma camisa rasgada e
minhas calças chino sujas. então saí e abri a
porta.
era a lésbica que morava nos fundos.
“comprei uma magrinha pra você”, ela disse.
“ah é?”
ela estava de suéter justinho e short,
ela ligou o luar.
“tá vendo? perdi 9 quilos! você gostou?”
“entra”, eu falei.
ela sentou na cadeira diante de mim e
cruzou as pernas.
“não conta pra senhoria que eu vim aqui.”
“não se preocupe”, falei.
e ela cruzou as pernas no outro sentido. as pernas tinham
grandes machucados roxos por todo lado. fiquei imaginando quem
os teria botado ali.
ela falou e fez perguntas, falou e fez perguntas –
quem era aquela mulher que veio aqui com a garotinha? a minha garotinha, era
a minha garotinha? sim, mas elas não moravam aqui. puxa, que legal.
o pai dela a sustentava, o pai lhe dava um monte de dinheiro, o pai era um
cara legal. aquela pintura na parede era minha? sim, era. ela entendia um pouco de
Arte – ela disse. eu tinha uma namorada? o que é que eu fazia quando eu não estava dormindo?
ela falou e fez perguntas, falou e fez perguntas. eu estava entediado,
completamente aéreo.
na minha juventude
eu achava que podia alterar a natureza,
mas uma lésbica tinha mostrado ser pura madeira –
madeira com olho de nó –
e a outra
(eu tentei duas vezes)
tinha quase me matado,
correndo atrás de mim por três lances de escada e
por meio
Bunker Hill.
aquela diante de mim se levantou
se aproximou, então esfregou os seios na minha
cara –
“não quer um pouquinho, não?”
“hmm hmm.”
ela apontou para um troninho no canto –
“você ainda usa aquilo?”
“ah sim. pinica um pouco as minhas nádegas mas me traz
boas lembranças...”
“boa noite!” ela correu até a porta, abriu, bateu
com força.
“boa noite”, eu
disse, e aí terminei minha garrafa de cerveja, pensando,
qual será o problema com
ela hoje?
*
depois teve um homem com perninhas minúsculas correndo lá
atrás. ele tinha um corpo comprido, e aquelas perninhas minúsculas
começavam onde estariam os joelhos de um homem comum
e o cara ia correndo com aquelas perninhas minúsculas
levando cestas de comida para a lésbica lá atrás.
minha nossa, tem algo de errado com aquele pobre sujeitinho,
pensei.
o senhorio o escorraçou de lá certa manhã pelas 5 horas
“ei! que diabo cê tá fazendo aí em cima? some
daqui!”
“eu trouxe comida pra ela! eu trouxe comida pra ela!”
“some daqui!”
o senhorio correu atrás dele pela entrada da garagem. “você tá lá em cima todo
santo dia às 3 da manhã. eu tô ficando de saco cheio! você não dorme nunca?
qual é o maldito problema com as suas pernas?”
“eu durmo! eu durmo! eu trabalho de noite!”
eles passaram correndo pela minha janela.
“você trabalha de noite? qual é maldito problema com você? por que você não arranja um emprego
durante o dia?”
o perninhas apenas seguiu correndo. ele fez uma curva rápida contornando uma cerca viva e subiu a
rua. o senhorio gritou atrás dele:
“idiota desgraçado! você não sabe que ela é sapatão? que diabo você vai fazer com uma
sapatão?”
não houve resposta, é
claro.
*
depois o sujeito do pátio contíguo, um cara tendendo um pouco pro lado
subnormal, herdou 20 mil
dólares. quando eu vi já estava escutando a voz da lésbica
lá dentro. as paredes eram bem finas.
deus, ela ficou de joelhos e esfregou todos os
pisos. e não parava de sair pela porta dos fundos com o
lixo. ele devia estar com um ano de lixo acumulado lá
dentro. toda vez que ela corria pelos fundos a porta de tela
batia – bam! bam! bam!, deve ter batido 70 vezes em uma
hora e meia. ela estava mostrando para ele.
meu quarto era contíguo ao deles. de noite eu escutava o cara comendo
ela. não havia muita ação. meio morto. só um corpo em
movimento. adivinha qual.
poucos dias depois a lésbica começou a dar ordens –
vindo da cozinha –
“ah não, garoto! de pé! de pé! você não pode ir pra cama a essa hora
do dia! não vou arrumar a sua cama duas vezes!”
e uma semana depois acabou. não voltei a escutar a voz dela.
ela estava de novo na casa dela nos fundos.
eu estava parado na minha varanda um dia pensando a respeito –
pobre coitada. por que é que ela não arranja uma namorada? não tenho preconceito, não
tenho nada contra nenhuma lésbica, não senhor! Safo por exemplo. eu não
tinha nada contra Safo
tampouco.
aí levantei o rosto e lá vinha ela pela
entrada da garagem, era tarde demais para fugir pra dentro
de casa. fiquei bem quieto, tentando ser parte da varanda.
ela se aproximou com seu short branco e o pescoço curvado como um abutre e
aí me viu e fez um som incrível:
“yawk!”
“bom dia”, eu disse.
“yawk!”, ela fez de novo.
caramba, pensei, ela acha que eu sou um pássaro. entrei às pressas na minha casa e
fechei a porta, espiei pelas
cortinas. ela estava lá fora respirando
forte. então ela começou a abanar os braços pra cima e pra baixo, fazendo
“yawk! yawk! yawk!”
ela pirou, eu
pensei.
então lentamente lentamente ela começou a subir pelo
ar.
ah não, pensei.
ela estava um metro acima da cerca viva,
abanando o ar – os seios quicando tristemente,
as pernas gigantes dando coices
procurando apoio no
ar. aí ela subiu, mais e
mais alto. ela estava acima dos prédios residenciais, subindo
pela névoa poluída de Los Angeles. então ela pairou sobre o Sunset Boulevard
bem alto acima do Banco Crocker-Citizens, e
então vi outro objeto que vinha voando do
sul. ele parecia ser só corpo com umas perninhas curtas
atrás. aí eles voaram um ao
encontro do outro. quando vi os dois se abraçando em pleno ar
eu me virei, entrei na cozinha e
baixei todas as
cortinas.
e esperei pelo fim do
mundo.
minha cabeça ressoava como um sino
e eu comecei a chorar.
eu estava sentado no meu sofá certa noite,
como de costume, de cueca e camiseta,
bebendo cerveja e sem pensar em grande coisa
quando houve uma batida na porta –
“uuh huuu! uuh huuu!”
que diabo agora?, pensei.
“uuh huuu! uuh huuu!”
“o que é?”, perguntei.
“consegui uma magrinha! consegui uma magrinha pra você!”
uma magrinha?
o som era de voz feminina.
“espera um minuto”, pedi.
fui até o banheiro, vesti uma camisa rasgada e
minhas calças chino sujas. então saí e abri a
porta.
era a lésbica que morava nos fundos.
“comprei uma magrinha pra você”, ela disse.
“ah é?”
ela estava de suéter justinho e short,
ela ligou o luar.
“tá vendo? perdi 9 quilos! você gostou?”
“entra”, eu falei.
ela sentou na cadeira diante de mim e
cruzou as pernas.
“não conta pra senhoria que eu vim aqui.”
“não se preocupe”, falei.
e ela cruzou as pernas no outro sentido. as pernas tinham
grandes machucados roxos por todo lado. fiquei imaginando quem
os teria botado ali.
ela falou e fez perguntas, falou e fez perguntas –
quem era aquela mulher que veio aqui com a garotinha? a minha garotinha, era
a minha garotinha? sim, mas elas não moravam aqui. puxa, que legal.
o pai dela a sustentava, o pai lhe dava um monte de dinheiro, o pai era um
cara legal. aquela pintura na parede era minha? sim, era. ela entendia um pouco de
Arte – ela disse. eu tinha uma namorada? o que é que eu fazia quando eu não estava dormindo?
ela falou e fez perguntas, falou e fez perguntas. eu estava entediado,
completamente aéreo.
na minha juventude
eu achava que podia alterar a natureza,
mas uma lésbica tinha mostrado ser pura madeira –
madeira com olho de nó –
e a outra
(eu tentei duas vezes)
tinha quase me matado,
correndo atrás de mim por três lances de escada e
por meio
Bunker Hill.
aquela diante de mim se levantou
se aproximou, então esfregou os seios na minha
cara –
“não quer um pouquinho, não?”
“hmm hmm.”
ela apontou para um troninho no canto –
“você ainda usa aquilo?”
“ah sim. pinica um pouco as minhas nádegas mas me traz
boas lembranças...”
“boa noite!” ela correu até a porta, abriu, bateu
com força.
“boa noite”, eu
disse, e aí terminei minha garrafa de cerveja, pensando,
qual será o problema com
ela hoje?
*
depois teve um homem com perninhas minúsculas correndo lá
atrás. ele tinha um corpo comprido, e aquelas perninhas minúsculas
começavam onde estariam os joelhos de um homem comum
e o cara ia correndo com aquelas perninhas minúsculas
levando cestas de comida para a lésbica lá atrás.
minha nossa, tem algo de errado com aquele pobre sujeitinho,
pensei.
o senhorio o escorraçou de lá certa manhã pelas 5 horas
“ei! que diabo cê tá fazendo aí em cima? some
daqui!”
“eu trouxe comida pra ela! eu trouxe comida pra ela!”
“some daqui!”
o senhorio correu atrás dele pela entrada da garagem. “você tá lá em cima todo
santo dia às 3 da manhã. eu tô ficando de saco cheio! você não dorme nunca?
qual é o maldito problema com as suas pernas?”
“eu durmo! eu durmo! eu trabalho de noite!”
eles passaram correndo pela minha janela.
“você trabalha de noite? qual é maldito problema com você? por que você não arranja um emprego
durante o dia?”
o perninhas apenas seguiu correndo. ele fez uma curva rápida contornando uma cerca viva e subiu a
rua. o senhorio gritou atrás dele:
“idiota desgraçado! você não sabe que ela é sapatão? que diabo você vai fazer com uma
sapatão?”
não houve resposta, é
claro.
*
depois o sujeito do pátio contíguo, um cara tendendo um pouco pro lado
subnormal, herdou 20 mil
dólares. quando eu vi já estava escutando a voz da lésbica
lá dentro. as paredes eram bem finas.
deus, ela ficou de joelhos e esfregou todos os
pisos. e não parava de sair pela porta dos fundos com o
lixo. ele devia estar com um ano de lixo acumulado lá
dentro. toda vez que ela corria pelos fundos a porta de tela
batia – bam! bam! bam!, deve ter batido 70 vezes em uma
hora e meia. ela estava mostrando para ele.
meu quarto era contíguo ao deles. de noite eu escutava o cara comendo
ela. não havia muita ação. meio morto. só um corpo em
movimento. adivinha qual.
poucos dias depois a lésbica começou a dar ordens –
vindo da cozinha –
“ah não, garoto! de pé! de pé! você não pode ir pra cama a essa hora
do dia! não vou arrumar a sua cama duas vezes!”
e uma semana depois acabou. não voltei a escutar a voz dela.
ela estava de novo na casa dela nos fundos.
eu estava parado na minha varanda um dia pensando a respeito –
pobre coitada. por que é que ela não arranja uma namorada? não tenho preconceito, não
tenho nada contra nenhuma lésbica, não senhor! Safo por exemplo. eu não
tinha nada contra Safo
tampouco.
aí levantei o rosto e lá vinha ela pela
entrada da garagem, era tarde demais para fugir pra dentro
de casa. fiquei bem quieto, tentando ser parte da varanda.
ela se aproximou com seu short branco e o pescoço curvado como um abutre e
aí me viu e fez um som incrível:
“yawk!”
“bom dia”, eu disse.
“yawk!”, ela fez de novo.
caramba, pensei, ela acha que eu sou um pássaro. entrei às pressas na minha casa e
fechei a porta, espiei pelas
cortinas. ela estava lá fora respirando
forte. então ela começou a abanar os braços pra cima e pra baixo, fazendo
“yawk! yawk! yawk!”
ela pirou, eu
pensei.
então lentamente lentamente ela começou a subir pelo
ar.
ah não, pensei.
ela estava um metro acima da cerca viva,
abanando o ar – os seios quicando tristemente,
as pernas gigantes dando coices
procurando apoio no
ar. aí ela subiu, mais e
mais alto. ela estava acima dos prédios residenciais, subindo
pela névoa poluída de Los Angeles. então ela pairou sobre o Sunset Boulevard
bem alto acima do Banco Crocker-Citizens, e
então vi outro objeto que vinha voando do
sul. ele parecia ser só corpo com umas perninhas curtas
atrás. aí eles voaram um ao
encontro do outro. quando vi os dois se abraçando em pleno ar
eu me virei, entrei na cozinha e
baixei todas as
cortinas.
e esperei pelo fim do
mundo.
minha cabeça ressoava como um sino
e eu comecei a chorar.
1 232
Charles Bukowski
Simples Assim
uma das mais lindas loiras do cinema
inacreditáveis seios quadris pernas cintura
tudo,
naquele acidente de carro
a cabeça dela instantaneamente arrancada do
corpo –
simples assim –
lá se foi a cabeça rolando pelo acostamento da
estrada,
batom nos lábios, sobrancelhas delineadas, pó bronzeador aplicado,
bandana nos cabelos, ela foi rolando
como uma bola de vôlei
e o corpo ficou sentado no carro
com aqueles seios quadris pernas cintura,
tudo,
e no necrotério eles juntaram a cabeça de novo,
costuraram a cabeça
de volta,
deus do céu, disse o cara com a linha,
que desperdício.
aí ele saiu e foi pedir um hambúrguer, batata frita
e 2 xícaras de café,
preto.
inacreditáveis seios quadris pernas cintura
tudo,
naquele acidente de carro
a cabeça dela instantaneamente arrancada do
corpo –
simples assim –
lá se foi a cabeça rolando pelo acostamento da
estrada,
batom nos lábios, sobrancelhas delineadas, pó bronzeador aplicado,
bandana nos cabelos, ela foi rolando
como uma bola de vôlei
e o corpo ficou sentado no carro
com aqueles seios quadris pernas cintura,
tudo,
e no necrotério eles juntaram a cabeça de novo,
costuraram a cabeça
de volta,
deus do céu, disse o cara com a linha,
que desperdício.
aí ele saiu e foi pedir um hambúrguer, batata frita
e 2 xícaras de café,
preto.
1 186
Charles Bukowski
Um Poema Para Mim Mesmo
Charles Bukowski contesta o incontestável
trabalhava nos Correios
assusta pessoas nas ruas
é um neurótico
inventa as merdas que escreve
principalmente as partes sobre sexo
Charles Bukowski é o Rei dos Poetas Teimosos
Charles Bukowski trabalhava nos Correios
Charles Bukowski escreve com dureza e age com medo
age com medo e escreve com dureza
inventa as merdas que escreve
principalmente as partes sobre sexo
Charles Bukowski tem $90.000 no banco e está
preocupado
Charles Bukowski vai ganhar $20.000 por ano nos
próximos 4 anos e
está preocupado
Charles Bukowski é um bêbado
Charles Bukowski ama sua filha
Charles Bukowski trabalhava nos Correios
Charles Bukowski diz que odeia leituras de poesia em público
faz leituras de poesia em público
e tem chiliques quando o cachê é inferior a
$50
Charles Bukowski ganhou uma crítica boa na Der Spiegel
Charles Bukowski foi publicado na Penguin Poetry Series #13
Charles Bukowski acabou de escrever seu primeiro romance
tem dois pares velhos de sapato – um preto, outro marrom
Charles Bukowski foi certa vez casado com uma milionária
Charles Bukowski é conhecido no underground
Charles Bukowski dorme até o meio-dia e sempre acorda de
ressaca
Charles Bukowski foi louvado por Genet e Henry Miller
muita gente rica e bem-sucedida gostaria de ser
Charles Bukowski
Charles Bukowski bebe e conversa com fascistas, revolucionários,
babacas, putas e loucos
Charles Bukowski não gosta de poesia
parece um lutador mas apanha todas as vezes
ele bebe scotch ou vinho
Charles Bukowski foi funcionário dos Correios por onze anos
Charles Bukowski foi carteiro nos Correios por 3 anos
escreveu Notas de um velho safado
que está em livrarias do Canal do Panamá até
Amsterdã
Charles Bukowski se embebeda com professores universitários e os manda
chupar merda;
certa vez bebeu meio litro de uísque num só gole numa festa
para caretas, e o que é que
Charles Bukowski estava fazendo lá?
Charles Bukowski está nos arquivos da Universidade de Santa Barbara
foi o que provocou os tumultos em Isla Vista
Charles Bukowski se deu bem – ele pode foder um gambá numa cloaca
e se sair com um royal flush num furacão texano
quase todo mundo quer ser
Charles Bukowski
se embebedar com
Charles Bukowski
todas as garotas de cabelos pretos com bocetas apertadinhas querem
dar para
Charles Bukowski
até quando ele fala de suicídio
Charles Bukowski sorri e às vezes ri
e quando seus editores lhe dizem
mal chegamos no adiantamento ainda
ou nós não fizemos a nossa tabulação bianual
mas você se deu bem
Charles Bukowski
não se preocupe
e a Penguin Books cobra de
Charles Bukowski 2 libras devidas depois que
a primeira edição se esgotou, mas não se preocupe, nós
faremos uma segunda
edição,
e quando o bebum no sofá cai de cara
e Charles Bukowski tenta botá-lo de volta no sofá
o bebum lhe dá um soco no nariz
Charles Bukowski já teve até uma bibliografia escrita a seu respeito
ou tabulada a seu respeito
ele simplesmente não erra
seu mijo não fede
tudo está ótimo,
ele se embebeda até com seu senhorio e sua
senhoria, todo mundo gosta dele, acha que ele é
só só só...
Charles Bukowski tem ombros caídos
ele dá bicadas em teclas que não respondem ao chamado
sabendo que se deu bem
sabendo que ele é excelente
Charles Bukowski está indo à falência
está falindo
num período de aclamação
num período de professores e editores e boceta
ninguém poderá entender que suas últimas cédulas
estão queimando mais rápido do que
cocô de cachorro encharcado de gasolina F-310
e Marina precisa de sapatos
novos.
claro, ele não entende o
intangível, mas
entende.
Charles Bukowski não tem noção
ele se debruça sobre uma máquina de escrever
bêbado às 3:30 da manhã
que outra pessoa leve a bola
ele está machucado e sua bunda foi
chutada
já era
a noite está se mostrando
Charles Bukowski, querido garoto,
o jogo está terminando e você
jamais passou
do meio-campo,
seu imprestável.
trabalhava nos Correios
assusta pessoas nas ruas
é um neurótico
inventa as merdas que escreve
principalmente as partes sobre sexo
Charles Bukowski é o Rei dos Poetas Teimosos
Charles Bukowski trabalhava nos Correios
Charles Bukowski escreve com dureza e age com medo
age com medo e escreve com dureza
inventa as merdas que escreve
principalmente as partes sobre sexo
Charles Bukowski tem $90.000 no banco e está
preocupado
Charles Bukowski vai ganhar $20.000 por ano nos
próximos 4 anos e
está preocupado
Charles Bukowski é um bêbado
Charles Bukowski ama sua filha
Charles Bukowski trabalhava nos Correios
Charles Bukowski diz que odeia leituras de poesia em público
faz leituras de poesia em público
e tem chiliques quando o cachê é inferior a
$50
Charles Bukowski ganhou uma crítica boa na Der Spiegel
Charles Bukowski foi publicado na Penguin Poetry Series #13
Charles Bukowski acabou de escrever seu primeiro romance
tem dois pares velhos de sapato – um preto, outro marrom
Charles Bukowski foi certa vez casado com uma milionária
Charles Bukowski é conhecido no underground
Charles Bukowski dorme até o meio-dia e sempre acorda de
ressaca
Charles Bukowski foi louvado por Genet e Henry Miller
muita gente rica e bem-sucedida gostaria de ser
Charles Bukowski
Charles Bukowski bebe e conversa com fascistas, revolucionários,
babacas, putas e loucos
Charles Bukowski não gosta de poesia
parece um lutador mas apanha todas as vezes
ele bebe scotch ou vinho
Charles Bukowski foi funcionário dos Correios por onze anos
Charles Bukowski foi carteiro nos Correios por 3 anos
escreveu Notas de um velho safado
que está em livrarias do Canal do Panamá até
Amsterdã
Charles Bukowski se embebeda com professores universitários e os manda
chupar merda;
certa vez bebeu meio litro de uísque num só gole numa festa
para caretas, e o que é que
Charles Bukowski estava fazendo lá?
Charles Bukowski está nos arquivos da Universidade de Santa Barbara
foi o que provocou os tumultos em Isla Vista
Charles Bukowski se deu bem – ele pode foder um gambá numa cloaca
e se sair com um royal flush num furacão texano
quase todo mundo quer ser
Charles Bukowski
se embebedar com
Charles Bukowski
todas as garotas de cabelos pretos com bocetas apertadinhas querem
dar para
Charles Bukowski
até quando ele fala de suicídio
Charles Bukowski sorri e às vezes ri
e quando seus editores lhe dizem
mal chegamos no adiantamento ainda
ou nós não fizemos a nossa tabulação bianual
mas você se deu bem
Charles Bukowski
não se preocupe
e a Penguin Books cobra de
Charles Bukowski 2 libras devidas depois que
a primeira edição se esgotou, mas não se preocupe, nós
faremos uma segunda
edição,
e quando o bebum no sofá cai de cara
e Charles Bukowski tenta botá-lo de volta no sofá
o bebum lhe dá um soco no nariz
Charles Bukowski já teve até uma bibliografia escrita a seu respeito
ou tabulada a seu respeito
ele simplesmente não erra
seu mijo não fede
tudo está ótimo,
ele se embebeda até com seu senhorio e sua
senhoria, todo mundo gosta dele, acha que ele é
só só só...
Charles Bukowski tem ombros caídos
ele dá bicadas em teclas que não respondem ao chamado
sabendo que se deu bem
sabendo que ele é excelente
Charles Bukowski está indo à falência
está falindo
num período de aclamação
num período de professores e editores e boceta
ninguém poderá entender que suas últimas cédulas
estão queimando mais rápido do que
cocô de cachorro encharcado de gasolina F-310
e Marina precisa de sapatos
novos.
claro, ele não entende o
intangível, mas
entende.
Charles Bukowski não tem noção
ele se debruça sobre uma máquina de escrever
bêbado às 3:30 da manhã
que outra pessoa leve a bola
ele está machucado e sua bunda foi
chutada
já era
a noite está se mostrando
Charles Bukowski, querido garoto,
o jogo está terminando e você
jamais passou
do meio-campo,
seu imprestável.
1 038
Charles Bukowski
2 Poemas Imortais
uns 2 poemas imortais por noite
são mais ou menos tudo que me permito
escrever.
é razoável – não há muita competição.
além disso, é mais prazeroso
ficar bêbado
do que durar
para sempre.
é por isso que as pessoas
compram mais bebida alcoólica
do que Shakespeare...
quem não preferiria aprender a
escapar pelo gargalo de uma
garrafa
ou por uma cigarrilha Zig-Zag
perfeitamente enrolada
em vez de um livro?
2 poemas imortais por noite são
suficientes...
quando ouço aqueles saltos altos
estalando pelos degraus da minha
porta...
eu sei que a vida não é feita de papel
e imortalidade
mas daquilo que somos
agora; e enquanto
o corpo dela, os olhos, a alma
vão entrando no
quarto
a máquina de escrever se senta como um mimado e
acabado, muito bem alimentado
cachorro...
nós nos abraçamos
no interior do minúsculo lampejo
de nossas
vidas
enquanto a máquina de escrever
uiva
silenciosamente.
são mais ou menos tudo que me permito
escrever.
é razoável – não há muita competição.
além disso, é mais prazeroso
ficar bêbado
do que durar
para sempre.
é por isso que as pessoas
compram mais bebida alcoólica
do que Shakespeare...
quem não preferiria aprender a
escapar pelo gargalo de uma
garrafa
ou por uma cigarrilha Zig-Zag
perfeitamente enrolada
em vez de um livro?
2 poemas imortais por noite são
suficientes...
quando ouço aqueles saltos altos
estalando pelos degraus da minha
porta...
eu sei que a vida não é feita de papel
e imortalidade
mas daquilo que somos
agora; e enquanto
o corpo dela, os olhos, a alma
vão entrando no
quarto
a máquina de escrever se senta como um mimado e
acabado, muito bem alimentado
cachorro...
nós nos abraçamos
no interior do minúsculo lampejo
de nossas
vidas
enquanto a máquina de escrever
uiva
silenciosamente.
1 348
Charles Bukowski
Viciado Em Cavalo
nós trabalhávamos em banquetas lado a lado.
ele era negro e eu era branco
mas não é uma história racial –
nós éramos camaradas de apostas em cavalo
e ficávamos ali sentados enfiando cartas
a noite toda e por horas extras.
nossos olhos pareciam olhos de drogados:
estávamos viciados em Cavalo.
pelas 2 da manhã eu dava um salto e jogava minhas cartas todas no chão,
“ah, jesus!”, eu gritava, “ah, jesus cristo!”
“o quê o quê?”, meu camarada perguntava.
eu ficava ali parado com um cigarro queimando meus lábios:
“ah, jesus do céu, eu saquei! eu saquei! ah, jesus do céu,
é tão simples! me veio do nada! por que é que eu nunca tinha pensado?”
“o que é?”, ele perguntava, “me conta.”
então o supervisor vinha ver:
“Bukowski, qual é o maldito problema com você? cuide da sua estante! você
enlouqueceu?”
eu ficava ali parado e acendia calmamente um novo cigarro:
“escuta, bebê, cai fora! você me irrita! vou ser o primeiro a te contar, bebê,
meus dias de trabalho aqui estão definitivamente contados! eu saquei! eu realmente saquei
agora!”
“seus dias de trabalho aqui, Bukowski, estão definitivamente contados! agora cuide da sua estante e
pare de gritar!”
eu olhava pra ele como um cocô de cachorro e pegava o rumo da
latrina. por que é que eu não tinha pensado antes? eu ia comprar uma casa em Hollywood
Hills, beber e trepar a noite toda, ficar na jogatina o dia
todo.
então eu voltava, calmo.
ficava tudo bem até 4 da manhã e aí meu camarada dava um salto
jogando a correspondência pela estante toda:
“está tudo acabado! está tudo acabado! eu saquei! ah, meu deus, eu saquei!
é tão simples! tudo que você precisa fazer é pegar o cavalo que...”
“sim, sim?”, eu perguntava.
e o supervisor vinha correndo de novo
e perguntava ao meu camarada:
“e agora qual é o maldito problema com você? tá louco também?”
“escuta, cara, sai fora! tira essa cara da minha cara
ou eu te tiro no tapa!”
“tá me ameaçando, cara?”
“eu tô te dizendo, já era pra mim esse emprego! agora sai
fora!”
nós corríamos ao hipódromo no dia seguinte pra cair matando
mas de noite já estávamos de volta em nossas banquetas postais, como
sempre. sem dúvida, não faz muito sentido trabalhar a 20 ou 30 pratas por noite
quando você perde 50 pratas por dia. ele largou primeiro e eu logo
larguei atrás. vejo ele na pista todos os dias agora.
a esposa cuida dele. “eu finalmente aperfeiçoei minha jogada”, ele me diz.
“claro”, eu digo e me afasto pensando, esse filho da puta é realmente louco,
então vou até o guichê de 5 pela vitória pra apostar no meu esquema mais recente,
basta pegar a média de velocidade, acrescentar os 2 primeiros números na coluna de
dinheiro recebido, aí você...
ele era negro e eu era branco
mas não é uma história racial –
nós éramos camaradas de apostas em cavalo
e ficávamos ali sentados enfiando cartas
a noite toda e por horas extras.
nossos olhos pareciam olhos de drogados:
estávamos viciados em Cavalo.
pelas 2 da manhã eu dava um salto e jogava minhas cartas todas no chão,
“ah, jesus!”, eu gritava, “ah, jesus cristo!”
“o quê o quê?”, meu camarada perguntava.
eu ficava ali parado com um cigarro queimando meus lábios:
“ah, jesus do céu, eu saquei! eu saquei! ah, jesus do céu,
é tão simples! me veio do nada! por que é que eu nunca tinha pensado?”
“o que é?”, ele perguntava, “me conta.”
então o supervisor vinha ver:
“Bukowski, qual é o maldito problema com você? cuide da sua estante! você
enlouqueceu?”
eu ficava ali parado e acendia calmamente um novo cigarro:
“escuta, bebê, cai fora! você me irrita! vou ser o primeiro a te contar, bebê,
meus dias de trabalho aqui estão definitivamente contados! eu saquei! eu realmente saquei
agora!”
“seus dias de trabalho aqui, Bukowski, estão definitivamente contados! agora cuide da sua estante e
pare de gritar!”
eu olhava pra ele como um cocô de cachorro e pegava o rumo da
latrina. por que é que eu não tinha pensado antes? eu ia comprar uma casa em Hollywood
Hills, beber e trepar a noite toda, ficar na jogatina o dia
todo.
então eu voltava, calmo.
ficava tudo bem até 4 da manhã e aí meu camarada dava um salto
jogando a correspondência pela estante toda:
“está tudo acabado! está tudo acabado! eu saquei! ah, meu deus, eu saquei!
é tão simples! tudo que você precisa fazer é pegar o cavalo que...”
“sim, sim?”, eu perguntava.
e o supervisor vinha correndo de novo
e perguntava ao meu camarada:
“e agora qual é o maldito problema com você? tá louco também?”
“escuta, cara, sai fora! tira essa cara da minha cara
ou eu te tiro no tapa!”
“tá me ameaçando, cara?”
“eu tô te dizendo, já era pra mim esse emprego! agora sai
fora!”
nós corríamos ao hipódromo no dia seguinte pra cair matando
mas de noite já estávamos de volta em nossas banquetas postais, como
sempre. sem dúvida, não faz muito sentido trabalhar a 20 ou 30 pratas por noite
quando você perde 50 pratas por dia. ele largou primeiro e eu logo
larguei atrás. vejo ele na pista todos os dias agora.
a esposa cuida dele. “eu finalmente aperfeiçoei minha jogada”, ele me diz.
“claro”, eu digo e me afasto pensando, esse filho da puta é realmente louco,
então vou até o guichê de 5 pela vitória pra apostar no meu esquema mais recente,
basta pegar a média de velocidade, acrescentar os 2 primeiros números na coluna de
dinheiro recebido, aí você...
1 168
Charles Bukowski
Que Se Foda
que se fodam os censores
e se foda o joe rabisco
e que o se foda se foda
e se foda você
e me foda eu
e se foda o pé de mirtilo
e um pote de maionese
e se foda o refrigerador
e o padre
e os 3 dentes da última freira
e se foda a banheira
e se fodam as torneiras
e se foda a minha garrafa de cerveja
(mas tome cuidado)
que se foda a espiral
e a névoa poluída
e os calçamentos
e os calendários
e os poetas e os bispos e os reis e
os presidentes e os prefeitos e os vereadores
e os bombeiros e os policiais
e as revistas e os jornais e os sacos de
papel marrom
e o mar fedorento
e os preços que sobem e os desempregados
e escadas de corda
e vesículas biliares
e médicos desdenhosos e assistentes hospitalares e enfermeiras
queridas
e se foda a coisa toda,
você sabe.
ponha mãos à obra.
bote pra fora
e comece.
e se foda o joe rabisco
e que o se foda se foda
e se foda você
e me foda eu
e se foda o pé de mirtilo
e um pote de maionese
e se foda o refrigerador
e o padre
e os 3 dentes da última freira
e se foda a banheira
e se fodam as torneiras
e se foda a minha garrafa de cerveja
(mas tome cuidado)
que se foda a espiral
e a névoa poluída
e os calçamentos
e os calendários
e os poetas e os bispos e os reis e
os presidentes e os prefeitos e os vereadores
e os bombeiros e os policiais
e as revistas e os jornais e os sacos de
papel marrom
e o mar fedorento
e os preços que sobem e os desempregados
e escadas de corda
e vesículas biliares
e médicos desdenhosos e assistentes hospitalares e enfermeiras
queridas
e se foda a coisa toda,
você sabe.
ponha mãos à obra.
bote pra fora
e comece.
1 660
Charles Bukowski
A Captura
que nojo, ele disse,
puxando o negócio da água,
o que é isso?
uma Baleia Junina com Lordose, eu disse.
não, disse um cara junto a nós no píer,
é um Papa-Terra Voador.
um cara que passava disse,
é um da Esquadrilha Fandango sem as tiras.
apanhamos o gancho e erguemos a coisa que se
peidou toda. era cinzenta e coberta de pelos
e gorda e fedia a meia velha.
ela começou a andar pelo píer e nós a seguimos.
comeu um cachorro-quente e um bolo tomados das mãos de
uma garotinha. então ela saltou de súbito num carrossel
e montou um cavalo malhado. ela desabou perto do fim e
rolou sobre a serragem.
nós a apanhamos.
glub, ela disse, glub.
então ela voltou a cruzar o píer.
uma enorme multidão nos seguia enquanto caminhávamos.
deve ser uma jogada publicitária, disse alguém,
é um homem numa roupa de borracha.
então enquanto caminhava por ali a coisa começou a respirar
com dificuldade. caiu sobre as
próprias costas e começou a se debater.
alguém derramou um copo de cerveja sobre sua cabeça.
glub, ela fazia, glub.
depois disso morreu.
rolamos a coisa até a beirada do píer e a empurramos
de volta para as águas. ficamos vendo-a afundar e sumir.
uma Baleia Junina com Lordose, eu disse.
não, disse o outro cara, é um Papa-Terra Voador.
não, disse o outro entendido, é um da Esquadrilha Fandango
sem as tiras.
então cada um de nós tomou seu rumo em meio à tarde de agosto.
puxando o negócio da água,
o que é isso?
uma Baleia Junina com Lordose, eu disse.
não, disse um cara junto a nós no píer,
é um Papa-Terra Voador.
um cara que passava disse,
é um da Esquadrilha Fandango sem as tiras.
apanhamos o gancho e erguemos a coisa que se
peidou toda. era cinzenta e coberta de pelos
e gorda e fedia a meia velha.
ela começou a andar pelo píer e nós a seguimos.
comeu um cachorro-quente e um bolo tomados das mãos de
uma garotinha. então ela saltou de súbito num carrossel
e montou um cavalo malhado. ela desabou perto do fim e
rolou sobre a serragem.
nós a apanhamos.
glub, ela disse, glub.
então ela voltou a cruzar o píer.
uma enorme multidão nos seguia enquanto caminhávamos.
deve ser uma jogada publicitária, disse alguém,
é um homem numa roupa de borracha.
então enquanto caminhava por ali a coisa começou a respirar
com dificuldade. caiu sobre as
próprias costas e começou a se debater.
alguém derramou um copo de cerveja sobre sua cabeça.
glub, ela fazia, glub.
depois disso morreu.
rolamos a coisa até a beirada do píer e a empurramos
de volta para as águas. ficamos vendo-a afundar e sumir.
uma Baleia Junina com Lordose, eu disse.
não, disse o outro cara, é um Papa-Terra Voador.
não, disse o outro entendido, é um da Esquadrilha Fandango
sem as tiras.
então cada um de nós tomou seu rumo em meio à tarde de agosto.
660
Charles Bukowski
Blues do Leito de Morte
se você não consegue suportar o calor, ele diz, saia da
cozinha. sabe quem falou isso?
Harry Truman.
não estou na cozinha, eu digo, estou no
forno.
meu editor é um cara difícil.
às vezes eu ligo pra ele em momentos de dúvida.
veja, ele responde, você estará acendendo charutos com notas de dez
dólares, você terá um ruiva num dos braços e uma loira
no outro.
outras vezes ele dirá, veja, acho que vou contratar
V.K. como meu editor associado. temos de cortar
5 poetas aqui do catálogo. vou deixar que ele
decida. (V.K. é um poeta com uma imaginação muito fértil e que crê
que eu o esfaqueei de N.Y. até a costa do Havaí.)
escute, garoto, liguei para meu editor, você sabe falar alemão?
não, ele respondeu.
bem, seja como for, preciso de uns pneus novos, baratos.
sabe onde eu poderia conseguir uns pneus novos, baratos?
ligo para você em meia hora, ele diz, estará por aí
em meia hora?
não estou em condições de ir para nenhum lugar, eu digo.
ele diz, disseram que você estava bêbado na leitura
em Oregon.
difamação imunda, eu respondo.
você estava?
não consigo
lembrar.
um dia ele me liga:
você já não está acertando a tacada. só está acertando a
garrafa e brigando com todas essas
mulheres. você sabe que temos um bom garoto no banco de reservas,
ele está louco para entrar
sabe rebater em qualquer uma das bases
consegue apanhar qualquer bola que não vá por cima da murada
é treinado por Duncan, Creeley, Wakoski
e ele sabe rimar, conhece
imagens, símiles, metáforas, figuras, conceitos,
assonâncias, aliterações, métricas, sim
todos os tipos de métrica, você sabe –
iâmbica, trocaica, anapéstica, espondaica,
conhece cesura, denotação, conotação, personificação,
dicção, voz, paradoxo, retórica, tom e
coalescência...
puta que pariu, eu digo, desligo e tomo um bom gole de
Old Grandad. Harry continua vivo
de acordo com os jornais. mas decido que em vez
de conseguir pneus novos é melhor
arrumar um jogo de recauchutados.
cozinha. sabe quem falou isso?
Harry Truman.
não estou na cozinha, eu digo, estou no
forno.
meu editor é um cara difícil.
às vezes eu ligo pra ele em momentos de dúvida.
veja, ele responde, você estará acendendo charutos com notas de dez
dólares, você terá um ruiva num dos braços e uma loira
no outro.
outras vezes ele dirá, veja, acho que vou contratar
V.K. como meu editor associado. temos de cortar
5 poetas aqui do catálogo. vou deixar que ele
decida. (V.K. é um poeta com uma imaginação muito fértil e que crê
que eu o esfaqueei de N.Y. até a costa do Havaí.)
escute, garoto, liguei para meu editor, você sabe falar alemão?
não, ele respondeu.
bem, seja como for, preciso de uns pneus novos, baratos.
sabe onde eu poderia conseguir uns pneus novos, baratos?
ligo para você em meia hora, ele diz, estará por aí
em meia hora?
não estou em condições de ir para nenhum lugar, eu digo.
ele diz, disseram que você estava bêbado na leitura
em Oregon.
difamação imunda, eu respondo.
você estava?
não consigo
lembrar.
um dia ele me liga:
você já não está acertando a tacada. só está acertando a
garrafa e brigando com todas essas
mulheres. você sabe que temos um bom garoto no banco de reservas,
ele está louco para entrar
sabe rebater em qualquer uma das bases
consegue apanhar qualquer bola que não vá por cima da murada
é treinado por Duncan, Creeley, Wakoski
e ele sabe rimar, conhece
imagens, símiles, metáforas, figuras, conceitos,
assonâncias, aliterações, métricas, sim
todos os tipos de métrica, você sabe –
iâmbica, trocaica, anapéstica, espondaica,
conhece cesura, denotação, conotação, personificação,
dicção, voz, paradoxo, retórica, tom e
coalescência...
puta que pariu, eu digo, desligo e tomo um bom gole de
Old Grandad. Harry continua vivo
de acordo com os jornais. mas decido que em vez
de conseguir pneus novos é melhor
arrumar um jogo de recauchutados.
1 163
Charles Bukowski
Risada Literária
escute, cara, não fale sobre os poemas que você
mandou, a gente não recebeu nada,
somos muito cuidadosos com manuscritos
nós os assamos
queimamos
rimos deles
vomitamos neles
derrubamos cerveja sobre eles
mas geralmente os
devolvemos
eles são
tão
inanes.
ah, nós acreditamos na Arte,
precisamos dela
com certeza,
mas, você sabe, há muita gente
(a maioria das pessoas)
brincando e fornicando com as
Artes
que apenas superlotam o palco
com sua generosa e implacável
e vigorosa
mediocridade.
nossa assinatura é de $4 ao ano.
por favor, leia nossa revista antes de enviar qualquer
material.
mandou, a gente não recebeu nada,
somos muito cuidadosos com manuscritos
nós os assamos
queimamos
rimos deles
vomitamos neles
derrubamos cerveja sobre eles
mas geralmente os
devolvemos
eles são
tão
inanes.
ah, nós acreditamos na Arte,
precisamos dela
com certeza,
mas, você sabe, há muita gente
(a maioria das pessoas)
brincando e fornicando com as
Artes
que apenas superlotam o palco
com sua generosa e implacável
e vigorosa
mediocridade.
nossa assinatura é de $4 ao ano.
por favor, leia nossa revista antes de enviar qualquer
material.
1 074
Charles Bukowski
O Tempo Está Quente Na Parte de Trás do Meu Relógio
o tempo está quente na parte de trás do meu relógio
que está no Finkelstein
que foi premiado com 3 bolas
mas nenhum coração, mas você precisa entender
quando o touro ataca
ou a puta, o coração é posto de lado por alguma outra coisa,
e não vamos supervalorizar a óbvia decência
porque num jogo de merda você pode estar liquidando
algum rei vacilante de 6 crianças
e uma hemorroida em seu último cheque do seguro desemprego,
e quem pode dizer que a rosa é maior do que o espinho?
eu não, Henry,
e quando seu amor fica com os joelhos frouxos e prefere rasteirinhas,
talvez você devesse ter se enfiado em alguma coisa diferente
como um poço de petróleo
ou uma manada de vacas.
estou velho demais para discutir,
me acabei com o poema
e fui nocauteado pelo velho golpe de surpresa
assalto depois de assalto,
mas às vezes eu gosto de pensar no Kaiser
ou em qualquer outro imbecil cheio de medalhas e nada mais,
ou na primeira vez que lemos o Dos
ou o Eliot com as calças enroladas;
o tempo está quente na parte de trás do meu relógio
que está no Finkelstein,
mas você sabe o que eles dizem: as coisas são duras em toda a parte,
e eu me lembro de uma vez vagabundeando no Texas
ter assistido a uma caça aos corvos, cem fazendeiros com cem espingardas
batendo uma punheta no céu com um pênis gigante de ódio
e os corvos caíam semimortos, semivivos,
e eles os matavam a pauladas para economizar as balas
mas ficaram sem balas antes de ficar sem corvos
e os corvos retornaram e caminharam em torno dos projéteis e
projetaram suas línguas
e fizeram luto por seus mortos e elegeram novos líderes
e depois de uma vez só voaram para casa para foder e preencher o vazio.
você só pode matar o que não deveria estar lá,
e Finkelstein deveria estar lá e meu relógio
e talvez eu mesmo, e eu percebo que se os poemas são ruins
é esperado que sejam ruins e se eles são bons
é esperado também que assim o sejam – embora haja uma luta
menor a ser lutada,
mas ainda assim sigo triste
porque estou nesta pequena cidade em algum lugar de uma terra má,
completamente fora de mão, sem ao menos querer estar aqui,
dois dólares na carteira, e um agricultor se voltou para mim
e me perguntou que horas eram
e eu não pude lhe dizer,
e mais tarde eles reuniram os bichos para fazer uma fogueira
como se não fossem melhores do que estrume com penas,
penas e um pouco de gasolina,
e do topo de uma das pilhas
um corvo não bem morto me sorriu.
eram 16:35.
que está no Finkelstein
que foi premiado com 3 bolas
mas nenhum coração, mas você precisa entender
quando o touro ataca
ou a puta, o coração é posto de lado por alguma outra coisa,
e não vamos supervalorizar a óbvia decência
porque num jogo de merda você pode estar liquidando
algum rei vacilante de 6 crianças
e uma hemorroida em seu último cheque do seguro desemprego,
e quem pode dizer que a rosa é maior do que o espinho?
eu não, Henry,
e quando seu amor fica com os joelhos frouxos e prefere rasteirinhas,
talvez você devesse ter se enfiado em alguma coisa diferente
como um poço de petróleo
ou uma manada de vacas.
estou velho demais para discutir,
me acabei com o poema
e fui nocauteado pelo velho golpe de surpresa
assalto depois de assalto,
mas às vezes eu gosto de pensar no Kaiser
ou em qualquer outro imbecil cheio de medalhas e nada mais,
ou na primeira vez que lemos o Dos
ou o Eliot com as calças enroladas;
o tempo está quente na parte de trás do meu relógio
que está no Finkelstein,
mas você sabe o que eles dizem: as coisas são duras em toda a parte,
e eu me lembro de uma vez vagabundeando no Texas
ter assistido a uma caça aos corvos, cem fazendeiros com cem espingardas
batendo uma punheta no céu com um pênis gigante de ódio
e os corvos caíam semimortos, semivivos,
e eles os matavam a pauladas para economizar as balas
mas ficaram sem balas antes de ficar sem corvos
e os corvos retornaram e caminharam em torno dos projéteis e
projetaram suas línguas
e fizeram luto por seus mortos e elegeram novos líderes
e depois de uma vez só voaram para casa para foder e preencher o vazio.
você só pode matar o que não deveria estar lá,
e Finkelstein deveria estar lá e meu relógio
e talvez eu mesmo, e eu percebo que se os poemas são ruins
é esperado que sejam ruins e se eles são bons
é esperado também que assim o sejam – embora haja uma luta
menor a ser lutada,
mas ainda assim sigo triste
porque estou nesta pequena cidade em algum lugar de uma terra má,
completamente fora de mão, sem ao menos querer estar aqui,
dois dólares na carteira, e um agricultor se voltou para mim
e me perguntou que horas eram
e eu não pude lhe dizer,
e mais tarde eles reuniram os bichos para fazer uma fogueira
como se não fossem melhores do que estrume com penas,
penas e um pouco de gasolina,
e do topo de uma das pilhas
um corvo não bem morto me sorriu.
eram 16:35.
1 003
Charles Bukowski
Tira
3 moleques correm em minha direção
soprando apitos
e eles gritam
você está preso!
você está bêbado!
e eles começam
a me golpear as pernas com
seus cassetetes de brinquedo.
um deles chega a ter uma
insígnia. outro tem
algemas mas minhas mãos estão erguidas no ar.
quando entro na loja de bebidas
eles ficam circulando lá fora
como abelhas
excluídas de suas colmeias.
compro uma garrafa de uísque
barato
e
3
barras de chocolate recheadas.
soprando apitos
e eles gritam
você está preso!
você está bêbado!
e eles começam
a me golpear as pernas com
seus cassetetes de brinquedo.
um deles chega a ter uma
insígnia. outro tem
algemas mas minhas mãos estão erguidas no ar.
quando entro na loja de bebidas
eles ficam circulando lá fora
como abelhas
excluídas de suas colmeias.
compro uma garrafa de uísque
barato
e
3
barras de chocolate recheadas.
1 176
Charles Bukowski
Os Trabalhadores
eles riem sem parar
mesmo quando
uma placa cai
e destrói um rosto
ou deforma um
corpo
eles continuam
rindo,
quando a cor do olho
adquire uma temerária palidez
por causa da má
iluminação
eles continuam a rir;
enrugados e imbecilizados
ainda jovens
fazem piadas sobre isso:
um homem com aparência de sessenta
dirá
tenho 32, e
então rirão
todos eles rirão;
por vezes são postos
do lado de fora para tomar um pouco de ar
mas grilhões os trazem de volta
grilhões que não arrebentariam
mesmo
que pudessem;
mesmo do lado de fora, entre
homens livres
eles continuam rindo,
vagam por aí
com um passo hesitante e
tímido
como se tivessem perdido
os sentidos; do lado de fora
ruminam um pedaço de pão,
pechincham, dormem, contam os tostões,
olham perdidos para o relógio
e retornam;
às vezes em seus confins
chegam até a se pôr sérios
por um momento, falam do lado de
Fora, de quão horrível
deve ser
ficar trancado
do lado de Fora
para sempre, sem jamais poder
retornar;
faz calor enquanto trabalham
e eles suam um
pouco,
mas eles trabalham duro e
bem, trabalham tão duro
que os nervos se rebelam
e causam tremores,
mas com frequência
são elogiados por aqueles
que dentre eles
se ergueram
como estrelas,
e agora as estrelas
estão de olho
de olho também
naqueles poucos
que podem tentar
retardar o passo ou
mostrar desinteresse
ou falsificar um
mal-estar
a fim de obter uma
folga (a folga deve ser
ganha para um aumento de força
para um trabalho ainda mais
perfeito).
às vezes algum deles morre
ou enlouquece
e então de Fora
alguém novo entra
e uma oportunidade
é oferecida.
estive lá por
muitos anos;
no começo achava que o trabalho era
monótono, até mesmo
tolo
mas agora entendo
que tudo tem uma função,
e os trabalhadores
sem rostos
que vejo não são realmente
feios, e que
as cabeças sem olhos –
agora eu sei que esses olhos
podem ver
e estão aptos
ao trabalho.
as trabalhadoras
são geralmente as melhores,
adaptando-se de modo natural,
e com algumas dessas
fiz amor em nossas
horas de descanso; de início
pareciam ser
como primatas
mas depois
com iluminação
percebi
que elas eram coisas
tão reais e vivas como eu
mesmo.
noite dessas
um velho trabalhador
cego e grisalho
a serventia perdida
foi aposentado e mandado
para o lado de Fora.
discurso! discurso!
nós exigimos.
foi um
inferno, ele disse.
rimos
os 4.000 de nós:
ele mantivera seu
humor
até o
fim.
mesmo quando
uma placa cai
e destrói um rosto
ou deforma um
corpo
eles continuam
rindo,
quando a cor do olho
adquire uma temerária palidez
por causa da má
iluminação
eles continuam a rir;
enrugados e imbecilizados
ainda jovens
fazem piadas sobre isso:
um homem com aparência de sessenta
dirá
tenho 32, e
então rirão
todos eles rirão;
por vezes são postos
do lado de fora para tomar um pouco de ar
mas grilhões os trazem de volta
grilhões que não arrebentariam
mesmo
que pudessem;
mesmo do lado de fora, entre
homens livres
eles continuam rindo,
vagam por aí
com um passo hesitante e
tímido
como se tivessem perdido
os sentidos; do lado de fora
ruminam um pedaço de pão,
pechincham, dormem, contam os tostões,
olham perdidos para o relógio
e retornam;
às vezes em seus confins
chegam até a se pôr sérios
por um momento, falam do lado de
Fora, de quão horrível
deve ser
ficar trancado
do lado de Fora
para sempre, sem jamais poder
retornar;
faz calor enquanto trabalham
e eles suam um
pouco,
mas eles trabalham duro e
bem, trabalham tão duro
que os nervos se rebelam
e causam tremores,
mas com frequência
são elogiados por aqueles
que dentre eles
se ergueram
como estrelas,
e agora as estrelas
estão de olho
de olho também
naqueles poucos
que podem tentar
retardar o passo ou
mostrar desinteresse
ou falsificar um
mal-estar
a fim de obter uma
folga (a folga deve ser
ganha para um aumento de força
para um trabalho ainda mais
perfeito).
às vezes algum deles morre
ou enlouquece
e então de Fora
alguém novo entra
e uma oportunidade
é oferecida.
estive lá por
muitos anos;
no começo achava que o trabalho era
monótono, até mesmo
tolo
mas agora entendo
que tudo tem uma função,
e os trabalhadores
sem rostos
que vejo não são realmente
feios, e que
as cabeças sem olhos –
agora eu sei que esses olhos
podem ver
e estão aptos
ao trabalho.
as trabalhadoras
são geralmente as melhores,
adaptando-se de modo natural,
e com algumas dessas
fiz amor em nossas
horas de descanso; de início
pareciam ser
como primatas
mas depois
com iluminação
percebi
que elas eram coisas
tão reais e vivas como eu
mesmo.
noite dessas
um velho trabalhador
cego e grisalho
a serventia perdida
foi aposentado e mandado
para o lado de Fora.
discurso! discurso!
nós exigimos.
foi um
inferno, ele disse.
rimos
os 4.000 de nós:
ele mantivera seu
humor
até o
fim.
831
Charles Bukowski
O Ex-Pugilista
ele se aferrava com força ao corpo
aguentava bem
e adorava uma briga
já levava uma sequência de sete e tinha uma pequena mancha
sobre um dos olhos,
e então topou com um garoto de Camden
cujos braços eram finos como arames –
era dos bons,
os gorilas da audiência urraram e jogaram dinheiro;
os dois caíram e se levantaram muitas vezes,
mas ele perdeu aquela
e perdeu também a revanche
na qual nenhum dos dois chegou a lutar,
agarrados um ao outro como se fossem amantes através das vaias,
e agora ele trabalha com o Mike
trocando pneus e óleo e baterias,
a mancha sobre o olho
ainda jovem,
mas você não fala com ele,
você não pergunta nada para ele
exceto talvez
será que vai chover?
ou
acha que o sol vai aparecer?
ao que ele normalmente responderia
claro que não,
mas você encheria seu tanque de gasolina
e iria embora.
aguentava bem
e adorava uma briga
já levava uma sequência de sete e tinha uma pequena mancha
sobre um dos olhos,
e então topou com um garoto de Camden
cujos braços eram finos como arames –
era dos bons,
os gorilas da audiência urraram e jogaram dinheiro;
os dois caíram e se levantaram muitas vezes,
mas ele perdeu aquela
e perdeu também a revanche
na qual nenhum dos dois chegou a lutar,
agarrados um ao outro como se fossem amantes através das vaias,
e agora ele trabalha com o Mike
trocando pneus e óleo e baterias,
a mancha sobre o olho
ainda jovem,
mas você não fala com ele,
você não pergunta nada para ele
exceto talvez
será que vai chover?
ou
acha que o sol vai aparecer?
ao que ele normalmente responderia
claro que não,
mas você encheria seu tanque de gasolina
e iria embora.
1 119