Poemas neste tema
Beleza
Herberto Helder
5B
As varas frias que batem nos meus lugares levantam
os dias de espuma, as varas cor de malva
nos lugares altos
levantam o enxofre na treva.
Ei-la, a criança louca
— uma rotação turquesa, nos buracos estrelas centrífugas
com membros.
Sei agora onde me alcança o vergão de sal:
no mamilo rosa esquerda, em cima
das válvulas negras. Arranca-se o nervo ao espelho,
arranca-se a veia à palavra: não fica
o rosto, a criança não fica no abismo sonoro.
Louca sob essas varas de gelo, lufadas
redondas
onde ela se volta, a cabeça radiosamente com membros.
Os salões do mundo são atravessados por cometas drapejantes.
E explode a espuma no filme
sideral. O talento tumultuoso de uma camélia
debaixo das varas. E ao meio,
eu — inocente, inocente. Largo na testa
para a loucura e o baptismo.
Arte de redacção: ver isto,
ver a morte — dar-lhe um nome de diamante com o nervo
dentro. Aveia selvagem trespassando a acerba
massa
dos vocábulos. E nos lugares visuais do paraíso,
assinar: o demoníaco — com todas as letras
doces.
os dias de espuma, as varas cor de malva
nos lugares altos
levantam o enxofre na treva.
Ei-la, a criança louca
— uma rotação turquesa, nos buracos estrelas centrífugas
com membros.
Sei agora onde me alcança o vergão de sal:
no mamilo rosa esquerda, em cima
das válvulas negras. Arranca-se o nervo ao espelho,
arranca-se a veia à palavra: não fica
o rosto, a criança não fica no abismo sonoro.
Louca sob essas varas de gelo, lufadas
redondas
onde ela se volta, a cabeça radiosamente com membros.
Os salões do mundo são atravessados por cometas drapejantes.
E explode a espuma no filme
sideral. O talento tumultuoso de uma camélia
debaixo das varas. E ao meio,
eu — inocente, inocente. Largo na testa
para a loucura e o baptismo.
Arte de redacção: ver isto,
ver a morte — dar-lhe um nome de diamante com o nervo
dentro. Aveia selvagem trespassando a acerba
massa
dos vocábulos. E nos lugares visuais do paraíso,
assinar: o demoníaco — com todas as letras
doces.
563
Herberto Helder
1C
Criança à beira do ar. Caminha pelas cores prodigiosas, iluminações
da água, esmeraldas
exasperadas, as púrpuras. E entra na clareira. Passa,
toda. Está coberta de pólen.
A convulsão de uma jóia quando roda
abruptamente acesa. A cicatriz no tórax é uma
arborescência
a sangue e ouro. Nela se embebedam os enxames das imagens
estelares, vermelhas,
extremas.
Os favos no escuro enlouquecem a infância.
Nas suas casas profundas Deus aguarda que se demonstre
o teorema perfeito
e terrível.
da água, esmeraldas
exasperadas, as púrpuras. E entra na clareira. Passa,
toda. Está coberta de pólen.
A convulsão de uma jóia quando roda
abruptamente acesa. A cicatriz no tórax é uma
arborescência
a sangue e ouro. Nela se embebedam os enxames das imagens
estelares, vermelhas,
extremas.
Os favos no escuro enlouquecem a infância.
Nas suas casas profundas Deus aguarda que se demonstre
o teorema perfeito
e terrível.
1 017
Herberto Helder
4C
Que ofício debruçado: polir a jóia extenuante,
multiplicar o mundo face
mais face.
Fazer da imagem uma consciência vária.
O fogo dessa pedra cada vez mais
alerta, preciosa, convulsa, funda, abrasadora.
Trabalhas nela até às unhas.
Trabalhas na atenção aterrada, com que louvor
de obra, irrealmente. As estações da noite, os sistemas
nervosos das avenças do alto,
as plumagens.
E os dias compactos como o leite
guardado nos jarros, ou largos
das sedas estendidas. Passam
unidos todos uns aos outros
nos cotovelos. E lapidas, lapidas. Arrancas-lhe a força
eléctrica. Que a ti mesmo,
nas mãos e na cabeça, no escuro, no levantamento
do ar no sono, te faz desentranhadamente
límpido. O relâmpago
do âmago. Queima-te avista. E na cegueira fica apenas,
atroz,
o coração da jóia.
multiplicar o mundo face
mais face.
Fazer da imagem uma consciência vária.
O fogo dessa pedra cada vez mais
alerta, preciosa, convulsa, funda, abrasadora.
Trabalhas nela até às unhas.
Trabalhas na atenção aterrada, com que louvor
de obra, irrealmente. As estações da noite, os sistemas
nervosos das avenças do alto,
as plumagens.
E os dias compactos como o leite
guardado nos jarros, ou largos
das sedas estendidas. Passam
unidos todos uns aos outros
nos cotovelos. E lapidas, lapidas. Arrancas-lhe a força
eléctrica. Que a ti mesmo,
nas mãos e na cabeça, no escuro, no levantamento
do ar no sono, te faz desentranhadamente
límpido. O relâmpago
do âmago. Queima-te avista. E na cegueira fica apenas,
atroz,
o coração da jóia.
628
Herberto Helder
3B
O dia, esse bojo de linfa, uma vertigem de hélio — arcaicamente
como pretexto para luzirem
cortejos: animais, bárbaros crânios de ouro;
um branco suspiro extenua as gargantas dos áruns;
pálpebras no granito despedem-se do mundo. Quando
começam os sítios
íngremes. Porque a treva aproveita
a madurez para onde
se debruça a paisagem. E fique a púrpura
nos dedos, só
por deslizarem. O objecto ao meio é o vaso
em que trabalham. A noite coloca um degrau,
até que do invisível
— reservatórios de linfa e gás entenebreçam.
Os longos mesteres da argila: órgão macio e baixo.
O espasmo que o faz rodar, a beleza
que o transforma num crânio
astral: — Vaso
dolorosamente fechado sobre a fulguração da massa
de átomos. Embriaga-se à volta
do buraco exasperado. O papel redemoinhando às lunações
das unhas. Brilha, escurece. Depois é cor de sangue: o sorvo,
e o sôfrego
movimento externo.
como pretexto para luzirem
cortejos: animais, bárbaros crânios de ouro;
um branco suspiro extenua as gargantas dos áruns;
pálpebras no granito despedem-se do mundo. Quando
começam os sítios
íngremes. Porque a treva aproveita
a madurez para onde
se debruça a paisagem. E fique a púrpura
nos dedos, só
por deslizarem. O objecto ao meio é o vaso
em que trabalham. A noite coloca um degrau,
até que do invisível
— reservatórios de linfa e gás entenebreçam.
Os longos mesteres da argila: órgão macio e baixo.
O espasmo que o faz rodar, a beleza
que o transforma num crânio
astral: — Vaso
dolorosamente fechado sobre a fulguração da massa
de átomos. Embriaga-se à volta
do buraco exasperado. O papel redemoinhando às lunações
das unhas. Brilha, escurece. Depois é cor de sangue: o sorvo,
e o sôfrego
movimento externo.
1 231
Herberto Helder
(A Morte Própria)
E estás algures, em ilhas, selada pelo teu próprio brilho,
enquanto a terra me queima os dedos e os dedos
entram no coração como uma queimadura e o coração
propagado
é o incêndio na cabeça — às vezes
a cabeça não sabe que os pulmões arrastam
as labaredas do mundo como um grande buraco
de vozes: um rumor
de crepitações: uma força: uma rapidez
entre as formas — espelhos luzindo
atrás dos rostos: e tu levantas um braço:
trazes do fundo de tudo a raiz ainda viva de cada coisa:
uma constelação magnética entre os pés afastados
— eu vejo a tua morte no meu próprio movimento:
na chama correndo pela paisagem
fora, a paisagem
que ergues, que depois abandonas ao seu próprio espaço
de paisagem no tempo,
externa: atravessada por noites,
por luzes, transformações, ideias de quem vê,
pelos seus desenvolvimentos ocultos — vejo
que ressuscito no teu modo, essa espécie de estilo
ou energia,
quando casa e paisagem circulam como ilhas
numa torrente à volta —
e então o que tocas é esse teu mesmo coração cruzado
por imagens luxuosas: o filme aceso:
membranas do corpo rutilando à passagem dos astros de mármore —
e o teu rosto arranca-se à sombria gravidade
do fundo
da beleza, dos poderes terrestres e o peso
de tanta profundidade: e um instante explode
essa estrela embrenhada na minha cabeça, como
o coração se aprofunda, os dedos
puxam
as linhas de lume com que se cose a terra,
a fenda do seu sangue abismado — às vezes
o espelho é o meu próprio corpo,
a sua ferida: mas entre ilhas, sob
o que circula: espuma do ar, os cometas,
no sono sumptuoso
de animais
quase fixos, os rostos abertos aos raios dos nossos rostos,
aos nossos dedos que lhes chegam ao meio do coração —
porque tudo anda dentro de mim, e o mundo
esgota-se
no teu movimento entre laços
de sangue, cabelos luzindo, as pedras
inclinadas para os teus lugares respiradores: a árvore
crescendo a cada paragem, com toda a tua inspiração
na minha morte, aqui, uma árvore
combustível
onde a fruta faísca: paraíso de espaços múltiplos
e velozes,
entranhado em mim como se eu fosse a árvore
e tu fosses um espelho que a árvore despedaçasse pela sua força
e no espelho eu, como uma imagem, fosse despedaçado,
brilhando.
1978.
enquanto a terra me queima os dedos e os dedos
entram no coração como uma queimadura e o coração
propagado
é o incêndio na cabeça — às vezes
a cabeça não sabe que os pulmões arrastam
as labaredas do mundo como um grande buraco
de vozes: um rumor
de crepitações: uma força: uma rapidez
entre as formas — espelhos luzindo
atrás dos rostos: e tu levantas um braço:
trazes do fundo de tudo a raiz ainda viva de cada coisa:
uma constelação magnética entre os pés afastados
— eu vejo a tua morte no meu próprio movimento:
na chama correndo pela paisagem
fora, a paisagem
que ergues, que depois abandonas ao seu próprio espaço
de paisagem no tempo,
externa: atravessada por noites,
por luzes, transformações, ideias de quem vê,
pelos seus desenvolvimentos ocultos — vejo
que ressuscito no teu modo, essa espécie de estilo
ou energia,
quando casa e paisagem circulam como ilhas
numa torrente à volta —
e então o que tocas é esse teu mesmo coração cruzado
por imagens luxuosas: o filme aceso:
membranas do corpo rutilando à passagem dos astros de mármore —
e o teu rosto arranca-se à sombria gravidade
do fundo
da beleza, dos poderes terrestres e o peso
de tanta profundidade: e um instante explode
essa estrela embrenhada na minha cabeça, como
o coração se aprofunda, os dedos
puxam
as linhas de lume com que se cose a terra,
a fenda do seu sangue abismado — às vezes
o espelho é o meu próprio corpo,
a sua ferida: mas entre ilhas, sob
o que circula: espuma do ar, os cometas,
no sono sumptuoso
de animais
quase fixos, os rostos abertos aos raios dos nossos rostos,
aos nossos dedos que lhes chegam ao meio do coração —
porque tudo anda dentro de mim, e o mundo
esgota-se
no teu movimento entre laços
de sangue, cabelos luzindo, as pedras
inclinadas para os teus lugares respiradores: a árvore
crescendo a cada paragem, com toda a tua inspiração
na minha morte, aqui, uma árvore
combustível
onde a fruta faísca: paraíso de espaços múltiplos
e velozes,
entranhado em mim como se eu fosse a árvore
e tu fosses um espelho que a árvore despedaçasse pela sua força
e no espelho eu, como uma imagem, fosse despedaçado,
brilhando.
1978.
1 542
Herberto Helder
2B
Ninguém se aproxima de ninguém se não for num murmúrio,
entre floras altas: camélias de ar
espancado, as labaredas dos aloés erguidas
de uma carne difícil.
A beleza que devora a visão alimenta-se da desordem.
O espaço brilha dela, sussurra quando passa por uma imagem
tão leve que não suporta o peso
brusco
do sangue — as veias da garganta contra a boca.
entre floras altas: camélias de ar
espancado, as labaredas dos aloés erguidas
de uma carne difícil.
A beleza que devora a visão alimenta-se da desordem.
O espaço brilha dela, sussurra quando passa por uma imagem
tão leve que não suporta o peso
brusco
do sangue — as veias da garganta contra a boca.
997
Herberto Helder
3E
Laranjas instantâneas, defronte — e as íris ficam amarelas.
Avisão da terra é uma obra cega. Mas as laranjas
atrás das costas, as mais
pesadas, as mais
lentamente maduras, as laranjas que mais tempo demoram
a unir o dia à noite, que têm uma força maior em cima
das mesas, essas.
Operatórias. São laranjas ininterruptas trabalhando em imagens
as regiões ofuscantes da cabeça.
Enriquecem o ofício sentado com um incêndio
quarto a quarto da alma. Enriquecem, devastam.
— Constelação ao vento avassalando a casa.
Avisão da terra é uma obra cega. Mas as laranjas
atrás das costas, as mais
pesadas, as mais
lentamente maduras, as laranjas que mais tempo demoram
a unir o dia à noite, que têm uma força maior em cima
das mesas, essas.
Operatórias. São laranjas ininterruptas trabalhando em imagens
as regiões ofuscantes da cabeça.
Enriquecem o ofício sentado com um incêndio
quarto a quarto da alma. Enriquecem, devastam.
— Constelação ao vento avassalando a casa.
1 282
Herberto Helder
4R
Dálias cerebrais de repente. Artesianas, irrigadas
pela infiltração
alimentar do sono. Álcoois,
minérios, drogas. Curvam a luz onde se apoiam.
Autónomas
polpas de jóias quando a treva as cerca.
Irrompem do fundo das páginas, continuam se as penso
em alumiação no espaço que as exalta.
Malévola beleza acentuando uma época
fosfórica. Os dedos
que as recebem dos dedos
queimados
queimam-se. Porque tudo se calcina: sono e imagem,
dálias verdadeiras, as palavras,
as pessoas.
Essa dádiva infernal fechada na metáfora.
pela infiltração
alimentar do sono. Álcoois,
minérios, drogas. Curvam a luz onde se apoiam.
Autónomas
polpas de jóias quando a treva as cerca.
Irrompem do fundo das páginas, continuam se as penso
em alumiação no espaço que as exalta.
Malévola beleza acentuando uma época
fosfórica. Os dedos
que as recebem dos dedos
queimados
queimam-se. Porque tudo se calcina: sono e imagem,
dálias verdadeiras, as palavras,
as pessoas.
Essa dádiva infernal fechada na metáfora.
1 075
Herberto Helder
4F
Quem bebe água exposta à lua sazona depressa:
olha as coisas completas.
O barro enlaça a água que suspira lunarmente,
que impregna o barro com a sua palpitação
aluada.
São uma coisa única
e plena: uma bilha. Quem bebe e olha
fica
misterioso, maduro.
Tudo se ilumina da altura de uma pessoa imóvel.
Quem se dessedenta delira,
vê a obra:
O que se bebe das bilhas que a lua
enaltece — água e nome
na boca.
olha as coisas completas.
O barro enlaça a água que suspira lunarmente,
que impregna o barro com a sua palpitação
aluada.
São uma coisa única
e plena: uma bilha. Quem bebe e olha
fica
misterioso, maduro.
Tudo se ilumina da altura de uma pessoa imóvel.
Quem se dessedenta delira,
vê a obra:
O que se bebe das bilhas que a lua
enaltece — água e nome
na boca.
1 066
Herberto Helder
3D
Uma golfada de ar que me acorda numa imagem larga.
Os braços apertam os pulmões da estrela.
E o golpe freme a toda a altura negra. Tremo
na linha sísmica que atravessa o sono.
De ferro em brasa na cabeça,
medo e delírio,
o sombrio trabalho da beleza com as unhas fincadas
na matéria atenta
à olaria.
E súbito, apenas pelo uso elementar das coisas,
esse júbilo terrível.
Os braços apertam os pulmões da estrela.
E o golpe freme a toda a altura negra. Tremo
na linha sísmica que atravessa o sono.
De ferro em brasa na cabeça,
medo e delírio,
o sombrio trabalho da beleza com as unhas fincadas
na matéria atenta
à olaria.
E súbito, apenas pelo uso elementar das coisas,
esse júbilo terrível.
1 125
Herberto Helder
4I
O canteiro cheira à pedra. Da rosa cavada nela cheirará,
por dedos e pensamento,
à obra? Abre uma coroa. A pedra fecha-se
na sua teia de água. Com tantos martelos secos,
com tanta idade louca, com tanta pedra
inteligente, com tanta mão aluada — o canteiro desentranha
outra mão: — A mão do nervo
da pedra, rosa
assustadora:
Que desentranha a prumo forte, em ebriedade
e inclinação de lua. Enxofre, sal, rosa
potente. — O canteiro é a sua
rosa, a sua
obra
desabrochada.
Abre a fonte no mármore, sob a forçados dedos
o vento da luz sacode a árvore.
As veias da pedra,
o cinzel faz isto, são as veias dos cavalos
— e por trás das cabeças estelares respiram rosas.
Crianças, que sinistro enlevo, como percorrem
o círculo puro da guerra, entre escudos
e lanças. E algures,
ao meio da primavera lavrada,
dança a rapariga,
desdobra-se — um sopro move-lhe a cara
imovelmente branca. Mas a noite devagar,
de fora, natural, a noite de longe,
devora joelhos e ferraduras, a espuma que a mão
arranca de dentro
— a pálpebra grande do mundo que se vê defronte
da sua obra. Devora, a noite furiosamente externa
entrando,
não só a água suave e a máquina da guerra
e a soberba ondulação do fogo
nas formas,
mas a doce e dolorosa mão que ergueu a fábula.
por dedos e pensamento,
à obra? Abre uma coroa. A pedra fecha-se
na sua teia de água. Com tantos martelos secos,
com tanta idade louca, com tanta pedra
inteligente, com tanta mão aluada — o canteiro desentranha
outra mão: — A mão do nervo
da pedra, rosa
assustadora:
Que desentranha a prumo forte, em ebriedade
e inclinação de lua. Enxofre, sal, rosa
potente. — O canteiro é a sua
rosa, a sua
obra
desabrochada.
Abre a fonte no mármore, sob a forçados dedos
o vento da luz sacode a árvore.
As veias da pedra,
o cinzel faz isto, são as veias dos cavalos
— e por trás das cabeças estelares respiram rosas.
Crianças, que sinistro enlevo, como percorrem
o círculo puro da guerra, entre escudos
e lanças. E algures,
ao meio da primavera lavrada,
dança a rapariga,
desdobra-se — um sopro move-lhe a cara
imovelmente branca. Mas a noite devagar,
de fora, natural, a noite de longe,
devora joelhos e ferraduras, a espuma que a mão
arranca de dentro
— a pálpebra grande do mundo que se vê defronte
da sua obra. Devora, a noite furiosamente externa
entrando,
não só a água suave e a máquina da guerra
e a soberba ondulação do fogo
nas formas,
mas a doce e dolorosa mão que ergueu a fábula.
1 128
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Canção de Amor
Esta mulher é formosa
como uma flor da montanha,
mas é fria, fria, e é fria
como a margem de neve
onde fria floresce.
como uma flor da montanha,
mas é fria, fria, e é fria
como a margem de neve
onde fria floresce.
1 156
Herberto Helder
3
Ela disse: porque os vestidos transbordam de vento.
A pintura nos vestidos dá a volta anatómica das cores,
respiram. Que a estrela corra cheia de espuma com toda a força
para trás demorando o movimento da graça,
omoplatas,
e depois desarruma-se tudo para dentro dos olhos.
Então a gente sopra, ela disse que a exultação mantém em suspenso
o poder das lágrimas
que tudo aquilo, panos e clima floral em escarpados verdes e rosas.
Elas não lutam contra o perigo não lutam
contra o medo, parecem avançar para nós com os vestidos plenos.
Cheio verde, alma, ebriedade, uma braçada, aqui, oh
primaveras ampliadas: os elementos puros trabalham na fábula do
mundo.
Rosa bate sombrio no vento, as pás do vento batem
de olho a olho, as cabeleiras depressa.
Ela disse: a vista fica rodeada pelo ar, aproximam-se tanto
com o ar amontoado entre os cometas; e os vestidos
lufada hemisférica entre uma linha azul e uma linha luminosa.
Amor, se a porta se abrisse no bosque e entrasse o leopardo
entoando o poema da criação, se a cantaria de ouro se fendesse
no escuro. Os dedos mexem na aura em cada sítio de cada laranja
— fica inteiro de amarelo súbito
o manto. Chamem-me como se chama a floresta para junto do fogo.
Vê-los entre mim e ela, esses vestidos pulmonares
vê-los
de alento em alento, vê-la prodigiosamente
deslocar-se
tocada pelo bafo dos vestidos. E o rosa grande, abruptos verde e pó
fundidos quando roda na estação bravia — depois ela anoitece.
Uma corola ofegante sobe-lhe à boca porque em breve há-de ser
o tremor e a treva,
por exemplo se essa corola amadurece da sua mão para a minha.
Morre-se de ver a pintura, respira-se
cara a cara, à porta o leopardo entoa o poema da criação.
Um anel, floras e pessoas, somos nós, um anel, uma obra.
Mão na mão por aí começamos a fundir-nos
bloco vagaroso desde a raiz
bloco de ouro.
Amor, se a porta na muralha de esmeralda —
A pintura nos vestidos dá a volta anatómica das cores,
respiram. Que a estrela corra cheia de espuma com toda a força
para trás demorando o movimento da graça,
omoplatas,
e depois desarruma-se tudo para dentro dos olhos.
Então a gente sopra, ela disse que a exultação mantém em suspenso
o poder das lágrimas
que tudo aquilo, panos e clima floral em escarpados verdes e rosas.
Elas não lutam contra o perigo não lutam
contra o medo, parecem avançar para nós com os vestidos plenos.
Cheio verde, alma, ebriedade, uma braçada, aqui, oh
primaveras ampliadas: os elementos puros trabalham na fábula do
mundo.
Rosa bate sombrio no vento, as pás do vento batem
de olho a olho, as cabeleiras depressa.
Ela disse: a vista fica rodeada pelo ar, aproximam-se tanto
com o ar amontoado entre os cometas; e os vestidos
lufada hemisférica entre uma linha azul e uma linha luminosa.
Amor, se a porta se abrisse no bosque e entrasse o leopardo
entoando o poema da criação, se a cantaria de ouro se fendesse
no escuro. Os dedos mexem na aura em cada sítio de cada laranja
— fica inteiro de amarelo súbito
o manto. Chamem-me como se chama a floresta para junto do fogo.
Vê-los entre mim e ela, esses vestidos pulmonares
vê-los
de alento em alento, vê-la prodigiosamente
deslocar-se
tocada pelo bafo dos vestidos. E o rosa grande, abruptos verde e pó
fundidos quando roda na estação bravia — depois ela anoitece.
Uma corola ofegante sobe-lhe à boca porque em breve há-de ser
o tremor e a treva,
por exemplo se essa corola amadurece da sua mão para a minha.
Morre-se de ver a pintura, respira-se
cara a cara, à porta o leopardo entoa o poema da criação.
Um anel, floras e pessoas, somos nós, um anel, uma obra.
Mão na mão por aí começamos a fundir-nos
bloco vagaroso desde a raiz
bloco de ouro.
Amor, se a porta na muralha de esmeralda —
629
Herberto Helder
Canção da Cabília
Leve, aparece na dança —
e ninguém lhe sabe o nome.
Vai e vem entre os seus peitos
um amuleto de prata.
Mergulha fundo na dança.
Tilintam em seus artelhos
muitas argolas de prata.
— Foi por ela que vendi
um pomar de macieiras.
Ela cai dentro da dança,
e abrem-se ao meio os cabelos.
— Foi por ela que vendi
o meu olival antigo.
Vai até ao centro da dança.
Cintila, vivo, um colar.
— Foi por ela que vendi
o meu campo de figueiras.
E no coração da dança
todo um sorriso a enflora.
Foi por ela que vendi
um milhão de laranjeiras
e ninguém lhe sabe o nome.
Vai e vem entre os seus peitos
um amuleto de prata.
Mergulha fundo na dança.
Tilintam em seus artelhos
muitas argolas de prata.
— Foi por ela que vendi
um pomar de macieiras.
Ela cai dentro da dança,
e abrem-se ao meio os cabelos.
— Foi por ela que vendi
o meu olival antigo.
Vai até ao centro da dança.
Cintila, vivo, um colar.
— Foi por ela que vendi
o meu campo de figueiras.
E no coração da dança
todo um sorriso a enflora.
Foi por ela que vendi
um milhão de laranjeiras
1 012
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - Visita da Mulher Amada
Vieste um pouco antes de soarem os sinos cristãos, quando o crescente
lunar se abria no céu.
como a branca sobrancelha de um velho ou a curva delicada de um pé.
E, apesar da noite, o arco-íris brilhou no horizonte, o arco de múltiplas
cores, cauda enorme de pavão.
lunar se abria no céu.
como a branca sobrancelha de um velho ou a curva delicada de um pé.
E, apesar da noite, o arco-íris brilhou no horizonte, o arco de múltiplas
cores, cauda enorme de pavão.
1 068
Herberto Helder
Poemas Dos Peles-Vermelhas - a Iúca
Mesmo diante da casa, no alto
daquela montanha,
cresce a flor da iúca,
vibrante tocha dos deuses.
É a sua luz que me cega.
É a sua luz que é mais alta
do que eu sobre um cavalo.
E não se rasga no vento, balançando
as suas ancas.
Sob o peso das estrelas, muitas vezes
estremece. «Porque sou assim tão grande,
assim tão só? Ah, ah! Ué!»
E a dormideira e a alfazema devagar
se acariciam. «Porque sou assim tão grande,
tão exposta ã solidão? Ah, ah! Ué!»
Mas no meio da manhã ela cresce
mais ainda.
Como a flor da iúca, tu também
— alta, intacta.
Tocha dentro dos meus sonhos, cada vez
mais no espaço.
— E a minha mão mal te roça.
daquela montanha,
cresce a flor da iúca,
vibrante tocha dos deuses.
É a sua luz que me cega.
É a sua luz que é mais alta
do que eu sobre um cavalo.
E não se rasga no vento, balançando
as suas ancas.
Sob o peso das estrelas, muitas vezes
estremece. «Porque sou assim tão grande,
assim tão só? Ah, ah! Ué!»
E a dormideira e a alfazema devagar
se acariciam. «Porque sou assim tão grande,
tão exposta ã solidão? Ah, ah! Ué!»
Mas no meio da manhã ela cresce
mais ainda.
Como a flor da iúca, tu também
— alta, intacta.
Tocha dentro dos meus sonhos, cada vez
mais no espaço.
— E a minha mão mal te roça.
997
Herberto Helder
3
beleza de manhãs arrefecidas sobre o aniquilamento,
paz vertente
passada por manhãs em sopro
de brancura, sob a pressão esplendente do vazio,
sem uma pausa, continuadas, propensas,
num plano difundido, embriaguez estática, êxtase
horizontal, levitante paragem, quase
apaixonamento, quase desgaste para trás,
quase um pouco de tempo na sumptuária ausência
do espaço dessas manhãs, e como de repente
se perfuram de velocidades internas,
como se apressam de uma miriápode troca
de atenção, escarpas no ar bruto,
centro de buracos deslumbrantes,
a convulsa clareira dessas manhãs que se extenuam dentro,
energia,
relampejante textura, uma espécie
de fruta rachada fria, para uma treva sua se retiram
as manhãs respondidas,
toda a beleza assintáctica, uma cara arrasada
por lunações abruptas,
a madeira fulminada pelo tacto doloroso,
pistas de esporões e tramas vivas,
os jactos do néon filtrado a prumo,
e as manhãs ressuscitam, primitivas, surpreendidas
paz vertente
passada por manhãs em sopro
de brancura, sob a pressão esplendente do vazio,
sem uma pausa, continuadas, propensas,
num plano difundido, embriaguez estática, êxtase
horizontal, levitante paragem, quase
apaixonamento, quase desgaste para trás,
quase um pouco de tempo na sumptuária ausência
do espaço dessas manhãs, e como de repente
se perfuram de velocidades internas,
como se apressam de uma miriápode troca
de atenção, escarpas no ar bruto,
centro de buracos deslumbrantes,
a convulsa clareira dessas manhãs que se extenuam dentro,
energia,
relampejante textura, uma espécie
de fruta rachada fria, para uma treva sua se retiram
as manhãs respondidas,
toda a beleza assintáctica, uma cara arrasada
por lunações abruptas,
a madeira fulminada pelo tacto doloroso,
pistas de esporões e tramas vivas,
os jactos do néon filtrado a prumo,
e as manhãs ressuscitam, primitivas, surpreendidas
531
Herberto Helder
4
põem-se as salas ordenadas no compasso
das figuras, também se estabelece a noite idiomática,
com poros, furos, tubos, supuração
das tintas, pespontos rutilantes,
a lentidão tremenda dos aromas,
nem era luz primeiro, mas bateram
por entre as temperaturas,
vim quem ver, quem vir assim,
por climas climas climas, ora faiscando,
ora o frio se vestia,
os mapas a dizer todo o arco-voltaico,
um leque que o ouro penteava,
ramagens de álcool, nessa rede de sono onde o crânio,
escorre uma gota viva
de veneno, crepitam fungos, fogo alvo,
o espírito tem a lavoura da luz,
urdiduras nos cimos, minas, graus centígrados,
e em baixo as massas tensas da sonolência,
com suas úlceras, centopeias bruscas,
saber o que se esquece em som,
então sobem as salas, ferventes, brancas,
e o clima de Deus espancado de luz rara
das figuras, também se estabelece a noite idiomática,
com poros, furos, tubos, supuração
das tintas, pespontos rutilantes,
a lentidão tremenda dos aromas,
nem era luz primeiro, mas bateram
por entre as temperaturas,
vim quem ver, quem vir assim,
por climas climas climas, ora faiscando,
ora o frio se vestia,
os mapas a dizer todo o arco-voltaico,
um leque que o ouro penteava,
ramagens de álcool, nessa rede de sono onde o crânio,
escorre uma gota viva
de veneno, crepitam fungos, fogo alvo,
o espírito tem a lavoura da luz,
urdiduras nos cimos, minas, graus centígrados,
e em baixo as massas tensas da sonolência,
com suas úlceras, centopeias bruscas,
saber o que se esquece em som,
então sobem as salas, ferventes, brancas,
e o clima de Deus espancado de luz rara
590
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - Rio Azul
Murmuro, um rio de pérolas corre transparentemente.
Grandes árvores o cobrem de sombra ao meio-dia, e a flor das águas é cor
de ferrugem.
Guerreiro com loriga, envolto em sua túnica de brocado, estendido à
sombra da bandeira.
Grandes árvores o cobrem de sombra ao meio-dia, e a flor das águas é cor
de ferrugem.
Guerreiro com loriga, envolto em sua túnica de brocado, estendido à
sombra da bandeira.
579
Herberto Helder
10
Podem mexer dentro da cabeça com a música porque um acerbo
clamor porque
dão a volta ao lençol em sangue:
torcem-me. Mas
eu digo — amo-te para erguer de ti a tua música para
entoar-te. Beleza, a força, oh
a enflorada, a primitiva, chaga entre, risca
dolorosa, o cabelo.
E se passam pelos lados duas, arvoradas: uma
lua maior que o teu espelho outra
— clarão em que te queimavas selada viva, ó
pedraria.
De repente o superlativo, o visível pelas faúlhas porque:
eras a convidada do espaço, eras uma árvore
de pérolas se dormias. E eu vergastava-te:
branqueava o chão com tuas frutas pequenas, branqueava as mãos,
branqueava-me das mãos à voz para acordar de mim
a ti com torso
fundido. Torso e canto
armado. A oblíqua visita das coisas, aquela
murmuração de mundo quando se toca
com um braço a parte dos fogos, com o outro braço a parte
dos sopros que desarrumam a frase das coisas
e arrumam
coisa a coisa o estilo onde estás escrita.
Ouvir no escuro a entoação, ficar rodeada
por sangue e nome, pelo abalo
da pessoa que outra teia de sangue tece com seu fervor cantando.
O seu furor. O medo de que os dedos se não afinem na ferida do sono
mas se afundem pelas unhas
até à leveza. E a descerrem. E a desentranhem nas suas florações
vermelhas, nos orifícios de cal
que fervem. Onde há um empréstimo de luzes movo pelas redes
sombrias as respirações de um canto aluado a duas
vozes convulsas —
uma arrebatada aos precipícios e outra
nos quartos bruxuleando entre cadeira e mesa com a mão de ouro
calcinado em cima.
Lençol de sangue, diz. Diz: torcem-me. E eu aumento na operação
de sono e som em que ela
me transtorna. Pulmões aos nós, gangrenado na boca,
a têmpera do canto
macio. Tão caldeado o canto que nos transmuda em mundo
áureo —
clamor porque
dão a volta ao lençol em sangue:
torcem-me. Mas
eu digo — amo-te para erguer de ti a tua música para
entoar-te. Beleza, a força, oh
a enflorada, a primitiva, chaga entre, risca
dolorosa, o cabelo.
E se passam pelos lados duas, arvoradas: uma
lua maior que o teu espelho outra
— clarão em que te queimavas selada viva, ó
pedraria.
De repente o superlativo, o visível pelas faúlhas porque:
eras a convidada do espaço, eras uma árvore
de pérolas se dormias. E eu vergastava-te:
branqueava o chão com tuas frutas pequenas, branqueava as mãos,
branqueava-me das mãos à voz para acordar de mim
a ti com torso
fundido. Torso e canto
armado. A oblíqua visita das coisas, aquela
murmuração de mundo quando se toca
com um braço a parte dos fogos, com o outro braço a parte
dos sopros que desarrumam a frase das coisas
e arrumam
coisa a coisa o estilo onde estás escrita.
Ouvir no escuro a entoação, ficar rodeada
por sangue e nome, pelo abalo
da pessoa que outra teia de sangue tece com seu fervor cantando.
O seu furor. O medo de que os dedos se não afinem na ferida do sono
mas se afundem pelas unhas
até à leveza. E a descerrem. E a desentranhem nas suas florações
vermelhas, nos orifícios de cal
que fervem. Onde há um empréstimo de luzes movo pelas redes
sombrias as respirações de um canto aluado a duas
vozes convulsas —
uma arrebatada aos precipícios e outra
nos quartos bruxuleando entre cadeira e mesa com a mão de ouro
calcinado em cima.
Lençol de sangue, diz. Diz: torcem-me. E eu aumento na operação
de sono e som em que ela
me transtorna. Pulmões aos nós, gangrenado na boca,
a têmpera do canto
macio. Tão caldeado o canto que nos transmuda em mundo
áureo —
985
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - a Cegonha
Emigrante de outras terras, que anuncia o tempo,
que desdobra as asas de ébano, e despe o corpo de marfim, e ri claro com
bico de sândalo.
que desdobra as asas de ébano, e despe o corpo de marfim, e ri claro com
bico de sândalo.
1 328
Herberto Helder
5
geografia em pólvora, solitária brancura
deflagrada, é a flor das lâmpadas, poeira
a fremir por canos finos, largura escoada,
imprime-se o espaço em transe,
pulmões na camisa, por ser devagar,
por o mel escorrer, distraído, frio,
ou fervendo
na cabeça, sempre a porejar da pedra,
lento no rosto que a luz colérica varre,
sempre na atenção pendida,
ou grãos luzentes toda a noite no fundo
branco,
fechado, o mel, no limiar,
a casa alagada, flutuante, acesa,
e fosforescem cartas, mapas, golfada de seda abrupta
em cima do estremecimento do meio-dia,
canais de mel, os androceus, manchas queimando,
sobre as pautas desdobradas de baixo para cima
deflagrada, é a flor das lâmpadas, poeira
a fremir por canos finos, largura escoada,
imprime-se o espaço em transe,
pulmões na camisa, por ser devagar,
por o mel escorrer, distraído, frio,
ou fervendo
na cabeça, sempre a porejar da pedra,
lento no rosto que a luz colérica varre,
sempre na atenção pendida,
ou grãos luzentes toda a noite no fundo
branco,
fechado, o mel, no limiar,
a casa alagada, flutuante, acesa,
e fosforescem cartas, mapas, golfada de seda abrupta
em cima do estremecimento do meio-dia,
canais de mel, os androceus, manchas queimando,
sobre as pautas desdobradas de baixo para cima
1 004
Herberto Helder
Canções de Camponeses do Japão - Lírio
O corpo deitado do meu amante,
vi-o eu esta manhã:
na planície do quinto mês,
um lírio aberto!
vi-o eu esta manhã:
na planície do quinto mês,
um lírio aberto!
1 067
Herberto Helder
Poemas Indochineses - Cantos Alternados
Uma Rapariga
Sou como uma peça de seda cor-de-rosa,
ondulando no mercado.
Não sei em que mãos irei cair.
Meu corpo é como um poço aberto no meio do caminho;
nele alguns lavam o rosto,
lavam nele outros os pés.
Tivesse este rio uma medida de largo,
que eu faria uma ponte, amigo, com um cordão do meu corpete.
Um Rapaz
Rapariga que levas agua com um balancim de junco,
dá-me um balde dessa água para regar o plátano.
Sobre o plátano mais belo, sobre o plátano mais verde,
a fénix virá pousar.
Amo-te, primeiro por teus cabelos em rabo de galo.
Segundo, amo-te pelo modo como falas.
Terceiro, amo-te por causa do teu rosto admirável.
Quarto, amo-te pelos teus vestidos, que são da cor do teu rosto.
Quinto, amo-te porque trazes ganchos nos cabelos e trazes na mão um
leque da China.
Sexto, amo-te por causa dos teus cabelos verdes.
Sétimo, amo-te porque teus pais um dia te puseram no mundo.
Oitavo, amo-te por causa dos teus olhos de fénix que me olham
profundamente.
Nono, amo-te porque vamos estar unidos um ao outro.
E amo-te, em décimo lugar, porque é a mim unicamente que te desejas
unir para sempre.
Sou como uma peça de seda cor-de-rosa,
ondulando no mercado.
Não sei em que mãos irei cair.
Meu corpo é como um poço aberto no meio do caminho;
nele alguns lavam o rosto,
lavam nele outros os pés.
Tivesse este rio uma medida de largo,
que eu faria uma ponte, amigo, com um cordão do meu corpete.
Um Rapaz
Rapariga que levas agua com um balancim de junco,
dá-me um balde dessa água para regar o plátano.
Sobre o plátano mais belo, sobre o plátano mais verde,
a fénix virá pousar.
Amo-te, primeiro por teus cabelos em rabo de galo.
Segundo, amo-te pelo modo como falas.
Terceiro, amo-te por causa do teu rosto admirável.
Quarto, amo-te pelos teus vestidos, que são da cor do teu rosto.
Quinto, amo-te porque trazes ganchos nos cabelos e trazes na mão um
leque da China.
Sexto, amo-te por causa dos teus cabelos verdes.
Sétimo, amo-te porque teus pais um dia te puseram no mundo.
Oitavo, amo-te por causa dos teus olhos de fénix que me olham
profundamente.
Nono, amo-te porque vamos estar unidos um ao outro.
E amo-te, em décimo lugar, porque é a mim unicamente que te desejas
unir para sempre.
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