Poemas neste tema
Alma
Herberto Helder
A Água Desceu As Escadas
a água desceu as escadas,
a noite pode subi-las,
e a lua violenta a trabalhar lá em cima
¿ah de que matéria se faria o sono que me não visita sequer duas horas, ou uma, ou sequer metade de uma,
de que maneira poderia eu trabalhar a morte sempre tão difícil,
dedos, ritmos, respiração e o silêncio audível,
de que maneira a infusa fria,
a urna,
a água que desce e a noite que sobe
e o clarão que me envolve,
poderia eu trabalhar as cinzas,
para sempre o fogo no fundo das mãos sensíveis,
poderia eu de que maneira estremece este poema apenas,
o poema fremente?
a noite pode subi-las,
e a lua violenta a trabalhar lá em cima
¿ah de que matéria se faria o sono que me não visita sequer duas horas, ou uma, ou sequer metade de uma,
de que maneira poderia eu trabalhar a morte sempre tão difícil,
dedos, ritmos, respiração e o silêncio audível,
de que maneira a infusa fria,
a urna,
a água que desce e a noite que sobe
e o clarão que me envolve,
poderia eu trabalhar as cinzas,
para sempre o fogo no fundo das mãos sensíveis,
poderia eu de que maneira estremece este poema apenas,
o poema fremente?
703
Herberto Helder
Vida Aguda Atenta a Tudo
vida aguda atenta a tudo
e contudo para acabar mais depressa no escuro
escrevo rescrevo
e enfim reluzo e desmorro
(finjo pensá-lo)
um pouco um pouco
acautela a tua dor que se não torne académica
e contudo para acabar mais depressa no escuro
escrevo rescrevo
e enfim reluzo e desmorro
(finjo pensá-lo)
um pouco um pouco
acautela a tua dor que se não torne académica
1 189
Herberto Helder
Já Não Tenho Mão Com Que Escreva Nem Lâmpada
já não tenho mão com que escreva nem lâmpada,
pois se me fundiu a alma,
já nada em mim sabe quanto não sei
da noite atrás da luz: livros, frutas na mesa, o relógio que mede
minha turva eternidade
e o tempo da terra monstruosa,
já nada tenho com que morrer depressa,
excepto
tanta hora somada a nada:
e acautela a tua dor que se não torne académica
pois se me fundiu a alma,
já nada em mim sabe quanto não sei
da noite atrás da luz: livros, frutas na mesa, o relógio que mede
minha turva eternidade
e o tempo da terra monstruosa,
já nada tenho com que morrer depressa,
excepto
tanta hora somada a nada:
e acautela a tua dor que se não torne académica
716
Herberto Helder
Um Quarto Dos Poemas É Imitação Literária
um quarto dos poemas é imitação literária,
outro quarto é ainda imitação mas já irónica e colérica,
outro quarto é das labaredas da inquisição à volta,
outro quarto, o quarto, o que falta, é por causa da magnificência do mundo,
o quinto quarto absurdo é o das quatro patas cortadas,
e o último é ele que olha da montanha onde abriu na pedra o seu nome inabalável,
e voltava ao primeiro como se fosse orvalho,
como se fosse tão frio que cortasse até ao osso,
o imo do próprio nome assim metido na pedra,
tanto que ninguém sabia de quem era,
porque ficou todo dentro e não se via de fora:
nem o suor nem o sangue nem o sopro
outro quarto é ainda imitação mas já irónica e colérica,
outro quarto é das labaredas da inquisição à volta,
outro quarto, o quarto, o que falta, é por causa da magnificência do mundo,
o quinto quarto absurdo é o das quatro patas cortadas,
e o último é ele que olha da montanha onde abriu na pedra o seu nome inabalável,
e voltava ao primeiro como se fosse orvalho,
como se fosse tão frio que cortasse até ao osso,
o imo do próprio nome assim metido na pedra,
tanto que ninguém sabia de quem era,
porque ficou todo dentro e não se via de fora:
nem o suor nem o sangue nem o sopro
1 278
Herberto Helder
Cada Vez Que Adormece É Para Que a Noite
cada vez que adormece é para que a noite tome conta dele desde os pés até à cabeça,
já a noite se encheu de iodo e espuma,
se for um barco já uma estrela o queimou proa e pôpa
cada vez que de si vai acordar fecha-o uma estrela,
a água canta, jubila,
cada vez que puxa o sono lençol sobre lençol mais acima do mundo até ao pescoço,
quando vê a maravilha que lhe acode,
a primeira,
o dia desarrumado, a noite já muito varrida,
a água para andar em cima dela,
quem vai pelo sono abaixo sem nunca encontrar pé,
de pé — queria ele,
e, passada a água,
só os outros, de manhã, quando estranham a manhã tão comprida,
e vão ver, e ele já virou a cara,
já virou o corpo,
boca aberta,
interrompida a canção ininterrupta
já a noite se encheu de iodo e espuma,
se for um barco já uma estrela o queimou proa e pôpa
cada vez que de si vai acordar fecha-o uma estrela,
a água canta, jubila,
cada vez que puxa o sono lençol sobre lençol mais acima do mundo até ao pescoço,
quando vê a maravilha que lhe acode,
a primeira,
o dia desarrumado, a noite já muito varrida,
a água para andar em cima dela,
quem vai pelo sono abaixo sem nunca encontrar pé,
de pé — queria ele,
e, passada a água,
só os outros, de manhã, quando estranham a manhã tão comprida,
e vão ver, e ele já virou a cara,
já virou o corpo,
boca aberta,
interrompida a canção ininterrupta
554
Herberto Helder
Uma Espuma de Sal Bateu-Me Alto Na Cabeça
uma espuma de sal bateu-me alto na cabeça,
nunca mais fui o mesmo,
passei por todos os mistérios simples, e agora estou tão humano: morro,
às vezes ressuscito para fazer uma grande surpresa a mim mesmo,
eu que nunca nunca mais me surpreendo:
sou mais rápido —
falo de mim em estilo estritamente assassino:
é quase como se fosse o centro do planeta:
prontíssimo para o verbo e o milagre,
mas se ressuscito ah então falo de exercício estilístico:
escritor de poemas,
como se fosse uma intimidade, quase um destino, um mistério,
com os dias primeiros até às cenas botânicas do paraíso,
e digo:
administra a tua voz,
mas administra a tua dor primeiro
(a dor e a voz administrativas?)
nunca mais fui o mesmo,
passei por todos os mistérios simples, e agora estou tão humano: morro,
às vezes ressuscito para fazer uma grande surpresa a mim mesmo,
eu que nunca nunca mais me surpreendo:
sou mais rápido —
falo de mim em estilo estritamente assassino:
é quase como se fosse o centro do planeta:
prontíssimo para o verbo e o milagre,
mas se ressuscito ah então falo de exercício estilístico:
escritor de poemas,
como se fosse uma intimidade, quase um destino, um mistério,
com os dias primeiros até às cenas botânicas do paraíso,
e digo:
administra a tua voz,
mas administra a tua dor primeiro
(a dor e a voz administrativas?)
805
Herberto Helder
Presumir Não Das Grandes Partes da Noite
presumir não das grandes partes da noite mas entre elas apenas de uma risca de luz
alguém lhe chamaria
plausível?
por um lado vem a noite das águas,
pelo outro vem o dia das colinas e das matas bravas:
e na luz suposta ao meio, alta, sumptuosa,
morro da sua risca exacta,
ou morro da minha vida nenhuma
ah quem tem o tempo todo para vivê-lo e morrê-lo
assim:
turvo no rosto e nas mãos através
do mais limpo do mundo?
alguém lhe chamaria
plausível?
por um lado vem a noite das águas,
pelo outro vem o dia das colinas e das matas bravas:
e na luz suposta ao meio, alta, sumptuosa,
morro da sua risca exacta,
ou morro da minha vida nenhuma
ah quem tem o tempo todo para vivê-lo e morrê-lo
assim:
turvo no rosto e nas mãos através
do mais limpo do mundo?
1 084
Herberto Helder
Alto Dia Que Me É Dedicado
alto dia que me é dedicado,
mais altas são as frutas se me atrevo a olhá-lo,
no tumulto da alfazema onde aos poucos enquanto morro,
do açafrão enquanto morro aos poucos,
e o oxigénio explode
mais altas são as frutas se me atrevo a olhá-lo,
no tumulto da alfazema onde aos poucos enquanto morro,
do açafrão enquanto morro aos poucos,
e o oxigénio explode
1 121
Herberto Helder
Olhos Ávidos
olhos ávidos,
áridos olhos quando tudo tem de ser novo para de novo ser soberbo,
e é esse o êrro de que ressuscito:
e depois morro
áridos olhos quando tudo tem de ser novo para de novo ser soberbo,
e é esse o êrro de que ressuscito:
e depois morro
1 055
Herberto Helder
— Oh Coração Escarpado
— oh coração escarpado,
que lhe toquem através do sangue turvo,
nem o amor nem o cego idioma das mães hão-de salvá-lo nunca:
súbito cai o terrífico estio sobre o mundo,
mas só a ele o queimará por entre as searas que amadurecem,
invisíveis, implacáveis,
alta noite
que lhe toquem através do sangue turvo,
nem o amor nem o cego idioma das mães hão-de salvá-lo nunca:
súbito cai o terrífico estio sobre o mundo,
mas só a ele o queimará por entre as searas que amadurecem,
invisíveis, implacáveis,
alta noite
1 109
Herberto Helder
Os Capítulos Maiores da Minha Vida
os capítulos maiores da minha vida, suas músicas e palavras,
esqueci-os todos:
octagenário apenas, e a morte só de pensá-la calo,
é claro que a olhei de frente no capítulo vigésimo,
mas não nunca nem jamais agora:
agora sou olhado, e estremeço
do incrível natural de ser olhado assim por ela
esqueci-os todos:
octagenário apenas, e a morte só de pensá-la calo,
é claro que a olhei de frente no capítulo vigésimo,
mas não nunca nem jamais agora:
agora sou olhado, e estremeço
do incrível natural de ser olhado assim por ela
1 243
Herberto Helder
Pensam: É Melhor Ter o Inferno a Não Ter
pensam: é melhor ter o inferno a não ter coisa nenhuma
— como a tantos tanto o nada os apavora!
eu acho que o génio da doutrina está nessa promessa exímia:
ninguém que espere a eternidade
espera o paraíso:
provavelmente o paraíso é improvável como imagem, dêem-nos
algum pouco do inferno, o bastante para
ocupações gerais,
trabalhos breves,
jogos da mente,
jogos distraídos,
jogos eróticos talvez, os muçulmanos tiveram palpite disso,
e os cristãos que receberam formação comercial, penso:
ia pôr a mão no fogo, ia cortar uma orelha,
eu que em mim sou obscuro, não, não,
então recebe lá a minha prece quotidiana:
dá-me o êxtase infernal de Santa Teresa de Ávila
arrebatada ar acima num orgasmo anarquista,
a ideia de paraíso é apenas um apoio
para o salto soberano,
não um inferninho brasileiro com menininhas de programa,
púberes putinhas das favelas,
mas o inferno complexo onde passeia a Beatriz das drogas duras,
um inferno à medida de cada qual dificílimo,
onde se é evasivo,
subtilezas desde o xadrez à fisica quântica,
à poesia pura,
aos fundamentos da levitação xamânica,
ao sufismo,
ao surfismo
l a metáfora do fogo, de que argúcias e astúcias é ela rarefeita?
a metáfora da água?
a ideia de paraiso é muito brutal e louca,
e o purgatório como purga é tão tôrpe, tão terrestre, tão trivial e trôpego,
tão político,
tão tenebroso!
não resulta,
dá-me esse inferno oh quanta força e ofício nos idiomas:
formar uma estrutura estritamente poética
na sua glória mesma,
só com uma inteligência de duplos sentidos,
o poema que pede mais que dez dedos,
nem os braços lhe bastam e o coração ao meio,
e os cinco litros de sangue com que se abraça tudo e se abusa do mundo,
e o político e o cívico e o administrativo e o económico-financeiro,
enfim o ínvio,
para quê tantos capítulos?
oh claros corredores ao longo das vozes a capella,
sim sim, organizam a morte,
e depois quem tem sorte entra pelo inferno dentro,
fulgurante, poemático,
edições os trabalhos do diabo,
post-scriptum:
meu amor, o inferno é o teu corpo foda a foda alcançado,
e lá fora eles cantando, os castrati, a capella, vozes
furiosamente frias,
limpas,
devastadoras,
oh maldita cocaína, musa minha, droga pura,
minha aranha idiomática,
estrela de cinco pontas, o fundo do ar ardendo,
e os já ditos braços meus muito abertos,
e entre os braços o já dito coração aos pedaços
always toujours sempre
oh pulsando
pulsando!
— como a tantos tanto o nada os apavora!
eu acho que o génio da doutrina está nessa promessa exímia:
ninguém que espere a eternidade
espera o paraíso:
provavelmente o paraíso é improvável como imagem, dêem-nos
algum pouco do inferno, o bastante para
ocupações gerais,
trabalhos breves,
jogos da mente,
jogos distraídos,
jogos eróticos talvez, os muçulmanos tiveram palpite disso,
e os cristãos que receberam formação comercial, penso:
ia pôr a mão no fogo, ia cortar uma orelha,
eu que em mim sou obscuro, não, não,
então recebe lá a minha prece quotidiana:
dá-me o êxtase infernal de Santa Teresa de Ávila
arrebatada ar acima num orgasmo anarquista,
a ideia de paraíso é apenas um apoio
para o salto soberano,
não um inferninho brasileiro com menininhas de programa,
púberes putinhas das favelas,
mas o inferno complexo onde passeia a Beatriz das drogas duras,
um inferno à medida de cada qual dificílimo,
onde se é evasivo,
subtilezas desde o xadrez à fisica quântica,
à poesia pura,
aos fundamentos da levitação xamânica,
ao sufismo,
ao surfismo
l a metáfora do fogo, de que argúcias e astúcias é ela rarefeita?
a metáfora da água?
a ideia de paraiso é muito brutal e louca,
e o purgatório como purga é tão tôrpe, tão terrestre, tão trivial e trôpego,
tão político,
tão tenebroso!
não resulta,
dá-me esse inferno oh quanta força e ofício nos idiomas:
formar uma estrutura estritamente poética
na sua glória mesma,
só com uma inteligência de duplos sentidos,
o poema que pede mais que dez dedos,
nem os braços lhe bastam e o coração ao meio,
e os cinco litros de sangue com que se abraça tudo e se abusa do mundo,
e o político e o cívico e o administrativo e o económico-financeiro,
enfim o ínvio,
para quê tantos capítulos?
oh claros corredores ao longo das vozes a capella,
sim sim, organizam a morte,
e depois quem tem sorte entra pelo inferno dentro,
fulgurante, poemático,
edições os trabalhos do diabo,
post-scriptum:
meu amor, o inferno é o teu corpo foda a foda alcançado,
e lá fora eles cantando, os castrati, a capella, vozes
furiosamente frias,
limpas,
devastadoras,
oh maldita cocaína, musa minha, droga pura,
minha aranha idiomática,
estrela de cinco pontas, o fundo do ar ardendo,
e os já ditos braços meus muito abertos,
e entre os braços o já dito coração aos pedaços
always toujours sempre
oh pulsando
pulsando!
666
Herberto Helder
Tríptico - Iii
Todas as coisas são mesa para os pensamentos
onde faço minha vida de paz
num peso íntimo de alegria como um existir de mão
fechada puramente sobre o ombro.
—Junto a coisas magnânimas de água
e espíritos,
a casas e achas de manso consumindo-se,
ervas e barcos altos — meus pensamentos criam-se
com um outrora lento, um sabor
de terra velha e pão diurno.
E em cada minuto a criatura
feliz do amor, a nua criatura
da minha história de desejo,
inteiramente se abre em mim como um tempo,
uma pedra simples,
ou um nascer de bichos num lugar de maio.
Ela explica tudo, e o vir para mim —
como se levantam paredes brancas
ou se dão festas nos dedos espantados das crianças
— é a vida ser redonda
com seus ritmos sobressaltados e antigos.
Tudo é trigo que se coma e ela
é o trigo das coisas,
o último sentido do que acontece pelos dias dentro.
Espero cada momento seu
como se espera o rebentar das amoras
e a suave loucura das uvas sobre o mundo.
— E o resto é uma altura oculta,
um leite e uma vontade de cantar.
onde faço minha vida de paz
num peso íntimo de alegria como um existir de mão
fechada puramente sobre o ombro.
—Junto a coisas magnânimas de água
e espíritos,
a casas e achas de manso consumindo-se,
ervas e barcos altos — meus pensamentos criam-se
com um outrora lento, um sabor
de terra velha e pão diurno.
E em cada minuto a criatura
feliz do amor, a nua criatura
da minha história de desejo,
inteiramente se abre em mim como um tempo,
uma pedra simples,
ou um nascer de bichos num lugar de maio.
Ela explica tudo, e o vir para mim —
como se levantam paredes brancas
ou se dão festas nos dedos espantados das crianças
— é a vida ser redonda
com seus ritmos sobressaltados e antigos.
Tudo é trigo que se coma e ela
é o trigo das coisas,
o último sentido do que acontece pelos dias dentro.
Espero cada momento seu
como se espera o rebentar das amoras
e a suave loucura das uvas sobre o mundo.
— E o resto é uma altura oculta,
um leite e uma vontade de cantar.
810
Herberto Helder
Releio E Não Reamo Nada
releio e não reamo nada,
a minha vida abrupta é absurda,
a arte da iluminação foi toda ao ar pelos fusíveis fora,
e fiquei cego dentro da casa cuja, e pelo mundo, e na memória, e na maneira
das palavras quentes que eu amava,
com as costuras das gramáticas inventadas tortas mas tão amadas também elas,
nessa língua das músicas,
e desfaleço então de tudo e nunca mais ressuscito,
e só a dor,
só o pobre de mim com seu ramilhete de rosetas bravas,
suas mínimas corolas desirmãs que mexo
entre os dedos aos nós, eruditos e ardentes,
e os trabalhos do diabo, pobre diabo, deixo-os,
e a sopa e o pão meio comidos que nem esses sequer hei merecido nunca:
e com estes míseros ofícios
morrerei do meu muito terror e da nenhuma salvação da minha vida
a minha vida abrupta é absurda,
a arte da iluminação foi toda ao ar pelos fusíveis fora,
e fiquei cego dentro da casa cuja, e pelo mundo, e na memória, e na maneira
das palavras quentes que eu amava,
com as costuras das gramáticas inventadas tortas mas tão amadas também elas,
nessa língua das músicas,
e desfaleço então de tudo e nunca mais ressuscito,
e só a dor,
só o pobre de mim com seu ramilhete de rosetas bravas,
suas mínimas corolas desirmãs que mexo
entre os dedos aos nós, eruditos e ardentes,
e os trabalhos do diabo, pobre diabo, deixo-os,
e a sopa e o pão meio comidos que nem esses sequer hei merecido nunca:
e com estes míseros ofícios
morrerei do meu muito terror e da nenhuma salvação da minha vida
1 069
Herberto Helder
Prefácio
Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder
tão firme e silencioso como só houve
no tempo mais antigo.
Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer,
sorrindo com ironia e doçura no fundo
de um alto segredo que os restitui à lama.
De doces mãos irreprimíveis.
— Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,
as casas encontram seu inocente jeito de durar contra
a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.
Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta
do gosto, o entusiasmo do mundo.
Descobrimos corpos de gente que se protege e sorve, e o silêncio
admirável das fontes —
pensamentos nas pedras de alguma coisa celeste
como fogo exemplar.
Digamos que dormimos nas casas, e vemos as musas
um pouco inclinadas para nós como estreitas e erguidas flores
tenebrosas, e temos memória
e absorvente melancolia
e atenção às portas sobre a extinção dos dias altos.
Estas são as casas. E se vamos morrer nós mesmos,
espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos
que não viram as torrentes infindáveis
das rosas, ou as águas permanentes,
ou um sinal de eternidade espalhado nos corações
rápidos.
Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam
pelos muitos sentidos dos meses,
dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra,
para que se faça uma ordem, uma duração,
uma beleza contra a força divina?
Alguém trouxera cavalos, descendo os caminhos da montanha.
Alguém viera do mar.
Alguém chegara do estrangeiro, coberto de pó.
Alguém lera livros, poemas, profecias, mandamentos,
inspirações.
— Estas casas serão destruídas.
Como um girassol, elaborado para a bebedeira, insistente
no seu casamento solar, assim
se esgotará cada casa, esbulhada de um fogo,
vergando a demorada cabeça para os rios misteriosos
da terra
onde os próprios arquitectos se desfazem com suas mãos
múltiplas, as caras ardendo nas velozes
iluminações.
Falemos de casas. E verão, outono,
nome profuso entre as paisagens inclinadas.
Traziam o sal, os construtores
da alma, comportavam em si
restituidores deslumbramentos em presença da suspensão
de animais e estrelas,
imaginavam bem a pureza com homens e mulheres
ao lado uns dos outros, sorrindo enigmaticamente,
tocando uns nos outros —
comovidos, difíceis, dadivosos,
ardendo devagar.
Só um instante em cada primavera se encontravam
com o junquilbo original,
arrefeciam o resto do ano, eram breves os mestres
da inspiração.
— E as casas levantavam-se
sobre as águas ao comprido do céu.
Mas casas, arquitectos, encantadas trocas de carne
doce e obsessiva — tudo isso
está longe da canção que era preciso escrever.
— E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.
Falemos de casas, da morte. Casas são rosas
para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança
nos abandona para sempre.
Casas são rios diuturnos, nocturnos rios
celestes que fulguram lentamente
até uma baía fria — que talvez não exista,
como uma secreta eternidade.
Falemos de casas como quem fala da sua alma,
entre um incêndio,
junto ao modelo das searas,
na aprendizagem da paciência de vê-las erguer
e morrer com um pouco, um pouco
de beleza.
tão firme e silencioso como só houve
no tempo mais antigo.
Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer,
sorrindo com ironia e doçura no fundo
de um alto segredo que os restitui à lama.
De doces mãos irreprimíveis.
— Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,
as casas encontram seu inocente jeito de durar contra
a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.
Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta
do gosto, o entusiasmo do mundo.
Descobrimos corpos de gente que se protege e sorve, e o silêncio
admirável das fontes —
pensamentos nas pedras de alguma coisa celeste
como fogo exemplar.
Digamos que dormimos nas casas, e vemos as musas
um pouco inclinadas para nós como estreitas e erguidas flores
tenebrosas, e temos memória
e absorvente melancolia
e atenção às portas sobre a extinção dos dias altos.
Estas são as casas. E se vamos morrer nós mesmos,
espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos
que não viram as torrentes infindáveis
das rosas, ou as águas permanentes,
ou um sinal de eternidade espalhado nos corações
rápidos.
Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam
pelos muitos sentidos dos meses,
dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra,
para que se faça uma ordem, uma duração,
uma beleza contra a força divina?
Alguém trouxera cavalos, descendo os caminhos da montanha.
Alguém viera do mar.
Alguém chegara do estrangeiro, coberto de pó.
Alguém lera livros, poemas, profecias, mandamentos,
inspirações.
— Estas casas serão destruídas.
Como um girassol, elaborado para a bebedeira, insistente
no seu casamento solar, assim
se esgotará cada casa, esbulhada de um fogo,
vergando a demorada cabeça para os rios misteriosos
da terra
onde os próprios arquitectos se desfazem com suas mãos
múltiplas, as caras ardendo nas velozes
iluminações.
Falemos de casas. E verão, outono,
nome profuso entre as paisagens inclinadas.
Traziam o sal, os construtores
da alma, comportavam em si
restituidores deslumbramentos em presença da suspensão
de animais e estrelas,
imaginavam bem a pureza com homens e mulheres
ao lado uns dos outros, sorrindo enigmaticamente,
tocando uns nos outros —
comovidos, difíceis, dadivosos,
ardendo devagar.
Só um instante em cada primavera se encontravam
com o junquilbo original,
arrefeciam o resto do ano, eram breves os mestres
da inspiração.
— E as casas levantavam-se
sobre as águas ao comprido do céu.
Mas casas, arquitectos, encantadas trocas de carne
doce e obsessiva — tudo isso
está longe da canção que era preciso escrever.
— E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.
Falemos de casas, da morte. Casas são rosas
para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança
nos abandona para sempre.
Casas são rios diuturnos, nocturnos rios
celestes que fulguram lentamente
até uma baía fria — que talvez não exista,
como uma secreta eternidade.
Falemos de casas como quem fala da sua alma,
entre um incêndio,
junto ao modelo das searas,
na aprendizagem da paciência de vê-las erguer
e morrer com um pouco, um pouco
de beleza.
902
Herberto Helder
E Eu Que Não Sei Através de Que Verbo
e eu que não sei através de que verbo me arranquei ao fundo da placenta até à ferida entre as coxas maternas,
e roubei o oxigénio todo à minha volta próxima,
furiosamente,
eu que procuro corpo a corpo o nada disso tudo,
não sei nada,
digo: olhar a morte incalculável,
toda,
agora na hora próxima, súbito, atónito,
e agarrado a tudo
e roubei o oxigénio todo à minha volta próxima,
furiosamente,
eu que procuro corpo a corpo o nada disso tudo,
não sei nada,
digo: olhar a morte incalculável,
toda,
agora na hora próxima, súbito, atónito,
e agarrado a tudo
1 153
Herberto Helder
O Poema - Ii
A palavra erguia-se como um candelabro,
a voz ardia como um inesperado campo de giestas.
E nós sustínhamos em nossos dois ombros o fulgor
e a tristeza divina. Quando os arbustos
eram bichos iluminando as regiões do céu e ao rés
da terra as pedras cantavam e os mitos davam
a forma das coisas.
Quando colhíamos o espanto nas mãos dolorosas
e em frente ao povo íamos cantando
a fábula e o próprio rosto do milagre.
Quem se assenta à nossa mesa? — dizíamos. — Quem
sobre a mesa coloca um beijo sem peso e sem mácula?
Nada existe que não seja inocente, e o hálito
perpassa à flor dos lábios,
a força da memória deu a alma ao vinho e o imponderável
ao primeiro sorriso. Toda a casa
acaba a noite, cria a auréola
em torno do objecto, enche cada instante
de um poder obscuro.
A delicada taça partia-se nas mãos — sangue:
um sinal, um símbolo. E cantar
era conceber uma estrela, um testemunho da mais alta
loucura. Cantar era uma razão
de morte e de alegria.
Desfaziam-se as pálpebras na jovem carne, na esfera
da luz, ou na ressonância e volúpia
do tempo. E a mão procurava o punhal,
a boca beijava a laje nua. Do braço divino
sumia-se o fogo e o archote corria sobre as águas
ou no coração da sementeira.
E era então o fogo aquilo a que o beijo,
em sua graça, firmemente aspirava.
Nenhuma vida tanto se gastou
que não seja visitada, nenhum deus
é tão grande que se não perca na substância
da sombra. — Uma flor e um grito,
um copo e um breve minuto, ou a aurora
cortando o peito, ou o primeiro respirar
de um pensamento.
Cantar onde a mão nos tocou,
o ombro se acendeu, onde se abriu o desejo.
Cantar na mesa, na árvore
sorvida pelo êxtase.
Cantar sobre o corpo da morte, pedra
a pedra, chama a chama — erguido,
amado,
aprendido.
a voz ardia como um inesperado campo de giestas.
E nós sustínhamos em nossos dois ombros o fulgor
e a tristeza divina. Quando os arbustos
eram bichos iluminando as regiões do céu e ao rés
da terra as pedras cantavam e os mitos davam
a forma das coisas.
Quando colhíamos o espanto nas mãos dolorosas
e em frente ao povo íamos cantando
a fábula e o próprio rosto do milagre.
Quem se assenta à nossa mesa? — dizíamos. — Quem
sobre a mesa coloca um beijo sem peso e sem mácula?
Nada existe que não seja inocente, e o hálito
perpassa à flor dos lábios,
a força da memória deu a alma ao vinho e o imponderável
ao primeiro sorriso. Toda a casa
acaba a noite, cria a auréola
em torno do objecto, enche cada instante
de um poder obscuro.
A delicada taça partia-se nas mãos — sangue:
um sinal, um símbolo. E cantar
era conceber uma estrela, um testemunho da mais alta
loucura. Cantar era uma razão
de morte e de alegria.
Desfaziam-se as pálpebras na jovem carne, na esfera
da luz, ou na ressonância e volúpia
do tempo. E a mão procurava o punhal,
a boca beijava a laje nua. Do braço divino
sumia-se o fogo e o archote corria sobre as águas
ou no coração da sementeira.
E era então o fogo aquilo a que o beijo,
em sua graça, firmemente aspirava.
Nenhuma vida tanto se gastou
que não seja visitada, nenhum deus
é tão grande que se não perca na substância
da sombra. — Uma flor e um grito,
um copo e um breve minuto, ou a aurora
cortando o peito, ou o primeiro respirar
de um pensamento.
Cantar onde a mão nos tocou,
o ombro se acendeu, onde se abriu o desejo.
Cantar na mesa, na árvore
sorvida pelo êxtase.
Cantar sobre o corpo da morte, pedra
a pedra, chama a chama — erguido,
amado,
aprendido.
1 418
Herberto Helder
O Poema - V
Existia alguma coisa para denominar no alto desta sombria
masculinidade. Era talvez um cego escorrer
de sangue pelos anéis e flores do corpo.
Sei unicamente que era a força da tristeza, ou a força
da alegria da minha vida.
Havia também outra coisa a que se deveria dar
um nome belo e lento. Algo que se cercava de lágrimas
como uma árvore se vai cercando de folhas
inúmeras. Tudo isso começava
a aparecer nas vozes e inspirações como uma ardente
confusão. Era primeiro uma virtude.
Depois, este vagaroso acender
da noite. O sangue despenhava-se
nas lagoas e grutas da carne. Hoje eu sabia
que era a tristeza, a tristeza — um poder
mais jovem que os demais. Esquecia de novo os nomes,
e todo me circundava de uma torrente
silenciosa, de uma cítara fortemente anunciadora.
Nunca se deve dizer que um rosto perde
as suas brasas quando se inclina sobre a penumbra
de uma fonte, sobre um instrumento rápido.
Porque o rumor ressalta na noite parada, e pode-se
enlouquecer eternamente. Ou porque a colher
pode ligar a terra à violência do espírito.
— Lá estariam sempre as grandes arcadas de fogo,
as portas, a loucura das pontes celestes
aonde a invenção chega como um frio arrebatamento.
Havia essa espécie de vocação implorativa, a doçura
do corpo subtilmente preso por crateras e picos
ao tumulto das sombras.
Eu abaixava-me e tomava como nos braços
essa criança ignota.
E porões enchiam-se de água, eu seria em breve
um afogado. Tudo me inspirava
nessa noite abrupta, entre o começo e o fim
do mundo. Como pode um coração absorver
tanta matéria, tanta inocência da terra?
Se era uma criança, sua vida circulava
indecisamente; se eram os mortos,
a distância tornava-se infinita. Apenas
a minha força se dobrava um pouco, e um novo calor
corria nas palavras adormecidas
e degelava as mãos que se cobriam
de um sentido impenetrável.
— Essa forma amparava-se no sexo repleto
de espinhos e espelhos,
e era uma espécie de retrato sem névoas, um eixo, um grito,
uma louca morte
onde começassem a girar as inspirações misteriosas.
masculinidade. Era talvez um cego escorrer
de sangue pelos anéis e flores do corpo.
Sei unicamente que era a força da tristeza, ou a força
da alegria da minha vida.
Havia também outra coisa a que se deveria dar
um nome belo e lento. Algo que se cercava de lágrimas
como uma árvore se vai cercando de folhas
inúmeras. Tudo isso começava
a aparecer nas vozes e inspirações como uma ardente
confusão. Era primeiro uma virtude.
Depois, este vagaroso acender
da noite. O sangue despenhava-se
nas lagoas e grutas da carne. Hoje eu sabia
que era a tristeza, a tristeza — um poder
mais jovem que os demais. Esquecia de novo os nomes,
e todo me circundava de uma torrente
silenciosa, de uma cítara fortemente anunciadora.
Nunca se deve dizer que um rosto perde
as suas brasas quando se inclina sobre a penumbra
de uma fonte, sobre um instrumento rápido.
Porque o rumor ressalta na noite parada, e pode-se
enlouquecer eternamente. Ou porque a colher
pode ligar a terra à violência do espírito.
— Lá estariam sempre as grandes arcadas de fogo,
as portas, a loucura das pontes celestes
aonde a invenção chega como um frio arrebatamento.
Havia essa espécie de vocação implorativa, a doçura
do corpo subtilmente preso por crateras e picos
ao tumulto das sombras.
Eu abaixava-me e tomava como nos braços
essa criança ignota.
E porões enchiam-se de água, eu seria em breve
um afogado. Tudo me inspirava
nessa noite abrupta, entre o começo e o fim
do mundo. Como pode um coração absorver
tanta matéria, tanta inocência da terra?
Se era uma criança, sua vida circulava
indecisamente; se eram os mortos,
a distância tornava-se infinita. Apenas
a minha força se dobrava um pouco, e um novo calor
corria nas palavras adormecidas
e degelava as mãos que se cobriam
de um sentido impenetrável.
— Essa forma amparava-se no sexo repleto
de espinhos e espelhos,
e era uma espécie de retrato sem névoas, um eixo, um grito,
uma louca morte
onde começassem a girar as inspirações misteriosas.
839
Herberto Helder
Irmãos Humanos Que Depois de Mim Vivereis
irmãos humanos que depois de mim vivereis,
eu que fui obrigado a viver dobrados os oitenta,
fazei por acabar mais cedo vossos trabalhos cegos,
porque nestas idades já não nunca,
nem leituras embrumadas,
nem crenças, nem política das formas, nem poemas no futuro, nem
visitas extraterrestres de mulheres
exorbitantemente
nuas, cruas, sexuais, luminosas,
só vê-las um pouco, sim, mas vê-las também cansa,
é como trabalhar: stanca,
lavorare stanca,
queríamos tanto acreditar no milagre isabelino do pão e das rosas,
e só tínhamos que perder a alma,
hoje talvez eu mesmo acreditasse melhor, mas foi-se tudo,
enfim esses jogos gerais, ao tempo que se esgotaram!
livros, je les ai lus tous, e como de costume a carne é insondável,
estou mais pobre do que ao comêço,
e o mundo é pequeníssimo, dá-se-lhe corda, dá-se uma volta,
meia volta, e já era,
irmãos futuros do génio de Villon e do meu género baixo,
não peço piedade, apenas peço:
não me esqueceis só a mim, esquecei a geração inteira,
inclitamente vergonhosa,
que em testamento vos deixou esta montanha de merda:
o mundo como vontade e representação que afinal é como era,
como há-de ser: alta,
alta montanha de merda — trepai por ela acima até à vertigem,
merda eminentíssima:
daqui se vêem os mistérios, os mesteres, os ministérios,
cada qual obrando a sua própria magia:
merda que melhor há-de medrar na memória do mundo
eu que fui obrigado a viver dobrados os oitenta,
fazei por acabar mais cedo vossos trabalhos cegos,
porque nestas idades já não nunca,
nem leituras embrumadas,
nem crenças, nem política das formas, nem poemas no futuro, nem
visitas extraterrestres de mulheres
exorbitantemente
nuas, cruas, sexuais, luminosas,
só vê-las um pouco, sim, mas vê-las também cansa,
é como trabalhar: stanca,
lavorare stanca,
queríamos tanto acreditar no milagre isabelino do pão e das rosas,
e só tínhamos que perder a alma,
hoje talvez eu mesmo acreditasse melhor, mas foi-se tudo,
enfim esses jogos gerais, ao tempo que se esgotaram!
livros, je les ai lus tous, e como de costume a carne é insondável,
estou mais pobre do que ao comêço,
e o mundo é pequeníssimo, dá-se-lhe corda, dá-se uma volta,
meia volta, e já era,
irmãos futuros do génio de Villon e do meu género baixo,
não peço piedade, apenas peço:
não me esqueceis só a mim, esquecei a geração inteira,
inclitamente vergonhosa,
que em testamento vos deixou esta montanha de merda:
o mundo como vontade e representação que afinal é como era,
como há-de ser: alta,
alta montanha de merda — trepai por ela acima até à vertigem,
merda eminentíssima:
daqui se vêem os mistérios, os mesteres, os ministérios,
cada qual obrando a sua própria magia:
merda que melhor há-de medrar na memória do mundo
932
Herberto Helder
¿E a Música, a Música, Quando, Como, Em Que Termos
e a música, a música, quando, como, em que termos extremos
a ouvirei eu,
e ela me salvará da perda da terra, águas que a percorrem,
tão primeiras para o corpo mergulhado,
magníficas,
desmoronadas,
marítimas,
e que eu desapareça na luz delas —
só música ao mesmo tempo nos instrumentos todos,
curto poema completo,
com o autor cá fora salvo no derradeiro instante
numa poalha luminosa ?
a ouvirei eu,
e ela me salvará da perda da terra, águas que a percorrem,
tão primeiras para o corpo mergulhado,
magníficas,
desmoronadas,
marítimas,
e que eu desapareça na luz delas —
só música ao mesmo tempo nos instrumentos todos,
curto poema completo,
com o autor cá fora salvo no derradeiro instante
numa poalha luminosa ?
995
Herberto Helder
Talvez Certa Noite Uma Grande Mão Anónima
talvez certa noite uma grande mão anónima tenha por mim,
um a um, lado alado, escavando,
escrito os nomes,
um a um escrito os nomes esquecidos,
e entre os nomes mais obscuros o mais desmemoriado deles todos,
e eu esteja atrás vivendo desse próprio esquecimento,
a mão cortada, cortado o nome, além da morte escrita,
pelo buraco da voz o nome escoado para sempre
2010.12
um a um, lado alado, escavando,
escrito os nomes,
um a um escrito os nomes esquecidos,
e entre os nomes mais obscuros o mais desmemoriado deles todos,
e eu esteja atrás vivendo desse próprio esquecimento,
a mão cortada, cortado o nome, além da morte escrita,
pelo buraco da voz o nome escoado para sempre
2010.12
1 031
Herberto Helder
As Palavras 4
Durmo.
Durmo de pé atravessando quartos, as minhas mãos não dormem — talvez eu sorria estremecendo, estremecendo.
As minhas mãos saem do sono, para os lados, mexem, mexem, os pés estão acordados e levam com um sorriso o meu sono pelos espaços vivos e brancos, sem som — estou de pé estremecendo.
Depois tenho quatro patas como um perfume que partisse ou uma flor que partisse à procura do seu perfume.
Digo que tenho uma aflita quadrupedia, como um cão nu que fosse em busca da sua flor desaparecida em toda a parte, neste clima aberto à volta do clima.
As minhas patas saem do sono para saber como é o espaço exasperado do clima, andam pelos soalhos do clima — e ao alto do movimento há um sorriso em lume brando numa pessoa estremecendo.
Aprendi como é devagar — comer devagar, sorrir, dormir devagar, cagar e foder — aprendi devagar.
Entretanto, se me falarem de rosas não me falem de rosas — falem-me da espinhosa arte de ser rosa, da arte do devagar.
Mexes-te muito, digo eu, e penso: mexes-te muito pouco — é que eu sou o muito mais possível devagar, respondo, é que eu sou o sangue procurando, pelos tubos quentes, o pavor do coração.
Sou o sangue em busca de como há-de bater nas mãos e nos pés, através das galerias, como um ramo de ventania a bater no espaço da ventania.
Mexes-te pouco, é o sono que te leva, as mãos tremem, os pés apanham os passos um pouco atrás, o coração é terrível como um órgão oculto — mas a boca exposta é que é o órgão do amor.
Durmo, durmo, durmo em todas as direcções — abrem luzes como quem espanca neve, tornam claro como quem desdobra lençóis, tiram do sono como quem abre torneiras sobre as ervas espantadas.
Oh, deixa-me tu passar, digo-me eu, dá-me a superfície inteira desta noite irregular, a profundeza deste sono onde apenas se mexe uma incrível sabedoria à força de lentidão.
É isto que levo no corpo — a nudez, a nudez.
E a nudez põe o sono às costas, caminha, sabe, encontra, perde e caminha — toda exposta em seu espaço branco.
Não te importes com a água fria que atravessa a primeira imagem da tua ciência — tu abraças o amor como se abraçasses uma chaga ardente: a lepra, a loucura, a visão.
O dia começa a meter-se para dentro.
Leva consigo as casas de bruscas rosas acesas, os lençóis que tremem, as candeias com perfume.
A cor sobre as pedras, os lugares mais frios.
O pequeno espelho que o ar infiltrou de álcool, digo: o pássaro — o dia que começa a meter-se para dentro agarra-o pelas patas do voo, e leva-o consigo.
É preciso mais droga, ou amor, ou maior velocidade, para se ver que é o dia.
O movimento dos nomes, o espaço na beleza — e leva-os para dentro.
Já não sei como olhar as plumas que respiram entre as minhas duas mãos, o silêncio deitado, aberto, debaixo do meu de novo silêncio.
A luz pênsil como um girassol um pouco retirado.
A madeira latejante.
Agora não sei — o dia leva tudo para dentro.
Ouve-se então o interior mais escuro.
Aquele bater de águas giratórias.
Um eco de pancadas sonâmbulas, síncope, uma ardente digestão de coisas vivas.
Começa a meter-se para dentro — é uma paisagem tão móvel como a linha entre a maçã e o gosto.
O teu retrato parece uma colina de areia que caminha para os lados nocturnos, não é fixo e fascina — como um peixe dança pelas águas geladas.
Quando se dobra para trás, quente ainda o coração, pequena colina de areia sentada sobre si mesma como uma cabra, uma rosa — vem o dia que se mete para dentro, e leva-o consigo.
Tenho medo do teu rosto que desaparece um pouco loucamente, como se parasses para ver o outro lado do espelho.
Tremo olhando a convulsão de toda aquela seda.
Deita de fora as mãos e agarra o teu vestido de perfil, e tu olhas de lado como as pessoas lêem o sentido de um poema, e sorris a três quartos como as pessoas imaginam que são, e desapareces de costas como as pessoas apalpam a frescura das pêras — o dia agarra o teu vestido de pé, e leva-o para dentro.
O meu sono onde corre um ramo de sangue, como na europa um ramo de águas arquejantes.
O dia agarra pelos caules o ramo bem atado do meu sono que crepita — e a vigília põe-se a andar sobre as suas quatro patas, branca como um cão cheio de febre.
O dia como uma cadeira que se leva para dentro.
Durmo de pé atravessando quartos, as minhas mãos não dormem — talvez eu sorria estremecendo, estremecendo.
As minhas mãos saem do sono, para os lados, mexem, mexem, os pés estão acordados e levam com um sorriso o meu sono pelos espaços vivos e brancos, sem som — estou de pé estremecendo.
Depois tenho quatro patas como um perfume que partisse ou uma flor que partisse à procura do seu perfume.
Digo que tenho uma aflita quadrupedia, como um cão nu que fosse em busca da sua flor desaparecida em toda a parte, neste clima aberto à volta do clima.
As minhas patas saem do sono para saber como é o espaço exasperado do clima, andam pelos soalhos do clima — e ao alto do movimento há um sorriso em lume brando numa pessoa estremecendo.
Aprendi como é devagar — comer devagar, sorrir, dormir devagar, cagar e foder — aprendi devagar.
Entretanto, se me falarem de rosas não me falem de rosas — falem-me da espinhosa arte de ser rosa, da arte do devagar.
Mexes-te muito, digo eu, e penso: mexes-te muito pouco — é que eu sou o muito mais possível devagar, respondo, é que eu sou o sangue procurando, pelos tubos quentes, o pavor do coração.
Sou o sangue em busca de como há-de bater nas mãos e nos pés, através das galerias, como um ramo de ventania a bater no espaço da ventania.
Mexes-te pouco, é o sono que te leva, as mãos tremem, os pés apanham os passos um pouco atrás, o coração é terrível como um órgão oculto — mas a boca exposta é que é o órgão do amor.
Durmo, durmo, durmo em todas as direcções — abrem luzes como quem espanca neve, tornam claro como quem desdobra lençóis, tiram do sono como quem abre torneiras sobre as ervas espantadas.
Oh, deixa-me tu passar, digo-me eu, dá-me a superfície inteira desta noite irregular, a profundeza deste sono onde apenas se mexe uma incrível sabedoria à força de lentidão.
É isto que levo no corpo — a nudez, a nudez.
E a nudez põe o sono às costas, caminha, sabe, encontra, perde e caminha — toda exposta em seu espaço branco.
Não te importes com a água fria que atravessa a primeira imagem da tua ciência — tu abraças o amor como se abraçasses uma chaga ardente: a lepra, a loucura, a visão.
O dia começa a meter-se para dentro.
Leva consigo as casas de bruscas rosas acesas, os lençóis que tremem, as candeias com perfume.
A cor sobre as pedras, os lugares mais frios.
O pequeno espelho que o ar infiltrou de álcool, digo: o pássaro — o dia que começa a meter-se para dentro agarra-o pelas patas do voo, e leva-o consigo.
É preciso mais droga, ou amor, ou maior velocidade, para se ver que é o dia.
O movimento dos nomes, o espaço na beleza — e leva-os para dentro.
Já não sei como olhar as plumas que respiram entre as minhas duas mãos, o silêncio deitado, aberto, debaixo do meu de novo silêncio.
A luz pênsil como um girassol um pouco retirado.
A madeira latejante.
Agora não sei — o dia leva tudo para dentro.
Ouve-se então o interior mais escuro.
Aquele bater de águas giratórias.
Um eco de pancadas sonâmbulas, síncope, uma ardente digestão de coisas vivas.
Começa a meter-se para dentro — é uma paisagem tão móvel como a linha entre a maçã e o gosto.
O teu retrato parece uma colina de areia que caminha para os lados nocturnos, não é fixo e fascina — como um peixe dança pelas águas geladas.
Quando se dobra para trás, quente ainda o coração, pequena colina de areia sentada sobre si mesma como uma cabra, uma rosa — vem o dia que se mete para dentro, e leva-o consigo.
Tenho medo do teu rosto que desaparece um pouco loucamente, como se parasses para ver o outro lado do espelho.
Tremo olhando a convulsão de toda aquela seda.
Deita de fora as mãos e agarra o teu vestido de perfil, e tu olhas de lado como as pessoas lêem o sentido de um poema, e sorris a três quartos como as pessoas imaginam que são, e desapareces de costas como as pessoas apalpam a frescura das pêras — o dia agarra o teu vestido de pé, e leva-o para dentro.
O meu sono onde corre um ramo de sangue, como na europa um ramo de águas arquejantes.
O dia agarra pelos caules o ramo bem atado do meu sono que crepita — e a vigília põe-se a andar sobre as suas quatro patas, branca como um cão cheio de febre.
O dia como uma cadeira que se leva para dentro.
1 103
Herberto Helder
De Antemão 2
Que lhe estendas os dedos aos dedos: lhe devolvas
o sangue, Como as estrelas duplas
duplamente
se dão força,
E fique assim — astro grande estanque
cosido em sangue: e a luz
obturada,
E então no seu pneuma luminoso:
um astro cheio, Coração: astéria: carne
de olaria pulsando, O espasmo
da mão às vezes
se arranca aos recessos da cabeça um relâmpago,
Ou se retira ao braço o movimento
pela musa do sexo, Ou à vertigem se retira
o rasgão do ar
na dança,
Assim a estrela com dois membros
cravados recebendo
o tremor do mundo, E toda essa
massa peristáltica esmaga
a argila táctil: um pequeno músculo
convulso no fundo de água:
um troço de sangue nas costas, Que lhe passes
pelas roupas e a nudez
as tuas armas, Ou lhe ponhas no escuro
um incêndio:
e te ilumines dele, E a tua cara se faça
miraculada
à combustão, E entres rutilante por uma porta
para outra porta, Essa porta que dê
para uma porta de ti própria,
A mão ateando a escrita que se desloca
brilha direita,
Toca-te toda: tocas no chão
através dela, A terra
treme
quando lhe tocas, Tudo
se transmite e transforma,
A gangrena é uma força, Tu és a raiz dele,
Estás dentro
da luz de fora, Como o choque
sísmico
da estrela
o sangue, Como as estrelas duplas
duplamente
se dão força,
E fique assim — astro grande estanque
cosido em sangue: e a luz
obturada,
E então no seu pneuma luminoso:
um astro cheio, Coração: astéria: carne
de olaria pulsando, O espasmo
da mão às vezes
se arranca aos recessos da cabeça um relâmpago,
Ou se retira ao braço o movimento
pela musa do sexo, Ou à vertigem se retira
o rasgão do ar
na dança,
Assim a estrela com dois membros
cravados recebendo
o tremor do mundo, E toda essa
massa peristáltica esmaga
a argila táctil: um pequeno músculo
convulso no fundo de água:
um troço de sangue nas costas, Que lhe passes
pelas roupas e a nudez
as tuas armas, Ou lhe ponhas no escuro
um incêndio:
e te ilumines dele, E a tua cara se faça
miraculada
à combustão, E entres rutilante por uma porta
para outra porta, Essa porta que dê
para uma porta de ti própria,
A mão ateando a escrita que se desloca
brilha direita,
Toca-te toda: tocas no chão
através dela, A terra
treme
quando lhe tocas, Tudo
se transmite e transforma,
A gangrena é uma força, Tu és a raiz dele,
Estás dentro
da luz de fora, Como o choque
sísmico
da estrela
1 140
Herberto Helder
Não, Obrigado, Estou Bem, Nada de Novo,
não, obrigado, estou bem, nada de novo,
socorro só preciso daquele que me salvasse não sei de quê nem como,
foi simples: mandaram-me um livro praticamente sem dedicatória,
descobri que havia sangue nalgumas páginas,
não indicava de onde vinha nem quem o mandava ou até se era eu o
destinatário,
só o endereço e um carimbo secreto,
de que país de que cidade de que língua inexpugnável,
depois do caos e a solidão e o medo et coetera,
estou naturalmente mal obrigado,
e num extremo é sempre possível despenhar-se de algures para nenhures,
logo se vê,
pois tinha sangue páginas afora,
pus-me então a supor que violência era aquela entre tantas violências
de sangue que se conhecem,
e nem de uma única me lembrei, só me lembrava
que o corpo humano tem cinco litros de sangue em média,
muito
muito muito sangue com que alguém tem de se haver,
cinco litros para esbracejar ou afogar-se ou saciar,
tanto sangue para quê?
é o que acontece quando se pensa nas iluminuras das guerras,
para que se dá ou tira tanto sangue,
e das mulheres plenas vai-se ainda extravasando tanto sangue inútil delas,
não, não, estou bem, só que já não percebo nada, ou melhor:
estou mal, obrigado — e o sangue corre e escorre dentro e fora,
e o tema, qual era? digo: de que tratava o livro?
não sei, era numa língua demasiado estrangeira,
provavelmente não tratava de nada,
desconfio mesmo que eram poemas em verso dito livre,
e se existe alguma lógica, dadas as circunstâncias, o que é que se esperava?
e então exultei: porque
as coisas, as pessoas, os livros, os trajectos, as palavras, tudo à volta,
são segredos de um segredo, e só isso os sustenta no vazio do tempo,
e espero estar agora mesmo a escrever,
em verbo arcaico indefectível cerrado,
um êrro absoluto,
um êrro escorchado vivo: vós sois o sal da terra,
vós que escreveis e enviais cartas a cada um e a todos
— a mão do mundo, a música, as cartas derradeiras
e os sobrescritos sem destinatários
socorro só preciso daquele que me salvasse não sei de quê nem como,
foi simples: mandaram-me um livro praticamente sem dedicatória,
descobri que havia sangue nalgumas páginas,
não indicava de onde vinha nem quem o mandava ou até se era eu o
destinatário,
só o endereço e um carimbo secreto,
de que país de que cidade de que língua inexpugnável,
depois do caos e a solidão e o medo et coetera,
estou naturalmente mal obrigado,
e num extremo é sempre possível despenhar-se de algures para nenhures,
logo se vê,
pois tinha sangue páginas afora,
pus-me então a supor que violência era aquela entre tantas violências
de sangue que se conhecem,
e nem de uma única me lembrei, só me lembrava
que o corpo humano tem cinco litros de sangue em média,
muito
muito muito sangue com que alguém tem de se haver,
cinco litros para esbracejar ou afogar-se ou saciar,
tanto sangue para quê?
é o que acontece quando se pensa nas iluminuras das guerras,
para que se dá ou tira tanto sangue,
e das mulheres plenas vai-se ainda extravasando tanto sangue inútil delas,
não, não, estou bem, só que já não percebo nada, ou melhor:
estou mal, obrigado — e o sangue corre e escorre dentro e fora,
e o tema, qual era? digo: de que tratava o livro?
não sei, era numa língua demasiado estrangeira,
provavelmente não tratava de nada,
desconfio mesmo que eram poemas em verso dito livre,
e se existe alguma lógica, dadas as circunstâncias, o que é que se esperava?
e então exultei: porque
as coisas, as pessoas, os livros, os trajectos, as palavras, tudo à volta,
são segredos de um segredo, e só isso os sustenta no vazio do tempo,
e espero estar agora mesmo a escrever,
em verbo arcaico indefectível cerrado,
um êrro absoluto,
um êrro escorchado vivo: vós sois o sal da terra,
vós que escreveis e enviais cartas a cada um e a todos
— a mão do mundo, a música, as cartas derradeiras
e os sobrescritos sem destinatários
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