Poemas neste tema
Alma
Charles Bukowski
Rua 2, Perto de Hollister, Em Santa Monica
minha filha tem 13 anos de idade
e uma tarde dessas
dirigi até sua quadra para almoçarmos
juntos
e havia uma linda mulher
sentada na varanda
e pensei, bem, ela vai
se levantar e dizer para Marina que
eu estou aqui.
e a linda mulher se ergueu
e caminhou na minha direção.
era a minha filha.
ela disse: “Oi!”
eu respondi como se tudo fosse
corriqueiro e nós saímos
juntos.
e uma tarde dessas
dirigi até sua quadra para almoçarmos
juntos
e havia uma linda mulher
sentada na varanda
e pensei, bem, ela vai
se levantar e dizer para Marina que
eu estou aqui.
e a linda mulher se ergueu
e caminhou na minha direção.
era a minha filha.
ela disse: “Oi!”
eu respondi como se tudo fosse
corriqueiro e nós saímos
juntos.
1 137
Charles Bukowski
Nenhuma Sorte Nisso
há um lugar no coração que
nunca será preenchido
um espaço
e mesmo durante os
melhores momentos
e
as maiores
épocas
nós saberemos disso
nós saberemos disso
mais do que
nunca
há um lugar no coração que
nunca será preenchido
e
nós vamos esperar
e
esperar
nesse
espaço.
nunca será preenchido
um espaço
e mesmo durante os
melhores momentos
e
as maiores
épocas
nós saberemos disso
nós saberemos disso
mais do que
nunca
há um lugar no coração que
nunca será preenchido
e
nós vamos esperar
e
esperar
nesse
espaço.
1 306
Charles Bukowski
Carson Mccullers
ela morreu de alcoolismo
enrolada no cobertor
de uma espreguiçadeira
num vapor
transoceânico
todos os seus livros de
aterrorizada solidão
todos os seus livros sobre
a crueldade
do amante sem amor
foram tudo que restou
dela
enquanto o excursionista passeador
encontrava seu corpo
avisava o capitão
e ela era despachada
para outro setor
do navio
enquanto tudo mais
continuava
como
ela tinha escrito.
enrolada no cobertor
de uma espreguiçadeira
num vapor
transoceânico
todos os seus livros de
aterrorizada solidão
todos os seus livros sobre
a crueldade
do amante sem amor
foram tudo que restou
dela
enquanto o excursionista passeador
encontrava seu corpo
avisava o capitão
e ela era despachada
para outro setor
do navio
enquanto tudo mais
continuava
como
ela tinha escrito.
970
Charles Bukowski
Muito
peguei o táxi para Newport e estudei as pregas no
crânio do motorista, todo o previsto se vai:
a derrota veio tantas vezes
(como a chuva)
que ganhou mais significado
que a vitória, o artista é bom no
piano
e nós esperamos num canto
(este poeta!)
aguardando para recitar
poemas; é como uma cave, isso aqui:
cheia de morcegos e putas
e música sem corpo
movo-me no dorso do mundo, minha cabeça dói,
e procurando determinada porta
penso com carinho no bem-sucedido papai Haydn
se acabando no jardim chuvoso
acima da cópula
desses ratões sem ouvido...
o sol está numa caixa por aí
dormindo como um gato
os morcegos dão rasantes, um corpo
pega na minha mão (a do copo
a mão direita é a que bebe)
uma mulher, uma horrível
danada de uma mulher, uma coisa viva
senta
e pisca
para mim:
Hank, a coisa diz,
estão lhe esperando firme e
forte!
que se fodam, eu digo, que se fodam.
eu engordei um bocado e
fiquei vulgar (uma morte deliberada
na cozinha) e
subitamente caio na risada
considerando minha excelente forma física
como a de algum porco de um homem de negócios
e nem sequer cuido
de me levantar
para mijar...
Anjos,
nós crescemos apartados
crânio do motorista, todo o previsto se vai:
a derrota veio tantas vezes
(como a chuva)
que ganhou mais significado
que a vitória, o artista é bom no
piano
e nós esperamos num canto
(este poeta!)
aguardando para recitar
poemas; é como uma cave, isso aqui:
cheia de morcegos e putas
e música sem corpo
movo-me no dorso do mundo, minha cabeça dói,
e procurando determinada porta
penso com carinho no bem-sucedido papai Haydn
se acabando no jardim chuvoso
acima da cópula
desses ratões sem ouvido...
o sol está numa caixa por aí
dormindo como um gato
os morcegos dão rasantes, um corpo
pega na minha mão (a do copo
a mão direita é a que bebe)
uma mulher, uma horrível
danada de uma mulher, uma coisa viva
senta
e pisca
para mim:
Hank, a coisa diz,
estão lhe esperando firme e
forte!
que se fodam, eu digo, que se fodam.
eu engordei um bocado e
fiquei vulgar (uma morte deliberada
na cozinha) e
subitamente caio na risada
considerando minha excelente forma física
como a de algum porco de um homem de negócios
e nem sequer cuido
de me levantar
para mijar...
Anjos,
nós crescemos apartados
1 077
Charles Bukowski
A Gente Se Dá Bem
as diversas mulheres com as quais vivi frequentaram
shows de rock, festivais de reggae, celebrações do amor, passeatas
pela paz, filmes, vendas de garagem, feiras, protestos,
casamentos, enterros, leituras de poesia, aulas de espanhol,
spas, festas, bares e assim por diante
e eu vivi com essa
máquina.
enquanto as mulheres cuidavam de seus compromissos, salvavam as baleias,
as focas, os golfinhos, o tubarão-branco,
enquanto as mulheres conversavam ao telefone
essa máquina e eu vivíamos
juntos.
como vivemos juntos hoje: essa máquina, os 3
gatos, o rádio e o vinho.
depois da minha morte as mulheres vão dizer (se lhes perguntarem): “ele
gostava de dormir, de beber; ele nunca queria ir a
lugar algum... bem, o hipódromo, aquele lugar
idiota!”
as mulheres que conheci e com as quais vivi socializavam
muito, pulando dentro do carro, acenando, saindo
por aí como se algum tesouro de grande importância
estivesse à espera delas...
“é uma banda punk nova, eles são ótimos!”
“a leitura de Allen Ginsberg!”
“estou atrasada pra minha aula de dança!”
“vou jogar palavras cruzadas com a Rita!”
“é uma festa surpresa pro aniversário da Fran!”
eu tenho essa máquina.
essa máquina e eu vivemos juntos.
Olympia, esse é o nome dela.
uma boa garota.
quase sempre
fiel.
shows de rock, festivais de reggae, celebrações do amor, passeatas
pela paz, filmes, vendas de garagem, feiras, protestos,
casamentos, enterros, leituras de poesia, aulas de espanhol,
spas, festas, bares e assim por diante
e eu vivi com essa
máquina.
enquanto as mulheres cuidavam de seus compromissos, salvavam as baleias,
as focas, os golfinhos, o tubarão-branco,
enquanto as mulheres conversavam ao telefone
essa máquina e eu vivíamos
juntos.
como vivemos juntos hoje: essa máquina, os 3
gatos, o rádio e o vinho.
depois da minha morte as mulheres vão dizer (se lhes perguntarem): “ele
gostava de dormir, de beber; ele nunca queria ir a
lugar algum... bem, o hipódromo, aquele lugar
idiota!”
as mulheres que conheci e com as quais vivi socializavam
muito, pulando dentro do carro, acenando, saindo
por aí como se algum tesouro de grande importância
estivesse à espera delas...
“é uma banda punk nova, eles são ótimos!”
“a leitura de Allen Ginsberg!”
“estou atrasada pra minha aula de dança!”
“vou jogar palavras cruzadas com a Rita!”
“é uma festa surpresa pro aniversário da Fran!”
eu tenho essa máquina.
essa máquina e eu vivemos juntos.
Olympia, esse é o nome dela.
uma boa garota.
quase sempre
fiel.
599
Charles Bukowski
Cometi Um Erro
me estiquei até o alto do armário
e puxei uma calcinha azul
e mostrei a ela e
perguntei “é sua?”
e ela olhou e falou:
“não, essa pertence a um cão”.
ela foi embora depois disso e não a vi
desde então. não está na casa dela.
continuo indo lá, deixando bilhetes enfiados
por baixo da porta. volto lá e os bilhetes
continuam ali. tiro a cruz de Malta
arranco-a do espelho do meu carro, amarro-a
com um cadarço em sua maçaneta, deixo
um livro de poemas.
quando retorno na noite seguinte tudo
continua ali.
sigo rondando as ruas em busca daquele
encouraçado sangue-vinho que ela dirige
com uma bateria fraca, e as portas
pendendo de dobradiças quebradas.
dirijo pelas ruas
a um centímetro de chorar,
envergonhado de meu sentimentalismo e
possível amor.
um velho confuso dirigindo na chuva
perguntando-se onde a boa sorte
foi parar.
e puxei uma calcinha azul
e mostrei a ela e
perguntei “é sua?”
e ela olhou e falou:
“não, essa pertence a um cão”.
ela foi embora depois disso e não a vi
desde então. não está na casa dela.
continuo indo lá, deixando bilhetes enfiados
por baixo da porta. volto lá e os bilhetes
continuam ali. tiro a cruz de Malta
arranco-a do espelho do meu carro, amarro-a
com um cadarço em sua maçaneta, deixo
um livro de poemas.
quando retorno na noite seguinte tudo
continua ali.
sigo rondando as ruas em busca daquele
encouraçado sangue-vinho que ela dirige
com uma bateria fraca, e as portas
pendendo de dobradiças quebradas.
dirijo pelas ruas
a um centímetro de chorar,
envergonhado de meu sentimentalismo e
possível amor.
um velho confuso dirigindo na chuva
perguntando-se onde a boa sorte
foi parar.
1 095
Charles Bukowski
O Tordo Azul
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou duro demais com ele,
eu digo: fique aí, não vou
deixar que ninguém veja
você.
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os bartenders
e os balconistas de mercearia
nunca sabem que
ele está
ali dentro.
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou duro demais com ele,
eu digo:
fique quieto, você quer
me ferrar?
quer foder com a minha
situação?
quer detonar as minhas vendas de livros na
Europa?
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou esperto demais, só o deixo sair
em algumas noites
quando todo mundo está dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique
triste.
depois o coloco de volta,
mas ele está cantando um pouco
ali dentro, não o deixei morrer
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso
pacto secreto
e é bom o bastante para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?
quer sair
mas eu sou duro demais com ele,
eu digo: fique aí, não vou
deixar que ninguém veja
você.
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os bartenders
e os balconistas de mercearia
nunca sabem que
ele está
ali dentro.
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou duro demais com ele,
eu digo:
fique quieto, você quer
me ferrar?
quer foder com a minha
situação?
quer detonar as minhas vendas de livros na
Europa?
há um tordo azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou esperto demais, só o deixo sair
em algumas noites
quando todo mundo está dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique
triste.
depois o coloco de volta,
mas ele está cantando um pouco
ali dentro, não o deixei morrer
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso
pacto secreto
e é bom o bastante para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?
1 218
Charles Bukowski
Corcunda
momentos de danação e momentos de glória
tamborilam ao longo do meu telhado.
o gato passa por mim
parecendo saber tudo.
minha sorte tem sido melhor, creio,
do que a sorte do gladíolo,
se bem que não tenho certeza.
fui amado por muitas mulheres,
e, para um corcunda da vida,
isso é uma sorte.
tantos dedos por entre meus cabelos
tantas mãos agarrando as minhas bolas
tantos sapatos tombados de lado pelo tapete do meu
quarto.
tantos olhos observando
endentados num crânio que vai carregar todos esses
olhos rumo à morte,
recordando.
fui tratado melhor do que eu
merecia –
não pela vida em geral
ou pela maquinaria das coisas
mas pelas mulheres.
e o outro
(pelas mulheres): eu
parado no quarto sozinho
dobrado
mãos segurando a pança –
pensando
por que por que por que por que por que por quê?
mulheres caídas por homens como porcos
mulheres caídas por homens com mãos como galhos secos
mulheres caídas por homens que trepam mal
mulheres caídas por coisas de homens
mulheres caídas
caídas
porque elas precisam cair
na ordem das
coisas.
as mulheres sabem
mas com mais frequência decidem fugir da
desordem e da confusão.
elas podem matar o que tocam.
estou morrendo
mas não estou morto.
tamborilam ao longo do meu telhado.
o gato passa por mim
parecendo saber tudo.
minha sorte tem sido melhor, creio,
do que a sorte do gladíolo,
se bem que não tenho certeza.
fui amado por muitas mulheres,
e, para um corcunda da vida,
isso é uma sorte.
tantos dedos por entre meus cabelos
tantas mãos agarrando as minhas bolas
tantos sapatos tombados de lado pelo tapete do meu
quarto.
tantos olhos observando
endentados num crânio que vai carregar todos esses
olhos rumo à morte,
recordando.
fui tratado melhor do que eu
merecia –
não pela vida em geral
ou pela maquinaria das coisas
mas pelas mulheres.
e o outro
(pelas mulheres): eu
parado no quarto sozinho
dobrado
mãos segurando a pança –
pensando
por que por que por que por que por que por quê?
mulheres caídas por homens como porcos
mulheres caídas por homens com mãos como galhos secos
mulheres caídas por homens que trepam mal
mulheres caídas por coisas de homens
mulheres caídas
caídas
porque elas precisam cair
na ordem das
coisas.
as mulheres sabem
mas com mais frequência decidem fugir da
desordem e da confusão.
elas podem matar o que tocam.
estou morrendo
mas não estou morto.
1 109
Charles Bukowski
Meu Verdadeiro Amor Em Atenas
e eu me lembro da faca,
do modo como você toca uma rosa
e sai com sangue
e como você toca o amor do mesmo modo,
e como quando você quer entrar na autoestrada
os caminhões encurralam você na pista interna
luar e rugindo
atropelando sua bravura,
fazendo você pisar no freio
e pequenas imagens surgem na sua cabeça:
imagens de Cristo pendurado lá
ou Hiroshima
ou sua última esposa
fritando um ovo.
o modo como você toca uma rosa
é o modo como você se encosta nas laterais dos caixões
dos mortos,
o modo como você toca uma rosa
e vê os mortos rodopiando de volta
por baixo das suas unhas;
a faca
Gettysburg, as Ardenas, Flandres,
Átila, Muss –
de que me serve a história
quando tudo se reduz
à sombra das três da tarde
embaixo de uma folha?
e se a mente fica atormentada
e a rosa morde
como um cão,
dizem
que temos amor...
mas de que me serve o amor
quando todos nascemos
em diferentes momentos e lugares
e só nos encontramos
através de um truque dos séculos
e três passos casuais
à esquerda?
você quer dizer que
um amor que não encontrei
é menos do que um egoísmo
que chamo de próximo?
posso dizer agora
com sangue de rosa no fundo da minha mente,
posso dizer agora enquanto rodopiam os planetas
e toneladas de força são disparadas dentro do fim do espaço
para fazer Colombo parecer uma criança idiota
posso dizer agora
que porque gritei dentro de uma noite
e não me ouviram,
posso dizer agora
que me lembro da faca
e fico sentado num quarto fresco
e esfrego meus dedos ao apito do relógio
e calmamente penso em
Ajax e escarro
e galinhas ferroviárias atravessando os trilhos dourados,
e meu verdadeiro amor está em Atenas
600
A ou D,
enquanto fora da minha janela
pombos tropeçam enquanto voam
e por uma porta
de longa espera para um quarto vazio
rosas não conseguem
entrar ou sair,
ou amor ou mariposas ou relâmpago –
eu não irromperia nem em suspiro
nem em sorriso; poderiam nadas
como mariposas ou homens
existir como luz solar laranja sobre papel
dividido por nove?
Atenas fica agora a muitas milhas
e uma morte de distância,
e as mesas estão sujas pra cacete
e os lençóis e os pratos,
mas estou rindo; isso não é real;
mas é, dividido por nove
ou cem;
roupa limpa é amor
que não se coça
e suspira.
do modo como você toca uma rosa
e sai com sangue
e como você toca o amor do mesmo modo,
e como quando você quer entrar na autoestrada
os caminhões encurralam você na pista interna
luar e rugindo
atropelando sua bravura,
fazendo você pisar no freio
e pequenas imagens surgem na sua cabeça:
imagens de Cristo pendurado lá
ou Hiroshima
ou sua última esposa
fritando um ovo.
o modo como você toca uma rosa
é o modo como você se encosta nas laterais dos caixões
dos mortos,
o modo como você toca uma rosa
e vê os mortos rodopiando de volta
por baixo das suas unhas;
a faca
Gettysburg, as Ardenas, Flandres,
Átila, Muss –
de que me serve a história
quando tudo se reduz
à sombra das três da tarde
embaixo de uma folha?
e se a mente fica atormentada
e a rosa morde
como um cão,
dizem
que temos amor...
mas de que me serve o amor
quando todos nascemos
em diferentes momentos e lugares
e só nos encontramos
através de um truque dos séculos
e três passos casuais
à esquerda?
você quer dizer que
um amor que não encontrei
é menos do que um egoísmo
que chamo de próximo?
posso dizer agora
com sangue de rosa no fundo da minha mente,
posso dizer agora enquanto rodopiam os planetas
e toneladas de força são disparadas dentro do fim do espaço
para fazer Colombo parecer uma criança idiota
posso dizer agora
que porque gritei dentro de uma noite
e não me ouviram,
posso dizer agora
que me lembro da faca
e fico sentado num quarto fresco
e esfrego meus dedos ao apito do relógio
e calmamente penso em
Ajax e escarro
e galinhas ferroviárias atravessando os trilhos dourados,
e meu verdadeiro amor está em Atenas
600
A ou D,
enquanto fora da minha janela
pombos tropeçam enquanto voam
e por uma porta
de longa espera para um quarto vazio
rosas não conseguem
entrar ou sair,
ou amor ou mariposas ou relâmpago –
eu não irromperia nem em suspiro
nem em sorriso; poderiam nadas
como mariposas ou homens
existir como luz solar laranja sobre papel
dividido por nove?
Atenas fica agora a muitas milhas
e uma morte de distância,
e as mesas estão sujas pra cacete
e os lençóis e os pratos,
mas estou rindo; isso não é real;
mas é, dividido por nove
ou cem;
roupa limpa é amor
que não se coça
e suspira.
732
Charles Bukowski
Inflamados de Amor (Para N.W.)
pequena garota morena de
bondade
quando chegar a hora de
enfiar a faca
não vou culpar
você.
e quando eu passar de carro pela praia
e as palmeiras acenarem,
as palmeiras feias e pesadas
e os vivos não chegarem
e os mortos não partirem,
não vou culpar você.
vou lembrar as horas de beijos
nossos lábios inflamados de amor
e como você me ofereceu
sua boceta sua alma suas entranhas
e como eu respondi
oferecendo-lhe o pouco que restava de
mim,
e vou lembrar os contornos do seu quarto
os contornos do seu corpo
seus discos
suas paredes
suas xícaras de café
suas manhãs e seus meios-dias e suas noites
e sua privada e sua
banheira.
nossos corpos derramados juntos
dormindo
aquelas minúsculas correntes fluindo
imediatas e eternas
cruzando
entrecruzando
sem parar.
sua perna minha perna
seu braço meu braço
sua tristeza e perda e calor
também meus,
memorizei você
cada formato seu
a sensação dos pelos da sua boceta nos meus dentes
em repuxo suave, e
você
que me fez rir nos
momentos apropriados
sempre.
pequena garota morena de bondade
você não tem nenhuma
faca. é
minha e não quero usá-la
ainda.
ENTÃO VEIO O AMOR
bondade
quando chegar a hora de
enfiar a faca
não vou culpar
você.
e quando eu passar de carro pela praia
e as palmeiras acenarem,
as palmeiras feias e pesadas
e os vivos não chegarem
e os mortos não partirem,
não vou culpar você.
vou lembrar as horas de beijos
nossos lábios inflamados de amor
e como você me ofereceu
sua boceta sua alma suas entranhas
e como eu respondi
oferecendo-lhe o pouco que restava de
mim,
e vou lembrar os contornos do seu quarto
os contornos do seu corpo
seus discos
suas paredes
suas xícaras de café
suas manhãs e seus meios-dias e suas noites
e sua privada e sua
banheira.
nossos corpos derramados juntos
dormindo
aquelas minúsculas correntes fluindo
imediatas e eternas
cruzando
entrecruzando
sem parar.
sua perna minha perna
seu braço meu braço
sua tristeza e perda e calor
também meus,
memorizei você
cada formato seu
a sensação dos pelos da sua boceta nos meus dentes
em repuxo suave, e
você
que me fez rir nos
momentos apropriados
sempre.
pequena garota morena de bondade
você não tem nenhuma
faca. é
minha e não quero usá-la
ainda.
ENTÃO VEIO O AMOR
1 200
Charles Bukowski
O Amor É Uma Forma de Egoísmo
vadiagem, a trompa de eustáquio e a hera verde insetomorta
e o modo como andamos esta noite
com o céu subindo em nossos ouvidos e nos nossos bolsos
enquanto falávamos de coisas que não importavam
e o bonde balançava e uivava sua cor
que não notamos exceto como algo ao lado da véspera
enquanto mencionávamos o sexo através de paralisias,
vadiagem, o fogo vermelho, vadiagem a trompa de eustáquio!
já se foram os dias, já se foi a hera verde insetomorta
e as palavras ditas esta noite que não importavam;
X 12, Escarlate e Ouro
OURO OURO OURO OURO OURO!
teus olhos são ouro
teu cabelo é ouro
teu amor é ouro
teu túmulo é ouro
e as ruas passam como pessoas caminhando
e os sinos tocam como sinos tocando;
tuas mãos são ouro e tua voz é ouro
e todas as crianças caminhando
e as árvores crescendo e os idiotas vendendo jornais
34256780000 ah enquanto você está
trompa de eustáquio
fogo vermelho
verdeinsetomorta
hera
escarlate e ouro
e as palavras que dissemos esta noite
estão indo embora
por cima das árvores
junto com o bonde
e eu fechei o livro
com o vermelho vermelho leão
junto aos portões de ouro.
e o modo como andamos esta noite
com o céu subindo em nossos ouvidos e nos nossos bolsos
enquanto falávamos de coisas que não importavam
e o bonde balançava e uivava sua cor
que não notamos exceto como algo ao lado da véspera
enquanto mencionávamos o sexo através de paralisias,
vadiagem, o fogo vermelho, vadiagem a trompa de eustáquio!
já se foram os dias, já se foi a hera verde insetomorta
e as palavras ditas esta noite que não importavam;
X 12, Escarlate e Ouro
OURO OURO OURO OURO OURO!
teus olhos são ouro
teu cabelo é ouro
teu amor é ouro
teu túmulo é ouro
e as ruas passam como pessoas caminhando
e os sinos tocam como sinos tocando;
tuas mãos são ouro e tua voz é ouro
e todas as crianças caminhando
e as árvores crescendo e os idiotas vendendo jornais
34256780000 ah enquanto você está
trompa de eustáquio
fogo vermelho
verdeinsetomorta
hera
escarlate e ouro
e as palavras que dissemos esta noite
estão indo embora
por cima das árvores
junto com o bonde
e eu fechei o livro
com o vermelho vermelho leão
junto aos portões de ouro.
1 155
Charles Bukowski
Resposta a Um Bilhete Encontrado Na Caixa de Correio
“o amor é como um sino
me diga, você já
o escutou na voz dela?”
o amor não é como um sino
isso é poético, verdade,
mas escutei algo na voz dela
que no vômito do meu tormento
que na caveira pousada na janela
arreganhando os dentes amarelos quebrados
me alçou a um clima que raras vezes
conheci –
“aqui, uma flor. eu trago flor.”
escuto algo na voz dela
que nada tem a ver com suados e traiçoeiros
e sangrantes exércitos
que nada tem a ver com o chefe da fábrica com olhos
quebrados
não estou implicando com as suas palavras:
você tem o seu sino
eu tenho isso e talvez você tenha isso também:
“eu trago sapatos. sapato. sapato. aqui um
sapato!”
é mais do que aprender o que é um sapato
é mais do que aprender o que sou ou o que ela
é
é outra coisa
que talvez nós que vivemos há muito tempo já quase
esquecemos
que uma criança venha dos pântanos da minha dor
carregando flores, efetivamente carregando flores,
jesus, isso é quase demais
que me seja permitido ver com olhos e tocar e
rir,
essa besta informada em mim
faz careta no íntimo
mas logo constata que o esforço é grande demais para se esconder
atrás
e essa pequena criatura que me conhece tão bem
rasteja por tudo através e em cima de mim
Lázaro Lázaro
e não sinto vergonha
guerreiro espancado por horas e anos de
desperdício
o amor é como um sino
o amor é como uma montanha púrpura
o amor é como um copo de vinagre
o amor são todas as sepulturas
o amor é uma janela de trem
ela sabe o meu nome.
me diga, você já
o escutou na voz dela?”
o amor não é como um sino
isso é poético, verdade,
mas escutei algo na voz dela
que no vômito do meu tormento
que na caveira pousada na janela
arreganhando os dentes amarelos quebrados
me alçou a um clima que raras vezes
conheci –
“aqui, uma flor. eu trago flor.”
escuto algo na voz dela
que nada tem a ver com suados e traiçoeiros
e sangrantes exércitos
que nada tem a ver com o chefe da fábrica com olhos
quebrados
não estou implicando com as suas palavras:
você tem o seu sino
eu tenho isso e talvez você tenha isso também:
“eu trago sapatos. sapato. sapato. aqui um
sapato!”
é mais do que aprender o que é um sapato
é mais do que aprender o que sou ou o que ela
é
é outra coisa
que talvez nós que vivemos há muito tempo já quase
esquecemos
que uma criança venha dos pântanos da minha dor
carregando flores, efetivamente carregando flores,
jesus, isso é quase demais
que me seja permitido ver com olhos e tocar e
rir,
essa besta informada em mim
faz careta no íntimo
mas logo constata que o esforço é grande demais para se esconder
atrás
e essa pequena criatura que me conhece tão bem
rasteja por tudo através e em cima de mim
Lázaro Lázaro
e não sinto vergonha
guerreiro espancado por horas e anos de
desperdício
o amor é como um sino
o amor é como uma montanha púrpura
o amor é como um copo de vinagre
o amor são todas as sepulturas
o amor é uma janela de trem
ela sabe o meu nome.
1 015
Charles Bukowski
Para a Puta Que Levou Meus Poemas
alguns dizem que deveríamos evitar remorsos particulares no
poema,
manter a abstração, e há certa razão nisso,
mas jezus:
lá se foram 12 poemas e eu nunca uso papel-carbono e você está com
minhas
pinturas também, minhas melhores; é sufocante:
você está tentando me triturar como todos os outros?
por que não leva meu dinheiro? é o que costumam tirar
das calças bêbadas e adormecidas passando mal na esquina.
da próxima vez leve meu braço esquerdo ou uma nota de cinquenta
mas não meus poemas:
não sou Shakespeare
mas um dia simplesmente
não haverá mais nenhum, abstrato ou seja o que for;
sempre haverá dinheiro e putas e bêbados
até a última bomba,
mas como Deus disse,
cruzando as pernas:
percebo que fiz poetas de sobra
mas não muita
poesia.
poema,
manter a abstração, e há certa razão nisso,
mas jezus:
lá se foram 12 poemas e eu nunca uso papel-carbono e você está com
minhas
pinturas também, minhas melhores; é sufocante:
você está tentando me triturar como todos os outros?
por que não leva meu dinheiro? é o que costumam tirar
das calças bêbadas e adormecidas passando mal na esquina.
da próxima vez leve meu braço esquerdo ou uma nota de cinquenta
mas não meus poemas:
não sou Shakespeare
mas um dia simplesmente
não haverá mais nenhum, abstrato ou seja o que for;
sempre haverá dinheiro e putas e bêbados
até a última bomba,
mas como Deus disse,
cruzando as pernas:
percebo que fiz poetas de sobra
mas não muita
poesia.
1 119
Charles Bukowski
Fax
ganha do amor porque
não há quaisquer feridas
baqueando na carne. pela
manhã ela liga o
rádio com Brahms ou Ives
ou Stravinsky ou Mozart.
ela ferve os ovos con-
tando em voz alta os segundos:
56, 57, 58. descasca
os ovos, os traz para
mim na cama. depois do café
da manhã é o sofá, nós
colocamos os pés sobre a mesma
cadeira e ouvimos a
música clássica. ela
está em seu primeiro copo de
scotch e em seu terceiro
cigarro. digo-lhe que
preciso ir ao hipó-
dromo. ela está por aqui
faz 2 noites e 2 dias.
“quando vou ver você
de novo?”, pergunto. ela sugere
que isso dependeria de mim.
assinto com a cabeça e Mozart toca.
não há quaisquer feridas
baqueando na carne. pela
manhã ela liga o
rádio com Brahms ou Ives
ou Stravinsky ou Mozart.
ela ferve os ovos con-
tando em voz alta os segundos:
56, 57, 58. descasca
os ovos, os traz para
mim na cama. depois do café
da manhã é o sofá, nós
colocamos os pés sobre a mesma
cadeira e ouvimos a
música clássica. ela
está em seu primeiro copo de
scotch e em seu terceiro
cigarro. digo-lhe que
preciso ir ao hipó-
dromo. ela está por aqui
faz 2 noites e 2 dias.
“quando vou ver você
de novo?”, pergunto. ela sugere
que isso dependeria de mim.
assinto com a cabeça e Mozart toca.
1 076
Charles Bukowski
Um Poema de Amor Para Todas As Mulheres Que Eu Conheci
todas as mulheres
todos os seus beijos as
diferentes formas como amam e
falam e precisam.
suas orelhas todas elas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.
na maioria
as mulheres são muito
calorosas elas me lembram
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.
há uma expressão no
olhar: elas foram
dominadas elas foram
enganadas. não sei direito o que
fazer por
elas.
eu sou
um cozinheiro razoável um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar – estava ocupado
então com coisas maiores.
mas desfrutei de suas diferentes
camas
fumando cigarros
olhando fixo para os
tetos. não fui nem perverso nem
injusto. apenas
um estudante.
sei que todas elas têm aqueles
pés e descalças elas atravessam o assoalho enquanto
observo suas nádegas acanhadas no
escuro. sei que elas gostam de mim, algumas até
me amam
mas eu amo bem
poucas.
algumas me dão laranjas e pílulas;
outras falam calmamente de
infância e pais e
paisagens; algumas são quase
loucas mas nenhuma delas é desprovida de
significado; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre são as
melhores em outros
aspectos; cada uma tem limites como eu tenho
limites e aprendemos
um ao outro
depressa.
todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos
os tapetes as
fotos as
cortinas, é
meio como uma igreja só que
às vezes há
risos.
aquelas orelhas aqueles
braços aqueles
cotovelos aqueles olhos
fitando o carinho e
a espera eu fui
abraçado eu fui
abraçado.
todos os seus beijos as
diferentes formas como amam e
falam e precisam.
suas orelhas todas elas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.
na maioria
as mulheres são muito
calorosas elas me lembram
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.
há uma expressão no
olhar: elas foram
dominadas elas foram
enganadas. não sei direito o que
fazer por
elas.
eu sou
um cozinheiro razoável um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar – estava ocupado
então com coisas maiores.
mas desfrutei de suas diferentes
camas
fumando cigarros
olhando fixo para os
tetos. não fui nem perverso nem
injusto. apenas
um estudante.
sei que todas elas têm aqueles
pés e descalças elas atravessam o assoalho enquanto
observo suas nádegas acanhadas no
escuro. sei que elas gostam de mim, algumas até
me amam
mas eu amo bem
poucas.
algumas me dão laranjas e pílulas;
outras falam calmamente de
infância e pais e
paisagens; algumas são quase
loucas mas nenhuma delas é desprovida de
significado; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre são as
melhores em outros
aspectos; cada uma tem limites como eu tenho
limites e aprendemos
um ao outro
depressa.
todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos
os tapetes as
fotos as
cortinas, é
meio como uma igreja só que
às vezes há
risos.
aquelas orelhas aqueles
braços aqueles
cotovelos aqueles olhos
fitando o carinho e
a espera eu fui
abraçado eu fui
abraçado.
1 194
Charles Bukowski
Você Já Beijou Uma Pantera?
essa mulher acha que é uma pantera
e às vezes quando estamos fazendo amor
ela solta grunhidos e cospe
e seu cabelo vem abaixo
e ela olha por entre os fios
e me mostra suas presas
mas eu a beijo mesmo assim e continuo amando.
você já beijou uma pantera?
você já viu uma pantera fêmea desfrutando
o ato do amor?
você não amou, amigo.
você com suas loirinhas tingidas
você com seus esquilos e tâmias
e elefantes e ovelhas.
você deveria dormir com uma pantera
nunca mais você vai querer
esquilos, tâmias, elefantes, ovelhas, raposas,
carcajus,
nunca nada exceto a pantera fêmea
a pantera fêmea atravessando a sala
a pantera fêmea atravessando a sua alma;
todas as outras canções de amor são mentiras
quando aquela pelagem preta e macia se roça em você
e o céu desaba nas suas costas,
a pantera fêmea é o sonho que chegou real
e não há como voltar atrás
ou querer voltar –
a pelagem roçando em você,
a busca terminou
enquanto seu pau avança diante da beira do Nirvana
e você fica preso diante dos olhos de uma pantera.
e às vezes quando estamos fazendo amor
ela solta grunhidos e cospe
e seu cabelo vem abaixo
e ela olha por entre os fios
e me mostra suas presas
mas eu a beijo mesmo assim e continuo amando.
você já beijou uma pantera?
você já viu uma pantera fêmea desfrutando
o ato do amor?
você não amou, amigo.
você com suas loirinhas tingidas
você com seus esquilos e tâmias
e elefantes e ovelhas.
você deveria dormir com uma pantera
nunca mais você vai querer
esquilos, tâmias, elefantes, ovelhas, raposas,
carcajus,
nunca nada exceto a pantera fêmea
a pantera fêmea atravessando a sala
a pantera fêmea atravessando a sua alma;
todas as outras canções de amor são mentiras
quando aquela pelagem preta e macia se roça em você
e o céu desaba nas suas costas,
a pantera fêmea é o sonho que chegou real
e não há como voltar atrás
ou querer voltar –
a pelagem roçando em você,
a busca terminou
enquanto seu pau avança diante da beira do Nirvana
e você fica preso diante dos olhos de uma pantera.
1 224
Charles Bukowski
Algo Pra Valer, Uma Boa Mulher
ficam sempre escrevendo sobre os touros, os toureiros,
aqueles que nunca os viram,
e enquanto vou rompendo as teias das aranhas para pegar meu vinho
o aham dos bombardeiros, maldito bam rompendo a calmaria,
e preciso escrever uma carta pro meu padre sobre certa puta da rua 3
que fica me chamando às 3 da manhã;
velhas escadas acima, bunda cheia de farpas,
pensando em poetas de livro de bolso e no padre,
e domino a máquina de escrever como uma máquina de lavar,
e veja veja os touros ainda estão morrendo
e ainda os cevam e os ceifam
como trigo nos campos,
e o sol está preto como tinta, isto é tinta preta,
e a minha esposa fala Brock, pelo amor de Deus,
a máquina de escrever a noite toda,
como vou conseguir dormir? e eu me enfio na cama e
beijo seu cabelo desculpa desculpa desculpa
às vezes eu fico empolgado não sei por quê
amigo meu disse que ia escrever sobre
Manolete...
quem é esse? ninguém, criança, alguém morto
como Chopin ou nosso velho carteiro ou um cão,
dorme, dorme,
e eu a beijo e esfrego sua cabeça,
uma boa mulher,
e logo ela pega no sono e eu espero
a manhã.
aqueles que nunca os viram,
e enquanto vou rompendo as teias das aranhas para pegar meu vinho
o aham dos bombardeiros, maldito bam rompendo a calmaria,
e preciso escrever uma carta pro meu padre sobre certa puta da rua 3
que fica me chamando às 3 da manhã;
velhas escadas acima, bunda cheia de farpas,
pensando em poetas de livro de bolso e no padre,
e domino a máquina de escrever como uma máquina de lavar,
e veja veja os touros ainda estão morrendo
e ainda os cevam e os ceifam
como trigo nos campos,
e o sol está preto como tinta, isto é tinta preta,
e a minha esposa fala Brock, pelo amor de Deus,
a máquina de escrever a noite toda,
como vou conseguir dormir? e eu me enfio na cama e
beijo seu cabelo desculpa desculpa desculpa
às vezes eu fico empolgado não sei por quê
amigo meu disse que ia escrever sobre
Manolete...
quem é esse? ninguém, criança, alguém morto
como Chopin ou nosso velho carteiro ou um cão,
dorme, dorme,
e eu a beijo e esfrego sua cabeça,
uma boa mulher,
e logo ela pega no sono e eu espero
a manhã.
966
Charles Bukowski
Notificação
os cisnes se afogam em água imunda,
retirem os avisos,
testem os venenos,
isolem a vaca
do touro,
a peônia do sol,
tirem os beijos de alfazema da minha noite,
coloquem as sinfonias nas ruas
como mendigos,
deixem as unhas de prontidão,
açoitem as costas dos santos,
atordoem sapos e ratos para o gato da alma,
queimem as pinturas arrebatadoras,
mijem no amanhecer,
meu amor
está morto.
retirem os avisos,
testem os venenos,
isolem a vaca
do touro,
a peônia do sol,
tirem os beijos de alfazema da minha noite,
coloquem as sinfonias nas ruas
como mendigos,
deixem as unhas de prontidão,
açoitem as costas dos santos,
atordoem sapos e ratos para o gato da alma,
queimem as pinturas arrebatadoras,
mijem no amanhecer,
meu amor
está morto.
1 186
Charles Bukowski
Todo o Meu Amor É Dedicado a Ela (Para A.M.)
astutamente armado com argumentos para o papa
abro meu caminho em meio às pessoas não elétricas
buscando razões para minha morte e meu viver;
é um dia encantador para aqueles que gostam dos dias –
para aqueles que aguardam a noite
como eu, aí o dia é uma merda e a merda é para
os esgotos,
e eu abro a porta de um minúsculo café
e uma garçonete vestindo azul-escuro
se aproxima como se o meu pedido fosse ela.
“3 pernas de faisão”, eu lhe digo,
“as costas de um frango e 2 garrafas de razoável vinho
francês.”
ela sai
contorcendo-se em seu azul
e todo o meu amor é dedicado a ela
mas não há jeito,
e fico sentado encarando as plantas
e falo às plantas, com minha mente:
não dá pra vocês me amarem?
não dá pra algo acontecer aqui?
precisam as calçadas ser sempre calçadas, precisam os generais
continuar rindo em seus sonhos,
precisa sempre continuar sendo
que nada é verdade?
eu olho à minha esquerda e vejo um homem enfiando o dedo no nariz;
ele esfrega o resíduo embaixo de uma
cadeira; é bem verdade, eu penso, eis a sua
verdade, e eis o seu amor:
ranho endurecendo embaixo de uma cadeira durante
noites quentes quando o inferno chega e simplesmente
cospe em cima de
você todo.
plantas, repito, vocês não podem?
e eu quebro parte de uma folha de alocásia
e o teto todo se racha e abre
o céu é uma escadaria para baixo,
a garçonete se aproxima e fala:
“isso é tudo, senhor?”
e eu falo “sim, obrigado, isso
basta”.
abro meu caminho em meio às pessoas não elétricas
buscando razões para minha morte e meu viver;
é um dia encantador para aqueles que gostam dos dias –
para aqueles que aguardam a noite
como eu, aí o dia é uma merda e a merda é para
os esgotos,
e eu abro a porta de um minúsculo café
e uma garçonete vestindo azul-escuro
se aproxima como se o meu pedido fosse ela.
“3 pernas de faisão”, eu lhe digo,
“as costas de um frango e 2 garrafas de razoável vinho
francês.”
ela sai
contorcendo-se em seu azul
e todo o meu amor é dedicado a ela
mas não há jeito,
e fico sentado encarando as plantas
e falo às plantas, com minha mente:
não dá pra vocês me amarem?
não dá pra algo acontecer aqui?
precisam as calçadas ser sempre calçadas, precisam os generais
continuar rindo em seus sonhos,
precisa sempre continuar sendo
que nada é verdade?
eu olho à minha esquerda e vejo um homem enfiando o dedo no nariz;
ele esfrega o resíduo embaixo de uma
cadeira; é bem verdade, eu penso, eis a sua
verdade, e eis o seu amor:
ranho endurecendo embaixo de uma cadeira durante
noites quentes quando o inferno chega e simplesmente
cospe em cima de
você todo.
plantas, repito, vocês não podem?
e eu quebro parte de uma folha de alocásia
e o teto todo se racha e abre
o céu é uma escadaria para baixo,
a garçonete se aproxima e fala:
“isso é tudo, senhor?”
e eu falo “sim, obrigado, isso
basta”.
972
Charles Bukowski
Um Bilhete de Aceitação
16 anos de idade
durante a Depressão
eu voltava pra casa bêbado
e todas as minhas roupas –
calções, camisas, meias,
maleta e páginas de
contos
estavam jogadas no
gramado da frente e pela
rua.
minha mãe me esperava
atrás de uma árvore:
“Henry, Henry, não
entre... ele vai
matar você, ele leu
as suas histórias...”
“eu posso arrebentar
o traseiro dele...”
“Henry, por favor pegue
isso... e
encontre um quarto pra você”.
mas o preocupava
que eu não conseguisse
terminar o ensino médio
então eu voltava pra casa
outra vez.
certa noite ele entrou
com as páginas de
um dos meus contos
(que eu nunca tinha lhe
mostrado)
e disse: “este é
um grande conto!”
e eu falei “o.k.”,
e ele o devolveu pra mim
e eu o li.
era uma história sobre
um homem rico
que brigara com
a esposa e tinha
saído pela noite
para tomar um café
e tinha notado
a garçonete e as colheres
e os garfos e os
saleiros e pimenteiros
e o letreiro de neon
na janela
e então tinha voltado
até seu estábulo
para ver e tocar seu
cavalo favorito
que então
lhe deu um coice na cabeça
e o matou.
de algum modo
a história fazia
sentido pra ele
se bem que
ao escrevê-la
nem me passara pela cabeça
sobre o que eu
estava escrevendo.
então eu lhe falei:
“o.k., velho, você pode
ficar com ele”.
e ele o pegou
e saiu
e fechou a porta.
acho que isso foi
o mais perto
que já chegamos.
durante a Depressão
eu voltava pra casa bêbado
e todas as minhas roupas –
calções, camisas, meias,
maleta e páginas de
contos
estavam jogadas no
gramado da frente e pela
rua.
minha mãe me esperava
atrás de uma árvore:
“Henry, Henry, não
entre... ele vai
matar você, ele leu
as suas histórias...”
“eu posso arrebentar
o traseiro dele...”
“Henry, por favor pegue
isso... e
encontre um quarto pra você”.
mas o preocupava
que eu não conseguisse
terminar o ensino médio
então eu voltava pra casa
outra vez.
certa noite ele entrou
com as páginas de
um dos meus contos
(que eu nunca tinha lhe
mostrado)
e disse: “este é
um grande conto!”
e eu falei “o.k.”,
e ele o devolveu pra mim
e eu o li.
era uma história sobre
um homem rico
que brigara com
a esposa e tinha
saído pela noite
para tomar um café
e tinha notado
a garçonete e as colheres
e os garfos e os
saleiros e pimenteiros
e o letreiro de neon
na janela
e então tinha voltado
até seu estábulo
para ver e tocar seu
cavalo favorito
que então
lhe deu um coice na cabeça
e o matou.
de algum modo
a história fazia
sentido pra ele
se bem que
ao escrevê-la
nem me passara pela cabeça
sobre o que eu
estava escrevendo.
então eu lhe falei:
“o.k., velho, você pode
ficar com ele”.
e ele o pegou
e saiu
e fechou a porta.
acho que isso foi
o mais perto
que já chegamos.
1 040
Charles Bukowski
O Primeiro Amor
certa vez
quanto eu tinha 14 anos
os criadores me trouxeram
meu único sentimento de
chance.
meu pai não gostava
de livros e
minha mãe não gostava
de livros (porque meu pai
não gostava de livros)
sobretudo aqueles que eu trazia
da biblioteca:
D.H. Lawrence
Dostoiévski
Turguêniev
Górki
A. Huxley
Sinclair Lewis
outros.
eu tinha meu próprio quarto
mas às 8 da noite
devíamos estar todos indo dormir:
“Cedo na cama e cedo desperto:
o homem fica saudável, rico e esperto”,
meu pai costumava dizer.
“LUZES DESLIGADAS!”, ele gritava.
então eu pegava o abajur de cabeceira
colocava embaixo das cobertas
e com o calor e a luz escondida
eu continuava lendo:
Ibsen
Shakespeare
Tchékhov
Jeffers
Thurber
Conrad Aiken
outros.
eles me trouxeram chance e esperança e
sentimento num lugar sem chance,
sem esperança, sem sentimento.
eu trabalhei duro.
ficava quente embaixo das cobertas.
às vezes o abajur começava a soltar fumaça
ou os lençóis – começavam a
pegar fogo;
aí eu desligava o abajur,
segurava fora da janela para
esfriar.
sem esses livros
não tenho bem certeza
no que teria dado a minha
vida:
desvario; o
assassinato do pai;
idiotismo; imbecilidade;
insípida desesperança.
quando meu pai gritava
“LUZES DESLIGADAS!”
tenho certeza de que ele temia
a palavra bem escrita
que aparecia com suavidade
e razoabilidade
em nossa melhor e
mais interessante
literatura.
e foi ali
perto de mim
embaixo das cobertas
mais mulher do que mulher
mais homem do que homem.
eu tinha tudo
e
não deixei escapar.
quanto eu tinha 14 anos
os criadores me trouxeram
meu único sentimento de
chance.
meu pai não gostava
de livros e
minha mãe não gostava
de livros (porque meu pai
não gostava de livros)
sobretudo aqueles que eu trazia
da biblioteca:
D.H. Lawrence
Dostoiévski
Turguêniev
Górki
A. Huxley
Sinclair Lewis
outros.
eu tinha meu próprio quarto
mas às 8 da noite
devíamos estar todos indo dormir:
“Cedo na cama e cedo desperto:
o homem fica saudável, rico e esperto”,
meu pai costumava dizer.
“LUZES DESLIGADAS!”, ele gritava.
então eu pegava o abajur de cabeceira
colocava embaixo das cobertas
e com o calor e a luz escondida
eu continuava lendo:
Ibsen
Shakespeare
Tchékhov
Jeffers
Thurber
Conrad Aiken
outros.
eles me trouxeram chance e esperança e
sentimento num lugar sem chance,
sem esperança, sem sentimento.
eu trabalhei duro.
ficava quente embaixo das cobertas.
às vezes o abajur começava a soltar fumaça
ou os lençóis – começavam a
pegar fogo;
aí eu desligava o abajur,
segurava fora da janela para
esfriar.
sem esses livros
não tenho bem certeza
no que teria dado a minha
vida:
desvario; o
assassinato do pai;
idiotismo; imbecilidade;
insípida desesperança.
quando meu pai gritava
“LUZES DESLIGADAS!”
tenho certeza de que ele temia
a palavra bem escrita
que aparecia com suavidade
e razoabilidade
em nossa melhor e
mais interessante
literatura.
e foi ali
perto de mim
embaixo das cobertas
mais mulher do que mulher
mais homem do que homem.
eu tinha tudo
e
não deixei escapar.
793
Charles Bukowski
Uma Festa Aqui – Metralhadoras, Tanques, Um Exército Lutando Contra Homens Nos Telhados
se o amor pudesse continuar como papel de piche
ou até mesmo na medida do significado
mas não funciona
não pode funcionar
há babacas demais
mulheres que escondem suas pernas demais
exceto em camas especiais
há moscas demais no
teto e tem sido um verão
quente
e os distúrbios em Los Angeles
terminaram faz uma semana
e queimaram prédios e mataram policiais e
homens brancos e
eu sou um homem branco e acho que não fiquei particularmente
alvoroçado porque sou um homem branco e sou pobre
e pago por ser pobre
porque faço tão poucas paradas de mão para os outros quanto
possível
e então sou pobre porque escolhi ser e acho que
não é tão desconfortável desse
jeito
e então ignorei os distúrbios
porque concluí que ambos negros e brancos
queriam várias coisas que não interessavam
a mim
além disso tendo uma mulher aqui que fica muito alvoroçada com
discriminação a Bomba segregação
você sabe você sabe
eu deixo ela ir falando até que por fim a conversa
me cansa
pois não ligo muito para a
resposta padrão
ou as confusas criaturas solitárias que gostam de se unir a uma
CAUSA simplesmente porque uma causa as arranca de sua
babosa
imbecilidade rumo a um fluxo de
ação. já eu gosto de tempo para pensar, pensar, pensar...
mas foi uma festa aqui, sério, metralhadoras, tanques,
o exército lutando contra homens nos telhados...
a mesma coisa que acusamos a Rússia de fazer. bem, é
um jogo escroto, e não sei o que fazer, exceto
se for como um amigo meu disse que eu disse certa noite quando
eu estava bêbado: “Nunca mate alguém, mesmo que pareça
ser a última ou a única coisa a fazer”.
riso. tudo bem. poderia deixar você feliz
que eu até tenha um fluxo de remorso quando mato uma
mosca. uma formiga. uma pulga. mas vou em frente. eu as mato e
vou em frente.
deus, o amor é mais estranho do que numerais mais estranho
do que
relva pegando fogo mais estranho do que o corpo morto de uma criança
afogada no fundo de uma banheira, sabemos tão
pouco, sabemos tanto, não sabemos
o bastante.
de qualquer forma, realizamos nossos movimentos, intestinais,
às vezes
sexuais, às vezes celestiais, às vezes espúrios, ou
às vezes percorremos um museu para ver o que
restou de nós ou disso, a triste paralisia estrangulada de fundo
de manicômio envidraçado e congelado e estéril
suficiente para fazer você querer sair para o sol de novo
e dar uma olhada, mas no parque e nas ruas
os mortos continuam passando como se já estivessem
num museu. talvez o amor seja sexo. talvez o amor seja uma tigela de
mingau. talvez o amor seja um rádio desligado.
de qualquer jeito, foi uma festa.
uma semana atrás.
hoje fui à pista com rosas nos meus olhos. dólares no
meu
bolso. manchetes no beco. são mais de cento e cinquenta quilômetros de
trem,
só de ida. um grupo de bêbados voltando, duros de novo, o
sonho
abatido de novo, corpos oscilando; tagarelando no vagão do bar e eu
estou ali
também, bebendo, rabiscando a esperança que resta na penumbra,
o
barman era um negro e eu era branco. maus lençóis. demos
um jeito.
nada de festa.
os jornais ricos ficam falando “A Revolução
Negra” e
“A Ruptura da Família Negra”. o trem entrou na cidade
afinal,
e eu me livrei dos 2 homossexuais que estavam me pagando
bebidas, e
fui mijar e fazer uma ligação e enquanto eu passava
pelo
acesso rumo à latrina masculina havia 2 negros numa
banca de engraxate
engraxando sapatos de homens brancos e os homens brancos lhes
permitiam fazê-lo.
caminhei até um bar mexicano
e tomei alguns uísques e quando saí a garçonete me deu um
papelzinho com seu nome, endereço e número de telefone
escritos, e quando cheguei na rua joguei o papel na sarjeta
entrei no meu carro e dirigi rumo à Zona Oeste de Los
Angeles
e tudo parecia igual igual como sempre foi
e na Alvarado com a Sunset eu reduzi pra 65
vi um policial gordo em sua moto
com uma cara hedionda e alerta
e fiquei enojado comigo mesmo e com
todo mundo, todo o pouco que qualquer um de nós
tinha feito, amor, amor, amor,
e as torres balançavam como velhas stripteasers
rezando pela mágica perdida, e eu segui dirigindo
engraxando os sapatos de todos os negros e gringos da
América, incluindo
os meus.
ou até mesmo na medida do significado
mas não funciona
não pode funcionar
há babacas demais
mulheres que escondem suas pernas demais
exceto em camas especiais
há moscas demais no
teto e tem sido um verão
quente
e os distúrbios em Los Angeles
terminaram faz uma semana
e queimaram prédios e mataram policiais e
homens brancos e
eu sou um homem branco e acho que não fiquei particularmente
alvoroçado porque sou um homem branco e sou pobre
e pago por ser pobre
porque faço tão poucas paradas de mão para os outros quanto
possível
e então sou pobre porque escolhi ser e acho que
não é tão desconfortável desse
jeito
e então ignorei os distúrbios
porque concluí que ambos negros e brancos
queriam várias coisas que não interessavam
a mim
além disso tendo uma mulher aqui que fica muito alvoroçada com
discriminação a Bomba segregação
você sabe você sabe
eu deixo ela ir falando até que por fim a conversa
me cansa
pois não ligo muito para a
resposta padrão
ou as confusas criaturas solitárias que gostam de se unir a uma
CAUSA simplesmente porque uma causa as arranca de sua
babosa
imbecilidade rumo a um fluxo de
ação. já eu gosto de tempo para pensar, pensar, pensar...
mas foi uma festa aqui, sério, metralhadoras, tanques,
o exército lutando contra homens nos telhados...
a mesma coisa que acusamos a Rússia de fazer. bem, é
um jogo escroto, e não sei o que fazer, exceto
se for como um amigo meu disse que eu disse certa noite quando
eu estava bêbado: “Nunca mate alguém, mesmo que pareça
ser a última ou a única coisa a fazer”.
riso. tudo bem. poderia deixar você feliz
que eu até tenha um fluxo de remorso quando mato uma
mosca. uma formiga. uma pulga. mas vou em frente. eu as mato e
vou em frente.
deus, o amor é mais estranho do que numerais mais estranho
do que
relva pegando fogo mais estranho do que o corpo morto de uma criança
afogada no fundo de uma banheira, sabemos tão
pouco, sabemos tanto, não sabemos
o bastante.
de qualquer forma, realizamos nossos movimentos, intestinais,
às vezes
sexuais, às vezes celestiais, às vezes espúrios, ou
às vezes percorremos um museu para ver o que
restou de nós ou disso, a triste paralisia estrangulada de fundo
de manicômio envidraçado e congelado e estéril
suficiente para fazer você querer sair para o sol de novo
e dar uma olhada, mas no parque e nas ruas
os mortos continuam passando como se já estivessem
num museu. talvez o amor seja sexo. talvez o amor seja uma tigela de
mingau. talvez o amor seja um rádio desligado.
de qualquer jeito, foi uma festa.
uma semana atrás.
hoje fui à pista com rosas nos meus olhos. dólares no
meu
bolso. manchetes no beco. são mais de cento e cinquenta quilômetros de
trem,
só de ida. um grupo de bêbados voltando, duros de novo, o
sonho
abatido de novo, corpos oscilando; tagarelando no vagão do bar e eu
estou ali
também, bebendo, rabiscando a esperança que resta na penumbra,
o
barman era um negro e eu era branco. maus lençóis. demos
um jeito.
nada de festa.
os jornais ricos ficam falando “A Revolução
Negra” e
“A Ruptura da Família Negra”. o trem entrou na cidade
afinal,
e eu me livrei dos 2 homossexuais que estavam me pagando
bebidas, e
fui mijar e fazer uma ligação e enquanto eu passava
pelo
acesso rumo à latrina masculina havia 2 negros numa
banca de engraxate
engraxando sapatos de homens brancos e os homens brancos lhes
permitiam fazê-lo.
caminhei até um bar mexicano
e tomei alguns uísques e quando saí a garçonete me deu um
papelzinho com seu nome, endereço e número de telefone
escritos, e quando cheguei na rua joguei o papel na sarjeta
entrei no meu carro e dirigi rumo à Zona Oeste de Los
Angeles
e tudo parecia igual igual como sempre foi
e na Alvarado com a Sunset eu reduzi pra 65
vi um policial gordo em sua moto
com uma cara hedionda e alerta
e fiquei enojado comigo mesmo e com
todo mundo, todo o pouco que qualquer um de nós
tinha feito, amor, amor, amor,
e as torres balançavam como velhas stripteasers
rezando pela mágica perdida, e eu segui dirigindo
engraxando os sapatos de todos os negros e gringos da
América, incluindo
os meus.
697
Charles Bukowski
O Banho
nós gostamos de tomar banho depois
(gosto da água mais quente do que ela)
e o rosto dela é sempre macio e calmo
e ela me lava primeiro
espalha espuma pelo meu saco
levanta o saco
aperta os colhões,
então lava o pau:
“ei, essa coisa ainda está dura!”
então pega os pelos todos ali embaixo –
a barriga, as costas, o pescoço, as pernas,
eu abro sorriso sorriso sorriso,
e então a lavo...
primeiro a xota, eu
fico atrás dela, meu pau em suas nádegas
vou ensaboando suavemente os pelos da xota,
lavo ali com um movimento relaxante,
me demoro talvez mais do que o necessário,
então pego a parte de trás das pernas, a bunda,
as costas, o pescoço, eu a viro, eu a beijo,
ensaboo os peitos, pego eles e a barriga, o pescoço,
a frente das pernas, os tornozelos, os pés,
e então a xota, mais uma vez, pra dar sorte...
outro beijo, e ela sai primeiro,
atoalhada, às vezes cantando enquanto eu permaneço
ligando a água no mais quente
sentindo os bons momentos do milagre do amor
e então saio...
geralmente é a calmaria do meio da tarde,
e nos vestindo nós conversamos sobre o que mais
pode haver para fazer,
mas estarmos juntos resolve a maior parte,
na verdade, resolve tudo
pois enquanto essas coisas permanecerem resolvidas
na história da mulher e do
homem, é diferente para cada um
melhor e pior para cada um –
para mim, já é bastante esplêndido recordar
a passagem dos exércitos em marcha
e os cavalos que percorrem as ruas lá fora
a passagem das memórias de dor e derrota e infelicidade:
Linda, você o trouxe para mim,
quando levá-lo embora
faça-o devagar e sem esforço
faça-o como se eu estivesse morrendo no meu sono em vez de na
minha vida, amém.
(gosto da água mais quente do que ela)
e o rosto dela é sempre macio e calmo
e ela me lava primeiro
espalha espuma pelo meu saco
levanta o saco
aperta os colhões,
então lava o pau:
“ei, essa coisa ainda está dura!”
então pega os pelos todos ali embaixo –
a barriga, as costas, o pescoço, as pernas,
eu abro sorriso sorriso sorriso,
e então a lavo...
primeiro a xota, eu
fico atrás dela, meu pau em suas nádegas
vou ensaboando suavemente os pelos da xota,
lavo ali com um movimento relaxante,
me demoro talvez mais do que o necessário,
então pego a parte de trás das pernas, a bunda,
as costas, o pescoço, eu a viro, eu a beijo,
ensaboo os peitos, pego eles e a barriga, o pescoço,
a frente das pernas, os tornozelos, os pés,
e então a xota, mais uma vez, pra dar sorte...
outro beijo, e ela sai primeiro,
atoalhada, às vezes cantando enquanto eu permaneço
ligando a água no mais quente
sentindo os bons momentos do milagre do amor
e então saio...
geralmente é a calmaria do meio da tarde,
e nos vestindo nós conversamos sobre o que mais
pode haver para fazer,
mas estarmos juntos resolve a maior parte,
na verdade, resolve tudo
pois enquanto essas coisas permanecerem resolvidas
na história da mulher e do
homem, é diferente para cada um
melhor e pior para cada um –
para mim, já é bastante esplêndido recordar
a passagem dos exércitos em marcha
e os cavalos que percorrem as ruas lá fora
a passagem das memórias de dor e derrota e infelicidade:
Linda, você o trouxe para mim,
quando levá-lo embora
faça-o devagar e sem esforço
faça-o como se eu estivesse morrendo no meu sono em vez de na
minha vida, amém.
1 680
Charles Bukowski
Um Para o Engraxate
o equilíbrio está nas lesmas escalando as
falésias de Santa Monica;
a sorte está em descer a Western Avenue
e acontecer que uma das garotas de uma casa
de massagem grite pra você “Alô, Doçura!”
o milagre está em ter cinco mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos de idade,
e o bom de tudo é que você só é capaz
de amar uma delas.
o dom está em ter uma filha mais delicada
do que você é, cuja risada é mais bela
do que a sua.
a placidez está em ser capaz de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado no Apresentador que Mais Ama
Você, sentindo o sol, sentindo o sólido ronco
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego
e deixa os mortos putos da cara.
a graça está em ser capaz de gostar de rock,
música sinfônica, jazz...
tudo que contenha o júbilo da energia
original.
e a matemática que retorna
é o profundo baixo-astral sob
você estendido sobre você
entre as paredes de guilhotina –
furioso com o som do telefone
ou com os passos de qualquer um passando;
e a outra matemática:
a iminente animação que se segue
fazendo com que os caras sentados nos bancos
junto aos carrinhos de taco
pareçam gurus
fazendo com que a garota do caixa no
supermercado pareça
Marilyn
ou Zsa Zsa
ou Jackie antes de pegarem seu amante de Harvard
ou a garota do ensino médio que
todos nós garotos seguíamos até em casa.
e a pureza que ajuda você a crer
em algo além da morte
é Sandy Hawley montando
cinco vencedores no Hollywood Park, cavalos fora de forma,
nenhum deles favorito,
ou alguém num carro que se aproxima de você
numa rua estreita demais,
e ele ou ela desvia de lado pra deixar você
passar, ou o velho lutador Beau Jack
engraxando sapatos
após ter torrado seu pé-de-meia todo
com festas
com mulheres
com parasitas,
cantarolando, soprando no couro,
mandando ver com o trapo,
olhando pra cima e dizendo:
“Que diabo, por um momento
eu tive tudo. uma coisa ganha da
outra”.
por vezes me mostro muito amargo
mas o gosto tem sido com frequência
doce, é só que tive
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz
“fala que me ama”
e você não consegue dizer.
se você chegar a me ver sorrindo em
meu Fusca azul
cruzando um sinal amarelo
dirigindo direto rumo ao sol
sem óculos escuros
estarei apenas trancado na
tarde de uma
vida louca
pensando em trapezistas de circo
em anões com charutos enormes
num inverno russo no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polonesa
ou numa velha garçonete me trazendo uma xícara
extra de café e parecendo rir de mim
enquanto me serve.
do melhor de você
eu gosto mais do que você imagina.
os outros não contam
exceto que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos bons e ruins
e um caminho para seguir.
o equilíbrio está em toda parte e está funcionando
e as metralhadoras e as rãs
e as sebes podem lhe contar
isso.
falésias de Santa Monica;
a sorte está em descer a Western Avenue
e acontecer que uma das garotas de uma casa
de massagem grite pra você “Alô, Doçura!”
o milagre está em ter cinco mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos de idade,
e o bom de tudo é que você só é capaz
de amar uma delas.
o dom está em ter uma filha mais delicada
do que você é, cuja risada é mais bela
do que a sua.
a placidez está em ser capaz de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado no Apresentador que Mais Ama
Você, sentindo o sol, sentindo o sólido ronco
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego
e deixa os mortos putos da cara.
a graça está em ser capaz de gostar de rock,
música sinfônica, jazz...
tudo que contenha o júbilo da energia
original.
e a matemática que retorna
é o profundo baixo-astral sob
você estendido sobre você
entre as paredes de guilhotina –
furioso com o som do telefone
ou com os passos de qualquer um passando;
e a outra matemática:
a iminente animação que se segue
fazendo com que os caras sentados nos bancos
junto aos carrinhos de taco
pareçam gurus
fazendo com que a garota do caixa no
supermercado pareça
Marilyn
ou Zsa Zsa
ou Jackie antes de pegarem seu amante de Harvard
ou a garota do ensino médio que
todos nós garotos seguíamos até em casa.
e a pureza que ajuda você a crer
em algo além da morte
é Sandy Hawley montando
cinco vencedores no Hollywood Park, cavalos fora de forma,
nenhum deles favorito,
ou alguém num carro que se aproxima de você
numa rua estreita demais,
e ele ou ela desvia de lado pra deixar você
passar, ou o velho lutador Beau Jack
engraxando sapatos
após ter torrado seu pé-de-meia todo
com festas
com mulheres
com parasitas,
cantarolando, soprando no couro,
mandando ver com o trapo,
olhando pra cima e dizendo:
“Que diabo, por um momento
eu tive tudo. uma coisa ganha da
outra”.
por vezes me mostro muito amargo
mas o gosto tem sido com frequência
doce, é só que tive
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz
“fala que me ama”
e você não consegue dizer.
se você chegar a me ver sorrindo em
meu Fusca azul
cruzando um sinal amarelo
dirigindo direto rumo ao sol
sem óculos escuros
estarei apenas trancado na
tarde de uma
vida louca
pensando em trapezistas de circo
em anões com charutos enormes
num inverno russo no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polonesa
ou numa velha garçonete me trazendo uma xícara
extra de café e parecendo rir de mim
enquanto me serve.
do melhor de você
eu gosto mais do que você imagina.
os outros não contam
exceto que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos bons e ruins
e um caminho para seguir.
o equilíbrio está em toda parte e está funcionando
e as metralhadoras e as rãs
e as sebes podem lhe contar
isso.
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