Poemas neste tema
Alma
Frei Agostinho da Cruz
§ Perdi-me dentro em mim
Perdi-me dentro em mim, como em deserto,
Minha alma está metida em labirinto,
Contino contradigo o que consinto,
Cem mil discursos faço, em nada acerto.
Vejo seguro o dano, o bem incerto;
Comigo porfiando me desminto,
O que mais atormenta, menos sinto,
O que me foge, quando está mais certo.
E se as asas levanta o pensamento
Àquela parte, onde está escondida
A causa deste vario movimento,
Transforma-se por não ser conhecida,
Porque quer a pesar do sofrimento
Pôr as armas da morte em mão da vida.
Minha alma está metida em labirinto,
Contino contradigo o que consinto,
Cem mil discursos faço, em nada acerto.
Vejo seguro o dano, o bem incerto;
Comigo porfiando me desminto,
O que mais atormenta, menos sinto,
O que me foge, quando está mais certo.
E se as asas levanta o pensamento
Àquela parte, onde está escondida
A causa deste vario movimento,
Transforma-se por não ser conhecida,
Porque quer a pesar do sofrimento
Pôr as armas da morte em mão da vida.
710
Frei Agostinho da Cruz
LXI Ipse dixit et facta sunt
Se bastou só dizer para ser feito,
E mandar para ser tudo criado,
O que tambem a mim me está mandado,
Como não tem em mim o mesmo efeito?
E que seja maior este preceito
De ser Deos sobre tudo mais amado,
E que em mim só não seja efeituado,
Que tal deve de ser o meu defeito!
Dous extremos daqui fico notando,
Que confundem o meu entendimento
As causas dos efeitos discursando.
Não vejo quanto pode o mandamento
Noutro quão pouco em mim só fica obrando,
E de ambos falta em si o sentimento.
E mandar para ser tudo criado,
O que tambem a mim me está mandado,
Como não tem em mim o mesmo efeito?
E que seja maior este preceito
De ser Deos sobre tudo mais amado,
E que em mim só não seja efeituado,
Que tal deve de ser o meu defeito!
Dous extremos daqui fico notando,
Que confundem o meu entendimento
As causas dos efeitos discursando.
Não vejo quanto pode o mandamento
Noutro quão pouco em mim só fica obrando,
E de ambos falta em si o sentimento.
671
Charles Bukowski
Uma Sede Imensa
tenho me tratado com anticorpos por quase 6 meses, baby, para curar um
caso de tuberculose, cara, sobrou para um velho como eu pegar
uma doença tão
antiquada, pegar uma do tamanho de uma bola de basquete ou como uma
sucuri
engolindo um macaco gibão; então agora estou me tratando com
anticorpos e me disseram para não beber
ou fumar por 6 meses, e falam sobre morder ferro com seus
dentes, eu tenho bebido e fumado pesadamente e firmemente com os
melhores
e os piores deles por mais de 50 anos, é,
e a parte mais difícil, parceiro, é eu conhecer gente demais que
bebe e fuma e eles continuam a beber e fumar direto na minha frente
como se
eu não estivesse me segurando para não quebrar seus crânios e rolá-los
pelo assoalho
ou só afugentá-los para bem longe da minha vista - uma vista que
anseia muito por qualquer coisa mesmo microscopicamente viciante.
a parte difícil seguinte disso é ficar sentado à máquina de escrever sem
aquilo,
quero dizer, isso foi meu show, minha dança, minha distração, minha
raison dºêtre, é isso, misturando fumaça e bebida com bater à máquina e
você pode
apostar que é onde a sorte chove dia e noite e o restante do tempo, e
você ouve a frase "cortar é um bode" mas eu não acho que seja
forte o bastante, deveria ser "fazer picadinho é um bode" ou "enterrando
o bode
ainda quente", enfim não tem sido fácil, não não não não não não não
não não não,
e quando eu olho para uma garrafa de cerveja
parece sol engarrafado, uma tragada de cigarro é como o sopro da vida
e uma garrafa de vinho tinto parece o sangue da própria vida.
para mim, é difícil pensar no futuro ou preocupar-me com isso: o
presente
imediato parece tão esmagador e agora eu simpatizo com todos aqueles
que fracassam
em dominar sua bebida e seu cigarro
pois estes últimos 6 meses têm sido os 6 meses mais longos da minha
vida!
desculpe aborrecê-lo com tudo isso, mas não é por isso que você está
aqui?
caso de tuberculose, cara, sobrou para um velho como eu pegar
uma doença tão
antiquada, pegar uma do tamanho de uma bola de basquete ou como uma
sucuri
engolindo um macaco gibão; então agora estou me tratando com
anticorpos e me disseram para não beber
ou fumar por 6 meses, e falam sobre morder ferro com seus
dentes, eu tenho bebido e fumado pesadamente e firmemente com os
melhores
e os piores deles por mais de 50 anos, é,
e a parte mais difícil, parceiro, é eu conhecer gente demais que
bebe e fuma e eles continuam a beber e fumar direto na minha frente
como se
eu não estivesse me segurando para não quebrar seus crânios e rolá-los
pelo assoalho
ou só afugentá-los para bem longe da minha vista - uma vista que
anseia muito por qualquer coisa mesmo microscopicamente viciante.
a parte difícil seguinte disso é ficar sentado à máquina de escrever sem
aquilo,
quero dizer, isso foi meu show, minha dança, minha distração, minha
raison dºêtre, é isso, misturando fumaça e bebida com bater à máquina e
você pode
apostar que é onde a sorte chove dia e noite e o restante do tempo, e
você ouve a frase "cortar é um bode" mas eu não acho que seja
forte o bastante, deveria ser "fazer picadinho é um bode" ou "enterrando
o bode
ainda quente", enfim não tem sido fácil, não não não não não não não
não não não,
e quando eu olho para uma garrafa de cerveja
parece sol engarrafado, uma tragada de cigarro é como o sopro da vida
e uma garrafa de vinho tinto parece o sangue da própria vida.
para mim, é difícil pensar no futuro ou preocupar-me com isso: o
presente
imediato parece tão esmagador e agora eu simpatizo com todos aqueles
que fracassam
em dominar sua bebida e seu cigarro
pois estes últimos 6 meses têm sido os 6 meses mais longos da minha
vida!
desculpe aborrecê-lo com tudo isso, mas não é por isso que você está
aqui?
649
Salgado Maranhão
VULTO 1
Sozinho com os vampiros
e a madrugada,
ainda guardo
estas flores de pedra
(a noite é voraz,
mas a casa está fresca
para os colibris).
Rompendo as esquinas
e a largura das horas,
sou pouco mais
que um vulto
entre os bichos.
A cidade é um ganido
em meus ossos; a cidade
que me vende em retalhos. A mim
com meus desdobrados voos.
O tempo que me resgata
é surdo e não dói na carne.
O que dói é a vontade
aprendendo a sonhar.
e a madrugada,
ainda guardo
estas flores de pedra
(a noite é voraz,
mas a casa está fresca
para os colibris).
Rompendo as esquinas
e a largura das horas,
sou pouco mais
que um vulto
entre os bichos.
A cidade é um ganido
em meus ossos; a cidade
que me vende em retalhos. A mim
com meus desdobrados voos.
O tempo que me resgata
é surdo e não dói na carne.
O que dói é a vontade
aprendendo a sonhar.
748
Salgado Maranhão
NOZ
As distâncias que se deitam
sob os meus pés,espicharam-me
os olhos ao leito das almas
tristes.
Essas tristes léguas
que se me espalham
às metrópoles rasuradas.
Eu que sou do barro
dos oleiros, do sol
que acorda os mirantes;
eu que sou da várzea —
irmão dos rios descalços
e das pedras mudas;
não tenho para quem
chorar esta litania
de espectros,
estes grafites de sangue.
Não é a sucursal da dor
que nos acende o sol
e a sede de ágora,
é o esplendor do ínfimo.
Ainda que agarremos o real
pelo pântano, pelos
baixios que nos afoga
à superfície,
Ainda assim,
quebra-se a noz desse jogo.
E o que não serve ao pasto,
serve ao fogo.
sob os meus pés,espicharam-me
os olhos ao leito das almas
tristes.
Essas tristes léguas
que se me espalham
às metrópoles rasuradas.
Eu que sou do barro
dos oleiros, do sol
que acorda os mirantes;
eu que sou da várzea —
irmão dos rios descalços
e das pedras mudas;
não tenho para quem
chorar esta litania
de espectros,
estes grafites de sangue.
Não é a sucursal da dor
que nos acende o sol
e a sede de ágora,
é o esplendor do ínfimo.
Ainda que agarremos o real
pelo pântano, pelos
baixios que nos afoga
à superfície,
Ainda assim,
quebra-se a noz desse jogo.
E o que não serve ao pasto,
serve ao fogo.
736
José Paulo Paes
Canção do adolescente
Se mais bem olhardes
notareis que as rugas
umas são postiças
outras literárias.
Notareis ainda
o que mais escondo:
a descontinuidade
do meu corpo híbrido.
Quando corto a rua
para me ocultar
as mulheres riem
(sempre tão agudas!)
do meu corpo.
Que força macabra
misturou pedaços
de criança e homem
para me criar?
Se quereis salvar-me
desta anatomia,
batizai-me depressa
com as inefáveis
as assustadoras
águas do mundo.
notareis que as rugas
umas são postiças
outras literárias.
Notareis ainda
o que mais escondo:
a descontinuidade
do meu corpo híbrido.
Quando corto a rua
para me ocultar
as mulheres riem
(sempre tão agudas!)
do meu corpo.
Que força macabra
misturou pedaços
de criança e homem
para me criar?
Se quereis salvar-me
desta anatomia,
batizai-me depressa
com as inefáveis
as assustadoras
águas do mundo.
1 744
Frei Agostinho da Cruz
LIII Ó montes altos
Ó montes altos, vales abatidos,
Verdes ribeiras de correntes rios,
Ora por baixo de bosques sombrios,
Ora por largos campos estendidos;
Onde mais claro vejo repetidos
Meus mal considerados desvarios
De pensamentos vãos, baixos e frios,
Emendados tão mal, quão mal sentidos.
Passei a mocidade sem proveito,
Antes contra meu Deos acrescentando
Culpas a quantas culpas tenho feito;
Cuja pena a velhice está pejando
Para passar da morte o passo estreito,
Se não se no seu sangue for nadando.
Verdes ribeiras de correntes rios,
Ora por baixo de bosques sombrios,
Ora por largos campos estendidos;
Onde mais claro vejo repetidos
Meus mal considerados desvarios
De pensamentos vãos, baixos e frios,
Emendados tão mal, quão mal sentidos.
Passei a mocidade sem proveito,
Antes contra meu Deos acrescentando
Culpas a quantas culpas tenho feito;
Cuja pena a velhice está pejando
Para passar da morte o passo estreito,
Se não se no seu sangue for nadando.
625
Frei Agostinho da Cruz
XLV Finis eiusque mali principium est futuri
Do fim de qualquer mal, que me persegue,
O principio de outro se me apega,
Porque quando um de mim se desapega,
Outro no mesmo instante se me apegue.
Assi do que se acaba outro se segue,
E àquele, que por vir está, me entrega,
E inda este não se vai, já outro chega,
Sem que para acabar-me nenhum chegue.
E pois, quando um acaba, outro começa,
De um só (se d’ambos não) fico forçado
A que de novo sempre me entristeça.
Já que tão mal me tenho aproveitado,
Que não faltando males, que padeça,
Na minha paciencia haja faltado.
O principio de outro se me apega,
Porque quando um de mim se desapega,
Outro no mesmo instante se me apegue.
Assi do que se acaba outro se segue,
E àquele, que por vir está, me entrega,
E inda este não se vai, já outro chega,
Sem que para acabar-me nenhum chegue.
E pois, quando um acaba, outro começa,
De um só (se d’ambos não) fico forçado
A que de novo sempre me entristeça.
Já que tão mal me tenho aproveitado,
Que não faltando males, que padeça,
Na minha paciencia haja faltado.
660
Nuno Fernandes Torneol
Vi eu, minha mãe
Vi eu, minha mãe, andar
as barcas no mar,
e morro d’amor!
Fui eu, mãe, ver
as barcas nas ondas,
e morro d’amor!
As barcas no mar,
e fui-as aguardar,
e morro d’amor!
As barcas nas ondas,
e fui-as esperar,
e morro d’amor!
E fui-as aguardar,
e não o pude achar,
e morro d’amor!
E fui-as esperar,
e non o pude aí ver,
e morro d’amor!
E non o achei aí,
o que por meu mal vi,
e morro d’amor!
E non o achei lá
o que vi por meu mal,
e morro d’amor!
Português antigo
Vy eu, mha madr’, andar
as barcas eno mar,
e moyro-me d’amor!
Foy eu, madre, veer
as barcas eno ler,
e moyro-me d’amor!
As barcas eno mar,
e foi-las aguardar,
e moyro-me d’amor!
As barcas eno ler,
e foi-las atender,
e moyro-me d’amor!
E foi-las aguardar,
e non o pud’achar,
e moyro-me d’amor!
E foi-las atender,
e non o pudi ueer,
e moyro-me d’amor!
E non o achey hy,
o que por meu mal ui,
e moyro-me d’amor!
E non o achey lá
o que ui por meu mal,
e moyro-me d’amor!
as barcas no mar,
e morro d’amor!
Fui eu, mãe, ver
as barcas nas ondas,
e morro d’amor!
As barcas no mar,
e fui-as aguardar,
e morro d’amor!
As barcas nas ondas,
e fui-as esperar,
e morro d’amor!
E fui-as aguardar,
e não o pude achar,
e morro d’amor!
E fui-as esperar,
e non o pude aí ver,
e morro d’amor!
E non o achei aí,
o que por meu mal vi,
e morro d’amor!
E non o achei lá
o que vi por meu mal,
e morro d’amor!
Português antigo
Vy eu, mha madr’, andar
as barcas eno mar,
e moyro-me d’amor!
Foy eu, madre, veer
as barcas eno ler,
e moyro-me d’amor!
As barcas eno mar,
e foi-las aguardar,
e moyro-me d’amor!
As barcas eno ler,
e foi-las atender,
e moyro-me d’amor!
E foi-las aguardar,
e non o pud’achar,
e moyro-me d’amor!
E foi-las atender,
e non o pudi ueer,
e moyro-me d’amor!
E non o achey hy,
o que por meu mal ui,
e moyro-me d’amor!
E non o achey lá
o que ui por meu mal,
e moyro-me d’amor!
730
Charles Bukowski
Especial De 1990
gasto pelos anos
cansado até a medula.
dançando na escuridão com a
escuridão,
o Garoto Suicida ficou
grisalho.
ah, os velozes verões
idos e partidos
para sempre!
estará a morte
me espreitando
agora?
não, é apenas meu gato,
desta
vez.
cansado até a medula.
dançando na escuridão com a
escuridão,
o Garoto Suicida ficou
grisalho.
ah, os velozes verões
idos e partidos
para sempre!
estará a morte
me espreitando
agora?
não, é apenas meu gato,
desta
vez.
1 144
Salgado Maranhão
Do Raio
Nem o acre sabor das uvas
nos aplaca. Nem a chuva
nos olhos incendidos
devolve o que é vivido.
O magma que nos evapora
tange o rascunho das horas
sob um raio de suspense.
Nem o que é nosso nos pertence.
nos aplaca. Nem a chuva
nos olhos incendidos
devolve o que é vivido.
O magma que nos evapora
tange o rascunho das horas
sob um raio de suspense.
Nem o que é nosso nos pertence.
798
Salgado Maranhão
ALQUIMIA
Para T.T.
Minha África está repleta
em mim. E é dela que acordas
minhas transparências; e é
dela que alago as tuas vinhas
e os teus mistérios.
Tuas minhas Áfricas são meu refúgio
desesperado; donde serei
teu posseiro de reentrâncias; teu
imperador de afetos.
E é assim que quebrarei
tuas ânforas de mel
para doar teu necta ao vento,
como quem parte um cristal
para torná-lo em ouro.
Minha África está repleta
em mim. E é dela que acordas
minhas transparências; e é
dela que alago as tuas vinhas
e os teus mistérios.
Tuas minhas Áfricas são meu refúgio
desesperado; donde serei
teu posseiro de reentrâncias; teu
imperador de afetos.
E é assim que quebrarei
tuas ânforas de mel
para doar teu necta ao vento,
como quem parte um cristal
para torná-lo em ouro.
837
Frei Agostinho da Cruz
LI À morte
Os correos da morte são chegados,
Por caminhos antigos, impedidos,
Mal com meus olhos, mal com meus ouvidos,
Mal com meus pés, do chão mal levantados.
E mal, por não chorar bem meus pecados,
Que sendo sete, e cinco, meus sentidos,
Por serem tantas vezes repetidos,
Impossivel será serem contados.
Se não viera a morte acompanhada
Da conta, que dar devo tão estreita,
Não fora tão penosa imaginada.
Mas a que vivo ou morto tenho feita,
Tenho com meu Senhor na cruz pregada,
Onde o ladrão contrito não se enjeita.
Por caminhos antigos, impedidos,
Mal com meus olhos, mal com meus ouvidos,
Mal com meus pés, do chão mal levantados.
E mal, por não chorar bem meus pecados,
Que sendo sete, e cinco, meus sentidos,
Por serem tantas vezes repetidos,
Impossivel será serem contados.
Se não viera a morte acompanhada
Da conta, que dar devo tão estreita,
Não fora tão penosa imaginada.
Mas a que vivo ou morto tenho feita,
Tenho com meu Senhor na cruz pregada,
Onde o ladrão contrito não se enjeita.
769
Charles Bukowski
Sol Se Pondo
ninguém está triste por eu ir embora,
nem mesmo eu;
mas deveria haver um menestrel
ou ao menos um copo de vinho.
isso incomoda mais aos jovens, acho:
uma morte lenta sem violência.
ainda assim isso faz com que qualquer homem sonhe;
você gostaria de um velho veleiro,
a vela branca incrustada de sal
e o mar embalando sugestões de imortalidade.
mar no nariz
mar no cabelo
mar na medula, nos olhos
e sim, no peito.
sentiremos falta
do amor de uma mulher ou música ou comida
ou o corcovear do grande cavalo louco e
musculoso,
pisoteando torrões de terra e destinos
para o alto e para bem longe
em um só momento de sol poente?
mas agora é a minha vez
e não há majestade nisso
pois não houve majestade
antes disso
e cada um de nós, como vermes mordidos
nas maçãs,
não merece moratória.
a morte penetra em minha boca
e rasteja ao longo dos meus dentes
e me pergunto se estou com medo deste
morrer sem voz e sem lamentos que é
igual ao murchar de uma rosa?
nem mesmo eu;
mas deveria haver um menestrel
ou ao menos um copo de vinho.
isso incomoda mais aos jovens, acho:
uma morte lenta sem violência.
ainda assim isso faz com que qualquer homem sonhe;
você gostaria de um velho veleiro,
a vela branca incrustada de sal
e o mar embalando sugestões de imortalidade.
mar no nariz
mar no cabelo
mar na medula, nos olhos
e sim, no peito.
sentiremos falta
do amor de uma mulher ou música ou comida
ou o corcovear do grande cavalo louco e
musculoso,
pisoteando torrões de terra e destinos
para o alto e para bem longe
em um só momento de sol poente?
mas agora é a minha vez
e não há majestade nisso
pois não houve majestade
antes disso
e cada um de nós, como vermes mordidos
nas maçãs,
não merece moratória.
a morte penetra em minha boca
e rasteja ao longo dos meus dentes
e me pergunto se estou com medo deste
morrer sem voz e sem lamentos que é
igual ao murchar de uma rosa?
1 234
Charles Bukowski
Um Resíduo
parado no meio do voo,
maldosamente retalhado,
sonhando com
dactilozoides.
recusado,
preparado para parar
no Zero,
apagado,
retalhado,
desmobilizado
onde está o riso
comum?
a simples alegria?
aonde
foram?
que truque
enganador,
esse.
até os céus
rosnam.
que rancor,
que
amargor...
o grito
abafado
do coração,
agora
lembrando
tempos
melhores
selvagens e
maravilhosos.
agora o triste
soturno
presente
se abre.
maldosamente retalhado,
sonhando com
dactilozoides.
recusado,
preparado para parar
no Zero,
apagado,
retalhado,
desmobilizado
onde está o riso
comum?
a simples alegria?
aonde
foram?
que truque
enganador,
esse.
até os céus
rosnam.
que rancor,
que
amargor...
o grito
abafado
do coração,
agora
lembrando
tempos
melhores
selvagens e
maravilhosos.
agora o triste
soturno
presente
se abre.
644
Charles Bukowski
Passagem
e seus navios queimaram, galeões, galeras, veleiros,
e eles naufragavam enquanto as nuvens baixavam
como reis em seus tronos e os pegaram:
servos, escravos, leões, sábios, loucos, mercadores,
matadores; depois as algas, betume, alabastro, conchas
se apresentaram, e depois vieram as sombras,
escuras como muralhas sob um sol poente: e belicoso e
maldoso o mar pisoteou os navios que naufragavam e as
ramagens embalaram os crânios em exame, as
algas marinhas ergueram os crânios e você os via
lá, tão estranhos e livres e soltos: todos os
amantes solitários mortos.
e eles naufragavam enquanto as nuvens baixavam
como reis em seus tronos e os pegaram:
servos, escravos, leões, sábios, loucos, mercadores,
matadores; depois as algas, betume, alabastro, conchas
se apresentaram, e depois vieram as sombras,
escuras como muralhas sob um sol poente: e belicoso e
maldoso o mar pisoteou os navios que naufragavam e as
ramagens embalaram os crânios em exame, as
algas marinhas ergueram os crânios e você os via
lá, tão estranhos e livres e soltos: todos os
amantes solitários mortos.
1 076
Charles Bukowski
Uma Noite Mais Escura Em Abril
cada homem finalmente preso e arrebentado
cada túmulo pronto
cada falcão morto
e o amor e a sorte também.
os poemas acabaram
a garganta está seca.
suponho que não haja funeral para isso
e nada de lágrimas
e nenhuma razão.
a dor é o senhor
a dor é silêncio.
as gargantas dos meus poemas
estão secas.
cada túmulo pronto
cada falcão morto
e o amor e a sorte também.
os poemas acabaram
a garganta está seca.
suponho que não haja funeral para isso
e nada de lágrimas
e nenhuma razão.
a dor é o senhor
a dor é silêncio.
as gargantas dos meus poemas
estão secas.
1 161
Salgado Maranhão
Do Arbítrio
Das estrias que a mão
esculpe
só o que brilha
sobrevive.
Nômade a manhã
despe o sol
à flor
da carne,
múltipla,
à vertigem da linguagem.
Não há comportas
nem caminhos
não há saaras
nem vienas
em tudo há rinhas
e arestas
de flores
e esquifes.
Em tudo entalha-se
ao revés
coisas que se mostram
e não se dão,
que só no verso vêem-se,
no peeling pelo avesso.
(Delitos que em seu exílio
transbordam de rubro
a lira,
resenham através do júbilo,
rasuram através da ira.)
Sopra revanche de ritmos
no íntimo viés do não dito,
sopra o arbítrio dos dias.
esculpe
só o que brilha
sobrevive.
Nômade a manhã
despe o sol
à flor
da carne,
múltipla,
à vertigem da linguagem.
Não há comportas
nem caminhos
não há saaras
nem vienas
em tudo há rinhas
e arestas
de flores
e esquifes.
Em tudo entalha-se
ao revés
coisas que se mostram
e não se dão,
que só no verso vêem-se,
no peeling pelo avesso.
(Delitos que em seu exílio
transbordam de rubro
a lira,
resenham através do júbilo,
rasuram através da ira.)
Sopra revanche de ritmos
no íntimo viés do não dito,
sopra o arbítrio dos dias.
777
Charles Bukowski
Minha Própria Triste História
este é um modo terrível de viver:
cercado pelos
sempre-
irados,
desalmados e
alucinados.
mas minhas experiências de juventude foram
muito parecidas.
eu deveria ter-me ajustado a isso
nessa altura.
desde meu raivoso e furioso
e mesquinho pai
até
o montão de mulheres
que veio depois
todas elas consumidas pela
depressão,
raiva inútil,
gritaria e
piedade de si
sem
sentido.
felicidade e simples alegria
pareciam a todas elas serem
apenas doenças a
erradicar.
minha própria
história:
este modo terrível de
viver.
mas sinto que agora agarrei
a vitória
sobre toda essa inútil
negra e furiosa
histeria.
sobrevivi a tudo
isso e
podem me dar porradas com suas
vidas raivosas e
me queimar em meu
leito de morte.
mas de algum modo
encontrei uma paz
perpétua
que nunca conseguirão
tirar
de mim.
cercado pelos
sempre-
irados,
desalmados e
alucinados.
mas minhas experiências de juventude foram
muito parecidas.
eu deveria ter-me ajustado a isso
nessa altura.
desde meu raivoso e furioso
e mesquinho pai
até
o montão de mulheres
que veio depois
todas elas consumidas pela
depressão,
raiva inútil,
gritaria e
piedade de si
sem
sentido.
felicidade e simples alegria
pareciam a todas elas serem
apenas doenças a
erradicar.
minha própria
história:
este modo terrível de
viver.
mas sinto que agora agarrei
a vitória
sobre toda essa inútil
negra e furiosa
histeria.
sobrevivi a tudo
isso e
podem me dar porradas com suas
vidas raivosas e
me queimar em meu
leito de morte.
mas de algum modo
encontrei uma paz
perpétua
que nunca conseguirão
tirar
de mim.
715
Frei Agostinho da Cruz
II Os versos, que cantei importunado
Os versos, que cantei importunado
Da mocidade cega a quem seguia,
Queimei (como vergonha me pedia)
Chorando, por haver tão mal cantado.
Se nestes não ficar tão desculpado
Quanto mais alto estilo merecia,
Não me podem negar a melhoria
Da mudança, que diz dum noutro estado.
Que vai que sejam bem ou mal aceitos?
Pois não os escrevi para louvores
Humanos, pelo menos perigosos,
Senão para plantar em tenros peitos
Desejos de colher divinas flores
À força de suspiros saudosos.
Da mocidade cega a quem seguia,
Queimei (como vergonha me pedia)
Chorando, por haver tão mal cantado.
Se nestes não ficar tão desculpado
Quanto mais alto estilo merecia,
Não me podem negar a melhoria
Da mudança, que diz dum noutro estado.
Que vai que sejam bem ou mal aceitos?
Pois não os escrevi para louvores
Humanos, pelo menos perigosos,
Senão para plantar em tenros peitos
Desejos de colher divinas flores
À força de suspiros saudosos.
612
Frei Agostinho da Cruz
elegia II
Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às ondas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?
Respondem-me em segredo, mil segredos,
Cujas letras primeiras vou cortando
Nos pés de outros mais verdes arvoredos.
Assi com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo,
Que de outras, que ensinar querem falando.
Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razões com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.
Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.
Pergunto ao mar, às ondas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?
Respondem-me em segredo, mil segredos,
Cujas letras primeiras vou cortando
Nos pés de outros mais verdes arvoredos.
Assi com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo,
Que de outras, que ensinar querem falando.
Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razões com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.
Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.
702
Charles Bukowski
Encômios
após a morte
exageramos as boas qualidades de alguém,
nós as inflamos.
durante a vida
frequentemente sentimos repulsa pela mesma pessoa
enquanto falamos com ela ao telefone
ou só de estar no mesmo aposento.
e frequentemente criticamos o jeito como
andam, falam, vestem-se
vivem
creem.
mas é só morrerem
então que criaturas elas
se tornam.
se apenas em uma cerimônia fúnebre
alguém dissesse,
"que indivíduo odioso
esse aí foi!"
que em meu funeral
haja só um pouco de verdade,
e depois a boa e limpa
poeira.
exageramos as boas qualidades de alguém,
nós as inflamos.
durante a vida
frequentemente sentimos repulsa pela mesma pessoa
enquanto falamos com ela ao telefone
ou só de estar no mesmo aposento.
e frequentemente criticamos o jeito como
andam, falam, vestem-se
vivem
creem.
mas é só morrerem
então que criaturas elas
se tornam.
se apenas em uma cerimônia fúnebre
alguém dissesse,
"que indivíduo odioso
esse aí foi!"
que em meu funeral
haja só um pouco de verdade,
e depois a boa e limpa
poeira.
1 114
José Paulo Paes
A Casa
Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas.
Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina.
Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo.
Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos.
No quarto, uma mãe que está sempre parindo a última filha.
Na sala de jantar, uma tia que lustra cuidadosamente o seu próprio caixão.
Na copa, uma prima que passa a ferro todas as mortalhas da família.
Na cozinha, uma avó que conta noite e dia histórias do outro mundo.
No quintal, um preto velho que morreu na Guerra do Paraguai rachando lenha.
E no telhado um menino medroso que espia todos eles; só que está vivo: trouxe até ali o pássaro dos sonhos.
Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na depressa.
Antes que ele acorde e se descubra também morto.
Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina.
Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo.
Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos.
No quarto, uma mãe que está sempre parindo a última filha.
Na sala de jantar, uma tia que lustra cuidadosamente o seu próprio caixão.
Na copa, uma prima que passa a ferro todas as mortalhas da família.
Na cozinha, uma avó que conta noite e dia histórias do outro mundo.
No quintal, um preto velho que morreu na Guerra do Paraguai rachando lenha.
E no telhado um menino medroso que espia todos eles; só que está vivo: trouxe até ali o pássaro dos sonhos.
Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na depressa.
Antes que ele acorde e se descubra também morto.
1 849
Diogo Brandão
Os que logo decrararam
Os que logo decrararam
suas dores, em querendo,
muitas vezes s'estimaram;
mas muito mais obrigaram
aqueles que, padecendo,
nam falando, mas morrendo,
confessaram.
Bem podem dizer fingidos
seus amores os primeiros;
masaquestes, já vencidos,
pola morte conhecidos,
sam seus males verdadeiros.
Já se muitos confortaram
em suas penas dizendo,
e disso se contentaram;
portanto mais obrigaram
aqueles que, padecendo,
nom falando, mas morrendo,
confessaram.
suas dores, em querendo,
muitas vezes s'estimaram;
mas muito mais obrigaram
aqueles que, padecendo,
nam falando, mas morrendo,
confessaram.
Bem podem dizer fingidos
seus amores os primeiros;
masaquestes, já vencidos,
pola morte conhecidos,
sam seus males verdadeiros.
Já se muitos confortaram
em suas penas dizendo,
e disso se contentaram;
portanto mais obrigaram
aqueles que, padecendo,
nom falando, mas morrendo,
confessaram.
575