Poemas neste tema
Alma
Charles Bukowski
Amigos Em Meio À Escuridão
eu me lembro de passar fome num
quartinho numa cidade estranha
cortinas baixadas, ouvindo
música clássica
eu era jovem eu era tão jovem que doía como uma faca
por dentro
porque não havia alternativa exceto ficar escondido pelo maior
tempo possível –
não por autopiedade mas com desalento sob minhas chances limitadas:
tentando me conectar.
os velhos compositores – Mozart, Bach, Beethoven,
Brahms eram os únicos que me diziam alguma coisa e
eles estavam mortos.
por fim, faminto e derrotado, precisei sair
às ruas e ser entrevistado para empregos
monótonos
de baixa remuneração
por homens estranhos atrás de mesas
homens sem olhos homens sem rostos
que pegavam as minhas horas
e as destruíam e
mijavam nelas.
agora eu trabalho para os editores os leitores os
críticos
mas ainda bato papo e bebo com
Mozart, Bach, Brahms e o
Bee
que amigões
que homens
às vezes tudo de que precisamos para poder continuar sozinhos
são os mortos
chocalhando as paredes
que nos encerram.
quartinho numa cidade estranha
cortinas baixadas, ouvindo
música clássica
eu era jovem eu era tão jovem que doía como uma faca
por dentro
porque não havia alternativa exceto ficar escondido pelo maior
tempo possível –
não por autopiedade mas com desalento sob minhas chances limitadas:
tentando me conectar.
os velhos compositores – Mozart, Bach, Beethoven,
Brahms eram os únicos que me diziam alguma coisa e
eles estavam mortos.
por fim, faminto e derrotado, precisei sair
às ruas e ser entrevistado para empregos
monótonos
de baixa remuneração
por homens estranhos atrás de mesas
homens sem olhos homens sem rostos
que pegavam as minhas horas
e as destruíam e
mijavam nelas.
agora eu trabalho para os editores os leitores os
críticos
mas ainda bato papo e bebo com
Mozart, Bach, Brahms e o
Bee
que amigões
que homens
às vezes tudo de que precisamos para poder continuar sozinhos
são os mortos
chocalhando as paredes
que nos encerram.
1 229
Charles Bukowski
Vamos Fazer Um Acordo
em conjunção com
esses rios de merda
que não param de correr no meu cérebro, Capitão
Morsa, posso apenas dizer que mal consigo entendê-los
e eu rezaria
qualquer quantidade de AVE-MARIAS
para lhes dar um fim –
eu até mesmo voltaria a morar com aquela vadia do
coração de pedra só
para impedir que esses rios de merda rolem no meu
cérebro, Capitão Morsa, mas
claro
eu jamais pararia de apostar nos cavalos ou de
beber
mas
Capitão
para interromper o curso desses rios
eu prometeria nunca mais
comer ovos e
eu rasparia minha cabeça e minhas bolas, eu moraria no
estado de Delaware e eu até mesmo
me forçaria a ver até o fim qualquer filme estrelado por
qualquer membro da família
Fonda.
pense a respeito, Capitão Morsa, a
uva-passa está no bolo e o guarda-sol se dobra para
o vento oeste
preciso fazer algo a respeito de tudo
isso...
parece que nunca vai
parar.
o inferno de cada homem fica num lugar
diferente: o meu é logo acima e
atrás
do meu rosto
arruinado.
esses rios de merda
que não param de correr no meu cérebro, Capitão
Morsa, posso apenas dizer que mal consigo entendê-los
e eu rezaria
qualquer quantidade de AVE-MARIAS
para lhes dar um fim –
eu até mesmo voltaria a morar com aquela vadia do
coração de pedra só
para impedir que esses rios de merda rolem no meu
cérebro, Capitão Morsa, mas
claro
eu jamais pararia de apostar nos cavalos ou de
beber
mas
Capitão
para interromper o curso desses rios
eu prometeria nunca mais
comer ovos e
eu rasparia minha cabeça e minhas bolas, eu moraria no
estado de Delaware e eu até mesmo
me forçaria a ver até o fim qualquer filme estrelado por
qualquer membro da família
Fonda.
pense a respeito, Capitão Morsa, a
uva-passa está no bolo e o guarda-sol se dobra para
o vento oeste
preciso fazer algo a respeito de tudo
isso...
parece que nunca vai
parar.
o inferno de cada homem fica num lugar
diferente: o meu é logo acima e
atrás
do meu rosto
arruinado.
1 274
Charles Bukowski
Sapatos
quando você é jovem
um par de
sapatos de salto alto
femininos
só ali guardado
sozinho
no armário
pode incendiar seus
ossos;
quando você é velho
é só
um par de sapatos
sem
ninguém
dentro
e
dá no
mesmo.
um par de
sapatos de salto alto
femininos
só ali guardado
sozinho
no armário
pode incendiar seus
ossos;
quando você é velho
é só
um par de sapatos
sem
ninguém
dentro
e
dá no
mesmo.
1 226
Charles Bukowski
Começando Rápido
cada um de nós
às vezes
deveria
lembrar
o mais
alto
e
afortunado
momento
de
nossas
vidas.
para
mim
foi
ser
um
cara
muito jovem
e
dormir
sem nenhum centavo
e
sem nenhum amigo
sobre um
banco
de parque
numa
cidade
estranha
o que
não diz
grande coisa
de todas
as
várias
décadas
que se
seguiram.
às vezes
deveria
lembrar
o mais
alto
e
afortunado
momento
de
nossas
vidas.
para
mim
foi
ser
um
cara
muito jovem
e
dormir
sem nenhum centavo
e
sem nenhum amigo
sobre um
banco
de parque
numa
cidade
estranha
o que
não diz
grande coisa
de todas
as
várias
décadas
que se
seguiram.
1 188
Charles Bukowski
Perto da Grandeza
em certa fase da minha vida
conheci um homem que alegava ter
visitado Pound no St. Elizabeths.
depois conheci uma mulher que não apenas
alegava ter visitado
E.P.
como também ter feito amor
com ele – ela até me
mostrou
certos trechos dos
Cantos
em que Ezra supostamente a
teria
mencionado.
eis então aquele homem e
aquela mulher
e a mulher me disse
que Pound jamais
mencionara uma visita daquele
homem
e o homem alegava que a
dama não tivera contato algum
com o
mestre
que ela era
uma charlatona.
e como eu não era
um erudito poundiano
eu não sabia em quem
acreditar
mas
de uma coisa eu
sei: quando um homem está
vivo
muitos alegam relacionamentos
que dificilmente
o são
e depois que ele morre, bem,
aí a festa é
liberada.
meu palpite é que Pound
não conheceu nem a dama nem o
cavalheiro
e se conheceu
um
ou conheceu
ambos
então foi um vergonhoso desperdício de
tempo no
manicômio.
conheci um homem que alegava ter
visitado Pound no St. Elizabeths.
depois conheci uma mulher que não apenas
alegava ter visitado
E.P.
como também ter feito amor
com ele – ela até me
mostrou
certos trechos dos
Cantos
em que Ezra supostamente a
teria
mencionado.
eis então aquele homem e
aquela mulher
e a mulher me disse
que Pound jamais
mencionara uma visita daquele
homem
e o homem alegava que a
dama não tivera contato algum
com o
mestre
que ela era
uma charlatona.
e como eu não era
um erudito poundiano
eu não sabia em quem
acreditar
mas
de uma coisa eu
sei: quando um homem está
vivo
muitos alegam relacionamentos
que dificilmente
o são
e depois que ele morre, bem,
aí a festa é
liberada.
meu palpite é que Pound
não conheceu nem a dama nem o
cavalheiro
e se conheceu
um
ou conheceu
ambos
então foi um vergonhoso desperdício de
tempo no
manicômio.
1 180
Charles Bukowski
O Vinho da Eternidade
relendo um pouco do
Vinho da juventude de Fante
na cama
no meio desta tarde
meu grande gato
BEAKER
adormecido ao meu
lado.
a escrita de certos
homens
é como uma ponte vasta
que nos leva
por cima
das muitas coisas
que arranham e dilaceram.
as puras e mágicas
emoções de Fante
se firmam na frase
simples e
clara.
que esse homem tenha morrido
uma das mortes mais lentas e
mais horríveis
de que já fui testemunha ou
ouvi
falar...
os deuses não têm
favoritos.
larguei o livro
ao meu lado.
livro num lado,
gato no
outro...
John, conhecer você,
mesmo do jeito como
foi foi o acontecimento da minha
vida. não posso dizer
que eu teria morrido por
você, eu não teria conseguido
me sair tão bem.
mas foi bom te ver
de novo
nesta
tarde.
Vinho da juventude de Fante
na cama
no meio desta tarde
meu grande gato
BEAKER
adormecido ao meu
lado.
a escrita de certos
homens
é como uma ponte vasta
que nos leva
por cima
das muitas coisas
que arranham e dilaceram.
as puras e mágicas
emoções de Fante
se firmam na frase
simples e
clara.
que esse homem tenha morrido
uma das mortes mais lentas e
mais horríveis
de que já fui testemunha ou
ouvi
falar...
os deuses não têm
favoritos.
larguei o livro
ao meu lado.
livro num lado,
gato no
outro...
John, conhecer você,
mesmo do jeito como
foi foi o acontecimento da minha
vida. não posso dizer
que eu teria morrido por
você, eu não teria conseguido
me sair tão bem.
mas foi bom te ver
de novo
nesta
tarde.
1 381
Charles Bukowski
Maus Momentos No Hotel da 3Rd Com a Vermont
Alabam era um ladrão sorrateiro e ele entrou no meu
quarto quando eu estava bêbado e
toda vez que eu me levantava ele me derrubava
de novo.
seu babaca, eu disse, você sabe que apanha
de mim!
ele apenas me derrubou
outra vez.
quando ficar sóbrio, falei, vou espalhar os teus dentes
daqui até o inferno!
ele só seguiu me empurrando
pra lá e pra cá.
finalmente acertei um em cheio, bem na
têmpora
e ele recuou e
saiu.
foi uns dias depois
que eu me vinguei: comi a namorada
dele.
então desci e bati na porta
dele.
bem, Alabam, comi a tua mulher e agora vou
espalhar os teus dentes daqui até o
inferno!
o pobre coitado começou a chorar, cobriu o rosto com as
mãos e apenas chorou
fiquei ali parado observando
o cara.
e falei, me desculpa,
Alabam.
então o deixei lá, voltei ao
meu quarto.
éramos todos bebuns e nenhum de nós tinha emprego, tudo que tínhamos
era um ao outro.
naquele momento a minha assim chamada mulher estava em algum bar ou
sei lá onde, eu não a via fazia uns
dias.
ainda me restava uma garrafa de
porto.
saquei a rolha e levei o porto até o quarto do
Alabam.
falei, que tal um trago,
Rebelde?
ele levantou a cabeça, ficou de pé, bebeu duas
taças.
quarto quando eu estava bêbado e
toda vez que eu me levantava ele me derrubava
de novo.
seu babaca, eu disse, você sabe que apanha
de mim!
ele apenas me derrubou
outra vez.
quando ficar sóbrio, falei, vou espalhar os teus dentes
daqui até o inferno!
ele só seguiu me empurrando
pra lá e pra cá.
finalmente acertei um em cheio, bem na
têmpora
e ele recuou e
saiu.
foi uns dias depois
que eu me vinguei: comi a namorada
dele.
então desci e bati na porta
dele.
bem, Alabam, comi a tua mulher e agora vou
espalhar os teus dentes daqui até o
inferno!
o pobre coitado começou a chorar, cobriu o rosto com as
mãos e apenas chorou
fiquei ali parado observando
o cara.
e falei, me desculpa,
Alabam.
então o deixei lá, voltei ao
meu quarto.
éramos todos bebuns e nenhum de nós tinha emprego, tudo que tínhamos
era um ao outro.
naquele momento a minha assim chamada mulher estava em algum bar ou
sei lá onde, eu não a via fazia uns
dias.
ainda me restava uma garrafa de
porto.
saquei a rolha e levei o porto até o quarto do
Alabam.
falei, que tal um trago,
Rebelde?
ele levantou a cabeça, ficou de pé, bebeu duas
taças.
1 151
Charles Bukowski
História Final
meu deus, lá está ele bêbado de novo
contando as mesmas histórias de sempre
outra e outra vez
enquanto o pressionam por
mais – alguns nada mais
tendo para fazer, outros
secretamente escarnecendo
daquele
grande escritor
balbuciando
babando
em seu bigodinho
branco
de rato
falando sobre
guerra
falando sobre as
guerras
falando sobre os bravos
peixes
as touradas
até sobre suas esposas.
as pessoas
entram no
bar
noite após noite
para ver o mesmo
espetáculo de sempre
que um dia ele
terminará
sozinho
espalhando seus miolos
pelas paredes.
o preço da criação
nunca é
alto demais.
o preço de viver
com outras pessoas
sempre
é.
contando as mesmas histórias de sempre
outra e outra vez
enquanto o pressionam por
mais – alguns nada mais
tendo para fazer, outros
secretamente escarnecendo
daquele
grande escritor
balbuciando
babando
em seu bigodinho
branco
de rato
falando sobre
guerra
falando sobre as
guerras
falando sobre os bravos
peixes
as touradas
até sobre suas esposas.
as pessoas
entram no
bar
noite após noite
para ver o mesmo
espetáculo de sempre
que um dia ele
terminará
sozinho
espalhando seus miolos
pelas paredes.
o preço da criação
nunca é
alto demais.
o preço de viver
com outras pessoas
sempre
é.
1 272
Charles Bukowski
Supostamente Famoso
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada,
minha esposa, coitada, no andar de baixo,
e eu o dia todo no hipódromo e
aqui a noite toda com a garrafa e
esta máquina.
minha esposa, coitada, que ela possa encontrar seu lugar
no céu.
só que também
as poucas pessoas que eu
conheci, aquelas que me pareceram ter uma
chaminha extra
certa humanidade inventiva, bem, elas
se dissolveram
mas
sendo um solitário por natureza
não esquento muito
a cabeça –
restam meus 5
gatos: Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
sou agora um
escritor supostamente
famoso
influenciando hordas de
datilógrafos.
bem
que eu gostaria de poder
rir
de tudo
isso.
a Fama é a última puta, todas as outras se
foram.
bem, a competição não tem sido
dura
mas não tenho nada com
isso: percebi tudo
muito tempo atrás enquanto
passava fome e
mijava pela
janela
enquanto atirava copos de
trago nas
paredes
de-aluguel-atrasado.
Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
agora a Morte é uma planta crescendo em minha
mente
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
fico triste pelos mortos e fico triste pelos vivos
mas não por meus 5 gatos ou
por minha esposa, minha esposa que vai
encontrar seu lugar no
céu.
e quanto às pessoas
dissolvidas
eu não as dissolvi, elas mesmas se
dissolveram.
e que as calçadas estejam vazias e ao mesmo tempo
cheias de pés
passando –
isso é obra do
caminho.
nada de muito sólido
enquanto
um homem toca piano
no meu rádio e
as paredes
se erguem e
baixam
e a coragem de tudo
até das pulgas
dos piolhos
da tarântula
me assombra
nestes rosnados
da madrugada.
minha esposa, coitada, no andar de baixo,
e eu o dia todo no hipódromo e
aqui a noite toda com a garrafa e
esta máquina.
minha esposa, coitada, que ela possa encontrar seu lugar
no céu.
só que também
as poucas pessoas que eu
conheci, aquelas que me pareceram ter uma
chaminha extra
certa humanidade inventiva, bem, elas
se dissolveram
mas
sendo um solitário por natureza
não esquento muito
a cabeça –
restam meus 5
gatos: Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
sou agora um
escritor supostamente
famoso
influenciando hordas de
datilógrafos.
bem
que eu gostaria de poder
rir
de tudo
isso.
a Fama é a última puta, todas as outras se
foram.
bem, a competição não tem sido
dura
mas não tenho nada com
isso: percebi tudo
muito tempo atrás enquanto
passava fome e
mijava pela
janela
enquanto atirava copos de
trago nas
paredes
de-aluguel-atrasado.
Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
agora a Morte é uma planta crescendo em minha
mente
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
fico triste pelos mortos e fico triste pelos vivos
mas não por meus 5 gatos ou
por minha esposa, minha esposa que vai
encontrar seu lugar no
céu.
e quanto às pessoas
dissolvidas
eu não as dissolvi, elas mesmas se
dissolveram.
e que as calçadas estejam vazias e ao mesmo tempo
cheias de pés
passando –
isso é obra do
caminho.
nada de muito sólido
enquanto
um homem toca piano
no meu rádio e
as paredes
se erguem e
baixam
e a coragem de tudo
até das pulgas
dos piolhos
da tarântula
me assombra
nestes rosnados
da madrugada.
1 132
Charles Bukowski
Fissura
“não posso mais viver com você”,
ela disse,
“olha só você!”
“hã?”, eu
perguntei.
“olha só você!
sentado nessa
maldita
cadeira!
a barriga despontando da
sua
roupa de baixo,
você queimou furos
de cigarro em todas as suas
camisas!
tudo que você faz é sugar
essa maldita
cerveja,
garrafa após garrafa,
o que é que você ganha com
isso?”
“o estrago está
feito”, eu disse
a ela.
“do que é que você está
falando?”
“nada importa e
nós sabemos que nada importa
e isso
importa...”
“você está bêbado!”
“ora, gatinha, vamos ficar
numa boa, é
fácil...”
“não pra mim!”, ela gritou,
“não pra
mim!”
ela entrou correndo no banheiro
para se
maquiar.
eu me levantei atrás de outra
cerveja.
sentei de volta
mal tinha encostado a nova garrafa
na boca
quando ela saiu do
banheiro.
“puta merda!”, ela exclamou,
“você é
nojento!”
eu ri direto no gargalo
da garrafa, me engasguei, cuspi um gole de
cerveja ao longo da minha
camiseta.
“meu deus!”, ela
disse.
ela bateu a porta e
se foi.
eu olhei a porta fechada
e a maçaneta
e estranhamente
não me senti
sozinho.
ela disse,
“olha só você!”
“hã?”, eu
perguntei.
“olha só você!
sentado nessa
maldita
cadeira!
a barriga despontando da
sua
roupa de baixo,
você queimou furos
de cigarro em todas as suas
camisas!
tudo que você faz é sugar
essa maldita
cerveja,
garrafa após garrafa,
o que é que você ganha com
isso?”
“o estrago está
feito”, eu disse
a ela.
“do que é que você está
falando?”
“nada importa e
nós sabemos que nada importa
e isso
importa...”
“você está bêbado!”
“ora, gatinha, vamos ficar
numa boa, é
fácil...”
“não pra mim!”, ela gritou,
“não pra
mim!”
ela entrou correndo no banheiro
para se
maquiar.
eu me levantei atrás de outra
cerveja.
sentei de volta
mal tinha encostado a nova garrafa
na boca
quando ela saiu do
banheiro.
“puta merda!”, ela exclamou,
“você é
nojento!”
eu ri direto no gargalo
da garrafa, me engasguei, cuspi um gole de
cerveja ao longo da minha
camiseta.
“meu deus!”, ela
disse.
ela bateu a porta e
se foi.
eu olhei a porta fechada
e a maçaneta
e estranhamente
não me senti
sozinho.
1 584
Charles Bukowski
Juntos
EI, berrei de longe para ela
no quarto,
BEBE UM POUCO DE VINHO NO
SEU SAPATO!
POR QUÊ?, ela
gritou.
PORQUE ESSA INUTILIDADE
PRECISA DE UM POUCO DE
RISCO!,
bradei
de volta.
EI, bateu na parede
o cara do apartamento
ao lado, EU PRECISO LEVANTAR
DE MANHÃ PRA IR
TRABALHAR ENTÃO PELO AMOR
DE DEUS, CALEM
A BOCA!
ele não quebrou a parede
por um triz e tinha uma
voz
poderosíssima.
eu fui até
ela, falei, seguinte, vamos
ficar quietos, ele tem seus
direitos.
VAI SE FODER, BABACA!,
ela gritou
para mim.
o cara começou a socar
a parede
outra vez.
ela tinha razão e ele tinha
razão.
transportei a garrafa até
a janela e
contemplei a noite
lá fora.
então dei um bom e vigoroso
gole
e pensei, estamos todos
condenados
juntos, é só o que se pode
dizer
disso. (era só o que se podia
dizer daquele gole em particular, assim
como de todos os
outros.)
então voltei
até ela e
ela estava adormecida em
sua
cadeira.
eu a carreguei até
a cama
desliguei as
luzes
então me sentei na
cadeira junto à
janela
sugando a garrafa, pensando,
bem, cheguei
até aqui
e já é
bastante.
e agora
ela está dormindo
e
talvez
ele também
consiga.
no quarto,
BEBE UM POUCO DE VINHO NO
SEU SAPATO!
POR QUÊ?, ela
gritou.
PORQUE ESSA INUTILIDADE
PRECISA DE UM POUCO DE
RISCO!,
bradei
de volta.
EI, bateu na parede
o cara do apartamento
ao lado, EU PRECISO LEVANTAR
DE MANHÃ PRA IR
TRABALHAR ENTÃO PELO AMOR
DE DEUS, CALEM
A BOCA!
ele não quebrou a parede
por um triz e tinha uma
voz
poderosíssima.
eu fui até
ela, falei, seguinte, vamos
ficar quietos, ele tem seus
direitos.
VAI SE FODER, BABACA!,
ela gritou
para mim.
o cara começou a socar
a parede
outra vez.
ela tinha razão e ele tinha
razão.
transportei a garrafa até
a janela e
contemplei a noite
lá fora.
então dei um bom e vigoroso
gole
e pensei, estamos todos
condenados
juntos, é só o que se pode
dizer
disso. (era só o que se podia
dizer daquele gole em particular, assim
como de todos os
outros.)
então voltei
até ela e
ela estava adormecida em
sua
cadeira.
eu a carreguei até
a cama
desliguei as
luzes
então me sentei na
cadeira junto à
janela
sugando a garrafa, pensando,
bem, cheguei
até aqui
e já é
bastante.
e agora
ela está dormindo
e
talvez
ele também
consiga.
1 385
Charles Bukowski
A Passada
Norman e eu, ambos aos 19, passeando pelas ruas da
noite... nos sentindo grandes, jovens jovens, grandes e
jovens
Norman disse “Deus do céu, aposto que ninguém
caminha com passadas gigantes que nem a gente!”
1939
depois de ter ouvido
Stravinsky
não muito
depois,
a guerra pegou
Norman.
agora estou sentado aqui
46 anos depois
no segundo andar de uma quente
uma da manhã
bêbado
ainda grande
não
tão jovem.
Norman, você jamais
adivinharia
o que
aconteceu
comigo
o que
aconteceu
com todos
nós.
eu lembro o seu
ditado: “construa ou
destrua”.
não aconteceu e não
acontecerá
nem uma coisa nem outra.
noite... nos sentindo grandes, jovens jovens, grandes e
jovens
Norman disse “Deus do céu, aposto que ninguém
caminha com passadas gigantes que nem a gente!”
1939
depois de ter ouvido
Stravinsky
não muito
depois,
a guerra pegou
Norman.
agora estou sentado aqui
46 anos depois
no segundo andar de uma quente
uma da manhã
bêbado
ainda grande
não
tão jovem.
Norman, você jamais
adivinharia
o que
aconteceu
comigo
o que
aconteceu
com todos
nós.
eu lembro o seu
ditado: “construa ou
destrua”.
não aconteceu e não
acontecerá
nem uma coisa nem outra.
1 098
Charles Bukowski
Lixo
eu tinha tomado uma surra tremenda,
eu tinha escolhido um verdadeiro touro, e por causa das
garotas e dele mesmo e só por sua
brutal energia esquiva
ele quase tinha me assassinado:
eu soube depois
que mesmo quando eu já estava apagado
ele havia chutado minha cabeça repetidas
vezes
e então havia esvaziado várias latas de lixo
em cima de mim
e então haviam me deixado ali
naquele beco.
eu era o cara de fora da cidade.
foi por volta das 6 da manhã num
domingo que eu voltei
a mim.
meu rosto era um amontoado de
feridas, crostas, coágulos, galos, calombos, meus lábios
engrossados e dormentes, meus olhos quase fechados de tão
inchados
mas eu me botei de pé e comecei
a caminhar;
eu via indícios do sol, casas, a calçada
trêmula enquanto eu
avançava na direção do meu quarto
então escutei sons arrastados vindos do
centro da rua
e forcei meus olhos para
focalizar e vi um
homem cambaleando
suas roupas rasgadas e ensanguentadas
ele cheirava a morte e escuridão
mas continuava andando em frente
pelo meio da rua
como se já tivesse caminhado
quilômetros
desde algum acontecimento tão horrível que
a própria mente poderia se recusar a aceitá-lo
como parte da vida.
meu impulso era ajudá-lo
e saltei do
meio-fio
e avancei ao encontro dele.
ele não conseguia me ver, ele avançava
procurando algum lugar para ir,
qualquer lugar, e
eu vi um dos olhos dele pendurado
fora da órbita,
balançando.
eu recuei.
ele era como uma criatura não pertencente à
terra.
deixei o homem
passar.
dava para ouvir os pés se afastando
atrás de mim
aqueles passos cegos
oscilando, em
agonia,
insensivelmente
solitários.
voltei à
calçada.
voltei ao meu
quarto.
subi na
cama.
caí com o rosto para cima
o teto no alto em cima de mim,
eu esperei.
eu tinha escolhido um verdadeiro touro, e por causa das
garotas e dele mesmo e só por sua
brutal energia esquiva
ele quase tinha me assassinado:
eu soube depois
que mesmo quando eu já estava apagado
ele havia chutado minha cabeça repetidas
vezes
e então havia esvaziado várias latas de lixo
em cima de mim
e então haviam me deixado ali
naquele beco.
eu era o cara de fora da cidade.
foi por volta das 6 da manhã num
domingo que eu voltei
a mim.
meu rosto era um amontoado de
feridas, crostas, coágulos, galos, calombos, meus lábios
engrossados e dormentes, meus olhos quase fechados de tão
inchados
mas eu me botei de pé e comecei
a caminhar;
eu via indícios do sol, casas, a calçada
trêmula enquanto eu
avançava na direção do meu quarto
então escutei sons arrastados vindos do
centro da rua
e forcei meus olhos para
focalizar e vi um
homem cambaleando
suas roupas rasgadas e ensanguentadas
ele cheirava a morte e escuridão
mas continuava andando em frente
pelo meio da rua
como se já tivesse caminhado
quilômetros
desde algum acontecimento tão horrível que
a própria mente poderia se recusar a aceitá-lo
como parte da vida.
meu impulso era ajudá-lo
e saltei do
meio-fio
e avancei ao encontro dele.
ele não conseguia me ver, ele avançava
procurando algum lugar para ir,
qualquer lugar, e
eu vi um dos olhos dele pendurado
fora da órbita,
balançando.
eu recuei.
ele era como uma criatura não pertencente à
terra.
deixei o homem
passar.
dava para ouvir os pés se afastando
atrás de mim
aqueles passos cegos
oscilando, em
agonia,
insensivelmente
solitários.
voltei à
calçada.
voltei ao meu
quarto.
subi na
cama.
caí com o rosto para cima
o teto no alto em cima de mim,
eu esperei.
1 280
Charles Bukowski
Glenn Miller
muito tempo atrás
na frente do campus
na sorveteria
a juke-box tocando
as garotas em sintonia perfeita
dançando com os jogadores de futebol
e com os rapazes brilhantes da faculdade
Glenn Miller era o grande sucesso
e todo mundo entrava na dança
quase todo mundo
eu ficava sentado com alguns discípulos
éramos supostos foras da lei
os exploradores da Verdade
mas eu gostava da música
e da preguiça da espera
com o mundo se lançando em guerra
com Hitler arengando
as garotas rodopiavam
graciosas
pernas à mostra
aquele último sol brilhante
nós nos aquecíamos nele
excluindo tudo mais
enquanto o universo abria sua boca
numa tentativa de
engolir todos nós.
na frente do campus
na sorveteria
a juke-box tocando
as garotas em sintonia perfeita
dançando com os jogadores de futebol
e com os rapazes brilhantes da faculdade
Glenn Miller era o grande sucesso
e todo mundo entrava na dança
quase todo mundo
eu ficava sentado com alguns discípulos
éramos supostos foras da lei
os exploradores da Verdade
mas eu gostava da música
e da preguiça da espera
com o mundo se lançando em guerra
com Hitler arengando
as garotas rodopiavam
graciosas
pernas à mostra
aquele último sol brilhante
nós nos aquecíamos nele
excluindo tudo mais
enquanto o universo abria sua boca
numa tentativa de
engolir todos nós.
1 229
Charles Bukowski
Meu Truque do Desaparecimento
quando eu enchia o saco de ficar no bar
e às vezes eu enchia
eu tinha um lugar para ir:
era um campo de capim alto
um cemitério
abandonado.
eu não via aquilo como sendo um
passatempo mórbido.
aquele só me parecia ser o melhor
lugar para estar.
ele oferecia uma generosa cura para
ressacas violentas.
através do capim dava para ver
as lápides,
muitas pendiam
em ângulos estranhos
contra a gravidade
como se precisassem
cair
mas nunca vi nenhuma
cair
embora houvesse muitas delas
no cemitério.
era fresco e escuro
com uma brisa
e várias vezes eu dormia
lá.
nunca fui
incomodado.
toda vez que eu retornava para o bar
depois de uma ausência
era sempre a mesma história com
eles:
“onde diabos você
andava? achamos que você tinha
morrido!”
para eles eu era o monstro do bar, eles precisavam de mim
para que se sentissem
melhor.
assim como eu, às vezes, precisava daquele
cemitério.
e às vezes eu enchia
eu tinha um lugar para ir:
era um campo de capim alto
um cemitério
abandonado.
eu não via aquilo como sendo um
passatempo mórbido.
aquele só me parecia ser o melhor
lugar para estar.
ele oferecia uma generosa cura para
ressacas violentas.
através do capim dava para ver
as lápides,
muitas pendiam
em ângulos estranhos
contra a gravidade
como se precisassem
cair
mas nunca vi nenhuma
cair
embora houvesse muitas delas
no cemitério.
era fresco e escuro
com uma brisa
e várias vezes eu dormia
lá.
nunca fui
incomodado.
toda vez que eu retornava para o bar
depois de uma ausência
era sempre a mesma história com
eles:
“onde diabos você
andava? achamos que você tinha
morrido!”
para eles eu era o monstro do bar, eles precisavam de mim
para que se sentissem
melhor.
assim como eu, às vezes, precisava daquele
cemitério.
1 075
Charles Bukowski
O Grande Plano
passando fome num inverno da Filadélfia
tentando ser escritor
eu escrevia e escrevia e bebia e bebia e
bebia
e aí parei de escrever e me concentrei na
bebida.
era outra
forma de arte.
se você não consegue se dar bem com uma coisa você
tenta outra.
claro, eu vinha praticando a
forma da bebida
desde os 15 anos
de idade.
e havia muita competição
nesse campo
também.
era um mundo cheio de bêbados e escritores e
escritores bêbados.
e assim
eu virei um bêbado faminto em vez de um escritor
faminto.
a melhor coisa era o resultado
instantâneo.
e logo virei o maior e
melhor bêbado da vizinhança e
talvez da cidade
inteira.
�
aquilo com absoluta certeza era melhor do que esperar
sentado as cartas de rejeição da New Yorker e da
Atlantic Monthly.
claro, eu nunca considerei a sério a ideia de largar
o jogo da escrita, eu só queria fazer uma
pausa de dez anos
deduzindo que se ficasse famoso cedo demais
eu não teria mais nada na reta final
e agora eu tenho,
obrigado,
com a bebida ainda
descendo.
tentando ser escritor
eu escrevia e escrevia e bebia e bebia e
bebia
e aí parei de escrever e me concentrei na
bebida.
era outra
forma de arte.
se você não consegue se dar bem com uma coisa você
tenta outra.
claro, eu vinha praticando a
forma da bebida
desde os 15 anos
de idade.
e havia muita competição
nesse campo
também.
era um mundo cheio de bêbados e escritores e
escritores bêbados.
e assim
eu virei um bêbado faminto em vez de um escritor
faminto.
a melhor coisa era o resultado
instantâneo.
e logo virei o maior e
melhor bêbado da vizinhança e
talvez da cidade
inteira.
�
aquilo com absoluta certeza era melhor do que esperar
sentado as cartas de rejeição da New Yorker e da
Atlantic Monthly.
claro, eu nunca considerei a sério a ideia de largar
o jogo da escrita, eu só queria fazer uma
pausa de dez anos
deduzindo que se ficasse famoso cedo demais
eu não teria mais nada na reta final
e agora eu tenho,
obrigado,
com a bebida ainda
descendo.
1 250
Charles Bukowski
A Última Dose
aqui vamos nós, mais uma vez, a última bebida, o último
poema – décadas desta esplêndida sorte – outra madrugada
bêbada, e não no chão da cadeia de bebuns nesta noite esperando que
o cafetão negro saia do telefone de modo que eu possa fazer minha única
ligação permitida (tantas daquelas madrugadas também) eu levei
um longo tempo para encontrar a pessoa mais interessante com
quem beber: eu mesmo, assim, agora pegando à minha esquerda
a última taça do Sangue do
Cordeiro.
poema – décadas desta esplêndida sorte – outra madrugada
bêbada, e não no chão da cadeia de bebuns nesta noite esperando que
o cafetão negro saia do telefone de modo que eu possa fazer minha única
ligação permitida (tantas daquelas madrugadas também) eu levei
um longo tempo para encontrar a pessoa mais interessante com
quem beber: eu mesmo, assim, agora pegando à minha esquerda
a última taça do Sangue do
Cordeiro.
1 268
Charles Bukowski
Aceito...
talvez eu esteja ficando louco, não tem problema
mas esses poemas não param de despontar no alto da minha
cabeça com mais e mais
força. agora
depois dos oceanos de trago que já
consumi
parece evidente que o desgaste deveria
ser minha justa recompensa já que sigo
consumindo – ao passo que
os hospícios, as ruas e os cemitérios estão
cheios de gente da minha
laia –
porém toda noite quando visito esta máquina
com a minha garrafa
os poemas fulguram e saltam, sem
parar – rugindo na alegria
do poder tranquilo: 65 anos
dançando – minha boca se contorcendo num
minúsculo sorriso
enquanto estas teclas continuam emitindo
uma substancial energia de vesgo
milagre.
os deuses foram bons comigo ao longo deste
estilo de vida que teria matado
até um touro
e eu estou longe de ser um
touro.
senti desde o começo,
claro, que havia uma estranha corrosão
dentro de mim
mas nem em sonho imaginei essa
sorte
essa absoluta dádiva
divina
minha morte vai parecer no máximo
uma
ideia tardia.
mas esses poemas não param de despontar no alto da minha
cabeça com mais e mais
força. agora
depois dos oceanos de trago que já
consumi
parece evidente que o desgaste deveria
ser minha justa recompensa já que sigo
consumindo – ao passo que
os hospícios, as ruas e os cemitérios estão
cheios de gente da minha
laia –
porém toda noite quando visito esta máquina
com a minha garrafa
os poemas fulguram e saltam, sem
parar – rugindo na alegria
do poder tranquilo: 65 anos
dançando – minha boca se contorcendo num
minúsculo sorriso
enquanto estas teclas continuam emitindo
uma substancial energia de vesgo
milagre.
os deuses foram bons comigo ao longo deste
estilo de vida que teria matado
até um touro
e eu estou longe de ser um
touro.
senti desde o começo,
claro, que havia uma estranha corrosão
dentro de mim
mas nem em sonho imaginei essa
sorte
essa absoluta dádiva
divina
minha morte vai parecer no máximo
uma
ideia tardia.
1 176
Charles Bukowski
O Melhor da Raça
não há nada para
discutir
não há nada para
lembrar
não há nada para
esquecer
é triste
e
não é
triste
parece que a
coisa
mais sensata
que uma pessoa pode
fazer
é
sentar
com bebida na
mão
enquanto as paredes
acenam
seus sorrisos
de adeus
a gente sobrevive
a
tudo
com certa
dose de
eficiência e
bravura
e aí
se manda
alguns aceitam
a possibilidade de que
Deus
os ajude
a
superar
outros
encaram
de frente
e à saúde destes
eu bebo
esta noite.
discutir
não há nada para
lembrar
não há nada para
esquecer
é triste
e
não é
triste
parece que a
coisa
mais sensata
que uma pessoa pode
fazer
é
sentar
com bebida na
mão
enquanto as paredes
acenam
seus sorrisos
de adeus
a gente sobrevive
a
tudo
com certa
dose de
eficiência e
bravura
e aí
se manda
alguns aceitam
a possibilidade de que
Deus
os ajude
a
superar
outros
encaram
de frente
e à saúde destes
eu bebo
esta noite.
1 453
Charles Bukowski
Meu Primeiro Caso Com Aquela Mulher Mais Velha
quando penso agora
no abuso que sofri nas mãos
dela
sinto vergonha por ter sido tão
inocente,
mas devo dizer
que ela bebia comigo de igual para
igual,
e eu percebi que sua vida e
seus sentimentos pelas coisas
tinham sido arruinados
ao longo do caminho
e que eu não passava de uma
companhia
temporária;
ela era dez anos mais velha
e ferida de morte pelo passado
e pelo presente;
ela me tratava mal:
abandono, outros
homens;
ela me causava imensa
dor,
continuamente;
ela mentia, roubava;
houve abandono,
outros homens,
mas tivemos bons momentos; e
a nossa novelinha terminou
com ela em coma
no hospital,
e eu me sentei junto ao leito
por horas
conversando com ela,
e aí ela abriu os olhos
e me viu:
“eu sabia que seria você”,
ela disse,
então fechou seus
olhos.
no dia seguinte ela estava
morta.
eu bebi sozinho
por dois anos
depois disso.
no abuso que sofri nas mãos
dela
sinto vergonha por ter sido tão
inocente,
mas devo dizer
que ela bebia comigo de igual para
igual,
e eu percebi que sua vida e
seus sentimentos pelas coisas
tinham sido arruinados
ao longo do caminho
e que eu não passava de uma
companhia
temporária;
ela era dez anos mais velha
e ferida de morte pelo passado
e pelo presente;
ela me tratava mal:
abandono, outros
homens;
ela me causava imensa
dor,
continuamente;
ela mentia, roubava;
houve abandono,
outros homens,
mas tivemos bons momentos; e
a nossa novelinha terminou
com ela em coma
no hospital,
e eu me sentei junto ao leito
por horas
conversando com ela,
e aí ela abriu os olhos
e me viu:
“eu sabia que seria você”,
ela disse,
então fechou seus
olhos.
no dia seguinte ela estava
morta.
eu bebi sozinho
por dois anos
depois disso.
1 589
Charles Bukowski
Zero
sentado aqui olhando o ponteiro de segundos do TIMEX dar voltas e mais
voltas...
dificilmente será uma noite memorável
sentado aqui procurando cravos na minha nuca
enquanto outros homens se lançam aos lençóis com bonecas chamejantes
eu olho para dentro de mim e encontro um perfeito vazio.
estou sem cigarros e não tenho sequer uma arma para apontar.
este bloqueio de escritor é minha única posse.
o ponteiro de segundos do TIMEX ainda dá voltas e mais
voltas...
eu sempre quis ser escritor
agora sou um que não consegue ser.
poderia muito bem descer a escada e olhar um programa de fim de noite na tv com a esposa
ela vai me perguntar como foi
vou acenar a mão com indiferença
me acomodar ao lado dela
e ver as pessoas de vidro falhando
como eu falhei.
vou descer os degraus agora
que visão:
um homem vazio cuidando para não tropeçar e rachar sua cabeça
vazia.
voltas...
dificilmente será uma noite memorável
sentado aqui procurando cravos na minha nuca
enquanto outros homens se lançam aos lençóis com bonecas chamejantes
eu olho para dentro de mim e encontro um perfeito vazio.
estou sem cigarros e não tenho sequer uma arma para apontar.
este bloqueio de escritor é minha única posse.
o ponteiro de segundos do TIMEX ainda dá voltas e mais
voltas...
eu sempre quis ser escritor
agora sou um que não consegue ser.
poderia muito bem descer a escada e olhar um programa de fim de noite na tv com a esposa
ela vai me perguntar como foi
vou acenar a mão com indiferença
me acomodar ao lado dela
e ver as pessoas de vidro falhando
como eu falhei.
vou descer os degraus agora
que visão:
um homem vazio cuidando para não tropeçar e rachar sua cabeça
vazia.
1 234
Charles Bukowski
Bem, É Assim Que É...
às vezes quando tudo parece estar no
fundo do poço
quando tudo conspira
e atormenta
e as horas, os dias, as semanas
os anos
parecem desperdiçados –
estirado ali na minha cama
no escuro
olhando para o teto
recaio em algo que muitos considerariam
um pensamento repugnante:
ainda é bom ser
Bukowski.
fundo do poço
quando tudo conspira
e atormenta
e as horas, os dias, as semanas
os anos
parecem desperdiçados –
estirado ali na minha cama
no escuro
olhando para o teto
recaio em algo que muitos considerariam
um pensamento repugnante:
ainda é bom ser
Bukowski.
1 152
Charles Bukowski
O Falecimento de Um Grande Homem
ele era o único escritor vivo que conheci e verdadeiramente
admirava e ele estava morrendo quando o
conheci.
(neste esporte somos retraídos nos louvores até mesmo para com
quem o pratica muito bem, mas nunca tive esse
problema com J.F.)
eu o visitei diversas vezes no
hospital (nunca havia ninguém por
perto) e ao entrar no quarto
eu nunca tinha certeza se ele estava adormecido
ou?
“John?”
ele estava estirado ali na cama, cego
e amputado:
diabetes
avançada.
“John, é o
Hank...”
ele respondia e aí nós conversávamos por
um breve tempo (quase sempre ele falava e eu
ouvia: afinal, ele era o nosso mentor, nosso
deus):
Pergunte ao pó
Espere a primavera, Bandini
Dago Red
todos os outros.
ir parar em Hollywood escrevendo
roteiros de cinema
foi isso que o
matou.
“a pior coisa”, ele me disse,
“é a amargura, as pessoas acabam tão
amargas.”
ele não estava amargo, embora tivesse
total direito de
estar...
no enterro eu
encontrei vários de seus coleguinhas
roteiristas.
“que tal a gente escrever algo sobre
o John”, um deles
sugeriu.
“acho que não consigo”, eu
disse a eles.
e, claro, eles nunca
escreveram.
admirava e ele estava morrendo quando o
conheci.
(neste esporte somos retraídos nos louvores até mesmo para com
quem o pratica muito bem, mas nunca tive esse
problema com J.F.)
eu o visitei diversas vezes no
hospital (nunca havia ninguém por
perto) e ao entrar no quarto
eu nunca tinha certeza se ele estava adormecido
ou?
“John?”
ele estava estirado ali na cama, cego
e amputado:
diabetes
avançada.
“John, é o
Hank...”
ele respondia e aí nós conversávamos por
um breve tempo (quase sempre ele falava e eu
ouvia: afinal, ele era o nosso mentor, nosso
deus):
Pergunte ao pó
Espere a primavera, Bandini
Dago Red
todos os outros.
ir parar em Hollywood escrevendo
roteiros de cinema
foi isso que o
matou.
“a pior coisa”, ele me disse,
“é a amargura, as pessoas acabam tão
amargas.”
ele não estava amargo, embora tivesse
total direito de
estar...
no enterro eu
encontrei vários de seus coleguinhas
roteiristas.
“que tal a gente escrever algo sobre
o John”, um deles
sugeriu.
“acho que não consigo”, eu
disse a eles.
e, claro, eles nunca
escreveram.
1 055
Charles Bukowski
Aos Interessados:
se você se casar acham que você está
liquidado
e se você estiver sem mulher acham que você está
incompleto
grande parte dos meus leitores quer que eu
continue escrevendo sobre deitar com loucas e
profissionais de rua –
também sobre estar em cadeias e hospitais, ou
passar fome ou
vomitar até as
tripas.
concordo que a autocomplacência dificilmente rende uma
literatura imortal
mas tampouco a rende a
repetição.
para os leitores ora
deprimidos pela
crença de que sou um homem
contente –
por favor queiram se
alegrar: a aflição às vezes muda
de forma
mas
nunca termina para
ninguém.
liquidado
e se você estiver sem mulher acham que você está
incompleto
grande parte dos meus leitores quer que eu
continue escrevendo sobre deitar com loucas e
profissionais de rua –
também sobre estar em cadeias e hospitais, ou
passar fome ou
vomitar até as
tripas.
concordo que a autocomplacência dificilmente rende uma
literatura imortal
mas tampouco a rende a
repetição.
para os leitores ora
deprimidos pela
crença de que sou um homem
contente –
por favor queiram se
alegrar: a aflição às vezes muda
de forma
mas
nunca termina para
ninguém.
909