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Poemas neste tema

Alma

Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Suicídio

eu havia recentemente enterrado uma mulher com a qual vivi
por três anos
estava entre empregos
meus dentes apodrecendo na minha boca
(liquidei a dor com aspirina e
cerveja)
eu estava sentado no sofá quebrado
olhando o entardecer transformar-se em noite
quando o telefone tocou.
era Morrie.
"sim, Morrie?"
"ouça, Mark está aqui. ele diz que tem que
vê-lo! ele diz que vai cometer
suicídio!"
"ponha-o na linha..."
"não, ele não pode falar, ele
pirou!"
pisei em uma barata que passava.
"passe-me seu pai", eu lhe disse.
Bernie pegou o fone.
"escute, Bernie", eu disse, "que besteira
é essa sobre Mark?"
"é verdade! ele disse que se você não
vier já para cá ele vai se matar!
ele precisa de ajuda, Hank!"
"você acha que ele realmente vai
fazer isso?"
"eu não brincaria com uma coisa
dessas!"
"é longe até San Bernardino."
"são apenas 50 milhas! você pode fazer
em 45 minutos."
"tudo certo, Bernie..."
terminei minha cerveja, andei até meu
carro velho de 12 anos.
deu partida e peguei a
autoestrada.
foi uma viagem longa, sombria e estúpida.
Mark era uma dessas pessoas que
sempre insistiam que nossa amizade
era de verdade
pouco importando quanto esforço eu
fizesse para
ficar longe dele.
eu finalmente parei na frente da
casa.
desci do carro, bati na porta.
Morrie atendeu à porta.
ele tinha um tique na cabeça.
quando algo o aborrecia sua
cabeça começava a pular.
ela estava pulando por toda a
entrada da casa.
"Mark tem estado conosco",
ele disse, "pelas últimas duas
semanas."
entrei.
Mark estava sentado no sofá
segurando uma cerveja.
sorriu para mim.
estava usando o velho roupão
de Bernie.
não aparentava
estar
contemplando
suicídio.
"onde está seu pai?", perguntei
a Morrie.
"foi dormir. foi para a
cama. ele não está
passando bem."
"são apenas 7: 30."
"ele não está passando bem."
eu me sentei. havia um fogo aceso
na lareira.
"que tal uma cerveja?", Morrie perguntou,
sua cabeça pulando.
"com certeza. cadê sua mãe?"
"ela não está em casa."
Mark pigarreou. então, em sua
voz calma, começou a falar sobre a
escrita dele: agora estava fixado em serial killers. ele
havia escrito um romance. tinha uma
agente. fora vê-la naquela
tarde. ela tinha uma piscina.
haviam nadado juntos na piscina. ela
era um pedação de mulher com grandes conexões.
entendia que sua escrita era excepcional.
ela ia assumir sua carreira e
torná-lo famoso e...
desliguei enquanto ele seguia em frente e seguia em frente.
ele estava usando um lenço de seda ao redor de seu pescoço
gordo.
terminei minha cerveja e Morrie levantou-se de um pulo,
a cabeça saltitando, e me deu outra.
então ouvi de novo a voz de Mark. "sua
escrita me lembra muito a
minha!"
Morrie me deu a cerveja. tomei um bom
gole e olhei a lareira. um
pedaço de madeira estalou naquele momento, uma
fagulha vermelha se soltou, subiu e caiu
para trás.
aquilo foi bonito. aquilo foi bonito e de algum modo
tranquilizador
"gostaria que você lesse um capítulo do meu
romance", Mark disse. "você tem aquela pasta
azul, Morrie?"
Morrie tinha. ele a pôs cuidadosamente em meu
colo.
eu a abri, fui para a primeira página
e comecei a ler...
Mark não sabia escrever, nunca soube.
eu continuei lendo, meus dentes começando a doer.
perguntei para Morrie,
"você tem algum uísque?"
Morrie foi buscar enquanto Mark permanecia sentado ereto
no roupão velho de Morrie, esperando
por minhas palavras de elogio.
eu acharia um jeito de deixá-lo pra lá facilmente
tomara que
sem mentir.
o uísque chegou e tomei um trago
segui na leitura
bebendo
olhando o fogo.
a cabeça de Morrie continuava a pular.
por que certos indivíduos nunca percebem o quanto
são chatos?
ou eles sabem e simplesmente não
ligam?
continuei a ler, desesperançada-
mente.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Ódio a Hemingway

dei ao último livro de Hemingway
As ilhas da corrente
uma resenha ruim
enquanto a maioria dos outros lhe dava
boas resenhas.
mas o ódio a Hemingway
pelo escritor malsucedido
especialmente a mulher escritora
é incompreensível para mim.
essa mulher escritora malsucedida estava enfurecida.
tentei explicar porque achava que
Hemingway escrevia
desse modo.
essa coisa de vida-através-da-morte, ela disse,
absolutamente não é exclusiva de
Hemingway. do que mais toda
a nossa cultura ocidental trata? é a mesma história
mais uma vez e mais
uma vez. nada de novo
aqui!
é verdade, pensei, mas...
atirar em leões significava apenas atirar
em si mesmo? ela perguntou. é isso? é
isso? não quando esses leões estavam desarmados e
ele chegava neles com um rifle e
nem mesmo precisava
chegar perto. realmente! pobrezinho do Heming-
way.
é verdade, pensei, os leões não levam
rifles.
a tradição espanhola. entendo Goya porque ele consegue
ser tão real e completo, ela disse. não entendo
Hemingway como outra coisa a não ser um velho filme de Hollywood
protagonizado por... qual é o nome dele? aquele Cooper que era amigo
dele - aquele cara do Matar ou morrer. uau!
ela não gosta nem mesmo dos amigos dele,
pensei.
você aprende sobre a morte por morrer
não por olhá-la,
ela disse.
isso é verdade, pensei, mas então
como você escreve sobre isso?
você diz que Shakespeare o aborrece, ela disse -
o fato é
que ele sabia muito mais que Hemingway -
Hemingway nunca foi além de ser um
jornalista.
que aprendeu a escrever com Gertrude Stein, pensei.
ele lhe contava o que via, ela disse, mas ele não sabia
o que significava - como as coisas realmente
se relacionam... ele nunca
explicou.
estranho, pensei, era exatamente isso que eu
gostava
nele.
você fala um monte de típica
besteira, ela disse.
que pena, pensei,
ela tem pernas tão lindas
e longas. bem, Goya também tinha razão,
mas você não pode ir para a cama com
Goya.
bem, tudo certo, eu pensei, Hemingway puxou aqueles peixes grandes
para fora do mar e encarou algumas guerras
e assistiu a touros morrerem e atirou em alguns
leões;
escreveu alguns grandes contos
e nos deu 2 ou 3
bons romances
iniciais;
em seu derradeiro dia
Hemingway acenou para
alguns garotos indo para a escola,
eles acenaram de volta, e ele nunca tocou o suco de laranja
à sua frente;
então ele enfiou aquela arma em sua boca como um canudinho
e apertou o gatilho
e um dos poucos imortais da América
era sangue e miolos pelas paredes e pelo
forro da sala, e então todos eles sorriram,
eles sorriram e disseram,
ah, um fresco! ah, um covarde!
sim, ele se aproveitou de McAlmon,
ele se aproveitou de todo mundo
e não tratou Fitzgerald corretamente
e ele datilografava em pé
e uma vez ele esteve em um
hospício,
e Gertie Stein, aquele
canhão,
talvez ela o tivesse
ensinado a
escrever.
mas quem o convenceu de que era hora de morrer?
vocês fizeram isso, vocês
seus bundões
sujos.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

2 Vistas

meu amigo diz, como é que você pode escrever tantos poemas
daí desta janela? eu escrevo, do útero,
ele me diz. a coisa escura da dor,
a ponta da pena da dor.
bom, isso impressiona muito
mas acontece que eu sei que nós dois recebemos uma boa quantidade de
cartas de recusa, fumamos uma boa quantidade de cigarros,
bebemos demais e tentamos roubar as mulheres
um do outro, o que não é poesia de jeito nenhum.
e ele me lê seus poemas
ele sempre me lê seus poemas
e eu ouço e não digo muita coisa,
olho pela janela,
e lá está a mesma rua
minha rua,
minha rua bêbada, ensolarada, enchuvarada, da
criançada,
e à noite olho para esta rua
às vezes
quando ela pensa que não a estou olhando,
os 1 ou 2 carros movendo-se silenciosamente,
o mesmo velho, ainda vivo, em sua
caminhada noturna,
as cortinas das casas cerradas,
o amor falhou mas
se aguenta
então vamos em frente.
mas agora é dia claro e as crianças
que algum dia serão homens velhos e mulheres velhas
caminhando através de seus últimos momentos,
essas crianças correm ao redor de um carro vermelho
gritando qualquer bobagem,
então meu amigo pousa seu poema.
bem, o que você acha?, ele pergunta.
tente assim e assim, eu cito uma revista
e então estranhamente
penso em guitarras sob o mar
tentando tocar música;
isso é triste e bom e quieto.
ele me vê parado à janela.
o que há lá fora?
olhe, eu digo,
e veja...
ele é 11 anos mais novo que eu.
ele se afasta da janela. eu preciso de uma cerveja,
não tenho mais cerveja.
caminho até a geladeira
e o assunto está encerrado.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Pague Seu Aluguel Ou Saia

em algum lugar a princesa morta
dorme com um novo amante;
só tenho alguns pacotes vazios de tocos
de cigarro que sobraram
pescados de volta pelas redes de anseios
mas tudo está bem
exceto a cor e a conduta
da abelha,
a cera demasiado vermelha
e um bilhete da mulher
na colina
que compra meus quadros:
"preocupada com você. ligue-
-me. amor. R.",
e outro bilhete sob a
porta:
"pague seu aluguel ou saia".
o aquecedor está ligado e
há um pote de pura pimenta
em pó a encarar-me,
e papel para datilografar
para preencher com poemas;
tudo está bem,
calçadas ecoam os cliques dos
saltos,
motores dão partida,
e eu tenho que lavar essas malditas
xícaras rachadas de café;
e eu me pergunto: como vai você hoje, meu
amigo?
como você está? desapontado?
infeliz?
eu? é duro. duro como um
bom poema.
mas eu me sinto muito bem,
e realmente,
essencialmente, daqui a pouco eu
vou comer
ou picadinho ou ensopado, qualquer coisa
de dentro de uma lata.
eu também poderei fazer levantamento de pesos e
espero
continuar me sentindo legal, embora meu
rádio esteja chiando
e fale de besteiras como
bons serviços de jatos;
agora são 7:30, e esse é
o jeito de homens
viverem e morrerem: não o jeito de Eliot
mas
meu jeito, nosso jeito,
quietos como uma asa fechada,
ódio queimado como em uma chaminé;
os lençóis baixando
rasgados pelo tempo
e à minha direita há uma faca que
não cortaria nem mesmo uma cebola
mas eu não tenho nenhuma cebola para
cortar, e
eu espero que você também
esteja se sentindo bem.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Sopa, Cosmos e Lágrimas

conheci muitas mulheres loucas
porém a mais louca foi
Annette
e parece que quanto mais loucas são
tanto melhor trepam,
e que corpo elas
têm. Annette sempre viveu com
chineses
mas você nunca os via
e era isso o que metia medo.
até a Máfia tem medo dos chineses -
"cadê o dragão, garota?"
"está tudo bem. ele sabe que está tudo bem com você."
"tem certeza? quando põem o X em você,
então você pode muito bem
esquecer."
"eu disse a eles que está tudo bem com você. isso é tudo que
eles precisam."
Annette tinha incenso queimando,
toda espécie de mapas e livros malucos,
ela sempre falava sobre os deuses
ela tinha uma linha direta com os deuses.
"você foi selecionado pelos deuses", ela me
disse.
"está bem, garota, vamos transar
então."
"agora não. quero que você experimente esta sopa especial
que eu fiz."
"sopa especial?"
"sim, tome-a e você herdará as forças da
terra e do sol, o cosmos
inteiro."
lá fui eu e tomei a sopa. francamente, o gosto era bom,
embora meio enferrujado. nem queira saber que diabos ela
pôs lá dentro. eu a tomei
toda.
"eu me sinto como um homem de aço
agora."
"você herdou a força", ela disse, "os deuses estão
orgulhosos de você."
no sofá eu finalmente a
agarrei. debaixo daquele leve vestido cor de laranja
havia bastante mulher para matar um
boi.
"morei naquele hotel em Paris", ela disse. "dormi com todos
eles. Burroughs, a turma
toda. conheci Pound em St. Liz."
"você dormiu com Ezra?"
"mais do que com qualquer outro!"
"ora, vá se foder!"
"vá", ela riu, "em frente."
foi uma boa
sopa. aqueles rapazes de Paris e
Ezra haviam conhecido uma boa
égua.
eu saí
dela.
quando ela voltou do banheiro estava
com uma garrafa na mão e começou a me salpicar
com o
conteúdo.
"ei, que porra é essa?"
"as lágrimas dos
deuses."
"as lágrimas dos deuses?"
"sim, as lágrimas dos
deuses."
eu fiquei lá deitado até que ela
terminasse.
então eu me levantei e me
vesti.
"quando posso ver você
de novo?"
"em 2 horas ou
amanhã"
eu saí em direção à porta.
"você caminha como um
poema", ela disse.
"vejo você em 2
horas", eu lhe
disse.
a porta se fechou. o que um homem tem que aguentar por
um rabo
nestes tempos modernos é
altamente
suspeito.
1 221
Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Vida na Agência De Correios

eu me agacho diante desse labirinto
de caixotes de madeira
enfiando pequenos cartões e cartas
endereçados a inexistentes
vidas
enquanto a cidade toda comemora
e fode pelas ruas e canta
com os pássaros.
eu fico parado debaixo de uma fraca luz elétrica
e mando mensagens para um Garcia falecido,
e tenho idade suficiente para morrer
(sempre tive idade suficiente para morrer)
enquanto fico parado diante dessa bagunça de madeira
e alimento sua fome muda;
este é meu trabalho, meu aluguel, minha puta, meus sapatos,
o escorrer da cor dos meus olhos;
chefe, foda-se, você me achou,
minha boca franzida,
minhas mãos enrugadas contra meu
peito branco com manchas vermelhas;
a rua é tão dura, ao menos
dê-me o descanso pelo qual paguei uma vida,
e quando o Gavião chegar
eu o encontrarei no meio do caminho,
nos abraçaremos lá onde o papel de parede está rasgado
onde a chuva entrou.
agora estou parado diante de um cemitério de olhos e bocas
de cabeças esvaziadas para sombras
e sombras entram
como ratos e me olham.
eu remexo em cartões e cartas com números secretos enquanto
agentes cortam os fios e testam meu batimento cardíaco,
para escutar sanidade
ou alegria ou amor, e sem acharem nada,
satisfeitos, vão embora;
flap, flap, flap, estou parado diante do labirinto de madeira
e minha alma desfalece
e além do labirinto há uma janela
com sons, grama, caminhada, torres, cães,
mas aqui estou e aqui fico,
enviando cartas com minha própria demissão;
e eu estou cansado de me importar: ir embora, largar tudo,
e tocar fogo.
718
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Estrangeiro Em Uma Cidade Estranha

eu havia acabado de chegar
a outra cidade estranha
e havia deixado meu quarto e
me encontrava caminhando ao longo
do que devia ter sido
uma avenida principal
na qual os automóveis corriam indo
e vindo com o que parecia ser
um propósito
definido.
aquele bulevar movimentado parecia
estender-se sem fim
à minha frente e
parecia seguir
direto até a beirada
da Terra,
e então
depois de caminhar por um tempo
eu me dei conta
de que estava
perdido, de que
havia esquecido o nome
da rua em que meu
quarto ficava
ou
onde estava.
não havia deixado nada
naquele quarto
a não ser a diária paga
por uma semana
mais uma mala
amarrotada
cheia de minhas roupas velhas
mas aquilo era
tudo o que
eu tinha
então comecei a examinar
as travessas
procurando
meu quarto
e logo fiquei
com medo, um
terror paralisante como uma doença
fatal
espalhando-se em mim
enquanto
eu continuava a andar
para cima e para baixo por ruas
desconhecidas
até que minha mente
me dissesse:
você está louco, é só
isso, você deveria
desistir e tentar
resolver
isso.
mas eu só continuava a andar.
havia sido uma
longa tarde e agora
deslizava
noite adentro.
meus pés doíam
em meus sapatos
baratos.
então foi
escurecendo, já era noite,
mas eu continuei
a caminhar.
sentia como se
tivesse caminhado
para cima e para baixo
pelas
mesmas ruas
de novo e de novo.
então finalmente
reconheci meu
prédio!
e subi correndo
os degraus
e pela escadaria até
o segundo andar
e meu quarto ainda estava
láeeu
abri a porta,
fechei-a depois de entrar,
e fiquei
seguro lá dentro.
lá estava a
mala
no assoalho,
ainda cheia das minhas
roupas velhas.
eu ouvi um homem
rir
em outro
dos quartos e subitamente
me senti muito
melhor.
eu tirei meus sapatos,
camisa, calças,
sentei-me na beirada
da cama e
enrolei um
cigarro.
e aí me reclinei no
travesseiro e
fumei.
eu tinha 20 anos de idade
e 14 dólares
na minha carteira.
então me lembrei
da minha garrafa de vinho.
puxei-a sob a
cama, destampei-a
e tomei um bom
trago.
resolvi que
não estava louco.
peguei um jornal
do chão
e fui para a seção de
empregos:
lavador de pratos, auxiliar
aduaneiro, estoquista,
guarda noturno...
joguei o jornal
no chão.
eu procuraria um
emprego
depois de
amanhã.
então apaguei
o cigarro
satisfeito
e fui
dormir.
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