Poemas neste tema
Alma
Charles Bukowski
O Suicídio
eu havia recentemente enterrado uma mulher com a qual vivi
por três anos
estava entre empregos
meus dentes apodrecendo na minha boca
(liquidei a dor com aspirina e
cerveja)
eu estava sentado no sofá quebrado
olhando o entardecer transformar-se em noite
quando o telefone tocou.
era Morrie.
"sim, Morrie?"
"ouça, Mark está aqui. ele diz que tem que
vê-lo! ele diz que vai cometer
suicídio!"
"ponha-o na linha..."
"não, ele não pode falar, ele
pirou!"
pisei em uma barata que passava.
"passe-me seu pai", eu lhe disse.
Bernie pegou o fone.
"escute, Bernie", eu disse, "que besteira
é essa sobre Mark?"
"é verdade! ele disse que se você não
vier já para cá ele vai se matar!
ele precisa de ajuda, Hank!"
"você acha que ele realmente vai
fazer isso?"
"eu não brincaria com uma coisa
dessas!"
"é longe até San Bernardino."
"são apenas 50 milhas! você pode fazer
em 45 minutos."
"tudo certo, Bernie..."
terminei minha cerveja, andei até meu
carro velho de 12 anos.
deu partida e peguei a
autoestrada.
foi uma viagem longa, sombria e estúpida.
Mark era uma dessas pessoas que
sempre insistiam que nossa amizade
era de verdade
pouco importando quanto esforço eu
fizesse para
ficar longe dele.
eu finalmente parei na frente da
casa.
desci do carro, bati na porta.
Morrie atendeu à porta.
ele tinha um tique na cabeça.
quando algo o aborrecia sua
cabeça começava a pular.
ela estava pulando por toda a
entrada da casa.
"Mark tem estado conosco",
ele disse, "pelas últimas duas
semanas."
entrei.
Mark estava sentado no sofá
segurando uma cerveja.
sorriu para mim.
estava usando o velho roupão
de Bernie.
não aparentava
estar
contemplando
suicídio.
"onde está seu pai?", perguntei
a Morrie.
"foi dormir. foi para a
cama. ele não está
passando bem."
"são apenas 7: 30."
"ele não está passando bem."
eu me sentei. havia um fogo aceso
na lareira.
"que tal uma cerveja?", Morrie perguntou,
sua cabeça pulando.
"com certeza. cadê sua mãe?"
"ela não está em casa."
Mark pigarreou. então, em sua
voz calma, começou a falar sobre a
escrita dele: agora estava fixado em serial killers. ele
havia escrito um romance. tinha uma
agente. fora vê-la naquela
tarde. ela tinha uma piscina.
haviam nadado juntos na piscina. ela
era um pedação de mulher com grandes conexões.
entendia que sua escrita era excepcional.
ela ia assumir sua carreira e
torná-lo famoso e...
desliguei enquanto ele seguia em frente e seguia em frente.
ele estava usando um lenço de seda ao redor de seu pescoço
gordo.
terminei minha cerveja e Morrie levantou-se de um pulo,
a cabeça saltitando, e me deu outra.
então ouvi de novo a voz de Mark. "sua
escrita me lembra muito a
minha!"
Morrie me deu a cerveja. tomei um bom
gole e olhei a lareira. um
pedaço de madeira estalou naquele momento, uma
fagulha vermelha se soltou, subiu e caiu
para trás.
aquilo foi bonito. aquilo foi bonito e de algum modo
tranquilizador
"gostaria que você lesse um capítulo do meu
romance", Mark disse. "você tem aquela pasta
azul, Morrie?"
Morrie tinha. ele a pôs cuidadosamente em meu
colo.
eu a abri, fui para a primeira página
e comecei a ler...
Mark não sabia escrever, nunca soube.
eu continuei lendo, meus dentes começando a doer.
perguntei para Morrie,
"você tem algum uísque?"
Morrie foi buscar enquanto Mark permanecia sentado ereto
no roupão velho de Morrie, esperando
por minhas palavras de elogio.
eu acharia um jeito de deixá-lo pra lá facilmente
tomara que
sem mentir.
o uísque chegou e tomei um trago
segui na leitura
bebendo
olhando o fogo.
a cabeça de Morrie continuava a pular.
por que certos indivíduos nunca percebem o quanto
são chatos?
ou eles sabem e simplesmente não
ligam?
continuei a ler, desesperançada-
mente.
por três anos
estava entre empregos
meus dentes apodrecendo na minha boca
(liquidei a dor com aspirina e
cerveja)
eu estava sentado no sofá quebrado
olhando o entardecer transformar-se em noite
quando o telefone tocou.
era Morrie.
"sim, Morrie?"
"ouça, Mark está aqui. ele diz que tem que
vê-lo! ele diz que vai cometer
suicídio!"
"ponha-o na linha..."
"não, ele não pode falar, ele
pirou!"
pisei em uma barata que passava.
"passe-me seu pai", eu lhe disse.
Bernie pegou o fone.
"escute, Bernie", eu disse, "que besteira
é essa sobre Mark?"
"é verdade! ele disse que se você não
vier já para cá ele vai se matar!
ele precisa de ajuda, Hank!"
"você acha que ele realmente vai
fazer isso?"
"eu não brincaria com uma coisa
dessas!"
"é longe até San Bernardino."
"são apenas 50 milhas! você pode fazer
em 45 minutos."
"tudo certo, Bernie..."
terminei minha cerveja, andei até meu
carro velho de 12 anos.
deu partida e peguei a
autoestrada.
foi uma viagem longa, sombria e estúpida.
Mark era uma dessas pessoas que
sempre insistiam que nossa amizade
era de verdade
pouco importando quanto esforço eu
fizesse para
ficar longe dele.
eu finalmente parei na frente da
casa.
desci do carro, bati na porta.
Morrie atendeu à porta.
ele tinha um tique na cabeça.
quando algo o aborrecia sua
cabeça começava a pular.
ela estava pulando por toda a
entrada da casa.
"Mark tem estado conosco",
ele disse, "pelas últimas duas
semanas."
entrei.
Mark estava sentado no sofá
segurando uma cerveja.
sorriu para mim.
estava usando o velho roupão
de Bernie.
não aparentava
estar
contemplando
suicídio.
"onde está seu pai?", perguntei
a Morrie.
"foi dormir. foi para a
cama. ele não está
passando bem."
"são apenas 7: 30."
"ele não está passando bem."
eu me sentei. havia um fogo aceso
na lareira.
"que tal uma cerveja?", Morrie perguntou,
sua cabeça pulando.
"com certeza. cadê sua mãe?"
"ela não está em casa."
Mark pigarreou. então, em sua
voz calma, começou a falar sobre a
escrita dele: agora estava fixado em serial killers. ele
havia escrito um romance. tinha uma
agente. fora vê-la naquela
tarde. ela tinha uma piscina.
haviam nadado juntos na piscina. ela
era um pedação de mulher com grandes conexões.
entendia que sua escrita era excepcional.
ela ia assumir sua carreira e
torná-lo famoso e...
desliguei enquanto ele seguia em frente e seguia em frente.
ele estava usando um lenço de seda ao redor de seu pescoço
gordo.
terminei minha cerveja e Morrie levantou-se de um pulo,
a cabeça saltitando, e me deu outra.
então ouvi de novo a voz de Mark. "sua
escrita me lembra muito a
minha!"
Morrie me deu a cerveja. tomei um bom
gole e olhei a lareira. um
pedaço de madeira estalou naquele momento, uma
fagulha vermelha se soltou, subiu e caiu
para trás.
aquilo foi bonito. aquilo foi bonito e de algum modo
tranquilizador
"gostaria que você lesse um capítulo do meu
romance", Mark disse. "você tem aquela pasta
azul, Morrie?"
Morrie tinha. ele a pôs cuidadosamente em meu
colo.
eu a abri, fui para a primeira página
e comecei a ler...
Mark não sabia escrever, nunca soube.
eu continuei lendo, meus dentes começando a doer.
perguntei para Morrie,
"você tem algum uísque?"
Morrie foi buscar enquanto Mark permanecia sentado ereto
no roupão velho de Morrie, esperando
por minhas palavras de elogio.
eu acharia um jeito de deixá-lo pra lá facilmente
tomara que
sem mentir.
o uísque chegou e tomei um trago
segui na leitura
bebendo
olhando o fogo.
a cabeça de Morrie continuava a pular.
por que certos indivíduos nunca percebem o quanto
são chatos?
ou eles sabem e simplesmente não
ligam?
continuei a ler, desesperançada-
mente.
1 384
Charles Bukowski
O Ódio a Hemingway
dei ao último livro de Hemingway
As ilhas da corrente
uma resenha ruim
enquanto a maioria dos outros lhe dava
boas resenhas.
mas o ódio a Hemingway
pelo escritor malsucedido
especialmente a mulher escritora
é incompreensível para mim.
essa mulher escritora malsucedida estava enfurecida.
tentei explicar porque achava que
Hemingway escrevia
desse modo.
essa coisa de vida-através-da-morte, ela disse,
absolutamente não é exclusiva de
Hemingway. do que mais toda
a nossa cultura ocidental trata? é a mesma história
mais uma vez e mais
uma vez. nada de novo
aqui!
é verdade, pensei, mas...
atirar em leões significava apenas atirar
em si mesmo? ela perguntou. é isso? é
isso? não quando esses leões estavam desarmados e
ele chegava neles com um rifle e
nem mesmo precisava
chegar perto. realmente! pobrezinho do Heming-
way.
é verdade, pensei, os leões não levam
rifles.
a tradição espanhola. entendo Goya porque ele consegue
ser tão real e completo, ela disse. não entendo
Hemingway como outra coisa a não ser um velho filme de Hollywood
protagonizado por... qual é o nome dele? aquele Cooper que era amigo
dele - aquele cara do Matar ou morrer. uau!
ela não gosta nem mesmo dos amigos dele,
pensei.
você aprende sobre a morte por morrer
não por olhá-la,
ela disse.
isso é verdade, pensei, mas então
como você escreve sobre isso?
você diz que Shakespeare o aborrece, ela disse -
o fato é
que ele sabia muito mais que Hemingway -
Hemingway nunca foi além de ser um
jornalista.
que aprendeu a escrever com Gertrude Stein, pensei.
ele lhe contava o que via, ela disse, mas ele não sabia
o que significava - como as coisas realmente
se relacionam... ele nunca
explicou.
estranho, pensei, era exatamente isso que eu
gostava
nele.
você fala um monte de típica
besteira, ela disse.
que pena, pensei,
ela tem pernas tão lindas
e longas. bem, Goya também tinha razão,
mas você não pode ir para a cama com
Goya.
bem, tudo certo, eu pensei, Hemingway puxou aqueles peixes grandes
para fora do mar e encarou algumas guerras
e assistiu a touros morrerem e atirou em alguns
leões;
escreveu alguns grandes contos
e nos deu 2 ou 3
bons romances
iniciais;
em seu derradeiro dia
Hemingway acenou para
alguns garotos indo para a escola,
eles acenaram de volta, e ele nunca tocou o suco de laranja
à sua frente;
então ele enfiou aquela arma em sua boca como um canudinho
e apertou o gatilho
e um dos poucos imortais da América
era sangue e miolos pelas paredes e pelo
forro da sala, e então todos eles sorriram,
eles sorriram e disseram,
ah, um fresco! ah, um covarde!
sim, ele se aproveitou de McAlmon,
ele se aproveitou de todo mundo
e não tratou Fitzgerald corretamente
e ele datilografava em pé
e uma vez ele esteve em um
hospício,
e Gertie Stein, aquele
canhão,
talvez ela o tivesse
ensinado a
escrever.
mas quem o convenceu de que era hora de morrer?
vocês fizeram isso, vocês
seus bundões
sujos.
As ilhas da corrente
uma resenha ruim
enquanto a maioria dos outros lhe dava
boas resenhas.
mas o ódio a Hemingway
pelo escritor malsucedido
especialmente a mulher escritora
é incompreensível para mim.
essa mulher escritora malsucedida estava enfurecida.
tentei explicar porque achava que
Hemingway escrevia
desse modo.
essa coisa de vida-através-da-morte, ela disse,
absolutamente não é exclusiva de
Hemingway. do que mais toda
a nossa cultura ocidental trata? é a mesma história
mais uma vez e mais
uma vez. nada de novo
aqui!
é verdade, pensei, mas...
atirar em leões significava apenas atirar
em si mesmo? ela perguntou. é isso? é
isso? não quando esses leões estavam desarmados e
ele chegava neles com um rifle e
nem mesmo precisava
chegar perto. realmente! pobrezinho do Heming-
way.
é verdade, pensei, os leões não levam
rifles.
a tradição espanhola. entendo Goya porque ele consegue
ser tão real e completo, ela disse. não entendo
Hemingway como outra coisa a não ser um velho filme de Hollywood
protagonizado por... qual é o nome dele? aquele Cooper que era amigo
dele - aquele cara do Matar ou morrer. uau!
ela não gosta nem mesmo dos amigos dele,
pensei.
você aprende sobre a morte por morrer
não por olhá-la,
ela disse.
isso é verdade, pensei, mas então
como você escreve sobre isso?
você diz que Shakespeare o aborrece, ela disse -
o fato é
que ele sabia muito mais que Hemingway -
Hemingway nunca foi além de ser um
jornalista.
que aprendeu a escrever com Gertrude Stein, pensei.
ele lhe contava o que via, ela disse, mas ele não sabia
o que significava - como as coisas realmente
se relacionam... ele nunca
explicou.
estranho, pensei, era exatamente isso que eu
gostava
nele.
você fala um monte de típica
besteira, ela disse.
que pena, pensei,
ela tem pernas tão lindas
e longas. bem, Goya também tinha razão,
mas você não pode ir para a cama com
Goya.
bem, tudo certo, eu pensei, Hemingway puxou aqueles peixes grandes
para fora do mar e encarou algumas guerras
e assistiu a touros morrerem e atirou em alguns
leões;
escreveu alguns grandes contos
e nos deu 2 ou 3
bons romances
iniciais;
em seu derradeiro dia
Hemingway acenou para
alguns garotos indo para a escola,
eles acenaram de volta, e ele nunca tocou o suco de laranja
à sua frente;
então ele enfiou aquela arma em sua boca como um canudinho
e apertou o gatilho
e um dos poucos imortais da América
era sangue e miolos pelas paredes e pelo
forro da sala, e então todos eles sorriram,
eles sorriram e disseram,
ah, um fresco! ah, um covarde!
sim, ele se aproveitou de McAlmon,
ele se aproveitou de todo mundo
e não tratou Fitzgerald corretamente
e ele datilografava em pé
e uma vez ele esteve em um
hospício,
e Gertie Stein, aquele
canhão,
talvez ela o tivesse
ensinado a
escrever.
mas quem o convenceu de que era hora de morrer?
vocês fizeram isso, vocês
seus bundões
sujos.
677
Charles Bukowski
Embaçado
fui ver minha filha.
ela está com 11 anos e havia acabado de
tomar banho e estava se
vestindo no banheiro de modo que eu não
a visse, e sua
mãe disse, "você sabe, você gosta
de fazer um enorme drama sobre
essa coisa das suas mulheres,
você adora isso, você adora que elas
briguem e berrem por
você, você acha isso engraçado,
não é?"
"ora, querida...", eu disse.
"algum dia uma mulher vai
enfiar uma faca em seu coração,
você vai ser morto e
enquanto estiver morrendo você vai
dizer, "você enfiou essa coisa
em mim depressa demais!"
minha filha saiu, toda
vestida, e eu disse à mãe dela
que a traria de volta em
3 horas.
a umas 4 milhas de distância achamos
um lugar para comer.
minha filha pediu um hambúrguer
e leite.
eu pedi camarão frito com
sopa, fritas, mais café.
comemos, dei gorjeta para a garçonete,
paguei no caixa, depois
saímos e entramos em meu
carro. era um dia escuro, com nuvens
baixas, não dava para ver nenhum
sol. "sua mãe", eu lhe disse
enquanto íamos embora, "não passa
de uma sabe-tudo."
ela está com 11 anos e havia acabado de
tomar banho e estava se
vestindo no banheiro de modo que eu não
a visse, e sua
mãe disse, "você sabe, você gosta
de fazer um enorme drama sobre
essa coisa das suas mulheres,
você adora isso, você adora que elas
briguem e berrem por
você, você acha isso engraçado,
não é?"
"ora, querida...", eu disse.
"algum dia uma mulher vai
enfiar uma faca em seu coração,
você vai ser morto e
enquanto estiver morrendo você vai
dizer, "você enfiou essa coisa
em mim depressa demais!"
minha filha saiu, toda
vestida, e eu disse à mãe dela
que a traria de volta em
3 horas.
a umas 4 milhas de distância achamos
um lugar para comer.
minha filha pediu um hambúrguer
e leite.
eu pedi camarão frito com
sopa, fritas, mais café.
comemos, dei gorjeta para a garçonete,
paguei no caixa, depois
saímos e entramos em meu
carro. era um dia escuro, com nuvens
baixas, não dava para ver nenhum
sol. "sua mãe", eu lhe disse
enquanto íamos embora, "não passa
de uma sabe-tudo."
763
Charles Bukowski
Van Gogh e 9 Rodadas Do Jogo
as noites de navio de guerra na Geórgia
quando todos nós
naufragamos.
você sabe? houve esse russo que
saltava acompanhando a música tão bem que o fazia chorar
e ele ficou louco
e eles o puseram em algum lugar e o
alimentaram e
lhe deram choques com fios elétricos e água fria
e depois
água quente e ele escreveu livros sobre si mesmo
que ele não conseguia ler
ou lembrar.
lá fora no jogo
em Atlanta
eu os via correndo, suando,
e eu sentado lá pensando no
holandês
(em vez do russo)
o holandês com a pincelada com escova de
dentes
que nunca aprendeu a misturar suas tintas
apropriadamente e que nem mesmo conseguiu fazer
que uma puta o amasse
e então tudo acabou
para ele e para a puta
e ele cortou sua orelha e continuou a
implorar por tintas
e eles escrevem livros a seu respeito
agora
mas ele está morto e não os pode ler
e eu vi algumas das suas coisas em uma
galeria
ano passado - eles as haviam amarrado e
vigiado de modo que você não pudesse tocar as
obras.
alguém venceu o jogo em Atlanta e a
puta
não quis sua
orelha.
quando todos nós
naufragamos.
você sabe? houve esse russo que
saltava acompanhando a música tão bem que o fazia chorar
e ele ficou louco
e eles o puseram em algum lugar e o
alimentaram e
lhe deram choques com fios elétricos e água fria
e depois
água quente e ele escreveu livros sobre si mesmo
que ele não conseguia ler
ou lembrar.
lá fora no jogo
em Atlanta
eu os via correndo, suando,
e eu sentado lá pensando no
holandês
(em vez do russo)
o holandês com a pincelada com escova de
dentes
que nunca aprendeu a misturar suas tintas
apropriadamente e que nem mesmo conseguiu fazer
que uma puta o amasse
e então tudo acabou
para ele e para a puta
e ele cortou sua orelha e continuou a
implorar por tintas
e eles escrevem livros a seu respeito
agora
mas ele está morto e não os pode ler
e eu vi algumas das suas coisas em uma
galeria
ano passado - eles as haviam amarrado e
vigiado de modo que você não pudesse tocar as
obras.
alguém venceu o jogo em Atlanta e a
puta
não quis sua
orelha.
965
Charles Bukowski
2 Vistas
meu amigo diz, como é que você pode escrever tantos poemas
daí desta janela? eu escrevo, do útero,
ele me diz. a coisa escura da dor,
a ponta da pena da dor.
bom, isso impressiona muito
mas acontece que eu sei que nós dois recebemos uma boa quantidade de
cartas de recusa, fumamos uma boa quantidade de cigarros,
bebemos demais e tentamos roubar as mulheres
um do outro, o que não é poesia de jeito nenhum.
e ele me lê seus poemas
ele sempre me lê seus poemas
e eu ouço e não digo muita coisa,
olho pela janela,
e lá está a mesma rua
minha rua,
minha rua bêbada, ensolarada, enchuvarada, da
criançada,
e à noite olho para esta rua
às vezes
quando ela pensa que não a estou olhando,
os 1 ou 2 carros movendo-se silenciosamente,
o mesmo velho, ainda vivo, em sua
caminhada noturna,
as cortinas das casas cerradas,
o amor falhou mas
se aguenta
então vamos em frente.
mas agora é dia claro e as crianças
que algum dia serão homens velhos e mulheres velhas
caminhando através de seus últimos momentos,
essas crianças correm ao redor de um carro vermelho
gritando qualquer bobagem,
então meu amigo pousa seu poema.
bem, o que você acha?, ele pergunta.
tente assim e assim, eu cito uma revista
e então estranhamente
penso em guitarras sob o mar
tentando tocar música;
isso é triste e bom e quieto.
ele me vê parado à janela.
o que há lá fora?
olhe, eu digo,
e veja...
ele é 11 anos mais novo que eu.
ele se afasta da janela. eu preciso de uma cerveja,
não tenho mais cerveja.
caminho até a geladeira
e o assunto está encerrado.
daí desta janela? eu escrevo, do útero,
ele me diz. a coisa escura da dor,
a ponta da pena da dor.
bom, isso impressiona muito
mas acontece que eu sei que nós dois recebemos uma boa quantidade de
cartas de recusa, fumamos uma boa quantidade de cigarros,
bebemos demais e tentamos roubar as mulheres
um do outro, o que não é poesia de jeito nenhum.
e ele me lê seus poemas
ele sempre me lê seus poemas
e eu ouço e não digo muita coisa,
olho pela janela,
e lá está a mesma rua
minha rua,
minha rua bêbada, ensolarada, enchuvarada, da
criançada,
e à noite olho para esta rua
às vezes
quando ela pensa que não a estou olhando,
os 1 ou 2 carros movendo-se silenciosamente,
o mesmo velho, ainda vivo, em sua
caminhada noturna,
as cortinas das casas cerradas,
o amor falhou mas
se aguenta
então vamos em frente.
mas agora é dia claro e as crianças
que algum dia serão homens velhos e mulheres velhas
caminhando através de seus últimos momentos,
essas crianças correm ao redor de um carro vermelho
gritando qualquer bobagem,
então meu amigo pousa seu poema.
bem, o que você acha?, ele pergunta.
tente assim e assim, eu cito uma revista
e então estranhamente
penso em guitarras sob o mar
tentando tocar música;
isso é triste e bom e quieto.
ele me vê parado à janela.
o que há lá fora?
olhe, eu digo,
e veja...
ele é 11 anos mais novo que eu.
ele se afasta da janela. eu preciso de uma cerveja,
não tenho mais cerveja.
caminho até a geladeira
e o assunto está encerrado.
1 165
Charles Bukowski
Pague Seu Aluguel Ou Saia
em algum lugar a princesa morta
dorme com um novo amante;
só tenho alguns pacotes vazios de tocos
de cigarro que sobraram
pescados de volta pelas redes de anseios
mas tudo está bem
exceto a cor e a conduta
da abelha,
a cera demasiado vermelha
e um bilhete da mulher
na colina
que compra meus quadros:
"preocupada com você. ligue-
-me. amor. R.",
e outro bilhete sob a
porta:
"pague seu aluguel ou saia".
o aquecedor está ligado e
há um pote de pura pimenta
em pó a encarar-me,
e papel para datilografar
para preencher com poemas;
tudo está bem,
calçadas ecoam os cliques dos
saltos,
motores dão partida,
e eu tenho que lavar essas malditas
xícaras rachadas de café;
e eu me pergunto: como vai você hoje, meu
amigo?
como você está? desapontado?
infeliz?
eu? é duro. duro como um
bom poema.
mas eu me sinto muito bem,
e realmente,
essencialmente, daqui a pouco eu
vou comer
ou picadinho ou ensopado, qualquer coisa
de dentro de uma lata.
eu também poderei fazer levantamento de pesos e
espero
continuar me sentindo legal, embora meu
rádio esteja chiando
e fale de besteiras como
bons serviços de jatos;
agora são 7:30, e esse é
o jeito de homens
viverem e morrerem: não o jeito de Eliot
mas
meu jeito, nosso jeito,
quietos como uma asa fechada,
ódio queimado como em uma chaminé;
os lençóis baixando
rasgados pelo tempo
e à minha direita há uma faca que
não cortaria nem mesmo uma cebola
mas eu não tenho nenhuma cebola para
cortar, e
eu espero que você também
esteja se sentindo bem.
dorme com um novo amante;
só tenho alguns pacotes vazios de tocos
de cigarro que sobraram
pescados de volta pelas redes de anseios
mas tudo está bem
exceto a cor e a conduta
da abelha,
a cera demasiado vermelha
e um bilhete da mulher
na colina
que compra meus quadros:
"preocupada com você. ligue-
-me. amor. R.",
e outro bilhete sob a
porta:
"pague seu aluguel ou saia".
o aquecedor está ligado e
há um pote de pura pimenta
em pó a encarar-me,
e papel para datilografar
para preencher com poemas;
tudo está bem,
calçadas ecoam os cliques dos
saltos,
motores dão partida,
e eu tenho que lavar essas malditas
xícaras rachadas de café;
e eu me pergunto: como vai você hoje, meu
amigo?
como você está? desapontado?
infeliz?
eu? é duro. duro como um
bom poema.
mas eu me sinto muito bem,
e realmente,
essencialmente, daqui a pouco eu
vou comer
ou picadinho ou ensopado, qualquer coisa
de dentro de uma lata.
eu também poderei fazer levantamento de pesos e
espero
continuar me sentindo legal, embora meu
rádio esteja chiando
e fale de besteiras como
bons serviços de jatos;
agora são 7:30, e esse é
o jeito de homens
viverem e morrerem: não o jeito de Eliot
mas
meu jeito, nosso jeito,
quietos como uma asa fechada,
ódio queimado como em uma chaminé;
os lençóis baixando
rasgados pelo tempo
e à minha direita há uma faca que
não cortaria nem mesmo uma cebola
mas eu não tenho nenhuma cebola para
cortar, e
eu espero que você também
esteja se sentindo bem.
1 129
Charles Bukowski
O Sonho, O Sonho
sempre há uma nova Carmem dobrando
alguma esquina
em algum lugar
mas então as Carmens nunca parecem
durar;
as Carmens dificilmente duram algum
tempo.
vejo isso nos olhos dos homens
em todo lugar -
homens sentados em balcões de lanchonete
homens dirigindo ônibus
homens fazendo discursos políticos
homens limpando dentes
homens em jaulas de tigres
homens que vejo em todo lugar...
o homem que vejo enquanto faço a barba
me devolve o olhar através de olhos semicerrados
sua Carmem também se foi -
este homem (eu) agora está
pensando no que esta
lâmina realmente poderia
fazer, o pensamento sempre está
ali -
mas o jogo nos faz
seguir em frente: há sempre alguma nova Carmem
à espera
em algum lugar
só dobrando alguma
esquina.
alguma esquina
em algum lugar
mas então as Carmens nunca parecem
durar;
as Carmens dificilmente duram algum
tempo.
vejo isso nos olhos dos homens
em todo lugar -
homens sentados em balcões de lanchonete
homens dirigindo ônibus
homens fazendo discursos políticos
homens limpando dentes
homens em jaulas de tigres
homens que vejo em todo lugar...
o homem que vejo enquanto faço a barba
me devolve o olhar através de olhos semicerrados
sua Carmem também se foi -
este homem (eu) agora está
pensando no que esta
lâmina realmente poderia
fazer, o pensamento sempre está
ali -
mas o jogo nos faz
seguir em frente: há sempre alguma nova Carmem
à espera
em algum lugar
só dobrando alguma
esquina.
1 046
Charles Bukowski
A Galinha
passei por aqui, ela disse,
e pendurei essa galinha assada na maçaneta da sua porta
e dois dias depois ainda estava dependurada lá
balançando ao vento.
você devia ter visto aquela coisa!
e seu carro estava parado lá fora
e a galinha continuava balançando
e eu disse a meu marido,
o que é esse fedor?
ele deve estar morto.
o vento realmente estava fazendo aquela
galinha balançar, você devia ter visto aquela
galinha balançando, e eu disse a meu marido,
esse louco filho de uma puta deve estar morto
lá dentro.
e então ele pegou a chave e entrou.
e aí, eu disse, o que você encontrou?
só garrafas vazias e lixo. você
tinha ido embora. você não estava
lá.
você olhou em todos os armários?
nós olhamos em todo lugar, debaixo da cama,
em todo lugar.
onde será que eu estava?
sei lá. onde você arrumou essa ferida na sua cabeça?
eu estava assando um marshmallow em um cabide
e queimei minha
testa.
ah, achei que alguém havia batido em você.
ahã, eu disse, ahã.
e pendurei essa galinha assada na maçaneta da sua porta
e dois dias depois ainda estava dependurada lá
balançando ao vento.
você devia ter visto aquela coisa!
e seu carro estava parado lá fora
e a galinha continuava balançando
e eu disse a meu marido,
o que é esse fedor?
ele deve estar morto.
o vento realmente estava fazendo aquela
galinha balançar, você devia ter visto aquela
galinha balançando, e eu disse a meu marido,
esse louco filho de uma puta deve estar morto
lá dentro.
e então ele pegou a chave e entrou.
e aí, eu disse, o que você encontrou?
só garrafas vazias e lixo. você
tinha ido embora. você não estava
lá.
você olhou em todos os armários?
nós olhamos em todo lugar, debaixo da cama,
em todo lugar.
onde será que eu estava?
sei lá. onde você arrumou essa ferida na sua cabeça?
eu estava assando um marshmallow em um cabide
e queimei minha
testa.
ah, achei que alguém havia batido em você.
ahã, eu disse, ahã.
1 095
Charles Bukowski
Café da Manhã
acordando em uma daquelas manhãs no depósito de bêbados,
lábio inferior arrebentado, dentes soltos, miolos nadando em
uma cacofonia que não é sua, com
todos aqueles outros estranhos enrolados em farrapos, agora
barulhentos em seu sono louco, com nada para lhe fazer
companhia a não ser uma privada entupida,
um assoalho frio e duro
e a lei de outra
pessoa.
e sempre havia uma voz matinal, uma voz alta:
"CAFÉ DA MANHÃ!"
você normalmente não iria querer aquilo
mas se você quisesse
antes que pudesse pôr em ordem seus pensamentos
e ficar em pé
a porta da cela batia
e se fechava.
agora cada manhã é como um lento sonho
de satisfação. encontro meus chinelos, eu os calço,
vou ao banheiro, então desço a
escada com um turbilhão de corpos peludos, sou
o provedor, o deus, limpo as tigelas dos gatos, abro
as latas e converso com eles e eles se animam e
fazem seus sons ansiosos.
coloco as tigelas no chão enquanto cada gato vai para a sua
própria tigela, então reabasteço o pires com água
e olho todos os cinco comendo
em paz.
volto pela escada até o quarto
onde minha mulher ainda dorme, rastejo sob
as cobertas com ela, viro minhas costas para o sol
e logo estou dormindo de novo.
você tem que morrer algumas vezes antes de poder realmente
viver.
lábio inferior arrebentado, dentes soltos, miolos nadando em
uma cacofonia que não é sua, com
todos aqueles outros estranhos enrolados em farrapos, agora
barulhentos em seu sono louco, com nada para lhe fazer
companhia a não ser uma privada entupida,
um assoalho frio e duro
e a lei de outra
pessoa.
e sempre havia uma voz matinal, uma voz alta:
"CAFÉ DA MANHÃ!"
você normalmente não iria querer aquilo
mas se você quisesse
antes que pudesse pôr em ordem seus pensamentos
e ficar em pé
a porta da cela batia
e se fechava.
agora cada manhã é como um lento sonho
de satisfação. encontro meus chinelos, eu os calço,
vou ao banheiro, então desço a
escada com um turbilhão de corpos peludos, sou
o provedor, o deus, limpo as tigelas dos gatos, abro
as latas e converso com eles e eles se animam e
fazem seus sons ansiosos.
coloco as tigelas no chão enquanto cada gato vai para a sua
própria tigela, então reabasteço o pires com água
e olho todos os cinco comendo
em paz.
volto pela escada até o quarto
onde minha mulher ainda dorme, rastejo sob
as cobertas com ela, viro minhas costas para o sol
e logo estou dormindo de novo.
você tem que morrer algumas vezes antes de poder realmente
viver.
1 245
Charles Bukowski
Canção de Amor Para a Mulher Que Vi Quarta-feira Nas Pistas De Corrida
lembrando Savannah 20 anos atrás
uma cama com dossel
e ruas cheias de capacetes e caçadores
coisas que fiz então
deixaram marcas;
ha ha, diz você,
mas elas voltam vivas enquanto compro pão
ou amarro o cadarço do sapato
e pouco importa
exceto que dá certo para mim
assim como as pernas daquela mulher deram certo para mim
assim como o sol dá certo para mim assim como dá certo para o cacto
e assim como você dá certo para mim
lendo este poema.
e as pernas daquela mulher caminham
enquanto as observo
e os cavalos na próxima corrida
e as montanhas ficam lá
observando
marcas e pernas de uma mulher
pule de 10 no número seis na ponta
e para longe no oceano
ou parado no parque
como uma estátua
eu a vejo
caminhando.
cavalos parados por toda parte:
conchas como de Savannah em meus bolsos:
eu amei você mulher
com certeza assim como eu a nomeei
ferrugem e areia e nylon.
você deu certo para mim
coisa selvagem.
uma cama com dossel
e ruas cheias de capacetes e caçadores
coisas que fiz então
deixaram marcas;
ha ha, diz você,
mas elas voltam vivas enquanto compro pão
ou amarro o cadarço do sapato
e pouco importa
exceto que dá certo para mim
assim como as pernas daquela mulher deram certo para mim
assim como o sol dá certo para mim assim como dá certo para o cacto
e assim como você dá certo para mim
lendo este poema.
e as pernas daquela mulher caminham
enquanto as observo
e os cavalos na próxima corrida
e as montanhas ficam lá
observando
marcas e pernas de uma mulher
pule de 10 no número seis na ponta
e para longe no oceano
ou parado no parque
como uma estátua
eu a vejo
caminhando.
cavalos parados por toda parte:
conchas como de Savannah em meus bolsos:
eu amei você mulher
com certeza assim como eu a nomeei
ferrugem e areia e nylon.
você deu certo para mim
coisa selvagem.
1 124
Charles Bukowski
Olhos Sem Cérebro
na manhã amarga
rosas altas crescem
e os sapos comemoram
vitória.
no balão vazio da noite
nada cresce;
a noite
mastiga e arrota
e a vitória só é comemorada
por senhoras indecentes
com as pernas abertas
e olhos sem cérebro.
ao meio-dia,
por exemplo ao meio-dia,
algo acontece
finalmente.
o farol muda
o tráfego passa.
a própria vida não é o milagre.
que a dor seja tão constante,
esse é o milagre -
aquele martelar da coisa
quando você não pode nem gritar nem chorar
e tudo fica em cima de você
olhando nos seus olhos
comendo sua carne.
manhã noite e meio-dia
o tráfego passa
e o assassinato e a traição
de amigos e amantes
e toda a gente
passa através de você.
dor é a alegria de saber
a menos generosa verdade
que chega sem
avisar.
a vida é estar só.
a morte é estar só.
até os loucos choram
manhã noite e meio-dia.
rosas altas crescem
e os sapos comemoram
vitória.
no balão vazio da noite
nada cresce;
a noite
mastiga e arrota
e a vitória só é comemorada
por senhoras indecentes
com as pernas abertas
e olhos sem cérebro.
ao meio-dia,
por exemplo ao meio-dia,
algo acontece
finalmente.
o farol muda
o tráfego passa.
a própria vida não é o milagre.
que a dor seja tão constante,
esse é o milagre -
aquele martelar da coisa
quando você não pode nem gritar nem chorar
e tudo fica em cima de você
olhando nos seus olhos
comendo sua carne.
manhã noite e meio-dia
o tráfego passa
e o assassinato e a traição
de amigos e amantes
e toda a gente
passa através de você.
dor é a alegria de saber
a menos generosa verdade
que chega sem
avisar.
a vida é estar só.
a morte é estar só.
até os loucos choram
manhã noite e meio-dia.
1 283
Charles Bukowski
A Garota Lá Fora
é 1:30 da tarde
segunda feira
temperatura de 18 graus em novembro
na Western Avenue.
uma garota sai pela porta de uma casa
e fica parada na frente.
uma mulher mais velha sai e se apoia
no marco da porta.
a garota de 20 e poucos anos
em um vestido vermelho
bem justo e de saia curta, ela também está de
meia-calça e chinelos cor de laranja
e tem o jeito de alguém
que acabou de acordar.
ela sorri na tarde.
faz uma breve dança sexy e sorri.
ela é pálida. ela é loira.
de repente ela acena para alguém que passa
de carro.
a vida é interessante.
ela é jovem.
ela é uma garota.
ela dança de novo. ela acena. ela
sorri.
isso tudo é muito bonito para 1:30 da
tarde com 18 graus.
ela quer dinheiro.
ela acena. ela dança.
ela sorri.
a mulher mais velha está entendiada e volta
para dentro.
eu dou partida em meu carro no estacionamento do outro lado
da rua.
dirijo na direção oeste para Oakwood e não vejo mais
a garota.
é tão estranho. eu acho,
todos precisamos de dinheiro.
então eu ligo o rádio e tento
esquecer
tudo isso.
segunda feira
temperatura de 18 graus em novembro
na Western Avenue.
uma garota sai pela porta de uma casa
e fica parada na frente.
uma mulher mais velha sai e se apoia
no marco da porta.
a garota de 20 e poucos anos
em um vestido vermelho
bem justo e de saia curta, ela também está de
meia-calça e chinelos cor de laranja
e tem o jeito de alguém
que acabou de acordar.
ela sorri na tarde.
faz uma breve dança sexy e sorri.
ela é pálida. ela é loira.
de repente ela acena para alguém que passa
de carro.
a vida é interessante.
ela é jovem.
ela é uma garota.
ela dança de novo. ela acena. ela
sorri.
isso tudo é muito bonito para 1:30 da
tarde com 18 graus.
ela quer dinheiro.
ela acena. ela dança.
ela sorri.
a mulher mais velha está entendiada e volta
para dentro.
eu dou partida em meu carro no estacionamento do outro lado
da rua.
dirijo na direção oeste para Oakwood e não vejo mais
a garota.
é tão estranho. eu acho,
todos precisamos de dinheiro.
então eu ligo o rádio e tento
esquecer
tudo isso.
1 164
Charles Bukowski
Agarre o Escuro
estou sentado aqui
agora bêbado
escutando as
mesmas sinfonias
que me deram a
vontade de seguir em frente
quando eu tinha 22 anos.
40 anos depois
elas e eu já não somos mais tão
mágicos.
você deveria ter-me
visto
tão
esbelto
sem
barriga
eu era
um pedaço de
homem:
flamejante, forte,
insano.
dissesse uma palavra
errada
para mim
e eu quebrava a sua cara
na hora.
eu não queria ser
incomodado
com qualquer coisa
ou por qualquer um.
eu parecia estar
sempre a caminho de alguma
cela
depois de ser fichado
por fazer coisas
na avenida
ou fora dela.
agora eu estou aqui
bêbado.
sou
uma série de
pequenas vitórias
e grandes derrotas
e estou tão
espantado
quanto qualquer outro
por
ter conseguido
chegar
até aqui
sem cometer um assassinato
ou ser
assassinado:
sem
ter acabado no
hospício.
enquanto bebo sozinho
de novo esta noite
minha alma apesar da agonia
passada
agradece a todos os deuses
que não estavam
lá
por mim
então.
agora bêbado
escutando as
mesmas sinfonias
que me deram a
vontade de seguir em frente
quando eu tinha 22 anos.
40 anos depois
elas e eu já não somos mais tão
mágicos.
você deveria ter-me
visto
tão
esbelto
sem
barriga
eu era
um pedaço de
homem:
flamejante, forte,
insano.
dissesse uma palavra
errada
para mim
e eu quebrava a sua cara
na hora.
eu não queria ser
incomodado
com qualquer coisa
ou por qualquer um.
eu parecia estar
sempre a caminho de alguma
cela
depois de ser fichado
por fazer coisas
na avenida
ou fora dela.
agora eu estou aqui
bêbado.
sou
uma série de
pequenas vitórias
e grandes derrotas
e estou tão
espantado
quanto qualquer outro
por
ter conseguido
chegar
até aqui
sem cometer um assassinato
ou ser
assassinado:
sem
ter acabado no
hospício.
enquanto bebo sozinho
de novo esta noite
minha alma apesar da agonia
passada
agradece a todos os deuses
que não estavam
lá
por mim
então.
943
Charles Bukowski
Possessão
uma velha senhora fala com uma garota que está
secando seu longo cabelo negro sentada em um degrau dos fundos,
ela aponta com o dedo e fala em uma língua estrangeira
e o sol está muito bonito
enquanto a velha senhora fala e penteia as mechas emaranhadas
(tantas luas se passaram desde então)
de repente a garotinha grita e sacode a cabeça
e juntas voltam para dentro da casa
onde ambas morrerão juntas,
mas não entendem elas
o que foi meu, não delas:
o cabelo, o longo cabelo negro seco ao sol,
e talvez a garota também?
secando seu longo cabelo negro sentada em um degrau dos fundos,
ela aponta com o dedo e fala em uma língua estrangeira
e o sol está muito bonito
enquanto a velha senhora fala e penteia as mechas emaranhadas
(tantas luas se passaram desde então)
de repente a garotinha grita e sacode a cabeça
e juntas voltam para dentro da casa
onde ambas morrerão juntas,
mas não entendem elas
o que foi meu, não delas:
o cabelo, o longo cabelo negro seco ao sol,
e talvez a garota também?
1 226
Charles Bukowski
Sopa, Cosmos e Lágrimas
conheci muitas mulheres loucas
porém a mais louca foi
Annette
e parece que quanto mais loucas são
tanto melhor trepam,
e que corpo elas
têm. Annette sempre viveu com
chineses
mas você nunca os via
e era isso o que metia medo.
até a Máfia tem medo dos chineses -
"cadê o dragão, garota?"
"está tudo bem. ele sabe que está tudo bem com você."
"tem certeza? quando põem o X em você,
então você pode muito bem
esquecer."
"eu disse a eles que está tudo bem com você. isso é tudo que
eles precisam."
Annette tinha incenso queimando,
toda espécie de mapas e livros malucos,
ela sempre falava sobre os deuses
ela tinha uma linha direta com os deuses.
"você foi selecionado pelos deuses", ela me
disse.
"está bem, garota, vamos transar
então."
"agora não. quero que você experimente esta sopa especial
que eu fiz."
"sopa especial?"
"sim, tome-a e você herdará as forças da
terra e do sol, o cosmos
inteiro."
lá fui eu e tomei a sopa. francamente, o gosto era bom,
embora meio enferrujado. nem queira saber que diabos ela
pôs lá dentro. eu a tomei
toda.
"eu me sinto como um homem de aço
agora."
"você herdou a força", ela disse, "os deuses estão
orgulhosos de você."
no sofá eu finalmente a
agarrei. debaixo daquele leve vestido cor de laranja
havia bastante mulher para matar um
boi.
"morei naquele hotel em Paris", ela disse. "dormi com todos
eles. Burroughs, a turma
toda. conheci Pound em St. Liz."
"você dormiu com Ezra?"
"mais do que com qualquer outro!"
"ora, vá se foder!"
"vá", ela riu, "em frente."
foi uma boa
sopa. aqueles rapazes de Paris e
Ezra haviam conhecido uma boa
égua.
eu saí
dela.
quando ela voltou do banheiro estava
com uma garrafa na mão e começou a me salpicar
com o
conteúdo.
"ei, que porra é essa?"
"as lágrimas dos
deuses."
"as lágrimas dos deuses?"
"sim, as lágrimas dos
deuses."
eu fiquei lá deitado até que ela
terminasse.
então eu me levantei e me
vesti.
"quando posso ver você
de novo?"
"em 2 horas ou
amanhã"
eu saí em direção à porta.
"você caminha como um
poema", ela disse.
"vejo você em 2
horas", eu lhe
disse.
a porta se fechou. o que um homem tem que aguentar por
um rabo
nestes tempos modernos é
altamente
suspeito.
porém a mais louca foi
Annette
e parece que quanto mais loucas são
tanto melhor trepam,
e que corpo elas
têm. Annette sempre viveu com
chineses
mas você nunca os via
e era isso o que metia medo.
até a Máfia tem medo dos chineses -
"cadê o dragão, garota?"
"está tudo bem. ele sabe que está tudo bem com você."
"tem certeza? quando põem o X em você,
então você pode muito bem
esquecer."
"eu disse a eles que está tudo bem com você. isso é tudo que
eles precisam."
Annette tinha incenso queimando,
toda espécie de mapas e livros malucos,
ela sempre falava sobre os deuses
ela tinha uma linha direta com os deuses.
"você foi selecionado pelos deuses", ela me
disse.
"está bem, garota, vamos transar
então."
"agora não. quero que você experimente esta sopa especial
que eu fiz."
"sopa especial?"
"sim, tome-a e você herdará as forças da
terra e do sol, o cosmos
inteiro."
lá fui eu e tomei a sopa. francamente, o gosto era bom,
embora meio enferrujado. nem queira saber que diabos ela
pôs lá dentro. eu a tomei
toda.
"eu me sinto como um homem de aço
agora."
"você herdou a força", ela disse, "os deuses estão
orgulhosos de você."
no sofá eu finalmente a
agarrei. debaixo daquele leve vestido cor de laranja
havia bastante mulher para matar um
boi.
"morei naquele hotel em Paris", ela disse. "dormi com todos
eles. Burroughs, a turma
toda. conheci Pound em St. Liz."
"você dormiu com Ezra?"
"mais do que com qualquer outro!"
"ora, vá se foder!"
"vá", ela riu, "em frente."
foi uma boa
sopa. aqueles rapazes de Paris e
Ezra haviam conhecido uma boa
égua.
eu saí
dela.
quando ela voltou do banheiro estava
com uma garrafa na mão e começou a me salpicar
com o
conteúdo.
"ei, que porra é essa?"
"as lágrimas dos
deuses."
"as lágrimas dos deuses?"
"sim, as lágrimas dos
deuses."
eu fiquei lá deitado até que ela
terminasse.
então eu me levantei e me
vesti.
"quando posso ver você
de novo?"
"em 2 horas ou
amanhã"
eu saí em direção à porta.
"você caminha como um
poema", ela disse.
"vejo você em 2
horas", eu lhe
disse.
a porta se fechou. o que um homem tem que aguentar por
um rabo
nestes tempos modernos é
altamente
suspeito.
1 221
Charles Bukowski
Um Antigo Amor
não lembro nossas idades:
devíamos ter entre 5 e 7,
havia essa menina na casa ao lado mais ou menos da minha idade.
lembro seu nome: Lila Jane.
e uma coisa ela fazia todo dia,
uma vez por dia, perguntava-me:
"você está pronto?"
e eu dizia que estava
e ela erguia a saia e
me mostrava suas calcinhas e elas eram
de uma cor diferente a cada dia.
várias décadas depois ela me achou de alguma maneira
e veio aqui com seu namorado
um cara que fumava cachimbo
e que havia lido meus livros
e ela cruzou suas longas e lindas pernas
bem alto
mas não alto o bastante para que eu visse as calcinhas.
e quando eles estavam para ir embora
eu lhe dei um abraço e
apertei a mão do seu namorado
e nunca mais a vi ou a ele
ou as calcinhas dela
alguma outra vez.
devíamos ter entre 5 e 7,
havia essa menina na casa ao lado mais ou menos da minha idade.
lembro seu nome: Lila Jane.
e uma coisa ela fazia todo dia,
uma vez por dia, perguntava-me:
"você está pronto?"
e eu dizia que estava
e ela erguia a saia e
me mostrava suas calcinhas e elas eram
de uma cor diferente a cada dia.
várias décadas depois ela me achou de alguma maneira
e veio aqui com seu namorado
um cara que fumava cachimbo
e que havia lido meus livros
e ela cruzou suas longas e lindas pernas
bem alto
mas não alto o bastante para que eu visse as calcinhas.
e quando eles estavam para ir embora
eu lhe dei um abraço e
apertei a mão do seu namorado
e nunca mais a vi ou a ele
ou as calcinhas dela
alguma outra vez.
1 102
Charles Bukowski
A Vida na Agência De Correios
eu me agacho diante desse labirinto
de caixotes de madeira
enfiando pequenos cartões e cartas
endereçados a inexistentes
vidas
enquanto a cidade toda comemora
e fode pelas ruas e canta
com os pássaros.
eu fico parado debaixo de uma fraca luz elétrica
e mando mensagens para um Garcia falecido,
e tenho idade suficiente para morrer
(sempre tive idade suficiente para morrer)
enquanto fico parado diante dessa bagunça de madeira
e alimento sua fome muda;
este é meu trabalho, meu aluguel, minha puta, meus sapatos,
o escorrer da cor dos meus olhos;
chefe, foda-se, você me achou,
minha boca franzida,
minhas mãos enrugadas contra meu
peito branco com manchas vermelhas;
a rua é tão dura, ao menos
dê-me o descanso pelo qual paguei uma vida,
e quando o Gavião chegar
eu o encontrarei no meio do caminho,
nos abraçaremos lá onde o papel de parede está rasgado
onde a chuva entrou.
agora estou parado diante de um cemitério de olhos e bocas
de cabeças esvaziadas para sombras
e sombras entram
como ratos e me olham.
eu remexo em cartões e cartas com números secretos enquanto
agentes cortam os fios e testam meu batimento cardíaco,
para escutar sanidade
ou alegria ou amor, e sem acharem nada,
satisfeitos, vão embora;
flap, flap, flap, estou parado diante do labirinto de madeira
e minha alma desfalece
e além do labirinto há uma janela
com sons, grama, caminhada, torres, cães,
mas aqui estou e aqui fico,
enviando cartas com minha própria demissão;
e eu estou cansado de me importar: ir embora, largar tudo,
e tocar fogo.
de caixotes de madeira
enfiando pequenos cartões e cartas
endereçados a inexistentes
vidas
enquanto a cidade toda comemora
e fode pelas ruas e canta
com os pássaros.
eu fico parado debaixo de uma fraca luz elétrica
e mando mensagens para um Garcia falecido,
e tenho idade suficiente para morrer
(sempre tive idade suficiente para morrer)
enquanto fico parado diante dessa bagunça de madeira
e alimento sua fome muda;
este é meu trabalho, meu aluguel, minha puta, meus sapatos,
o escorrer da cor dos meus olhos;
chefe, foda-se, você me achou,
minha boca franzida,
minhas mãos enrugadas contra meu
peito branco com manchas vermelhas;
a rua é tão dura, ao menos
dê-me o descanso pelo qual paguei uma vida,
e quando o Gavião chegar
eu o encontrarei no meio do caminho,
nos abraçaremos lá onde o papel de parede está rasgado
onde a chuva entrou.
agora estou parado diante de um cemitério de olhos e bocas
de cabeças esvaziadas para sombras
e sombras entram
como ratos e me olham.
eu remexo em cartões e cartas com números secretos enquanto
agentes cortam os fios e testam meu batimento cardíaco,
para escutar sanidade
ou alegria ou amor, e sem acharem nada,
satisfeitos, vão embora;
flap, flap, flap, estou parado diante do labirinto de madeira
e minha alma desfalece
e além do labirinto há uma janela
com sons, grama, caminhada, torres, cães,
mas aqui estou e aqui fico,
enviando cartas com minha própria demissão;
e eu estou cansado de me importar: ir embora, largar tudo,
e tocar fogo.
718
Charles Bukowski
Calor
se alguma vez você esboçou seu último plano em
uma velha cartolina de camisa em um hotel do inverno na Zona Leste
com o aluguel da semana passada atrasado e um aquecedor morto
você saberá como são grandes as pequenas coisas
como você subindo pela escada
talvez pela última vez
com sua garrafa de vinho
pensando na mulher do 449
pondo sua cinta-liga
e na cômoda dela há um
copo vermelho escuro
que capta a luz da lâmpada do teto como um
suave sonho de Jerusalém
e ela se empoa
e desliza para dentro das suaves sedosas bainhas
pelas pontas dos pés
e desempregada e procurando emprego
e talvez procurando você
ela passa por você na
escadaria;
tamanha graça perturbadora
nos transforma.
assim como uma mosca azul explodindo no
céu de verão
você decide ficar por aí e
morrer mais tarde; você entra em seu quarto e serve-se de vinho como
sangue, para dentro, e decide que pela manhã você
acordará cedo e
lerá os classificados de oferta
de empregos.
uma velha cartolina de camisa em um hotel do inverno na Zona Leste
com o aluguel da semana passada atrasado e um aquecedor morto
você saberá como são grandes as pequenas coisas
como você subindo pela escada
talvez pela última vez
com sua garrafa de vinho
pensando na mulher do 449
pondo sua cinta-liga
e na cômoda dela há um
copo vermelho escuro
que capta a luz da lâmpada do teto como um
suave sonho de Jerusalém
e ela se empoa
e desliza para dentro das suaves sedosas bainhas
pelas pontas dos pés
e desempregada e procurando emprego
e talvez procurando você
ela passa por você na
escadaria;
tamanha graça perturbadora
nos transforma.
assim como uma mosca azul explodindo no
céu de verão
você decide ficar por aí e
morrer mais tarde; você entra em seu quarto e serve-se de vinho como
sangue, para dentro, e decide que pela manhã você
acordará cedo e
lerá os classificados de oferta
de empregos.
1 004
Charles Bukowski
Seis
10:30 da manhã
5 bebedores de café no Café Pickwick
os garotos que trabalham nas cocheiras
em Hollywood Park
dão voltas em suas cadeiras giratórias
juntos,
um, dois, três, quatro, cinco,
dão voltas
largando seus cafés que esfriam e seus
papos furados
para olhar uma garota que passa
e que chega para sentar-se em uma mesa separada.
dificilmente seria uma garota incomum,
apenas uma garota,
e um, dois, três, quatro,
quatro deles voltam a seus cafés;
o 50, um jovem loiro e saudável
continua a olhar
com seus olhos azuis belos e vazios.
então, enfim, ele retorna a seu café.
tem que ser mais do que parece, eu penso,
ah, sim, deixe-me ver,
eles estão pensando, essa aí é aquela que fodeu com Mick
atrás das cocheiras a noite passada.
sim, sim, é claro, eles a estão punindo
por não foder com eles.
garotos malvados; pequenos egos de bosta de cavalo.
todos eles acham que têm caralhos de garanhões.
"mais um café?", pergunta-me a garçonete.
"sim, obrigado", eu digo, pensando que eu deveria
dar uma olhada melhor
naquela garota.
5 bebedores de café no Café Pickwick
os garotos que trabalham nas cocheiras
em Hollywood Park
dão voltas em suas cadeiras giratórias
juntos,
um, dois, três, quatro, cinco,
dão voltas
largando seus cafés que esfriam e seus
papos furados
para olhar uma garota que passa
e que chega para sentar-se em uma mesa separada.
dificilmente seria uma garota incomum,
apenas uma garota,
e um, dois, três, quatro,
quatro deles voltam a seus cafés;
o 50, um jovem loiro e saudável
continua a olhar
com seus olhos azuis belos e vazios.
então, enfim, ele retorna a seu café.
tem que ser mais do que parece, eu penso,
ah, sim, deixe-me ver,
eles estão pensando, essa aí é aquela que fodeu com Mick
atrás das cocheiras a noite passada.
sim, sim, é claro, eles a estão punindo
por não foder com eles.
garotos malvados; pequenos egos de bosta de cavalo.
todos eles acham que têm caralhos de garanhões.
"mais um café?", pergunta-me a garçonete.
"sim, obrigado", eu digo, pensando que eu deveria
dar uma olhada melhor
naquela garota.
1 224
Charles Bukowski
Mil Dólares
todo o meu conhecimento sobre corridas de cavalos
me dizia que esta era uma aposta garantida.
apostei mil para ganhar.
o cavalo estava cotado em primeiro
nos três quartos de milha.
a campainha tocou e eles
saíram do portão.
meu cavalo virou à esquerda
atravessou correndo a cerca
caiu e
morreu
lá mesmo
com 7/5 no páreo.
quando conto essa história
as pessoas não dizem
nada.
às vezes não há nada a dizer
sobre
a morte.
me dizia que esta era uma aposta garantida.
apostei mil para ganhar.
o cavalo estava cotado em primeiro
nos três quartos de milha.
a campainha tocou e eles
saíram do portão.
meu cavalo virou à esquerda
atravessou correndo a cerca
caiu e
morreu
lá mesmo
com 7/5 no páreo.
quando conto essa história
as pessoas não dizem
nada.
às vezes não há nada a dizer
sobre
a morte.
702
Charles Bukowski
Não é Muito
suponho que assim como outros
eu tenha atravessado ferro e fogo,
o amor que deu errado,
quedas de cabeça, bêbado no mar,
e escutei o simples rumor da água escorrendo
nos encanamentos
e desejei afogar-me
mas simplesmente não conseguia aguentar os outros
carregando meu corpo três lances de escada abaixo
até os curiosos boquiabertos;
a psique foi queimada
e nos deixou insensíveis,
o mundo tem estado mais escuro que um apagão
dentro de um cubículo cheio de morcegos famintos,
e o uísque e o vinho penetraram em nossas veias
quando o sangue estava fraco demais para continuar;
e isso acontecerá com outros,
e nossos poucos bons momentos serão raros
porque temos um senso crítico
e não somos fáceis de enganar com risadas;
minúsculos insetos rastejam em nossa tela
mas podemos enxergar através dela
uma paisagem devastada
e que eles possam ter sua vez;
só pedimos que leopardos guardem
nossos ralos sonhos.
certa vez estive internado em um
hospital branco
para os moribundos e os egos
moribundos, onde algum deus mijou uma chuva de
razões para fazer com que as coisas crescessem
só para morrer, onde de joelhos
eu rezei por LUZ,
eu rezei por I*u*z,
e rezando
arrastei-me como uma lesma cega para a
teia
na qual fios de vento se enroscaram em minha mente
e morri de piedade
pelo Homem, por mim,
em uma cruz sem pregos,
olhando atemorizado enquanto
o porco arrota em seu chiqueiro, peida,
pisca e come.
eu tenha atravessado ferro e fogo,
o amor que deu errado,
quedas de cabeça, bêbado no mar,
e escutei o simples rumor da água escorrendo
nos encanamentos
e desejei afogar-me
mas simplesmente não conseguia aguentar os outros
carregando meu corpo três lances de escada abaixo
até os curiosos boquiabertos;
a psique foi queimada
e nos deixou insensíveis,
o mundo tem estado mais escuro que um apagão
dentro de um cubículo cheio de morcegos famintos,
e o uísque e o vinho penetraram em nossas veias
quando o sangue estava fraco demais para continuar;
e isso acontecerá com outros,
e nossos poucos bons momentos serão raros
porque temos um senso crítico
e não somos fáceis de enganar com risadas;
minúsculos insetos rastejam em nossa tela
mas podemos enxergar através dela
uma paisagem devastada
e que eles possam ter sua vez;
só pedimos que leopardos guardem
nossos ralos sonhos.
certa vez estive internado em um
hospital branco
para os moribundos e os egos
moribundos, onde algum deus mijou uma chuva de
razões para fazer com que as coisas crescessem
só para morrer, onde de joelhos
eu rezei por LUZ,
eu rezei por I*u*z,
e rezando
arrastei-me como uma lesma cega para a
teia
na qual fios de vento se enroscaram em minha mente
e morri de piedade
pelo Homem, por mim,
em uma cruz sem pregos,
olhando atemorizado enquanto
o porco arrota em seu chiqueiro, peida,
pisca e come.
1 064
Charles Bukowski
Guerra e Paz
experimentar a
verdadeira agonia
é
algo
duro
de escrever a respeito,
impossível
de entender
quando o
pega:
você fica
amedrontado
até a
medula,
não pode parar
quieto,
mexer-se
ou até
ficar
louco
decentemente.
e então
quando sua compostura
finalmente
retorna
e você
consegue
avaliar
a
experiência
é quase
como se
tivesse acontecido
a
outra
pessoa
pois
veja
você
agora:
calmo
desligado
por exemplo
limpando suas
unhas
procurando em
uma
gaveta
por
selos
passando
graxa
em seus
sapatos
ou
pagando a
conta
da luz.
a vida é
e não é
uma
delicada
chatice.
verdadeira agonia
é
algo
duro
de escrever a respeito,
impossível
de entender
quando o
pega:
você fica
amedrontado
até a
medula,
não pode parar
quieto,
mexer-se
ou até
ficar
louco
decentemente.
e então
quando sua compostura
finalmente
retorna
e você
consegue
avaliar
a
experiência
é quase
como se
tivesse acontecido
a
outra
pessoa
pois
veja
você
agora:
calmo
desligado
por exemplo
limpando suas
unhas
procurando em
uma
gaveta
por
selos
passando
graxa
em seus
sapatos
ou
pagando a
conta
da luz.
a vida é
e não é
uma
delicada
chatice.
716
Charles Bukowski
Estrangeiro Em Uma Cidade Estranha
eu havia acabado de chegar
a outra cidade estranha
e havia deixado meu quarto e
me encontrava caminhando ao longo
do que devia ter sido
uma avenida principal
na qual os automóveis corriam indo
e vindo com o que parecia ser
um propósito
definido.
aquele bulevar movimentado parecia
estender-se sem fim
à minha frente e
parecia seguir
direto até a beirada
da Terra,
e então
depois de caminhar por um tempo
eu me dei conta
de que estava
perdido, de que
havia esquecido o nome
da rua em que meu
quarto ficava
ou
onde estava.
não havia deixado nada
naquele quarto
a não ser a diária paga
por uma semana
mais uma mala
amarrotada
cheia de minhas roupas velhas
mas aquilo era
tudo o que
eu tinha
então comecei a examinar
as travessas
procurando
meu quarto
e logo fiquei
com medo, um
terror paralisante como uma doença
fatal
espalhando-se em mim
enquanto
eu continuava a andar
para cima e para baixo por ruas
desconhecidas
até que minha mente
me dissesse:
você está louco, é só
isso, você deveria
desistir e tentar
resolver
isso.
mas eu só continuava a andar.
havia sido uma
longa tarde e agora
deslizava
noite adentro.
meus pés doíam
em meus sapatos
baratos.
então foi
escurecendo, já era noite,
mas eu continuei
a caminhar.
sentia como se
tivesse caminhado
para cima e para baixo
pelas
mesmas ruas
de novo e de novo.
então finalmente
reconheci meu
prédio!
e subi correndo
os degraus
e pela escadaria até
o segundo andar
e meu quarto ainda estava
láeeu
abri a porta,
fechei-a depois de entrar,
e fiquei
seguro lá dentro.
lá estava a
mala
no assoalho,
ainda cheia das minhas
roupas velhas.
eu ouvi um homem
rir
em outro
dos quartos e subitamente
me senti muito
melhor.
eu tirei meus sapatos,
camisa, calças,
sentei-me na beirada
da cama e
enrolei um
cigarro.
e aí me reclinei no
travesseiro e
fumei.
eu tinha 20 anos de idade
e 14 dólares
na minha carteira.
então me lembrei
da minha garrafa de vinho.
puxei-a sob a
cama, destampei-a
e tomei um bom
trago.
resolvi que
não estava louco.
peguei um jornal
do chão
e fui para a seção de
empregos:
lavador de pratos, auxiliar
aduaneiro, estoquista,
guarda noturno...
joguei o jornal
no chão.
eu procuraria um
emprego
depois de
amanhã.
então apaguei
o cigarro
satisfeito
e fui
dormir.
a outra cidade estranha
e havia deixado meu quarto e
me encontrava caminhando ao longo
do que devia ter sido
uma avenida principal
na qual os automóveis corriam indo
e vindo com o que parecia ser
um propósito
definido.
aquele bulevar movimentado parecia
estender-se sem fim
à minha frente e
parecia seguir
direto até a beirada
da Terra,
e então
depois de caminhar por um tempo
eu me dei conta
de que estava
perdido, de que
havia esquecido o nome
da rua em que meu
quarto ficava
ou
onde estava.
não havia deixado nada
naquele quarto
a não ser a diária paga
por uma semana
mais uma mala
amarrotada
cheia de minhas roupas velhas
mas aquilo era
tudo o que
eu tinha
então comecei a examinar
as travessas
procurando
meu quarto
e logo fiquei
com medo, um
terror paralisante como uma doença
fatal
espalhando-se em mim
enquanto
eu continuava a andar
para cima e para baixo por ruas
desconhecidas
até que minha mente
me dissesse:
você está louco, é só
isso, você deveria
desistir e tentar
resolver
isso.
mas eu só continuava a andar.
havia sido uma
longa tarde e agora
deslizava
noite adentro.
meus pés doíam
em meus sapatos
baratos.
então foi
escurecendo, já era noite,
mas eu continuei
a caminhar.
sentia como se
tivesse caminhado
para cima e para baixo
pelas
mesmas ruas
de novo e de novo.
então finalmente
reconheci meu
prédio!
e subi correndo
os degraus
e pela escadaria até
o segundo andar
e meu quarto ainda estava
láeeu
abri a porta,
fechei-a depois de entrar,
e fiquei
seguro lá dentro.
lá estava a
mala
no assoalho,
ainda cheia das minhas
roupas velhas.
eu ouvi um homem
rir
em outro
dos quartos e subitamente
me senti muito
melhor.
eu tirei meus sapatos,
camisa, calças,
sentei-me na beirada
da cama e
enrolei um
cigarro.
e aí me reclinei no
travesseiro e
fumei.
eu tinha 20 anos de idade
e 14 dólares
na minha carteira.
então me lembrei
da minha garrafa de vinho.
puxei-a sob a
cama, destampei-a
e tomei um bom
trago.
resolvi que
não estava louco.
peguei um jornal
do chão
e fui para a seção de
empregos:
lavador de pratos, auxiliar
aduaneiro, estoquista,
guarda noturno...
joguei o jornal
no chão.
eu procuraria um
emprego
depois de
amanhã.
então apaguei
o cigarro
satisfeito
e fui
dormir.
877
Charles Bukowski
Perto Demais Do Matadouro
eu moro perto demais do matadouro.
o que você espera? sangue prateado
como em Chatterton? minhas horas pegajosas
não permitem prática de nenhuma previsão.
ouço os galhos que estalam e quebram
qual corvos que brigam,
e vejo minha mãe em seu caixão
imóvel
quieta e imóvel
enquanto acendo um cigarro
ou bebo um copo d'água
ou faço algo ignominioso.
o que você quer?
que eu me sinta
enganado?
(o verde das ervas
ao sol
é tudo o que temos
é tudo o que realmente temos.)
eu digo deixem os macacos dançarem,
deixem os macacos dançarem
à luz de Deus.
eu moro perto demais
do matadouro
e estou doente
de tanto me esforçar.
o que você espera? sangue prateado
como em Chatterton? minhas horas pegajosas
não permitem prática de nenhuma previsão.
ouço os galhos que estalam e quebram
qual corvos que brigam,
e vejo minha mãe em seu caixão
imóvel
quieta e imóvel
enquanto acendo um cigarro
ou bebo um copo d'água
ou faço algo ignominioso.
o que você quer?
que eu me sinta
enganado?
(o verde das ervas
ao sol
é tudo o que temos
é tudo o que realmente temos.)
eu digo deixem os macacos dançarem,
deixem os macacos dançarem
à luz de Deus.
eu moro perto demais
do matadouro
e estou doente
de tanto me esforçar.
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