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Poemas neste tema

Alma

Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Chuveiro

gostamos de um banho depois da função
(gosto da água mais quente do que ela)
e seu rosto está sempre suave e pacífico
e ela me lavará primeiro
espalhará sabonete sobre minhas bolas
erguerá as bolas
as esfregará
depois lavará meu pau:
“ei, essa coisa ainda está dura!”
então pegará nos pelos lá embaixo –
na barriga, nas costas, no pescoço, nas pernas,
eu sorrio, sorrio, sorrio,
e então eu a lavarei...
primeiro a buceta
ficarei atrás dela, meu pau entre sua bunda
ensaboarei com gentileza seus pentelhos,
lavarei tudo ali com movimentos sutis,
uma demora talvez mais longa que o necessário,
então a parte de trás das suas coxas, seu rabo,
as costas, o pescoço, para depois virá-la, beijá-la,
ensaboar os seios, tomando-os e depois a barriga, o pescoço,
a parte da frente das pernas, os tornozelos, os pés,
e então a buceta, mais uma vez, para a boa sorte...
mais um beijo, e ela sairá primeiro,
enxugando-se, algumas vezes cantando enquanto eu permaneço lá dentro
abrindo ainda mais a torneira quente
sentindo a bonança do milagre do amor
para só depois sair...
isto ocorre normalmente no meio da tarde e tudo está tranquilo,
e ao nos vestirmos falamos sobre o que ainda há
para ser feito
mas por estarmos juntos quase tudo está resolvido,
de fato, tudo está resolvido,
e pelo tempo em que essas coisas estiverem resolvidas
na história da mulher e
do homem, será diferente para cada um
melhor e pior para cada um –
para mim, é esplêndido o suficiente para lembrar
superando os exércitos que marcham
os cavalos que cruzam as ruas lá fora
superando as memórias da dor e da derrota e da infelicidade:
Linda, você trouxe isso pra mim,
quando me for tirá-lo
faça-o bem devagar e de mansinho
faça-o como se eu estivesse morrendo entre sonhos e não de
olhos abertos, amém.

Dee Dee tinha uma casa em Hollywood Hills. Dividia o lugar com uma amiga, também uma executiva, chamada Bianca. Bianca morava no andar de cima, Dee Dee, no de baixo. Toquei a campainha. Eram oito e meia quando ela abriu a porta. Dee Dee tinha uns quarenta anos, cabelo preto, batido, era judia, descolada, estranha. Estava voltada para Nova York, conhecia todos os nomes: os bons editores, os melhores poetas, os cartunistas mais talentosos, os grandes revolucionários, qualquer um, todo mundo. Fumava maconha sem parar e agia como se estivesse no início dos anos 1960 e em plena vigência do Paz e Amor, quando ela fora razoavelmente famosa e muito mais bonita.
Uma longa série de complicados casos amorosos liquidou-a. Agora, lá estava eu à sua porta. Seu corpo ainda dava para o gasto. Ela era pequena, mas tinha um aspecto saudável e muitas garotas gostariam de ter o seu físico.
Entrei atrás dela.
– Então a Lydia se mandou? – perguntou Dee Dee.
– Acho que ela foi para Utah. O baile do Quatro de Julho em Muleshead está chegando. Ela nunca perde.
Sentei junto à mesa da cozinha enquanto Dee Dee abria uma garrafa de vinho tinto.
– Está com saudades dela?
– Claro que sim. Tenho vontade de chorar. Estou com um nó aqui dentro. Acho que não vou me recuperar.
– Vai sim. Vamos dar um jeito de superar Lydia. Tudo passa.
– Então você sabe como estou me sentindo?
– Já aconteceu com todos nós algumas vezes.
– A cadela nunca ligou a mínima para mim.
– Bobagem. Ela ainda liga sim.
Decidi que era melhor estar ali, no casarão de Dee Dee em Hollywood Hills, do que sozinho em meu apartamento ruminando.
– Deve ser porque eu não sou bom para as mulheres – eu disse.
– Você é bom o bastante com as mulheres – disse Dee Dee. – Além de ser um puta escritor.
– Preferia me dar bem com as mulheres.
Dee Dee estava acendendo um cigarro. Esperei-a terminar, me inclinei sobre a mesa e lhe dei um beijo.
– Você me faz sentir bem. Lydia estava sempre na ofensiva.
– Isso não significa o que você acha que significa.
– Mas pode se tornar bastante desagradável.
– Certamente, um inferno.
– Você já encontrou um namorado?
– Ainda não.
– Gosto desse lugar. Mas como consegue manter tudo tão limpo e arrumado?
– Temos uma empregada.
– Ah, é?
– Você vai gostar dela. Ela é uma negra bem grande e trabalha a toda velocidade assim que eu saio, para acabar logo o serviço. Então vai para a minha cama e fica vendo tevê e comendo biscoito. Todas as noites encontro farelo de biscoito na cama. Vou pedir pra ela preparar um café da manhã pra você, antes de eu sair amanhã de manhã.
– Beleza.
– Não, espere. Amanhã é domingo. Não trabalho aos domingos. Vamos comer fora. Conheço um lugar. Você vai gostar.
– Beleza.
– Sabe, acho que sempre fui apaixonada por você.
– O que?
– Há anos. Sabe, quando eu costumava visitar você, primeiro com Bernie, depois com Jack, eu já o desejava. Mas você nunca me notou. Estava sempre mamando numa lata de cerveja, ou então obcecado por alguma coisa.
– Demência – eu acho –, demência total. Chamam de demência do serviço postal. Desculpe eu não ter notado você.
– Pode começar a se recuperar agora.
Dee Dee serviu mais uma taça de vinho. Coisa fina. Eu gostava dela. Era bom ter um lugar para onde ir quando tudo mais dava errado. Me lembrei de antigamente, quando as coisas ficavam feias e eu não tinha para onde ir. Talvez isso até tenha sido bom para mim. Naquela época. Mas agora não queria saber do que tinha sido bom ou mau. Importava o momento, o que estava sentindo e o que fazer para parar de me sentir mal quando as coisas dessem errado. Como voltar a me sentir bem.
– Não quero jogar com seus sentimentos, Dee Dee – eu disse. – Nem sempre sou bom para as mulheres.
– Já disse que te amo.
– Não faça isso. Não me ame.
– Está bem – ela disse –, não vou te amar. Vai ser um quase amor. Que tal?
– É uma proposta muito melhor que a anterior.
Acabamos nosso vinho e fomos para cama...
– Mulheres
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Pessoas Como Flores

que cantoria prossegue nas
ruas -
as pessoas parecem flores
finalmente
a polícia guardou suas
insígnias
o exército rasgou seus uniformes e
destroçou suas armas. não há mais necessidade de
cadeias ou jornais ou hospícios ou
trancas nas portas.
uma mulher vem correndo até minha porta
ME COMA! ME AME!
ela grita.
ela é bela como um charuto
depois de jantar um bom filé. eu
a possuo.
mas depois de sua partida
eu me sinto esquisito
tranco a porta
vou à escrivaninha e pego a pistola
da gaveta. ela tem seu próprio senso de
amor.
AMOR! AMOR! AMOR! a multidão canta nas
ruas.
eu atiro pela janela
o vidro corta meu rosto e
braços. acerto um garoto de 12 anos
um velho de barba
e uma adorável moça algo parecida a uma
violeta.
a multidão para de cantar para
me olhar.
estou parado na janela quebrada
o sangue em meu
rosto.
"isso", eu grito para eles, "é em defesa da
pobreza de si mesmo e em defesa da liberdade
de não amar!"
"deixe-o em paz", alguém diz,
"ele está louco, viveu uma vida ruim por
tempo demais."
entro na cozinha
sento-me e encho um
copo de uísque.
resolvo que a única definição da
Verdade (que muda)
é ela ser a única coisa ou ato ou
crença que a multidão
rejeita.
estão socando minha
porta. é a mesma mulher de novo.
ela é tão bela como encontrar um
sapo verde e gordo no
jardim.
eu tenho 2 balas restantes e
uso
ambas.
nada no ar a não ser
nuvens. nada no ar a não ser
chuva. a vida de cada homem é curta demais para
encontrar sentido e
todos os livros quase um
desperdício.
sento e os ouço
a cantar.
sento e os
ouço.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Abrace a Escuridão

o verdadeiro deus é a desordem
o verdadeiro deus é a loucura
viver em paz permanente é
viver permanentemente morto.
a agonia pode matar
ou
a agonia pode dar sustentação à vida
mas a paz é sempre horripilante
a paz é o que há de pior
caminhadas
conversas
sorrisos,
a aparência das coisas.
não se esqueça das calçadas
das putas,
da traição,
do verme na maçã,
dos bares, das cadeias,
dos suicídios dos amantes.
aqui na América
assassinamos um presidente e seu irmão,
outro presidente desistiu do cargo.
pessoas que acreditam em política
são como pessoas que acreditam em deus:
estão chupando vento através de canudos
curvos.
não há deus
não há política
não há paz
não há amor
não há controle
não há plano
fique longe de deus
siga perturbado
deslize.

Eu me recostava no balcão do bar Musso’s. Sarah tinha ido ao toalete de senhoras. Eu gostava do bar Musso’s, do bar como bar, mas não da sala onde ficava. Era conhecido como “Sala Nova”. A “Sala Velha” ficava do outro lado, e eu preferia comer lá. Era mais escuro e tranquilo. Nos velhos tempos, eu ia à Sala Velha comer, mas raramente comia mesmo. Apenas olhava o menu e dizia ao pessoal “Ainda não”, e continuava a pedir bebidas. Algumas das damas que eu levava lá eram de má reputação, e enquanto a gente bebia, sem parar, estouravam muitas discussões aos berros, cheias de xingamentos, bebidas derramadas e pedidos de outras. Eu geralmente passava às damas o dinheiro do táxi, mandava-as dar o fora e continuava bebendo sozinho. Duvido que usassem o dinheiro do táxi em táxis. Mas uma das coisas mais legais do Musso’s era que quando eu voltava, depois da trepada, geralmente me recebiam com sorrisos calorosos. Muito estranho.
De qualquer modo, eu me recostava no balcão do bar, e a Sala Nova estava cheia, a maioria turistas, que batiam papo, torciam o pescoço e emitiam raios da morte. Pedi um novo drinque e então me bateram no ombro.
– Chinaski, como vai você?
Virei-me e olhei. Jamais reconheci alguém. Podia encontrar uma pessoa na noite passada e não lembrar dela no dia seguinte. Se arrancassem minha mãe da cova, eu não saberia quem era ela.
– Estou bem – disse. – Posso te pagar uma bebida?
– Não, obrigado. Não nos conhecemos. Eu sou Harold Pheasant.
– Oh, sim. Jon me disse que você estava pensando em...
– É, quero financiar seu argumento. Li sua obra. Você tem um maravilhoso senso de diálogo. Li sua obra: muito cinematográfica.
– Tem certeza de que não quer um drinque?
– Não, preciso voltar pra minha mesa.
– Ah, é? Que tem feito ultimamente, Pheasant?
– Acabo de produzir um filme sobre a vida de Mack Derouac.
– É? Como se chama?
– A Canção do Coração.
Tomei um gole.
– Ei, espere um minuto! Você está brincando! Não vai chamar o filme de A Canção do Coração.
– Oh, sim, é assim que vai se chamar.
Ele sorria.
– Você não pode me enrolar, Pheasant. É mesmo um gozador! A Canção do Coração! Nossa!
– Não – ele disse. – Estou falando sério.
De repente deu as costas e foi-se embora...
Nesse momento Sarah voltava. Olhou para mim.
– De que está rindo?
– Me deixa pedir um drinque pra você que eu te conto.
Chamei o garçom e pedi um também para mim.
– Adivinha quem eu vi na Sala Velha – ela disse.
– Quem?
– Jonathan Winters.
– Ééé? Adivinha com quem conversei enquanto você estava lá.
– Uma de suas ex-putas.
– Não, não. Pior.
– Não tem nada pior que elas.
– Conversei com Harold Pheasant.
– O produtor?
– É, está ali naquela mesa do canto.
– Oh, estou vendo!
– Não, não olhe. Não acene. Beba seu drinque. Eu bebo o meu.
– Que diabos deu em você?
– Sabe, ele é o produtor que ia produzir o argumento que eu não escrevi.
– Eu sei.
– Quando você saiu ele veio conversar comigo.
– Já disse isso.
– Não aceitou nem um drinque.
– Então você fodeu tudo e não está nem bêbado.
– Espere. Ele queria falar de um filme que acaba de produzir.
– Como foi que você fodeu tudo?
– Eu não fodi nada. Ele fodeu.
– Claro. Conta pra mim.
Olhei no espelho. Gostava de mim mesmo, mas não no espelho. Não tinha aquela aparência. Acabei meu drinque.
– Acabe seu drinque – disse.
Ela acabou.
– Conta pra mim.
– É a segunda vez que você diz: “Conta pra mim”.
– Memória notável, e nem está bêbado ainda.
Fiz sinal para o garçom, tornei a pedir.
– Bem, Pheasant veio aqui e me falou do tal filme que produziu. É sobre um escritor que não sabia escrever mas ficou famoso porque parecia um peão de rodeio.
– Quem?
– Mack Derouac.
– E isso chateou você?
– Não, isso não importa. Estava ótimo, até ele me dizer o título do filme.
– Que era?
– Por favor, estou tentando varrer da minha cabeça. É absolutamente idiota.
– Diz pra mim.
– Tá legal...
O espelho ainda estava lá.
– Diz pra mim, diz pra mim, diz pra mim.
– Tudo bem: O Voo do Destroço Peludo.
– Eu gosto.
– Eu não gostei. E disse a ele. Ele se mandou. A gente perdeu o patrocinador.
– Você deve ir lá se desculpar.
– De jeito nenhum. Título horrendo.
– Você queria era que o filme fosse sobre você.
– É isso aí! Vou escrever um argumento sobre mim mesmo!
– Já tem o título?
– Já: Moscas no Destroço Peludo.
– Vamos sair daqui.
Com essa, saímos.
– Hollywood
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Gênio

este homem de vez em quando se esquece
quem é.
às vezes ele acha que é o
Papa.
outras vezes é um
coelho caçado
e se esconde debaixo da
cama.
então
de uma só vez
ele recuperará totalmente
a lucidez
e passará a compor
obras de
arte.
então ficará bem
por algum
tempo.
depois, digamos,
estará sentado com sua
esposa
e mais 3 ou 4
pessoas
discutindo vários
assuntos
ele será encantador,
incisivo,
original.
então fará
algo
estranho.
como certa vez
em que se pôs de pé
abriu a braguilha
e começou
a mijar
no
tapete.
outra vez
comeu um guardanapo de
papel.
e houve
a ocasião em que
entrou no
carro
e dirigiu de
ré
todo o caminho
até o
mercado
e voltou
mais uma vez
de ré
os outros motoristas
gritando com
ele
mas
conseguiu
ir e
voltar
sem qualquer
incidente
e sem
ser
parado
por uma patrulha da
polícia.
mas fica bem mesmo
como
Papa
e seu
latim
é muito
bom.
suas obras de
arte
não são lá
excepcionais
mas elas permitem que
ele
sobreviva
e que viva com
uma série de
esposas de
19 anos
que lhe
cortam os cabelos
as unhas
dão de beber
servem-no e
o
alimentam.
ele consome todo mundo
exceto
a si
mesmo.

Eram dez e meia da manhã quando o telefone tocou. Jon Pinchot.
– O filme foi cancelado...
– Jon, eu não acredito mais nessas histórias. É só o jeito de eles fazerem pressão.
– Não, é verdade, o filme foi cancelado.
– Como podem? Já investiram demais, ficariam com um enorme prejuízo no projeto...
– Hank, a Firepower simplesmente não tem mais grana. Não foi só nosso filme que foi cancelado; todos os filmes foram cancelados. Fui ao prédio deles hoje de manhã. Só tem os guardas de segurança. Não tem NINGUÉM no prédio! Eu percorri ele todo, gritando: “Olá! Olá! Tem alguém aí?” Sem resposta. Todo o prédio está vazio.
– Mas, Jon, e a cláusula do “Faça ou pague” de Jack Bledsoe?
– Não podem fazer nem pagar. Todo o pessoal da Firepower, incluindo nós, está sem salário. Alguns deles já vêm trabalhando há duas semanas sem receber. Agora não tem dinheiro pra ninguém.
– Que é que você vai fazer?
– Eu não sei, Hank, isso parece o fim...
– Não tome nenhuma medida precipitada, Jon. Será que outra empresa não assume o filme?
– Não farão isso. Ninguém gosta do argumento.
– Oh, sim, está certo...
– Que é que você vai fazer?
– Eu? Eu vou às corridas. Mas se quiser aparecer para uns tragos esta noite, eu teria prazer em ver você.
– Obrigado, Hank, mas tenho um encontro com um casal de lésbicas.
– Boa sorte.
– Boa sorte pra você também.
Eu dirigia pela autoestrada do Porto, em direção a Hollywood Park, ao norte. Jogava nos cavalinhos há mais de trinta anos. Começara após minha quase fatal hemorragia no Hospital Municipal de Los Angeles. Me disseram que se tomasse outro trago estava morto.
– Que é que vou fazer? – eu tinha perguntado a Jane.
– Sobre o quê?
– Que vou usar em lugar da bebida?
– Bem, tem os cavalos.
– Cavalos? Que é que a gente faz?
– Aposta neles.
– Aposta neles? Parece idiota.
Nós fomos e ganhei uma bela soma. Comecei a ir diariamente. Depois, aos poucos, recomecei a beber um pouco. Depois mais. E não morri. E aí eu tinha a bebida e os cavalos. Um viciado completo. Naquele tempo não havia corridas aos domingos, por isso eu ia com o velho carro até Água Caliente e voltava no domingo, às vezes ficando para as corridas de cachorros depois que as dos cavalos acabavam, e depois atacando os bares de Caliente. Nunca fui assaltado ou agredido, e era até tratado com bondade pelos garçons e fregueses mexicanos, mesmo sendo às vezes o único gringo. A volta de carro, tarde da noite, era legal, e quando chegava em casa eu não ligava se Jane estava lá ou não. Dissera a ela que o México era perigoso demais para mulheres. Geralmente ela não estava em casa quando eu chegava. Estava num lugar muito mais perigoso: a Rua Alvarado. Mas contanto que houvesse três ou quatro cervejas à minha espera, tudo bem. Se ela tivesse bebido aquelas e deixado a geladeira vazia, então, sim, estaria em verdadeiro apuro.
Quanto aos cavalos, eu me tornei um verdadeiro estudioso do jogo. Tinha umas duas dúzias de sistemas. Só funcionavam se não se aplicassem todos ao mesmo tempo, porque se baseavam em fatores variáveis. Meus sistemas tinham só um fator comum: o público deve sempre perder. Precisava determinar qual era o jogo do público, e tentar o oposto.
Um de meus sistemas baseava-se em números de índices e pós-posições. Há certos números que o público reluta em pedir. Quando esses números atingem uma certa quantidade de jogo no placar em relação à sua posição, a gente tem um vencedor de alta porcentagem. Estudando durante muitos anos os mapas de corridas no Canadá, nos Estados Unidos e no México, bolei um jogo vencedor baseado apenas nesses indicadores. (O número do índice diz a pista e a corrida em que o cavalo apareceu pela última vez.) O Racing Form publicava grandes e gordos livros vermelhos de resultados, por 10 dólares. Eu os lia e relia durante horas, durante semanas. Todos os resultados têm um padrão. Se a gente o descobre, está com tudo. E pode mandar o patrão tomar no cu. Eu mandara vários, apenas para ter de encontrar outros. Sobretudo porque alterava ou trapaceava com meus próprios sistemas. A fraqueza da natureza humana é mais uma coisa que a gente precisa derrotar nas corridas.
Entrei em Hollywood Park e fui para a área reservada. Um treinador de cavalos que eu conhecia me dera um adesivo de “Proprietário/Treinador” para o estacionamento, e também um passe para o clube. Era um homem bom, que tinha como melhor característica não ser escritor nem ator.
Entrei no clube, peguei uma mesa e trabalhei nos meus números. Sempre fazia isso primeiro, depois pagava um pau para ir ao Pavilhão Cary Grant. Não tinha muita gente por lá, e a gente podia pensar melhor. Sobre Cary Grant, há uma foto gigantesca dele pendurada no Pavilhão, rindo. Usa uns óculos fora de moda e aquele seu sorriso. Frio. Mas que jogador nos cavalinhos. Era um apostador de dois dólares. E quando perdia corria para a pista gritando, acenando os braços e berrando: “VOCÊS NÃO PODEM FAZER ISSO COMIGO!”. Se a gente vai apostar apenas dois dólares, é melhor ficar em casa, pegar o dinheiro e passá-lo de um bolso para outro.
Por outro lado, minha maior aposta foi uma vitória de 20 dólares. Ambição em excesso pode criar erros, porque as apostas muito pesadas afetam os processos de pensamento. Mais duas coisas. Nunca aposte no cavalo com a maior cotação resultante de sua última corrida, e nunca aposte num grande fechador.
Meu passeio até ali foi muito agradável, mas como sempre eu me ressentia da espera de 30 minutos entre as corridas. Era demorada demais. A gente sente a vida sendo reduzida à polpa pela inútil perda de tempo. Quer dizer, a gente fica ali sentado na cadeira ouvindo vozes que discutem quem vai ganhar e por quê. É realmente nauseante. Às vezes a gente pensa que está num asilo de loucos. E de certa forma está. Cada um daqueles babacas acha que sabe mais que os outros, e lá estão todos juntos num mesmo lugar. E lá estava eu, sentado no meio deles.
Eu gostava era da ação real, aquele momento em que todos os nossos cálculos saem corretos do alto-falante e a vida tem algum sentido, algum ritmo e significado. Mas a espera entre as corridas era um verdadeiro horror: ali sentado com uma humanidade murmurante, tateante, que jamais iria aprender ou melhorar, só piorar com o tempo. Sempre ameacei minha boa esposa Sarah de ficar em casa durante os dias e escrever dezenas e dezenas de poemas imortais.
Assim, consegui atravessar a tarde ali e voltei para casa, ganhador de pouco mais de 100 dólares. Voltei de carro com a multidão trabalhadora. Que bando formavam. Putos da vida, maus e quebrados. Com pressa de chegar em casa pra trepar, se possível, pra ver TV, pra ir dormir cedo a fim de fazer novamente a mesma coisa no dia seguinte.
Entrei na estradinha de acesso à casa, e Sarah lá estava, regando o jardim. Era uma grande jardineira. E aguentava minhas insanidades. Dava-me comida saudável, me cortava os cabelos e as unhas dos pés, e geralmente me mantinha em marcha de várias formas.
Estacionei o carro e fui ao jardim, dei-lhe um beijo de saudação.
– Ganhou? – ela perguntou.
– É. Claro. Um pouco.
– Ninguém ligou – ela disse.
– Isso é mau, isso tudo... – eu disse. – Você sabe, depois de Jon ameaçar cortar o dedo e tudo mais. Sinto muito mesmo por ele.
– Talvez devesse ter convidado ele esta noite.
– Eu convidei, mas ele tinha compromisso.
– S&M?
– Não sei. Um casal de lésbicas. Uma espécie de desafogo pra ele.
– Viu as rosas?
– Vi, estão sensacionais. Aquelas vermelhas, brancas e amarelas. Amarelo é minha cor preferida. Me dá vontade de comer.
Sarah encaminhou-se com a mangueira até a pia, fechou a água, e entramos em casa juntos. A vida não era muito ruim, às vezes.
– Hollywood
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Ato Criativo

para o ovo quebrado no chão
paro o 5 de julho
para o peixe no tanque
para o velho no quarto 9
para o gato na cerca
para você mesmo
não pela fama
não pelo dinheiro
você precisa seguir na batalha
quando a idade avança
o glamour esmorece
é mais fácil quando se é jovem
todo mundo pode se erguer às
alturas vez ou outra
a palavra-chave é
consistência
qualquer coisa que mantenha as coisas
em movimento
esta dança da vida em frente à
Dona Morte.

E lá estava. O filme rolava. Eu tomara uma surra do garçom no beco. Como expliquei antes, tenho as mãos pequenas, o que é uma terrível desvantagem numa briga de socos. Aquele garçom em particular tinha umas mãos enormes. Para piorar ainda mais as coisas, eu encaixava bem as porradas, o que me fazia absorver muito mais o castigo. Tinha um pouco de sorte do meu lado: não era muito medroso. As brigas com o garçom eram uma forma de passar o tempo. Afinal, a gente não podia ficar sentado no tamborete do bar o dia e a noite inteiros. A dor vinha na manhã seguinte, e não era tão ruim quando a gente tinha conseguido voltar para o quarto.
E brigando duas ou três vezes por semana eu ia ficando melhor naquilo. Ou o garçom ficando pior.
Mas isso fora mais de quatro décadas atrás. Agora eu me sentava numa sala de projeção de Hollywood.
Não é preciso lembrar o filme aqui. Talvez seja melhor falar de uma parte que ficou de fora. Mais adiante, no filme, uma dona quer cuidar de mim. Acha que eu sou um gênio e quer me proteger das ruas. No filme eu só fico na casa da dona uma noite. Mas na vida real fiquei cerca de um mês e meio.
A dona, Tully, morava numa grande casa em Hollywood Hills. Dividia-a com outra dona, Nadine. As duas eram altas executivas. Estavam no ramo das diversões: música, editoração, uma coisa assim. Pareciam conhecer todo mundo e davam duas ou três festas por semana, um monte de tipos de Nova York. Eu não gostava das festas de Tully e me divertia ficando totalmente de porre e insultando o máximo de pessoas que pudesse.
Nadine morava com um cara um pouco mais jovem que eu. Era compositor, ou diretor, ou alguma coisa assim, temporariamente desempregado. Não gostei dele de cara. Vivia esbarrando com ele pela casa ou no pátio de manhã, quando estávamos ambos de ressaca. Ele sempre usava uma porra de uma echarpe.
Uma manhã, lá pelas 11 horas, estávamos os dois no pátio mamando umas cervejas, tentando nos recuperar de nossas ressacas. Ele se chamava Rich. Me olhou.
– Precisa de outra cerveja?
– Claro... Obrigado...
Ele entrou na cozinha, voltou, me entregou minha cerveja e se sentou.
Tomou uma boa golada. Depois deu um profundo suspiro.
– Não sei por quanto tempo mais vou conseguir enrolar ela...
– Quê?
– Quer dizer, eu não tenho talento nenhum. É tudo merda.
– Lindo – eu disse –, isso é realmente lindo. Eu admiro você.
– Obrigado. E você? – ele perguntou.
– Eu bato à máquina. Mas não é esse o problema.
– Qual é?
– Estou com o pau esfolado de tanto foder. Ela nunca se satisfaz.
– Eu tenho de chupar Nadine toda noite.
– Nossa...
– Hank, nós somos uma dupla de homens manteúdos.
– Rich, essas mulheres liberadas puseram os bagos da gente num saco.
– Acho que a gente devia entrar já na vodca – ele disse.
– Ótimo – eu disse.
Nessa noite, quando nossas donas chegaram, nenhum dos dois estava em condições de cumprir seus deveres.
Rich durou mais uma semana e desapareceu.
Depois disso, eu muitas vezes encontrava Nadine andando nua pela casa, geralmente quando Tully havia saído.
– Que diabos está fazendo? – perguntei finalmente.
– Isto aqui é minha casa, e se eu quiser andar com o rabo tomando vento isso não é da conta de ninguém.
– Vamos lá, Nadine, que é que há realmente? Quer uma chupadinha?
– Nem que você fosse o último homem da terra.
– Se eu fosse o último homem da terra, você ia ter de entrar na fila.
– Fique feliz por eu não contar pra Tully.
– Bem, pare de andar por aí com a xoxota pendurada.
– Seu porco!
Subiu correndo a escada, plop, plop, plop. Um rabão. Uma porta bateu lá em cima. Eu não prossegui com a coisa. Uma mercadoria totalmente superestimada.
Nessa noite, quando Tully voltou, me remeteu para Catalina por uma semana. Acho que sabia que Nadine estava no cio.
Isso não estava no filme. Não se pode pôr tudo num filme.
E aí, voltando à sala de projeção, o filme acabara. Aplaudiram. Todos saímos em volta apertando as mãos uns dos outros, abraçando-nos. Éramos todos sensacionais, diabos, sim.
Harry Friedman me encontrou. Nós nos abraçamos, depois apertamos as mãos.
– Harry – eu disse –, você tem um vencedor!
– É, é, um grande argumento! Escuta, eu soube que você escreveu um romance sobre prostitutas.
– É.
– Quero que me escreva um argumento sobre ele. Quero fazer!
– Claro, Harry, claro...
Então ele avistou Francine Bowers e correu para ela.
– Francine, doçura, você estava magnífica!
Aos poucos, as coisas foram se acalmando e a sala ficou quase vazia. Sarah e eu saímos.
Lance Edwards e seu carro haviam desaparecido. Tínhamos o longo percurso de volta até o nosso carro. Tudo bem. A noite estava fresca e clara. O filme acabara e logo estaria sendo exibido. Os críticos dariam sua opinião. Eu sabia que se faziam filmes demais, um atrás do outro atrás do outro. O público via tantos filmes que não sabia mais o que era um filme e os críticos se achavam na mesma entalada.
E então voltávamos para casa, em nosso carro.
– Eu gostei – disse Sarah. – Só que teve umas partes...
– Eu sei. Não é um filme imortal, mas é bom.
– É, é, sim...
Estávamos na autoestrada.
– Vou ter prazer em ver os gatos – disse Sarah.
– Eu também...
– Você vai escrever outro argumento?
– Espero que não...
– Harry Friedman quer que a gente vá a Cannes, Hank.
– Quê? E deixar os gatos?
– Ele mandou levar os gatos.
– De jeito nenhum!
– Foi o que eu disse a ele.
Fora uma boa noite, e outras haveria. Eu entrei na primeira saída e paguei para ver.
– Hollywood
1 183
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Confissão

à espera da morte
como um gato
que saltará sobre a
cama
sinto terrivelmente por
minha esposa
ela verá este
corpo
duro e
branco
vai sacudi-lo uma vez, depois
quem sabe
outra:
“Hank!”
Hank não
responderá.
não é minha morte o que
me preocupa, é minha mulher
abandonada com este
monte de
nada.
quero
no entanto
que ela saiba
que todas as noites
dormindo
ao seu lado
que mesmo as discussões
inúteis
sempre foram
esplêndidas
e que as palavras
difíceis
que sempre temi
dizer
podem agora ser
ditas:
eu te
amo.

Chegamos um pouco atrasados para a festa, mas ainda não havia muita gente. Victor Norman sentava-se a algumas mesas da nossa. Depois que Sarah e eu nos sentamos, apareceu o garçom com nosso vinho. Vinho branco. Bem, era de graça.
Esvaziei meu copo e fiz sinal com a cabeça, chamando o garçom para tornar a enchê-lo.
Percebi que Victor me observava.
O pessoal ia chegando aos poucos. Vi o famoso ator do bronzeado perpétuo. Soubera que ele ia a quase todas as festas de Hollywood, em toda parte.
Sarah me deu uma cutucada. Era Jim Serry, o velho guru da droga da década de 60. Também ele ia a muitas festas. Parecia cansado, triste, esgotado. Senti pena dele. Ia de mesa em mesa. Chegou à nossa. Sarah deu um sorriso de prazer. Era uma filha dos anos 60. Apertei a mão dele.
– Oi, baby – eu disse.
A casa começava a lotar rapidamente. Eu não conhecia a maioria das pessoas. Acenava constantemente ao garçom para trazer mais vinho. Ele terminou trazendo uma garrafa inteira, e a pôs na mesa.
– Quando acabarem essa, trago outra.
– Obrigado, cara...
Sarah embrulhara um presentinho para Harry Friedman. Eu o tinha no colo.
Jon chegou e sentou-se à nossa mesa.
– Estou feliz por você e Sarah terem podido vir – disse. – Veja, está enchendo, este lugar está cheio de gângsters e matadores, os piores!
Ele adorava aquilo. Tinha alguma imaginação. Isso o ajudava a atravessar os dias e as noites.
Então surgiu um sujeito de aparência muito importante. Ouvi alguns aplausos.
Saltei de pé com o presente de aniversário. Me aproximei dele.
– Sr. Friedman, feliz...
Jon correu a me agarrar por detrás. Me puxou de volta à mesa.
– Não! Não! Esse não é Friedman! É o Fischman!
– Oh...
Sentei-me.
Notei Victor Norman me observando. Imaginei que desistisse dentro de pouco tempo. Quando tornei a olhar, ele ainda me encarava. Me olhava como se não acreditasse nos próprios olhos.
– Tudo bem, Victor – eu gritei –, e daí se eu faço cocô nas calças? Quer fazer disso uma Guerra Mundial?
Ele desviou o olhar.
Eu me levantei e procurei o banheiro dos homens.
Ao sair de lá, me perdi e entrei na cozinha. Encontrei um ajudante de garçom fumando um cigarro. Meti a mão na carteira e puxei uma nota de dez dólares. Coloquei-a no bolso da camisa dele.
– Não posso aceitar, senhor.
– Por que não?
– Não posso.
– Todo mundo recebe gorjetas. Por que não o ajudante de garçom? Eu sempre quis ser um ajudante de garçom.
Afastei-me, tornei a encontrar a sala principal e a mesa.
Quando me sentei, Sarah se curvou para mim e sussurrou:
– Victor Norman veio aqui quando você saiu. Disse que foi muito legal de você não falar nada da literatura dele.
– Fui bom, não fui, Sarah?
– Foi.
– Não fui um bom menino?
– Foi.
Olhei para Victor Norman, atraindo sua atenção. Fiz-lhe um aceno de cabeça, pisquei o olho.
Nesse momento entrava o verdadeiro Harry Friedman. Algumas pessoas se levantaram e aplaudiram. Outras pareciam entediadas.
Friedman sentou-se à sua mesa e serviu-se de comida. Massa. A massa correu a roda. Harry Friedman recebeu a sua e atacou-a logo. Parecia um bom garfo. Era largo, sem dúvida. Usava um terno velho, os sapatos gastos. Cabeça grande, bochechudo. Enfiava a massa naquelas bochechas. Tinha grandes olhos redondos, olhos tristes e cheios de desconfiança. Ai, viver no mundo! Faltava um botão da camisa branca amassada, perto da barriga, que se estufava para fora. Parecia um bebezão que de algum modo se soltara, crescera depressa e quase se tornara um homem. Tinha charme, mas podia ser perigoso acreditar naquele charme – ele seria usado contra a gente. Não usava gravata. Feliz aniversário, Harry Friedman!
Surgiu uma jovem vestida de policial. Encaminhou-se diretamente para a mesa dele.
– VOCÊ ESTÁ PRESO! – gritou.
Harry Friedman parou de comer e sorriu, os lábios molhados de massa.
A policial tirou o casaco e a blusa. Tinha seios enormes. Balançou-os debaixo do nariz de Harry Friedman.
– VOCÊ ESTÁ PRESO – gritou.
Todo mundo aplaudiu. Não sei por quê.
Friedman fez sinal à policial para que se abaixasse. Ela se abaixou e ele sussurrou-lhe alguma coisa no ouvido. Ninguém soube o que era.
Me leve pra sua casa. Vamos ver o que acontece?
Esqueceu seu cassetete. Cuido disso? Você vem me ver. Te levo no cinema?
A policial tornou a vestir a blusa, o casaco, e se mandou.
As pessoas aproximavam-se da mesa de Friedman e diziam-lhe coisinhas. Ele as olhava como se não soubesse quem eram. Em breve acabara de comer e bebia vinho. Manejava bem o vinho. Gostei disso.
Realmente tinha um fraco por vinho. Depois de algum tempo, saiu de mesa em mesa, curvando-se, falando com as pessoas.
– Nossa – eu disse a Sarah –, veja só aquilo!
– Quê?
– Ele está com um pedaço de massa num dos cantos da boca e ninguém lhe diz nada. Está ali pendurado!
– Estou vendo! Estou vendo! – disse Jon.
Harry Friedman continuava indo de mesa em mesa, curvando-se, falando. Ninguém o avisava.
Finalmente, ele se aproximou. Estava mais ou menos a uma mesa da nossa quando eu me levantei e me aproximei dele.
– Sr. Friedman – disse.
Ele me olhou com aquele rosto de bebê monstruoso.
– Sim?
– Fique parado.
Estendi a mão, peguei o fiapo de massa e puxei. A coisa se soltou.
– O senhor estava andando por aí com isso pendurado. Eu não aguentava mais.
– Obrigado – ele disse.
Voltei pra minha mesa.
– Bem, bem – perguntou Jon –, que acha dele?
– Acho ele um encanto.
– Eu te disse. Não conheci ninguém como ele depois de Lido Mamin...
– De qualquer modo – disse Sarah –, foi bacana da sua parte tirar a massa da cara dele, já que ninguém mais tinha coragem de fazer isso. Foi muito bacana.
– Obrigado, eu sou um cara muito bacana, na verdade.
– Oh, é? Que mais você fez de bacana ultimamente?
Nossa garrafa de vinho estava vazia. Chamei o garçom. Ele franziu o cenho para mim e adiantou-se com outra garrafa.
E não consegui pensar em nada bacana que tivesse feito. Ultimamente.
– Hollywood
1 344
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Garras do Paraíso

borboleta de madeira
sorriso de bicarbonato de sódio
mosca de serragem
amo minha pança
e o homem da loja de bebidas
me chama,
“sr. Schlitz.”
os caixas no hipódromo
gritam,
“O POETA SABE A VERDADE!”
quando desconto meus bilhetes.
as senhoras
dentro e fora da cama
dizem que me amam
e eu sigo por aí com pés
molhados e brancos.
albatrozes com olhos embriagados
as cuecas sujas do Popeye
percevejos de Paris,
já limpei as barricadas
dominei o
automóvel
a ressaca
as lágrimas
mas eu conheço
a condenação final
como qualquer garoto de escola que vê
o gato ser esmagado
pelo tráfego.
meu crânio tem uma fenda de
quatro centímetros bem no
topo.
a maioria dos meus dentes está
na frente. sinto
tonturas em supermercados
cuspo sangue quando bebo
uísque
e me entristeço
até a
aflição
quando penso em todas as
boas mulheres que conheci
que se
dissolveram
desapareceram
por trivialidades:
viagens a Pasadena,
piqueniques de criança,
tampas de pasta de dente
ralo abaixo.
não há nada a fazer
senão beber
jogar nos cavalos
apostar no poema
enquanto as jovens
se tornam mulheres
e as metralhadoras
apontam para mim
encolhidas
atrás de paredes mais finas
que pálpebras.
não há defesa
exceto em todos os erros
cometidos.
nesse meio-tempo
tomo banhos de chuveiro
atendo ao telefone
ponho ovos pra ferver
estudo o movimento e a perda
e me sinto tão bem
quanto o próximo instante
caminhando ao sol.

Fay estava indo bem com a gravidez. Para uma mulher madura, ela estava bem. Esperávamos em casa. Finalmente chegou a hora.
– Não vai levar muito tempo – ela disse. – Não quero chegar lá muito cedo.
Saí e dei uma verificada no carro. Retornei.
– Ooooh, oh – ela disse. – Não, espere.
Talvez ela pudesse salvar o mundo. Orgulhava-me sua calma. Perdoei-a a louça suja, a The New Yorker e a oficina de escritores. A velha era apenas mais uma criatura sozinha num mundo que não estava nem aí pra ela.
– É melhor irmos agora – eu disse.
– Não – disse Fay –, não quero fazer você esperar muito tempo. Sei que você não anda se sentindo bem.
– Fodam-se meus problemas. Vamos fazer isso duma vez.
– Não, por favor, Hank.
Ela simplesmente ficou ali sentada.
– Em que posso ajudar você? – perguntei.
– Nada.
Ficou onde estava por mais dez minutos. Fui até a cozinha atrás de um copo d’água. Quando voltei, ela disse:
– Você está pronto pra dirigir?
– Claro.
– Sabe onde fica o hospital?
– Claro.
Ajudei-a a entrar no carro. Havia percorrido duas vezes o trajeto na semana passada, como treinamento. Mas quando cheguei lá não fazia a mais vaga ideia de onde estacionar. Fay apontou para uma pista.
– Vá por ali. Estacione ali. Entramos por esse caminho.
– Sim, senhora – eu disse...
Ela estava num leito, num quarto dos fundos que dava para a rua. Seu rosto se contraía.
– Segure minha mão – ela disse.
Foi o que fiz.
– Está mesmo acontecendo? – perguntei.
– Sim.
– Você faz tudo parecer tão fácil – eu disse.
– Você é muito gentil. Isso ajuda.
– Gosto de ser gentil. É aquele maldito Correio...
– Eu sei. Eu sei.
Olhávamos pela janela dos fundos.
Eu disse:
– Olhe para aquelas pessoas lá embaixo. Não fazem ideia do que acontece aqui em cima. Apenas caminham pela calçada. Sim, isso é engraçado... uma vez eles também tiveram que nascer, cada um deles.
– Sim, é engraçado.
Podia sentir os movimentos do corpo dela através de sua mão.
– Segure mais forte – ela disse.
– Sim.
– Vou odiar quando você tiver que ir.
– Onde está o médico? Onde está todo mundo? Mas que merda!
– Eles logo aparecem.
Logo em seguida uma enfermeira entrou. Era um hospital católico e se tratava de uma enfermeira muito bonita, morena, espanhola ou portuguesa.
– O senhor... deve sair... agora – ela me disse.
Mostrei a Fay meus dedos cruzados e sorri um sorriso torto. Não creio que ela tenha visto. Peguei o elevador e desci.
Meu médico alemão me acordou. O mesmo que me havia feito os testes sanguíneos.
– Parabéns – ele disse, com um aperto de mão –, é uma menina. Quatro quilos.
– E a mãe?
– A mãe ficará bem. Não deu nenhum trabalho.
– Quando posso ver as duas?
– O senhor será avisado. Trate de sentar, eles virão chamá-lo. – E então ele se foi.
Olhei através do vidro. A enfermeira apontou para a minha filha. Seu rosto estava bem vermelho e ela chorava mais alto do que todos os outros bebês. A sala estava cheia de bebês, todos aos berros. Quantos nascimentos! A enfermeira parecia muito orgulhosa de meu bebê. Ao menos, esperava que aquela criança fosse a minha. Ela a ergueu de modo que eu pudesse vê-la melhor. Sorri através do vidro, não sabia como agir. Ela apenas berrou para mim. Pobrezinha, pensei, pobre criatura. Eu não sabia então que ela seria linda um dia, que se pareceria muito comigo, hahaha.
Gesticulei para a enfermeira que baixasse o bebê, então dei um tchauzinho para as duas. Era uma enfermeira bacana. Boas pernas, boas cadeiras. Seios fartos.
Fay tinha uma mancha de sangue no lado esquerdo de sua boca, e eu apanhei um lenço molhado e limpei a marca. As mulheres foram feitas para sofrer, não era à toa que estavam sempre pedindo declarações de amor.
– Queria que eles me deixassem com a nenê – disse Fay –, não está certo isso de nos separarem.
– Eu sei. Mas deve haver alguma razão de ordem médica.
– Sim, mas mesmo assim não parece certo.
– Não, não é mesmo. Mas a menina parece bem. Farei o que puder para que eles a tragam o quanto antes. Deve ter uns quarenta bebês por lá. Estão fazendo todas as mães esperarem. Acho que isso deve acontecer pra que elas tenham tempo de se recuperar. Nosso bebê parece muito forte, posso lhe garantir. Por favor, não se preocupe.
– Eu ficaria tão feliz com a minha nenê.
– Eu sei, eu sei. Não vai demorar.
– Senhor – uma enfermeira gorda, mexicana, se aproximou –, vou ter que pedir para o senhor sair agora.
– Mas eu sou o pai.
– Sim, nós sabemos. Mas sua esposa precisa descansar agora.
Apertei a mão de Fay, beijei-lhe a testa. Ela fechou os olhos e pareceu dormir. Não era uma mulher jovem. Talvez ela não tivesse salvado o mundo, mas tinha feito uma grande melhoria. Um brinde a Fay.
– Cartas na rua
1 319
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Sua Mulher, a Pintora

Havia esboços de homens, mulheres e patos sobre as paredes,
e do lado de fora um grande ônibus verde cortava o tráfego como
a insanidade que saltasse de uma linha ondulada, Turguêniev, Turguêniev,
diz o rádio, e Jane Austen, Jane Austen, também.
“Vou fazer o retrato dela no dia 28, quando você estiver
no trabalho.”
Ele estava a um passo da obesidade e caminhava constantemente,
espatifava-se; eles o tinham; esvaziavam-no por dentro como
uma mosca na teia, e seus olhos eram injetados de raiva-medo.
Ele sente o ódio e o descartar do mundo, mais afiados que sua
gilete, e sua intuição está suspensa como um pólipo úmido; e
ele se julga derrotado ao tentar remover os fios de barba
presos à lâmina sob a água (como a vida), não tão quente como deveria.
Daumier. Rue Transnonain, le 15 Avril, 1843. (Litografia.)
Paris, Bibliothèque Nationale.
“Ela tem um rosto como nunca vi em outra mulher.”
“O que é isso? Um caso amoroso?”
“Tolinho. Não posso amar uma mulher. Além disso, ela está grávida.”
Não posso pintar – uma flor devorada por uma cobra; aquela luz do sol é uma
mentira; e aqueles mercados cheiram a sapatos e a nudez de garotos vestidos,
e abaixo de tudo isso algum rio, algum movimento, alguma virada que
suba ao longo do limite de meu templo e morda com uma picada atordoante...
homens dirigem carros e pintam suas casas,
mas eles são loucos; homens se sentam nas barbearias, compram chapéus.
Corot. Lembrança de Mortefontaine.
Paris, Louvre.
“Tenho que escrever para o Kaiser, embora eu ache que ele é homossexual.”
“Você segue lendo Freud?”
“Página 299.”
Ela produziu um pequeno chapéu e ele fez dois estalos com a mão debaixo do
braço, erguendo-o da cama como uma longa antena de
lesma, e ela foi à igreja, e ele pensou agora eu tenho
tempo e o cachorro.
Sobre a igreja: o problema de uma máscara é que ela
nunca muda.
Tão rude as flores que crescem e não crescem belas.
Tão incrível a cadeira no pátio que não precisa sustentar pernas
e barriga e braço e pescoço e boca que morde o
vento como o fim de um túnel.
Ele se voltou na cama e pensou: estou procurando algum
segmento no ar. Ele flutua sobre a cabeça das pessoas.
Quando chove sobre as árvores ele se acomoda entre os galhos
mais quente e mais verdadeiramente sanguíneo que a pomba.
Orozco. Cristo Destruindo a Cruz.
Hanover, Dartmouth College, Baker Library.
Deixou-se consumir pelo sono.

Fay estava grávida. Mas isso não a fez mudar nem as coisas nos Correios mudaram.
Os mesmos funcionários faziam todo o trabalho enquanto o resto do pessoal, a equipe mista, ficava por ali, discutindo esportes. Eram todos caras negros, grandes – com uma constituição de profissionais da luta livre. Sempre que um novato entrava no serviço, era enviado para a equipe mista. Isso evitava que eles assassinassem os supervisores. Se as equipes mistas tinham um supervisor, jamais se conseguia avistá-lo. A equipe carregava os caminhões com as cartas que chegavam através do elevador de carga. Isso ocupava cinco minutos de uma hora de trabalho. Às vezes, eles contavam as cartas, ou ao menos fingiam. Pareciam bastante calmos e inteligentes, fazendo suas contas com um lápis comprido atrás da orelha. Mas na maior parte do tempo eles discutiam sobre esporte, de um modo violento. Todos eram especialistas – liam os mesmos comentaristas esportivos.
– Muito bem, cara, quem é pra você o melhor jogador de todos os tempos do campo externo?
– Bem, Willie Mays, Ted Williams, Cobb.
– O quê? O quê?
– É isso aí, meu!
– E quanto ao Babe? Como deixar o Babe de fora?
– Ok, Ok, quem é o seu jogador cinco estrelas na posição?
– Não é cinco estrelas, é o melhor de todos os tempos!
– Ok, Ok, você sabe o que eu quero dizer, meu, você sabe o que eu quero
dizer!
– Bem, fico com Mays, Ruth e Di Maj!
– Vocês dois perderam a noção! E o Hank Aaron, rapaziada? Como deixar o Hank de fora?
Certa vez, todos os cargos da equipe mista foram postos à disposição. As vagas eram preenchidas principalmente em função do tempo de trabalho. A equipe mista se organizou e rasgou as fichas de preenchimentos de vagas do livro de pedidos. Eles não podiam fazer nada. Ninguém deu queixa por escrito. Era um caminho comprido e escuro até o estacionamento à noite.
Comecei a sentir tonturas. Podia senti-las vindo. A caixa começava a girar. As crises duravam um minuto. Não conseguia entender o que se passava. Cada carta se tornava mais e mais pesada. Os funcionários começavam a ter aquele aspecto de um cinza esmaecido. Eu começava a deslizar de meu banquinho. Minhas pernas mal eram capazes de me sustentar. O trabalho estava me matando.
Fui até meu médico e lhe disse o que estava acontecendo. Ele mediu minha pressão.
– Não, não, não há nada de errado com sua pressão.
Então ele me auscultou e me pesou.
– Não vejo nada de errado.
Depois resolveu fazer um exame de sangue especial. Fez três coletas de sangue, sucessivas, em intervalos, cada um parecendo maior do que o anterior.
– Importa-se de esperar na outra sala?
– Não, não, vou dar uma volta por aí e retorno na hora combinada.
– Certo, mas volte mesmo na hora combinada.
Cheguei a tempo para a segunda coleta. Então houve uma espera maior para a terceira, cerca de vinte ou 25 minutos. Dei uma volta pela rua. Nada de especial estava acontecendo. Fui até uma loja de conveniências e fiquei lendo uma revista. Coloquei-a de volta em seu lugar, olhei para o relógio e saí. Vi aquela mulher sentada na parada de ônibus. Era uma dessas que a gente vê raramente. Mostrava boa parte das pernas. Não conseguia desviar meus olhos. Atravessei a rua e fiquei a uns vinte metros de distância.
Então ela se levantou. Tive que segui-la. Aquele rabo gostoso acenava para mim. Eu estava hipnotizado. Ela entrou numa agência dos Correios. Entrou numa enorme fila e eu fiquei atrás dela. Trazia dois postais consigo. Comprei doze postais de via aérea e dois dólares em selos.
Quando saí, ela apanhava o ônibus. Vi ainda um resquício daquelas pernas e daquele rabo deliciosos entrando no ônibus, ônibus que a levou embora.
O médico estava esperando.
– O que aconteceu? O senhor está cinco minutos atrasado!
– Não sei. Meu relógio deve ter parado.
– AS COISAS TÊM QUE SER FEITAS COM EXATIDÃO!
– Vamos. Tire meu sangue duma vez.
Ele me enfiou a agulha...
Dois dias depois, os testes disseram que não havia nada de errado comigo. Não sei se foi por causa daquela diferença de cinco minutos. Mas as crises de tontura pioraram. Comecei a sair do trabalho quatro horas antes do previsto, sem preencher corretamente os formulários.
Eu chegava por volta das onze da noite e lá estava Fay. Pobre Fay grávida.
– O que aconteceu?
– Não conseguia suportar mais – eu disse –, estou muito sensível...
– Cartas na rua
1 188
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Despachante de Nariz Vermelho

Quando conheci Randall Harris, ele estava com 42 anos e vivia com uma mulher de cabelo grisalho, uma tal de Margie Thompson. Margie estava com 45 e não era muito bonita. Naquela época, eu editava uma pequena revista chamada Mad Fly e tinha ido visitá-los numa tentativa de conseguir algum material de Randall.
Randall era conhecido por ser um solitário convicto, um bêbado, um homem bruto e amargo, mas seus poemas eram crus, crus e honestos, simples e selvagens. Estava escrevendo como ninguém mais fazia naquela época. Ele trabalhava como despachante em um depósito de autopeças.
Sentei de frente para Randall e Margie. Eram sete e quinze da noite e Harris já estava bêbado de cerveja. Pôs uma garrafa na minha frente. Eu tinha ouvido falar de Margie Thompson. Ela era uma comunista das antigas, uma salvadora do mundo, uma benfeitora. Alguém poderia se perguntar o que ela estava fazendo ao lado de Randall, que não se importava com nada e não fazia questão de escondê-lo.
– Gosto de fotografar merda – ele me disse –, essa é a minha arte.
Randall começou a escrever com 38 anos. Com 42, depois de três pequenos livros de contos (A morte é uma cadela mais suja que o meu país, Minha mãe trepou com um anjo e Os cavalos desenfreados da loucura), estava começando a receber o que se pode chamar de reconhecimento da crítica. Mas não ganhava grana com seus textos e disse:
– Não sou nada além de um despachante com uma depressão profunda.
Vivia em um velho casarão em Hollywood com Margie, e ele era estranho, de verdade.
– Apenas não gosto de gente – ele disse. – Sabe, Will Rogers disse uma vez: “Nunca encontrei um homem de quem não gostasse”. Comigo é o contrário, nunca encontrei um homem de quem gostasse.
Mas Randall tinha senso de humor, uma capacidade de rir da dor e de si mesmo. Não havia como não gostar dele. Era um homem feio com um cabeção e uma cara amassada... apenas o nariz parecia ter escapado do achatamento generalizado.
– Não tenho osso suficiente em meu nariz, é como se fosse de borracha – ele explicava. Seu nariz era longo e muito vermelho.
Eu já ouvira histórias sobre Randall. Dizia-se que era de quebrar janelas e jogar garrafas contra as paredes. Era um bêbado terrível. Também tinha períodos em que não atendia à porta nem ao telefone. Não tinha televisão, apenas um radinho e somente ouvia música sinfônica... algo estranho para um sujeito bruto como ele.
Randall também tinha períodos em que tirava a parte de baixo do telefone e enchia com papel higiênico ao redor da campainha para que não soasse. Ficava assim por meses. Alguém poderia se perguntar por que ele tinha um telefone, afinal. Sua educação era precária, mas ele evidentemente lia boa parte dos melhores escritores.
– Bem, seu merda – ele me disse –, imagino que você esteja se perguntando o que faço ao lado dela? – e apontou para Margie.
Não respondi.
– Ela é boa de cama – ele disse – e me dá as melhores fodas a oeste de Saint Louis.
Esse era o mesmo sujeito que tinha escrito quatro ou cinco excelentes poemas de amor para uma mulher chamada Annie. Era de se pensar como tudo isso funcionava.
Margie apenas ficava sentada ali, mostrando os dentes. Ela também escrevia poesia, mas não era muito boa. Frequentava dois workshops por semana, o que não ajudava muito.
– Então você quer alguns poemas? – ele me perguntou.
– Sim, gostaria de olhar alguns.
Harris foi até o armário, abriu a porta e pegou alguns papéis amassados e rasgados do fundo. Entregou-os para mim.
– Escrevi esses aí na noite passada.
Então ele foi até a cozinha e voltou com mais duas cervejas. Margie não bebia.
Comecei a ler os poemas. Eram todos poderosos. Ele datilografava com a mão muito pesada, e as palavras pareciam cinzeladas no papel. A força de sua escrita sempre me surpreendia. Parecia estar dizendo todas as coisas que deveríamos dizer, mas que nunca teríamos coragem de pronunciar.
– Vou levar esses poemas – eu disse.
– Ok – ele disse. – Beba.
Quando se visitava Harris, beber era uma obrigação. Ele fumava um cigarro atrás do outro. Usava calças marrons de algodão, folgadas, dois número acima do que seria o correto, e camisas velhas que estavam sempre em frangalhos. Tinha aproximadamente um metro e oitenta de altura e pesava uns cem quilos, em grande parte decorrentes da cerveja. Tinha os ombros caídos e nos espiava por trás das pálpebras semicerradas. Bebemos por cerca de duas horas e meia, o ar estava saturado pela fumaça. Subitamente Harris se levantou e disse:
– Dê o fora daqui, seu escroto, você me dá nojo!
– Calma, Harris, calma...
– Eu disse AGORA! Escroto!
Levantei e parti com os poemas.
Voltei àquele casarão dois meses mais tarde para entregar algumas cópias da Mad Fly para Harris. Tinha publicado todos os dez poemas dele. Margie me deixou entrar. Randall não estava lá.
– Ele está em Nova Orleans – disse Margie –, acho que ele está tirando uma folga. Jack Teller quer publicar seu próximo livro, mas ele quer conhecer Randall antes. Teller diz que não pode editar ninguém de quem não goste. Pagou a passagem área de ida e volta.
– Randall não é o que se poderia chamar de um sujeito cativante – eu disse.
– Veremos – disse Margie. – Teller é um bêbado e um ex-presidiário. Talvez formem uma bela dupla.
Teller publicava a revista Riftraff e tinha seu próprio prelo. Fazia um belo trabalho. A última edição de Riftraff tinha a cara feia de Harris na capa mamando em uma garrafa de cerveja e trazia alguns de seus poemas.
Riftraff era amplamente reconhecida como a revista literária número um da época. Harris estava começando a ganhar mais e mais destaque. Isso acabaria se tornando uma boa chance para ele, se não a estragasse com sua língua pérfida e seus modos de bêbado. Antes de partir, Margie me disse que estava grávida... de Harris. Como eu disse, ela tinha 45 anos.
– O que ele disse quando você lhe contou?
– Pareceu indiferente.
Parti.
O livro realmente foi publicado em uma edição de dois mil exemplares, muito bem impressos. A capa era feita de cortiça importada da Irlanda. As páginas eram multicoloridas e de um papel extremamente bom, impressas em um tipo exótico e entremeadas com alguns desenhos em nanquim que o próprio Harris havia feito. A edição foi aclamada, tanto pelo livro em si quanto pelo conteúdo. Mas Teller não podia pagar os royalties. Ele e sua esposa viviam com uma margem de lucro muito pequena. Em dez anos o livro passou a custar 75 dólares no mercado de livros raros. Enquanto isso Harris voltou para seu emprego de despachante no armazém de autopeças.
Quando fui visitá-lo novamente, quatro ou cinco meses depois, Margie se fora.
– Ela partiu há muito tempo – disse Harris. – Beba uma cerveja.
– O que aconteceu?
– Bem, depois que voltei de Nova Orleans, escrevi alguns contos. Enquanto eu estava no trabalho, ela revirou minhas gavetas. Leu algumas das minhas histórias e ficou alterada com o conteúdo delas.
– Sobre o que eram?
– Ah, sobre as minhas aventuras amorosas com algumas mulheres em Nova Orleans.
– As histórias eram verdadeiras? – perguntei.
– Como vai a Mad Fly? – perguntou.
A criança nasceu, uma menina, Naomi Louise Harris. Ela e a mãe viviam em Santa Mônica, e Harris dirigia até lá uma vez por semana para vê-las. Pagava pensão alimentícia e continuava bebendo sua cerveja. Depois disso, soube que ele mantinha uma coluna semanal no jornal de vanguarda Los Angeles Lifeline. Chamava suas colunas de Impressões de um Maníaco de Primeira Classe. Sua prosa era como sua poesia: indisciplinada, antissocial e preguiçosa.
Harris deixou crescer um cavanhaque e deixou seu cabelo mais comprido. Na próxima vez que o vi, estava vivendo com uma garota de 35 anos, uma ruiva bonita chamada Susan. Susan trabalhava em uma loja de material de desenho, pintava e tocava violão razoavelmente. Também bebia ocasionalmente uma cerveja com Randall, que era mais do que Margie fazia. O casarão parecia mais limpo. Quando Harris acabava uma garrafa, atirava-a numa sacola de papel, em vez de atirá-la no chão. Mas, ainda assim, era um bêbado terrível.
– Estou escrevendo um romance – ele me disse – e às vezes arranjo alguma leitura de poesia nas universidades da região. Também tenho uma leitura marcada em Michigan e outra no Novo México. As ofertas são bem boas. Não sinto vontade de ler, mas sou um bom leitor. Dou a eles um show e um pouco de boa poesia.
Harris também estava começando a pintar. Não pintava muito bem. Pintava como uma criança de cinco anos que tivesse enchido a cara de vodca, mas dava um jeito de vender um ou dois quadros por quarenta ou cinquenta dólares. Contou-me que estava pensando em abandonar seu emprego. Três semanas depois ele realmente largou o emprego para fazer a leitura em Michigan. Já tinha usado as férias a que tinha direto para fazer a viagem a Nova Orleans.
Lembrei de uma vez que em que ele me havia prometido:
– Jamais lerei diante daqueles sanguessugas, Chinaski. Vou pra cova sem nunca fazer uma leitura pública. É pura vaidade, é se vender.
Não o lembrei dessa afirmação.
Seu romance A morte na vida de todos os olhos sobre a face da Terra foi publicado por uma pequena porém prestigiada editora que pagava royalties regularmente. As críticas foram boas, incluindo uma na New York Review of Books. Mas ele ainda era um bêbado terrível e brigava constantemente com Susan por causa da bebida.
Finalmente, depois de um porre homérico, em que ele se enfureceu, amaldiçoou e gritou a noite toda, Susan o deixou. Vi Randall vários dias depois que ela partira. Harris estava estranhamente quieto, quase normal.
– Eu a amava, Chinaski – ele me disse. – Não vou conseguir superar essa, meu chapa.
– Você vai conseguir, Randall. Você vai ver. Vai conseguir. O ser humano é muito mais resistente do que você pensa.
– Merda – ele disse –, espero que você esteja certo. Estou com um buraco danado no peito. As mulheres já colocaram muitos homens bons embaixo da ponte. Elas não sentem isso da forma que nós sentimos.
– Elas sentem, sim. Ela só não conseguia mais suportar as suas bebedeiras.
– Porra, homem, escrevo a maioria dos meus textos quando estou bêbado.
– É esse o segredo?
– Merda, claro que é. Sóbrio, sou apenas um despachante, e não dos melhores...
Deixei-o lá agarrado em sua cerveja.
Voltei a visitá-lo três meses mais tarde. Harris ainda estava em seu casarão. Ele me apresentou Sandra, uma loira bonita de 27 anos. Seu pai era um juiz da Suprema Corte, e ela era uma estudante de graduação na Universidade do Sul da Califórnia. Além de ter um corpo bem-torneado, tinha certa sofisticação e classe, algo que faltara às outras mulheres de Randall. Estava bebendo uma garrafa de vinho italiano.
O cavanhaque de Randall tinha se transformado em uma barba e seu cabelo estava ainda mais comprido. Suas roupas eram novas e da última moda. Estava usando sapados de quarenta dólares, um relógio de pulso novo e seu rosto parecia mais magro, suas unhas, limpas... mas seu nariz ainda enrubescia à medida que ia bebendo o vinho.
– Randall e eu vamos nos mudar para West L.A. Este fim de semana – ela me disse. – Esse lugar é imundo.
– Escrevi muitas coisas boas aqui – ele disse.
– Randall, querido – ela disse –, não é o lugar que escreve, é você. Acho que podemos lhe arranjar um emprego de professor para lecionar três dias por semana.
– Não sei ensinar.
– Querido, você pode lhes ensinar tudo.
– Merda – ele disse.
– Estão pensando em fazer um filme baseado no livro de Randall. Vimos o roteiro. É um belo roteiro.
– Um filme? – perguntei.
– A probabilidade é baixa – disse Harris.
– Querido, estão trabalhando nele. Tenha um pouco de fé.
Bebi outro cálice de vinho com eles e então parti. Sandra era uma garota bonita.
Não recebi o endereço de Randall em West L.A. E não fiz nenhuma tentativa de localizá-lo. Cerca de um ano depois, li uma resenha do filme Flor no cu do inferno. Era baseado em seu romance. Era uma crítica favorável e Harris chegou mesmo a atuar em um pequeno papel.
Fui assistir. Tinham feito um bom trabalho em cima do livro. Harris parecia um pouco mais austero do que quando o havia visto pela última vez. Decidi encontrá-lo. Depois de um tempo dando uma de detetive, bati à porta de sua cabana em Malibu uma noite por volta das nove. Randall atendeu.
– Chinaski, seu cachorro velho – ele disse. – Entre.
Uma bela garota estava sentada no sofá. Parecia ter aproximadamente dezenove anos, simplesmente irradiava uma beleza natural.
– Essa é Karilla – ele disse.
Eles estavam bebendo uma garrafa de vinho francês, dos caros. Sentei com eles e bebi um cálice. Tomei vários cálices. Outra garrafa apareceu e conversamos calmamente. Harris não ficou bêbado e inoportuno e não pareceu fumar muito.
– Estou trabalhando numa peça para a Broadway – ele me disse. – Dizem que o teatro está morrendo, mas eu tenho algo para eles. Um dos principais produtores está interessado. Estou finalizando o último ato agora. É um gênero interessante. Sempre fui craque nos diálogos, você sabe.
– Sim – eu disse.
Fui embora lá pelas onze e meia naquela noite. A conversa tinha sido agradável... As têmporas de Harris começavam a exibir um respeitável tom grisalho, e ele não disse “merda” mais do que quatro ou cinco vezes.
A peça Atire em seu pai, atire em seu Deus, livre-se do desembaraço era um sucesso. Estava entre as peças recordistas em tempo de exibição na Broadway. Tinha de tudo: algo para os revolucionários, algo para os reacionários, algo para os que amavam comédia, para os que amavam drama, tinha até mesmo algo para os intelectuais e, ainda assim, fazia sentido. Randall Harris se mudou de Malibu para uma casa maior em Hollywood Hills. Agora é possível saber notícias dele pelos tabloides.
Após algumas dificuldades, encontrei a localização de sua casa em Hollywood Hills, uma mansão de três andares com vista para as luzes de Los Angeles e Hollywood.
Estacionei, saí do carro e caminhei pela passagem que levava até a porta da frente. Era perto das oito e meia da noite, a temperatura estava baixa, quase fazia frio; a lua estava cheia e o ar fresco e limpo.
Toquei a campainha. Pareceu-me uma longa espera. Finalmente a porta se abriu. Era o mordomo.
– Sim, senhor? – me perguntou.
– Vim para ver Randall Harris, da parte de Henry Chinaski – eu disse.
– Um momento, por favor, senhor.
Ele fechou a porta em silêncio e esperei. Mais uma vez, um longo intervalo. Então o mordomo voltou.
– Sinto muito, senhor, mas o sr. Harris não pode ser perturbado neste momento.
– Oh, tudo bem.
– Gostaria de deixar uma mensagem, senhor?
– Uma mensagem? Sim, dê-lhe os meus “parabéns”.
– “Parabéns”? Isso é tudo?
– Sim, isso é tudo.
– Boa noite, senhor.
– Boa noite.
Voltei para o meu carro, entrei. Dei a partida e comecei a longa viagem descendo as colinas. Tinha comigo aquela antiga cópia da Mad Fly que queria que ele autografasse. Era a cópia com dez poemas de Randall Harris. Ele provavelmente estava ocupado. Talvez, pensei, se eu mandasse pelo correio a revista com um envelope selado de resposta, ele assinasse.
Eram apenas nove da noite. Havia tempo para ir a um outro lugar.
– Ao sul de lugar nenhum
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Vento Que Sopra Fresco E Selvagem...

eu não deveria ter culpado apenas meu pai, mas,
ele foi o primeiro a me introduzir ao
ódio estúpido e cru.
ele era realmente bom nisso: tudo e qualquer coisa deixavam-no
louco – coisas da menor importância traziam de imediato seu ódio
à superfície
e eu parecia ser a principal fonte de sua
irritação.
eu não o temia
mas suas fúrias faziam-me mal ao coração
porque ele era então grande parte do meu mundo
e era um mundo de horror mas eu não deveria culpar apenas
meu pai
porque quando deixei aquele... lar... encontrei seus semelhantes
em toda parte: meu pai era apenas uma pequena parte do
todo, embora sua capacidade para odiar fosse a maior
entre as pessoas que já conheci.
mas os outros também eram bons nisso: alguns dos
chefes de seção, dos vagabundos de rua, algumas das mulheres
com que vivi,
a maioria das mulheres foi dotada para o
ódio – culpando minha voz, minhas ações, minha presença
culpando-me de um modo geral
por aquilo que elas, em retrospecto, não haviam conseguido
fazer.
eu era simplesmente o alvo de seus descontentamentos
e num certo sentido
culpavam-me
por não ser capaz de retirá-las dos
escombros de seus passados; o que não levavam em consideração era
que eu também tinha meus próprios problemas – a maioria deles causada
pelo simples fato de viver com elas.
sou um sujeito tolo, que se alegra facilmente ou que chega mesmo
a uma estúpida alegria quase sem motivo
e se me deixam sozinho eu me viro numa boa.
mas vivi com tanta frequência e por tanto tempo junto a esse ódio
que
meu único recanto, meu único refúgio é estar longe de todos
eles, quando estou em outro lugar, não importa onde –
uma garçonete velha e gorda que me traz uma xícara de café
é em comparação
como um vento que sopra fresco e selvagem.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Nº 6

vou ficar com o cavalo 6
numa tarde chuvosa
um copo de café de papel
na mão
tudo prestes a começar,
o vento fazendo rodopiar
pequenas cambaxirras do
grande telhado superior,
os jóqueis partindo
para uma corrida intermediária
silenciosos
e a garoa fazendo
todas as coisas
de uma só vez
quase iguais,
os cavalos em paz uns
com os outros
antes da guerra bêbada
e eu debaixo da tribuna principal
sensível aos
cigarros
conformado com o café,
então os cavalos passam
levando seus pequenos homens
consigo –
é fúnebre e gracioso
e agradável
como o desabrochar
das flores.

De alguma maneira o dinheiro se esvaiu depois disso e logo eu abandonei as corridas e fiquei sentado em meu apartamento, esperando que a licença de noventa dias acabasse. Meus nervos estavam em frangalhos graças à bebida e à ação. Não é nenhuma novidade que as mulheres dão em cima dos homens. Quando você pensa que terá um tempinho para respirar, basta erguer os olhos e outra já está por ali. Alguns dias depois de retornar ao trabalho, a outra já estava por ali. Fay. Fay era grisalha e sempre se vestia de preto. Dizia que era um protesto contra a guerra. Mas se Fay queria protestar contra a guerra, por mim tudo bem. Era uma espécie de escritora e frequentava algumas oficinas literárias. Tinha ideias sobre como Salvar o Mundo. Se ela pudesse salvá-lo para mim, isto também estaria bem. Estivera vivendo dos cheques da pensão alimentícia de um antigo marido – tinham tido três filhos –, e a mãe também lhe mandava algum dinheiro de vez em quando. Fay nunca tivera mais do que um ou dois empregos na vida.
Enquanto isso, Janko tinha uma nova história de merda. Ele me mandava pra casa a cada manhã com a cabeça doendo. Naquela época eu vinha recebendo inúmeras multas de trânsito. Parecia que a cada vez que eu olhava pelo retrovisor lá estavam as sirenes vermelhas. Um carro-patrulha ou uma moto.
Certa noite cheguei em casa tarde. Estava realmente acabado. Sacar a chave e levá-la até a fechadura estava no limite das minhas forças. Segui até o quarto e lá estava Fay na cama, lendo The New Yorker e comendo chocolates. Ela sequer disse olá.
Fui até a cozinha e procurei alguma coisa para comer. Não havia nada na geladeira. Resolvi me servir um copo d’água. Fui até a pia. Estava entulhada de porcaria. Fay gostava de guardar potes vazios e suas tampas. Os pratos sujos enchiam metade da pia e, flutuando sobre a água, junto com alguns pratos de papel, estavam os potes e as tampas.
Retornei ao quarto no exato momento em que Fay punha na boca um pedaço de chocolate.
– Veja bem, Fay – eu disse –, sei que você quer salvar o mundo. Mas será que você não pode começar pela cozinha?
– Cozinhas não são importantes – ela disse.
Era difícil bater numa mulher grisalha, de modo que eu simplesmente segui para o banheiro e deixei que a água enchesse a banheira. Um banho escaldante talvez pudesse esfriar os nervos. Quando a banheira se encheu tive medo de entrar nela. Meu corpo estropiado havia, àquela altura, endurecido de tal maneira que eu temia me afogar ali dentro.
Fui até a sala e depois de um esforço consegui tirar as calças, as cuecas, os sapatos, as meias. Retornei ao quarto e galguei a cama até junto a Fay. Não conseguia me ajeitar. Cada vez que eu me movia, o custo era alto.
O único momento em que você está sozinho, Chinaski, pensei, é quando você dirige para o trabalho ou volta dele.
Finalmente consegui encontrar uma posição sobre minha barriga. Meu corpo todo doía. Logo eu estaria de volta no trabalho. Se eu conseguisse dar um jeito de dormir, isso me ajudaria. Com alguma frequência, podia ouvir o som de uma página sendo virada, de um chocolate sendo comido. Havia sido uma de suas noites de oficina. Se ela pudesse ao menos apagar as luzes.
– Como estava a oficina? – perguntei, deitado de bruços.
– Estou preocupada com Robby.
– Oh – perguntei –, o que está acontecendo?
Robby era um cara perto dos quarenta que tinha vivido com a mãe desde que nascera. Tudo o que ele escrevia, segundo tinham me informado, eram histórias muito engraçadas sobre a Igreja Católica. Robby realmente tirava sarro dos católicos. As revistas apenas não estavam prontas para Robby, embora tivesse sido publicado uma vez num jornal canadense. Certa vez, numa das minhas noites de folga, eu tinha visto Robby. Levei Fay até esta mansão onde eles se encontravam para ler suas coisas.
– Oh! Este é o Robby! – Fay dissera. – Ele escreve essas histórias divertidíssimas sobre a Igreja Católica!
Ela havia me apontado o cara. Robby estava de costas para a gente. Sua bunda era larga e grande e molenga; ficava pendurada dentro das calças. Será que eles não veem isso?, pensei.
– Você não quer entrar? – Fay tinha perguntado.
– Talvez na próxima semana...
Fay pôs outro chocolate na boca.
– Robby está preocupado. Perdeu seu emprego de entregador. Diz que não consegue escrever sem estar empregado. Precisa do sentimento de segurança. Diz que não será capaz de escrever nada enquanto não encontrar outro trabalho.
– Caralho – eu disse –, já sei onde podemos arranjar um emprego.
– Onde? Como?
– Estão contratando gente lá nos Correios, a torto e a direito. O salário não é mau.
– OS CORREIOS! ROBBY É SENSÍVEL DEMAIS PARA TRABALHAR NOS CORREIOS!
– Desculpe – eu disse –, achei que valia a pena tentar. Boa noite.
Fay não me respondeu. Estava furiosa.
– Cartas na rua
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Noite Mais Estranha Que de Fato Você Já Viu

eu tinha esse quarto da frente na DeLongpre
e costumava me sentar por horas
durante o dia
olhando pela janela
da frente.
havia um número incontável de garotas que
passavam
rebolando;
aquilo salvava minhas tardes,
acrescentava algo à cerveja e aos
cigarros.
certo dia eu vi alguma coisa
a mais.
escutei primeiro o som.
“vamos lá, empurrem!”, ele disse.
era uma enorme tábua
com 1 metro de largura por
20 de comprimento;
com rodinhas atarraxadas às extremidades
e ao meio.
ele puxava pela frente
usando duas longas cordas presas à tábua
e ela ia atrás
controlando a direção e também empurrando.
todos os seus bens estavam atados àquela
tábua:
potes, panelas, colchas e tudo o mais
amarrado à tábua
bem preso;
e as rodinhas rangiam.
ele era branco, um colono, um
sulista –
magro, curvo, as calças a ponto
de cair e revelar
seu rabo –
o rosto rosado pelo sol e o
vinho barato,
e ela negra
caminhando aprumada
empurrando;
ela era simplesmente maravilhosa
de turbante
grandes brincos verdes
um vestido amarelo
que ia
do pescoço ao
tornozelo.
seu rosto estava gloriosamente
indiferente.
“não se preocupe!” ele gritou, voltando-se para
ela, “alguém vai
nos alugar um quarto!”
ela não respondeu.
então eles desapareceram
embora eu ainda ouvisse
as rodinhas.
eles iriam conseguir,
pensei.
tenho certeza que
sim.

Tudo começou com um equívoco.
Era época de Natal e soube através do bêbado que vivia colina acima, que fazia esse esquema todo Natal, que eles contratavam quase qualquer um, e então eu pintei lá e quando me dei conta eu já estava com essa mochila de couro nas costas, dando voltas por aí a meu bel-prazer. Que trabalho, pensei. Uma moleza! Eles lhe designavam apenas uma ou duas quadras e, se você conseguisse percorrê-las a tempo, o carregador regular designava mais uma quadra, ou talvez você pudesse retornar e o supervisor lhe indicava uma nova área, mas dava para fazer as coisas à sua maneira, ou seja, levar o tempo que fosse preciso para colocar os cartões de natal nas caixas postais.
Creio que foi no meu segundo dia como temporário que essa mulher enorme apareceu e passou a me acompanhar enquanto eu entregava as cartas. Quero dizer com esse enorme é que seu rabo era enorme e suas tetas eram enormes e que ela era enorme em todos os lugares certos. Ela parecia um pouco louca, mas segui olhando para seu corpo mesmo assim, sem me importar.
Ela falava e falava e falava. Então deixou escapar. Seu marido era um oficial servindo numa ilha distante e ela se sentia sozinha, sabe, e vivia naquela casinha dos fundos, por conta própria.
– Que casinha? – perguntei.
Escreveu o endereço num pedaço de papel.
– Também sou sozinho – eu disse –, mais tarde apareço por lá pra gente conversar.
Eu era comprometido, mas a minha parceira estava fora boa parte do tempo, em algum lugar, o que me fazia alguém sozinho de fato. Estava sozinho e pronto para ter aquele enorme rabo junto a mim.
– Está bem – ela disse –, vejo você de noite.
Ela era muito legal, era uma boa trepada, mas como todas as trepadas, depois da terceira ou quarta noite, comecei a perder o interesse e não voltei mais.
Mas eu não conseguia deixar de pensar, deus, tudo o que esses carteiros têm pra fazer é entregar suas cartas e trepar. Esse é o trabalho certo pra mim, oh, sim sim sim.
Então fiz o exame, passei, depois o teste físico, passei, e lá estava eu – um carteiro substituto. No começo foi moleza. Mandaram-me para a Estação West Avon e era como no Natal, exceto que eu não trepava com ninguém. Todo dia eu esperava dormir com alguém, mas não conseguia. Mas o supervisor era camarada e eu me arrastava pelas redondezas, uma quadra aqui outra ali. Não usava sequer um uniforme, apenas um boné. Usava minhas roupas de sempre. Do jeito que eu e minha parceira Betty bebíamos, mal sobrava dinheiro para roupas.
Então fui transferido para a Estação Oakford.
O supervisor era um tipo pescoçudo chamado Jonstone. Estavam precisando de ajuda por ali e entendi por quê. Jonstone gostava de vestir camisas vermelho-escuras – significando perigo e sangue. Havia sete substitutos – Tom Moto, Nick Pelligrini, Herman Stratford, Rosey Anderson, Bobby Hansen, Harold Wiley e eu, Henry Chinaski. O horário de chegada era às cinco da manhã e eu era o único bêbado por ali. Sempre bebia até depois da meia-noite, e lá ficávamos nós sentados, às cinco da manhã, esperando pelo turno, esperando que algum dos carteiros regulares ligasse dizendo estar doente. Isto normalmente ocorria em dias de chuva ou numa onda de calor ou nos dias depois de feriados, quando as cartas se acumulavam e o peso dobrava.
Havia quarenta ou cinquenta rotas diferentes, talvez mais, cada situação era diferente, não havia nunca como se familiarizar com elas, você precisava apanhar as cartas que lhe cabiam e estar pronto antes das oito para os despachos por caminhão, e Jonstone não aceitava desculpas. Os substitutos faziam entregas em qualquer canto, seguiam sem almoço e morriam pelas ruas. Jonstone nos mandava fazer as entregas já com trinta minutos de atraso – girando em sua cadeira em sua camisa vermelha:
– Chinaski, pegue a rota 539!
Começávamos meia hora atrasados, mas ainda assim tínhamos que fazer as entregas a tempo e voltar no horário. E uma ou duas vezes por semana, já combalidos, exaustos e fodidos, tínhamos que fazer as coletas noturnas, e o horário do cronograma era impossível de ser cumprido – o caminhão jamais seria tão rápido. Era preciso pular quatro ou cinco caixas na primeira corrida e na próxima volta elas já estavam entupidas de cartas e você fedia, corria com o suor invadindo os sacos. E eu, que só queria uma foda, acabei fodido. Com a cortesia de Jonstone.
Os próprios substitutos tornaram Jonstone possível ao obedecer suas ordens impossíveis. Não conseguia entender como um homem cuja crueldade era tão patente tinha permissão para ocupar sua posição. Os carteiros regulares não davam a mínima, o cara do sindicato era um inútil, então preenchi um relatório de trinta páginas num dos meus dias de folga, enviei uma cópia pelo correio para Jonstone e a outra levei pessoalmente ao Escritório Federal. O atendente me pediu para esperar. E assim esperei e esperei e esperei. Esperei por uma hora e meia, então fui conduzido à presença de um homenzinho de cabelos cinzentos, com olhos que pareciam cinza de cigarro. Não chegou nem a pedir que eu sentasse. Começou a gritar comigo mal eu passei pela porta.
– O senhor é um desses filhos da puta metidos a esperto, não é?
– Pediria que o senhor não me xingasse, senhor!
– Sim, um desses filhos da puta sabichões, com seu vocabulariozinho de filho da puta, que não perde uma chance de mostrar o quanto sabe!
Ele me estendeu os papéis. E gritou:
– O SR. JONSTONE É UM ÓTIMO HOMEM!
– Não seja tolo. O sujeito é obviamente um sádico – eu disse.
– Há quanto tempo o senhor está nos Correios?
– Três semanas.
– O SR. JONSTONE ESTÁ NOS CORREIOS HÁ TRINTA ANOS!
– Sim, e o que isso tem a ver com o assunto?
– Já disse, O SR. JONSTONE É UM ÓTIMO HOMEM!
Creio que o pobre sujeito tinha vontade mesmo de me matar. Ele e Jonstone deviam ter dormido juntos.
– Tudo bem – eu disse –, Jonstone é um ótimo homem. Esqueça essa porra toda.
Então me afastei e tirei o dia seguinte de folga. Sem remuneração, claro.
– Cartas na rua
1 126
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Tesuda

ela era tesuda, tão tesuda
que eu não queria que ninguém mais a tivesse,
e se eu não chegasse a tempo em casa
ela saía, e eu não podia suportar aquilo –
eu ficava louco...
sei que era uma tolice, coisa de criança,
mas eu me deixava envolver por isso, me deixava envolver
eu entregava todas as cartas
e então Henderson me colocava para apanhar o correio noturno
num velho caminhão do exército,
e o maldito começava a esquentar no meio da corrida
e a noite avançava
comigo pensamentos na tesuda da Miriam
no sobe e desce do caminhão
enchendo sacos de carta
o motor cada vez mais quente
o ponteiro da temperatura cravado no máximo
QUENTE QUENTE
como Miriam.
eu pulava para dentro e para fora
mais três coletas e depois para a estação
lá estaria meu carro
esperando para me levar até Miriam que se sentava em meu sofá azul
com um uísque com gelo
cruzando as pernas e balançando seus tornozelos
como era seu costume,
mais duas paradas...
o caminhão apagou junto a um sinal, era o inferno
se impondo
outra vez...
eu tinha que estar em casa às 8, 8 era o prazo final de Miriam.
fiz a última coleta e o caminhão apagou junto a um sinal
a meia quadra da estação
não dava mais a partida, não dava mais a partida...
tranquei as portas, tirei as chaves e corri até a
estação...
joguei as chaves... bati o ponto...
seu maldito caminhão está emperrado junto ao sinal,
gritei,
Pico e Western...
... avancei pelo corredor, enfiei a chave na porta,
abri-a... seu copo estava lá, e um bilhete:
filho da puta:
esperei até oito e cinco
você não me ama
seu filho da puta
alguém vai me amar
esperei o dia inteiro
Miriam
me servi uma bebida e deixei a água encher a banheira
havia 5.000 bares na cidade
e eu percorreria 25 deles
atrás de Miriam
seu ursinho púrpura de pelúcia segurava o bilhete
encostado contra um travesseiro
dei uma bebida para o urso, outra para mim
e entrei na água
quente.

– Chinaski! Pegue a rota 539!
A mais difícil de toda a estação. Prédios com caixas com nomes rabiscados ou sem qualquer identificação, iluminadas por lâmpadas amareladas em corredores escuros. Velhas senhoras plantadas nos saguões, pelas ruas, fazendo sempre as mesmas perguntas, como se fossem uma única pessoa com uma única voz:
– Carteiro, o senhor tem alguma carta pra mim?
E você tinha vontade de gritar:
– Senhora, como, diabos, vou saber quem a senhora é ou quem eu sou ou quem qualquer um é?
O suor pingando, a ressaca, a impossibilidade do cronograma, e Jonstone lá no escritório com sua camisa vermelha, sabendo de tudo, saboreando cada gota, fingindo fazer o que fazia por uma questão de contenção de custos. Mas todo mundo conhecia suas razões. Oh, que ótimo homem ele era!
As pessoas. As pessoas. E os cachorros.
Deixe-me falar sobre os cachorros. Era um desses dias de 37ºC e eu seguia em frente, suando, enjoado, delirante, de ressaca. Parei junto a um pequeno prédio cuja caixa de correspondência ficava escada abaixo, junto à calçada da frente. Entrei com minha chave. Não houve qualquer som. Então senti alguma coisa se esfregando contra minha virilha. Escalei os degraus. Olhei para trás e lá estava um pastor alemão, crescido, com o focinho a meio caminho do meu rabo. Com uma abocanhada poderia arrancar fora meus bagos. Decidi que aquelas pessoas não receberiam suas cartas naquele dia, e que talvez jamais recebessem nenhuma outra. Cara, o que estou dizendo é que aquele focinho foi longe demais. SNUF! SNUF! SNUF!
Coloquei a correspondência de volta na sacola de couro e então bem devagar, bem devagarzinho, dei meio passo. O focinho me seguiu. Mais um meio passo com o outro pé. O focinho ali. Então dei um passo completo, bem devagar. E depois mais outro. Então parei. O focinho já não estava no meu rabo. E o bicho ficou parado, olhando para mim. Talvez ele nunca tivesse cheirado nada como aquilo e não soubesse muito bem o que fazer.
Discretamente me afastei.
– Cartas na rua
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