Poemas neste tema
Alma
Charles Bukowski
Uma Arte
todo o percurso desde o México
diretamente do campo
para 14 vitórias
13 por nocaute.
ele estava em 3º no ranking
e numa luta preliminar
foi nocauteado por um lutador negro
que nem estava ranqueado e que não lutava
há 2 anos.
todo o percurso desde o México
diretamente do campo.
a bebida e as mulheres acabaram
com ele.
na revanche ele foi mais uma vez nocauteado
e suspenso por 6 meses.
todo esse percurso
pelo trago e 2 casos de
doença venérea.
retornou um ano depois
jurando que estava limpo, que tinha
aprendido a lição.
e conseguiu arrancar um empate com o
9º do ranking de sua divisão.
retornou para a revanche
e a luta foi interrompida
no 3º assalto porque ele
não conseguia mais
se proteger.
e ele refez todo o percurso de volta
até o México
diretamente para o campo.
é preciso um poeta fodão
como eu
para conseguir lidar com as bebidas e as mulheres
escapar das doenças venéreas
escrever sobre fracassos
como o dele
e manter minha posição entre os
10 primeiros do ranking:
todo o percurso desde a Alemanha
diretamente das fábricas
entre garrafas de cerveja
e a campainha do
telefone.
diretamente do campo
para 14 vitórias
13 por nocaute.
ele estava em 3º no ranking
e numa luta preliminar
foi nocauteado por um lutador negro
que nem estava ranqueado e que não lutava
há 2 anos.
todo o percurso desde o México
diretamente do campo.
a bebida e as mulheres acabaram
com ele.
na revanche ele foi mais uma vez nocauteado
e suspenso por 6 meses.
todo esse percurso
pelo trago e 2 casos de
doença venérea.
retornou um ano depois
jurando que estava limpo, que tinha
aprendido a lição.
e conseguiu arrancar um empate com o
9º do ranking de sua divisão.
retornou para a revanche
e a luta foi interrompida
no 3º assalto porque ele
não conseguia mais
se proteger.
e ele refez todo o percurso de volta
até o México
diretamente para o campo.
é preciso um poeta fodão
como eu
para conseguir lidar com as bebidas e as mulheres
escapar das doenças venéreas
escrever sobre fracassos
como o dele
e manter minha posição entre os
10 primeiros do ranking:
todo o percurso desde a Alemanha
diretamente das fábricas
entre garrafas de cerveja
e a campainha do
telefone.
1 097
Charles Bukowski
Subindo Seu Rio Amarelo
uma mulher contou a um homem
assim que ele desceu de um avião
que eu estava morto.
uma revista publicou
a notícia de que eu tinha morrido
e mais alguém disse
que eles ouviram sobre o meu
falecimento, e que então alguém
escreveu um artigo e disse
nosso Rimbaud nosso Villion está
morto. ao mesmo tempo um velho
parceiro de bebida publicou
um texto afirmando que eu
já não podia mais escrever. um
verdadeiro trabalho de Judas. eles
não podem esperar que eu me vá, esses
cretinos. bem, escuto o
concerto de piano número um
de Tchaikovski e
o locutor anuncia que a
5ª e a 10ª sinfonias de Mahler
virão a seguir desde
Amsterdã,
e as garrafas de cerveja se
espalham sobre o chão e as cinzas
dos meus cigarros
cobrem minhas cuecas de
algodão e minha barriga, mandei
todas as minhas namoradas
pro inferno, e mesmo isto
é um poema muito melhor do que
qualquer coisa que esses coveiros
possam escrever.
assim que ele desceu de um avião
que eu estava morto.
uma revista publicou
a notícia de que eu tinha morrido
e mais alguém disse
que eles ouviram sobre o meu
falecimento, e que então alguém
escreveu um artigo e disse
nosso Rimbaud nosso Villion está
morto. ao mesmo tempo um velho
parceiro de bebida publicou
um texto afirmando que eu
já não podia mais escrever. um
verdadeiro trabalho de Judas. eles
não podem esperar que eu me vá, esses
cretinos. bem, escuto o
concerto de piano número um
de Tchaikovski e
o locutor anuncia que a
5ª e a 10ª sinfonias de Mahler
virão a seguir desde
Amsterdã,
e as garrafas de cerveja se
espalham sobre o chão e as cinzas
dos meus cigarros
cobrem minhas cuecas de
algodão e minha barriga, mandei
todas as minhas namoradas
pro inferno, e mesmo isto
é um poema muito melhor do que
qualquer coisa que esses coveiros
possam escrever.
1 058
Charles Bukowski
Não Toque Nas Garotas
ela está lá em cima vendo meu médico
tentando conseguir umas pílulas para emagrecer;
ela não é gorda, precisa do barato.
sigo até o bar mais próximo e espero.
às 3h20 da tarde de uma terça-feira.
eles têm uma dançarina.
há apenas um outro cara no bar.
ela faz seus passos
olhando-se no espelho.
parece uma macaca
escura
coreana.
ela não é muito boa,
esquelética e previsível
e ela estica sua língua para mim e
depois para o outro cara.
os tempos devem ser bem difíceis, penso.
tomo mais algumas cervejas e me levanto para sair.
ela me acena.
“já vai?”, pergunta.
“sim”, eu digo, “minha esposa tem câncer.”
dou-lhe um aperto de mão.
ela aponta para um cartaz atrás de si:
NÃO TOQUE NAS GAROTAS.
ela aponta para o cartaz e diz,
“o cartaz diz ‘NÃO TOQUE NAS GAROTAS’.”
sigo até o estacionamento e espero.
ela aparece.
“conseguiu as pílulas?” pergunto.
“sim”, ela diz.
“então ganhou o dia.”
penso na dançarina cruzando minha
cozinha. não consigo visualizar. morrerei
sozinho
do mesmo modo que vivo.
“leve-me para casa”, ela diz,
“tenho que me preparar para o curso noturno”.
“claro”, eu digo e a levo embora.
tentando conseguir umas pílulas para emagrecer;
ela não é gorda, precisa do barato.
sigo até o bar mais próximo e espero.
às 3h20 da tarde de uma terça-feira.
eles têm uma dançarina.
há apenas um outro cara no bar.
ela faz seus passos
olhando-se no espelho.
parece uma macaca
escura
coreana.
ela não é muito boa,
esquelética e previsível
e ela estica sua língua para mim e
depois para o outro cara.
os tempos devem ser bem difíceis, penso.
tomo mais algumas cervejas e me levanto para sair.
ela me acena.
“já vai?”, pergunta.
“sim”, eu digo, “minha esposa tem câncer.”
dou-lhe um aperto de mão.
ela aponta para um cartaz atrás de si:
NÃO TOQUE NAS GAROTAS.
ela aponta para o cartaz e diz,
“o cartaz diz ‘NÃO TOQUE NAS GAROTAS’.”
sigo até o estacionamento e espero.
ela aparece.
“conseguiu as pílulas?” pergunto.
“sim”, ela diz.
“então ganhou o dia.”
penso na dançarina cruzando minha
cozinha. não consigo visualizar. morrerei
sozinho
do mesmo modo que vivo.
“leve-me para casa”, ela diz,
“tenho que me preparar para o curso noturno”.
“claro”, eu digo e a levo embora.
850
Charles Bukowski
As Garotas do Hotel Verde
são mais bonitas
que estrelas de cinema
e elas se espreguiçam no
gramado
tomando banho de sol
e uma está sentada com um vestido
curto e saltos
altos, as pernas cruzadas
expondo coxas
miraculosas.
ela usa uma bandana
na cabeça
e fuma um
cigarro comprido.
o tráfego fica lento
quase para.
as garotas ignoram
o tráfego.
estão pachorrentas
no meio da tarde
são putas
são putas sem
alma
e são mágicas
pois mentem
a troco de nada.
entro no meu carro
espero o tráfego
liberar,
cruzo a rua
em direção ao hotel verde
à minha favorita:
ela
se bronzeia no
gramado próxima ao
meio-fio.
“olá”, eu digo.
ela me volta seus
olhos de falsos
diamantes.
seu rosto não tem
expressão.
lanço meu mais recente
livro de poemas
pela janela do
carro.
ele cai
ao lado dela.
engato a
primeira,
me afasto.
haverá algumas
risadas
esta noite.
que estrelas de cinema
e elas se espreguiçam no
gramado
tomando banho de sol
e uma está sentada com um vestido
curto e saltos
altos, as pernas cruzadas
expondo coxas
miraculosas.
ela usa uma bandana
na cabeça
e fuma um
cigarro comprido.
o tráfego fica lento
quase para.
as garotas ignoram
o tráfego.
estão pachorrentas
no meio da tarde
são putas
são putas sem
alma
e são mágicas
pois mentem
a troco de nada.
entro no meu carro
espero o tráfego
liberar,
cruzo a rua
em direção ao hotel verde
à minha favorita:
ela
se bronzeia no
gramado próxima ao
meio-fio.
“olá”, eu digo.
ela me volta seus
olhos de falsos
diamantes.
seu rosto não tem
expressão.
lanço meu mais recente
livro de poemas
pela janela do
carro.
ele cai
ao lado dela.
engato a
primeira,
me afasto.
haverá algumas
risadas
esta noite.
1 142
Charles Bukowski
Danação E Hora da Sesta
meu amigo está preocupado com a morte
ele vive em Frisco
eu em L.A.
ele vai à academia e
puxa uns ferros e dá golpes
num grande saco.
a velhice o diminui.
não pode beber por causa
do fígado.
consegue fazer
50 flexões.
ele me escreve
cartas
me dizendo
que sou o único que
o escuta.
claro, Hal, eu lhe respondo
num cartão-postal.
mas não quero gastar
toda essa grana em academia.
vou para a cama
com um sanduíche de
linguiça de fígado e cebola
à uma hora da tarde.
depois de comer
tiro um cochilo
com os heli-
cópteros e os abutres
circulando sobre meu
colchão de molas deformado.
ele vive em Frisco
eu em L.A.
ele vai à academia e
puxa uns ferros e dá golpes
num grande saco.
a velhice o diminui.
não pode beber por causa
do fígado.
consegue fazer
50 flexões.
ele me escreve
cartas
me dizendo
que sou o único que
o escuta.
claro, Hal, eu lhe respondo
num cartão-postal.
mas não quero gastar
toda essa grana em academia.
vou para a cama
com um sanduíche de
linguiça de fígado e cebola
à uma hora da tarde.
depois de comer
tiro um cochilo
com os heli-
cópteros e os abutres
circulando sobre meu
colchão de molas deformado.
985
Charles Bukowski
Ela Saiu do Banheiro Com Sua Cabeleira Ruiva Flamejante E Disse...
os policiais querem que eu vá até lá e identifique
um cara que tentou me estuprar.
perdi outra vez a chave do meu carro; tenho
a que abre a porta, mas não a que dá partida na
ignição.
essas pessoas estão tentando tirar minha filha de mim,
mas eu não vou deixar.
Rochelle quase tomou uma overdose, então foi até o
Harry com um bagulho, e ele a pegou de jeito.
ela teve as costelas fissuradas, você sabe,
e uma delas lhe perfurou o pulmão. ela
está no hospital conectada a uma máquina.
onde está meu pente?
o seu está sempre imundo.
eu lhe disse,
eu não vi o seu
pente.
um cara que tentou me estuprar.
perdi outra vez a chave do meu carro; tenho
a que abre a porta, mas não a que dá partida na
ignição.
essas pessoas estão tentando tirar minha filha de mim,
mas eu não vou deixar.
Rochelle quase tomou uma overdose, então foi até o
Harry com um bagulho, e ele a pegou de jeito.
ela teve as costelas fissuradas, você sabe,
e uma delas lhe perfurou o pulmão. ela
está no hospital conectada a uma máquina.
onde está meu pente?
o seu está sempre imundo.
eu lhe disse,
eu não vi o seu
pente.
1 103
Charles Bukowski
A Boa Vida
uma casa com 7 ou 8 pessoas
vivendo ali
rachando o aluguel.
há um estéreo nunca utilizado
e um par de bongôs
nunca utilizado
e há panos cobrindo as
janelas
e você fuma
enquanto baratas vivas
escorregam sobre os botões de sua
camisa e despencam no
chão.
está escuro e alguém vai em
busca de comida. você come
e dorme. todos dormem ao mesmo
tempo: no chão, sobre as mesas,
sofás, camas, nas banheiras. há até
mesmo uma pessoa lá fora no mato.
então alguém acorda e
diz, “vamos lá, vamos fechar
um!”
alguns outros acordam.
“opa. é isso aí.”
“beleza. vamos lá, alguém aí
fecha dois. vamos nos
chapar!”
“isso. vamos nos chapar!”
fumamos alguns baseados e depois
voltamos a dormir
trocando apenas de lugar
da banheira para o sofá, da mesa para
o tapete, da cama para o chão, e um novo
sujeito desaba no mato
lá fora, e eles ainda não
encontraram Patty Hearst e Tim não quer
falar com
Allan.
vivendo ali
rachando o aluguel.
há um estéreo nunca utilizado
e um par de bongôs
nunca utilizado
e há panos cobrindo as
janelas
e você fuma
enquanto baratas vivas
escorregam sobre os botões de sua
camisa e despencam no
chão.
está escuro e alguém vai em
busca de comida. você come
e dorme. todos dormem ao mesmo
tempo: no chão, sobre as mesas,
sofás, camas, nas banheiras. há até
mesmo uma pessoa lá fora no mato.
então alguém acorda e
diz, “vamos lá, vamos fechar
um!”
alguns outros acordam.
“opa. é isso aí.”
“beleza. vamos lá, alguém aí
fecha dois. vamos nos
chapar!”
“isso. vamos nos chapar!”
fumamos alguns baseados e depois
voltamos a dormir
trocando apenas de lugar
da banheira para o sofá, da mesa para
o tapete, da cama para o chão, e um novo
sujeito desaba no mato
lá fora, e eles ainda não
encontraram Patty Hearst e Tim não quer
falar com
Allan.
1 266
Charles Bukowski
Certo Piquenique
que me lembra que
trepei com Jane por 7 anos
ela era uma bêbada
eu a amava
meus pais a odiavam
eu odiava meus pais
fazíamos um ótimo
quarteto
certo dia fomos a um piquenique
juntos
lá nas montanhas
e jogamos carta e bebemos cerveja e
comemos salada de batata
por fim eles a trataram como se ela fosse uma
pessoa de verdade
todos riam
eu não.
mais tarde na minha casa
uísque na cabeça
eu lhe disse,
não gosto deles
mas é bom que tenham tratado você
bem.
seu idiota, ela disse,
será que não percebeu?
percebi o quê?
eles não tiravam os olhos da minha barriga de cerveja,
pensaram que eu estava grávida.
oh, eu disse, então brindemos à nossa bela
criança.
à nossa bela criança,
ela disse.
viramos os copos.
trepei com Jane por 7 anos
ela era uma bêbada
eu a amava
meus pais a odiavam
eu odiava meus pais
fazíamos um ótimo
quarteto
certo dia fomos a um piquenique
juntos
lá nas montanhas
e jogamos carta e bebemos cerveja e
comemos salada de batata
por fim eles a trataram como se ela fosse uma
pessoa de verdade
todos riam
eu não.
mais tarde na minha casa
uísque na cabeça
eu lhe disse,
não gosto deles
mas é bom que tenham tratado você
bem.
seu idiota, ela disse,
será que não percebeu?
percebi o quê?
eles não tiravam os olhos da minha barriga de cerveja,
pensaram que eu estava grávida.
oh, eu disse, então brindemos à nossa bela
criança.
à nossa bela criança,
ela disse.
viramos os copos.
1 181
Charles Bukowski
Uma Assassina
a consistência é impressionante:
boca fedorenta
podre por dentro e
um corpo quase perfeito,
uma longa e luminosa cabeleira loira –
que confunde a mim
e aos outros
ela segue de homem em homem
oferecendo carícias
ela fala de amor
então submete os homens
à sua vontade
boca fedorenta
podre por dentro
vemos isso tarde demais:
depois que o pau é engolido
o coração vai atrás
sua longa e luminosa cabeleira
seu corpo quase perfeito
caminha pela rua
debaixo do mesmo sol
que banha as flores.
boca fedorenta
podre por dentro e
um corpo quase perfeito,
uma longa e luminosa cabeleira loira –
que confunde a mim
e aos outros
ela segue de homem em homem
oferecendo carícias
ela fala de amor
então submete os homens
à sua vontade
boca fedorenta
podre por dentro
vemos isso tarde demais:
depois que o pau é engolido
o coração vai atrás
sua longa e luminosa cabeleira
seu corpo quase perfeito
caminha pela rua
debaixo do mesmo sol
que banha as flores.
1 176
Charles Bukowski
Liberdade
ela estava sentada na janela
do quarto 1010 no Chelsea
em Nova York,
o antigo quarto de Janis Joplin.
fazia 40 graus
e ela estava alterada
e tinha uma perna para fora
do peitoril,
e se inclinava para fora e dizia,
“Deus isso é ótimo!”
e então ela escorregou
e quase caiu lá embaixo,
agarrando-se no momento final.
foi por pouco.
voltou para dentro e se esticou
na cama.
já perdi um bocado de mulheres
de um bocado de modos diferentes
mas teria sido
a primeira vez
desse modo.
então ela rolou da cama
caindo de costas
e quando me aproximei
ela estava dormindo.
ela passara o dia todo querendo
ver a Estátua da Liberdade.
agora por um tempo ela não me incomodaria
com isso.
do quarto 1010 no Chelsea
em Nova York,
o antigo quarto de Janis Joplin.
fazia 40 graus
e ela estava alterada
e tinha uma perna para fora
do peitoril,
e se inclinava para fora e dizia,
“Deus isso é ótimo!”
e então ela escorregou
e quase caiu lá embaixo,
agarrando-se no momento final.
foi por pouco.
voltou para dentro e se esticou
na cama.
já perdi um bocado de mulheres
de um bocado de modos diferentes
mas teria sido
a primeira vez
desse modo.
então ela rolou da cama
caindo de costas
e quando me aproximei
ela estava dormindo.
ela passara o dia todo querendo
ver a Estátua da Liberdade.
agora por um tempo ela não me incomodaria
com isso.
1 299
Charles Bukowski
Sentado Numa Lancheria
minha filha é a maior
das glórias.
comíamos um lanche
para viagem em meu carro
em Santa Mônica.
eu digo, “ei, filha,
minha vida tem sido
boa, tão boa”.
ela me olha.
baixo minha cabeça
contra o volante,
tremo, depois
abro a porta de supetão,
finjo
vomitar.
me endireito.
ela ri
mordendo seu
sanduíche.
pego quatro
batatas fritas
coloco-as em minha boca,
mastigo-as.
são 5h20 da tarde
e os carros passam voando por nós
pra lá e pra cá.
lanço um olhar furtivo:
tivemos toda a sorte de
que precisamos:
seus olhos brilham
enquanto o dia
cai, e ela está
sorrindo.
das glórias.
comíamos um lanche
para viagem em meu carro
em Santa Mônica.
eu digo, “ei, filha,
minha vida tem sido
boa, tão boa”.
ela me olha.
baixo minha cabeça
contra o volante,
tremo, depois
abro a porta de supetão,
finjo
vomitar.
me endireito.
ela ri
mordendo seu
sanduíche.
pego quatro
batatas fritas
coloco-as em minha boca,
mastigo-as.
são 5h20 da tarde
e os carros passam voando por nós
pra lá e pra cá.
lanço um olhar furtivo:
tivemos toda a sorte de
que precisamos:
seus olhos brilham
enquanto o dia
cai, e ela está
sorrindo.
1 290
Charles Bukowski
Tão Louco Quanto Sempre Fui
bêbado e escrevendo poemas
às 3 da manhã.
o que importa agora
é mais uma
boceta
apertada
antes que a luz
se apague
bêbado e escrevendo poemas
às 3h15 da manhã.
algumas pessoas me dizem que sou
famoso.
o que estou fazendo sozinho
bêbado e escrevendo poemas às
3h18 da manhã?
sou tão louco quanto sempre fui
eles não entendem
que não parei de me pendurar pelos calcanhares
da janela do 4º andar –
eu ainda o faço
agora mesmo
aqui sentado
ao escrever estas linhas
estou pendurado pelos calcanhares
vários andares acima:
68, 72, 101,
a sensação é a
mesma:
implacável
banal e
necessária
aqui sentado
bêbado e escrevendo poemas
às 3h24 da manhã.
às 3 da manhã.
o que importa agora
é mais uma
boceta
apertada
antes que a luz
se apague
bêbado e escrevendo poemas
às 3h15 da manhã.
algumas pessoas me dizem que sou
famoso.
o que estou fazendo sozinho
bêbado e escrevendo poemas às
3h18 da manhã?
sou tão louco quanto sempre fui
eles não entendem
que não parei de me pendurar pelos calcanhares
da janela do 4º andar –
eu ainda o faço
agora mesmo
aqui sentado
ao escrever estas linhas
estou pendurado pelos calcanhares
vários andares acima:
68, 72, 101,
a sensação é a
mesma:
implacável
banal e
necessária
aqui sentado
bêbado e escrevendo poemas
às 3h24 da manhã.
1 151
Charles Bukowski
O Amor É Um Cão Dos Diabos
pé de queijo
alma de cafeteira
mãos que odeiam tacos de bilhar
olhos como clipes de papel
eu prefiro vinho tinto
entedio-me em aviões
sou dócil durante terremotos
sonolento em funerais
vomito nos desfiles
e vou para o sacrifício no xadrez
e nas bocetas e nos afetos
cheiro urina nas igrejas
já não consigo mais ler
já não consigo mais dormir
olhos como clipes de papel
meus olhos verdes
prefiro vinho branco
minha caixa de camisinhas está passando da
validade
eu as tiro pra fora
Trojan-Enz[6]
lubrificadas
para maior sensibilidade
tiro todas pra fora
e ponho três ao mesmo tempo
as paredes do meu quarto são azuis
para onde você foi, Linda?
para onde você foi, Katherine?
(e Nina partiu pra Inglaterra)
tenho cortadores de unha
e limpa-vidros Windex
olhos verdes
quarto azul
brilhante metralhadora solar
essa coisa toda é como uma foca
presa em oleosas rochas
e cercada pela Banda Marcial de Long Beach
às 3h26 da tarde
há um tiquetaquear atrás de mim
mas nenhum relógio
sinto algo rastejar
ao longo de minha narina esquerda:
memórias de aviões
minha mãe tinha dentes postiços
meu pai tinha dentes postiços
e durante todos os sábados de suas vidas
eles recolhiam todos os tapetes de sua casa
enceravam o chão de tabuões
e o cobriam novamente com os tapetes
e Nina está na Inglaterra
e Irene está no abrigo municipal
e eu pego meus olhos verdes
e me deito em meu quarto azul
alma de cafeteira
mãos que odeiam tacos de bilhar
olhos como clipes de papel
eu prefiro vinho tinto
entedio-me em aviões
sou dócil durante terremotos
sonolento em funerais
vomito nos desfiles
e vou para o sacrifício no xadrez
e nas bocetas e nos afetos
cheiro urina nas igrejas
já não consigo mais ler
já não consigo mais dormir
olhos como clipes de papel
meus olhos verdes
prefiro vinho branco
minha caixa de camisinhas está passando da
validade
eu as tiro pra fora
Trojan-Enz[6]
lubrificadas
para maior sensibilidade
tiro todas pra fora
e ponho três ao mesmo tempo
as paredes do meu quarto são azuis
para onde você foi, Linda?
para onde você foi, Katherine?
(e Nina partiu pra Inglaterra)
tenho cortadores de unha
e limpa-vidros Windex
olhos verdes
quarto azul
brilhante metralhadora solar
essa coisa toda é como uma foca
presa em oleosas rochas
e cercada pela Banda Marcial de Long Beach
às 3h26 da tarde
há um tiquetaquear atrás de mim
mas nenhum relógio
sinto algo rastejar
ao longo de minha narina esquerda:
memórias de aviões
minha mãe tinha dentes postiços
meu pai tinha dentes postiços
e durante todos os sábados de suas vidas
eles recolhiam todos os tapetes de sua casa
enceravam o chão de tabuões
e o cobriam novamente com os tapetes
e Nina está na Inglaterra
e Irene está no abrigo municipal
e eu pego meus olhos verdes
e me deito em meu quarto azul
1 840
Charles Bukowski
Artistas:
ela me escreveu por anos.
“estou bebendo vinho na cozinha.
chove lá fora. as crianças
estão na escola.”
ela era uma cidadã qualquer
ocupada com sua alma, sua máquina de escrever
e sua
reputação como poeta underground.
ela escrevia decentemente e com honestidade
mas apenas depois que outros já
haviam aberto o caminho.
me ligava bêbada às 2 da manhã
às 3
enquanto o marido dormia.
“é bom ouvir a sua voz”, ela
dizia.
“é bom ouvir a sua voz também”, eu
dizia.
que diabo, você
sabe.
ela finalmente apareceu. acho que teve
algo a ver com
The Chapparal Poets Society of California.
eles tinham que eleger seus quadros. ela me ligou
do hotel deles.
“estou aqui”, ela disse, “vamos eleger
os representantes.”
“ok, ótimo”, eu disse, “escolha uns realmente bons”.
desliguei.
o telefone voltou a tocar.
“ei, você não quer me ver?”
“claro”, eu disse, “qual é o endereço?”
depois que ela disse até logo eu bati uma
troquei as meias
bebi meia garrafa de vinho e
segui até lá.
estavam todos bêbados e tentavam
se foder mutuamente.
levei-a para minha casa.
ela vestia uma calcinha cor-de-rosa
com fitinhas.
bebemos uma pouco de cerveja e
fumamos e falamos sobre
Ezra Pound, depois
dormimos.
já não tenho claro
se a levei para o
aeroporto ou
não.
ela continua me escrevendo cartas
e eu as respondo
da pior maneira possível
torcendo para que ela
desista.
algum dia talvez ela alcance a
fama como Erica
Jong. (seu rosto não é lá essas coisas
mas seu corpo é legal)
e eu pensarei,
meu Deus, o que foi que eu fiz?
estraguei tudo.
ou melhor: eu não estraguei
nada.
enquanto isso tenho o número de sua caixa postal
e é melhor eu informar a ela
que meu segundo romance sairá
em setembro.
isso deverá manter os seus mamilos duros
enquanto considero a possibilidade de
Francine du Plessix Gray[4].
“estou bebendo vinho na cozinha.
chove lá fora. as crianças
estão na escola.”
ela era uma cidadã qualquer
ocupada com sua alma, sua máquina de escrever
e sua
reputação como poeta underground.
ela escrevia decentemente e com honestidade
mas apenas depois que outros já
haviam aberto o caminho.
me ligava bêbada às 2 da manhã
às 3
enquanto o marido dormia.
“é bom ouvir a sua voz”, ela
dizia.
“é bom ouvir a sua voz também”, eu
dizia.
que diabo, você
sabe.
ela finalmente apareceu. acho que teve
algo a ver com
The Chapparal Poets Society of California.
eles tinham que eleger seus quadros. ela me ligou
do hotel deles.
“estou aqui”, ela disse, “vamos eleger
os representantes.”
“ok, ótimo”, eu disse, “escolha uns realmente bons”.
desliguei.
o telefone voltou a tocar.
“ei, você não quer me ver?”
“claro”, eu disse, “qual é o endereço?”
depois que ela disse até logo eu bati uma
troquei as meias
bebi meia garrafa de vinho e
segui até lá.
estavam todos bêbados e tentavam
se foder mutuamente.
levei-a para minha casa.
ela vestia uma calcinha cor-de-rosa
com fitinhas.
bebemos uma pouco de cerveja e
fumamos e falamos sobre
Ezra Pound, depois
dormimos.
já não tenho claro
se a levei para o
aeroporto ou
não.
ela continua me escrevendo cartas
e eu as respondo
da pior maneira possível
torcendo para que ela
desista.
algum dia talvez ela alcance a
fama como Erica
Jong. (seu rosto não é lá essas coisas
mas seu corpo é legal)
e eu pensarei,
meu Deus, o que foi que eu fiz?
estraguei tudo.
ou melhor: eu não estraguei
nada.
enquanto isso tenho o número de sua caixa postal
e é melhor eu informar a ela
que meu segundo romance sairá
em setembro.
isso deverá manter os seus mamilos duros
enquanto considero a possibilidade de
Francine du Plessix Gray[4].
1 096
Charles Bukowski
Penicos
nos hospitais em que estive
você vê as cruzes nas paredes
com as finas folhas de palma atrás delas
amareladas e escurecidas
é o sinal para aceitar o inevitável
mas o que realmente machuca
são os penicos
duros debaixo da sua bunda
você está à beira da morte
e tem que dar um jeito de sentar sobre essa
coisa impossível
e urinar e
defecar
enquanto isso na cama
ao lado da sua
uma família de 5 traz mensagens de esperança
para um caso incurável
de doença cardíaca
câncer
ou putrefação generalizada.
o penico é uma pedra impiedosa
uma horrorosa zombaria
porque ninguém quer arrastar seu corpo agonizante
até o banheiro e voltar.
você se arrasta
mas eles mantêm as barras erguidas
você está no seu leito
seu minúsculo leito de morte
e quando a enfermeira volta
uma hora e meia depois
e não há nada no penico
ela o encara com seu mais
imoderado olhar
como se à beira da morte
alguém estivesse apto a fazer
as coisas mais comuns
vez após vez.
mas se você pensa que isso é ruim
apenas relaxe
e deixe a coisa vir
toda
nos lençóis
então você ouvirá
não só da enfermeira
mas também
de todos os outros pacientes...
a parte mais complicada de morrer
é que eles esperam que você
se vá
como um disparo em direção ao
céu noturno
algumas vezes isso pode ser feito
mas quando você precisar da bala na espingarda
olhará
e descobrirá
que os fios sobre sua cabeça
conectados anos atrás
ao botão
foram cortados
retalhados
eliminados
transformados
em algo
tão inútil quanto
o penico.
você vê as cruzes nas paredes
com as finas folhas de palma atrás delas
amareladas e escurecidas
é o sinal para aceitar o inevitável
mas o que realmente machuca
são os penicos
duros debaixo da sua bunda
você está à beira da morte
e tem que dar um jeito de sentar sobre essa
coisa impossível
e urinar e
defecar
enquanto isso na cama
ao lado da sua
uma família de 5 traz mensagens de esperança
para um caso incurável
de doença cardíaca
câncer
ou putrefação generalizada.
o penico é uma pedra impiedosa
uma horrorosa zombaria
porque ninguém quer arrastar seu corpo agonizante
até o banheiro e voltar.
você se arrasta
mas eles mantêm as barras erguidas
você está no seu leito
seu minúsculo leito de morte
e quando a enfermeira volta
uma hora e meia depois
e não há nada no penico
ela o encara com seu mais
imoderado olhar
como se à beira da morte
alguém estivesse apto a fazer
as coisas mais comuns
vez após vez.
mas se você pensa que isso é ruim
apenas relaxe
e deixe a coisa vir
toda
nos lençóis
então você ouvirá
não só da enfermeira
mas também
de todos os outros pacientes...
a parte mais complicada de morrer
é que eles esperam que você
se vá
como um disparo em direção ao
céu noturno
algumas vezes isso pode ser feito
mas quando você precisar da bala na espingarda
olhará
e descobrirá
que os fios sobre sua cabeça
conectados anos atrás
ao botão
foram cortados
retalhados
eliminados
transformados
em algo
tão inútil quanto
o penico.
1 135
Charles Bukowski
Orador Debaixo de Mau Tempo
por Deus, não sei o que
fazer.
elas são tão legais de se ter por perto.
elas têm um jeito de tocar
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
virando-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem
sobre a sua barriga.
não é apenas o foder e o chupar
que alcançam o interior do homem
e o amaciam, são os extras,
está tudo nos extras.
agora é noite e está chovendo
e não há ninguém
estão todas em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
com novos humores
mesmo que em velhos
quartos.
seja o que for, é noite e está chovendo,
uma chuva torrencial, maldita e
pesada...
muito pouco a fazer.
já li o jornal
paguei a conta do gás
a conta de luz
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas amaciam um homem
e então o deixam a nadar
em seu próprio suco.
preciso de uma vagabunda no velho estilo
batendo à porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada sobre
sua bolsa, dizendo, “merda, cara,
não consegue achar uma música melhor do que
essa no seu rádio?
e aumente o aquecimento...”
é sempre quando um homem está tomado
de amor e tudo
mais
que continua chovendo
alagadoura
encharcante
chuva
boa para as árvores e para a
grama e para o ar...
boa para coisas que
vivem sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mão de uma fêmea em mim
esta noite.
elas amaciam um homem e
depois o deixam
escutando a chuva.
fazer.
elas são tão legais de se ter por perto.
elas têm um jeito de tocar
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
virando-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem
sobre a sua barriga.
não é apenas o foder e o chupar
que alcançam o interior do homem
e o amaciam, são os extras,
está tudo nos extras.
agora é noite e está chovendo
e não há ninguém
estão todas em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
com novos humores
mesmo que em velhos
quartos.
seja o que for, é noite e está chovendo,
uma chuva torrencial, maldita e
pesada...
muito pouco a fazer.
já li o jornal
paguei a conta do gás
a conta de luz
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas amaciam um homem
e então o deixam a nadar
em seu próprio suco.
preciso de uma vagabunda no velho estilo
batendo à porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada sobre
sua bolsa, dizendo, “merda, cara,
não consegue achar uma música melhor do que
essa no seu rádio?
e aumente o aquecimento...”
é sempre quando um homem está tomado
de amor e tudo
mais
que continua chovendo
alagadoura
encharcante
chuva
boa para as árvores e para a
grama e para o ar...
boa para coisas que
vivem sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mão de uma fêmea em mim
esta noite.
elas amaciam um homem e
depois o deixam
escutando a chuva.
1 156
Charles Bukowski
A Retirada
desta vez o negócio acabou comigo.
me sinto como as tropas alemãs
açoitadas pela neve e pelos comunistas
caminhando curvadas
as botas gastas
forradas com papel jornal.
minha condição é tão terrível quanto.
talvez até pior.
a vitória estava tão perto
a vitória estava logo ali.
enquanto ela estava ali diante de meu espelho
mais jovem e bela do que
qualquer outra mulher que eu já conhecera
penteando metros e mais metros de cabelo ruivo
enquanto eu a observava.
e quando ela veio para a cama
estava mais bela do que nunca
e o amor foi muito muito bom.
onze meses.
agora ela se foi
como todas se vão.
desta vez o negócio acabou comigo.
é um longo caminho de volta
mas de volta pra onde?
o cara que vai na minha frente acaba de
cair.
passo por cima dele.
será que ela também o acertou?
me sinto como as tropas alemãs
açoitadas pela neve e pelos comunistas
caminhando curvadas
as botas gastas
forradas com papel jornal.
minha condição é tão terrível quanto.
talvez até pior.
a vitória estava tão perto
a vitória estava logo ali.
enquanto ela estava ali diante de meu espelho
mais jovem e bela do que
qualquer outra mulher que eu já conhecera
penteando metros e mais metros de cabelo ruivo
enquanto eu a observava.
e quando ela veio para a cama
estava mais bela do que nunca
e o amor foi muito muito bom.
onze meses.
agora ela se foi
como todas se vão.
desta vez o negócio acabou comigo.
é um longo caminho de volta
mas de volta pra onde?
o cara que vai na minha frente acaba de
cair.
passo por cima dele.
será que ela também o acertou?
1 237
Charles Bukowski
O Grego
o cara do pátio da frente não consegue
falar inglês, ele é grego, um
sujeito com um aspecto um tanto estúpido
e feio que é o diabo.
agora meu senhorio resolveu pintar quadros,
nada muito bom.
ele mostrou ao grego uma de suas pinturas.
o grego saiu e voltou com
papéis, pincéis, tintas.
o grego começou a pintar no seu pátio
da frente. ele deixa as pinturas do lado de fora pra
secar.
o grego nunca havia pintado antes –
agora ali estão:
um violão azul
uma rua
um cavalo.
ele é bom
para os seus mais de quarenta anos ele é
bom.
encontrou um
brinquedo.
está feliz
agora.
então eu penso, me pergunto se ele chegará a ficar
muito bom?
e me pergunto se terei que ver
o resto?
a glória e as mulheres e as mulheres e
as mulheres e as mulheres e
a decadência.
quase posso farejar os sanguessugas formando
uma fila à esquerda.
veja bem,
eu mesmo já estou ligado a ele.
falar inglês, ele é grego, um
sujeito com um aspecto um tanto estúpido
e feio que é o diabo.
agora meu senhorio resolveu pintar quadros,
nada muito bom.
ele mostrou ao grego uma de suas pinturas.
o grego saiu e voltou com
papéis, pincéis, tintas.
o grego começou a pintar no seu pátio
da frente. ele deixa as pinturas do lado de fora pra
secar.
o grego nunca havia pintado antes –
agora ali estão:
um violão azul
uma rua
um cavalo.
ele é bom
para os seus mais de quarenta anos ele é
bom.
encontrou um
brinquedo.
está feliz
agora.
então eu penso, me pergunto se ele chegará a ficar
muito bom?
e me pergunto se terei que ver
o resto?
a glória e as mulheres e as mulheres e
as mulheres e as mulheres e
a decadência.
quase posso farejar os sanguessugas formando
uma fila à esquerda.
veja bem,
eu mesmo já estou ligado a ele.
686
Charles Bukowski
O Bom Perdedor
a face vermelha
do Texas
mais a idade
ele está num hipódromo
de L.A.
falando com
um grupo de pessoas.
é o 4º páreo
e ele está pronto pra
partir:
“bem, até mais,
camaradas, que Deus os abençoe,
vejo vocês
amanhã...”
“um cara bacana.”
“é.”
ele segue para o
estacionamento para
entrar num carro de
12 anos
dali ele seguirá
para uma pensão
seu quarto não terá
nem toalete nem
chuveiro
seu quarto terá
uma janela com uma
persiana de papel rasgada
e do lado de fora haverá
uma parede de cimento descascada
grafitada por cortesia
de uma gangue de jovem chicanos
ele tirará os
sapatos e
deitará
estará escuro
mas ele não acenderá
a luz
ele não tem nada
a fazer.
do Texas
mais a idade
ele está num hipódromo
de L.A.
falando com
um grupo de pessoas.
é o 4º páreo
e ele está pronto pra
partir:
“bem, até mais,
camaradas, que Deus os abençoe,
vejo vocês
amanhã...”
“um cara bacana.”
“é.”
ele segue para o
estacionamento para
entrar num carro de
12 anos
dali ele seguirá
para uma pensão
seu quarto não terá
nem toalete nem
chuveiro
seu quarto terá
uma janela com uma
persiana de papel rasgada
e do lado de fora haverá
uma parede de cimento descascada
grafitada por cortesia
de uma gangue de jovem chicanos
ele tirará os
sapatos e
deitará
estará escuro
mas ele não acenderá
a luz
ele não tem nada
a fazer.
1 219
Charles Bukowski
Derrota
ouvindo Bruckner no rádio
me perguntando por que não estava meio louco
depois do último rompimento com minha
última namorada.
me perguntando por que não estou guiando pelas ruas
bêbado
por que não estou no banheiro
na escuridão
na escuridão atroz
ponderando
lacerado por pensamentos incompletos.
suponho
por fim isto
como um homem comum:
conheci muitas mulheres
e em vez de pensar
quem está trepando com ela agora?
eu penso
nesse instante ela está aborrecendo terrivelmente
outro desgraçado.
ouvir Bruckner no rádio
parece algo tão pacífico.
muitas mulheres já passaram por aqui.
estou sozinho afinal
sem estar sozinho.
pego um pincel Grumbacher
e limpo minhas unhas com a ponta afiada.
percebo uma tomada na parede.
veja, eu venci.
me perguntando por que não estava meio louco
depois do último rompimento com minha
última namorada.
me perguntando por que não estou guiando pelas ruas
bêbado
por que não estou no banheiro
na escuridão
na escuridão atroz
ponderando
lacerado por pensamentos incompletos.
suponho
por fim isto
como um homem comum:
conheci muitas mulheres
e em vez de pensar
quem está trepando com ela agora?
eu penso
nesse instante ela está aborrecendo terrivelmente
outro desgraçado.
ouvir Bruckner no rádio
parece algo tão pacífico.
muitas mulheres já passaram por aqui.
estou sozinho afinal
sem estar sozinho.
pego um pincel Grumbacher
e limpo minhas unhas com a ponta afiada.
percebo uma tomada na parede.
veja, eu venci.
1 259
Charles Bukowski
Noite de Natal, Sozinho
noite de Natal, sozinho,
num quarto de motel
junto à costa
perto do Pacífico –
ouviu?
eles tentaram fazer desse lugar algo
espanhol, há
tapeçarias e lâmpadas, e
o banheiro é limpo, há
minibarras de sabonete
rosa.
não nos encontrarão por
aqui:
as piranhas ou as damas ou
os adoradores
de ídolos.
lá na cidade
eles estão bêbados e em pânico
furando sinais vermelhos
arrebentando suas cabeças
em homenagem ao aniversário de
Cristo. isso é uma beleza.
em breve terei terminado esta garrafa de
rum porto-riquenho.
pela manhã vomitarei e tomarei
banho, voltarei para
casa, comerei um sanduíche à uma da tarde,
estarei no meu quarto por volta das
duas,
estirado na cama,
esperando o telefone tocar,
sem responder,
meu feriado é uma
evasão, minha razão
não é.
num quarto de motel
junto à costa
perto do Pacífico –
ouviu?
eles tentaram fazer desse lugar algo
espanhol, há
tapeçarias e lâmpadas, e
o banheiro é limpo, há
minibarras de sabonete
rosa.
não nos encontrarão por
aqui:
as piranhas ou as damas ou
os adoradores
de ídolos.
lá na cidade
eles estão bêbados e em pânico
furando sinais vermelhos
arrebentando suas cabeças
em homenagem ao aniversário de
Cristo. isso é uma beleza.
em breve terei terminado esta garrafa de
rum porto-riquenho.
pela manhã vomitarei e tomarei
banho, voltarei para
casa, comerei um sanduíche à uma da tarde,
estarei no meu quarto por volta das
duas,
estirado na cama,
esperando o telefone tocar,
sem responder,
meu feriado é uma
evasão, minha razão
não é.
2 419
Charles Bukowski
Dama Melancólica
ela fica ali sentada
bebendo vinho
enquanto seu marido
está no trabalho.
ela considera
de suma importância
que seus poemas sejam
publicados
nas pequenas
revistas.
possui dois
ou três de pequenos
volumes de sua poesia
mimeografados.
tem dois ou
três filhos
com idades que vão
de 6 a 15.
já não é mais
a linda mulher que
costumava ser. manda
fotos em que aparece
sentada sobre uma pedra
junto ao oceano
sozinha e condenada.
podia ter estado com ela
uma vez. me pergunto
se ela acha que eu
poderia
salvá-la?
em todos os seus poemas
seu marido jamais
é mencionado.
mas costuma
falar sobre seu
jardim
assim sabemos que está
lá, de alguma maneira,
e que talvez ela
trepe com os botões de rosa
e os tentilhões
antes de escrever
seus poemas.
bebendo vinho
enquanto seu marido
está no trabalho.
ela considera
de suma importância
que seus poemas sejam
publicados
nas pequenas
revistas.
possui dois
ou três de pequenos
volumes de sua poesia
mimeografados.
tem dois ou
três filhos
com idades que vão
de 6 a 15.
já não é mais
a linda mulher que
costumava ser. manda
fotos em que aparece
sentada sobre uma pedra
junto ao oceano
sozinha e condenada.
podia ter estado com ela
uma vez. me pergunto
se ela acha que eu
poderia
salvá-la?
em todos os seus poemas
seu marido jamais
é mencionado.
mas costuma
falar sobre seu
jardim
assim sabemos que está
lá, de alguma maneira,
e que talvez ela
trepe com os botões de rosa
e os tentilhões
antes de escrever
seus poemas.
1 178
Charles Bukowski
Imaginação E Realidade
há muitas mulheres solteiras no mundo
com um ou dois ou três filhos
e alguém se pergunta aonde foram os maridos
ou aonde foram
os amantes
deixando para trás
todas essas mãos e esses olhos e esses pés
e essas vozes.
ao passar por suas casas
gosto de abrir armários e
olhar o que há dentro
ou então debaixo da pia
ou no guarda-roupa –
espero encontrar o marido
ou o amante e ele me dirá:
“ei, parceiro, você não percebeu as
estrias, ela tem estrias
e peitos caídos e come
cebolas o tempo todo e peida... mas
sou um cara habilidoso. posso consertar coisas,
sei como usar um torno mecânico e
troco sozinho o óleo do carro. sei jogar
sinuca, boliche, posso chegar em 5º ou
6º em qualquer maratona por
aí. tenho um jogo de tacos de
golfe, lanço a bola a longas distâncias. sei
onde fica o clitóris e o que fazer com
ele. tenho um chapéu de caubói com as abas
dobradas para cima.
sou bom com o laço e com os punhos
conheço os últimos passos de dança.”
e eu direi, “veja só, estou de saída”.
e sumirei antes que ele acabe me desafiando
para uma queda de braços
ou me conte uma piada bagaceira
ou me mostre a tatuagem no seu
bíceps direito em movimento.
mas de fato
tudo o que encontro no armário são
xícaras de café e pratos marrons, grandes e rachados
e debaixo da pia uma pilha de trapos
endurecidos, e no guarda-roupa – mais cabides
do que roupas, e é só quando ela me mostra
o álbum e as fotos dele –
tão bom quanto uma calçadeira, ou um carrinho de
supermercado cujas rodas não estão emperradas –
que a dúvida íntima se desfaz, e as
páginas avançam e ali está uma criança com
um traje de banho vermelho e lá está
a outra
perseguindo uma gaivota em Santa Mônica.
e a vida se torna triste e nada perigosa
e, dessa maneira, boa o suficiente:
tê-la para lhe trazer uma xícara de café em
uma daquelas xícaras sem que ele
apareça.
com um ou dois ou três filhos
e alguém se pergunta aonde foram os maridos
ou aonde foram
os amantes
deixando para trás
todas essas mãos e esses olhos e esses pés
e essas vozes.
ao passar por suas casas
gosto de abrir armários e
olhar o que há dentro
ou então debaixo da pia
ou no guarda-roupa –
espero encontrar o marido
ou o amante e ele me dirá:
“ei, parceiro, você não percebeu as
estrias, ela tem estrias
e peitos caídos e come
cebolas o tempo todo e peida... mas
sou um cara habilidoso. posso consertar coisas,
sei como usar um torno mecânico e
troco sozinho o óleo do carro. sei jogar
sinuca, boliche, posso chegar em 5º ou
6º em qualquer maratona por
aí. tenho um jogo de tacos de
golfe, lanço a bola a longas distâncias. sei
onde fica o clitóris e o que fazer com
ele. tenho um chapéu de caubói com as abas
dobradas para cima.
sou bom com o laço e com os punhos
conheço os últimos passos de dança.”
e eu direi, “veja só, estou de saída”.
e sumirei antes que ele acabe me desafiando
para uma queda de braços
ou me conte uma piada bagaceira
ou me mostre a tatuagem no seu
bíceps direito em movimento.
mas de fato
tudo o que encontro no armário são
xícaras de café e pratos marrons, grandes e rachados
e debaixo da pia uma pilha de trapos
endurecidos, e no guarda-roupa – mais cabides
do que roupas, e é só quando ela me mostra
o álbum e as fotos dele –
tão bom quanto uma calçadeira, ou um carrinho de
supermercado cujas rodas não estão emperradas –
que a dúvida íntima se desfaz, e as
páginas avançam e ali está uma criança com
um traje de banho vermelho e lá está
a outra
perseguindo uma gaivota em Santa Mônica.
e a vida se torna triste e nada perigosa
e, dessa maneira, boa o suficiente:
tê-la para lhe trazer uma xícara de café em
uma daquelas xícaras sem que ele
apareça.
1 233
Charles Bukowski
A Noite Em Que Trepei Com Meu Despertador
certa vez
passando fome na Filadélfia
eu ocupava um quartinho
caía a tarde e a noite chegava
e me postei junto à janela no 3° andar
no escuro e olhei para uma
cozinha que ficava no outro lado do 2° andar
e avistei uma bela garota loira
abraçar um jovem e ali beijá-lo
com o que parecia ser fome
e fiquei parado a olhá-los até que se
separassem.
então dei meia-volta e acendi a luz do quarto.
vi minha cômoda e suas gavetas
e meu despertador sobre ela.
peguei o relógio
e o levei pra cama comigo
trepei com ele até que os ponteiros caíssem fora.
depois saí e vaguei pelas ruas
até sentir meus pés se encherem de bolhas.
quando voltei fui até a janela
e olhei pra baixo e lá pro outro lado
e a luz na cozinha deles estava
apagada.
passando fome na Filadélfia
eu ocupava um quartinho
caía a tarde e a noite chegava
e me postei junto à janela no 3° andar
no escuro e olhei para uma
cozinha que ficava no outro lado do 2° andar
e avistei uma bela garota loira
abraçar um jovem e ali beijá-lo
com o que parecia ser fome
e fiquei parado a olhá-los até que se
separassem.
então dei meia-volta e acendi a luz do quarto.
vi minha cômoda e suas gavetas
e meu despertador sobre ela.
peguei o relógio
e o levei pra cama comigo
trepei com ele até que os ponteiros caíssem fora.
depois saí e vaguei pelas ruas
até sentir meus pés se encherem de bolhas.
quando voltei fui até a janela
e olhei pra baixo e lá pro outro lado
e a luz na cozinha deles estava
apagada.
1 224