Poemas neste tema
Alma
Pablo Neruda
Noite - XCIV
Se morro sobrevive-me com tanta força pura
que despertes a fúria do pálido e do frio,
de Sul a Sul levanta teus olhos indeléveis,
de sol a sol que soe tua boca de guitarra.
Não quero que vacilem teu riso nem teus passos,
não quero que pereça minha herança de alegria,
não chames a meu peito, estou ausente.
Vive em minha ausência como numa casa.
É uma casa tão grande a ausência
que passarás nela através dos muros
e penderás os quadros no ar.
É uma casa tão transparente a ausência
que eu sem vida te verei viver
e se sofres, meu amor, morrerei outra vez.
que despertes a fúria do pálido e do frio,
de Sul a Sul levanta teus olhos indeléveis,
de sol a sol que soe tua boca de guitarra.
Não quero que vacilem teu riso nem teus passos,
não quero que pereça minha herança de alegria,
não chames a meu peito, estou ausente.
Vive em minha ausência como numa casa.
É uma casa tão grande a ausência
que passarás nela através dos muros
e penderás os quadros no ar.
É uma casa tão transparente a ausência
que eu sem vida te verei viver
e se sofres, meu amor, morrerei outra vez.
1 356
Pablo Neruda
Manhã - XXIX
Vens da pobreza das casas do Sul,
das regiões duras com frio e terremoto
que quando até seus deuses rodaram à morte
nos deram a lição da vida na greda.
És um cavalinho de greda negra, um beijo
de barro escuro, amor, papoula de greda,
pomba do crepúsculo que voou nos caminhos,
alcanzia com lágrimas de nossa pobre infância.
Moça, conservaste teu coração de pobre,
teus pés de pobre acostumados às pedras,
tua boca que nem sempre teve pão ou delícia.
És do pobre Sul, de onde vem minha alma:
em seu céu tua mãe segue lavando roupa
com minha mãe. Por isso te escolhi, companheira.
das regiões duras com frio e terremoto
que quando até seus deuses rodaram à morte
nos deram a lição da vida na greda.
És um cavalinho de greda negra, um beijo
de barro escuro, amor, papoula de greda,
pomba do crepúsculo que voou nos caminhos,
alcanzia com lágrimas de nossa pobre infância.
Moça, conservaste teu coração de pobre,
teus pés de pobre acostumados às pedras,
tua boca que nem sempre teve pão ou delícia.
És do pobre Sul, de onde vem minha alma:
em seu céu tua mãe segue lavando roupa
com minha mãe. Por isso te escolhi, companheira.
1 459
Pablo Neruda
II - o Rio
Eu entrei em Florença. Era
de noite. Tremi escutando
quase adormecido o que o doce rio
me contava. Eu não sei
o que dizem os quadros nem os livros
(não todos os quadros nem todos os livros,
só alguns),
mas sei o que dizem
todos os rios.
Têm o mesmo idioma que tenho.
Nas terras selvagens
o Orinoco me fala
e entendo, entendo
histórias que não posso repetir.
Há segredos meus
que o rio levou,
e o que me pediu lhe vou cumprindo
pouco a pouco na terra.
Reconheci na voz do Arno então
velhas palavras que buscavam minha boca,
como o que nunca conheceu o mel
e acha que reconhece seu sabor.
Assim escutei as vozes
do rio de Florença,
como se antes de ser me houvessem dito
o que agora escutava:
sonhos e passos que me uniam
à voz do rio,
seres em movimento,
lances de luz na história,
tercetos acesos como lâmpadas.
O pão e o sangue cantavam
com a voz noturna da água.
de noite. Tremi escutando
quase adormecido o que o doce rio
me contava. Eu não sei
o que dizem os quadros nem os livros
(não todos os quadros nem todos os livros,
só alguns),
mas sei o que dizem
todos os rios.
Têm o mesmo idioma que tenho.
Nas terras selvagens
o Orinoco me fala
e entendo, entendo
histórias que não posso repetir.
Há segredos meus
que o rio levou,
e o que me pediu lhe vou cumprindo
pouco a pouco na terra.
Reconheci na voz do Arno então
velhas palavras que buscavam minha boca,
como o que nunca conheceu o mel
e acha que reconhece seu sabor.
Assim escutei as vozes
do rio de Florença,
como se antes de ser me houvessem dito
o que agora escutava:
sonhos e passos que me uniam
à voz do rio,
seres em movimento,
lances de luz na história,
tercetos acesos como lâmpadas.
O pão e o sangue cantavam
com a voz noturna da água.
1 332
Pablo Neruda
Canto VII - Canto Geral do Chile
Eternidade
Escrevo para uma terra recém-secada, recém-
fresca de flores, de pólen, de argamassa,
escrevo para umas crateras cujas cúpulas de giz
repetem seu redondo vazio junto à neve pura,
opino de imediato para o que apenas
leva o vapor ferruginoso recém-saído do abismo,
falo para as pradarias que não conhecem nome
além da pequena campânula do líquen ou o estame queimado
ou a áspera mata onde se inflama a égua.
De onde venho, senão destas primíparas, azuis
matérias que se enredam ou se encrespam ou se destituem
ou se esparzem a gritos ou se derramam sonâmbulas,
ou se galgam e formam o baluarte da árvore,
ou se somem e amarram a célula do cobre,
ou saltam ao ramo dos rios, ou sucumbem
na raça enterrada do carvão ou reluzem
nas trevas verdes da uva?
Nas noites durmo como os rios, percorrendo
algo incessantemente, rompendo ultrapassando
a noite natatória, levantando as horas
para a luz, apalpando as secretas
imagens que a cal desterrou, subindo pelo bronze
até as cataratas recém-disciplinadas, e toco
em um caminho de rios o que não distribui
nada além da rosa nascida, o hemisfério afogado.
A terra é uma catedral de pálpebras pálidas,
eternamente unidas e agregadas em um
vendaval de segmentos, em um sal de abóbadas,
em uma cor final de outono perdoado.
Não haveis, não haveis tocado nunca no caminho
o que a estalactite desnuda determina,
a festa entre as lâmpadas glaciais,
o alto frio das folhas negras,
não haveis entrado comigo nas fibras
que a terra escondeu,
não haveis tornado a subir depois de mortos
grão por grão os degraus da areia
até que as coroas do orvalho
cubram de novo urna rosa aberta,
não podeis existir sem ir morrendo
com o vestuário usado do destino.
Porém eu sou o nimbo metálico, a argola
encadeada a espaços, a nuvens, a terrenos
que toca precipitadas e emudecidas águas,
e torna a desafiar a intempérie infinita.
I
Hino e regresso (1939)
Pátria, minha pátria, volto a ti o sangue.
Mas te peço, como à mãe o menino
cheio de pranto.
Acolhe
esta guitarra cega
e este rosto perdido.
Saí para encontrar-te filhos pela terra,
saí para cuidar caídos com o teu nome de neve,
saí pata fazer uma casa com a tua madeira pura,
saí para levar tua estrela aos heróis feridos.
Agora quero dormir em tua substância.
Dá-me tua clara noite de penetrantes cordas,
tua noite de navio, tua estatura estrelada.
Pátria minha: quero mudar de sombra.
Pátria minha: quero trocar de rosa.
Quero pôr meu braço em tua cintura exígua
e sentar-me em tuas pedras pelo mar calcinadas,
a deter o trigo e espiá-lo por dentro.
Vou eleger a flora delgada do nitrato,
vou fiar o estame glacial do sino,
e espiando tua ilustre e solitária espuma
um ramo litoral tecerei para tua beleza.
Pátria, minha pátria
toda rodeada de água combatente
e neve combatida,
em ti se junta a águia ao enxofre
e em tua antártica mão de arminho e de safira
uma gota de pura luz humana
brilha acendendo o inimigo céu.
Guarda tua luz, ó pátria!, mantém
tua dura espiga de esperança em meio
ao cego ar temível.
Em tua remota terra caiu toda esta luz difícil,
este destino dos homens
que te faz defender uma flor misteriosa
só, na imensidade da América adormecida.
II
Quero voltar ao sul (1941)
Enfermo em Veracruz, recordo um dia do sul, minha terra, um dia de prata
como um rápido peixe na água do céu.
Loncoche, Lonquimay, Carahue, de cima
esparzidos, rodeados por silêncio e raízes,
sentados em seus tronos de couros e madeiras.
O sul é um cavalo lançado a pique
coroado com lentas árvores e rocio,
quando levanta o verde focinho caem as gotas,
a sombra de sua cauda molha o grande arquipélago
e em seu intestino cresce o carvão venerado.
Nunca mais, dize-me, sombra, nunca mais, dize-me, mão,
nunca mais, dize-me, pé, porta, perna, combate,
transtornarás a selva, o caminho, a espiga,
a névoa, o frio, o que, azul, determinava
cada um de teus passos sem cessar consumidos?
Céu, deixa-me um dia de estrela a estrela ir-me
pisando luz e pólvora destroçando meu sangue
até chegar ao ninho da chuva!
Quero ir
por detrás da madeira pelo rio
Toltén fragrante, quero sair das serrações,
entrar nas cantinas com os pés empapados,
guiar-me pela luz da aveleira elétrica,
espichar-me junto ao excremento das vacas,
morrer e reviver mordendo o trigo.
Oceano, traze-me
um dia do sul, um dia agarrado a tuas ondas,
um dia de árvore molhada, traze um vento
azul polar a minha bandeira fria!
III
Melancolia perto de Orizaba (1942)
Que há para ti no sul senão um rio, uma noite,
umas folhas que o ar frio manifesta
e estende até cobrir as margens do céu?
Acaso a cabeleira do amor desemboca
como outra neve ou água do desfeito arquipélago,
como outro movimenta subterrâneo do fogo
e espera nos barracões outra vez,
onde as folhas caem tantas vezes
tremulando, devoradas por essa boca espessa,
e o brilho da chuva fecha sua trepadeira
desde a reunião dos grãos secretos
até a folhagem cheia de sinos e gotas?
Onde a primavera traz uma voz molhada
que zumbe nas orelhas do cavalo adormecido
e logo caí no ouro do trigo triturado
e logo assoma um dedo transparente na uva.
Que há para ti a esperar-te, onde, sem corredores,
sem paredes, te chama o sul?
Como o llanero escutas em tua mão a taça
da terra, pondo o teu ouvido nas raízes:
de longe um vento do hemisfério temível,
o galope no orvalho dos carabineiros:
onde a agulha cose com água fina o tempo
e sua esmiuçada costura se destrói:
que há para ti na noite de costados selvagens
uivando com a boca toda cheia de azul?
Há um dia talvez detido, um espinho
crava no velho dia seu aguilhão degradado
e sua antiga bandeira nupcial se despedaça.
Quem guardou um dia de bosque negro, quem
esperou umas horas de pedra, quem rodeia
a herança lastimada pelo tempo, quem foge
sem desaparecer no centro do ar?
Um dia, um dia cheio de folhas desesperadas,
um dia, uma luz partida pela fria safira,
um silêncio de ontem preservado no oco
de ontem, na reserva do território ausente.
Amo tua emaranhada cabeleira de couro,
tua antártica formosura de intempérie e cinza.
teu doloroso peso de céu combatente:
amo o vôo do ar do dia em que me esperas,
sei que não muda o beijo da terra, e não muda,
sei que não cai a folha da árvore, e não cai:
sei que o mesmo relâmpago detém seus metais
e a desamparada noite é a mesma noite,
porém és minha noite, porém és minha planta, a água
das glaciais lágrimas que conhecem meu cabelo.
Seja eu o que ontem me esperava no homem:
o que em louro, cinza, quantidade, esperança,
desenrola sua pálpebra no sangue,
no sangue que povoa a cozinha e o bosque,
as fábricas que o ferro cobre de plumas negras,
as minas verrumadas pelo suor sulfúrico.
Não só o ar agudo do vegetal me espera:
não só o trovão sobre o nevado esplendor:
lágrimas e fome como dois calafrios
sobem ao campanário da pátria e repicam:
é aí que em meio do fragrante céu,
é aí que quando outubro rebenta, e corre
a primavera antártica sob o fulgor do vinho,
há um lamento e outro e outro lamento e outro
até que cruzam neve, cobre, caminhos, naus,
e passam através da noite e da terra
até minha dessangrada garganta que os ouve.
Povo meu, que dizes? Marinheiro,
peão, alcaide, operário do salitre, me escutas?
Eu te ouço, irmão morto, irmão vivo, te ouço,
o que tu desejavas, o que enterraste, tudo,
o sangue que na areia e no mar derramavas,
o coração golpeado que resiste e assusta.
Que há para ti no sul? A chuva onde cai?
E desde o interstício, que mortos açoitaste?
Os meus, os do sul, os heróis sós,
o pão disseminado pela cólera amarga,
o longo luto, a fome, a dureza e a morte,
as folhas sobre eles tombaram, as folhas,
a lua sobre o peito do soldado, a lua.
o beco do miserável, e o silêncio
do homem em todas as partes, como um mineral duro
cujo veio de frio gela a luz de minh'alma
antes de construir o campanário nas alturas.
Pátria cheia de germes, não me chames, não posso
dormir sem teu olhar de cristal e treva.
Teu grito rouco de águas e seres me sacode
e ando no sonho à beira de tua espuma solene
até a última ilha de tua cintura azul.
Me chamas docemente como uma noiva pobre.
Tua longa luz de aço me cega e me busca
como uma espada cheia de raízes.
Pátria, terra estimável, queimada luz ardendo:
como o carvão dentro do fogo precipita
teu sal temível, tua despida sombra.
Seja eu o que ontem me esperava, e amanhã
resista num punhado de papoulas e poeira.
IV
Oceano
Se tua nudez evidente e verde,
se tua maçã desmedida, se
nas trevas tua mazurca, onde
está a tua origem?
Noite
mais doce que a noite,
sal
mãe, sal sangrento, curva mãe da água,
planeta percorrido pela espuma e a medula:
titânica doçura de estelar longitude:
noite com uma única onda na mão:
tempestade contra a águia marinha,
cega sob as mãos do sulfato insondável:
adega em tanta noite sepultada,
corola fria toda de invasão e ruído,
catedral enterrada a golpes na estrela.
Há o cavalo ferido que na idade de tua margem
percorre, pelo fogo glacial substituído,
há o abeto rubro transformado em plumagem
e desfeito em tuas mãos de atroz cristalaria,
e a incessante rosa combatida nas ilhas
e o diadema de água e lua que estabeleces.
Pátria minha, a tua terra
todo este céu escuro!
Toda esta fruta universal, toda esta
delirante coroa!
Para ti esta taça de espumas onde o raio
se perde como um albatroz cego, e onde o sol do sul
se levanta olhando tua condição sagrada.
V
Selaria
Para mim este arreio esboçado
como pesada rosa em prata e couro,
suave de fundura, liso e duradouro.
Cada recorte é uma mão, cada
costura é uma vida, nele vive
a unidade das vidas florestais,
uma cadeia de olhos e cavalos.
Os grãos da aveia o formaram,
o fizeram duro matagais e água,
a colheita opulenta lhe deu orgulho,
metal e tafiletes trabalhados:
e assim de desventuras e domínio
este trono saiu pelas campinas.
Olaria
Tarda pomba, alcanzia de argila,
em teu lombo de luto um signo, apenas
algo que te decifra.
Povo meu,
como com as tuas dores nas costas,
espancado e rendido, como foste
acumulando ciência desfolhada?
Prodígio negro, mágica matéria
elevada à luz por dedos cegos,
mínima estátua em que o mais secreto
da terra nos abre seus idiomas,
cântaro de Pomaire em cujo beijo
terra e pele se congregam, infinitas
formas do barro, luz das vasilhas,
a forma de uma mão que foi minha,
o passo de uma sombra que me chama,
sois reunião de sonhos escondidos,
cerâmica, pomba indestrutível!
Teares
Sabeis que lá a neve vigiando
os vales ou, melhor,
a primavera escura do sul, as aves negras
a cujo peito só uma gota de sangue
veio a tremer, a bruma
de um grande inverno que estendeu as asas,
assim é o território, e sua fragrância
sobe de flores pobres, derrubadas
pelo peso de cobre e cordilheiras.
- lá o tear fio a fio, buscando
reconstruiu a flor, subiu a pluma
a seu império escarlate, entretecendo
azuis e açafrões, a meada
do fogo e seu amarelo poderio,
a estirpe do relâmpago violeta,
o verde areento do lagarto.
Mãos do povo meu nos teares,
mãos pobres que tecem, uma a uma,
as plumagens de estrela que faltaram
a tua pele, Pátria de cor escura,
substituindo fibra por fibra o céu
para que cante o homem os seus amores
e galope acendendo cereais!
VI
Inundações
Os pobres vivem embaixo esperando que o rio
se levante à noite e os leve para o mar.
Vi pequenos berços que flutuavam, destroços
de vivendas, cadeiras, e uma cólera augusta
de lívidas águas em que se confundem o céu e o terror
Só é para ti, pobre, para tua esposa e tua sementeira,
para teu cão e tuas ferramentas, para que aprendas a ser mendigo.
A água não sobe até as casas dos cavalheiros
cujos nevados pescoços voam das lavanderias.
Come este lodo de roldão e estas ruínas que nadam
com teus mortos vagando docemente para o mar,
entre as pobres mesas e as perdidas árvores
que vão de tombo em tombo mostrando as raízes.
Terremoto
Acordei quando a terra dos sonhos faltou
sob a minha cama.
Uma coluna cega de cinza cambaleava no meio
da noite,
eu te pergunto: morri?
Dá-me a mão nesta ruptura do planeta
enquanto a cicatriz do céu roxo se faz estrela.
Ai! porém recordo, onde estão? onde estão?
Por que ferve a terra enchendo-se de morte?
Oh, máscaras sob as vivendas enroladas, sorrisos
que não atingiram o espanto, seres despedaçados
sob as vigas, cobertos pela noite.
E hoje amanheces, ó dia azul, vestido
para um baile, com a tua cauda de ouro
sobre o mar apagado dos escombros, ígneo,
buscando o rosto perdido dos insepultos.
VII
Atacama
Voz insofrível, disseminado
sal, substituída
cinza, ramo negro
em cujo extremo aljôfar aparece a lua
cega, por corredores enlutados de cobre.
Que material, que cisne oco
funde na areia sua nudez agônica
e endurece sua luz líquida e lenta?
Que raio duro rompe sua esmeralda
entre suas pedras indomáveis até
coagular o sal perdido?
Terra, terra
sobre o mar, sobre o ar, sobre o galope
da amazona cheia de corais:
adega amontoada onde o trigo
dorme na tremulante raiz do sino:
ó mãe do oceano!, produtora
do cego jaspe e a dourada sílica:
sobre tua pele pura de pão, longe do bosque,
nada, a não ser tuas linhas de segredo,
nada, a não ser o teu rosto de areia,
nada, a não ser as noites e os dias do homem,
mas junto à sede do cardo, lá,
onde um papel enterrado e esquecido, uma pedra
marca os fundos berços da espada e da taça,
indica os adormecidos pés do cálcio.
VIII
Tocopilla
De Tocopilla ao sul, ao norte, areia,
calações ruídas, o lanchão, as tábuas
partidas, o retorcido ferro.
Quem à linha pura do planeta,
áurea e cozida, sonho, sal e pólvora
agregou o utensílio desfeito, a imundície?
Quem pôs o teto arriado, quem deixou as paredes
abertas, como um ramo
de papéis pisados?
Lôbrega luz do homem em ti destituído,
sempre tornando à conca de tua lua calcária,
apenas recebido por tua letal areia!
Gaivota rara das obras, arenque,
petrel anelado,
frutos, vós, filhos do espinhel sangrento
e da tempestade, vistes o chileno?
Vistes o humano, entre as duplas linhas do frio
e das águas, sob a dentadura
da linha de terra, na baía?
Piolhos, piolhos ardentes atacando o sal,
piolhos, piolhos da costa, povoações, mineiros,
de uma cicatriz do deserto até a outra,
contra a costa da lua, fora!,
bicando o selo frio sem idade.
Além dos pés do alcatraz, quando
nem água nem pão nem sombra tocam a dura etapa,
o exercício do salitre assoma
ou a estátua do cobre decide sua estatura.
É tudo como estrelas enterradas
como pontas amargas, como infernais
flores
brancas, nevadas de luz tremulante
ou verde e negro ramo de esplendores pesados.
Não vale ali a pena mas só a mão rota
do chileno escuro, não vale ali a dúvida.
Só o sangue.
Só esse golpe duro
que pergunta na veia pelo homem.
Na veia, na mina, na esburacada cova
sem água e sem laurel.
Ó pequenos
compatriotas queimados por esta luz mais agra
que o banho da morte, heróis escurecidos
pelo amanhecer do sal na terra,
onde fazeis vosso ninho, errantes filhos?
Quem vos viu entre as fibras rotas
dos portos desérticos?
Sob
a névoa de salmoura
ou atrás da costa metálica,
ou talvez ou talvez,
sob o deserto já, sob
sua palavra de pó
para sempre!
Chile, Metal e Céu,
e vós, chilenos,
semente, irmãos duros,
tudo disposto em ordem e silêncio
como a permanência das pedras.
IX
“Peumo”
Parti uma folha lajeada do matagal: um doce
aroma das bordas partidas
me tocou como asa profunda que voasse
da terra, de longe, de nunca.
Peumo, então vi tua folhagem, tua verdura
minuciosa, encrespada, cobrir com seus impulsos
teu tronco terrenal e tua largueza olorosa.
Pensei como és toda a minha terra: minha bandeira
deve ter aroma de peumo ao despregar-se,
um odor de fronteiras que de súbito
entram em ti com toda a pátria em sua corrente.
Peumo puro, fragrância de anos e cabeleiras
no vento, na chuva, sob a curvatura
da montanha, com um ruído de água que baixa
até nossas raízes, ó amor, ó tempo agreste
cujo perfume pode nascer, desenredar-se
de uma folha e encher-nos até derramarmos
a terra, como velhos cântaros enterrados!
“Quilas”
Entre as folhas retas que não sabem sorrir
encondes teu plantel de lanças clandestinas.
Tu não esqueceste.
Quando passo por tua folhagem
murmura a dureza, e despertam palavras
que ferem, sílabas que amamentam espinhos.
Tu não esqueces.
Eras argamassa molhada
com sangue, eras a coluna da casa e a guerra,
eras bandeira, teto de minha mãe araucana,
espada do guerreiro silvestre, Araucania
eriçada de flores que feriram e mataram.
Asperamente escondes as lanças que fabricas
e que conhece o vento da região selvagem,
a chuva, a águia dos bosques queimados,
e o sutil habitante recém-despossuído.
Talvez, talvez: não digas a ninguém o teu segredo.
Guarda para mim uma lança silvestre, ou madeira
de uma flecha.
Eu tampouco esqueci.
“Drimis Winterei”
Plantas sem nome, folhas
e cordas montanhosas,
ramos tecidos de ar verde, fios
recém-bordados, ganchos de metais escuros,
inumerável flora coronária
da umidade, do vasto vapor, da água imensa.
E entre toda a forma que buscou este entrelaçado,
entre estas folhas cujo molde intacto
equilibrou na chuva seu prodígio,
ó árvore, despertaste como um trovão
e em tua copa povoada por toda a verdura
adormeceu como um pássaro o inverno.
X
Zonas frias
Termo abandonado! Linha louca
em que a fogueira ou o cardo enfurecido
formam capas de azul eletrizado.
Pedras batidas por
agulhas do cobre, estradas
de material silêncio, ramos mergulhados
no sal das pedras.
Aqui estou, aqui estou,
boca humana entregue ao passo pálido
de um tempo detido como taça ou cadeira,
central presídio de água sem saída,
árvore de corporal flor derrubada,
unicamente surda e brusca areia.
Pátria minha, terrestre e cega como
nascidos aguilhões da areia, para ti toda
a fundação de minha alma, para ti as perpétuas
pálpebras de meu sangue, e de volta
o meu prato de papoulas.
Dá-me de noite, em meio às plantas terrestres,
a hostil rosa de orvalho que dorme em tua bandeira,
dá-me de lua ou de terra teu pão polvilhado
com teu temível sangue escuro:
sob a tua luz de areia
não há mortos, mas longos ciclos de sal, azuis
ramos de misterioso metal morto.
XI
“Chercanes”
Gostaria que não desconfiásseis: é verão,
a água me regou c levantou um desejo
como um ramo, um canto meu me mantém
como um tronco enrugado, com certas cicatrizes.
Minúsculos, amados, vinde a minha cabeça.
Aninhai em meus ombros nos quais passeia
o fulgor de um lagarto, em meus pensamentos
sobre os quais caíram tantas folhas,
ó círculos pequenos da doçura, grãos
de alado cereal, ovozinho emplumado,
formas puríssimas em que o olho
certeiro dirige vôo e vida,
aqui, aninhai em minha orelha, desconfiados
e diminutos: ajudai-me:
quero ser mais pássaro cada dia.
“Loica”
Perto de mim, sangrenta, mas ausente.
Com tua máscara cruel e teus olhos guerreiros,
Entre os torrões, saltando de um tesouro
Para outro, na plenitude pura e selvagem.
Conta-me como entre todas,
Em nossos matagais que a chuva
Tingiu com seus lamentos, como, só,
Teu peitilho recolhe todo o carmim do mundo?
Ai, és polvilhada pelo rubro verão,
Entraste na gruta do pólen escarlate
E tua mancha recolhe todo o fogo
E tua mancha recolhe todo o fogo.
E a este olhar mais que ao firmamento
E à noite nevada em seu baluarte andino
Quando abre o leque de cada dia, nada
A detém: só a tua sarça
Que continua ardendo sem queimar a terra.
“Chucao”
Na fria folhagem multiplicada, de súbito
A voz do chucao como se ninguém existisse
A não ser esse grito de toda a solidão unida,
Como essa voz de todas as árvores molhadas.
Passou a voz a tremer e escura sobre o meu cavalo,
mais lenta e mais profunda que um vôo: parei,
onde estava? Que dias eram aqueles?
Tudo o que vivi galopando naquelas
Estações perdidas, no mundo da chuva
Nas janelas, o puma na intempérie
Rondando com duas pontas de fogo sangüinário,
E o mar dos canis, entre túneis verdes
De empapada formosura, a solidão, o beijo
Da que amei mais jovem sob as aveleiras,
Tudo surgiu de súbito quando na selva o grito
Do chucao com as suas sílabas úmidas.
XII
Botânica
O sanguinário litre e o benéfico boldo
disseminam seu estilo
em irritantes beijos de animal esmeralda
ou antologias de águas escuras entre as pedras.
A gomeleira no cimo da árvore estabelece
sua dentadura nívea
e a selvagem aveleira constrói seu castelo
de páginas e gotas.
A artemísia e a chépica rodeiam
os olhos do orégano
e o radiante louro da fronteira
perfuma as longínquas intendências.
Quila e quelenquelén das manhãs.
Idioma frio das fúcsias,
que se vai por pedras tricolores
gritando viva o Chile com a espuma!
O dedal de ouro espera
os dedos da neve
e roda o tempo sem seu matrimônio,
que uniria os anjos do fogo e do açúcar.
A caneleira mágica
lava na chuva sua racial ramagem,
e precipita os seus lingotes verdes
sob a vegetal água do sul.
A doce aspa do olmo
com fanegas de flores
sobe as gotas do copihue rubro
para conhecer o sol das guitarras.
A agreste delgadilla
e o celestial poejo
bailam nos prados com o jovem orvalho
recentemente armado pelo rio Toltén.
A indecifrável doca
decapita a sua purpura na areia
e conduz seus triângulos marinhos
até as secas luas litorais.
A brunida papoula,
relâmpago e ferida, dardo e boca,
sobre o trigo queimante
põe as suas pontuações escarlates.
A tiliácea evidente
condecora os seus mortos
e tece suas famílias
com águas mananciais e medalhas de rio.
O paico arranja lâmpadas
no clima do sul, desamparado,
quando vem a noite
do mar jamais adormecido.
O roble dorme sozinho,
muito vertical, muito pobre, muito mordido,
muito decisivo no prado puro
com a sua roupa de maltrapilho maltratado
e sua cabeça cheia de solenes estrelas.
XIII
Araucária
Todo o inverno, toda a batalha,
todos os ninhos do molhado ferro,
em tua firmeza atravessada de aragem,
em tua cidade silvestre se levantam.
O cárcere renegado das pedras,
os fios submersos do espinho,
fazem de tua aramada cabeleira
um pavilhão de sombras minerais.
Pranto eriçado, eternidade da água,
monte de escamas, raio de ferraduras,
tua atormentada casa se constrói
com pétalas de pura geologia.
O alto inverno beija a tua armadura
e te cobre de lábios destruídos:
a primavera de violento aroma
rompe a tua sede em tua implacável estátua:
e o grave outono espera inutilmente
derramar ouro em tua estatura verde.
XIV
Tomás Lago
Outras pessoas se deitaram entre as páginas dormindo
como insetos elzevirianos, entre eles
foram disputados certos livros recém-impressos
como no futebol, marcando gols de sabedoria.
Nós então cantamos na primavera
junto aos rios que arrastam pedras dos Andes,
e estávamos entrançados com nossas mulheres sorvendo
mais de uma colméia, devorando até o enxofre do mundo.
E não só isso mas muito mais: compartilhamos
a vida com humildes amigos que amamos,
e que nos ensinaram com as flechas do vinho
o alfabeto honrado da aldeia, o repouso
dos que conseguiram na dureza
sair cantando.
Ó dias em que juntos
visitamos a cova e os tugúrios,
destroçamos as teias de aranha, e nas margens
do sul sob a noite e sua argamassa
removida viajamos:
tudo era flor e pátria passageira,
tudo era chuva e material do fumo.
Que longa estrada caminhamos, detendo
o passo nas pousadas, dirigindo
nossa atenção a um extremo crepúsculo, a uma pedra,
a uma parede escrita por um carvão, a um grupo
de foguistas que de repente
nos ensinaram todas as canções do inverno.
Mas não só a lagarta andava camaleando,
em nossas janelas, banhada em celulose,
cada vez mais celestial em seu papel de culto,
mas também o ferruginoso, o iracundo, o vaqueiro
que nos queria cobrar com duas pistolas no peito,
ameaçando devorar as nossas mães
e empenhar nossos bens
(chamando a tudo isso heroísmo e outras coisas).
Nós os deixamos passar a olhá-los, não puderam
arrancar-nos uma casca, amolecer um ganido,
e cada um se foi a seu túmulo,
de jornais europeus ou pesos bolivianos.
Nossas lâmpadas continuam acesas, ardendo
mais altas que o papel e que os foragidos.
Rubén Azócar
Para as ilhas!, dissemos.
Eram dias de confiança
e estávamos sustentados por árvores ilustres:
nada nos parecia longe, tudo podia enredar-se
dum momento para outro na luz que produzíamos.
Chegamos com sapatos de couro grosso: chovia,
chovia nas ilhas, assim se mantinha o território
como uma mão verde, como luva
cujos dedos flutuavam
entre as algas vermelhas.
Enchemos de tabaco o arquipélago, fumávamos
até tarde no Hotel Nilsson, e disparávamos
ostras frescas para todos os pontos cardeais.
A cidade tinha uma fábrica religiosa
de cujas portas grandes, na tarde inanimada,
saía como um longo coleóptero um desfile
negro de sotainazinhas sob a triste chuva:
acudíamos a todos os borgonhas, enchíamos
o papel com os signos de uma dor hieróglifa.
Eu me evadi de repente: por muitos anos, distante,
em outros climas que acaudalaram minhas paixões
recordei as barcas sob a chuva, contigo,
que ali ficavas para que as tuas grandes sobrancelhas
lançassem suas raízes molhadas sobre as ilhas.
Juvencio Valle
Juvencio, ninguém sabe como tu e eu o segredo
do bosque de Boroa: ninguém
conhece certas veredas de terra avermelhada
sobre as quais acorda a luz da aveleira.
Quando as pessoas não nos ouvem não sabem
que ouvimos chover sobre árvores e tetos
de zinco, e que ainda amamos a telegrafista,
aquela, aquela moça que como nós
conhece o grito fundido das locomotivas
de inverno, nas comarcas.
Só tu, silencioso,
entraste no aroma que a chuva despenca,
incitaste o aumento dourado da flora,
recolheste o jasmim antes que ele nascesse.
O barro triste, defronte dos armazéns,
o barro triturado pelas graves carretas
como a negra argila de certos sofrimentos,
está (quem o sabe como tu?) derramado
por trás da profunda primavera.
Também
temos em segredo outros tesouros:
folhas que como línguas escarlates
cobrem a terra, e pedras suavizadas
pela torrente, pedras dos rios.
Diego Muñoz
Nós só nos defendemos, assim parece, com descobrimentos
e signos estendidos no papel tempestuoso,
mas que, capitães, corrigimos
a murros a rua maligna
e logo entre acordeões elevamos
o coração com águas e cordames.
Marinheiro, já regressaste de teus portos
de Guayaquil, odores de frutas poeirentas,
e de toda a terra um sol de aço
que te fez derramar vitoriosas espadas.
Hoje sobre os carvões da pátria chegou
uma hora - dores e amor - que compartilhamos,
e do mar sobressai sobre tua voz o fio
de uma fraternidade mais vasta que a terra.
XV
Ginete na chuva
Fundamentais águas, paredes de água, trevo
e aveia combatida,
cordoagens já unidas na rede duma noite
úmida, gotejante, selvagemente fiada,
gota desgarradora repetida no lamento,
cólera diagonal cortando o céu.
Galopam os cavalos de perfume empapado,
sob a água, golpeando a água, nela intervindo
com suas ramagens rubras de pelo, pedra e água:
e o vapor acompanha como um leite louco
a água endurecida com fugazes pombas.
Não há dia mas apenas as cisternas
do clima duro, do verde movimento
e as patas atam veloz terra c transcurso
entre bestial aroma de cavalo com chuva.
Mantas, montarias, xairéis agrupados
em sombrias romãs sobre os
ardentes lombos de enxofre que golpeiam
a selva decidindo-a.
Mais além, mais além, mais além, mais além,
mais além, mais além, mais além, mais alééééém,
os ginetes despencam a chuva, os ginetes
passam sob as aveleiras amargas, a chuva
torce em trêmulos raios seu trigo sempiterno.
Há luz da água, relâmpago confuso
derramado na folha, e do mesmo som do galope
sai uma água sem vôo, ferida pela terra.
Úmida rédea, abóbada enramada,
passos de passos, vegetal noturno
de estrelas rotas como gelo ou lua, ciclônico cavalo
coberto pelas flechas como um gelado espectro,
cheio de novas mãos nascidas na fúria,
golpeante maçã rodeada pelo medo
e sua grande monarquia de temível estandarte.
XVI
Mares do Chile
Em longínquas regiões
teus pés de espuma, tua esparzida praia
reguei com pranto desterrado e louco.
,
Hoje a tua boca venho, hoje a teu rosto.
Não ao coral sanguinário, não à queimada estrela,
nem às incandescentes e despencadas águas
entreguei o respeitoso segredo, nem a sílaba.
Guardei a tua voz enfurecida, uma pétala
de tutelar areia
entre os móveis e as velhas roupas.
Um pó de sinos, uma rosa molhada.
E muitas vezes era a água própria
de Arauco, a água dura:
mas eu conservava minha pedra submersa
c nesta, o palpitante som da tua sombra.
Ó mar do Chile, ó água
alta e cingida como aguda fogueira,
pressão e sonho e unhas de safira,
ó terremoto de sal e leões!
Vertente, origem, costa
do planeta, tuas pálpebras
abrem o meio-dia da terra
atacando o azul das estrelas!
O sal e o movimento se desprendem de ti
e repartem oceano às grutas do homem
até que além das ilhas teu peso
parte-se e estende um ramo de substâncias totais.
Mar do deserto norte, mar que fere o cobre
e adianta a espuma para a mão
do áspero habitante solitário,
entre alcatrazes, rochas de frio e esterco,
costa queimada ao passo de uma aurora desumana!
Mar de Valparaíso, onda
de luz sozinha e noturna,
janela do oceano
a que se assoma
a estátua de minha pátria
a ver com os olhos ainda cegos.
Mar do sul, mar oceano,
mar, lua misteriosa,
em Imperial aterrador de robles,
em Chiloé ao sangue assegurado
e de Magalhães ao limite
todo o silvo do sal, toda a lua louca,
e o estelar cavalo sem freio do gelo.
XVII
Ode de inverno ao rio Mapocho
Ó, sim, neve imprecisa.
Ó, sim, tremulando em plena flor de neve.
pálpebra boreal, pequeno raio gelado
quem, quem té chamou até o acinzentado vale,
quem, quem te arrastou desde o pico da águia
até onde as tuas puras águas tocam
os terríveis farrapos de minha pátria?
Rio, por que conduzes
água fria e secreta,
água que a alba dura das pedras
guardou em sua catedral inacessível,
até os pés feridos de meu povo?
Torna, torna à tua taça de neve, rio amargo,
torna, torna à tua taça de espaçosas escarchas,
submerge a tua prateada raiz em tua secreta origem
ou despenha-te e arrebenta-te em outro mar sem lágrimas!
Rio Mapocho quando a noite chega
e como negra estátua tombada
dorme sob as tuas pontes como um cacho negro
de cabeças batidas pelo frio e pela fome
como por duas imensas águias, ó rio,
ó duro rio parido pela neve,
por que não te ergues como imenso fantasma
ou como nova cruz de estrelas para os esquecidos?
Não, a tua rápida cinza corre agora
junto ao soluço lançado à água negra,
junto à manga rota que o vento endurecido
faz tremer sob as folhas do ferro.
Rio Mapocho, aonde levas
plumas de gelo para sempre feridas,
sempre junto à tua encardida ribeira
a flor selvagem nascerá mordida pelos piolhos
e a tua língua de frio raspará as faces
de minha pátria desnuda?
Oh, que não seja isso,
oh, que não seja, e que uma gota de tua espuma negra
salte da lama à flor do fogo
e precipite a semente do homem!
Escrevo para uma terra recém-secada, recém-
fresca de flores, de pólen, de argamassa,
escrevo para umas crateras cujas cúpulas de giz
repetem seu redondo vazio junto à neve pura,
opino de imediato para o que apenas
leva o vapor ferruginoso recém-saído do abismo,
falo para as pradarias que não conhecem nome
além da pequena campânula do líquen ou o estame queimado
ou a áspera mata onde se inflama a égua.
De onde venho, senão destas primíparas, azuis
matérias que se enredam ou se encrespam ou se destituem
ou se esparzem a gritos ou se derramam sonâmbulas,
ou se galgam e formam o baluarte da árvore,
ou se somem e amarram a célula do cobre,
ou saltam ao ramo dos rios, ou sucumbem
na raça enterrada do carvão ou reluzem
nas trevas verdes da uva?
Nas noites durmo como os rios, percorrendo
algo incessantemente, rompendo ultrapassando
a noite natatória, levantando as horas
para a luz, apalpando as secretas
imagens que a cal desterrou, subindo pelo bronze
até as cataratas recém-disciplinadas, e toco
em um caminho de rios o que não distribui
nada além da rosa nascida, o hemisfério afogado.
A terra é uma catedral de pálpebras pálidas,
eternamente unidas e agregadas em um
vendaval de segmentos, em um sal de abóbadas,
em uma cor final de outono perdoado.
Não haveis, não haveis tocado nunca no caminho
o que a estalactite desnuda determina,
a festa entre as lâmpadas glaciais,
o alto frio das folhas negras,
não haveis entrado comigo nas fibras
que a terra escondeu,
não haveis tornado a subir depois de mortos
grão por grão os degraus da areia
até que as coroas do orvalho
cubram de novo urna rosa aberta,
não podeis existir sem ir morrendo
com o vestuário usado do destino.
Porém eu sou o nimbo metálico, a argola
encadeada a espaços, a nuvens, a terrenos
que toca precipitadas e emudecidas águas,
e torna a desafiar a intempérie infinita.
I
Hino e regresso (1939)
Pátria, minha pátria, volto a ti o sangue.
Mas te peço, como à mãe o menino
cheio de pranto.
Acolhe
esta guitarra cega
e este rosto perdido.
Saí para encontrar-te filhos pela terra,
saí para cuidar caídos com o teu nome de neve,
saí pata fazer uma casa com a tua madeira pura,
saí para levar tua estrela aos heróis feridos.
Agora quero dormir em tua substância.
Dá-me tua clara noite de penetrantes cordas,
tua noite de navio, tua estatura estrelada.
Pátria minha: quero mudar de sombra.
Pátria minha: quero trocar de rosa.
Quero pôr meu braço em tua cintura exígua
e sentar-me em tuas pedras pelo mar calcinadas,
a deter o trigo e espiá-lo por dentro.
Vou eleger a flora delgada do nitrato,
vou fiar o estame glacial do sino,
e espiando tua ilustre e solitária espuma
um ramo litoral tecerei para tua beleza.
Pátria, minha pátria
toda rodeada de água combatente
e neve combatida,
em ti se junta a águia ao enxofre
e em tua antártica mão de arminho e de safira
uma gota de pura luz humana
brilha acendendo o inimigo céu.
Guarda tua luz, ó pátria!, mantém
tua dura espiga de esperança em meio
ao cego ar temível.
Em tua remota terra caiu toda esta luz difícil,
este destino dos homens
que te faz defender uma flor misteriosa
só, na imensidade da América adormecida.
II
Quero voltar ao sul (1941)
Enfermo em Veracruz, recordo um dia do sul, minha terra, um dia de prata
como um rápido peixe na água do céu.
Loncoche, Lonquimay, Carahue, de cima
esparzidos, rodeados por silêncio e raízes,
sentados em seus tronos de couros e madeiras.
O sul é um cavalo lançado a pique
coroado com lentas árvores e rocio,
quando levanta o verde focinho caem as gotas,
a sombra de sua cauda molha o grande arquipélago
e em seu intestino cresce o carvão venerado.
Nunca mais, dize-me, sombra, nunca mais, dize-me, mão,
nunca mais, dize-me, pé, porta, perna, combate,
transtornarás a selva, o caminho, a espiga,
a névoa, o frio, o que, azul, determinava
cada um de teus passos sem cessar consumidos?
Céu, deixa-me um dia de estrela a estrela ir-me
pisando luz e pólvora destroçando meu sangue
até chegar ao ninho da chuva!
Quero ir
por detrás da madeira pelo rio
Toltén fragrante, quero sair das serrações,
entrar nas cantinas com os pés empapados,
guiar-me pela luz da aveleira elétrica,
espichar-me junto ao excremento das vacas,
morrer e reviver mordendo o trigo.
Oceano, traze-me
um dia do sul, um dia agarrado a tuas ondas,
um dia de árvore molhada, traze um vento
azul polar a minha bandeira fria!
III
Melancolia perto de Orizaba (1942)
Que há para ti no sul senão um rio, uma noite,
umas folhas que o ar frio manifesta
e estende até cobrir as margens do céu?
Acaso a cabeleira do amor desemboca
como outra neve ou água do desfeito arquipélago,
como outro movimenta subterrâneo do fogo
e espera nos barracões outra vez,
onde as folhas caem tantas vezes
tremulando, devoradas por essa boca espessa,
e o brilho da chuva fecha sua trepadeira
desde a reunião dos grãos secretos
até a folhagem cheia de sinos e gotas?
Onde a primavera traz uma voz molhada
que zumbe nas orelhas do cavalo adormecido
e logo caí no ouro do trigo triturado
e logo assoma um dedo transparente na uva.
Que há para ti a esperar-te, onde, sem corredores,
sem paredes, te chama o sul?
Como o llanero escutas em tua mão a taça
da terra, pondo o teu ouvido nas raízes:
de longe um vento do hemisfério temível,
o galope no orvalho dos carabineiros:
onde a agulha cose com água fina o tempo
e sua esmiuçada costura se destrói:
que há para ti na noite de costados selvagens
uivando com a boca toda cheia de azul?
Há um dia talvez detido, um espinho
crava no velho dia seu aguilhão degradado
e sua antiga bandeira nupcial se despedaça.
Quem guardou um dia de bosque negro, quem
esperou umas horas de pedra, quem rodeia
a herança lastimada pelo tempo, quem foge
sem desaparecer no centro do ar?
Um dia, um dia cheio de folhas desesperadas,
um dia, uma luz partida pela fria safira,
um silêncio de ontem preservado no oco
de ontem, na reserva do território ausente.
Amo tua emaranhada cabeleira de couro,
tua antártica formosura de intempérie e cinza.
teu doloroso peso de céu combatente:
amo o vôo do ar do dia em que me esperas,
sei que não muda o beijo da terra, e não muda,
sei que não cai a folha da árvore, e não cai:
sei que o mesmo relâmpago detém seus metais
e a desamparada noite é a mesma noite,
porém és minha noite, porém és minha planta, a água
das glaciais lágrimas que conhecem meu cabelo.
Seja eu o que ontem me esperava no homem:
o que em louro, cinza, quantidade, esperança,
desenrola sua pálpebra no sangue,
no sangue que povoa a cozinha e o bosque,
as fábricas que o ferro cobre de plumas negras,
as minas verrumadas pelo suor sulfúrico.
Não só o ar agudo do vegetal me espera:
não só o trovão sobre o nevado esplendor:
lágrimas e fome como dois calafrios
sobem ao campanário da pátria e repicam:
é aí que em meio do fragrante céu,
é aí que quando outubro rebenta, e corre
a primavera antártica sob o fulgor do vinho,
há um lamento e outro e outro lamento e outro
até que cruzam neve, cobre, caminhos, naus,
e passam através da noite e da terra
até minha dessangrada garganta que os ouve.
Povo meu, que dizes? Marinheiro,
peão, alcaide, operário do salitre, me escutas?
Eu te ouço, irmão morto, irmão vivo, te ouço,
o que tu desejavas, o que enterraste, tudo,
o sangue que na areia e no mar derramavas,
o coração golpeado que resiste e assusta.
Que há para ti no sul? A chuva onde cai?
E desde o interstício, que mortos açoitaste?
Os meus, os do sul, os heróis sós,
o pão disseminado pela cólera amarga,
o longo luto, a fome, a dureza e a morte,
as folhas sobre eles tombaram, as folhas,
a lua sobre o peito do soldado, a lua.
o beco do miserável, e o silêncio
do homem em todas as partes, como um mineral duro
cujo veio de frio gela a luz de minh'alma
antes de construir o campanário nas alturas.
Pátria cheia de germes, não me chames, não posso
dormir sem teu olhar de cristal e treva.
Teu grito rouco de águas e seres me sacode
e ando no sonho à beira de tua espuma solene
até a última ilha de tua cintura azul.
Me chamas docemente como uma noiva pobre.
Tua longa luz de aço me cega e me busca
como uma espada cheia de raízes.
Pátria, terra estimável, queimada luz ardendo:
como o carvão dentro do fogo precipita
teu sal temível, tua despida sombra.
Seja eu o que ontem me esperava, e amanhã
resista num punhado de papoulas e poeira.
IV
Oceano
Se tua nudez evidente e verde,
se tua maçã desmedida, se
nas trevas tua mazurca, onde
está a tua origem?
Noite
mais doce que a noite,
sal
mãe, sal sangrento, curva mãe da água,
planeta percorrido pela espuma e a medula:
titânica doçura de estelar longitude:
noite com uma única onda na mão:
tempestade contra a águia marinha,
cega sob as mãos do sulfato insondável:
adega em tanta noite sepultada,
corola fria toda de invasão e ruído,
catedral enterrada a golpes na estrela.
Há o cavalo ferido que na idade de tua margem
percorre, pelo fogo glacial substituído,
há o abeto rubro transformado em plumagem
e desfeito em tuas mãos de atroz cristalaria,
e a incessante rosa combatida nas ilhas
e o diadema de água e lua que estabeleces.
Pátria minha, a tua terra
todo este céu escuro!
Toda esta fruta universal, toda esta
delirante coroa!
Para ti esta taça de espumas onde o raio
se perde como um albatroz cego, e onde o sol do sul
se levanta olhando tua condição sagrada.
V
Selaria
Para mim este arreio esboçado
como pesada rosa em prata e couro,
suave de fundura, liso e duradouro.
Cada recorte é uma mão, cada
costura é uma vida, nele vive
a unidade das vidas florestais,
uma cadeia de olhos e cavalos.
Os grãos da aveia o formaram,
o fizeram duro matagais e água,
a colheita opulenta lhe deu orgulho,
metal e tafiletes trabalhados:
e assim de desventuras e domínio
este trono saiu pelas campinas.
Olaria
Tarda pomba, alcanzia de argila,
em teu lombo de luto um signo, apenas
algo que te decifra.
Povo meu,
como com as tuas dores nas costas,
espancado e rendido, como foste
acumulando ciência desfolhada?
Prodígio negro, mágica matéria
elevada à luz por dedos cegos,
mínima estátua em que o mais secreto
da terra nos abre seus idiomas,
cântaro de Pomaire em cujo beijo
terra e pele se congregam, infinitas
formas do barro, luz das vasilhas,
a forma de uma mão que foi minha,
o passo de uma sombra que me chama,
sois reunião de sonhos escondidos,
cerâmica, pomba indestrutível!
Teares
Sabeis que lá a neve vigiando
os vales ou, melhor,
a primavera escura do sul, as aves negras
a cujo peito só uma gota de sangue
veio a tremer, a bruma
de um grande inverno que estendeu as asas,
assim é o território, e sua fragrância
sobe de flores pobres, derrubadas
pelo peso de cobre e cordilheiras.
- lá o tear fio a fio, buscando
reconstruiu a flor, subiu a pluma
a seu império escarlate, entretecendo
azuis e açafrões, a meada
do fogo e seu amarelo poderio,
a estirpe do relâmpago violeta,
o verde areento do lagarto.
Mãos do povo meu nos teares,
mãos pobres que tecem, uma a uma,
as plumagens de estrela que faltaram
a tua pele, Pátria de cor escura,
substituindo fibra por fibra o céu
para que cante o homem os seus amores
e galope acendendo cereais!
VI
Inundações
Os pobres vivem embaixo esperando que o rio
se levante à noite e os leve para o mar.
Vi pequenos berços que flutuavam, destroços
de vivendas, cadeiras, e uma cólera augusta
de lívidas águas em que se confundem o céu e o terror
Só é para ti, pobre, para tua esposa e tua sementeira,
para teu cão e tuas ferramentas, para que aprendas a ser mendigo.
A água não sobe até as casas dos cavalheiros
cujos nevados pescoços voam das lavanderias.
Come este lodo de roldão e estas ruínas que nadam
com teus mortos vagando docemente para o mar,
entre as pobres mesas e as perdidas árvores
que vão de tombo em tombo mostrando as raízes.
Terremoto
Acordei quando a terra dos sonhos faltou
sob a minha cama.
Uma coluna cega de cinza cambaleava no meio
da noite,
eu te pergunto: morri?
Dá-me a mão nesta ruptura do planeta
enquanto a cicatriz do céu roxo se faz estrela.
Ai! porém recordo, onde estão? onde estão?
Por que ferve a terra enchendo-se de morte?
Oh, máscaras sob as vivendas enroladas, sorrisos
que não atingiram o espanto, seres despedaçados
sob as vigas, cobertos pela noite.
E hoje amanheces, ó dia azul, vestido
para um baile, com a tua cauda de ouro
sobre o mar apagado dos escombros, ígneo,
buscando o rosto perdido dos insepultos.
VII
Atacama
Voz insofrível, disseminado
sal, substituída
cinza, ramo negro
em cujo extremo aljôfar aparece a lua
cega, por corredores enlutados de cobre.
Que material, que cisne oco
funde na areia sua nudez agônica
e endurece sua luz líquida e lenta?
Que raio duro rompe sua esmeralda
entre suas pedras indomáveis até
coagular o sal perdido?
Terra, terra
sobre o mar, sobre o ar, sobre o galope
da amazona cheia de corais:
adega amontoada onde o trigo
dorme na tremulante raiz do sino:
ó mãe do oceano!, produtora
do cego jaspe e a dourada sílica:
sobre tua pele pura de pão, longe do bosque,
nada, a não ser tuas linhas de segredo,
nada, a não ser o teu rosto de areia,
nada, a não ser as noites e os dias do homem,
mas junto à sede do cardo, lá,
onde um papel enterrado e esquecido, uma pedra
marca os fundos berços da espada e da taça,
indica os adormecidos pés do cálcio.
VIII
Tocopilla
De Tocopilla ao sul, ao norte, areia,
calações ruídas, o lanchão, as tábuas
partidas, o retorcido ferro.
Quem à linha pura do planeta,
áurea e cozida, sonho, sal e pólvora
agregou o utensílio desfeito, a imundície?
Quem pôs o teto arriado, quem deixou as paredes
abertas, como um ramo
de papéis pisados?
Lôbrega luz do homem em ti destituído,
sempre tornando à conca de tua lua calcária,
apenas recebido por tua letal areia!
Gaivota rara das obras, arenque,
petrel anelado,
frutos, vós, filhos do espinhel sangrento
e da tempestade, vistes o chileno?
Vistes o humano, entre as duplas linhas do frio
e das águas, sob a dentadura
da linha de terra, na baía?
Piolhos, piolhos ardentes atacando o sal,
piolhos, piolhos da costa, povoações, mineiros,
de uma cicatriz do deserto até a outra,
contra a costa da lua, fora!,
bicando o selo frio sem idade.
Além dos pés do alcatraz, quando
nem água nem pão nem sombra tocam a dura etapa,
o exercício do salitre assoma
ou a estátua do cobre decide sua estatura.
É tudo como estrelas enterradas
como pontas amargas, como infernais
flores
brancas, nevadas de luz tremulante
ou verde e negro ramo de esplendores pesados.
Não vale ali a pena mas só a mão rota
do chileno escuro, não vale ali a dúvida.
Só o sangue.
Só esse golpe duro
que pergunta na veia pelo homem.
Na veia, na mina, na esburacada cova
sem água e sem laurel.
Ó pequenos
compatriotas queimados por esta luz mais agra
que o banho da morte, heróis escurecidos
pelo amanhecer do sal na terra,
onde fazeis vosso ninho, errantes filhos?
Quem vos viu entre as fibras rotas
dos portos desérticos?
Sob
a névoa de salmoura
ou atrás da costa metálica,
ou talvez ou talvez,
sob o deserto já, sob
sua palavra de pó
para sempre!
Chile, Metal e Céu,
e vós, chilenos,
semente, irmãos duros,
tudo disposto em ordem e silêncio
como a permanência das pedras.
IX
“Peumo”
Parti uma folha lajeada do matagal: um doce
aroma das bordas partidas
me tocou como asa profunda que voasse
da terra, de longe, de nunca.
Peumo, então vi tua folhagem, tua verdura
minuciosa, encrespada, cobrir com seus impulsos
teu tronco terrenal e tua largueza olorosa.
Pensei como és toda a minha terra: minha bandeira
deve ter aroma de peumo ao despregar-se,
um odor de fronteiras que de súbito
entram em ti com toda a pátria em sua corrente.
Peumo puro, fragrância de anos e cabeleiras
no vento, na chuva, sob a curvatura
da montanha, com um ruído de água que baixa
até nossas raízes, ó amor, ó tempo agreste
cujo perfume pode nascer, desenredar-se
de uma folha e encher-nos até derramarmos
a terra, como velhos cântaros enterrados!
“Quilas”
Entre as folhas retas que não sabem sorrir
encondes teu plantel de lanças clandestinas.
Tu não esqueceste.
Quando passo por tua folhagem
murmura a dureza, e despertam palavras
que ferem, sílabas que amamentam espinhos.
Tu não esqueces.
Eras argamassa molhada
com sangue, eras a coluna da casa e a guerra,
eras bandeira, teto de minha mãe araucana,
espada do guerreiro silvestre, Araucania
eriçada de flores que feriram e mataram.
Asperamente escondes as lanças que fabricas
e que conhece o vento da região selvagem,
a chuva, a águia dos bosques queimados,
e o sutil habitante recém-despossuído.
Talvez, talvez: não digas a ninguém o teu segredo.
Guarda para mim uma lança silvestre, ou madeira
de uma flecha.
Eu tampouco esqueci.
“Drimis Winterei”
Plantas sem nome, folhas
e cordas montanhosas,
ramos tecidos de ar verde, fios
recém-bordados, ganchos de metais escuros,
inumerável flora coronária
da umidade, do vasto vapor, da água imensa.
E entre toda a forma que buscou este entrelaçado,
entre estas folhas cujo molde intacto
equilibrou na chuva seu prodígio,
ó árvore, despertaste como um trovão
e em tua copa povoada por toda a verdura
adormeceu como um pássaro o inverno.
X
Zonas frias
Termo abandonado! Linha louca
em que a fogueira ou o cardo enfurecido
formam capas de azul eletrizado.
Pedras batidas por
agulhas do cobre, estradas
de material silêncio, ramos mergulhados
no sal das pedras.
Aqui estou, aqui estou,
boca humana entregue ao passo pálido
de um tempo detido como taça ou cadeira,
central presídio de água sem saída,
árvore de corporal flor derrubada,
unicamente surda e brusca areia.
Pátria minha, terrestre e cega como
nascidos aguilhões da areia, para ti toda
a fundação de minha alma, para ti as perpétuas
pálpebras de meu sangue, e de volta
o meu prato de papoulas.
Dá-me de noite, em meio às plantas terrestres,
a hostil rosa de orvalho que dorme em tua bandeira,
dá-me de lua ou de terra teu pão polvilhado
com teu temível sangue escuro:
sob a tua luz de areia
não há mortos, mas longos ciclos de sal, azuis
ramos de misterioso metal morto.
XI
“Chercanes”
Gostaria que não desconfiásseis: é verão,
a água me regou c levantou um desejo
como um ramo, um canto meu me mantém
como um tronco enrugado, com certas cicatrizes.
Minúsculos, amados, vinde a minha cabeça.
Aninhai em meus ombros nos quais passeia
o fulgor de um lagarto, em meus pensamentos
sobre os quais caíram tantas folhas,
ó círculos pequenos da doçura, grãos
de alado cereal, ovozinho emplumado,
formas puríssimas em que o olho
certeiro dirige vôo e vida,
aqui, aninhai em minha orelha, desconfiados
e diminutos: ajudai-me:
quero ser mais pássaro cada dia.
“Loica”
Perto de mim, sangrenta, mas ausente.
Com tua máscara cruel e teus olhos guerreiros,
Entre os torrões, saltando de um tesouro
Para outro, na plenitude pura e selvagem.
Conta-me como entre todas,
Em nossos matagais que a chuva
Tingiu com seus lamentos, como, só,
Teu peitilho recolhe todo o carmim do mundo?
Ai, és polvilhada pelo rubro verão,
Entraste na gruta do pólen escarlate
E tua mancha recolhe todo o fogo
E tua mancha recolhe todo o fogo.
E a este olhar mais que ao firmamento
E à noite nevada em seu baluarte andino
Quando abre o leque de cada dia, nada
A detém: só a tua sarça
Que continua ardendo sem queimar a terra.
“Chucao”
Na fria folhagem multiplicada, de súbito
A voz do chucao como se ninguém existisse
A não ser esse grito de toda a solidão unida,
Como essa voz de todas as árvores molhadas.
Passou a voz a tremer e escura sobre o meu cavalo,
mais lenta e mais profunda que um vôo: parei,
onde estava? Que dias eram aqueles?
Tudo o que vivi galopando naquelas
Estações perdidas, no mundo da chuva
Nas janelas, o puma na intempérie
Rondando com duas pontas de fogo sangüinário,
E o mar dos canis, entre túneis verdes
De empapada formosura, a solidão, o beijo
Da que amei mais jovem sob as aveleiras,
Tudo surgiu de súbito quando na selva o grito
Do chucao com as suas sílabas úmidas.
XII
Botânica
O sanguinário litre e o benéfico boldo
disseminam seu estilo
em irritantes beijos de animal esmeralda
ou antologias de águas escuras entre as pedras.
A gomeleira no cimo da árvore estabelece
sua dentadura nívea
e a selvagem aveleira constrói seu castelo
de páginas e gotas.
A artemísia e a chépica rodeiam
os olhos do orégano
e o radiante louro da fronteira
perfuma as longínquas intendências.
Quila e quelenquelén das manhãs.
Idioma frio das fúcsias,
que se vai por pedras tricolores
gritando viva o Chile com a espuma!
O dedal de ouro espera
os dedos da neve
e roda o tempo sem seu matrimônio,
que uniria os anjos do fogo e do açúcar.
A caneleira mágica
lava na chuva sua racial ramagem,
e precipita os seus lingotes verdes
sob a vegetal água do sul.
A doce aspa do olmo
com fanegas de flores
sobe as gotas do copihue rubro
para conhecer o sol das guitarras.
A agreste delgadilla
e o celestial poejo
bailam nos prados com o jovem orvalho
recentemente armado pelo rio Toltén.
A indecifrável doca
decapita a sua purpura na areia
e conduz seus triângulos marinhos
até as secas luas litorais.
A brunida papoula,
relâmpago e ferida, dardo e boca,
sobre o trigo queimante
põe as suas pontuações escarlates.
A tiliácea evidente
condecora os seus mortos
e tece suas famílias
com águas mananciais e medalhas de rio.
O paico arranja lâmpadas
no clima do sul, desamparado,
quando vem a noite
do mar jamais adormecido.
O roble dorme sozinho,
muito vertical, muito pobre, muito mordido,
muito decisivo no prado puro
com a sua roupa de maltrapilho maltratado
e sua cabeça cheia de solenes estrelas.
XIII
Araucária
Todo o inverno, toda a batalha,
todos os ninhos do molhado ferro,
em tua firmeza atravessada de aragem,
em tua cidade silvestre se levantam.
O cárcere renegado das pedras,
os fios submersos do espinho,
fazem de tua aramada cabeleira
um pavilhão de sombras minerais.
Pranto eriçado, eternidade da água,
monte de escamas, raio de ferraduras,
tua atormentada casa se constrói
com pétalas de pura geologia.
O alto inverno beija a tua armadura
e te cobre de lábios destruídos:
a primavera de violento aroma
rompe a tua sede em tua implacável estátua:
e o grave outono espera inutilmente
derramar ouro em tua estatura verde.
XIV
Tomás Lago
Outras pessoas se deitaram entre as páginas dormindo
como insetos elzevirianos, entre eles
foram disputados certos livros recém-impressos
como no futebol, marcando gols de sabedoria.
Nós então cantamos na primavera
junto aos rios que arrastam pedras dos Andes,
e estávamos entrançados com nossas mulheres sorvendo
mais de uma colméia, devorando até o enxofre do mundo.
E não só isso mas muito mais: compartilhamos
a vida com humildes amigos que amamos,
e que nos ensinaram com as flechas do vinho
o alfabeto honrado da aldeia, o repouso
dos que conseguiram na dureza
sair cantando.
Ó dias em que juntos
visitamos a cova e os tugúrios,
destroçamos as teias de aranha, e nas margens
do sul sob a noite e sua argamassa
removida viajamos:
tudo era flor e pátria passageira,
tudo era chuva e material do fumo.
Que longa estrada caminhamos, detendo
o passo nas pousadas, dirigindo
nossa atenção a um extremo crepúsculo, a uma pedra,
a uma parede escrita por um carvão, a um grupo
de foguistas que de repente
nos ensinaram todas as canções do inverno.
Mas não só a lagarta andava camaleando,
em nossas janelas, banhada em celulose,
cada vez mais celestial em seu papel de culto,
mas também o ferruginoso, o iracundo, o vaqueiro
que nos queria cobrar com duas pistolas no peito,
ameaçando devorar as nossas mães
e empenhar nossos bens
(chamando a tudo isso heroísmo e outras coisas).
Nós os deixamos passar a olhá-los, não puderam
arrancar-nos uma casca, amolecer um ganido,
e cada um se foi a seu túmulo,
de jornais europeus ou pesos bolivianos.
Nossas lâmpadas continuam acesas, ardendo
mais altas que o papel e que os foragidos.
Rubén Azócar
Para as ilhas!, dissemos.
Eram dias de confiança
e estávamos sustentados por árvores ilustres:
nada nos parecia longe, tudo podia enredar-se
dum momento para outro na luz que produzíamos.
Chegamos com sapatos de couro grosso: chovia,
chovia nas ilhas, assim se mantinha o território
como uma mão verde, como luva
cujos dedos flutuavam
entre as algas vermelhas.
Enchemos de tabaco o arquipélago, fumávamos
até tarde no Hotel Nilsson, e disparávamos
ostras frescas para todos os pontos cardeais.
A cidade tinha uma fábrica religiosa
de cujas portas grandes, na tarde inanimada,
saía como um longo coleóptero um desfile
negro de sotainazinhas sob a triste chuva:
acudíamos a todos os borgonhas, enchíamos
o papel com os signos de uma dor hieróglifa.
Eu me evadi de repente: por muitos anos, distante,
em outros climas que acaudalaram minhas paixões
recordei as barcas sob a chuva, contigo,
que ali ficavas para que as tuas grandes sobrancelhas
lançassem suas raízes molhadas sobre as ilhas.
Juvencio Valle
Juvencio, ninguém sabe como tu e eu o segredo
do bosque de Boroa: ninguém
conhece certas veredas de terra avermelhada
sobre as quais acorda a luz da aveleira.
Quando as pessoas não nos ouvem não sabem
que ouvimos chover sobre árvores e tetos
de zinco, e que ainda amamos a telegrafista,
aquela, aquela moça que como nós
conhece o grito fundido das locomotivas
de inverno, nas comarcas.
Só tu, silencioso,
entraste no aroma que a chuva despenca,
incitaste o aumento dourado da flora,
recolheste o jasmim antes que ele nascesse.
O barro triste, defronte dos armazéns,
o barro triturado pelas graves carretas
como a negra argila de certos sofrimentos,
está (quem o sabe como tu?) derramado
por trás da profunda primavera.
Também
temos em segredo outros tesouros:
folhas que como línguas escarlates
cobrem a terra, e pedras suavizadas
pela torrente, pedras dos rios.
Diego Muñoz
Nós só nos defendemos, assim parece, com descobrimentos
e signos estendidos no papel tempestuoso,
mas que, capitães, corrigimos
a murros a rua maligna
e logo entre acordeões elevamos
o coração com águas e cordames.
Marinheiro, já regressaste de teus portos
de Guayaquil, odores de frutas poeirentas,
e de toda a terra um sol de aço
que te fez derramar vitoriosas espadas.
Hoje sobre os carvões da pátria chegou
uma hora - dores e amor - que compartilhamos,
e do mar sobressai sobre tua voz o fio
de uma fraternidade mais vasta que a terra.
XV
Ginete na chuva
Fundamentais águas, paredes de água, trevo
e aveia combatida,
cordoagens já unidas na rede duma noite
úmida, gotejante, selvagemente fiada,
gota desgarradora repetida no lamento,
cólera diagonal cortando o céu.
Galopam os cavalos de perfume empapado,
sob a água, golpeando a água, nela intervindo
com suas ramagens rubras de pelo, pedra e água:
e o vapor acompanha como um leite louco
a água endurecida com fugazes pombas.
Não há dia mas apenas as cisternas
do clima duro, do verde movimento
e as patas atam veloz terra c transcurso
entre bestial aroma de cavalo com chuva.
Mantas, montarias, xairéis agrupados
em sombrias romãs sobre os
ardentes lombos de enxofre que golpeiam
a selva decidindo-a.
Mais além, mais além, mais além, mais além,
mais além, mais além, mais além, mais alééééém,
os ginetes despencam a chuva, os ginetes
passam sob as aveleiras amargas, a chuva
torce em trêmulos raios seu trigo sempiterno.
Há luz da água, relâmpago confuso
derramado na folha, e do mesmo som do galope
sai uma água sem vôo, ferida pela terra.
Úmida rédea, abóbada enramada,
passos de passos, vegetal noturno
de estrelas rotas como gelo ou lua, ciclônico cavalo
coberto pelas flechas como um gelado espectro,
cheio de novas mãos nascidas na fúria,
golpeante maçã rodeada pelo medo
e sua grande monarquia de temível estandarte.
XVI
Mares do Chile
Em longínquas regiões
teus pés de espuma, tua esparzida praia
reguei com pranto desterrado e louco.
,
Hoje a tua boca venho, hoje a teu rosto.
Não ao coral sanguinário, não à queimada estrela,
nem às incandescentes e despencadas águas
entreguei o respeitoso segredo, nem a sílaba.
Guardei a tua voz enfurecida, uma pétala
de tutelar areia
entre os móveis e as velhas roupas.
Um pó de sinos, uma rosa molhada.
E muitas vezes era a água própria
de Arauco, a água dura:
mas eu conservava minha pedra submersa
c nesta, o palpitante som da tua sombra.
Ó mar do Chile, ó água
alta e cingida como aguda fogueira,
pressão e sonho e unhas de safira,
ó terremoto de sal e leões!
Vertente, origem, costa
do planeta, tuas pálpebras
abrem o meio-dia da terra
atacando o azul das estrelas!
O sal e o movimento se desprendem de ti
e repartem oceano às grutas do homem
até que além das ilhas teu peso
parte-se e estende um ramo de substâncias totais.
Mar do deserto norte, mar que fere o cobre
e adianta a espuma para a mão
do áspero habitante solitário,
entre alcatrazes, rochas de frio e esterco,
costa queimada ao passo de uma aurora desumana!
Mar de Valparaíso, onda
de luz sozinha e noturna,
janela do oceano
a que se assoma
a estátua de minha pátria
a ver com os olhos ainda cegos.
Mar do sul, mar oceano,
mar, lua misteriosa,
em Imperial aterrador de robles,
em Chiloé ao sangue assegurado
e de Magalhães ao limite
todo o silvo do sal, toda a lua louca,
e o estelar cavalo sem freio do gelo.
XVII
Ode de inverno ao rio Mapocho
Ó, sim, neve imprecisa.
Ó, sim, tremulando em plena flor de neve.
pálpebra boreal, pequeno raio gelado
quem, quem té chamou até o acinzentado vale,
quem, quem te arrastou desde o pico da águia
até onde as tuas puras águas tocam
os terríveis farrapos de minha pátria?
Rio, por que conduzes
água fria e secreta,
água que a alba dura das pedras
guardou em sua catedral inacessível,
até os pés feridos de meu povo?
Torna, torna à tua taça de neve, rio amargo,
torna, torna à tua taça de espaçosas escarchas,
submerge a tua prateada raiz em tua secreta origem
ou despenha-te e arrebenta-te em outro mar sem lágrimas!
Rio Mapocho quando a noite chega
e como negra estátua tombada
dorme sob as tuas pontes como um cacho negro
de cabeças batidas pelo frio e pela fome
como por duas imensas águias, ó rio,
ó duro rio parido pela neve,
por que não te ergues como imenso fantasma
ou como nova cruz de estrelas para os esquecidos?
Não, a tua rápida cinza corre agora
junto ao soluço lançado à água negra,
junto à manga rota que o vento endurecido
faz tremer sob as folhas do ferro.
Rio Mapocho, aonde levas
plumas de gelo para sempre feridas,
sempre junto à tua encardida ribeira
a flor selvagem nascerá mordida pelos piolhos
e a tua língua de frio raspará as faces
de minha pátria desnuda?
Oh, que não seja isso,
oh, que não seja, e que uma gota de tua espuma negra
salte da lama à flor do fogo
e precipite a semente do homem!
1 419
Pablo Neruda
Manhã - VII
“Virás comigo”, disse, sem que ninguém soubesse
onde e como pulsava meu estado doloroso
e para mim não havia cravo nem barcarola,
nada senão uma ferida pelo amor aberta.
Repeti: vem comigo, como se morresse,
e ninguém viu em minha boca a lua que sangrava,
ninguém viu aquele sangue que subia ao silêncio.
Oh amor, agora esqueçamos a estrela com pontas!
Por isso quando ouvi que tua voz repetia
“Virás comigo”, foi como se desatasses
dor, amor, a fúria do vinho encarcerado
que de sua cantina submergida soubesse
e outra vez em minha boca senti um sabor de chama,
de sangue e cravos, de pedra e queimadura.
onde e como pulsava meu estado doloroso
e para mim não havia cravo nem barcarola,
nada senão uma ferida pelo amor aberta.
Repeti: vem comigo, como se morresse,
e ninguém viu em minha boca a lua que sangrava,
ninguém viu aquele sangue que subia ao silêncio.
Oh amor, agora esqueçamos a estrela com pontas!
Por isso quando ouvi que tua voz repetia
“Virás comigo”, foi como se desatasses
dor, amor, a fúria do vinho encarcerado
que de sua cantina submergida soubesse
e outra vez em minha boca senti um sabor de chama,
de sangue e cravos, de pedra e queimadura.
1 172
Pablo Neruda
Tarde - LXIV
De tanto amor minha vida se tingiu de violeta
e fui de rumo em rumo como as aves cegas
até chegar a tua janela, amiga minha:
tu sentiste um rumor de coração quebrado
e ali da escuridão me levantei a teu peito,
sem ser e sem saber fui à torre do trigo,
surgi para viver entre tuas mãos,
me levantei do mar a tua alegria.
Ninguém pode contar o que te devo, é lúcido
o que te devo, amor, e é como uma raiz
natal de Araucânia, o que te devo, amada.
É sem dúvida estrelado tudo o que te devo,
o que te devo é como o poço de uma zona silvestre
onde guardou o tempo relâmpagos errantes.
e fui de rumo em rumo como as aves cegas
até chegar a tua janela, amiga minha:
tu sentiste um rumor de coração quebrado
e ali da escuridão me levantei a teu peito,
sem ser e sem saber fui à torre do trigo,
surgi para viver entre tuas mãos,
me levantei do mar a tua alegria.
Ninguém pode contar o que te devo, é lúcido
o que te devo, amor, e é como uma raiz
natal de Araucânia, o que te devo, amada.
É sem dúvida estrelado tudo o que te devo,
o que te devo é como o poço de uma zona silvestre
onde guardou o tempo relâmpagos errantes.
1 232
Pablo Neruda
As feridas
Foi talvez a ofensa do amor escondido e talvez a incerteza, a dor vacilante,
o temer à ferida que não somente tua pele e minha pele transpassasse,
mas que chegasse a instalar uma lágrima áspera nas
pálpebras da que me amou,
o certo é que já não tínhamos nem céu nem sombra nem ramo de vermelha ameixeira com fruto e orvalho
e só a ira dos becos que não têm portas entrava e saía em minha alma
sem saber onde ir nem voltar sem matar ou morrer.
o temer à ferida que não somente tua pele e minha pele transpassasse,
mas que chegasse a instalar uma lágrima áspera nas
pálpebras da que me amou,
o certo é que já não tínhamos nem céu nem sombra nem ramo de vermelha ameixeira com fruto e orvalho
e só a ira dos becos que não têm portas entrava e saía em minha alma
sem saber onde ir nem voltar sem matar ou morrer.
1 253
Pablo Neruda
Meio-Dia - XXXV
Tua mão foi voando de meus olhos ao dia.
Entrou a luz como uma roseira aberta.
Areia e céu palpitavam como uma
culminante colmeia cortada nas turquesas.
Tua mão tocou sílabas que tilintavam, taças,
almotolias com azeites amarelos,
corolas, mananciais e, sobretudo, amor,
amor: tua mão pura preservou as colheres.
A tarde foi. A noite deslizou sigilosa
sobre o sonho do homem sua cápsula celeste.
Um triste olor selvagem soltou a madressilva.
E tua mão voltou de seu voo voando
a fechar sua plumagem que eu julguei perdida
sobre meus olhos devorados pela sombra.
Entrou a luz como uma roseira aberta.
Areia e céu palpitavam como uma
culminante colmeia cortada nas turquesas.
Tua mão tocou sílabas que tilintavam, taças,
almotolias com azeites amarelos,
corolas, mananciais e, sobretudo, amor,
amor: tua mão pura preservou as colheres.
A tarde foi. A noite deslizou sigilosa
sobre o sonho do homem sua cápsula celeste.
Um triste olor selvagem soltou a madressilva.
E tua mão voltou de seu voo voando
a fechar sua plumagem que eu julguei perdida
sobre meus olhos devorados pela sombra.
1 324
Pablo Neruda
Noite - LXXXI
Já és minha. Repousa com teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite sobre suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura como o âmbar dormido.
Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma viajará pela sombra comigo,
só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.
Já tuas mãos abriram os punhos delicados
e deixaram cair suaves sinais sem rumo
teus olhos se fecharam como duas asas cinzas,
enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
a noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite sobre suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura como o âmbar dormido.
Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma viajará pela sombra comigo,
só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.
Já tuas mãos abriram os punhos delicados
e deixaram cair suaves sinais sem rumo
teus olhos se fecharam como duas asas cinzas,
enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
a noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho.
1 282
Pablo Neruda
Final
Matilde, anos ou dias
dormidos, febris,
aqui ou ali,
cravando,
rompendo a espinha dorsal,
sangrando sangue verdadeiro,
despertando talvez
o perdido, dormido:
camas clínicas, janelas estrangeiras,
vestidos brancos
das sigilosas,
o torpor nos pés.
Depois estas viagens
e o meu mar de novo:
tua cabeça na cabeceira,
na luz
tuas mãos voadoras,
na minha luz,
sobre minha terra.
Foi tão belo viver
quando vivias!
O mundo é mais azul
e mais terrestre de noite,
quando durmo,
enorme, dentro de tuas breves mãos.
dormidos, febris,
aqui ou ali,
cravando,
rompendo a espinha dorsal,
sangrando sangue verdadeiro,
despertando talvez
o perdido, dormido:
camas clínicas, janelas estrangeiras,
vestidos brancos
das sigilosas,
o torpor nos pés.
Depois estas viagens
e o meu mar de novo:
tua cabeça na cabeceira,
na luz
tuas mãos voadoras,
na minha luz,
sobre minha terra.
Foi tão belo viver
quando vivias!
O mundo é mais azul
e mais terrestre de noite,
quando durmo,
enorme, dentro de tuas breves mãos.
1 393
Pablo Neruda
Tarde - LXXIII
Recordarás talvez aquele homem afilado
que da escuridão saiu como uma faca
e, antes de que soubéssemos, sabia:
viu a fumaça e decidiu que vinha do fogo.
A pálida mulher de cabeleira negra
surgiu como um peixe do abismo
e entre os dois alçaram ao encontro do amor
uma máquina armada de dentes numerosos.
Homem e mulher talaram montanhas e jardins,
desceram aos rios, ascenderam pelos muros,
subiram pelos montes sua atroz artilharia.
O amor soube então que se chamava amor.
E quando levantei meus olhos a teu nome
teu coração logo dispôs de meu caminho.
que da escuridão saiu como uma faca
e, antes de que soubéssemos, sabia:
viu a fumaça e decidiu que vinha do fogo.
A pálida mulher de cabeleira negra
surgiu como um peixe do abismo
e entre os dois alçaram ao encontro do amor
uma máquina armada de dentes numerosos.
Homem e mulher talaram montanhas e jardins,
desceram aos rios, ascenderam pelos muros,
subiram pelos montes sua atroz artilharia.
O amor soube então que se chamava amor.
E quando levantei meus olhos a teu nome
teu coração logo dispôs de meu caminho.
1 029
Pablo Neruda
Canto VIII - A terra se chama Juan
I
Cristóbal Miranda
(“palero”, Tocopilla)
Te conheci, Cristóbal, nas lanchas
da baía, quando desce
o salitre, para o mar, na queimante
vestimenta de um dia de novembro.
Relembro aquele garbo extático,
os cerros de metal, a água quieta.
E só o homem das lanchas, úmido
de suor, removendo neve.
Neve dos nitratos, derramada
sobre os ombros da dor, caindo
na barriga cega das naves.
Ali, sapadores, heróis de uma aurora
carcomida por ácidos, sujeita
aos destinos da morte, firmes,
recebendo o nitrato caudaloso.
Cristóbal, esta lembrança para ti.
Para os camaradas da sapa,
em cujos peitos entra o ácido
e as emanações assassinas,
inchando como águias machucadas
os corações, até que tomba o homem,
até que role o homem pelas ruas,
para as cruzes quebradas do pampa.
Bem, não digamos mais nada, Cristóbal, agora
este papel que te recorda, a todos,
aos lancheiros da baía, ao homem
enegrecido dos barcos, meus olhos
seguem com vocês nesta jornada
e minha alma é uma pá que se ergue
carregando e descarregando sangue e neve,
junto de vocês, vida do deserto.
II
Jesús Gutiérrez
(“agrarista”)
Em Monterrey morreu meu pai
Genovevo Gutiérrez, se foi
com Zapata.
De noite os cavalos
perto de casa, a fumaça
dos federais, os tiros no vento,
o furacão que sai do milho,
levei o fuzil de lado a lado,
desde as terras de Sonora,
dormíamos de vez em quando, medíamos
rios e bosques, a cavalo,
entre mortos, a defender
a terra do pobre, feijões,
omelete, guitarra, rolávamos
até o limite, éramos pó,
os senhores nos faziam madrugar,
até que de cada pedra
nasciam os nossos fuzis.
Aqui está minha casa, minha terra
pequena, o certificado
firmado por meu general
Cárdenas, os perus,
os patinhos na lagoa,
agora já não se luta,
meu pai ficou em Monterrey
e aqui pendurado na parede
junto à porta a cartucheira,
o fuzil pronto, o cavalo pronto,
pela terra, por nosso pão,
amanhã talvez a galope,
se o meu general me aconselha.
III
Luis Cortés
(de Tocopilla)
Camarada, meu nome é Luis Cortés.
Quando veio a repressão, em Tocopilla
me agarraram.
Me atiraram em Pisagua.
Você, camarada, sabe como é isso.
Muitos caíram doentes, outros
enlouqueceram.
É o pior
campo de concentração de González
Videla.
Vi Ángel Veas morrer,
do coração, uma manhã.
Foi horrível
ver Veas morrer nessa areia assassina,
rodeado de cercas de arame, depois de toda
sua vida generosa.
Quando me senti doente
também do coração, me mudaram
para Garitaya.
Você não conhece, camarada.
É lá no alto, na fronteira com a Bolívia.
Um ponto desolado, a 5000 metros de altura.
Há uma água salobre para beber, mais
salobre que a água do mar, e cheia de pulgões
como vermes rosados que pululam.
Faz frio e parece que o céu em cima
da solidão vai cair sobre nós,
sobre meu coração que já mal se agüenta.
Os próprios carabineiros tiveram pena
e contra a ordem de deixar a gente morrer
sem querer nunca mandar uma maca,
me amarraram a uma mula e descemos as montanhas:
26 horas caminhou a mula, e meu corpo
já não resistia, camarada, entre a cordilheira sem caminhos,
e meu coração doente, e aqui estou eu, olhe
os machucados, não sei até quando vou viver,
mas você sente, não quero pedir nada,
conte você, camarada, o que faz ao povo o desgraçado,
a nós que o levamos à altura em que ri
com um riso de hiena em cima de nossas dores,
conte, você, camarada, conte, conte, pouco importa minha morte,
nem os nossos sofrimentos, pois a nossa luta é grande,
mas que fiquem sabendo destes sofrimentos,
que fiquem sabendo, camarada, não se esqueça.
IV
Olegario Sepúlveda
(sapateiro, Talcahuano)
Olegario Sepúlveda é meu nome.
Sou sapateiro, fiquei
coxo desde o grande terremoto.
Sobre o cortiço um pedaço de morro
e o mundo em cima de minha perna.
Lá gritei dois dias,
mas minha boca ficou cheia de terra,
gritei mais mansamente
até que adormeci para morrer.
Foi um grande silêncio o terremoto,
o terror dos morros,
as lavadeiras choravam,
uma montanha de pó
enterrou as palavras.
Aqui está me vendo com esta sola
defronte do mar, o único limpo,
as ondas nem eram pra chegar
azuis na minha porta.
Talcahuano, tuas grades sujas,
teus corredores de pobreza,
nos morros água podre,
madeira quebrada, covas negras
onde o chileno mata e morre.
(Ó dores do fio aberto
da miséria, lepra do mundo,
arrabalde dos mortos, gangrena
acusadora e venenosa!
Haveis vindo do sombrio
Pacífico, à noite, ao porto?
Haveis tocado entre as pústulas
a mão do menino, a rosa
salpicada de sangue e urina?
Haveis erguido os olhos
para os degraus retorcidos?
Haveis visto a mendiga
com um arame na lixeira
tremer, levantar os joelhos
e olhar lá do fundo onde
já não restam lágrimas nem ódio?)
Sou sapateiro em Talcahuano.
Sepúlveda, na frente do dique Grande.
Quando quiser, meu senhor, pobre
nunca fecha a porta.
V Arturo Carrión
(navegante, Iquique)
junho, 1948.
Querida Rosaura, aqui
estou eu, em Iquique, preso, me mande uma camisa
e fumo.
Não sei
até quando vai durar este baile.
Quando embarquei no Glenfoster
pensei em você, escrevi de Cádiz,
ali fuzilaram à vontade, e aí foi mais
triste em Atenas, naquela manhã
no cárcere mataram com tiro
duzentos e setenta e três moços:
o sangue corria até fora do muro,
vimos saírem os oficiais
gregos com os chefes norte-americanos, vinham rindo:
eles gostam do sangue do povo,
mas tinha um espécie de fumo preto
na cidade, estava escondido o choro, a dor, o luto,
comprei pra você uma carteira de cartões de visita, lá
conheci um patrício de Chiloé,
tem um pequeno restaurante, me disse
as coisas andam ruíns, há ódio:
mas ficou melhor na Hungria,
os camponeses têm terra,
distribuem livros, em Nova York
encontrei tua carta, mas todos
se juntam, pau e pau no pobre,
está vendo só, eu, marinheiro velho
e porque sou do sindicato,
já na coberta
me pegaram, me perguntaram
besteiras, me deixaram preso,
polícia em toda parte.
lágrimas também no pampa:
até quando estas coisas
vão continuar, perguntam todos, hoje é um
e outro pau para o pobre,
dizem que em Pisagua há dois mil,
eu pergunto o que está acontecendo no mundo,
mas não se tem direito de perguntar
assim, diz a polícía: não esqueça o fumo, fale com o Rojas
se ele não está preso, não chores,
o mundo já tem lágrimas
demais, outra coisa é que faz falta
e aqui digo até breve pra você, um
abraço e um beijo do esposo amoroso
Arturo Carrión Cornejo, cárcere de Iquiyue.
VI
Abraham Jesús Brito
(poeta popular)
Jesús Brito é seu nome, Jesús Parreira ou povo,
e foi-se fazendo água pelos olhos,
e pelas mãos se foi fazendo raízes.
até que o plantaram de novo onde esteve
antes de ser, antes que brotasse
do território, entre as pedras pobres.
E foi entre mina e marinheiro uma ave
nodosa, um patriarcal seleiro
da cortiça suave da pátria terrível:
quanto mais fria, mais luz a encontrava:
quanto mais duro o solo, mais lua lhe saía:
quanto mais fome, mais cantava.
E todo o mundo ferroviário abria
com sua chave e sua lira sarmentosa,
e pela espuma da pátria caminhava
cheio de pacotinhos estrelados,
ele, a árvore do cobre, ia regando
cada pequeno trevo acontecido,
o espantoso crime, o incêndio,
e o ramo dos rios tutelares.
Sua voz era a dos gritos roucos
perdidos na noite dos raptos,
ele levava sinos torrenciais
recolhidos à noite em seu chapéu,
e recolhia em seu casaco esfarrapado
as transbordantes lágrimas do povo.
Ia pelos ramais arenosos,
pelo espaço afundado do salitre,
pelos ásperos montes litorâneos
construindo o romance prego a prego,
e telha a telha levantando o verso:
deixando nele a mancha das mãos
e as goteiras da ortografia.
Brito, pelas paredes capitais,
entre o rumor dos cafés,
andavas como uma árvore peregrina
procurando terra com os pés profundos,
até que foste te fazendo raízes,
pedra e torrão e mineração escura.
Brito, a tua majestade foi batida
como um tambor de majestoso couro
e era uma monarquia à intempérie
a tua altivez de arvoredo e povo.
Árvore errante, agora as tuas raízes
cantam debaixo da terra, e em silêncio.
Um pouco mais profundo és agora.
Agora tens terra e tens tempo.
VII
Antonino Bernales
(pescador, Colômbia)
No rio Magdalena anda como a lua,
lento pelo planeta de folhas verdes,
uma ave vermelha ulula, zumbe o som
de velhas asas negras, as margens
têm o transcorrer de águas e águas.
Tudo ê o rio, toda vida é rio,
e Antonino Bernales era rio.
Pescador, carpinteiro, voga, agulha
de rede, prego para as tábuas,
martelo e canto, tudo era Antonino
enquanto o Magdalena como a lua lenta
arrastava o caudal das vidas do rio.
Mais alto em Bogotá, chamas, incêndio,
sangue, se diz, não é bem claro,
Gaytán morreu.
Entre as folhas
como um chacal o riso de Laureano
açula as fogueiras, um tremor
de povo como um calafrio
percorre o Magdalena.
É Antonino Bernales o culpado.
Não se mexeu de sua pequena choça.
Passou dormindo aqueles dias.
Mas os advogados o intimam,
Enrique Santos deseja sangue.
Unem-se todos debaixo dos fraques.
Antonino Bernales tombou
assassinado na vingança,
caiu abrindo os braços no rio,
voltou ao rio como à água mãe.
O Magdalena leva ao mar seu corpo
e do mar a outros rios, a outras águas
e a outros mares e a outros pequenos rios
girando em redor da terra.
Outra vez
entra no Magdalena, são as margens
que ele ama, abre os braços de água vermelha,
passa entre sombras, entre luz espessa,
e outra vez segue o seu caminho de água.
Antonino Bernales, ninguém pode
distinguir-te na torrente, eu sim, eu te recordo
e ouço arrastar teu nome que não pode
morrer, e que envolve a terra,
nome apenas, entre os nomes, povo.
VIII
Margarita Naranjo
(Salitreira María Elena, Antofagasta)
Estou morta.
Sou de María Elena.
Vivi a vida toda no pampa.
Demos o sangue para a companhia
norte-americana, meus pais antes, meus irmãos.
Sem greve nenhuma, sem nada, nos cercaram.
Era de noite, veio todo o Exército,
iam de casa em casa acordando a gente,
levando todos para o campo de concentração.
Eu esperava que nós não fôssemos.
Meu marido trabalhou tanto para a companhia,
e para o presidente, foi o mais esforçado,
conseguindo os votos aqui, é tão querido,
ninguém tem nada pra dizer dele, ele luta
por seus ideais, é puro e honrado
como poucos.
Aí chegaram à nossa porta,
mandados pelo Coronel Urízar,
e o pegaram ainda se vestindo e a empurrões
o lançaram no caminhão que partiu na noite,
para Pisagua, para a escuridão.
Então
achei que já não podia mais respirar, parecia
que a terra me faltava debaixo dos pés,
é tanta traição, tanta injustiça,
que me subiu à garganta algo como um soluço
que não me deixou mais viver.
Me trouxeram comida
as companheiras, e eu lhes disse: “Não comerei até que ele volte”.
Três dias depois falaram com o Sr.
Urízar,
que deu grandes gargalhadas, mandaram
telegramas e telegramas que o tirano em Santiago
não respondeu.
E eu fui dormindo e morrendo,
sem comer, apertei os dentes para não receber
nem mesmo sopa ou água.
Não voltou, não voltou,
e pouco a pouco fiquei morta, e me enterraram:
aqui, no cemitério do escritório salitreiro,
havia naquela tarde um vento de areia,
choravam os velhos e as mulheres cantavam
as canções que tantas vezes cantei com elas.
Se eu pudesse, teria espiado para ver se lá estava
Antonio, meu marido, mas não estava, não estava,
não o deixaram vir nem a minha morte: agora
aqui estou morta, no cemitério do pampa
só tenho a solidão ao redor de mim, que já não existo,
que já não existirei sem ele, nunca mais, sem ele.
IX
José Cruz Achachalla
(mineiro, Bolívia)
Sim, senhor, José Cruz Achachalla,
da serra de Granito, no sul de Oruro.
Pois lá deve viver ainda
minha mãe Rosalía:
trabalha para uns senhores,
pois é, lavando roupa.
A gente passava fome, capitão,
e com uma varinha batiam
em minha mãe todos os dias.
Por isso virei mineiro.
Fugi pelas grandes serras,
uma folhinha de coca, senhor,
uns ramos na cabeça
e andar, andar, andar.
Os abutres
me perseguiam lá do céu,
e eu pensava: são melhores
que os senhores brancos de Oruro,
e assim andei até o território
das minas.
Já faz
quarenta anos, eu era então
um menino faminto.
Os mineiros
me receberam.
Fui aprendiz
nas galerias escuras,
unha por unha contra a terra,
apanhei o estanho escondido.
Não sei aonde nem pra quê
saem os lingotes prateados:
vivemos mal, as casas em ruínas,
e a fome, outra vez, senhor,
e quando
a gente se juntava, capitão,
para mais um peso de salário,
o vento vermelho, o pau, o fogo,
a polícia nos batia,
e aqui estou, pois é, capitão,
despedido do serviço,
me diga pra onde eu vou,
ninguém me conhece em Oruro,
estou velho como as pedras,
já não posso cruzar os montes,
que posso fazer por esses caminhos,
aqui mesmo agora eu fico,
podem me enterrar no estanho,
pois só o estanho me conhece.
José Cruz Achachalla, sim,
não continues a bater pernas,
até aqui chegaste, até aqui,
Achachalla, até aqui chegaste.
X
Eufrosino Ramírez
(Casa Verde, Chuquicamata)
Tínhamos de tomar as pranchas quentes
de cobre com as mãos, e entregá-las
à pá mecânica.
Saíam quase ardendo,
pesavam mais que o mundo, íamos extenuados
transportando as lâminas do mineral, às vezes
uma delas caía sobre um pé e o quebrava,
sobre uma mão que virava um coto.
Vieram os gringos e disseram: “Trabalhem
mais depressa e podem ir pra casa”.
A duras penas, pra sair mais cedo,
fizemos o trabalho.
Mas eles voltaram:
“Agora trabalhem menos, ganhem menos”.
Foi a greve na Casa Verde, dez semanas,
greve, e quando voltamos ao trabalho,
com um pretexto: onde está a tua ferramenta?
me atiraram na rua.
Olhe o senhor estas mãos,
é um calo só que o cobre fez,
escute meu coração, não parece
que dá pulos?, é o cobre que machuca,
e mal posso andar de um lugar pra outro,
procurando, faminto, serviço que não encontro:
parece que me enxergam agachado, levando
as folhas invisíveis do cobre que me mata.
XI
Juan Figueroa
(Casa do Iodo, María Elena, Antofagasta)
O senhor é Neruda? Entre, camarada.
É, da Casa do Iodo, já não existem
outros vivendo.
Eu me agüento.
Sei que não estou mais vivo, que me espera
a terra do pampa.
São quatro horas
por dia, na Casa do Iodo.
Chega por uns tubos, sai como uma massa,
como uma goma roxa.
Nós a passamos
de bateia em bateia, nós a envolvemos
como um recém-nascido.
Enquanto isso,
o ácido nos corrói, nos consome,
entrando pelos olhos, pela boca,
pela pele, pelas unhas.
Da Casa do Iodo ninguém sai
cantando, companheiro.
E se pedimos
mais uns pesos de salário
para os filhos sem sapatos,
dizem: “Moscou vai mandar”, camarada,
e declaram estado de sítio, e nos cercam,
como se a gente fosse uns animais e nos batem,
eles são assim, camarada, estes filhos da puta!
Aqui estou eu, já sou o último:
onde está Sánchez? onde está Rodríguez?
Podres debaixo do pó de Polvillo.
Afinal a morte deu a eles o que pedíamos:
seus rostos estão com máscaras de iodo.
XII
O mestre Huerta
(da mina A Desprezada, Antofagasta)
Quando o senhor for ao norte,
vá até a mina A Desprezada,
pergunte lá pelo mestre Huerta.
De longe não vai o senhor ver nada,
só os areais cinzentos.
Depois, verá as estruturas,
o corrimão, os desmontes.
Os cansaços, os sofrimentos
a gente não vê, estão debaixo da terra
mexendo, partindo seres,
ou então descansam, estendidos,
se transformando, silenciosos.
Era “picano” o mestre Huerta.
Media um metro e noventa e cinco.
Os picanos são os que abrem
o terreno até o desnível,
quando o veio se rebaixa.
Quinhentos metros abaixo,
com água até a cintura,
o picano, pica, pica, vai furando.
Só pode sair do inferno
cada quarenta e oito horas,
até que as perfuradoras
na rocha, na escuridão,
no barro, deixam a polpa
por onde a mina caminha.
O mestre Huerta, grande picano,
parecia que enchia a picada
com as suas costas.
Entrava
cantando como um capitão.
Saía gretado, amarelo,
encurvado, ressecado, e seus olhos
olhavam como olho de morto.
Depois se arrastou pela mina.
Já não podia descer à galeria.
O antimônio lhe comeu as tripas.
Emagreceu de dar medo.
Mas nem podia andar.
Tinha as pernas picadas
como por pontas, e como era
tão alto, parecia
um fantasma faminto
pedindo sem pedir, o senhor sabe.
Ainda não tinha trinta anos.
Pergunte onde está enterrado.
Ninguém sabe dizer,
porque a areia e o vento derrubam
e enterram as cruzes, mais tarde.
Ainda não tinha trinta anos.
É em cima, na Desprezada,
onde trabalhou o mestre Huerta.
XIII
Amador Cea
(de Coronel, Chile, 1949)
Como tinham detido meu pai
e entrou o presidente que elegemos
e disse que éramos livres, eu pedi que soltassem o meu velho.
Me levaram e me bateram um dia inteiro.
Não conheço ninguém no quartel.
Não sei, não posso
nem me lembrar das caras deles.
Era a polícia.
Quando perdia o sentido, me atiravam
água no corpo e continuavam batendo.
Numa tarde, antes de sair, me levaram
arrastado a um banheiro,
me enfiaram a cabeça dentro dum vaso
de WC cheio de excrementos.
Ia me afogando.
“Agora, vai pedir liberdade ao presidente,
que te manda este presente”, me diziam.
Me sinto arrebentado, me quebraram esta costela.
Mas por dentro estou como antes, camarada.
A gente eles só quebram matando.
XIV Benilda Varela
(Concepción, Cidade Universitária, Chile, 1949)
Arrumei a comida das criancinhas e saí.
Quis entrar em Lota para ver meu marido.
Como se sabe, mandam a polícia
e ninguém pode entrar sem sua licença.
Minha cara não agradou.
Eram ordens
de González Videla, antes de começar
a dizer seus discursos, para que nossa gente
tenha medo.
Foi assim: me agarraram,
me despiram, me atiraram ao chão com pancadas.
Perdi o sentido.
Acordei no chão
nua, com um lençol molhado sobre
o meu corpo em sangue.
Reconheci um verdugo:
chama-se Víctor Molina esse bandido.
Mal abri os olhos, continuaram me batendo
com pedaços de borracha.
Estou toda roxa
de sangue, e nem posso me mexer.
Eram cinco, e os cinco me espancavam
como um saco.
Durou seis horas isso.
Só não morri para dizer a vocês, camaradas:
temos de lutar muito mais, até que desapareçam
esses verdugos da face da terra.
Que os povos conheçam seus discursos
Na ONU sobre a “liberdade”,
enquanto os bandidos matam de pancadas as mulheres
nos porões, sem ninguém ficar sabendo.
Aqui não aconteceu nada, vão dizer, e Dom Enrique
Molina nos vai falar do triunfo do “espírito”.
Mas isto não vai acontecer pra sempre.
Um fantasma percorre o mundo, e podem começar de novo
a espancar nos porões: vão pagar por seus crimes, não demora.
XV
Calero, trabalhador dos bananais
(Costa Rica, 1940)
Não te conheço.
Nas páginas de Fallas li a tua vida,
gigante obscuro, menino batido, esfarrapado e errante.
Dessas páginas voam o teu riso e as tuas canções
entre os bananais, no barro sombrio, a chuva e o suor.
Que vida a dos nossos, que alegrias ceifadas,
que forças destruídas pela comida ignóbil,
que cantos derrubados pela moradia em pedaços,
que poderes do homem desfeitos pelo homem!
Porém mudaremos a terra.
Não irá a tua sombra alegre
de charco em charco até a morte desnuda.
Mudaremos, juntando tua mão com a minha,
a noite que te cobre com a sua abóbada verde.
(As mãos dos mortos que tombaram
com estas e outras mãos que constroem
estão seladas como as alturas andinas
com a profundidade de seu ferro enterrado.
)
Mudaremos a vida para que a tua linhagem
sobreviva e construa sua luz organizada.
XVI
Catástrofe em Sewell
Sánchez, Reyes, Ramírez, Núnez, Alvarez.
Estes nomes são como o cimento do Chile.
O povo é o cimento da pátria.
Se os deixais morrer, a pátria vai caindo,
vai sangrando-se até ficar vazia.
O campo nos disse: cada minuto
há um ferido, e cada hora um morto.
Cada minuto e cada hora
o nosso sangue cai, o Chile morre.
Hoje é o fumo do incêndio, ontem foi o gás grisu,
anteontem o despenhadeiro, amanhã o mar ou o frio,
a máquina ou a fome, a imprevisão ou o ácido.
Mas lá onde morre o marinheiro,
mas lá onde morrem os pampeiros,
mas lá em Sewell onde se perderam,
está todo o cuidado, as máquinas, as vidraças,
os ferros, os papéis,
menos o homem, a mulher ou o menino.
Não é o gás: é a cobiça que mata em Sewell.
Essa torneira fechada de Sewell para que não caísse
nem uma gota d'água para o pobre café dos mineiros,
aí está o crime, o fogo não é culpado.
Por todas as partes se fecham as torneiras ao povo
para que não se distribua a água da vida.
Mas a fome e o frio e o fogo que devora
a nossa raça, a flor, os cimentos do Chile,
os farrapos, a casa miserável,
isso não se raciona, sempre há bastante
para que cada minuto haja um ferido
e cada hora um morto.
Não temos nós deuses que nos socorram.
As pobres mães vestidas de preto
terão rezado depois de choradas todas as suas lágrimas.
Nós não rezamos.
Stálin disse: “Nosso melhor tesouro
é o homem”,
os cimentos, o povo.
Stálin ergue, limpa, constrói, fortifica,
preserva, olha, protege, alimenta,
porém também castiga.
E isto é que desejava dizer-vos, camaradas:
faz falta o castigo.
Não pode ser esse desmoronamento humano,
esta sangria da pátria amada,
este sangue que cai do coração do povo
cada minuto, esta morte
de cada hora.
Eu me chamo como eles, como os que morreram.
Eu também sou Ramírez, Munoz, Pérez, Fernández.
Me chamo Álvarez, Núnez, Tapia, López, Contreras.
Sou parente de todos os que morrem, sou povo
e por todo este sangue que tomba estou de luto.
Compatriotas, irmãos mortos, de Sewell, mortos
do Chile, operários, irmãos, camaradas,
hoje que estais silenciosos, vamos conversar.
E que vosso martírio nos ajude
a construir uma pátria severa
que saiba florescer e castigar.
XVII
A terra se chama Juan
Atrás dos libertadores estava Juan
trabalhando, pescando e combatendo,
em seu trabalho de carpintaria ou em sua mina molhada.
Suas mãos araram a terra e mediram
os caminhos.
Seus ossos estão em todos os lugares.
Mas vive.
Regressou da terra.
Nasceu.
Nasceu de novo como uma planta eterna.
Toda a noite impura tratou de submergi-lo
e hoje afirma na aurora seus lábios indomáveis.
Amarraram-no, e é agora decidido soldado.
Feriram-no, e conserva sua saúde de maçã.
Cortaram-lhe as mãos, e hoje fere com elas.
Enterraram-no, e vem cantando conosco.
Juan, é tua a porta e o caminho.
A terra
é tua, povo, a verdade nasceu
contigo, de teu sangue.
Não puderam exterminar-te.
Tuas raízes,
árvore de humanidade,
árvore de eternidade,
hoje estão defendidas com aço,
hoje estão defendidas com tua própria grandeza
na pátria soviética, blindada
contra as mordeduras do lobo agonizante.
Povo, do sofrimento nasceu a ordem.
Da ordem a tua bandeira de vitória nasceu.
Levanta-a com todas as mãos que tombaram,
Defenda-a com todas as mãos que se juntam:
E que avance até a luta final, até a estrela
A unidade de teus rostos invencíveis.
Cristóbal Miranda
(“palero”, Tocopilla)
Te conheci, Cristóbal, nas lanchas
da baía, quando desce
o salitre, para o mar, na queimante
vestimenta de um dia de novembro.
Relembro aquele garbo extático,
os cerros de metal, a água quieta.
E só o homem das lanchas, úmido
de suor, removendo neve.
Neve dos nitratos, derramada
sobre os ombros da dor, caindo
na barriga cega das naves.
Ali, sapadores, heróis de uma aurora
carcomida por ácidos, sujeita
aos destinos da morte, firmes,
recebendo o nitrato caudaloso.
Cristóbal, esta lembrança para ti.
Para os camaradas da sapa,
em cujos peitos entra o ácido
e as emanações assassinas,
inchando como águias machucadas
os corações, até que tomba o homem,
até que role o homem pelas ruas,
para as cruzes quebradas do pampa.
Bem, não digamos mais nada, Cristóbal, agora
este papel que te recorda, a todos,
aos lancheiros da baía, ao homem
enegrecido dos barcos, meus olhos
seguem com vocês nesta jornada
e minha alma é uma pá que se ergue
carregando e descarregando sangue e neve,
junto de vocês, vida do deserto.
II
Jesús Gutiérrez
(“agrarista”)
Em Monterrey morreu meu pai
Genovevo Gutiérrez, se foi
com Zapata.
De noite os cavalos
perto de casa, a fumaça
dos federais, os tiros no vento,
o furacão que sai do milho,
levei o fuzil de lado a lado,
desde as terras de Sonora,
dormíamos de vez em quando, medíamos
rios e bosques, a cavalo,
entre mortos, a defender
a terra do pobre, feijões,
omelete, guitarra, rolávamos
até o limite, éramos pó,
os senhores nos faziam madrugar,
até que de cada pedra
nasciam os nossos fuzis.
Aqui está minha casa, minha terra
pequena, o certificado
firmado por meu general
Cárdenas, os perus,
os patinhos na lagoa,
agora já não se luta,
meu pai ficou em Monterrey
e aqui pendurado na parede
junto à porta a cartucheira,
o fuzil pronto, o cavalo pronto,
pela terra, por nosso pão,
amanhã talvez a galope,
se o meu general me aconselha.
III
Luis Cortés
(de Tocopilla)
Camarada, meu nome é Luis Cortés.
Quando veio a repressão, em Tocopilla
me agarraram.
Me atiraram em Pisagua.
Você, camarada, sabe como é isso.
Muitos caíram doentes, outros
enlouqueceram.
É o pior
campo de concentração de González
Videla.
Vi Ángel Veas morrer,
do coração, uma manhã.
Foi horrível
ver Veas morrer nessa areia assassina,
rodeado de cercas de arame, depois de toda
sua vida generosa.
Quando me senti doente
também do coração, me mudaram
para Garitaya.
Você não conhece, camarada.
É lá no alto, na fronteira com a Bolívia.
Um ponto desolado, a 5000 metros de altura.
Há uma água salobre para beber, mais
salobre que a água do mar, e cheia de pulgões
como vermes rosados que pululam.
Faz frio e parece que o céu em cima
da solidão vai cair sobre nós,
sobre meu coração que já mal se agüenta.
Os próprios carabineiros tiveram pena
e contra a ordem de deixar a gente morrer
sem querer nunca mandar uma maca,
me amarraram a uma mula e descemos as montanhas:
26 horas caminhou a mula, e meu corpo
já não resistia, camarada, entre a cordilheira sem caminhos,
e meu coração doente, e aqui estou eu, olhe
os machucados, não sei até quando vou viver,
mas você sente, não quero pedir nada,
conte você, camarada, o que faz ao povo o desgraçado,
a nós que o levamos à altura em que ri
com um riso de hiena em cima de nossas dores,
conte, você, camarada, conte, conte, pouco importa minha morte,
nem os nossos sofrimentos, pois a nossa luta é grande,
mas que fiquem sabendo destes sofrimentos,
que fiquem sabendo, camarada, não se esqueça.
IV
Olegario Sepúlveda
(sapateiro, Talcahuano)
Olegario Sepúlveda é meu nome.
Sou sapateiro, fiquei
coxo desde o grande terremoto.
Sobre o cortiço um pedaço de morro
e o mundo em cima de minha perna.
Lá gritei dois dias,
mas minha boca ficou cheia de terra,
gritei mais mansamente
até que adormeci para morrer.
Foi um grande silêncio o terremoto,
o terror dos morros,
as lavadeiras choravam,
uma montanha de pó
enterrou as palavras.
Aqui está me vendo com esta sola
defronte do mar, o único limpo,
as ondas nem eram pra chegar
azuis na minha porta.
Talcahuano, tuas grades sujas,
teus corredores de pobreza,
nos morros água podre,
madeira quebrada, covas negras
onde o chileno mata e morre.
(Ó dores do fio aberto
da miséria, lepra do mundo,
arrabalde dos mortos, gangrena
acusadora e venenosa!
Haveis vindo do sombrio
Pacífico, à noite, ao porto?
Haveis tocado entre as pústulas
a mão do menino, a rosa
salpicada de sangue e urina?
Haveis erguido os olhos
para os degraus retorcidos?
Haveis visto a mendiga
com um arame na lixeira
tremer, levantar os joelhos
e olhar lá do fundo onde
já não restam lágrimas nem ódio?)
Sou sapateiro em Talcahuano.
Sepúlveda, na frente do dique Grande.
Quando quiser, meu senhor, pobre
nunca fecha a porta.
V Arturo Carrión
(navegante, Iquique)
junho, 1948.
Querida Rosaura, aqui
estou eu, em Iquique, preso, me mande uma camisa
e fumo.
Não sei
até quando vai durar este baile.
Quando embarquei no Glenfoster
pensei em você, escrevi de Cádiz,
ali fuzilaram à vontade, e aí foi mais
triste em Atenas, naquela manhã
no cárcere mataram com tiro
duzentos e setenta e três moços:
o sangue corria até fora do muro,
vimos saírem os oficiais
gregos com os chefes norte-americanos, vinham rindo:
eles gostam do sangue do povo,
mas tinha um espécie de fumo preto
na cidade, estava escondido o choro, a dor, o luto,
comprei pra você uma carteira de cartões de visita, lá
conheci um patrício de Chiloé,
tem um pequeno restaurante, me disse
as coisas andam ruíns, há ódio:
mas ficou melhor na Hungria,
os camponeses têm terra,
distribuem livros, em Nova York
encontrei tua carta, mas todos
se juntam, pau e pau no pobre,
está vendo só, eu, marinheiro velho
e porque sou do sindicato,
já na coberta
me pegaram, me perguntaram
besteiras, me deixaram preso,
polícia em toda parte.
lágrimas também no pampa:
até quando estas coisas
vão continuar, perguntam todos, hoje é um
e outro pau para o pobre,
dizem que em Pisagua há dois mil,
eu pergunto o que está acontecendo no mundo,
mas não se tem direito de perguntar
assim, diz a polícía: não esqueça o fumo, fale com o Rojas
se ele não está preso, não chores,
o mundo já tem lágrimas
demais, outra coisa é que faz falta
e aqui digo até breve pra você, um
abraço e um beijo do esposo amoroso
Arturo Carrión Cornejo, cárcere de Iquiyue.
VI
Abraham Jesús Brito
(poeta popular)
Jesús Brito é seu nome, Jesús Parreira ou povo,
e foi-se fazendo água pelos olhos,
e pelas mãos se foi fazendo raízes.
até que o plantaram de novo onde esteve
antes de ser, antes que brotasse
do território, entre as pedras pobres.
E foi entre mina e marinheiro uma ave
nodosa, um patriarcal seleiro
da cortiça suave da pátria terrível:
quanto mais fria, mais luz a encontrava:
quanto mais duro o solo, mais lua lhe saía:
quanto mais fome, mais cantava.
E todo o mundo ferroviário abria
com sua chave e sua lira sarmentosa,
e pela espuma da pátria caminhava
cheio de pacotinhos estrelados,
ele, a árvore do cobre, ia regando
cada pequeno trevo acontecido,
o espantoso crime, o incêndio,
e o ramo dos rios tutelares.
Sua voz era a dos gritos roucos
perdidos na noite dos raptos,
ele levava sinos torrenciais
recolhidos à noite em seu chapéu,
e recolhia em seu casaco esfarrapado
as transbordantes lágrimas do povo.
Ia pelos ramais arenosos,
pelo espaço afundado do salitre,
pelos ásperos montes litorâneos
construindo o romance prego a prego,
e telha a telha levantando o verso:
deixando nele a mancha das mãos
e as goteiras da ortografia.
Brito, pelas paredes capitais,
entre o rumor dos cafés,
andavas como uma árvore peregrina
procurando terra com os pés profundos,
até que foste te fazendo raízes,
pedra e torrão e mineração escura.
Brito, a tua majestade foi batida
como um tambor de majestoso couro
e era uma monarquia à intempérie
a tua altivez de arvoredo e povo.
Árvore errante, agora as tuas raízes
cantam debaixo da terra, e em silêncio.
Um pouco mais profundo és agora.
Agora tens terra e tens tempo.
VII
Antonino Bernales
(pescador, Colômbia)
No rio Magdalena anda como a lua,
lento pelo planeta de folhas verdes,
uma ave vermelha ulula, zumbe o som
de velhas asas negras, as margens
têm o transcorrer de águas e águas.
Tudo ê o rio, toda vida é rio,
e Antonino Bernales era rio.
Pescador, carpinteiro, voga, agulha
de rede, prego para as tábuas,
martelo e canto, tudo era Antonino
enquanto o Magdalena como a lua lenta
arrastava o caudal das vidas do rio.
Mais alto em Bogotá, chamas, incêndio,
sangue, se diz, não é bem claro,
Gaytán morreu.
Entre as folhas
como um chacal o riso de Laureano
açula as fogueiras, um tremor
de povo como um calafrio
percorre o Magdalena.
É Antonino Bernales o culpado.
Não se mexeu de sua pequena choça.
Passou dormindo aqueles dias.
Mas os advogados o intimam,
Enrique Santos deseja sangue.
Unem-se todos debaixo dos fraques.
Antonino Bernales tombou
assassinado na vingança,
caiu abrindo os braços no rio,
voltou ao rio como à água mãe.
O Magdalena leva ao mar seu corpo
e do mar a outros rios, a outras águas
e a outros mares e a outros pequenos rios
girando em redor da terra.
Outra vez
entra no Magdalena, são as margens
que ele ama, abre os braços de água vermelha,
passa entre sombras, entre luz espessa,
e outra vez segue o seu caminho de água.
Antonino Bernales, ninguém pode
distinguir-te na torrente, eu sim, eu te recordo
e ouço arrastar teu nome que não pode
morrer, e que envolve a terra,
nome apenas, entre os nomes, povo.
VIII
Margarita Naranjo
(Salitreira María Elena, Antofagasta)
Estou morta.
Sou de María Elena.
Vivi a vida toda no pampa.
Demos o sangue para a companhia
norte-americana, meus pais antes, meus irmãos.
Sem greve nenhuma, sem nada, nos cercaram.
Era de noite, veio todo o Exército,
iam de casa em casa acordando a gente,
levando todos para o campo de concentração.
Eu esperava que nós não fôssemos.
Meu marido trabalhou tanto para a companhia,
e para o presidente, foi o mais esforçado,
conseguindo os votos aqui, é tão querido,
ninguém tem nada pra dizer dele, ele luta
por seus ideais, é puro e honrado
como poucos.
Aí chegaram à nossa porta,
mandados pelo Coronel Urízar,
e o pegaram ainda se vestindo e a empurrões
o lançaram no caminhão que partiu na noite,
para Pisagua, para a escuridão.
Então
achei que já não podia mais respirar, parecia
que a terra me faltava debaixo dos pés,
é tanta traição, tanta injustiça,
que me subiu à garganta algo como um soluço
que não me deixou mais viver.
Me trouxeram comida
as companheiras, e eu lhes disse: “Não comerei até que ele volte”.
Três dias depois falaram com o Sr.
Urízar,
que deu grandes gargalhadas, mandaram
telegramas e telegramas que o tirano em Santiago
não respondeu.
E eu fui dormindo e morrendo,
sem comer, apertei os dentes para não receber
nem mesmo sopa ou água.
Não voltou, não voltou,
e pouco a pouco fiquei morta, e me enterraram:
aqui, no cemitério do escritório salitreiro,
havia naquela tarde um vento de areia,
choravam os velhos e as mulheres cantavam
as canções que tantas vezes cantei com elas.
Se eu pudesse, teria espiado para ver se lá estava
Antonio, meu marido, mas não estava, não estava,
não o deixaram vir nem a minha morte: agora
aqui estou morta, no cemitério do pampa
só tenho a solidão ao redor de mim, que já não existo,
que já não existirei sem ele, nunca mais, sem ele.
IX
José Cruz Achachalla
(mineiro, Bolívia)
Sim, senhor, José Cruz Achachalla,
da serra de Granito, no sul de Oruro.
Pois lá deve viver ainda
minha mãe Rosalía:
trabalha para uns senhores,
pois é, lavando roupa.
A gente passava fome, capitão,
e com uma varinha batiam
em minha mãe todos os dias.
Por isso virei mineiro.
Fugi pelas grandes serras,
uma folhinha de coca, senhor,
uns ramos na cabeça
e andar, andar, andar.
Os abutres
me perseguiam lá do céu,
e eu pensava: são melhores
que os senhores brancos de Oruro,
e assim andei até o território
das minas.
Já faz
quarenta anos, eu era então
um menino faminto.
Os mineiros
me receberam.
Fui aprendiz
nas galerias escuras,
unha por unha contra a terra,
apanhei o estanho escondido.
Não sei aonde nem pra quê
saem os lingotes prateados:
vivemos mal, as casas em ruínas,
e a fome, outra vez, senhor,
e quando
a gente se juntava, capitão,
para mais um peso de salário,
o vento vermelho, o pau, o fogo,
a polícia nos batia,
e aqui estou, pois é, capitão,
despedido do serviço,
me diga pra onde eu vou,
ninguém me conhece em Oruro,
estou velho como as pedras,
já não posso cruzar os montes,
que posso fazer por esses caminhos,
aqui mesmo agora eu fico,
podem me enterrar no estanho,
pois só o estanho me conhece.
José Cruz Achachalla, sim,
não continues a bater pernas,
até aqui chegaste, até aqui,
Achachalla, até aqui chegaste.
X
Eufrosino Ramírez
(Casa Verde, Chuquicamata)
Tínhamos de tomar as pranchas quentes
de cobre com as mãos, e entregá-las
à pá mecânica.
Saíam quase ardendo,
pesavam mais que o mundo, íamos extenuados
transportando as lâminas do mineral, às vezes
uma delas caía sobre um pé e o quebrava,
sobre uma mão que virava um coto.
Vieram os gringos e disseram: “Trabalhem
mais depressa e podem ir pra casa”.
A duras penas, pra sair mais cedo,
fizemos o trabalho.
Mas eles voltaram:
“Agora trabalhem menos, ganhem menos”.
Foi a greve na Casa Verde, dez semanas,
greve, e quando voltamos ao trabalho,
com um pretexto: onde está a tua ferramenta?
me atiraram na rua.
Olhe o senhor estas mãos,
é um calo só que o cobre fez,
escute meu coração, não parece
que dá pulos?, é o cobre que machuca,
e mal posso andar de um lugar pra outro,
procurando, faminto, serviço que não encontro:
parece que me enxergam agachado, levando
as folhas invisíveis do cobre que me mata.
XI
Juan Figueroa
(Casa do Iodo, María Elena, Antofagasta)
O senhor é Neruda? Entre, camarada.
É, da Casa do Iodo, já não existem
outros vivendo.
Eu me agüento.
Sei que não estou mais vivo, que me espera
a terra do pampa.
São quatro horas
por dia, na Casa do Iodo.
Chega por uns tubos, sai como uma massa,
como uma goma roxa.
Nós a passamos
de bateia em bateia, nós a envolvemos
como um recém-nascido.
Enquanto isso,
o ácido nos corrói, nos consome,
entrando pelos olhos, pela boca,
pela pele, pelas unhas.
Da Casa do Iodo ninguém sai
cantando, companheiro.
E se pedimos
mais uns pesos de salário
para os filhos sem sapatos,
dizem: “Moscou vai mandar”, camarada,
e declaram estado de sítio, e nos cercam,
como se a gente fosse uns animais e nos batem,
eles são assim, camarada, estes filhos da puta!
Aqui estou eu, já sou o último:
onde está Sánchez? onde está Rodríguez?
Podres debaixo do pó de Polvillo.
Afinal a morte deu a eles o que pedíamos:
seus rostos estão com máscaras de iodo.
XII
O mestre Huerta
(da mina A Desprezada, Antofagasta)
Quando o senhor for ao norte,
vá até a mina A Desprezada,
pergunte lá pelo mestre Huerta.
De longe não vai o senhor ver nada,
só os areais cinzentos.
Depois, verá as estruturas,
o corrimão, os desmontes.
Os cansaços, os sofrimentos
a gente não vê, estão debaixo da terra
mexendo, partindo seres,
ou então descansam, estendidos,
se transformando, silenciosos.
Era “picano” o mestre Huerta.
Media um metro e noventa e cinco.
Os picanos são os que abrem
o terreno até o desnível,
quando o veio se rebaixa.
Quinhentos metros abaixo,
com água até a cintura,
o picano, pica, pica, vai furando.
Só pode sair do inferno
cada quarenta e oito horas,
até que as perfuradoras
na rocha, na escuridão,
no barro, deixam a polpa
por onde a mina caminha.
O mestre Huerta, grande picano,
parecia que enchia a picada
com as suas costas.
Entrava
cantando como um capitão.
Saía gretado, amarelo,
encurvado, ressecado, e seus olhos
olhavam como olho de morto.
Depois se arrastou pela mina.
Já não podia descer à galeria.
O antimônio lhe comeu as tripas.
Emagreceu de dar medo.
Mas nem podia andar.
Tinha as pernas picadas
como por pontas, e como era
tão alto, parecia
um fantasma faminto
pedindo sem pedir, o senhor sabe.
Ainda não tinha trinta anos.
Pergunte onde está enterrado.
Ninguém sabe dizer,
porque a areia e o vento derrubam
e enterram as cruzes, mais tarde.
Ainda não tinha trinta anos.
É em cima, na Desprezada,
onde trabalhou o mestre Huerta.
XIII
Amador Cea
(de Coronel, Chile, 1949)
Como tinham detido meu pai
e entrou o presidente que elegemos
e disse que éramos livres, eu pedi que soltassem o meu velho.
Me levaram e me bateram um dia inteiro.
Não conheço ninguém no quartel.
Não sei, não posso
nem me lembrar das caras deles.
Era a polícia.
Quando perdia o sentido, me atiravam
água no corpo e continuavam batendo.
Numa tarde, antes de sair, me levaram
arrastado a um banheiro,
me enfiaram a cabeça dentro dum vaso
de WC cheio de excrementos.
Ia me afogando.
“Agora, vai pedir liberdade ao presidente,
que te manda este presente”, me diziam.
Me sinto arrebentado, me quebraram esta costela.
Mas por dentro estou como antes, camarada.
A gente eles só quebram matando.
XIV Benilda Varela
(Concepción, Cidade Universitária, Chile, 1949)
Arrumei a comida das criancinhas e saí.
Quis entrar em Lota para ver meu marido.
Como se sabe, mandam a polícia
e ninguém pode entrar sem sua licença.
Minha cara não agradou.
Eram ordens
de González Videla, antes de começar
a dizer seus discursos, para que nossa gente
tenha medo.
Foi assim: me agarraram,
me despiram, me atiraram ao chão com pancadas.
Perdi o sentido.
Acordei no chão
nua, com um lençol molhado sobre
o meu corpo em sangue.
Reconheci um verdugo:
chama-se Víctor Molina esse bandido.
Mal abri os olhos, continuaram me batendo
com pedaços de borracha.
Estou toda roxa
de sangue, e nem posso me mexer.
Eram cinco, e os cinco me espancavam
como um saco.
Durou seis horas isso.
Só não morri para dizer a vocês, camaradas:
temos de lutar muito mais, até que desapareçam
esses verdugos da face da terra.
Que os povos conheçam seus discursos
Na ONU sobre a “liberdade”,
enquanto os bandidos matam de pancadas as mulheres
nos porões, sem ninguém ficar sabendo.
Aqui não aconteceu nada, vão dizer, e Dom Enrique
Molina nos vai falar do triunfo do “espírito”.
Mas isto não vai acontecer pra sempre.
Um fantasma percorre o mundo, e podem começar de novo
a espancar nos porões: vão pagar por seus crimes, não demora.
XV
Calero, trabalhador dos bananais
(Costa Rica, 1940)
Não te conheço.
Nas páginas de Fallas li a tua vida,
gigante obscuro, menino batido, esfarrapado e errante.
Dessas páginas voam o teu riso e as tuas canções
entre os bananais, no barro sombrio, a chuva e o suor.
Que vida a dos nossos, que alegrias ceifadas,
que forças destruídas pela comida ignóbil,
que cantos derrubados pela moradia em pedaços,
que poderes do homem desfeitos pelo homem!
Porém mudaremos a terra.
Não irá a tua sombra alegre
de charco em charco até a morte desnuda.
Mudaremos, juntando tua mão com a minha,
a noite que te cobre com a sua abóbada verde.
(As mãos dos mortos que tombaram
com estas e outras mãos que constroem
estão seladas como as alturas andinas
com a profundidade de seu ferro enterrado.
)
Mudaremos a vida para que a tua linhagem
sobreviva e construa sua luz organizada.
XVI
Catástrofe em Sewell
Sánchez, Reyes, Ramírez, Núnez, Alvarez.
Estes nomes são como o cimento do Chile.
O povo é o cimento da pátria.
Se os deixais morrer, a pátria vai caindo,
vai sangrando-se até ficar vazia.
O campo nos disse: cada minuto
há um ferido, e cada hora um morto.
Cada minuto e cada hora
o nosso sangue cai, o Chile morre.
Hoje é o fumo do incêndio, ontem foi o gás grisu,
anteontem o despenhadeiro, amanhã o mar ou o frio,
a máquina ou a fome, a imprevisão ou o ácido.
Mas lá onde morre o marinheiro,
mas lá onde morrem os pampeiros,
mas lá em Sewell onde se perderam,
está todo o cuidado, as máquinas, as vidraças,
os ferros, os papéis,
menos o homem, a mulher ou o menino.
Não é o gás: é a cobiça que mata em Sewell.
Essa torneira fechada de Sewell para que não caísse
nem uma gota d'água para o pobre café dos mineiros,
aí está o crime, o fogo não é culpado.
Por todas as partes se fecham as torneiras ao povo
para que não se distribua a água da vida.
Mas a fome e o frio e o fogo que devora
a nossa raça, a flor, os cimentos do Chile,
os farrapos, a casa miserável,
isso não se raciona, sempre há bastante
para que cada minuto haja um ferido
e cada hora um morto.
Não temos nós deuses que nos socorram.
As pobres mães vestidas de preto
terão rezado depois de choradas todas as suas lágrimas.
Nós não rezamos.
Stálin disse: “Nosso melhor tesouro
é o homem”,
os cimentos, o povo.
Stálin ergue, limpa, constrói, fortifica,
preserva, olha, protege, alimenta,
porém também castiga.
E isto é que desejava dizer-vos, camaradas:
faz falta o castigo.
Não pode ser esse desmoronamento humano,
esta sangria da pátria amada,
este sangue que cai do coração do povo
cada minuto, esta morte
de cada hora.
Eu me chamo como eles, como os que morreram.
Eu também sou Ramírez, Munoz, Pérez, Fernández.
Me chamo Álvarez, Núnez, Tapia, López, Contreras.
Sou parente de todos os que morrem, sou povo
e por todo este sangue que tomba estou de luto.
Compatriotas, irmãos mortos, de Sewell, mortos
do Chile, operários, irmãos, camaradas,
hoje que estais silenciosos, vamos conversar.
E que vosso martírio nos ajude
a construir uma pátria severa
que saiba florescer e castigar.
XVII
A terra se chama Juan
Atrás dos libertadores estava Juan
trabalhando, pescando e combatendo,
em seu trabalho de carpintaria ou em sua mina molhada.
Suas mãos araram a terra e mediram
os caminhos.
Seus ossos estão em todos os lugares.
Mas vive.
Regressou da terra.
Nasceu.
Nasceu de novo como uma planta eterna.
Toda a noite impura tratou de submergi-lo
e hoje afirma na aurora seus lábios indomáveis.
Amarraram-no, e é agora decidido soldado.
Feriram-no, e conserva sua saúde de maçã.
Cortaram-lhe as mãos, e hoje fere com elas.
Enterraram-no, e vem cantando conosco.
Juan, é tua a porta e o caminho.
A terra
é tua, povo, a verdade nasceu
contigo, de teu sangue.
Não puderam exterminar-te.
Tuas raízes,
árvore de humanidade,
árvore de eternidade,
hoje estão defendidas com aço,
hoje estão defendidas com tua própria grandeza
na pátria soviética, blindada
contra as mordeduras do lobo agonizante.
Povo, do sofrimento nasceu a ordem.
Da ordem a tua bandeira de vitória nasceu.
Levanta-a com todas as mãos que tombaram,
Defenda-a com todas as mãos que se juntam:
E que avance até a luta final, até a estrela
A unidade de teus rostos invencíveis.
1 194
Pablo Neruda
Os versos do Capitão
Oh dor que envolveram relâmpagos e foram guardando-se
naqueles versos, fugazes e duros, floridos e amargos,
em que um Capitão cujos olhos esconde uma máscara negra
te ama, oh amor, arrancando com mãos feridas
as chamas que queimam, as lanças de sangue e suplício.
Mas logo um favo substitui a pedra do muro arranhado;
frente a frente, de repente sentimos a impura miséria
de dar aos outros o mel que buscávamos por água e por fogo,
por terra e por lua, por ar e por ferro, por sangue e por ira:
então ao fundo de ti e ao fundo de mim descobrimos que estávamos cegos
dentro dum poço que ardia com nossas trevas.
naqueles versos, fugazes e duros, floridos e amargos,
em que um Capitão cujos olhos esconde uma máscara negra
te ama, oh amor, arrancando com mãos feridas
as chamas que queimam, as lanças de sangue e suplício.
Mas logo um favo substitui a pedra do muro arranhado;
frente a frente, de repente sentimos a impura miséria
de dar aos outros o mel que buscávamos por água e por fogo,
por terra e por lua, por ar e por ferro, por sangue e por ira:
então ao fundo de ti e ao fundo de mim descobrimos que estávamos cegos
dentro dum poço que ardia com nossas trevas.
1 460
Pablo Neruda
Tarde - LV
Espinhos, vidros rotos, enfermidades, pranto
assediam dia e noite o mel dos felizes
e não serve a torre, nem a viagem nem os muros:
a desventura atravessa a paz dos adormecidos,
a dor sobe e desce e acerca suas colheres
e não há homem sem este movimento,
não há natalício, não há teto nem cercado:
há que tomar em conta este atributo.
E no amor não valem tampouco olhos fechados,
profundos leitos longe do pestilente ferido,
ou do que passo a passo conquista sua bandeira.
Porque a vida pega como cólera ou rio
e abre um túnel sangrento por onde nos vigiam
os olhos de uma imensa família de dores.
assediam dia e noite o mel dos felizes
e não serve a torre, nem a viagem nem os muros:
a desventura atravessa a paz dos adormecidos,
a dor sobe e desce e acerca suas colheres
e não há homem sem este movimento,
não há natalício, não há teto nem cercado:
há que tomar em conta este atributo.
E no amor não valem tampouco olhos fechados,
profundos leitos longe do pestilente ferido,
ou do que passo a passo conquista sua bandeira.
Porque a vida pega como cólera ou rio
e abre um túnel sangrento por onde nos vigiam
os olhos de uma imensa família de dores.
1 231
Pablo Neruda
A Barcarola
(O vento frio corre compacto como um peixe
e golpeia os talos da aveia. Ao rés do solo vive
um movimento múltiplo e delgado. O dia está nu.
O fulgor de Novembro como uma estalactite
lisa e azul decide a pompa do estio.
É verão. E as lanças do vento interminável
perfuram o favo do espaço amarelo:
olvido ao ver correr a música na aveia
a abóbada implacável do meio-dia.
Escuta,
mulher do sol, meu pensamento. Toca
com teus pés o tremor fugitivo do solo.
Entre a relva cresce meu rosto contra o verde,
através de meus olhos cruzam as espadanas
e bebo com a alma velocidade e vento.)
Mas eu, o cidadão de um tempo gasto e roído, de ruas direitas,
que vi converter-se em incêndio, em detritos, em pedras queimadas, em fogo e em pó,
e depois voltar da guerra o soldado com mortes em cima e embaixo,
e outra vez levantar a cidade infeliz colando cimento às ruínas
e janela e janela e janela e janela e janela
e outra porta outra porta outra porta outra porta outra porta
até o duro infinito moderno com seu inferno de fogo quadrado,
pois a pátria da geometria substitui a pátria do homem.
Viajante perdido, o regresso implacável, a vitória de
pernas cortadas,
a derrota guardada em um cesto como uma maçã diabólica:
este século em que me pariram também, entre tantos que já não alcançaram,
que caíram, Desnos, Frederico, Miguel, companheiros
sem trégua ao meu lado no sol e na morte,
estes anos que às vezes ao cravar a bandeira e cantar com orgulho aos povos
me apontaram com sanha os mesmos que eu defendi com meu canto
e quiseram atirar-me à fossa mordendo minha vida
com as mesmas ferozes mandíbulas do tigre inimigo.
(Os inseguros temem a integridade, golpeiam
então minhas costas com pequenos martelos,
querem assegurar o lugar que lhes toca,
porque medo e soberba sempre estiveram juntos
e suas acusações são suas únicas medalhas.)
(Temem que a violência desintegre seus ossos
e para defender-se vestem-se de violência.)
(Veja o testemunho mudo de depois de amanhã,
recolha os pedaços da torre calada
e quanto me tocou da crueldade inútil.
Compreenderá? Talvez. Os tambores
estarão rotos, e a buzina estridente
será pó no pó.
A felicidade te acompanhe,
companheiro, a felicidade, patrimônio futuro
que herdarás de nosso sangue encarniçado.)
Em minha barcarola se encontram voando os pregos do ódio
com o arroz negro que os invejosos me dão em seu prato
e devo estudar a linguagem do corvo, tocar a plumagem,
olhar nos olhos dos insaciáveis e dos insaciados
e no mesmo páramo das imundícies terrestres
arrojar as censuras de agora e as adulações de então.
Cantando entre escórias o canto reluz na taça de minha alma
e tinge com luz de amaranto o crepúsculo aziago,
eu só sustento a taça de sangue e a espada que canta na arena
e provo o sal em meus lábios, a chuva em minha língua e o fogo recebo em meus olhos,
cantando sem pressa nem pausa, coroado pelas nevascas.
Porque em cima e em torno de mim se sacode como uma bandeira
longitudinal, o capítulo puro de minha geografia,
e do Taltal platinado pela camanchaca13 salobre
até Ruca Diuca coberto por trepadeiras e salgueiros-chorões,
eu vou estendendo entre montes e torres calcáreas minha vertiginosa linhagem,
sem dúvida acossado pela trêmula fragrância do trevo,
talvez inerente produto do bosque na chuva no inverno
pelas estradas molhadas onde passou uma serpente vestida de verde,
de todas as maneiras, sem ser conduzido pelas aventuras do rio com seu batalhão transparente
percorro as terras contando os pássaros, as pedras, a água,
e me retribui o Outono com tanto dinheiro amarelo
que choro de puro cantor derramando meu canto no vento.
e golpeia os talos da aveia. Ao rés do solo vive
um movimento múltiplo e delgado. O dia está nu.
O fulgor de Novembro como uma estalactite
lisa e azul decide a pompa do estio.
É verão. E as lanças do vento interminável
perfuram o favo do espaço amarelo:
olvido ao ver correr a música na aveia
a abóbada implacável do meio-dia.
Escuta,
mulher do sol, meu pensamento. Toca
com teus pés o tremor fugitivo do solo.
Entre a relva cresce meu rosto contra o verde,
através de meus olhos cruzam as espadanas
e bebo com a alma velocidade e vento.)
Mas eu, o cidadão de um tempo gasto e roído, de ruas direitas,
que vi converter-se em incêndio, em detritos, em pedras queimadas, em fogo e em pó,
e depois voltar da guerra o soldado com mortes em cima e embaixo,
e outra vez levantar a cidade infeliz colando cimento às ruínas
e janela e janela e janela e janela e janela
e outra porta outra porta outra porta outra porta outra porta
até o duro infinito moderno com seu inferno de fogo quadrado,
pois a pátria da geometria substitui a pátria do homem.
Viajante perdido, o regresso implacável, a vitória de
pernas cortadas,
a derrota guardada em um cesto como uma maçã diabólica:
este século em que me pariram também, entre tantos que já não alcançaram,
que caíram, Desnos, Frederico, Miguel, companheiros
sem trégua ao meu lado no sol e na morte,
estes anos que às vezes ao cravar a bandeira e cantar com orgulho aos povos
me apontaram com sanha os mesmos que eu defendi com meu canto
e quiseram atirar-me à fossa mordendo minha vida
com as mesmas ferozes mandíbulas do tigre inimigo.
(Os inseguros temem a integridade, golpeiam
então minhas costas com pequenos martelos,
querem assegurar o lugar que lhes toca,
porque medo e soberba sempre estiveram juntos
e suas acusações são suas únicas medalhas.)
(Temem que a violência desintegre seus ossos
e para defender-se vestem-se de violência.)
(Veja o testemunho mudo de depois de amanhã,
recolha os pedaços da torre calada
e quanto me tocou da crueldade inútil.
Compreenderá? Talvez. Os tambores
estarão rotos, e a buzina estridente
será pó no pó.
A felicidade te acompanhe,
companheiro, a felicidade, patrimônio futuro
que herdarás de nosso sangue encarniçado.)
Em minha barcarola se encontram voando os pregos do ódio
com o arroz negro que os invejosos me dão em seu prato
e devo estudar a linguagem do corvo, tocar a plumagem,
olhar nos olhos dos insaciáveis e dos insaciados
e no mesmo páramo das imundícies terrestres
arrojar as censuras de agora e as adulações de então.
Cantando entre escórias o canto reluz na taça de minha alma
e tinge com luz de amaranto o crepúsculo aziago,
eu só sustento a taça de sangue e a espada que canta na arena
e provo o sal em meus lábios, a chuva em minha língua e o fogo recebo em meus olhos,
cantando sem pressa nem pausa, coroado pelas nevascas.
Porque em cima e em torno de mim se sacode como uma bandeira
longitudinal, o capítulo puro de minha geografia,
e do Taltal platinado pela camanchaca13 salobre
até Ruca Diuca coberto por trepadeiras e salgueiros-chorões,
eu vou estendendo entre montes e torres calcáreas minha vertiginosa linhagem,
sem dúvida acossado pela trêmula fragrância do trevo,
talvez inerente produto do bosque na chuva no inverno
pelas estradas molhadas onde passou uma serpente vestida de verde,
de todas as maneiras, sem ser conduzido pelas aventuras do rio com seu batalhão transparente
percorro as terras contando os pássaros, as pedras, a água,
e me retribui o Outono com tanto dinheiro amarelo
que choro de puro cantor derramando meu canto no vento.
1 365
Pablo Neruda
LXI
A gota viva do mercúrio
corre para baixo ou para sempre?
Minha poesia infeliz
olhará com os olhos meus?
Terei meu cheiro e minhas dores
quando eu dormir destruído?
corre para baixo ou para sempre?
Minha poesia infeliz
olhará com os olhos meus?
Terei meu cheiro e minhas dores
quando eu dormir destruído?
1 041
Pablo Neruda
XXII
Amor, amor aquele e aquela,
se já não são, para onde foram?
Ontem, ontem disse a meus olhos
quando voltaremos a ver-nos?
E quando se muda a paisagem
são tuas mãos ou tuas luvas?
Quando canta o azul da água
como foge o rumor do céu?
se já não são, para onde foram?
Ontem, ontem disse a meus olhos
quando voltaremos a ver-nos?
E quando se muda a paisagem
são tuas mãos ou tuas luvas?
Quando canta o azul da água
como foge o rumor do céu?
648
Pablo Neruda
O Astronauto
I.
SE ME ENCONTREI nestas regiões reconcentradas e calcáreas
foi por equívocos de pai e mãe em meu planeta:
me aborreceram tanto uns como outros inclementes;
deixei plantados os puros, desencadeei certa loucura
e continuei presenteando os hostis.
II.
Cheguei porque me convidaram a uma estrela recém-aberta;
já Leonov me havia dito que cruzaríamos cores
de enxofre imenso e amaranto, fogo furioso de turquesa,
zonas insólitas de prata como espelhos efervescentes
e quando então fiquei só sobre a calvície do céu
nesta zona parecida com a extensão de Antofagasta,
com a solidão de Astacama, com as alturas da Mongólia
me despi para viver no calor do mundo virgem,
do mundo velho de uma estrela que agonizava ou que nascia.
III.
Não me fazia falta a roupa mas a linguagem, recolhi
uma suavíssima, metálica flor, uma rosa cujo orvalho
caiu perfurando o solo como uma torrente de mercúrio
e por esse álveo escutei de gruta em gruta o orvalho
descer as escadarias de cristal adormecido e gasto.
Gasto por quem? Pelos sonhos? Pela vida com sobrenome?
Por animais ou pessoas, elefantes ou analfabetos?
E de repente me surpreendi buscando outra vez com tristeza
a identidade, a história, o conto dos que deixei na terra.
IV.
Talvez aqui nestas rugas, sob estas crostas estépicas,
sob o vulcânico estandarte das cinzas celestiais
existiu ou existe a inveja que mordeu-me pelos caminhos
terrestres, como um caimão de quarenta caudas apodrecidas?
Aqui também prosperará o canibal parasitário,
o cínico, o frívolo, o piadista sustentado por seus cosméticos?
Aqui o Chamudar trocará de casaca pegajosa
como o Retamudez Gordillo da intervenção “oportuna”?
V.
Mas encontrei só os ossos do silêncio carbonizado;
buscando desci os estratos de mortífera astrologia:
iguanas mortas talvez eram os vestígios do pó,
idades que se trituraram e ficava só o fulgor
e era toda aquela estrela como uma antiga borboleta
de ancestrais asas que apenas tocadas se desvaneciam
aparecendo então um buraco de metal,
uma cova em cujo passado brilhavam as pedras do frio.
VI.
Perdi-me pelas galerias do sol talvez derrubado
ou na lua sem coração com seus espelhos carcomidos
e como na segurança de meu país inseguro
aqui o medo me dirigia os pés no descobrimento.
Mas não achei como alabar o alabastro que corria
derretido, pelas gargantas de pedra-pome adstringente,
e como, com quem falar do tesouro negro que fugia
com o rio do azeviche pelas ruas cicatrizadas?
VII.
Pouco a pouco o silêncio me fez um Robinson assustadiço
sem roupa mas sem fome, sem sede porque pelos poros
a luz mineral nutria e umedecia, mas pouco
a pouco o planeta se despencava de minha língua,
e errei sem idioma, escuro pelas areias do silêncio.
Oh solidão espacial do silêncio! Se desfaz
o ruído do coração e quando sobressaltado
ouvi um silêncio debaixo de outro silêncio maior:
fui emagrecendo até ser somente silêncio naquele bairro do céu
onde caí e fui enterrado por um álveo silencioso
por um grande rio de esmeraldas que não sabiam cantar.
SE ME ENCONTREI nestas regiões reconcentradas e calcáreas
foi por equívocos de pai e mãe em meu planeta:
me aborreceram tanto uns como outros inclementes;
deixei plantados os puros, desencadeei certa loucura
e continuei presenteando os hostis.
II.
Cheguei porque me convidaram a uma estrela recém-aberta;
já Leonov me havia dito que cruzaríamos cores
de enxofre imenso e amaranto, fogo furioso de turquesa,
zonas insólitas de prata como espelhos efervescentes
e quando então fiquei só sobre a calvície do céu
nesta zona parecida com a extensão de Antofagasta,
com a solidão de Astacama, com as alturas da Mongólia
me despi para viver no calor do mundo virgem,
do mundo velho de uma estrela que agonizava ou que nascia.
III.
Não me fazia falta a roupa mas a linguagem, recolhi
uma suavíssima, metálica flor, uma rosa cujo orvalho
caiu perfurando o solo como uma torrente de mercúrio
e por esse álveo escutei de gruta em gruta o orvalho
descer as escadarias de cristal adormecido e gasto.
Gasto por quem? Pelos sonhos? Pela vida com sobrenome?
Por animais ou pessoas, elefantes ou analfabetos?
E de repente me surpreendi buscando outra vez com tristeza
a identidade, a história, o conto dos que deixei na terra.
IV.
Talvez aqui nestas rugas, sob estas crostas estépicas,
sob o vulcânico estandarte das cinzas celestiais
existiu ou existe a inveja que mordeu-me pelos caminhos
terrestres, como um caimão de quarenta caudas apodrecidas?
Aqui também prosperará o canibal parasitário,
o cínico, o frívolo, o piadista sustentado por seus cosméticos?
Aqui o Chamudar trocará de casaca pegajosa
como o Retamudez Gordillo da intervenção “oportuna”?
V.
Mas encontrei só os ossos do silêncio carbonizado;
buscando desci os estratos de mortífera astrologia:
iguanas mortas talvez eram os vestígios do pó,
idades que se trituraram e ficava só o fulgor
e era toda aquela estrela como uma antiga borboleta
de ancestrais asas que apenas tocadas se desvaneciam
aparecendo então um buraco de metal,
uma cova em cujo passado brilhavam as pedras do frio.
VI.
Perdi-me pelas galerias do sol talvez derrubado
ou na lua sem coração com seus espelhos carcomidos
e como na segurança de meu país inseguro
aqui o medo me dirigia os pés no descobrimento.
Mas não achei como alabar o alabastro que corria
derretido, pelas gargantas de pedra-pome adstringente,
e como, com quem falar do tesouro negro que fugia
com o rio do azeviche pelas ruas cicatrizadas?
VII.
Pouco a pouco o silêncio me fez um Robinson assustadiço
sem roupa mas sem fome, sem sede porque pelos poros
a luz mineral nutria e umedecia, mas pouco
a pouco o planeta se despencava de minha língua,
e errei sem idioma, escuro pelas areias do silêncio.
Oh solidão espacial do silêncio! Se desfaz
o ruído do coração e quando sobressaltado
ouvi um silêncio debaixo de outro silêncio maior:
fui emagrecendo até ser somente silêncio naquele bairro do céu
onde caí e fui enterrado por um álveo silencioso
por um grande rio de esmeraldas que não sabiam cantar.
852
Pablo Neruda
XLIV
Onde está o menino que fui,
segue dentro de mim ou se foi?
Sabe que não o quis nunca
e que tampouco me queria?
Por que andamos tanto tempo
crescendo para separar-nos?
Por que não morremos os dois
quando minha infância morreu?
E se minha alma tombou
por que permanece o esqueleto?
segue dentro de mim ou se foi?
Sabe que não o quis nunca
e que tampouco me queria?
Por que andamos tanto tempo
crescendo para separar-nos?
Por que não morremos os dois
quando minha infância morreu?
E se minha alma tombou
por que permanece o esqueleto?
1 343
Pablo Neruda
Diurno
O sol organiza talvez na noite seu ramo amarelo
e pela janela tropeça com a teoria de quanto se imprime
e desalentado tal como se entrasse na sala de um triste hospital de Chicago
regressa ao incêndio do tigre na selva e baila na púrpura das papoulas,
porém, sol errante não só teus olhos escapam da lombada da enciclopédia,
mas de minhas pobres artérias sombrias que como raízes exploram a sombra
pedindo que as condecore algum dia a luz quebrantada das cordilheiras.
Amor, amor meu, a plebe de puros papéis prensados galopa,
circunda, em si mesma, sussurra e sepulta.
Ai quanto caminho eriçado de flores fogosas e desfiladeiros
nos chama entretanto incitante como uma romã furiosa
que fugiu debulhando rubis na poeirada do alto verão.
e pela janela tropeça com a teoria de quanto se imprime
e desalentado tal como se entrasse na sala de um triste hospital de Chicago
regressa ao incêndio do tigre na selva e baila na púrpura das papoulas,
porém, sol errante não só teus olhos escapam da lombada da enciclopédia,
mas de minhas pobres artérias sombrias que como raízes exploram a sombra
pedindo que as condecore algum dia a luz quebrantada das cordilheiras.
Amor, amor meu, a plebe de puros papéis prensados galopa,
circunda, em si mesma, sussurra e sepulta.
Ai quanto caminho eriçado de flores fogosas e desfiladeiros
nos chama entretanto incitante como uma romã furiosa
que fugiu debulhando rubis na poeirada do alto verão.
1 029
Pablo Neruda
Clareira de Sol
Mas agora não foi o inimigo que espreita montado em sua vassoura amarela,
coberto como um porco-espinho com as puas do ódio;
agora entre irmãos nasceram racimos tortuosos
e desenvolveram os vinhos amargos, misturando mentira e vileza,
até preparar a suspeita, a dúvida, as acusações:
uma gelatina asfixiante de transpiração literária.
Não posso voltar a cabeça e olhar a manada perdida.
Passei entre os vivos fazendo meu ofício, e regresso à chuva
com alguns cravos e o pão que elaboram minhas mãos.
Eu busquei a bondade no bom e no mau busquei a bondade
e busquei a bondade na pedra que leva ao suplício
e encontrei a bondade na cova em que vive o falcão
e busquei a bondade na lua coberta de farinha campestre
e encontrei a bondade onde estive: esse foi meu dever na terra.
coberto como um porco-espinho com as puas do ódio;
agora entre irmãos nasceram racimos tortuosos
e desenvolveram os vinhos amargos, misturando mentira e vileza,
até preparar a suspeita, a dúvida, as acusações:
uma gelatina asfixiante de transpiração literária.
Não posso voltar a cabeça e olhar a manada perdida.
Passei entre os vivos fazendo meu ofício, e regresso à chuva
com alguns cravos e o pão que elaboram minhas mãos.
Eu busquei a bondade no bom e no mau busquei a bondade
e busquei a bondade na pedra que leva ao suplício
e encontrei a bondade na cova em que vive o falcão
e busquei a bondade na lua coberta de farinha campestre
e encontrei a bondade onde estive: esse foi meu dever na terra.
1 072
Pablo Neruda
Amor
Onde estás, oh pomba marinha que sob meus beijos caíste
ferida e selvagem na trêmula relva do Sul transparente,
ali onde move seus raios glaciais minha soberania,
garota campestre, amassada com barro e com trigo,
amante que ao mar galopando roubei com punhal, oh sereia,
e ao vulcão desafiei para amar-te trazendo sobre a sela
tuas crinas que o fogo tingiu elaborando sua chama acobreada,
Amada, é tua sombra como a frescura que deixa o racimo
sobre o amarelo sino do vasto verão
e é o submerso calor de teu abraço em meu corpo
a resposta ao raio e ao calafrio de ouro que eu precipito.
Porque dos nupciais com uma cereja, com um só rio,
e uma só cama e uma só lua que o vento derruba sob a pradaria
são duas claridades que fundem sobre suas cabeças o arco do dia
e estrelam a noite com os minerais de seu desamparo,
com o desamparo do amor nu que rompe uma rosa e constrói uma rosa,
e constrói uma rosa que vive, palpita, perece e renasce,
porque essa é a lei do amor e não sabe minha boca
senão falar sem falar com tua boca no fim e no começo de tudo,
amorosa, meu amor, minha mulher deitada no trigo,
nas eras de Março, no barro da Araucânia.
ferida e selvagem na trêmula relva do Sul transparente,
ali onde move seus raios glaciais minha soberania,
garota campestre, amassada com barro e com trigo,
amante que ao mar galopando roubei com punhal, oh sereia,
e ao vulcão desafiei para amar-te trazendo sobre a sela
tuas crinas que o fogo tingiu elaborando sua chama acobreada,
Amada, é tua sombra como a frescura que deixa o racimo
sobre o amarelo sino do vasto verão
e é o submerso calor de teu abraço em meu corpo
a resposta ao raio e ao calafrio de ouro que eu precipito.
Porque dos nupciais com uma cereja, com um só rio,
e uma só cama e uma só lua que o vento derruba sob a pradaria
são duas claridades que fundem sobre suas cabeças o arco do dia
e estrelam a noite com os minerais de seu desamparo,
com o desamparo do amor nu que rompe uma rosa e constrói uma rosa,
e constrói uma rosa que vive, palpita, perece e renasce,
porque essa é a lei do amor e não sabe minha boca
senão falar sem falar com tua boca no fim e no começo de tudo,
amorosa, meu amor, minha mulher deitada no trigo,
nas eras de Março, no barro da Araucânia.
1 247
Pablo Neruda
Sonata
Oh clara de lua, oh estátua pequena e escura,
oh sal, oh colher que tira o aroma do mundo e o entorna em minhas veias,
oh cântara negra que canta à luz do orvalho,
oh pedra do rio enterrado de onde voava e volvia a noite,
oh pâmpano de água, peral de cintura fragrante,
oh tesoureira do bosque, oh pomba da primavera,
oh mensagem que deixa o sereno nos dedos da madressilva,
oh metálica noite de Agosto com argolas de prata no céu,
oh meu amor, pareces com o trem que atravessa o outono em Temuco,
oh minha amada perdida em minhas mãos como um anel na neve,
oh entendida nas cordas do vento cor de guitarra
que desce das cordilheiras, junto a Nahuelbuta chorando,
oh função matinal da abelha buscando um segredo,
oh edifício que o âmbar e a água construíram para que habitasse
eu exigente inquilino que esquece a chave e adormece à porta,
oh corneta levada na garupa celestial do tritão submarino,
oh guitarra de greda soando na paz poeirenta do Chile,
oh frigideira de azeite e cebola, vaporosa, cheirosa, saborosa,
oh expulsada da geometria por arte de nuvem e quadril,
oh máquina de água, oh relógio de passarada,
oh minha amorosa, minha negra, minha branca, minha pena, minha vassoura,
oh minha espada, meu pão e meu mel, minha canção, meu silêncio, minha vida.
oh sal, oh colher que tira o aroma do mundo e o entorna em minhas veias,
oh cântara negra que canta à luz do orvalho,
oh pedra do rio enterrado de onde voava e volvia a noite,
oh pâmpano de água, peral de cintura fragrante,
oh tesoureira do bosque, oh pomba da primavera,
oh mensagem que deixa o sereno nos dedos da madressilva,
oh metálica noite de Agosto com argolas de prata no céu,
oh meu amor, pareces com o trem que atravessa o outono em Temuco,
oh minha amada perdida em minhas mãos como um anel na neve,
oh entendida nas cordas do vento cor de guitarra
que desce das cordilheiras, junto a Nahuelbuta chorando,
oh função matinal da abelha buscando um segredo,
oh edifício que o âmbar e a água construíram para que habitasse
eu exigente inquilino que esquece a chave e adormece à porta,
oh corneta levada na garupa celestial do tritão submarino,
oh guitarra de greda soando na paz poeirenta do Chile,
oh frigideira de azeite e cebola, vaporosa, cheirosa, saborosa,
oh expulsada da geometria por arte de nuvem e quadril,
oh máquina de água, oh relógio de passarada,
oh minha amorosa, minha negra, minha branca, minha pena, minha vassoura,
oh minha espada, meu pão e meu mel, minha canção, meu silêncio, minha vida.
625
Pablo Neruda
A máscara marinha
Resvala na úmida soma a lua
sorteando a sala com sua sussurrante saída
as aves do suave solstício os voos alçaram
e o sol da aurora auroreia na sopa do mar
a sopa do mar sopa negra passou pela sombra
parece que se abre uma caixa se sai a aurora
como um leque fechado é o sol em seu céu
saiu da caixa a luz da caixa de jacarandá
saiu perfumada a luz saiu alaranjada a luz saiu luz
leque era então em cima esplendor era fria esperança
e eu vou que vou no navio eu não voo nem corro nem nado
eu na proa celeste de acordo azutrina21 amaranto de acordo
de acordo com o leque crescente de acordo chovia de repente
e estátua de sal transparente na chuva ou arroxeada senhora
ofereci meu crepúsculo ao vento à noite que me devorava
e segui solitária na noite no dia nua turgente
era o mar do navio a rota a linha a mesma salmoura
e outro dia outra greta em minhas mãos em minha vestimenta
eu não olho os portos fechei os olhos ao dano
amo só o elemento a luz que transcorre as lanças do frio
sob o sol ao zênite uva a uva até ser um racimo
e de noite a sombra resvala a lua no vinho
o mar álcool do planeta a rosa que ferve e a água que arde eu sigo eu somo
não movo os olhos não canto não tenho palavras não sonho
me movem me cantam me sonham me some a onda
salpica levanta minha desventurada cabeça na eterna intempérie
eu vivo no grande movimento do orbe na nave
sou parte incessante da direção da essência
não tenho contrato assinado com gotas de sangue nem rainha nem escrava
eu sei que armadores inflados pagaram dores com dólares
a barca a branca vestida a Vênus de baleiaria
as velas ao vento sobre a multidão do mar para o Chile
mas aquelas moedas caíram nos cofres do padre artesão
e logo rodaram pagando ataúdes garrafas sapatos escolas ou flores
eu fui liberada e entrei no navio sem dívida de sangue
não compro a aurora não saio não movo os braços não reino
e só obedeço o palpitar da água na proa como uma maçã
obedece à seiva que sobe e navega na árvore da primavera
o sangue cetáceo o esperma violeta do assassinato nas ondas
não vejo nem o círculo frio do duro petrel no vento
nem o peixe arrancado de uma garra e partido por uma bicada
sem dúvida um caminho de sangue sulcou a salmoura
ouviu o espantoso silêncio depois das chamas da artilharia
no território inocente outros homens vestidos de ouro
com máscaras brancas metiam em redes seus semelhantes
corriam uivando mulheres entre os castigos morriam de amor e de fúria
as redes subiam repletas de olhares sombrios e mãos feridas
eu vi dessangrar-se os rios dos territórios e sei como
choram as pedras
oh raio do mar amedronta teus filhos castiga os cruéis
dizia a terra e o mar continuou e subiu o movimento para meu peito
e eu me incorporo ao caminho meus olhos não sabem chorar
sou só uma forma na luz uma vértebra da alegoria.
sorteando a sala com sua sussurrante saída
as aves do suave solstício os voos alçaram
e o sol da aurora auroreia na sopa do mar
a sopa do mar sopa negra passou pela sombra
parece que se abre uma caixa se sai a aurora
como um leque fechado é o sol em seu céu
saiu da caixa a luz da caixa de jacarandá
saiu perfumada a luz saiu alaranjada a luz saiu luz
leque era então em cima esplendor era fria esperança
e eu vou que vou no navio eu não voo nem corro nem nado
eu na proa celeste de acordo azutrina21 amaranto de acordo
de acordo com o leque crescente de acordo chovia de repente
e estátua de sal transparente na chuva ou arroxeada senhora
ofereci meu crepúsculo ao vento à noite que me devorava
e segui solitária na noite no dia nua turgente
era o mar do navio a rota a linha a mesma salmoura
e outro dia outra greta em minhas mãos em minha vestimenta
eu não olho os portos fechei os olhos ao dano
amo só o elemento a luz que transcorre as lanças do frio
sob o sol ao zênite uva a uva até ser um racimo
e de noite a sombra resvala a lua no vinho
o mar álcool do planeta a rosa que ferve e a água que arde eu sigo eu somo
não movo os olhos não canto não tenho palavras não sonho
me movem me cantam me sonham me some a onda
salpica levanta minha desventurada cabeça na eterna intempérie
eu vivo no grande movimento do orbe na nave
sou parte incessante da direção da essência
não tenho contrato assinado com gotas de sangue nem rainha nem escrava
eu sei que armadores inflados pagaram dores com dólares
a barca a branca vestida a Vênus de baleiaria
as velas ao vento sobre a multidão do mar para o Chile
mas aquelas moedas caíram nos cofres do padre artesão
e logo rodaram pagando ataúdes garrafas sapatos escolas ou flores
eu fui liberada e entrei no navio sem dívida de sangue
não compro a aurora não saio não movo os braços não reino
e só obedeço o palpitar da água na proa como uma maçã
obedece à seiva que sobe e navega na árvore da primavera
o sangue cetáceo o esperma violeta do assassinato nas ondas
não vejo nem o círculo frio do duro petrel no vento
nem o peixe arrancado de uma garra e partido por uma bicada
sem dúvida um caminho de sangue sulcou a salmoura
ouviu o espantoso silêncio depois das chamas da artilharia
no território inocente outros homens vestidos de ouro
com máscaras brancas metiam em redes seus semelhantes
corriam uivando mulheres entre os castigos morriam de amor e de fúria
as redes subiam repletas de olhares sombrios e mãos feridas
eu vi dessangrar-se os rios dos territórios e sei como
choram as pedras
oh raio do mar amedronta teus filhos castiga os cruéis
dizia a terra e o mar continuou e subiu o movimento para meu peito
e eu me incorporo ao caminho meus olhos não sabem chorar
sou só uma forma na luz uma vértebra da alegoria.
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