Poemas neste tema
Alma
Martha Medeiros
a primeira vez que partiu foi ao Uruguai
a primeira vez que partiu foi ao Uruguai
mas sentiu falta de um clima mais temperado
depois morou três anos em San Francisco
ainda era garoto e quase saiu de lá viciado
foi acolhido por uma holandesa sardenta
deixou em Roterdam um apartamento montado
tentou a vida na Áustria
mas sentiu-se pouco sofisticado
da temporada que passou em Estoril
herdou uma paixão doentia pelo fado
e de uma praia italiana chamada Alássio
todos lhe invejaram o bronzeado
trabalhou de porteiro num hotel em Marrocos
alguma coisa o deixou contrariado
se encantou por uma ilha da Grécia
na qual bem poderia ter ficado
apaixonou-se onze meses na Índia
fez um filho e por pouco não esteve casado
cada primeira vez que aportava
era como se houvesse voltado
cada novo lugar que descobria
havia um novo homem resgatado
quando já tinha setenta e poucos anos
nem tão jovem e já um pouco cansado
voltou para a casa onde nascera
finalmente havia chegado
mas sentiu falta de um clima mais temperado
depois morou três anos em San Francisco
ainda era garoto e quase saiu de lá viciado
foi acolhido por uma holandesa sardenta
deixou em Roterdam um apartamento montado
tentou a vida na Áustria
mas sentiu-se pouco sofisticado
da temporada que passou em Estoril
herdou uma paixão doentia pelo fado
e de uma praia italiana chamada Alássio
todos lhe invejaram o bronzeado
trabalhou de porteiro num hotel em Marrocos
alguma coisa o deixou contrariado
se encantou por uma ilha da Grécia
na qual bem poderia ter ficado
apaixonou-se onze meses na Índia
fez um filho e por pouco não esteve casado
cada primeira vez que aportava
era como se houvesse voltado
cada novo lugar que descobria
havia um novo homem resgatado
quando já tinha setenta e poucos anos
nem tão jovem e já um pouco cansado
voltou para a casa onde nascera
finalmente havia chegado
1 112
Martha Medeiros
ele não é meu
ele não é meu
porque não dorme comigo
mas também não é amigo
porque me beija e me vê despida
não é meu marido
mas telefona e reparte um passado
que eu queria também ter vivido
não é meu porque não tem roupas
penduradas ao lado das minhas
não tenho dele um retrato
não passa comigo um domingo
jamais ganhei um presente
que não fosse de seda rendada
eu sou a preferida
de um homem comprometido
queria não ser um perigo
uma bomba que pode explodir
e deixar outra mulher arruinada
ele é o terrorista
eu o alvo escolhido
preferia aceitar um pedido
fazer nada escondido
mas ele não é meu marido
não é namorado, não é bom partido
não pode andar ao meu lado
não sabe a que horas acordo
não racha as contas comigo
não fica para ouvir um disco
não é exigido, não é meu parente
e anda sumido
nada é mais deprimente
quando chamo seu número ela atende
e eu desligo
porque não dorme comigo
mas também não é amigo
porque me beija e me vê despida
não é meu marido
mas telefona e reparte um passado
que eu queria também ter vivido
não é meu porque não tem roupas
penduradas ao lado das minhas
não tenho dele um retrato
não passa comigo um domingo
jamais ganhei um presente
que não fosse de seda rendada
eu sou a preferida
de um homem comprometido
queria não ser um perigo
uma bomba que pode explodir
e deixar outra mulher arruinada
ele é o terrorista
eu o alvo escolhido
preferia aceitar um pedido
fazer nada escondido
mas ele não é meu marido
não é namorado, não é bom partido
não pode andar ao meu lado
não sabe a que horas acordo
não racha as contas comigo
não fica para ouvir um disco
não é exigido, não é meu parente
e anda sumido
nada é mais deprimente
quando chamo seu número ela atende
e eu desligo
1 205
Martha Medeiros
uma moça casou de manhã
uma moça casou de manhã
como a atriz da novela havia feito
seu pretendente não era um galã
mas quase não tinha defeito
um homem casou apressado
para fugir do preconceito
mulher alguma era do seu agrado
de pernas depiladas não era afeito
uma balzaquiana casou com um vereador
que diziam não ser bom sujeito
tinha fama de ser mau pagador
que importa, ainda seria prefeito
um rapaz casou com uma garota
e ninguém entendeu direito
juravam que gostava de outra
dizem que gaguejou ao dizer aceito
uma menina casou com um senhor
que de um enfarto ainda não estava refeito
seu pai devia a ele um penhor
e lá se foi ela pro leito
casam-se fiéis e pecadores
porque fica melhor desse jeito
ninguém tem acesso aos bastidores
e o amor é um álibi perfeito
como a atriz da novela havia feito
seu pretendente não era um galã
mas quase não tinha defeito
um homem casou apressado
para fugir do preconceito
mulher alguma era do seu agrado
de pernas depiladas não era afeito
uma balzaquiana casou com um vereador
que diziam não ser bom sujeito
tinha fama de ser mau pagador
que importa, ainda seria prefeito
um rapaz casou com uma garota
e ninguém entendeu direito
juravam que gostava de outra
dizem que gaguejou ao dizer aceito
uma menina casou com um senhor
que de um enfarto ainda não estava refeito
seu pai devia a ele um penhor
e lá se foi ela pro leito
casam-se fiéis e pecadores
porque fica melhor desse jeito
ninguém tem acesso aos bastidores
e o amor é um álibi perfeito
771
Martha Medeiros
amar em outro idioma
amar em outro idioma
encurrala
quando se quer dizer sim
se cala
quando se quer dizer não
se embroma
encurrala
quando se quer dizer sim
se cala
quando se quer dizer não
se embroma
1 279
Martha Medeiros
cinderela insone
cinderela insone
idade postiça
decote remunerado
recheio de silicone
coxas de paetê
oferta de camelô
bustiê bordô
carinha de fome
idade postiça
decote remunerado
recheio de silicone
coxas de paetê
oferta de camelô
bustiê bordô
carinha de fome
1 113
Martha Medeiros
já meio sem esperança
já meio sem esperança
de encontrá-la depois dos quarenta
eis que um amigo me apresenta
uma mulher de trança
manteve-se meio a distância
mas já havia dito bom dia
e era mais do que queria
um coração que descansa
falava de maneira lenta
com palavras que ninguém alcança
suspeitei que era uma mulher mansa
dessas que não se enfrenta
quanto mais eu temia a aliança
mais ela me seduzia
um amor que não se comenta
diga que homem sustenta
fazia notar sua presença
como que distraída
sabia ficar isenta
do próprio pecado que inventa
quanto mais queria tocá-la
mais escorregadia
preso nessa paixão tardia
ninguém pagaria a fiança
enquanto meu amor arrebenta
seu olhar tripudia
quem é essa mulher que se ausenta
e ao mesmo tempo me tenta
é a mulher de trança
aquela que só se contenta
quando toda a imprensa
vem testemunhar sua vingança
não sabia que a mulher de trança
acabara de ter sido traída
de encontrá-la depois dos quarenta
eis que um amigo me apresenta
uma mulher de trança
manteve-se meio a distância
mas já havia dito bom dia
e era mais do que queria
um coração que descansa
falava de maneira lenta
com palavras que ninguém alcança
suspeitei que era uma mulher mansa
dessas que não se enfrenta
quanto mais eu temia a aliança
mais ela me seduzia
um amor que não se comenta
diga que homem sustenta
fazia notar sua presença
como que distraída
sabia ficar isenta
do próprio pecado que inventa
quanto mais queria tocá-la
mais escorregadia
preso nessa paixão tardia
ninguém pagaria a fiança
enquanto meu amor arrebenta
seu olhar tripudia
quem é essa mulher que se ausenta
e ao mesmo tempo me tenta
é a mulher de trança
aquela que só se contenta
quando toda a imprensa
vem testemunhar sua vingança
não sabia que a mulher de trança
acabara de ter sido traída
1 121
Martha Medeiros
quem é você dentro de mim
quem é você dentro de mim
que não teme a opinião alheia
que se alimenta de dinamite
que explodindo não incendeia
quem é você por trás dos meus atos
que quando concordo suspeita
que quando aceito discorda
que quando adormeço não deita
quem é você escondida em meu corpo
que arranca as folhas da agenda
que vive fazendo a minha mala
que não reconhece a minha letra
quem é você invisível no espelho
que sempre me despenteia
que não teme a opinião alheia
que se alimenta de dinamite
que explodindo não incendeia
quem é você por trás dos meus atos
que quando concordo suspeita
que quando aceito discorda
que quando adormeço não deita
quem é você escondida em meu corpo
que arranca as folhas da agenda
que vive fazendo a minha mala
que não reconhece a minha letra
quem é você invisível no espelho
que sempre me despenteia
1 093
Martha Medeiros
não morro de amores
não morro de amores
por pessoas sem mistério
quando se é muito transparente
muito risonho e educado
é raro ser levado a sério
prefiro os mais silenciosos
os que abrem a boca de menos
os mais serenos e mais perigosos
aqueles que ninguém define
e que sempre analisam os fatos
por um novo enfoque
prefiro os que têm estoque
aos que deixam tudo à mostra na vitrine
por pessoas sem mistério
quando se é muito transparente
muito risonho e educado
é raro ser levado a sério
prefiro os mais silenciosos
os que abrem a boca de menos
os mais serenos e mais perigosos
aqueles que ninguém define
e que sempre analisam os fatos
por um novo enfoque
prefiro os que têm estoque
aos que deixam tudo à mostra na vitrine
687
Martha Medeiros
eu triste sou calada
eu triste sou calada
eu braba sou estúpida
eu lúcida sou chata
eu gata sou esperta
eu cega sou vidente
eu carente sou insana
eu malandra sou fresca
eu seca sou vazia
eu fria sou distante
eu quente sou oleosa
eu prosa sou tantas
eu santa sou gelada
eu salgada sou crua
eu pura sou tentada
eu sentada sou alta
eu jovem sou donzela
eu bela sou fútil
eu útil sou boa
eu à toa sou tua
eu braba sou estúpida
eu lúcida sou chata
eu gata sou esperta
eu cega sou vidente
eu carente sou insana
eu malandra sou fresca
eu seca sou vazia
eu fria sou distante
eu quente sou oleosa
eu prosa sou tantas
eu santa sou gelada
eu salgada sou crua
eu pura sou tentada
eu sentada sou alta
eu jovem sou donzela
eu bela sou fútil
eu útil sou boa
eu à toa sou tua
1 077
Martha Medeiros
no fundo sabemos
no fundo sabemos
que somos todos loucos
ninguém em sã consciência
se regraria dessa forma
sem saber afinal
para onde iremos
ninguém repetiria os mesmos passos
e aceitaria tão poucas escolhas
medicina engenharia arquitetura
música teatro escultura
homeopatia hipnose acupuntura
ninguém
a não ser por loucura
seria casado ou solteiro
trabalhador ou biscateiro
gremista ou colorado
entre londres e new york
entre o álcool e a gasolina
entre a vida e a pantomima
quem de nós arriscará
uma outra alternativa
a essa altura?
que somos todos loucos
ninguém em sã consciência
se regraria dessa forma
sem saber afinal
para onde iremos
ninguém repetiria os mesmos passos
e aceitaria tão poucas escolhas
medicina engenharia arquitetura
música teatro escultura
homeopatia hipnose acupuntura
ninguém
a não ser por loucura
seria casado ou solteiro
trabalhador ou biscateiro
gremista ou colorado
entre londres e new york
entre o álcool e a gasolina
entre a vida e a pantomima
quem de nós arriscará
uma outra alternativa
a essa altura?
1 113
Martha Medeiros
aquele, porque é loiro
aquele, porque é loiro
o perto da janela, porque tem olhos profundos
o de amarelo, porque parece carente
ali atrás, de barba, porque me deu bola
o de jaqueta de couro, porque adorei a jaqueta
à minha esquerda, baixinho, porque eu também não sou alta
lá no fundo, cabisbaixo, por causa do silêncio
o que está fumando, porque tem conserto
o de aparelho nos dentes, porque
um dia ele tira
aquele meio careca, porque tem seu charme
o de camiseta rasgada, até mesmo esse
mira, todo homem é quase perfeito
o perto da janela, porque tem olhos profundos
o de amarelo, porque parece carente
ali atrás, de barba, porque me deu bola
o de jaqueta de couro, porque adorei a jaqueta
à minha esquerda, baixinho, porque eu também não sou alta
lá no fundo, cabisbaixo, por causa do silêncio
o que está fumando, porque tem conserto
o de aparelho nos dentes, porque
um dia ele tira
aquele meio careca, porque tem seu charme
o de camiseta rasgada, até mesmo esse
mira, todo homem é quase perfeito
987
Martha Medeiros
ainda que eu não tenha idade
ainda que eu não tenha idade
para sofrer por filhos que se foram
por doenças que vieram
por perdas e danos que sofremos
ainda que eu não precise
temer a morte que me espreita
os amigos que ficaram para trás
os desejos reprimidos para sempre
ainda que eu tenha tempo de sobra
não me resta mais sombra de dúvida
para sofrer por filhos que se foram
por doenças que vieram
por perdas e danos que sofremos
ainda que eu não precise
temer a morte que me espreita
os amigos que ficaram para trás
os desejos reprimidos para sempre
ainda que eu tenha tempo de sobra
não me resta mais sombra de dúvida
1 202
Martha Medeiros
solidão que tanto temem
solidão que tanto temem
que tanto ignoram o bem que faz
sozinha não minto, não finjo
não causo nenhum escarcéu
sozinha não maltrato, não disfarço
não há pesquisa que me sonde
sozinha não retruco, não provoco
não deixo ninguém sem resposta
sozinha não julgo nem condeno
não trato ninguém como réu
sozinha não grito, não rogo praga
não renego meu deleite
sozinha não trapaceio, não peco
não falto nem chego atrasada
sozinha não sumo, não volto
não tenho presença notada
sozinha eu sou quem eu posso
sozinha eu faço o que quero
sozinha não há céu que me rejeite
que tanto ignoram o bem que faz
sozinha não minto, não finjo
não causo nenhum escarcéu
sozinha não maltrato, não disfarço
não há pesquisa que me sonde
sozinha não retruco, não provoco
não deixo ninguém sem resposta
sozinha não julgo nem condeno
não trato ninguém como réu
sozinha não grito, não rogo praga
não renego meu deleite
sozinha não trapaceio, não peco
não falto nem chego atrasada
sozinha não sumo, não volto
não tenho presença notada
sozinha eu sou quem eu posso
sozinha eu faço o que quero
sozinha não há céu que me rejeite
1 097
Martha Medeiros
o amor
o amor
a gente espera
ele não vem
a gente busca
vem contrariado
deixa solto
vira refém
deixa preso
é amor obrigado
a gente libera
não vai além
a gente aprisiona
fica cansado
se deixa rolar
não pinta ninguém
o amor
a gente pensa que tem
a gente espera
ele não vem
a gente busca
vem contrariado
deixa solto
vira refém
deixa preso
é amor obrigado
a gente libera
não vai além
a gente aprisiona
fica cansado
se deixa rolar
não pinta ninguém
o amor
a gente pensa que tem
1 161
Martha Medeiros
não quero saber quantas namoradas
não quero saber quantas namoradas
que eu não descobri
silêncios e desvios que não percebi
nem quero saber
sobre aquele fim de semana que não te vi
do teu pouco caso com o meu sofrimento
de nenhum movimento a meu favor
de nenhum amor que eu me lembre
não quero saber
quantas mentiras pra me acalmar
quantos mares a navegar sem mim
que fim deram aqueles retratos
se aquele abraço era mesmo assim
não quero saber
quantos meses você me deixou
a delirar e quantos presentes me deu
sem escolher e quantos beijos foram dados
por dar
não quero saber dos requintes
de crueldade nem do momento
fatal
o que não se sabe
não faz mal
que eu não descobri
silêncios e desvios que não percebi
nem quero saber
sobre aquele fim de semana que não te vi
do teu pouco caso com o meu sofrimento
de nenhum movimento a meu favor
de nenhum amor que eu me lembre
não quero saber
quantas mentiras pra me acalmar
quantos mares a navegar sem mim
que fim deram aqueles retratos
se aquele abraço era mesmo assim
não quero saber
quantos meses você me deixou
a delirar e quantos presentes me deu
sem escolher e quantos beijos foram dados
por dar
não quero saber dos requintes
de crueldade nem do momento
fatal
o que não se sabe
não faz mal
1 117
Martha Medeiros
ele tinha acabado de dobrar a esquina
ele tinha acabado de dobrar a esquina
quando entrou numa livraria
eu estava saindo de uma loja de discos
onde havia escutado Schubert
ele escolhia um dicionário de rimas
mas estava incerto do que queria
eu parei diante da vitrine
mas estava incerta do que via
ele comprou o dicionário
quando o céu escureceu
eu entrei na livraria
quando a chuva começou
foi então que aconteceu
quando entrou numa livraria
eu estava saindo de uma loja de discos
onde havia escutado Schubert
ele escolhia um dicionário de rimas
mas estava incerto do que queria
eu parei diante da vitrine
mas estava incerta do que via
ele comprou o dicionário
quando o céu escureceu
eu entrei na livraria
quando a chuva começou
foi então que aconteceu
969
Martha Medeiros
tinha na época pouco mais que
tinha na época pouco mais que
treze mas já sabia que as pessoas
mentiam às vezes e intuía que meu
destino seria melancólico caso eu
não tomasse uma medida urgente
inventei então de ser alguém
que atravessaria paredes e
sem que ninguém percebesse
colheria dados para um poema
que um dia escreveria
mesmo que você não lesse
mas você está lendo e agora
sabe tudo a meu respeito, a dor
que trago, o amor que sinto, a
fera doce que satisfaz seu maior
instinto e que não conhece nenhum
retrato mais perfeito
treze mas já sabia que as pessoas
mentiam às vezes e intuía que meu
destino seria melancólico caso eu
não tomasse uma medida urgente
inventei então de ser alguém
que atravessaria paredes e
sem que ninguém percebesse
colheria dados para um poema
que um dia escreveria
mesmo que você não lesse
mas você está lendo e agora
sabe tudo a meu respeito, a dor
que trago, o amor que sinto, a
fera doce que satisfaz seu maior
instinto e que não conhece nenhum
retrato mais perfeito
1 107
Martha Medeiros
por mais que a tentação de repartir
por mais que a tentação de repartir
se faça persistente
não tente transmitir em apuros
o que só você sente
se faça persistente
não tente transmitir em apuros
o que só você sente
950
Martha Medeiros
tenho náuseas
tenho náuseas
e nostalgia
tomei uma aspirina
e a febre não passou
reli a tua carta
e quase morri de dor
e nostalgia
tomei uma aspirina
e a febre não passou
reli a tua carta
e quase morri de dor
1 094
Martha Medeiros
tá bom, eu confesso
tá bom, eu confesso
não amei muitos homens
conheci pouca gente
fui demitida três vezes
nada deu muito certo
perdi minhas amigas
nunca tive dinheiro
sou fogo de palha
mas não espalha que eu nego
não amei muitos homens
conheci pouca gente
fui demitida três vezes
nada deu muito certo
perdi minhas amigas
nunca tive dinheiro
sou fogo de palha
mas não espalha que eu nego
1 108
Martha Medeiros
ah, mas é muito fácil escrever sobre o mar
ah, mas é muito fácil escrever sobre o mar
diria alguém que nunca viu o mar como eu vi
que já nem era azul de tão profundo
que nem deste mundo parecia ser
e que nenhum mergulho conseguiria descrever
ah, mas falar sobre os pássaros até eu
diria alguém que nunca voou nem em sonhos
e que enxerga os limites que inventa
pois não há limites no ar
e na terra quem ousa limitar não voa mais
ah, mas rimar amor e dor quantos fizeram
diria alguém que fez também sem reparar
e que no ato de amar não atentou
para os mistérios e os nocautes que só a vida
com sabedoria faz rimar
diria alguém que nunca viu o mar como eu vi
que já nem era azul de tão profundo
que nem deste mundo parecia ser
e que nenhum mergulho conseguiria descrever
ah, mas falar sobre os pássaros até eu
diria alguém que nunca voou nem em sonhos
e que enxerga os limites que inventa
pois não há limites no ar
e na terra quem ousa limitar não voa mais
ah, mas rimar amor e dor quantos fizeram
diria alguém que fez também sem reparar
e que no ato de amar não atentou
para os mistérios e os nocautes que só a vida
com sabedoria faz rimar
1 299
Martha Medeiros
não tenho testemunhas
não tenho testemunhas
ninguém viu
aquele cara que me atropelou
e fugiu
ninguém viu
aquele cara que me atropelou
e fugiu
1 088
Martha Medeiros
tão urbana
tão urbana
de repente me falando
de galinhas, porcos, cavalos
fogos e figueiras
do ritual dos bois
no velório dos cachorros
no leite fresco
nas estrelas e nas primas
nos banquetes lá de fora
no frio, no vento
na emoção da natureza
andarilha
criança e nostálgica
romântica
verdadeira e surpreendente
minha mãe
de repente me falando
de galinhas, porcos, cavalos
fogos e figueiras
do ritual dos bois
no velório dos cachorros
no leite fresco
nas estrelas e nas primas
nos banquetes lá de fora
no frio, no vento
na emoção da natureza
andarilha
criança e nostálgica
romântica
verdadeira e surpreendente
minha mãe
668