Poemas neste tema
Alma
António Ramos Rosa
A Palavra
Eleva-se entre a espuma, verde e cristalina
e a alegria aviva-se em redonda ressonância.
O seu olhar é um sonho porque é um sopro indivisível
que reconhece e inventa a pluralidade delicada.
Ao longe e ao perto o horizonte treme entre os seus cílios.
Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo
da coisa nomeada. O rosto da terra se renova.
Ela aflui em círculos desagregando, construindo.
Um ouvido desperta no ouvido, uma língua na língua.
Sobre si enrola o anel nupcial do universo.
O gérmen amadurece no seu corpo nascente.
Nas palavras que diz pulsa o desejo do mundo.
Move-se aqui e agora entre contornos vivos.
Ignora, esquece, sabe, vive ao nível do universo.
Na sua simplicidade terrestre há um ardor soberano.
e a alegria aviva-se em redonda ressonância.
O seu olhar é um sonho porque é um sopro indivisível
que reconhece e inventa a pluralidade delicada.
Ao longe e ao perto o horizonte treme entre os seus cílios.
Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo
da coisa nomeada. O rosto da terra se renova.
Ela aflui em círculos desagregando, construindo.
Um ouvido desperta no ouvido, uma língua na língua.
Sobre si enrola o anel nupcial do universo.
O gérmen amadurece no seu corpo nascente.
Nas palavras que diz pulsa o desejo do mundo.
Move-se aqui e agora entre contornos vivos.
Ignora, esquece, sabe, vive ao nível do universo.
Na sua simplicidade terrestre há um ardor soberano.
1 104
António Ramos Rosa
O Círculo Cego
Uma linha expressa a cor e o som
das suas células. As palavras são pétalas
de pedra ou gotas do espaço. A chuva
levanta o mundo. Não há conhecimento
que mereça o nome do mais obscuro ruído.
O universo é mais lento e mais intenso.
Obscura luz obscura. Pirâmides de sombra.
Falamos com a respiração encerrada numa pedra
para que não se rompa o círculo cego.
Guia-nos a suave mão do vento.
Na brancura rápida há um tremor de gérmen.
Somos feridas vibrantes num jardim de veias.
Tocamos o rosto do ar e a suave lua de areia.
Uma aranha branca desenha um arco minucioso.
Esta é a pequena fonte junto a um arbusto resplandecente.
das suas células. As palavras são pétalas
de pedra ou gotas do espaço. A chuva
levanta o mundo. Não há conhecimento
que mereça o nome do mais obscuro ruído.
O universo é mais lento e mais intenso.
Obscura luz obscura. Pirâmides de sombra.
Falamos com a respiração encerrada numa pedra
para que não se rompa o círculo cego.
Guia-nos a suave mão do vento.
Na brancura rápida há um tremor de gérmen.
Somos feridas vibrantes num jardim de veias.
Tocamos o rosto do ar e a suave lua de areia.
Uma aranha branca desenha um arco minucioso.
Esta é a pequena fonte junto a um arbusto resplandecente.
1 137
António Ramos Rosa
A Casa do Mar
Esta é a casa na areia incerta e fresca.
Um rio a atravessa no coração dos nomes.
Quantas pedras sólidas, quantas arestas vivas!
Enlaço-te na frescura das folhas que estremecem.
Nas cavernas de sombras há um odor a chuva e vento.
Uma sílaba no silêncio, uma sílaba vermelha
como se o coração batesse no coração da noite.
Quantos rostos habitam uma só face imóvel,
quanta invenção de espuma nas bocas distraídas!
A minha pele grita o ardor de uma frase única.
Cada coisa cintila na pupila luminosa
abrindo em música o sítio do abandono.
As veias das pétalas são palavras minúsculas.
A sombra se conhece em redonda suavidade.
A escrita respira onde o mar principia.
Um rio a atravessa no coração dos nomes.
Quantas pedras sólidas, quantas arestas vivas!
Enlaço-te na frescura das folhas que estremecem.
Nas cavernas de sombras há um odor a chuva e vento.
Uma sílaba no silêncio, uma sílaba vermelha
como se o coração batesse no coração da noite.
Quantos rostos habitam uma só face imóvel,
quanta invenção de espuma nas bocas distraídas!
A minha pele grita o ardor de uma frase única.
Cada coisa cintila na pupila luminosa
abrindo em música o sítio do abandono.
As veias das pétalas são palavras minúsculas.
A sombra se conhece em redonda suavidade.
A escrita respira onde o mar principia.
1 083
António Ramos Rosa
A Mulher Feliz
Está de pé sobre as brancas dunas. As ondas conduziram-na
e os ventos empurraram-na. Está ali, na perfeição redonda
da oferenda. E como que adormece no esplendor sereno.
Diz luz porque diz agora e és tu e sou eu, num círculo
só. Está embriagada de ar como uma forte lâmpada.
É uma área de equilíbrio, de movimentos flexíveis,
um repouso incendiado, a vitória de uma pedra.
Abrem-se fundas águas e um novo fogo aparece.
Que lentas são as folhas largas e as areias!
Que denso é este corpo, esta lua de argila!
Nua como uma pedra ardente, mais do que uma promessa
fulgurante, a amorosa presença de uma mulher feliz.
Nela dormem os pássaros, dormem os nomes puros.
Agora crepita a noite, as línguas que circulam.
Crescem, crescem os músculos da mais íntima distância.
e os ventos empurraram-na. Está ali, na perfeição redonda
da oferenda. E como que adormece no esplendor sereno.
Diz luz porque diz agora e és tu e sou eu, num círculo
só. Está embriagada de ar como uma forte lâmpada.
É uma área de equilíbrio, de movimentos flexíveis,
um repouso incendiado, a vitória de uma pedra.
Abrem-se fundas águas e um novo fogo aparece.
Que lentas são as folhas largas e as areias!
Que denso é este corpo, esta lua de argila!
Nua como uma pedra ardente, mais do que uma promessa
fulgurante, a amorosa presença de uma mulher feliz.
Nela dormem os pássaros, dormem os nomes puros.
Agora crepita a noite, as línguas que circulam.
Crescem, crescem os músculos da mais íntima distância.
1 262
António Ramos Rosa
O Leitor
Alguém diz procura, procura a ligeireza
e o repouso das árvores, a água das vogais.
Afirma e nega a noite, abre e cerra os olhos,
vê as brilhantes partículas de poeira.
Reconhece os sentidos, os cintilantes livros.
Cálida respiração de uma colina, óleo
da lua na alcova das pálpebras, olho
que dissolve os espelhos, que abre a boca
das grutas: aparição sem nome
de alguém que é apenas sombra e folhas.
Não há ninguém no quarto subterrâneo,
ninguém, ninguém, ó caracol dos ecos,
ninguém a não ser esta lâmpada sonolenta,
esta escrita dos teus olhos viajantes
nas páginas onde cai a oblíqua sombra.
e o repouso das árvores, a água das vogais.
Afirma e nega a noite, abre e cerra os olhos,
vê as brilhantes partículas de poeira.
Reconhece os sentidos, os cintilantes livros.
Cálida respiração de uma colina, óleo
da lua na alcova das pálpebras, olho
que dissolve os espelhos, que abre a boca
das grutas: aparição sem nome
de alguém que é apenas sombra e folhas.
Não há ninguém no quarto subterrâneo,
ninguém, ninguém, ó caracol dos ecos,
ninguém a não ser esta lâmpada sonolenta,
esta escrita dos teus olhos viajantes
nas páginas onde cai a oblíqua sombra.
603
António Ramos Rosa
Desperta a Nudez
Desperta a nudez espalha-se o silêncio
e a nostalgia acende-se como uma sombra clara.
Tudo o que vemos é longe entre margens de sono.
Arde e repousa a casa numa frescura imensa.
Inclinam-se os campos à memória mais antiga.
É a ausência que sabe em transparência líquida
a ternura mais funda das águas esquecidas.
Que júbilo de lâmpadas, de ervas e de rodas
brancas nos caminhos, que frescura tão limpa!
A solidão levanta os ombros e carrega
os volumes vazios da agonia. Toda a substância
se aligeira e desnuda na espessura.
Ver é quase nascer e ver ondear o vento.
Há uma presença branca de uma nuvem esquecida.
Alto, uma linha de silêncio se ilumina.
e a nostalgia acende-se como uma sombra clara.
Tudo o que vemos é longe entre margens de sono.
Arde e repousa a casa numa frescura imensa.
Inclinam-se os campos à memória mais antiga.
É a ausência que sabe em transparência líquida
a ternura mais funda das águas esquecidas.
Que júbilo de lâmpadas, de ervas e de rodas
brancas nos caminhos, que frescura tão limpa!
A solidão levanta os ombros e carrega
os volumes vazios da agonia. Toda a substância
se aligeira e desnuda na espessura.
Ver é quase nascer e ver ondear o vento.
Há uma presença branca de uma nuvem esquecida.
Alto, uma linha de silêncio se ilumina.
1 099
António Ramos Rosa
Um País, Um Poema
Um país se delimita nas mudanças do vento.
Labirinto ou fábrica de espumas sempre aberta.
Sinuosas continuidades, dunas de pensamento,
por vezes um abrigo, ninho de primavera,
por vezes um polvo ardendo nas areias.
Sobre uma espádua escrevo e no tremor de um corpo
cintilam os animais. Este é o âmbito destinado
em inteira nudez de forma e vida.
Desperto estou em ti movido pela luz
numa terra imóvel, liso como uma folha leve.
Um país se delimita e são vocábulos e pedras,
maciços obscuros, pátria de tantos rumores,
lenta germinação de lâmpadas de terra.
Um poema oculta a metáfora de si mesmo
no seu sopro e em nenhum saber culmina.
Labirinto ou fábrica de espumas sempre aberta.
Sinuosas continuidades, dunas de pensamento,
por vezes um abrigo, ninho de primavera,
por vezes um polvo ardendo nas areias.
Sobre uma espádua escrevo e no tremor de um corpo
cintilam os animais. Este é o âmbito destinado
em inteira nudez de forma e vida.
Desperto estou em ti movido pela luz
numa terra imóvel, liso como uma folha leve.
Um país se delimita e são vocábulos e pedras,
maciços obscuros, pátria de tantos rumores,
lenta germinação de lâmpadas de terra.
Um poema oculta a metáfora de si mesmo
no seu sopro e em nenhum saber culmina.
1 169
António Ramos Rosa
Falo de Um Desequilíbrio
Falo de um desequilíbrio gracioso
de um corpo. Linhas que se desagregam quase
unidas, na violência da sombra, por um raio de sol.
Pressinto a terra da minha sede, a terra do meu desejo,
escura, saborosa. E falo aqui da noite
e da figura frágil que eu amo, o seu espaço
que ignoro, o seu quarto intacto, o seu odor de rapariga.
Estes traços são negros como árvores. Uma parede
abriu-me os olhos: vejo linhas que dançam e brilham,
segredos que cintilam, sopros cegos, vocábulos da terra.
Oscilante, sempre, uma figura está entre as árvores, triste.
Que sei eu destas pétalas, destes pulsos, desta água?
Há uma felicidade fulgurante na sua nostalgia.
Eu desejo as palavras das suas fibras, a saliva da sua língua.
Desejaria habitar o seu caminho, bater à sua porta.
Eu não pertenço a nenhum reino, sou uma árvore
que não sabe ser imóvel para estar em tudo.
Sou esta mão que procura as evidências mais simples.
A figura amanhece entre oblíquas brisas, solitária.
Nada obscurece o canto da água nem as mãos antigas.
de um corpo. Linhas que se desagregam quase
unidas, na violência da sombra, por um raio de sol.
Pressinto a terra da minha sede, a terra do meu desejo,
escura, saborosa. E falo aqui da noite
e da figura frágil que eu amo, o seu espaço
que ignoro, o seu quarto intacto, o seu odor de rapariga.
Estes traços são negros como árvores. Uma parede
abriu-me os olhos: vejo linhas que dançam e brilham,
segredos que cintilam, sopros cegos, vocábulos da terra.
Oscilante, sempre, uma figura está entre as árvores, triste.
Que sei eu destas pétalas, destes pulsos, desta água?
Há uma felicidade fulgurante na sua nostalgia.
Eu desejo as palavras das suas fibras, a saliva da sua língua.
Desejaria habitar o seu caminho, bater à sua porta.
Eu não pertenço a nenhum reino, sou uma árvore
que não sabe ser imóvel para estar em tudo.
Sou esta mão que procura as evidências mais simples.
A figura amanhece entre oblíquas brisas, solitária.
Nada obscurece o canto da água nem as mãos antigas.
1 092
António Ramos Rosa
Os Campos Paralelos
Que chuvas despertam os campos paralelos?
Onde a pátria do corpo, a pantera do ar
delicioso? A realidade apaga as suas lâmpadas.
Resta uma estrela sem fogo, o abismo das moscas.
O corpo compreende o que significa ser corpo?
Num crepitar de gozo, sobre a impassível superfície
branca, inclino-me para a chama que se levanta
como um pássaro vigilante. Todas as feridas se iluminam.
Surgem formas nos seus nítidos contornos sossegados.
As corolas do ar voltijam num súbito esplendor.
Sei onde aguardar agora amorosamente
o barco que passa para o outro lado do rio.
Quero levantar a casa transparente sobre a água.
Quero conhecer o ar e o sexo de relâmpago
e barro. Quero ser um sopro da unidade perdida.
Onde a pátria do corpo, a pantera do ar
delicioso? A realidade apaga as suas lâmpadas.
Resta uma estrela sem fogo, o abismo das moscas.
O corpo compreende o que significa ser corpo?
Num crepitar de gozo, sobre a impassível superfície
branca, inclino-me para a chama que se levanta
como um pássaro vigilante. Todas as feridas se iluminam.
Surgem formas nos seus nítidos contornos sossegados.
As corolas do ar voltijam num súbito esplendor.
Sei onde aguardar agora amorosamente
o barco que passa para o outro lado do rio.
Quero levantar a casa transparente sobre a água.
Quero conhecer o ar e o sexo de relâmpago
e barro. Quero ser um sopro da unidade perdida.
567
António Ramos Rosa
Entre Pequenos Tumultos Brancos
Entre pequenos tumultos brancos, entre os cabelos do ar,
dentro de uma membrana verde, contra um peito redondo,
entre lâmpadas veladas, entre murmúrios do mar,
acaricio um corpo, uma árvore de argila,
ou a serpente do verão ou uma chama de vento.
A pedra pulsa no fundo, há uma escada que desce
para uma varanda branca. A terra volta a amanhecer
com a cabeça incendiada. Os barcos do vento
seguem entre as árvores, os armários do mar
soltam os seus pássaros verdes. Desperto transparente
e nu. Onde o abrigo? O abrigo do vento
é uma folha de vento. Quem se perde entre a folhagem,
entre as dunas, entre as ondas? Vou transformando a pedra
em bosque, vou abrindo os sulcos
das palavras em carícias de água libertada.
dentro de uma membrana verde, contra um peito redondo,
entre lâmpadas veladas, entre murmúrios do mar,
acaricio um corpo, uma árvore de argila,
ou a serpente do verão ou uma chama de vento.
A pedra pulsa no fundo, há uma escada que desce
para uma varanda branca. A terra volta a amanhecer
com a cabeça incendiada. Os barcos do vento
seguem entre as árvores, os armários do mar
soltam os seus pássaros verdes. Desperto transparente
e nu. Onde o abrigo? O abrigo do vento
é uma folha de vento. Quem se perde entre a folhagem,
entre as dunas, entre as ondas? Vou transformando a pedra
em bosque, vou abrindo os sulcos
das palavras em carícias de água libertada.
548
António Ramos Rosa
Caminhar Através de Corredores Intermináveis
Caminhar através de corredores intermináveis
brancos
Caminhar entre paredes lisas brancas
sem que nenhuma porta se abra sem que
nenhuma luz me ilumine
a não ser esta
sem sombra
sem origem
Quartos vazios amplos e vazios
mas sem dimensões concretas corredores
paredes brancas
o lugar está exposto
com uma evidência violenta irrecusável
Uma figura surge no centro de uma sala
É a mesma de outrora
e é a única aqui neste momento
De pé e destroçada ela vacila
É preciso desenhá-la, fixá-la talvez
A imagem repercute-se
no espelho
É este o corpo idêntico nu e nulo?
A figura desvanece-se por ser tão só imagem?
Próximo o lugar ausente reflexos Não são
palavras Neste momento surgem espaços
profundidades manchas cintilantes
Clareiras
brancos
Caminhar entre paredes lisas brancas
sem que nenhuma porta se abra sem que
nenhuma luz me ilumine
a não ser esta
sem sombra
sem origem
Quartos vazios amplos e vazios
mas sem dimensões concretas corredores
paredes brancas
o lugar está exposto
com uma evidência violenta irrecusável
Uma figura surge no centro de uma sala
É a mesma de outrora
e é a única aqui neste momento
De pé e destroçada ela vacila
É preciso desenhá-la, fixá-la talvez
A imagem repercute-se
no espelho
É este o corpo idêntico nu e nulo?
A figura desvanece-se por ser tão só imagem?
Próximo o lugar ausente reflexos Não são
palavras Neste momento surgem espaços
profundidades manchas cintilantes
Clareiras
665
António Ramos Rosa
Onde a Terra Será Branca
Onde a terra será branca. Num domínio
oblíquo. A liberdade silenciosa.
Lábios iluminados. Dedos quase felizes.
Um volume verde, a narrativa quase exacta.
Espaço e corpo no interior das linhas.
Que suave aventura descansar dentro de um corpo!
Com o ouvido no vento, com o coração no escuro,
digo o nome do indizível, sigo um fluxo
de minúsculas coisas, uma música de insectos.
O ar tornou-se branco através do silêncio.
Como uma mulher aberta, o poema é um pomar.
A terra inteira resplandece como um fruto.
Tudo parece imóvel como uma árvore transparente.
O tempo abriu espaços entre os muros.
Somos a incessante luz na água azul.
oblíquo. A liberdade silenciosa.
Lábios iluminados. Dedos quase felizes.
Um volume verde, a narrativa quase exacta.
Espaço e corpo no interior das linhas.
Que suave aventura descansar dentro de um corpo!
Com o ouvido no vento, com o coração no escuro,
digo o nome do indizível, sigo um fluxo
de minúsculas coisas, uma música de insectos.
O ar tornou-se branco através do silêncio.
Como uma mulher aberta, o poema é um pomar.
A terra inteira resplandece como um fruto.
Tudo parece imóvel como uma árvore transparente.
O tempo abriu espaços entre os muros.
Somos a incessante luz na água azul.
1 013
António Ramos Rosa
Onde As Águas
Onde as águas se sublevam inesperadas, brancas
num prodigioso silêncio. É a visão mais viva,
a mais violenta e mais suave, quase imperceptível.
Respiramos o ar na incandescência calma.
A boca desliza sem verdades, livre nas evidências.
A luz é vagarosa, vemos como animais
através da água. As coisas têm a cor do sangue
ou da sombra. Cada forma difunde o seu silêncio.
Todos os corpos são formosos como criações repentinas.
Respiro na corola imensa todo o azul aberto.
Tanto azul, tanta brancura! Aqui é um templo
natural. Tudo pulsa num nítido tremor.
Corpo com um odor a terra, corpo desperto, alegre.
Os ombros inclinam-se ao rumor da confiança.
As bocas iluminam-se nas lúcidas colinas.
num prodigioso silêncio. É a visão mais viva,
a mais violenta e mais suave, quase imperceptível.
Respiramos o ar na incandescência calma.
A boca desliza sem verdades, livre nas evidências.
A luz é vagarosa, vemos como animais
através da água. As coisas têm a cor do sangue
ou da sombra. Cada forma difunde o seu silêncio.
Todos os corpos são formosos como criações repentinas.
Respiro na corola imensa todo o azul aberto.
Tanto azul, tanta brancura! Aqui é um templo
natural. Tudo pulsa num nítido tremor.
Corpo com um odor a terra, corpo desperto, alegre.
Os ombros inclinam-se ao rumor da confiança.
As bocas iluminam-se nas lúcidas colinas.
1 193
António Ramos Rosa
Figuras
Delícia dos movimentos calmos, ecos
talvez de um sonho, mas figuras tão vivas
com as suas espáduas largas e vazias.
Corpos sem sombras entre a chama e o vento.
Adormecem no ar, navegam sem navios.
Não vivem no mar mas na ausência que é o mar
quando a palavra o diz. Não estão no bosque
mas na folha que escrevo. Chega a noite das árvores
em que eles são no silêncio uma folhagem de olhos.
Não murmuram sequer, na mais pura cadência.
Escrevo a lentidão das figuras serenas
que respiram na tranquila nitidez aérea.
Os nomes dão-lhes vida sem caminhos prévios.
No vazio do desejo se acende o seu fulgor.
Estão no nosso estar de campos sossegados.
talvez de um sonho, mas figuras tão vivas
com as suas espáduas largas e vazias.
Corpos sem sombras entre a chama e o vento.
Adormecem no ar, navegam sem navios.
Não vivem no mar mas na ausência que é o mar
quando a palavra o diz. Não estão no bosque
mas na folha que escrevo. Chega a noite das árvores
em que eles são no silêncio uma folhagem de olhos.
Não murmuram sequer, na mais pura cadência.
Escrevo a lentidão das figuras serenas
que respiram na tranquila nitidez aérea.
Os nomes dão-lhes vida sem caminhos prévios.
No vazio do desejo se acende o seu fulgor.
Estão no nosso estar de campos sossegados.
1 200
António Ramos Rosa
Algo Se Precipita Ou Se Afasta
Algo se precipita ou se afasta
árvores que sobrevivem obscuras
não há ponte entre uma frase e outra
um cão vigia ou sonha no silêncio das ruas
no interior do texto
ela desloca-se
uma dupla superfície define o espaço
não há identidade entre o texto e a leitura
tudo é outro e outro
o que se repete é diferente e o diferente é o mesmo
Não é ainda o silêncio: espero pelas figuras
é antes um rumor o ruído de um organismo
um funcionamento obstinado e anónimo
eis a diferença a precária tensão que segrega o visível
Onde encontrar a figura senão nos interstícios
Ignoro se posso penetrar nessa zona proibida
Sei que alguém escreveu: «a impregnação de um sangue
oculto antes da ferida que abre a superfície»
A imagem aqui seria
a dança das figuras
Não se sabe ainda
a que fim se destinam tantos gestos lentos
palavras segregadas
frases inacabadas que se dirigem talvez a todos
olhares de súbito fixos
confundidos pelo mesmo desejo de uma semelhança
anónima e alheia
Não é a dança ainda
mas é como se fosse começar
árvores que sobrevivem obscuras
não há ponte entre uma frase e outra
um cão vigia ou sonha no silêncio das ruas
no interior do texto
ela desloca-se
uma dupla superfície define o espaço
não há identidade entre o texto e a leitura
tudo é outro e outro
o que se repete é diferente e o diferente é o mesmo
Não é ainda o silêncio: espero pelas figuras
é antes um rumor o ruído de um organismo
um funcionamento obstinado e anónimo
eis a diferença a precária tensão que segrega o visível
Onde encontrar a figura senão nos interstícios
Ignoro se posso penetrar nessa zona proibida
Sei que alguém escreveu: «a impregnação de um sangue
oculto antes da ferida que abre a superfície»
A imagem aqui seria
a dança das figuras
Não se sabe ainda
a que fim se destinam tantos gestos lentos
palavras segregadas
frases inacabadas que se dirigem talvez a todos
olhares de súbito fixos
confundidos pelo mesmo desejo de uma semelhança
anónima e alheia
Não é a dança ainda
mas é como se fosse começar
1 033
António Ramos Rosa
Mediadora Iminente Ii
Tensa, finíssima trama,
soberana fugidia.
Jamais figura, esparsa
em sua fugaz nebulosa.
Recessos de alto silêncio.
Rigor do indiscernível
num movimento sem nome.
Quase são dardos de espuma.
Trémula em fogos minúsculos,
mas ausente. Talvez esboce
um corpo minucioso?
As veias vibram. Mas quando?
No mais íntimo do espaço
no fulgor do seu vagar
suspensa está sem presença.
E o mundo não principia?
soberana fugidia.
Jamais figura, esparsa
em sua fugaz nebulosa.
Recessos de alto silêncio.
Rigor do indiscernível
num movimento sem nome.
Quase são dardos de espuma.
Trémula em fogos minúsculos,
mas ausente. Talvez esboce
um corpo minucioso?
As veias vibram. Mas quando?
No mais íntimo do espaço
no fulgor do seu vagar
suspensa está sem presença.
E o mundo não principia?
1 023
António Ramos Rosa
O Corpo Fugitivo
Avanço ou não avanço. Nada muda.
O fulgor de um animal furta-se aos sinais.
Violentos raios sinuosos, pulsações
de uma trama verde ilimitada.
Separar. Dizer. A noite cintilante.
O sopro incerto prepara um outro corpo
na deriva do fogo que corre em águas negras.
Vegetais se desenham as manchas mais escuras.
Em traços verticais compõe-se a transparência.
De uma frase a outra respiro o ar da ferida.
Membro a membro toco o corpo que inicio
no desejo de chegar ao vivo, num trabalho líquido.
É o mundo que se esvai, o corpo fugitivo,
todo o amor nos olhos claros se incendeia,
a altura arde, a nudez é imensa.
O fulgor de um animal furta-se aos sinais.
Violentos raios sinuosos, pulsações
de uma trama verde ilimitada.
Separar. Dizer. A noite cintilante.
O sopro incerto prepara um outro corpo
na deriva do fogo que corre em águas negras.
Vegetais se desenham as manchas mais escuras.
Em traços verticais compõe-se a transparência.
De uma frase a outra respiro o ar da ferida.
Membro a membro toco o corpo que inicio
no desejo de chegar ao vivo, num trabalho líquido.
É o mundo que se esvai, o corpo fugitivo,
todo o amor nos olhos claros se incendeia,
a altura arde, a nudez é imensa.
1 036
António Ramos Rosa
No Centro da Aparência
Repousa no espaço de um olhar. O ar dança na rua.
Sombras e ruídos. As árvores têm uma idade clara.
Vagarosa persistência, a alguns metros do solo.
O enigma está vivo no centro da aparência.
Uma criança designa o mar. Alguém traz uma folha.
Alguém compreende a sede de uma pedra?
Quem estuda a felicidade? Quem define um jardim?
Que linguagem é a do espaço? O que é o sal da sombra?
Esquecemos a linguagem do vento e do vazio.
Nunca houve um encontro. Quando será o início?
Vejo a folhagem e os frutos da distância.
Olho longamente até ao cimo da ternura.
Vivo na luz extrema em todas as direcções.
O pequeno e o grande conjugam-se, consagram-se.
Canto na luz suave e bebo o espaço.
Sombras e ruídos. As árvores têm uma idade clara.
Vagarosa persistência, a alguns metros do solo.
O enigma está vivo no centro da aparência.
Uma criança designa o mar. Alguém traz uma folha.
Alguém compreende a sede de uma pedra?
Quem estuda a felicidade? Quem define um jardim?
Que linguagem é a do espaço? O que é o sal da sombra?
Esquecemos a linguagem do vento e do vazio.
Nunca houve um encontro. Quando será o início?
Vejo a folhagem e os frutos da distância.
Olho longamente até ao cimo da ternura.
Vivo na luz extrema em todas as direcções.
O pequeno e o grande conjugam-se, consagram-se.
Canto na luz suave e bebo o espaço.
1 025
António Ramos Rosa
Fronteiras Não Fronteiras
As fronteiras são estas não fronteiras.
No fundo, sempre, um elemento de negra exaltação.
Mas também o espaço, o círculo intacto
em que a beleza do mundo se oferece à superfície.
Imolam-se os sinais rígidos, arqueiam-se as hastes luminosas
e a fábula imediata brilha nas perspectivas.
O vento imita as árvores, o corpo imita o vento.
Onde está o fim das coisas? Livre, livre é o espaço.
Onde estamos é um movimento leve e rápido.
O que dizemos é uma vibração do mundo.
O sim das árvores e dos caminhos, o sim do vento,
o sim do corpo, o sim do espaço, o sim da língua,
são páginas e páginas de ar leve e de silêncio
e de um fogo que nasce, na imóvel velocidade,
em que se adere ao mundo como a um corpo amado.
No fundo, sempre, um elemento de negra exaltação.
Mas também o espaço, o círculo intacto
em que a beleza do mundo se oferece à superfície.
Imolam-se os sinais rígidos, arqueiam-se as hastes luminosas
e a fábula imediata brilha nas perspectivas.
O vento imita as árvores, o corpo imita o vento.
Onde está o fim das coisas? Livre, livre é o espaço.
Onde estamos é um movimento leve e rápido.
O que dizemos é uma vibração do mundo.
O sim das árvores e dos caminhos, o sim do vento,
o sim do corpo, o sim do espaço, o sim da língua,
são páginas e páginas de ar leve e de silêncio
e de um fogo que nasce, na imóvel velocidade,
em que se adere ao mundo como a um corpo amado.
934
António Ramos Rosa
Corpo de Argila
Aqui, para que se abram os poros na floresta.
Aqui o verde incendeia-se, os muros tornam-se aéreos.
Tudo é liso e nítido na grande folha do dia.
A terra mostra as fibras castanhas e vermelhas.
Um pássaro pousou algures na proa de uma pedra.
A ignorância, a inocência mais completa, mais nua.
Acaricio as lâmpadas do corpo vegetal,
sulcos que não conheço, portas leves e verdes
de uma casa nua, o aroma do sono,
os simples sortilégios que se lêem nas árvores.
Algo nos cria e nos liberta dos absurdos cercos.
Despertámos para tocar a boca esquecida pela noite.
Somos a folhagem e o espaço, somos uma garganta fresca.
As sombras aquecem-nos e as estrelas visitam-nos.
O meu corpo é de argila estou vivo e aceito o dia.
Aqui o verde incendeia-se, os muros tornam-se aéreos.
Tudo é liso e nítido na grande folha do dia.
A terra mostra as fibras castanhas e vermelhas.
Um pássaro pousou algures na proa de uma pedra.
A ignorância, a inocência mais completa, mais nua.
Acaricio as lâmpadas do corpo vegetal,
sulcos que não conheço, portas leves e verdes
de uma casa nua, o aroma do sono,
os simples sortilégios que se lêem nas árvores.
Algo nos cria e nos liberta dos absurdos cercos.
Despertámos para tocar a boca esquecida pela noite.
Somos a folhagem e o espaço, somos uma garganta fresca.
As sombras aquecem-nos e as estrelas visitam-nos.
O meu corpo é de argila estou vivo e aceito o dia.
1 139
António Ramos Rosa
Mediadora Vazia
Já deslembrada, perdida
na agonia da sede.
Obscura e sem lugar
morta vivendo em luz cega.
Sempre a areia do deserto
e calcinadas as frases
sem lucidez nem repouso,
imagens despedaçadas.
Qual o último país?
Qual o silêncio do mar?
Do seu nulo amor errante
resta o seu halo inquieto.
Era um secreto jardim
de obscura transparência,
era um corpo, era um recinto
de silenciosa alegria.
Ausência, menos que água,
estrangeira e solitária,
busca a esfera azul e limpa,
a nitidez de um lugar.
Amante escura, longínqua,
que pátria no seu desterro,
que presságio de sossego,
que dom impossível tem?
Sua viagem é um exílio
no vazio transparente
onde cristal não cintila
nem um liso mundo gira.
Só no ardor se ultrapassa
e vibra já sem fronteiras,
a derradeira, a primeira,
num sopro que inscreve a vida.
na agonia da sede.
Obscura e sem lugar
morta vivendo em luz cega.
Sempre a areia do deserto
e calcinadas as frases
sem lucidez nem repouso,
imagens despedaçadas.
Qual o último país?
Qual o silêncio do mar?
Do seu nulo amor errante
resta o seu halo inquieto.
Era um secreto jardim
de obscura transparência,
era um corpo, era um recinto
de silenciosa alegria.
Ausência, menos que água,
estrangeira e solitária,
busca a esfera azul e limpa,
a nitidez de um lugar.
Amante escura, longínqua,
que pátria no seu desterro,
que presságio de sossego,
que dom impossível tem?
Sua viagem é um exílio
no vazio transparente
onde cristal não cintila
nem um liso mundo gira.
Só no ardor se ultrapassa
e vibra já sem fronteiras,
a derradeira, a primeira,
num sopro que inscreve a vida.
1 074
António Ramos Rosa
Agora Que a Água É Clara E o Vento Livre
Agora que a água é clara e o vento livre
atiro esta cega flecha sobre o teu dorso
Tu dormes entre caminhos e sombras
e bebes as luzes da terra como um cavalo selvagem
Ouço um clamor na escada e há um gesto esquecido
não vejo no mar senão um navio silencioso
Tuas palavras seriam as sombras musicais
enquanto a minha mão se agita como uma chama
Há um massacre de insectos no metal negro do teu sangue
Tu és mais do que a virgem a imperceptível coluna
Distingo ainda teus olhos semicerrados entre as pedras
Suspenso de ti da tua distância desço à tua seiva
Sou um animal moribundo uivando silencioso
A minha morte nasce do teu olhar Morro de te ver
Interrompo os teus olhos Sou uma sombra interminável
Desapareço sempre que te levantas entre as ervas
Afasto-me para dar lugar à sombra de um cavalo
Por vezes o teu silêncio desperta sobre o mar
e vivo nas tuas mãos um sono maternal
Mas agora sou tão escuro como um pedaço de terra
Algum cão ladra às tuas pernas de deusa
Se eu te fizesse gritar acertando em tuas coxas
com estas cegas flechas ó branca sombra da noite!
atiro esta cega flecha sobre o teu dorso
Tu dormes entre caminhos e sombras
e bebes as luzes da terra como um cavalo selvagem
Ouço um clamor na escada e há um gesto esquecido
não vejo no mar senão um navio silencioso
Tuas palavras seriam as sombras musicais
enquanto a minha mão se agita como uma chama
Há um massacre de insectos no metal negro do teu sangue
Tu és mais do que a virgem a imperceptível coluna
Distingo ainda teus olhos semicerrados entre as pedras
Suspenso de ti da tua distância desço à tua seiva
Sou um animal moribundo uivando silencioso
A minha morte nasce do teu olhar Morro de te ver
Interrompo os teus olhos Sou uma sombra interminável
Desapareço sempre que te levantas entre as ervas
Afasto-me para dar lugar à sombra de um cavalo
Por vezes o teu silêncio desperta sobre o mar
e vivo nas tuas mãos um sono maternal
Mas agora sou tão escuro como um pedaço de terra
Algum cão ladra às tuas pernas de deusa
Se eu te fizesse gritar acertando em tuas coxas
com estas cegas flechas ó branca sombra da noite!
1 171
António Ramos Rosa
As Figuras do Espaço
Mais próximo de uma simples coisa diminuta.
Um domínio interior de silêncio e frescura.
Vejo com nitidez os tímidos animais,
os pequenos buracos, as folhas vagarosas,
o ligeiro movimento da água nas veredas.
Na evidência da luz em sílabas aéreas
as formas naturais propagam o desejo.
O vento é um vagar, facilidade pura.
Estou numa onda serena e abraço todo o espaço.
Que raízes procuro, que obscura flor ainda?
O que nos diz a sombra, o que nos diz o silêncio?
São palavras aéreas? São as figuras do espaço
tranquilas e longínquas? Uma única boca para o vento,
uma sílaba clara, uma ressonância calma
em volúveis vogais na ausência dos caminhos.
Um domínio interior de silêncio e frescura.
Vejo com nitidez os tímidos animais,
os pequenos buracos, as folhas vagarosas,
o ligeiro movimento da água nas veredas.
Na evidência da luz em sílabas aéreas
as formas naturais propagam o desejo.
O vento é um vagar, facilidade pura.
Estou numa onda serena e abraço todo o espaço.
Que raízes procuro, que obscura flor ainda?
O que nos diz a sombra, o que nos diz o silêncio?
São palavras aéreas? São as figuras do espaço
tranquilas e longínquas? Uma única boca para o vento,
uma sílaba clara, uma ressonância calma
em volúveis vogais na ausência dos caminhos.
1 047
António Ramos Rosa
Omnipresença Imediata
Ela é nuvem, omnipresença imediata,
a mais viva, a mais próxima, imperceptível,
sem contornos e sem caos, a mais antiga
e a mais nova, em suave movimento,
omnipresença do ar, infância leve,
profusão inicial que o olhar não capta,
sempre feliz e aérea, mas quem a vê, quem a demora?
Ó atenção inocente e amorosamente desarmada!
Todos os vivos se inspiram deste sopro que ilumina
e que consagra o solo antes que os deuses cheguem.
E todavia, nenhum abrigo. Imprevisível, livre,
não ouve de nenhuma boca o seu caminho.
Não força nenhum obstáculo, obedece à gravidade
de forças puras. Amplitude sem reserva,
o seu canto irriga obscuramente o mundo.
a mais viva, a mais próxima, imperceptível,
sem contornos e sem caos, a mais antiga
e a mais nova, em suave movimento,
omnipresença do ar, infância leve,
profusão inicial que o olhar não capta,
sempre feliz e aérea, mas quem a vê, quem a demora?
Ó atenção inocente e amorosamente desarmada!
Todos os vivos se inspiram deste sopro que ilumina
e que consagra o solo antes que os deuses cheguem.
E todavia, nenhum abrigo. Imprevisível, livre,
não ouve de nenhuma boca o seu caminho.
Não força nenhum obstáculo, obedece à gravidade
de forças puras. Amplitude sem reserva,
o seu canto irriga obscuramente o mundo.
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