Poemas neste tema
Alma
António Ramos Rosa
66. Arma de Folhas E de Folhas
66
Arma de folhas e de folhas
sobre o seio nu
na folha transparente.
O animal suspenso
pela forma do fruto incandescente
brilhando e fugindo entre a folhagem
ou o sangue fugitivo na praia do teu peito.
Na erva, ausente, respiro o ar da erva
busco a arma de folhas numa sombra
transparente que é o desenho das armas do teu peito.
Arma de folhas e de folhas
sobre o seio nu
na folha transparente.
O animal suspenso
pela forma do fruto incandescente
brilhando e fugindo entre a folhagem
ou o sangue fugitivo na praia do teu peito.
Na erva, ausente, respiro o ar da erva
busco a arma de folhas numa sombra
transparente que é o desenho das armas do teu peito.
1 111
António Ramos Rosa
54. Os Aspectos da Figura Livre
54
Os aspectos da figura livre
nos quartos claros e sombrios
fragmentos flagrantes
da forma — incandescência breve.
Queda de conjuntos e do grito
no espelho — negação no vidro
água de outro copo e negação do copo.
Às apagadas pernas e às pedras
junta-se a terra dos nomes e sem nome
desce-se pela escadaria sobre as nuvens
brancas.
Os aspectos da figura livre
nos quartos claros e sombrios
fragmentos flagrantes
da forma — incandescência breve.
Queda de conjuntos e do grito
no espelho — negação no vidro
água de outro copo e negação do copo.
Às apagadas pernas e às pedras
junta-se a terra dos nomes e sem nome
desce-se pela escadaria sobre as nuvens
brancas.
1 015
António Ramos Rosa
85. Vagos Sinais Dentes Na Pedra
85
Vagos sinais dentes na pedra
sem solução de árvore
marcação de um traço único
este, não o rosto, este
limite que não transponho que
não tem além o além o fogo azul
e
que nenhuma sombra atravessou
porque subsiste ou não algum ardor
porque os dentes enterram-se na pedra.
Vagos sinais dentes na pedra
sem solução de árvore
marcação de um traço único
este, não o rosto, este
limite que não transponho que
não tem além o além o fogo azul
e
que nenhuma sombra atravessou
porque subsiste ou não algum ardor
porque os dentes enterram-se na pedra.
531
António Ramos Rosa
62. Não a Raiva Perspicaz E Ainda Ordenadora
62
Não a raiva perspicaz e ainda ordenadora
mas a perna límpida, mas a perna negra
será obsessão atravessando a página
até à periferia ou à margem de cada
verso ou linha do texto ou do poema
ou não poema. Tudo o que é poema,
inanição — a lâmpada da inanição existe
num bairro pobre a uma esquina visível.
Essa lâmpada é de um amarelo de larva
e revela toda a solidão inenarrável.
Ela é a lâmpada mais triste: o informulado existe.
Não a raiva perspicaz e ainda ordenadora
mas a perna límpida, mas a perna negra
será obsessão atravessando a página
até à periferia ou à margem de cada
verso ou linha do texto ou do poema
ou não poema. Tudo o que é poema,
inanição — a lâmpada da inanição existe
num bairro pobre a uma esquina visível.
Essa lâmpada é de um amarelo de larva
e revela toda a solidão inenarrável.
Ela é a lâmpada mais triste: o informulado existe.
1 042
António Ramos Rosa
73. Perdido o Centro, Perdida a Rosa
73
Perdido o centro, perdida a rosa
quando a vulnerável lâmpada, quando
apagado for o sinal dilacerado
a interrupção dos sinais será a fuga
ou o apaziguamento das imagens vivas
os animais caminhando musicais
as pedras mais vivas do que as mãos
no entanto mais vivas do que as pedras
quando apagada a terra os olhos lentos
verão serenamente o esplendor do muro.
Perdido o centro, perdida a rosa
quando a vulnerável lâmpada, quando
apagado for o sinal dilacerado
a interrupção dos sinais será a fuga
ou o apaziguamento das imagens vivas
os animais caminhando musicais
as pedras mais vivas do que as mãos
no entanto mais vivas do que as pedras
quando apagada a terra os olhos lentos
verão serenamente o esplendor do muro.
1 069
António Ramos Rosa
80. Anca, E Depois Campo, E Forte
80
Anca, e depois campo, e forte
a curva dançante mas discreta e dura
ela é campo não azul, corpo e dança
a deusa dos olhos e da rua e da dança.
Ela é o corpo, ela é a dança, ela é a rua
e os olhos brilham a boca arde no campo
arde no brilho do pássaro vivamente
desloca a pedra para que ela passe.
Anca na boca na língua quadril forte
dança no campo sem flores no passeio
passa sobre a capa da visão translúcida.
Anca, e depois campo, e forte
a curva dançante mas discreta e dura
ela é campo não azul, corpo e dança
a deusa dos olhos e da rua e da dança.
Ela é o corpo, ela é a dança, ela é a rua
e os olhos brilham a boca arde no campo
arde no brilho do pássaro vivamente
desloca a pedra para que ela passe.
Anca na boca na língua quadril forte
dança no campo sem flores no passeio
passa sobre a capa da visão translúcida.
1 214
António Ramos Rosa
75. a Pedra, o Corpo E a Escrita
75
A pedra, o corpo e a escrita
das árvores: cinza cinza que arde
quando o fogo da escrita arde sobre
o mineral negro, a ponta escura escreve
talvez uma laranja lancinante
talvez a simples mesa do pão branco.
Seja qual for o fim não há o fim
da aventura dessa pedra escrita
nesse escrever da pedra cinza negra.
A pedra, o corpo e a escrita
das árvores: cinza cinza que arde
quando o fogo da escrita arde sobre
o mineral negro, a ponta escura escreve
talvez uma laranja lancinante
talvez a simples mesa do pão branco.
Seja qual for o fim não há o fim
da aventura dessa pedra escrita
nesse escrever da pedra cinza negra.
1 242
António Ramos Rosa
74. Porque Não o Encontro E Não o Encontro
74
Porque não o encontro e não o encontro
aquém da força de que vive o pulso
aquém da face e da figura o esplendor.
Porquê a árvore oculta sob a árvore
a pedra não soando e sem a cor e sem
a força do sinal de pedra e o fogo
sem a mão do afago e tudo em vão
no vão de tudo ser o encontro aquém do encontro
a presença perdida na presença.
Porque não o encontro e não o encontro
aquém da força de que vive o pulso
aquém da face e da figura o esplendor.
Porquê a árvore oculta sob a árvore
a pedra não soando e sem a cor e sem
a força do sinal de pedra e o fogo
sem a mão do afago e tudo em vão
no vão de tudo ser o encontro aquém do encontro
a presença perdida na presença.
954
António Ramos Rosa
56. Mancha da Perna Maternal
56
Mancha da perna maternal
robusta
no pomar secreto na recente vinda
do pai descendo um pouco tímido na água.
Dir-te-ei pela água sexual
do não crime de ver-te
pela vez absoluta do olhar negro
como se não fosses a pequena deusa que não és.
Não tímida não secreta mas pobre de água
olho de um joelho límpido
prosa da terra não sulcada ainda.
Mancha da perna maternal
robusta
no pomar secreto na recente vinda
do pai descendo um pouco tímido na água.
Dir-te-ei pela água sexual
do não crime de ver-te
pela vez absoluta do olhar negro
como se não fosses a pequena deusa que não és.
Não tímida não secreta mas pobre de água
olho de um joelho límpido
prosa da terra não sulcada ainda.
990
António Ramos Rosa
52. Neste Jardim Ou Espaço Do
52
Neste jardim ou espaço do
que
por abrir se abre e só assim
se
sabe o que de novo se abre.
Campo branco sem caminho ou mão
território do incerto pulso
da destruição incriada mas amante
do chão do amanhã de agora.
Que alguém procure o incerto
com os aspectos
do arbusto ardente
no novo espírito do incêndio dos aspectos.
Neste jardim ou espaço do
que
por abrir se abre e só assim
se
sabe o que de novo se abre.
Campo branco sem caminho ou mão
território do incerto pulso
da destruição incriada mas amante
do chão do amanhã de agora.
Que alguém procure o incerto
com os aspectos
do arbusto ardente
no novo espírito do incêndio dos aspectos.
1 130
António Ramos Rosa
82. Procuro As Palavras — Língua Breve
82
Procuro as palavras — língua breve
acesa sobre a relva da manhã concreta
que os pássaros picam em palavras vivas
que aqui se inventam e são de fogo branco.
Procuro as palavras e são vãs e brancas
quantas vezes quantas vezes cinza
de uma cinza de outra cinza de algum fogo.
De algum fogo? O que procura o pulso
e que é letra de aranha, obscuras patas,
obscuro sonho do poema errante.
Procuro as palavras — língua breve
acesa sobre a relva da manhã concreta
que os pássaros picam em palavras vivas
que aqui se inventam e são de fogo branco.
Procuro as palavras e são vãs e brancas
quantas vezes quantas vezes cinza
de uma cinza de outra cinza de algum fogo.
De algum fogo? O que procura o pulso
e que é letra de aranha, obscuras patas,
obscuro sonho do poema errante.
1 071
António Ramos Rosa
Entre Dois Espaços Entre Duas Sombras
Entre dois espaços entre duas sombras
as pálpebras abriram-se no caminho
entre dois espaços entre duas sombras?
no vento oscila uma lâmpada vazia
as pálpebras abriram-se no caminho
entre dois espaços entre duas sombras?
no vento oscila uma lâmpada vazia
1 117
António Ramos Rosa
O Anel do Insecto Luxúria Mínima
O anel do insecto luxúria mínima
do poema os dentes descerrados à frescura do vento
a figura viva em fragmentos na fragrância verde
as sílabas o sol das sílabas sob as sílabas
a pedra escrita
entre a pedra e o silêncio
do nascimento
último
água ó minha mão na terra
do poema os dentes descerrados à frescura do vento
a figura viva em fragmentos na fragrância verde
as sílabas o sol das sílabas sob as sílabas
a pedra escrita
entre a pedra e o silêncio
do nascimento
último
água ó minha mão na terra
1 060
António Ramos Rosa
63. Branca E Profunda Ausência Que Desvias
63
Branca e profunda ausência que desvias
o vagar e vagas indecisa
a lava que tu levas no declive
aproxima a sombra de outra sombra viva.
E cresces no labirinto, uma palavra bela.
E atónitas pupilas tu deslocas
onde arde um campo nas praias desta noite
e as artérias ardem nos ramos dessa noite.
Não guardes a beleza porque é o terror que arde
a rasar pelo silêncio e lentamente
a grade é sacudida nas artérias.
Não é portanto um caminho, o vagar da tua força
abre-te a solidão e tu dirás a lâmpada
com a insegura mão crestada sobre o muro.
Branca e profunda ausência que desvias
o vagar e vagas indecisa
a lava que tu levas no declive
aproxima a sombra de outra sombra viva.
E cresces no labirinto, uma palavra bela.
E atónitas pupilas tu deslocas
onde arde um campo nas praias desta noite
e as artérias ardem nos ramos dessa noite.
Não guardes a beleza porque é o terror que arde
a rasar pelo silêncio e lentamente
a grade é sacudida nas artérias.
Não é portanto um caminho, o vagar da tua força
abre-te a solidão e tu dirás a lâmpada
com a insegura mão crestada sobre o muro.
1 101
António Ramos Rosa
Movo-Me Sobre a Montanha
Movo-me sobre a montanha
entre as pálpebras do caminho
A fragilidade da frase
na marcha
sob a cinza
do sol
o eco detém-se à altura da garganta
aridez da água aridez uma parede
que ascende o papel da sombra
entre as pálpebras do caminho
A fragilidade da frase
na marcha
sob a cinza
do sol
o eco detém-se à altura da garganta
aridez da água aridez uma parede
que ascende o papel da sombra
1 056
António Ramos Rosa
69. Pedra E a Perfeição, Essa Frescura
69
Pedra e a perfeição, essa frescura
da pedra negra e alta
da matéria da linguagem e nos lábios
feridos da pobreza numa festa.
Festa do mar e da palavra livre
que festa seria do corpo libertado?
Aqui cintila a coluna do não-ser
aqui se perde a pedra e o fogo livre.
Aqui se acende todavia a pedra
de um outro fogo do mar de uma outra festa
que viria da palavra de outro ser.
Pedra e a perfeição, essa frescura
da pedra negra e alta
da matéria da linguagem e nos lábios
feridos da pobreza numa festa.
Festa do mar e da palavra livre
que festa seria do corpo libertado?
Aqui cintila a coluna do não-ser
aqui se perde a pedra e o fogo livre.
Aqui se acende todavia a pedra
de um outro fogo do mar de uma outra festa
que viria da palavra de outro ser.
527
António Ramos Rosa
72. Porquê o Porquê a Sombra Viva, a Sobrevida
72
Porquê o porquê a sombra viva, a sobrevida
e escrever estes sinais na folha e não saber
e escrever ainda sem esperança e no desejo
dos sinais de uma paisagem acesa, o esplendor.
O esplendor. O encontro. Aqui jamais
eis o epitáfio e o motor da imagem
negra ou branca na incerta curva
de um verso e outro verso entre os espaços.
E se ela fosse vermelha, ah vermelha!
ela quem? — ela, o esplendor do encontro
tão raro e tão pouco no pouco que é
viver sem esperar, escrever sem esperar,
mas no movimento da imagem interior
acender a imagem da face ou o esplendor.
Porquê o porquê a sombra viva, a sobrevida
e escrever estes sinais na folha e não saber
e escrever ainda sem esperança e no desejo
dos sinais de uma paisagem acesa, o esplendor.
O esplendor. O encontro. Aqui jamais
eis o epitáfio e o motor da imagem
negra ou branca na incerta curva
de um verso e outro verso entre os espaços.
E se ela fosse vermelha, ah vermelha!
ela quem? — ela, o esplendor do encontro
tão raro e tão pouco no pouco que é
viver sem esperar, escrever sem esperar,
mas no movimento da imagem interior
acender a imagem da face ou o esplendor.
1 099
António Ramos Rosa
53. Lâmina — Dirá, E Escrita
53
Lâmina — dirá, e escrita
da rapariga incerta em certa escrita
da mão suave suspensa sobre
um vazio límpido.
E qual seja a forma
e o aspecto da figura escrita
será o fruto carnal de uma impureza
igual ao corpo livre não escrito.
E qual e qual a folha
a abrir a folha
do corpo — lâmina suspensa
e todavia dita da figura incerta.
Lâmina — dirá, e escrita
da rapariga incerta em certa escrita
da mão suave suspensa sobre
um vazio límpido.
E qual seja a forma
e o aspecto da figura escrita
será o fruto carnal de uma impureza
igual ao corpo livre não escrito.
E qual e qual a folha
a abrir a folha
do corpo — lâmina suspensa
e todavia dita da figura incerta.
1 053
António Ramos Rosa
67. Veria Aqui o Rosto, o Punho Frágil
67
Veria aqui o rosto, o punho frágil
que não seguro, não segurei, retenho
o pouco dos teus pés, a figura da fímbria,
forma do ser ausente.
Perco a medida da medida, seguro a folha
do sangue sobre as pernas,
na negação do corpo encontro o corpo e o sangue
o sangue da negação do sangue ainda o sangue.
Quando a penetração pura, a branca
violência de água do alento
quando a mão recebe a pulsação da folha.
Veria aqui o rosto, o punho frágil
que não seguro, não segurei, retenho
o pouco dos teus pés, a figura da fímbria,
forma do ser ausente.
Perco a medida da medida, seguro a folha
do sangue sobre as pernas,
na negação do corpo encontro o corpo e o sangue
o sangue da negação do sangue ainda o sangue.
Quando a penetração pura, a branca
violência de água do alento
quando a mão recebe a pulsação da folha.
1 076
António Ramos Rosa
55. Terra Não Só do Olhar Mas da Boca Límpida
55
Terra não só do olhar mas da boca límpida
e grafia do pulso língua absoluta
com uma perspectiva perene e sempre verde
tapeçaria subjacente e os socalcos da encosta.
Entusiasmo quase sem cor às vezes
no sem-cor da língua na escrita viva
ó terra do pulso e sexo secreto
macieza maternal do pai na escrita.
Tu dirás sempre e nunca a terra
tu serás não formosa mas terrestre bela
com um vasto conjunto dos aspectos
com um conjunto negro e amoroso.
Terra não só do olhar mas da boca límpida
e grafia do pulso língua absoluta
com uma perspectiva perene e sempre verde
tapeçaria subjacente e os socalcos da encosta.
Entusiasmo quase sem cor às vezes
no sem-cor da língua na escrita viva
ó terra do pulso e sexo secreto
macieza maternal do pai na escrita.
Tu dirás sempre e nunca a terra
tu serás não formosa mas terrestre bela
com um vasto conjunto dos aspectos
com um conjunto negro e amoroso.
1 146
António Ramos Rosa
71. Eis a Frescura No Côncavo Das Pedras
71
Eis a frescura no côncavo das pedras
e a fábula dos insectos na folhagem
eis o sinal da manhã e a invenção
da mão na água e o sopro subtil.
Tudo isto eu saberia, eu vou saber, eu sei
porque não sei na procura dos sinais
a maravilha no limiar das formas
em que aprendo a ser o que já sou.
Eu aprenderei a partir sem conhecer
para onde vou nem olharei atrás
eu aprenderei que o presente é o presente.
Eis a frescura no côncavo das pedras
e a fábula dos insectos na folhagem
eis o sinal da manhã e a invenção
da mão na água e o sopro subtil.
Tudo isto eu saberia, eu vou saber, eu sei
porque não sei na procura dos sinais
a maravilha no limiar das formas
em que aprendo a ser o que já sou.
Eu aprenderei a partir sem conhecer
para onde vou nem olharei atrás
eu aprenderei que o presente é o presente.
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