Poemas neste tema
Alma
António Ramos Rosa
10. Rosto Enraizado Na Palavra
10
Rosto enraizado na palavra
neste espaço de nula vocação
mas quase o grito gritando o grito.
Nesta folha neste instante de jardim
sobre este banco ou esta pedra
ó terra no silêncio da folhagem!
Isto que foi, seria no não-não ser
ou aqui
neste jardim do não impuro
ó pobreza da água desta mão!
Rosto enraizado na palavra
neste espaço de nula vocação
mas quase o grito gritando o grito.
Nesta folha neste instante de jardim
sobre este banco ou esta pedra
ó terra no silêncio da folhagem!
Isto que foi, seria no não-não ser
ou aqui
neste jardim do não impuro
ó pobreza da água desta mão!
1 146
António Ramos Rosa
47. Trata-Se da Escrita E do Objecto, a Coisa
47
Trata-se da escrita e do objecto, a coisa
táctil ansiosa busca no amor da mesa
dom de incandescência a que se chama lâmpada
e contra a exuberância da tirania idêntica.
Ferida amorosa na obscuridade verde
folhagem na parede reflexos na lâmina
donde emerge o sem-sentido da quimera terrestre.
Ó eternidade efémera da palavra terra
mão da sombra e pedra e fogo impuro
bronze do seio istmo dos instantes.
Trata-se da escrita e do objecto, a coisa
táctil ansiosa busca no amor da mesa
dom de incandescência a que se chama lâmpada
e contra a exuberância da tirania idêntica.
Ferida amorosa na obscuridade verde
folhagem na parede reflexos na lâmina
donde emerge o sem-sentido da quimera terrestre.
Ó eternidade efémera da palavra terra
mão da sombra e pedra e fogo impuro
bronze do seio istmo dos instantes.
978
António Ramos Rosa
24. Alguém o Disse — o Jorro
24
Alguém o disse — o jorro
das pernas brancas e as jarras azuis
exuberância imprópria de ser pobre.
Mas há uma florescência vivaz e límpida
na pobreza essencial contra o sentido
da autoridade — isto é
uma arbitrária terra que é a terra
invisível visível pobre e rica.
Terra serás salva serás terra
e se não o fores aqui se nunca fores
que sejas negação e negação
e tristeza e pobreza e nunca aberta.
Alguém o disse — o jorro
das pernas brancas e as jarras azuis
exuberância imprópria de ser pobre.
Mas há uma florescência vivaz e límpida
na pobreza essencial contra o sentido
da autoridade — isto é
uma arbitrária terra que é a terra
invisível visível pobre e rica.
Terra serás salva serás terra
e se não o fores aqui se nunca fores
que sejas negação e negação
e tristeza e pobreza e nunca aberta.
1 118
António Ramos Rosa
27. Aspecto de — Ou Circunstância Simples
27
Aspecto de — ou circunstância simples
do pobre membro inútil de tão pobre
que ninguém diz a terra e o muro de cinza
que ninguém fala do membro pobre e nu.
A não verdade e a verdade, a dupla
vulva longa e querida impenetrável
despe o membro da terra/adoração
do simples sol pequeno mas palpável.
O nascimento é isto: o isto
de nenhuma fala, escrita na
parede corrompida e curta
onde está o membro, o sol pequeno.
Aspecto de — ou circunstância simples
do pobre membro inútil de tão pobre
que ninguém diz a terra e o muro de cinza
que ninguém fala do membro pobre e nu.
A não verdade e a verdade, a dupla
vulva longa e querida impenetrável
despe o membro da terra/adoração
do simples sol pequeno mas palpável.
O nascimento é isto: o isto
de nenhuma fala, escrita na
parede corrompida e curta
onde está o membro, o sol pequeno.
978
António Ramos Rosa
48. Um Caduco Tema Levanta a Cabeleira
48
Um caduco tema levanta a cabeleira
na tessitura cálida a crespa cabeleira
mais escura: assim as línguas tensas
ou um punhado de estrelas no ondear das ondas.
Cintilações que em ancas reverberam
e fragrâncias da inocência da água
de um seio, a teia canta, a teia tensa
e o corpo é lobo e pomba, é recesso e fragrância.
Alguns dirão: subsiste o tema: mas só palavras se levantam
só palavras se lêem no vento das candeias
só a língua é legível e acende a íris.
Um caduco tema levanta a cabeleira
na tessitura cálida a crespa cabeleira
mais escura: assim as línguas tensas
ou um punhado de estrelas no ondear das ondas.
Cintilações que em ancas reverberam
e fragrâncias da inocência da água
de um seio, a teia canta, a teia tensa
e o corpo é lobo e pomba, é recesso e fragrância.
Alguns dirão: subsiste o tema: mas só palavras se levantam
só palavras se lêem no vento das candeias
só a língua é legível e acende a íris.
994
António Ramos Rosa
44. Permanecer Aqui (E Quando?)
44
Permanecer aqui (e quando?)
iniciará o quando que não se sabe
e adoraremos o sol do corpo breve.
No percurso ou no aspecto da sombra
abriremos um veio de felicidade límpida
e seremos os que não sabem e salvam
a brevidade do não viver sem sol.
Animais e barcos cintilações e sombras
pureza das pernas sem adornos nobres
pedra da permanência e do percurso límpido.
Permanecer aqui (e quando?)
iniciará o quando que não se sabe
e adoraremos o sol do corpo breve.
No percurso ou no aspecto da sombra
abriremos um veio de felicidade límpida
e seremos os que não sabem e salvam
a brevidade do não viver sem sol.
Animais e barcos cintilações e sombras
pureza das pernas sem adornos nobres
pedra da permanência e do percurso límpido.
919
António Ramos Rosa
12. Por Ela, o Qual: Por Ela
12
Por ela, o qual: por ela
a iluminada lâmina cortando
o papel sobre a figura impura.
Nó límpido no desnudar da face
não exemplo na erva do seu ventre
no extremo lá da extrema árvore
no ribeiro gracioso ou na torrente.
Por ele: ali: por ela
cortado o papel cortada a sombra
fica o recorte da figura dele.
Por ela, o qual: por ela
a iluminada lâmina cortando
o papel sobre a figura impura.
Nó límpido no desnudar da face
não exemplo na erva do seu ventre
no extremo lá da extrema árvore
no ribeiro gracioso ou na torrente.
Por ele: ali: por ela
cortado o papel cortada a sombra
fica o recorte da figura dele.
1 097
António Ramos Rosa
45. a Mão Não Vai Ao Fundo da Noite
45
A mão não vai ao fundo da noite
nem a noite é musical aranha
nem sopro mais ligeiro nem pedra do desejo
a mão não esquece a árvore nem a língua morre.
A pedra sob a aranha musical
resiste: em seus grânulos negros
em seu estar que é um não estar de pedra
nunca dirás a pedra; granito ou quartzo.
Proporções difíceis, não complexas, são:
não flores de um limbo, mas língua ou linguagem
iluminado livro pela sombra das palavras.
A mão não vai ao fundo da noite
nem a noite é musical aranha
nem sopro mais ligeiro nem pedra do desejo
a mão não esquece a árvore nem a língua morre.
A pedra sob a aranha musical
resiste: em seus grânulos negros
em seu estar que é um não estar de pedra
nunca dirás a pedra; granito ou quartzo.
Proporções difíceis, não complexas, são:
não flores de um limbo, mas língua ou linguagem
iluminado livro pela sombra das palavras.
1 105
António Ramos Rosa
43. Definição do Dia Pela Palavra do Corpo
43
Definição do dia pela palavra do corpo
aceso: cintilação das imagens sob
a escrita não límpida e escrita impura
da negra verdura do não saber exacto.
A aranha verde da folhagem verde
tece as linhas de linguagem e sombra
ardente e esquece o que tece esquece a arma
o corpo do desejo armas discretas.
Quem saberá do silêncio das folhas
e da perspectiva incendiada sob
a não verdade a confusão o medo.
Definição do dia pela palavra do corpo
aceso: cintilação das imagens sob
a escrita não límpida e escrita impura
da negra verdura do não saber exacto.
A aranha verde da folhagem verde
tece as linhas de linguagem e sombra
ardente e esquece o que tece esquece a arma
o corpo do desejo armas discretas.
Quem saberá do silêncio das folhas
e da perspectiva incendiada sob
a não verdade a confusão o medo.
1 072
António Ramos Rosa
29. o Lápis — Esta É a Escrita do Lápis
29
O lápis — esta é a escrita do lápis
que escreve a tortura lapidar
os ossos na neve os nervos lapidares.
Quem negará a pobreza desta escrita
que busca a pobreza essencial
a terra nunca vista e vista
sempre na cegueira essencial de sempre.
Direi diremos o que dissermos nunca
o nunca do nunca a brancura do deserto
o lápis aqui aqui sem água e nus.
O lápis — esta é a escrita do lápis
que escreve a tortura lapidar
os ossos na neve os nervos lapidares.
Quem negará a pobreza desta escrita
que busca a pobreza essencial
a terra nunca vista e vista
sempre na cegueira essencial de sempre.
Direi diremos o que dissermos nunca
o nunca do nunca a brancura do deserto
o lápis aqui aqui sem água e nus.
1 007
António Ramos Rosa
25. o Ombro de — Nenhum Ombro Ó Ombro
25
O ombro de — nenhum ombro ó ombro
sob a cálida treva o tambor do sol
e a riqueza hermética da harpa hermética
o sol restituído à iniciação da árvore.
Respirar respirar primeiro plano
de água ao nível dessa nuvem
onde o animal pedestre nos restitui o rastro
por onde descemos à terra mais terrestre.
Final do sim — o ombro branco
e sim do sim do não do não
jogo de afirmação jogo da mão
e o primeiro sol na mão na outra mão.
O ombro de — nenhum ombro ó ombro
sob a cálida treva o tambor do sol
e a riqueza hermética da harpa hermética
o sol restituído à iniciação da árvore.
Respirar respirar primeiro plano
de água ao nível dessa nuvem
onde o animal pedestre nos restitui o rastro
por onde descemos à terra mais terrestre.
Final do sim — o ombro branco
e sim do sim do não do não
jogo de afirmação jogo da mão
e o primeiro sol na mão na outra mão.
1 028
António Ramos Rosa
33. o Pensamento Será o Fruto E a Forma
33
O pensamento será o fruto e a forma
do próprio jeito do ser a imagem nula.
Os dedos dirão terra folha feliz terra.
Não grave nem límpida duplo encontro
na brisa neblina duplicada imagem
na água reflectindo o corpo e sua sombra.
Dupla imagem na simplicidade pura
da casa inabitada, verde espaço
de não pensar de não ser do duplo ser.
O pensamento será o fruto e a forma
do próprio jeito do ser a imagem nula.
Os dedos dirão terra folha feliz terra.
Não grave nem límpida duplo encontro
na brisa neblina duplicada imagem
na água reflectindo o corpo e sua sombra.
Dupla imagem na simplicidade pura
da casa inabitada, verde espaço
de não pensar de não ser do duplo ser.
515
António Ramos Rosa
Pedra Plana,…
Pedra plana, quase escrita e indelével, e a pulsação plana aflora o corpo e a frase estala, pedra e toalha, sinal vivo do caminho que não espera, que avança como se o mar aflorasse e o corpo vivo chegasse ao cimo da água, à frase sem memória, fonte de desejo.
1 272
António Ramos Rosa
Escrever
Escrever para
descer
no fundo da nudez
na invenção de cada frase
que respira o ar
Gérmenes entrelaçados, negra
pureza
da terra e da mulher
da produção de um fogo sobre o chão e a página
corpo flutuante impelido
pelo sangue das palavras e pelo sangue
contínua curva dos flancos
das conjunções
disseminadas
respiração total
no horizonte
Escrever E as folhas
separavam-se de novo
de novo a terra um corpo adormecido
despojado
o tecido trémulo sob
a epiderme
o ciclo repercutido do silêncio
uma ponte e outra ponte e outra ponte
a parede permanente o vácuo
e o súbito cavalo
sobre
as constelações silenciosas
descer
no fundo da nudez
na invenção de cada frase
que respira o ar
Gérmenes entrelaçados, negra
pureza
da terra e da mulher
da produção de um fogo sobre o chão e a página
corpo flutuante impelido
pelo sangue das palavras e pelo sangue
contínua curva dos flancos
das conjunções
disseminadas
respiração total
no horizonte
Escrever E as folhas
separavam-se de novo
de novo a terra um corpo adormecido
despojado
o tecido trémulo sob
a epiderme
o ciclo repercutido do silêncio
uma ponte e outra ponte e outra ponte
a parede permanente o vácuo
e o súbito cavalo
sobre
as constelações silenciosas
619
António Ramos Rosa
Ó Treva Ó Música Na Extensão do Vazio
Ó treva ó música na extensão do vazio
e o silêncio no teu pulso o silêncio dos teus ombros
como eu amo esses silêncios como eu amo o silêncio dos teus olhos
quero escrever aqui os cristais vibráteis
dessa folha frágil e violenta a que chamo o teu corpo
Ó treva ó música música entre os juncos claros
música sobre a mesa de madeira nua
música da tua língua enrolada e lisa como um jarro
ó treva e música dos teus olhos ó frémito
das tuas ancas rodando contra o furor das ondas contra uma quilha ardente
Ó música entre o branco e o negro ó migrações silenciosas
das aves do sangue ó longas pulsações do ventre
o que te atravessa identicamente o que arde na consistência indemne
ó espessura vermelha ó murmúrio da fábula e da folhagem
há um fragmento imóvel há um peixe de sombra na parede
Ó música ó treva somos nós que nos abrimos
como podemos estar tão perto do limiar da folha
como escrever estes silêncios estas latentes lâmpadas
e o silêncio no teu pulso o silêncio dos teus ombros
como eu amo esses silêncios como eu amo o silêncio dos teus olhos
quero escrever aqui os cristais vibráteis
dessa folha frágil e violenta a que chamo o teu corpo
Ó treva ó música música entre os juncos claros
música sobre a mesa de madeira nua
música da tua língua enrolada e lisa como um jarro
ó treva e música dos teus olhos ó frémito
das tuas ancas rodando contra o furor das ondas contra uma quilha ardente
Ó música entre o branco e o negro ó migrações silenciosas
das aves do sangue ó longas pulsações do ventre
o que te atravessa identicamente o que arde na consistência indemne
ó espessura vermelha ó murmúrio da fábula e da folhagem
há um fragmento imóvel há um peixe de sombra na parede
Ó música ó treva somos nós que nos abrimos
como podemos estar tão perto do limiar da folha
como escrever estes silêncios estas latentes lâmpadas
570
António Ramos Rosa
É a Superfície o Que Se Passa À Superfície
É a superfície o que se passa à superfície
língua folhagem
instantâneo caminho sopro
de sinais
E dizer é aqui no muro
no escuro da pedra
uma visão que dilucida a fome
das mãos
e torna a precária erva um bem dizível
É o que passa e jorra não sei de
que lado do silêncio que ilumina
a macia terra cega
e não só lâmpada não só arco ou anca
mas a mesa árida mas o rosto de lama
língua folhagem
instantâneo caminho sopro
de sinais
E dizer é aqui no muro
no escuro da pedra
uma visão que dilucida a fome
das mãos
e torna a precária erva um bem dizível
É o que passa e jorra não sei de
que lado do silêncio que ilumina
a macia terra cega
e não só lâmpada não só arco ou anca
mas a mesa árida mas o rosto de lama
1 125
António Ramos Rosa
Na Inesperada Margem Nua
Na inesperada margem nua
confuso chega o som e o verde
A terra é negra no limiar da pedra
E ouve-se o som do mar Um som sem sombra
Suspenderam-se os limites Quem
sustenta a proposição do mundo claro?
É então que se ouve o côncavo de um
caminho fresco que propaga o corpo
e as margens unem-se num só ouvido verde
confuso chega o som e o verde
A terra é negra no limiar da pedra
E ouve-se o som do mar Um som sem sombra
Suspenderam-se os limites Quem
sustenta a proposição do mundo claro?
É então que se ouve o côncavo de um
caminho fresco que propaga o corpo
e as margens unem-se num só ouvido verde
1 120
António Ramos Rosa
Nomes de Terra,…
Nomes de terra, no inverno da tarde, frio sólido, pedras cinzentas e brancas de outono ainda, mãos na terra, mãos do desejo escrito, rápidas passageiras.
1 458
António Ramos Rosa
Aqui Se Abre Um Parêntese
Aqui se abre um parêntese
cinza verde
que restou do dia
(foi tudo água e sombra sobre sombra
e água)
esquecidas folhas
Aqui se fecha o punho deste dia
e os limites claros
que a mão não encontrou
Aqui outra sombra entre parênteses
(a mão penetra na folhagem nocturna)
aqui no chão da noite
o corpo espera
atravessar o não de terra negra
cinza verde
que restou do dia
(foi tudo água e sombra sobre sombra
e água)
esquecidas folhas
Aqui se fecha o punho deste dia
e os limites claros
que a mão não encontrou
Aqui outra sombra entre parênteses
(a mão penetra na folhagem nocturna)
aqui no chão da noite
o corpo espera
atravessar o não de terra negra
970
António Ramos Rosa
O Sol Negro o Sol Branco
Pedras sombras árvores. Palavras
consciência negra do sol. Consciência da contínua
explosão.
Consciência do inifinitamente frágil e mortal.
Consciência da consciência efémera.
Sabor fúnebre da iminência.
Vácuo na cabeça e a mão que escreve
lenta, consciente? Estas palavras
que não são do desejo
nem de combate
nem são ainda do completo abandono
do desencontro mortal.
Podem dizer-me que estas pedras não são pedras
que acumulo sombras
e que não respiro as árvores
que ignoro tudo e escrevo nada.
Vivo ainda destas palavras
as mais pobres que encontro
nenhuma delas tão pobre como eu
nenhuma delas tão nua que te atinja a ti
a nós.
Disse sol outrora como se dissesse o sol
e era a morte viva que designava
era o negro esplendor do nada
era o vazio entre os espaços
de cada ser e cada coisa.
Mas era a vontade de um combate.
Era o desejo de alcançar a força viva
de lhe criar um espaço para mim e para ti
para viver ao sol desperto e nu
para viver no ser aberto
como um animal
como uma força fraterna
um corpo livre.
Cada palavra como uma pedra sobre a pedra
exacta e verdadeira.
E entre sombras e ramos entrar na clareira
do ser
onde a luz é a do encontro e do repouso
a perfeição tranquila e vegetal
a unidade íntima
o amor de estar.
consciência negra do sol. Consciência da contínua
explosão.
Consciência do inifinitamente frágil e mortal.
Consciência da consciência efémera.
Sabor fúnebre da iminência.
Vácuo na cabeça e a mão que escreve
lenta, consciente? Estas palavras
que não são do desejo
nem de combate
nem são ainda do completo abandono
do desencontro mortal.
Podem dizer-me que estas pedras não são pedras
que acumulo sombras
e que não respiro as árvores
que ignoro tudo e escrevo nada.
Vivo ainda destas palavras
as mais pobres que encontro
nenhuma delas tão pobre como eu
nenhuma delas tão nua que te atinja a ti
a nós.
Disse sol outrora como se dissesse o sol
e era a morte viva que designava
era o negro esplendor do nada
era o vazio entre os espaços
de cada ser e cada coisa.
Mas era a vontade de um combate.
Era o desejo de alcançar a força viva
de lhe criar um espaço para mim e para ti
para viver ao sol desperto e nu
para viver no ser aberto
como um animal
como uma força fraterna
um corpo livre.
Cada palavra como uma pedra sobre a pedra
exacta e verdadeira.
E entre sombras e ramos entrar na clareira
do ser
onde a luz é a do encontro e do repouso
a perfeição tranquila e vegetal
a unidade íntima
o amor de estar.
636
António Ramos Rosa
Pulsações da Terra
o gérmen na página o puro
espaço
como o sinal branco
da transgressão feliz
da margem
que o desejo ainda
não atinge
e que poderia
ser
escrever
a lâmpada nas ervas
*
será como desnudar
um corpo no campo
ávido silêncio
voracidade verde
a pulsação da terra
*
não é como um ninho
um ninho verde
o que construo não tem o rosto
de luz e água
mas o sopro da sombra
azul e negro
sob o muro
o que construo vem do desejo
ignorado
e é talvez o arco
do espaço
do silêncio
*
há como que uma densidade
dúctil
um grau variável nas palavras
o sopro de uma praia
e estas linhas
mais livres
mais perto de uma forma de água
de um torso
liso
de um objecto
incontornável
um círculo aberto
impossível possível
*
aqui o braço sem sinal
de sangue
como um pulso sem
vagar
sem saber escrever
e sem a praia
desejando a vaga
a ululante ondulação
caindo no silêncio
da pedra do poema
*
onde a ferida se escreve
lentamente
com os sinais da saliva e do sangue
o murmúrio redondo
a dança
da chama dos músculos
no terraço branco
onde pulsa o desejo
entre o fogo e a sombra
*
eis que o silêncio
assume
a forma do silêncio
eis que a palavra encontra
o seu lugar no muro
oiço o diálogo da terra
com a terra
vejo um frágil arbusto
com o seu nome aceso
no silêncio da terra
espaço
como o sinal branco
da transgressão feliz
da margem
que o desejo ainda
não atinge
e que poderia
ser
escrever
a lâmpada nas ervas
*
será como desnudar
um corpo no campo
ávido silêncio
voracidade verde
a pulsação da terra
*
não é como um ninho
um ninho verde
o que construo não tem o rosto
de luz e água
mas o sopro da sombra
azul e negro
sob o muro
o que construo vem do desejo
ignorado
e é talvez o arco
do espaço
do silêncio
*
há como que uma densidade
dúctil
um grau variável nas palavras
o sopro de uma praia
e estas linhas
mais livres
mais perto de uma forma de água
de um torso
liso
de um objecto
incontornável
um círculo aberto
impossível possível
*
aqui o braço sem sinal
de sangue
como um pulso sem
vagar
sem saber escrever
e sem a praia
desejando a vaga
a ululante ondulação
caindo no silêncio
da pedra do poema
*
onde a ferida se escreve
lentamente
com os sinais da saliva e do sangue
o murmúrio redondo
a dança
da chama dos músculos
no terraço branco
onde pulsa o desejo
entre o fogo e a sombra
*
eis que o silêncio
assume
a forma do silêncio
eis que a palavra encontra
o seu lugar no muro
oiço o diálogo da terra
com a terra
vejo um frágil arbusto
com o seu nome aceso
no silêncio da terra
1 129
António Ramos Rosa
O Personagem Não Existe Sem Paisagem
O personagem não existe sem paisagem.
O personagem é imponderável.
Uma conjectura, uma pergunta:
Sem um guarda-chuva e sem um rosto.
E todavia, como não
vê-lo?
Mais do que um vulto
a figura se desenha entre as palavras.
Talvez respire e ouse
e o Tempo o Espaço o configurem.
Talvez empunhe enfim o guarda-chuva.
O personagem é imponderável.
Uma conjectura, uma pergunta:
Sem um guarda-chuva e sem um rosto.
E todavia, como não
vê-lo?
Mais do que um vulto
a figura se desenha entre as palavras.
Talvez respire e ouse
e o Tempo o Espaço o configurem.
Talvez empunhe enfim o guarda-chuva.
1 052
António Ramos Rosa
Não Toco a Viva Fenda Ferida…
Não toco a viva fenda ferida na parede do ar vibrante, não toco, mas estalo a fronte sem olhar, com a parede na fronte, sobre o sol, quase vendo no bordo a esquina do momento que teve, tem, terá a boca breve do ar.
1 185
António Ramos Rosa
Semelhante À Dança a Dança Mesma
Semelhante à dança a dança mesma
dos sinais como pedras sobre a água
como figuras
nas varandas
palavras queimadas numa boca negra
mas as flores
vermelhas de novo e violentas
Semelhante à dança de água e fogo
imagem desnudada
pelos punhos
nas muralhas
o corpo aberto na sombria terra
perfeição vermelha apaixonada
da imagem
inacessível
semelhante
à inviolada folha
dos sinais como pedras sobre a água
como figuras
nas varandas
palavras queimadas numa boca negra
mas as flores
vermelhas de novo e violentas
Semelhante à dança de água e fogo
imagem desnudada
pelos punhos
nas muralhas
o corpo aberto na sombria terra
perfeição vermelha apaixonada
da imagem
inacessível
semelhante
à inviolada folha
964