Poemas neste tema
Alma
António Ramos Rosa
Ferozmente Nulo Humilde Árido
Ferozmente nulo humilde árido
percorro este intervalo de assombro nu
entre ar e ar
no repouso vibrante de um andar na margem
do centro verde da água do silêncio
antes do depois no ainda já
presente em todo o corpo gelado de ar
no chão mais alto e luminoso igual
num percurso indiferente às aranhas de dentro
no hálito inicial de uma boca de mar
percorro este intervalo de assombro nu
entre ar e ar
no repouso vibrante de um andar na margem
do centro verde da água do silêncio
antes do depois no ainda já
presente em todo o corpo gelado de ar
no chão mais alto e luminoso igual
num percurso indiferente às aranhas de dentro
no hálito inicial de uma boca de mar
998
António Ramos Rosa
Um Sorriso No Silêncio
a Jorge de Sena
Houve um sorriso no silêncio
(estes limites traço, não sei quais)
houve um sorriso no silêncio,
janela e sol, um só brilho na sala
— que possibilidades suscitavam?
A mão que traça estes sinais não o sabe.
Não era a manhã que em mim se abria
nem o dia na sala.
Silêncio e luz, a alegria da sala,
uma atmosfera leve e tão presente
— que possibilidades suscitavam?
Não o quero dizer, nem a mão o sabe.
Nem o sorriso adeja, ausente agora.
Houve um sorriso… e já disse demais
por não dizer o nada que brincava,
o só possível em luz, presença, nada!
Houve um momento… O edifício
de uma vida, o alento? Estes limites
arfam talvez desse momento claro.
Limites que ao silêncio a mão impõe.
O jogo brinca aqui? Não é aqui que reina
«houve um sorriso…»? Ausência, nada?
Houve um sorriso no silêncio
(estes limites traço, não sei quais)
houve um sorriso no silêncio,
janela e sol, um só brilho na sala
— que possibilidades suscitavam?
A mão que traça estes sinais não o sabe.
Não era a manhã que em mim se abria
nem o dia na sala.
Silêncio e luz, a alegria da sala,
uma atmosfera leve e tão presente
— que possibilidades suscitavam?
Não o quero dizer, nem a mão o sabe.
Nem o sorriso adeja, ausente agora.
Houve um sorriso… e já disse demais
por não dizer o nada que brincava,
o só possível em luz, presença, nada!
Houve um momento… O edifício
de uma vida, o alento? Estes limites
arfam talvez desse momento claro.
Limites que ao silêncio a mão impõe.
O jogo brinca aqui? Não é aqui que reina
«houve um sorriso…»? Ausência, nada?
516
António Ramos Rosa
O Flanco Negro a Decisão da Perna
O flanco negro a decisão da perna
a redondez de todo o ser no seio
a bondade da boca
os dentes
só os dentes
como um número
As vermelhas virilhas com os lábios
de púrpura
ferida acesa
o frenesim suave das sílabas do corpo
a chama alta no ventre da árvore
a língua
sobre a língua
a branca volúpia do umbigo
a palavra rasgada
a sangue
e ferida
a negro
a palavra de estar sob o bojo do barco
a redondez de todo o ser no seio
a bondade da boca
os dentes
só os dentes
como um número
As vermelhas virilhas com os lábios
de púrpura
ferida acesa
o frenesim suave das sílabas do corpo
a chama alta no ventre da árvore
a língua
sobre a língua
a branca volúpia do umbigo
a palavra rasgada
a sangue
e ferida
a negro
a palavra de estar sob o bojo do barco
982
António Ramos Rosa
Ponto — Traço
Um ponto negro — um traço
na planície branca
e uma pergunta no silêncio
resolve-se na luz
de uma outra folha inatingível
nudez de evidência ou
de um equilíbrio súbito suspenso
de um contorno novo
uma prosa branca
o desvio de um sulco
ou haste
perpendicular à lentidão do curso
o nome que ascende e principia o fluxo
que não cessa aqui
na planície branca
e uma pergunta no silêncio
resolve-se na luz
de uma outra folha inatingível
nudez de evidência ou
de um equilíbrio súbito suspenso
de um contorno novo
uma prosa branca
o desvio de um sulco
ou haste
perpendicular à lentidão do curso
o nome que ascende e principia o fluxo
que não cessa aqui
1 048
António Ramos Rosa
No Imediato Descobrir do Ar
No imediato descobrir do ar
como uma estaca vibrante
com a brancura como único suporte
de uma palavra que seja ainda o ar
antes do depois ainda já
num bloco que sabe o não saber de estar
num avanço na folha do silêncio
para estar
como uma estaca vibrando
no ar
como uma estaca vibrante
com a brancura como único suporte
de uma palavra que seja ainda o ar
antes do depois ainda já
num bloco que sabe o não saber de estar
num avanço na folha do silêncio
para estar
como uma estaca vibrando
no ar
1 051
António Ramos Rosa
Atravessar o Deserto
Repetem-se as palavras como a erva.
Entre o corpo e o muro há um vazio voraz.
Este é o intervalo entre os flancos da terra.
Esta a boca sem lábios que lê os ossos da página.
O poema reúne todas as partes vivas.
A palavra apaga-se na nudez que se propaga.
As letras renascem de uma inércia atroz.
O corpo é um soluço sem sol e sem palavras.
Como passar o deserto sem a água do silêncio?
Como atravessar a página sem a sombra das letras?
As perguntas são ardentes imagens que se despem.
A nudez recomeça entre todas as letras.
O sentido percorre os ombros do silêncio.
Não há diferença alguma entre o corpo e a sombra.
O poema é legível nesta unidade obscura.
A claridade é o livre interrogar que avança.
O poema é o ardor do espaço, o deserto incandescente.
Entre o corpo e o muro há um vazio voraz.
Este é o intervalo entre os flancos da terra.
Esta a boca sem lábios que lê os ossos da página.
O poema reúne todas as partes vivas.
A palavra apaga-se na nudez que se propaga.
As letras renascem de uma inércia atroz.
O corpo é um soluço sem sol e sem palavras.
Como passar o deserto sem a água do silêncio?
Como atravessar a página sem a sombra das letras?
As perguntas são ardentes imagens que se despem.
A nudez recomeça entre todas as letras.
O sentido percorre os ombros do silêncio.
Não há diferença alguma entre o corpo e a sombra.
O poema é legível nesta unidade obscura.
A claridade é o livre interrogar que avança.
O poema é o ardor do espaço, o deserto incandescente.
1 280
António Ramos Rosa
Daqui Deste Deserto Em Que Persisto
Nenhum ruído no branco.
Nesta mesa onde cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra
escrevo cavo e escavo na cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente
uma pedra
busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo o corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras
Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto
Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia,
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto
As minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito
Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único no abismo branco
Sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total
Que tenho eu a dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que de mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada
Nesta mesa onde cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra
escrevo cavo e escavo na cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente
uma pedra
busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo o corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras
Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto
Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia,
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto
As minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito
Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único no abismo branco
Sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total
Que tenho eu a dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que de mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada
1 216
António Ramos Rosa
O Corpo Não Ardente
O corpo não ardente
mas obscuro
um sulco e os sombrios flancos
da imagem sob a lâmpada
No contacto não perfeito
inacabado braço inalcançável pulso
querer é dilacerar escrever rasgar
A imagem não se fixa nenhum contorno
exacto
Por um corpo inabalável pelo braço
pela dor branca pelo suplício exacto
mas obscuro
um sulco e os sombrios flancos
da imagem sob a lâmpada
No contacto não perfeito
inacabado braço inalcançável pulso
querer é dilacerar escrever rasgar
A imagem não se fixa nenhum contorno
exacto
Por um corpo inabalável pelo braço
pela dor branca pelo suplício exacto
1 151
António Ramos Rosa
Dia de Inverno
A boca fria sobre as árvores
Um dia não iluminado
Um tronco inerte
A mão ensaia a carícia no espaço
nas árvores
nos cabelos da terra
a força regelada
o homem
desceu
a rua solitária
rente ao muro
a claridade pálida
da lâmpada
A terra cheira a terra pobre
os insectos percorrem
um a um
o pulso apagado
Um dia não iluminado
Um tronco inerte
A mão ensaia a carícia no espaço
nas árvores
nos cabelos da terra
a força regelada
o homem
desceu
a rua solitária
rente ao muro
a claridade pálida
da lâmpada
A terra cheira a terra pobre
os insectos percorrem
um a um
o pulso apagado
1 118
António Ramos Rosa
Seja o Que For Murmúrio Muro
Seja o que for Murmúrio muro
Risco no opaco
Sem lâmpada na inércia branca
Os olhos ardem sob o gelo
Em equilíbrio encontrar que folha
sobre folha ou pedra
Nenhuma árvore aqui
Vocábulo nu Palavra nula
no muro
As imagens não dançam
sobre a imagem
Podes dizer pedra vento terra
Podes dizer o suicídio nulo
As imagens não dançam nos terraços
iguais e brancos brancos e iguais
nenhuma mulher se despe ou despenteia
nenhum vento desalinha este rectângulo
Podes dizer agora que a imagem
é nula como o corpo
Risco no opaco
Sem lâmpada na inércia branca
Os olhos ardem sob o gelo
Em equilíbrio encontrar que folha
sobre folha ou pedra
Nenhuma árvore aqui
Vocábulo nu Palavra nula
no muro
As imagens não dançam
sobre a imagem
Podes dizer pedra vento terra
Podes dizer o suicídio nulo
As imagens não dançam nos terraços
iguais e brancos brancos e iguais
nenhuma mulher se despe ou despenteia
nenhum vento desalinha este rectângulo
Podes dizer agora que a imagem
é nula como o corpo
1 030
António Ramos Rosa
A Partir da Ausência
Imaginar a forma
doutro ser. Na língua
proferir o seu desejo
O toque inteiro
Não existir
Se o digo acendo os filamentos
desta nocturna lâmpada
A pedra toco do silêncio densa
Os veios de um sangue escuro
Um muro vivo preso a mil raízes
Mas não o vinho límpido
de um corpo
A lucidez da terra
E se respiro a boca não atinge
a nudez una
onde começo
Era com o sol. E era
um corpo
Onde agora a mão se perde
E era o espaço
Onde não é
O que resta do corpo?
Uma matéria negra e fria?
Um hausto de desejo
retém ainda o calor de uma sílaba?
As palavras soçobram rente ao muro
A terra sopra outros vocábulos nus
Entre os ossos e as ervas
uma outra mão ténue
refaz o rosto escuro
doutro poema
doutro ser. Na língua
proferir o seu desejo
O toque inteiro
Não existir
Se o digo acendo os filamentos
desta nocturna lâmpada
A pedra toco do silêncio densa
Os veios de um sangue escuro
Um muro vivo preso a mil raízes
Mas não o vinho límpido
de um corpo
A lucidez da terra
E se respiro a boca não atinge
a nudez una
onde começo
Era com o sol. E era
um corpo
Onde agora a mão se perde
E era o espaço
Onde não é
O que resta do corpo?
Uma matéria negra e fria?
Um hausto de desejo
retém ainda o calor de uma sílaba?
As palavras soçobram rente ao muro
A terra sopra outros vocábulos nus
Entre os ossos e as ervas
uma outra mão ténue
refaz o rosto escuro
doutro poema
1 131
António Ramos Rosa
Que Sinal Acender?
Que sinal acender?
A mão na terra sem o fogo.
O suporte inicial? A boca unânime?
A mão na folha procura a fenda.
Desesperados insectos sobre o pulso.
Onde vive o desejo? Nestes resíduos ténues?
Onde. Soa a pedra. Recorda a pedra.
Ou a sombra do corpo. A leve
circunferência em torno da nudez.
Um nome de ar e terra, um nome só.
Agora no centro desolado. Um nome acorda?
Um flanco alvo
no desolado centro.
Ó tangência feliz dos dedos sobre o cimo
de um corpo em gestação.
Que nome
és tu,
que nome ou nomes
onde e onde
e boca ou folha
e não só os resíduos sob a sombra.
Onde tocasse o corpo. Onde o corpo.
A mão na terra sem o fogo.
O suporte inicial? A boca unânime?
A mão na folha procura a fenda.
Desesperados insectos sobre o pulso.
Onde vive o desejo? Nestes resíduos ténues?
Onde. Soa a pedra. Recorda a pedra.
Ou a sombra do corpo. A leve
circunferência em torno da nudez.
Um nome de ar e terra, um nome só.
Agora no centro desolado. Um nome acorda?
Um flanco alvo
no desolado centro.
Ó tangência feliz dos dedos sobre o cimo
de um corpo em gestação.
Que nome
és tu,
que nome ou nomes
onde e onde
e boca ou folha
e não só os resíduos sob a sombra.
Onde tocasse o corpo. Onde o corpo.
980
António Ramos Rosa
O Momento De
Talvez seja o momento de.
Mesmo sem esperança. E ele escreve:
nenhum impulso para ti
neste espaço deserto.
Ele perscruta entre as pedras e as sombras.
Nada vê. Ignora. Olha.
Que traços são estes,
qual a origem destas palavras nulas?
Ele escreve. O seu desejo é o desejo
de tornar habitável o deserto.
Mesmo sem esperança. E ele escreve:
nenhum impulso para ti
neste espaço deserto.
Ele perscruta entre as pedras e as sombras.
Nada vê. Ignora. Olha.
Que traços são estes,
qual a origem destas palavras nulas?
Ele escreve. O seu desejo é o desejo
de tornar habitável o deserto.
1 181
António Ramos Rosa
O Suporte Livre Inicial
O suporte livre inicial
no avanço imediato no silêncio do ar
aqui e mais à frente ainda sempre
o excesso novo de cada vez ser ar
no extremo do corpo e no limite insondável
o caminho e uma pergunta a que responde o ar
o avanço e um regresso às origens da língua
a língua toda ela língua de ar
no avanço imediato no silêncio do ar
aqui e mais à frente ainda sempre
o excesso novo de cada vez ser ar
no extremo do corpo e no limite insondável
o caminho e uma pergunta a que responde o ar
o avanço e um regresso às origens da língua
a língua toda ela língua de ar
1 111
António Ramos Rosa
Estas Palavras
Como quem grava a cabeça silenciosa
como se reúne a água à água
estas palavras
não dizem todavia o júbilo
ou o rio
que sob elas flui
Oh quem diria
o que de súbito nos une um eco um brilho
não os sinais
mas a duna e o espaço
a configuração viva do instante
a nuvem vermelha sobre o monte
o completo sentimento do intacto
como se reúne a água à água
estas palavras
não dizem todavia o júbilo
ou o rio
que sob elas flui
Oh quem diria
o que de súbito nos une um eco um brilho
não os sinais
mas a duna e o espaço
a configuração viva do instante
a nuvem vermelha sobre o monte
o completo sentimento do intacto
1 059
António Ramos Rosa
Campo do Silêncio
Enfim o laço do começo e a conjuntura
de uma extrema atenção e os sinais de
um vazio junto
a um muro propício à abertura
em que tudo é matéria do olhar
e a luz constitui o corpo branco
no campo do silêncio
num rumor de sombra e esquecimento
as palavras lúcidas
tão próximas da morte
com as marcas fixas
dos insectos
e a incessante explicação do espaço
que elimina as palavras e as renova
unindo a boca à boca do ar
entre o silêncio e o fogo
no incessante fim que se aproxima
enquanto o muro escurece sob a sombra
de uma extrema atenção e os sinais de
um vazio junto
a um muro propício à abertura
em que tudo é matéria do olhar
e a luz constitui o corpo branco
no campo do silêncio
num rumor de sombra e esquecimento
as palavras lúcidas
tão próximas da morte
com as marcas fixas
dos insectos
e a incessante explicação do espaço
que elimina as palavras e as renova
unindo a boca à boca do ar
entre o silêncio e o fogo
no incessante fim que se aproxima
enquanto o muro escurece sob a sombra
1 082
António Ramos Rosa
Na Lentidão
A lentidão animal.
A casa intensa: nuvem clara, espessa.
Prolongado retorno
ao lugar que retém o sono
do espaço vivo.
Aqui se forma um corpo:
os seus limites tremem.
Uma árvore dorme.
Um nome de ar se abre
para o corpo, para o seu campo claro.
O braço entrego à lenta
roda branca.
Regresso de um regresso
ao solidário solo.
A casa intensa: nuvem clara, espessa.
Prolongado retorno
ao lugar que retém o sono
do espaço vivo.
Aqui se forma um corpo:
os seus limites tremem.
Uma árvore dorme.
Um nome de ar se abre
para o corpo, para o seu campo claro.
O braço entrego à lenta
roda branca.
Regresso de um regresso
ao solidário solo.
948
António Ramos Rosa
Um Avanço No Silêncio Como Um Sopro
Um avanço no silêncio como um sopro
frígido da avidez do ar
um caminhar no horizonte do mar
um corpo com novos lábios dentes frescos
a inocência de um silêncio de água
o olhar ao nível só do ar
a língua saboreando o sol e o ar
um fulgor ávido entre o corpo e o espaço
frígido da avidez do ar
um caminhar no horizonte do mar
um corpo com novos lábios dentes frescos
a inocência de um silêncio de água
o olhar ao nível só do ar
a língua saboreando o sol e o ar
um fulgor ávido entre o corpo e o espaço
1 039
António Ramos Rosa
Se Existe Uma Figura Ela É Volátil
Se existe uma figura ela é volátil
feita do próprio ar
e da lacuna
que é o centro do vácuo do estar
e se a figura dança ainda é
uma figura de ar
que enlaça o ar do corpo
o corpo todo ar
feita do próprio ar
e da lacuna
que é o centro do vácuo do estar
e se a figura dança ainda é
uma figura de ar
que enlaça o ar do corpo
o corpo todo ar
1 010
António Ramos Rosa
Entre o Frio E o Sol
A casa, a luz, o espaço.
Em vão escritas, sem a luz.
O espaço sem o espaço.
O corpo sem a casa.
Um sopro sobre o espaço
desta folha.
Sem a chama.
E sem a mão que ascende sobre
a superfície iluminada.
*
Um débil sopro. Demasiado
débil.
Porquê chamar-lhe pulso
ou lâmpada?
Nenhum ardor possível.
Nenhuma violência viva
na mão nua.
*
Onde dissesse verde, a água,
intenso, azul, as ervas, livres,
ar, selvagem,
o pulso incandescente,
a língua sobre a língua.
*
Quem desenha o dia?
Muro a muro?
E quem respira?
*
Um furor branco
contra a folha branca.
Oh, se o desejo deflagrasse
num incêndio verde.
*
De casa a casa, de rosto
a rosto.
Um espaço.
E a água no braço.
Como um fogo
para ver
a chama da folha.
*
Nomeio a chama verde, a veemência
tranquila,
uma lâmpada nova.
O que toca a mão é a água viva.
*
Apenas uma lâmina. De terra?
E um sopro.
A sombra acesa? A luz?
A parede na água.
A lâmpada flutuando.
A mão na terra.
*
Entre o frio e o sol
a mão ensaia
um só desejo
entre a pedra e a água.
Os dedos hirtos. Luz gelada.
Lâmpada abolida.
Mão aniquilada.
Só vivas as margens brancas.
*
Que reste apenas esta parede branca.
O incompleto ser,
brusco animal,
tem aqui a sua boca de água.
Em vão escritas, sem a luz.
O espaço sem o espaço.
O corpo sem a casa.
Um sopro sobre o espaço
desta folha.
Sem a chama.
E sem a mão que ascende sobre
a superfície iluminada.
*
Um débil sopro. Demasiado
débil.
Porquê chamar-lhe pulso
ou lâmpada?
Nenhum ardor possível.
Nenhuma violência viva
na mão nua.
*
Onde dissesse verde, a água,
intenso, azul, as ervas, livres,
ar, selvagem,
o pulso incandescente,
a língua sobre a língua.
*
Quem desenha o dia?
Muro a muro?
E quem respira?
*
Um furor branco
contra a folha branca.
Oh, se o desejo deflagrasse
num incêndio verde.
*
De casa a casa, de rosto
a rosto.
Um espaço.
E a água no braço.
Como um fogo
para ver
a chama da folha.
*
Nomeio a chama verde, a veemência
tranquila,
uma lâmpada nova.
O que toca a mão é a água viva.
*
Apenas uma lâmina. De terra?
E um sopro.
A sombra acesa? A luz?
A parede na água.
A lâmpada flutuando.
A mão na terra.
*
Entre o frio e o sol
a mão ensaia
um só desejo
entre a pedra e a água.
Os dedos hirtos. Luz gelada.
Lâmpada abolida.
Mão aniquilada.
Só vivas as margens brancas.
*
Que reste apenas esta parede branca.
O incompleto ser,
brusco animal,
tem aqui a sua boca de água.
1 046
António Ramos Rosa
A Palavra No Deserto
à Lia
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal?
Era uma paisagem a pique. Respirava.
Uma obscura claridade e o vigor da terra
conjugavam-se numa boca. Era a frescura
de uma vigília, um sopro de vida ardente.
A clareira de ervas de aromas tensos.
O poema escrevia-se de poros abertos.
Uma camisa branca e leve flutuava
no corpo flexível.
Todos os frémitos eram sílabas de um Verão feliz.
Entre o sabor das coisas e as palavras
uma transparência quase.
A invenção do ar e do espaço
com uma varanda onde a ânsia refrescava
a sua febre na visão do mar.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Que procuro ainda?
A inesperada ardência, a vida
de um gesto novo?
Restituir-me-á a palavra
a maravilha nua do encontro,
a surpresa que lava o olhar, o pulso vivo?
Que miragem é esta? Viver só
o instante de um desejo
ou apenas o desejo de um desejo?
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Uma palavra de vida. O nascimento
de uma erva alta onde o céu dance.
Antes direi o nada que me cerca
e marcarei a pedra escura.
A sombra passará. A sede límpida
encontrará a fonte?
Se um caule verde nasce,
se eu ouvir um insecto crepitar no calor da terra?
Ou serão na noite os estalidos das estrelas?
Será este o sinal? As palavras nascem?
Tudo já passou. Ou nem chegou a ser.
E de novo preso à fixidez da página.
Que secreta origem, que presença branca
eu quero sentir pulsar. À minha frente
este desejo de nascer ainda em vida.
A esperança desesperada. A desesperada esperança.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Porque o sinal seria… Como o saberei?
Uma esperança paciente. A invenção
de tudo a cada instante. Uma linguagem
viva.
E não a aridez e a solidão sem vida.
O frio avança nos ossos e no sangue.
De novo a agonia e a dor sem horizonte.
Um escuro frenesim me invade contra
a sabedoria e a prometida paz.
O sinal que espero virá do mais obscuro.
Tudo se apagará. O nascimento é agora.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal?
Era uma paisagem a pique. Respirava.
Uma obscura claridade e o vigor da terra
conjugavam-se numa boca. Era a frescura
de uma vigília, um sopro de vida ardente.
A clareira de ervas de aromas tensos.
O poema escrevia-se de poros abertos.
Uma camisa branca e leve flutuava
no corpo flexível.
Todos os frémitos eram sílabas de um Verão feliz.
Entre o sabor das coisas e as palavras
uma transparência quase.
A invenção do ar e do espaço
com uma varanda onde a ânsia refrescava
a sua febre na visão do mar.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Que procuro ainda?
A inesperada ardência, a vida
de um gesto novo?
Restituir-me-á a palavra
a maravilha nua do encontro,
a surpresa que lava o olhar, o pulso vivo?
Que miragem é esta? Viver só
o instante de um desejo
ou apenas o desejo de um desejo?
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Uma palavra de vida. O nascimento
de uma erva alta onde o céu dance.
Antes direi o nada que me cerca
e marcarei a pedra escura.
A sombra passará. A sede límpida
encontrará a fonte?
Se um caule verde nasce,
se eu ouvir um insecto crepitar no calor da terra?
Ou serão na noite os estalidos das estrelas?
Será este o sinal? As palavras nascem?
Tudo já passou. Ou nem chegou a ser.
E de novo preso à fixidez da página.
Que secreta origem, que presença branca
eu quero sentir pulsar. À minha frente
este desejo de nascer ainda em vida.
A esperança desesperada. A desesperada esperança.
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.
Porque o sinal seria… Como o saberei?
Uma esperança paciente. A invenção
de tudo a cada instante. Uma linguagem
viva.
E não a aridez e a solidão sem vida.
O frio avança nos ossos e no sangue.
De novo a agonia e a dor sem horizonte.
Um escuro frenesim me invade contra
a sabedoria e a prometida paz.
O sinal que espero virá do mais obscuro.
Tudo se apagará. O nascimento é agora.
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António Ramos Rosa
No Parque
Há uma distância de ser que é ainda uma forma de estar no mundo. Esta distância é uma lâmina. Sou uma constante margem que percorro até ao centro de cada coisa.
Sou o espelho
deste espaço.
*
Uma pedra acesa e clara aspira o verde aroma do parque. A cegueira branca é ver as formas habitadas pela força calma.
*
Uma pedra, no dia aceso, o átrio do olhar cada vez mais alto. Inundado insecto ante o jorro compacto de uma árvore.
*
O princípio de um chão e de um rosto a centrar-se num espaço novo entre margens vivas verdes. Assim, abro a face do dia, bebo a língua do vento.
*
Posso apagar a hora,
abrir o pulso
do instante.
*
Estabeleço-me na altura verde do chão. Respiro o arbusto de pequenas folhas frescas. A delicada razão do seu ser em paz dançável com o ar.
*
O espaço aniquilou-me e dele renasço, olhando o mundo aberto.
*
Piso o chão novo animado da imóvel e branca oscilação do espaço arborescente.
*
Tenho o poder suave de me enrolar na doce espiral do dia.
*
Conheço a tranquila latitude da terra.
Sou o espelho
deste espaço.
*
Uma pedra acesa e clara aspira o verde aroma do parque. A cegueira branca é ver as formas habitadas pela força calma.
*
Uma pedra, no dia aceso, o átrio do olhar cada vez mais alto. Inundado insecto ante o jorro compacto de uma árvore.
*
O princípio de um chão e de um rosto a centrar-se num espaço novo entre margens vivas verdes. Assim, abro a face do dia, bebo a língua do vento.
*
Posso apagar a hora,
abrir o pulso
do instante.
*
Estabeleço-me na altura verde do chão. Respiro o arbusto de pequenas folhas frescas. A delicada razão do seu ser em paz dançável com o ar.
*
O espaço aniquilou-me e dele renasço, olhando o mundo aberto.
*
Piso o chão novo animado da imóvel e branca oscilação do espaço arborescente.
*
Tenho o poder suave de me enrolar na doce espiral do dia.
*
Conheço a tranquila latitude da terra.
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António Ramos Rosa
Com a Cabeça Vibrante Ao Largo
Com a cabeça vibrante ao largo
com a cabeça tocando os limites largos
com o vento soprando no vazio da cabeça
com a língua ávida respirando o sol do ar
antes ainda do depois
aqui na avidez perene do ar do mar
o eterno efémero a respirar
sem mais com todo o mais
sulcado todo pelo ar
com a cabeça tocando os limites largos
com o vento soprando no vazio da cabeça
com a língua ávida respirando o sol do ar
antes ainda do depois
aqui na avidez perene do ar do mar
o eterno efémero a respirar
sem mais com todo o mais
sulcado todo pelo ar
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António Ramos Rosa
A Página Final
A página final
sem aridez vermelha
direcção oblíqua da mão liberta
à altura do animal da boca acesa
princípio de outro vento subtil
A mão primeira
a que tocou a extrema
pedra sem sinal
de vento
a que desenhou a anca
inacabada
sobre a brancura sem insectos
tua
a inapagável rede onde
se ouve a língua
no murmúrio da língua
praia
e palma do teu ser
o ombro dela
sem aridez vermelha
direcção oblíqua da mão liberta
à altura do animal da boca acesa
princípio de outro vento subtil
A mão primeira
a que tocou a extrema
pedra sem sinal
de vento
a que desenhou a anca
inacabada
sobre a brancura sem insectos
tua
a inapagável rede onde
se ouve a língua
no murmúrio da língua
praia
e palma do teu ser
o ombro dela
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