Poemas neste tema
Alma
António Ramos Rosa
A Estância do Dia
Compacta, volumosa barra (de sono e luz)
— o longo
elemento prenhe que perdura,
o corpo, esta madeira
da estância — actual em consistência fresca,
no lugar em que pouso, lugar dela,
pausa em que me apoio, estação una.
Habitável espaço pleno,
o surdo nome espesso, o ócio,
espraia sua toalha branca de horizonte interno.
Surde, no papel, o solo,
o lugar sem suporte, assomo
de estar
— até à fronte o intervalo abrindo
para o olhar que o perde e que o renova
ao fim de outro intervalo
— fluxo entre rupturas,
permanecendo todavia em todo o campo vivo,
o lugar do fogo entre pedras calmas,
visível figura respirável
no disperso centro do ar
em circular transparência global.
— o longo
elemento prenhe que perdura,
o corpo, esta madeira
da estância — actual em consistência fresca,
no lugar em que pouso, lugar dela,
pausa em que me apoio, estação una.
Habitável espaço pleno,
o surdo nome espesso, o ócio,
espraia sua toalha branca de horizonte interno.
Surde, no papel, o solo,
o lugar sem suporte, assomo
de estar
— até à fronte o intervalo abrindo
para o olhar que o perde e que o renova
ao fim de outro intervalo
— fluxo entre rupturas,
permanecendo todavia em todo o campo vivo,
o lugar do fogo entre pedras calmas,
visível figura respirável
no disperso centro do ar
em circular transparência global.
976
António Ramos Rosa
Caminho do Alento
ao Luís Amaro
As que dançam no caminho, ervas dos lábios,
as sinuosas e leves,
sabem ao vento em que navegam,
caem na maciez das pálpebras.
Ó amêndoas do ar
nos ébrios dedos,
e na boca um forno de flor.
Quando se caminha assim, quase volante,
a terra amiga e lenta,
no calor forte,
com a fronte do alento perfumada
ardente entre as searas?
As que dançam no caminho, ervas dos lábios,
as sinuosas e leves,
sabem ao vento em que navegam,
caem na maciez das pálpebras.
Ó amêndoas do ar
nos ébrios dedos,
e na boca um forno de flor.
Quando se caminha assim, quase volante,
a terra amiga e lenta,
no calor forte,
com a fronte do alento perfumada
ardente entre as searas?
572
António Ramos Rosa
A Pobreza de Certas Palavras
É para ouvires o som de um buraco,
certas palavras despidas, certas palavras pobres:
o som de um buraco.
O sopro que ouvires, não o ouves, não é o sopro da árvore.
Aqui esqueceu-se o peso das pedras.
Por isso outras palavras: as que sobram.
Não as que restam.
Não será um grito. Certas palavras, só.
A quebra muda, nem sequer um baque.
Eis o que elas produzem depois de ti:
o som de um buraco.
Entre nós: não o ouvido. Certas palavras mais pobres,
obsessivas, mortas.
Persistem. Morrem.
certas palavras despidas, certas palavras pobres:
o som de um buraco.
O sopro que ouvires, não o ouves, não é o sopro da árvore.
Aqui esqueceu-se o peso das pedras.
Por isso outras palavras: as que sobram.
Não as que restam.
Não será um grito. Certas palavras, só.
A quebra muda, nem sequer um baque.
Eis o que elas produzem depois de ti:
o som de um buraco.
Entre nós: não o ouvido. Certas palavras mais pobres,
obsessivas, mortas.
Persistem. Morrem.
1 071
António Ramos Rosa
Para Vir Aqui
Para vir aqui, de longe, a este sol da casa.
Para esta casa do corpo — tão de longe.
Chegar à casa onde estou,
olhos da face, ver à beira
da casa o sol da casa
tão perto e longo
o sol da face, o corpo
tão perto — e de tão longe.
Para esta casa do corpo — tão de longe.
Chegar à casa onde estou,
olhos da face, ver à beira
da casa o sol da casa
tão perto e longo
o sol da face, o corpo
tão perto — e de tão longe.
1 060
António Ramos Rosa
O Sol da Casa
Sou o que veio por um momento
de sol.
Vim até à beira da janela
até ao hálito da casa.
Venho até ver com o sol
o ouro do campo
da casa.
Uma boca lenta que percorre
o sabor dos quartos
desta casa de terra quente.
Venho até quase à boca desta casa
silenciosa de sol.
de sol.
Vim até à beira da janela
até ao hálito da casa.
Venho até ver com o sol
o ouro do campo
da casa.
Uma boca lenta que percorre
o sabor dos quartos
desta casa de terra quente.
Venho até quase à boca desta casa
silenciosa de sol.
1 121
António Ramos Rosa
Fora do Arco
Quem constrói?
Ninguém mais. Só
onde me lanço. E é terra ou não.
Nada quero dizer.
Nada se alcança.
Música, a necessária:
boca do desejo
que inicia a perda ou
o espaço em branco.
Quem escuta ou quem atende?
Fora do arco, no papel
a pedra não é pedra. É onde
nada imploro, mas avanço ou caio.
E sem a força, o aro flexível,
inscrevo, abrindo o branco
para onde não sei.
Não me nego. Mas cedo
ao duro arbusto que estremece
à minha frente.
Será a árvore, é para ti
se eu for
no alvo que atravesso.
Ninguém mais. Só
onde me lanço. E é terra ou não.
Nada quero dizer.
Nada se alcança.
Música, a necessária:
boca do desejo
que inicia a perda ou
o espaço em branco.
Quem escuta ou quem atende?
Fora do arco, no papel
a pedra não é pedra. É onde
nada imploro, mas avanço ou caio.
E sem a força, o aro flexível,
inscrevo, abrindo o branco
para onde não sei.
Não me nego. Mas cedo
ao duro arbusto que estremece
à minha frente.
Será a árvore, é para ti
se eu for
no alvo que atravesso.
1 023
António Ramos Rosa
Contra o Silêncio
Ardem os braços, ardem contra
o silêncio. Não grito.
Doem os ossos contra a porta.
Abrem-se ao abraço. Estalam? Querem?
Suporto frente à porta.
Não é o silêncio do silêncio.
Não a terra da casa nem o tronco da terra.
Não a face no espelho onde nulo me vejo.
Rosto pregado ao solo, às pregas mínimas,
contacto a pura força dos ossos masculinos.
Dói. Dói-me a força que sustento.
A parede do silêncio mais espessa.
As escuras veias que se engrossam.
Rasgarei uma nuvem? Abrirei uma pedra?
Contenho o tronco, a força contra o tempo?
Uma janela? Não. Não antecipo.
No meu corpo ainda não se fez silêncio.
Abro, abro a porta deste tronco ou fecho-a?
Estendo os braços que estalam. Uma ponte?
Atravesso as veias de madeira ou de pedra.
Silva algum astro na seiva ou as raízes rangem?
Sou compactamente. Nada ainda sou.
Sobrevivo ainda. Resisto ainda. Forço ainda. Quero.
O silêncio ainda é uma bandeira de febre.
Um país de insectos dissemina-se.
Vibro no saibro ardente. Vibro e ardo.
Se atingir os ombros, desaguar as espáduas,
deixarei a onda mais branca do silêncio
abrir-me a porta, descerrar-me o tronco?
Estou aqui. Aonde? Cerradamente inverso.
Por uma ferida verde, por uma porta aberta?
Estou aqui onde não é uma torre,
contra a expulsão. Por uma explosão suave.
Ah, se caísse, caísse na queda que me erguesse?
Até à folha onde escrevo, que país de mãos seria?
o silêncio. Não grito.
Doem os ossos contra a porta.
Abrem-se ao abraço. Estalam? Querem?
Suporto frente à porta.
Não é o silêncio do silêncio.
Não a terra da casa nem o tronco da terra.
Não a face no espelho onde nulo me vejo.
Rosto pregado ao solo, às pregas mínimas,
contacto a pura força dos ossos masculinos.
Dói. Dói-me a força que sustento.
A parede do silêncio mais espessa.
As escuras veias que se engrossam.
Rasgarei uma nuvem? Abrirei uma pedra?
Contenho o tronco, a força contra o tempo?
Uma janela? Não. Não antecipo.
No meu corpo ainda não se fez silêncio.
Abro, abro a porta deste tronco ou fecho-a?
Estendo os braços que estalam. Uma ponte?
Atravesso as veias de madeira ou de pedra.
Silva algum astro na seiva ou as raízes rangem?
Sou compactamente. Nada ainda sou.
Sobrevivo ainda. Resisto ainda. Forço ainda. Quero.
O silêncio ainda é uma bandeira de febre.
Um país de insectos dissemina-se.
Vibro no saibro ardente. Vibro e ardo.
Se atingir os ombros, desaguar as espáduas,
deixarei a onda mais branca do silêncio
abrir-me a porta, descerrar-me o tronco?
Estou aqui. Aonde? Cerradamente inverso.
Por uma ferida verde, por uma porta aberta?
Estou aqui onde não é uma torre,
contra a expulsão. Por uma explosão suave.
Ah, se caísse, caísse na queda que me erguesse?
Até à folha onde escrevo, que país de mãos seria?
1 205
António Ramos Rosa
O Arco, E Logo, a Folha Alta
O arco, e logo, a folha alta,
o dia. O espaço,
o silêncio, um bloco transparente.
A casa vive o que eu escrevo,
e a margem branca (intransponível)
é o corpo que eu não sei,
vivo na claridade.
Um corpo, digo, não um cristal.
Que permanece, ainda que eu hesite
ou falhe, ou recomece. E longamente
se abre, no dia, o arco, e a mão que o perde.
Só uma distância, ou o desejo, o quer.
Mas onde e quando, enquanto existe?
A vulnerada folha não o rasga.
O corpo, no horizonte, dura, intacto.
o dia. O espaço,
o silêncio, um bloco transparente.
A casa vive o que eu escrevo,
e a margem branca (intransponível)
é o corpo que eu não sei,
vivo na claridade.
Um corpo, digo, não um cristal.
Que permanece, ainda que eu hesite
ou falhe, ou recomece. E longamente
se abre, no dia, o arco, e a mão que o perde.
Só uma distância, ou o desejo, o quer.
Mas onde e quando, enquanto existe?
A vulnerada folha não o rasga.
O corpo, no horizonte, dura, intacto.
1 058
António Ramos Rosa
O Cavalo Diamante, o Que Se Apaga
O cavalo diamante, o que se apaga
na mancha mais escura — ainda possível.
Neutro vagar, pausa de ser tão material,
fronte de terra, insuflada aurora.
Lapidar como a lâmpada na mancha
mínima, rasgado pelo gosto da terra,
gesto do peso que eleva e forte
como a terra de longe e em torno a cor de tudo.
Lapidar entre arestas e curvas,
forma de água em peito,
língua do sabor da terra inteira,
fértil da aridez de pedra,
o corpo sonoro isolado nas relvas,
fúria parada,
a mão cobre-o todo, terra plácida.
na mancha mais escura — ainda possível.
Neutro vagar, pausa de ser tão material,
fronte de terra, insuflada aurora.
Lapidar como a lâmpada na mancha
mínima, rasgado pelo gosto da terra,
gesto do peso que eleva e forte
como a terra de longe e em torno a cor de tudo.
Lapidar entre arestas e curvas,
forma de água em peito,
língua do sabor da terra inteira,
fértil da aridez de pedra,
o corpo sonoro isolado nas relvas,
fúria parada,
a mão cobre-o todo, terra plácida.
1 164
António Ramos Rosa
O Cavalo Decide Antes Ainda
O cavalo decide antes ainda
da decisão, na planície.
Cavalo azul, não, mas forma
do meu bafo que lhe respira o ardor.
Eu sou cavalo no cavalo
porque a palavra o diz inteiro
e vejo que ela cava, é terra e pedra
e músculo a músculo retenho a força dele.
Com a paciência do campo e o amor do olhar
a precisão do cavalo é maior que o caminho
e tem em si todo o hálito da casa.
da decisão, na planície.
Cavalo azul, não, mas forma
do meu bafo que lhe respira o ardor.
Eu sou cavalo no cavalo
porque a palavra o diz inteiro
e vejo que ela cava, é terra e pedra
e músculo a músculo retenho a força dele.
Com a paciência do campo e o amor do olhar
a precisão do cavalo é maior que o caminho
e tem em si todo o hálito da casa.
1 312
António Ramos Rosa
No Intervalo
É aqui que a terra cede,
a mão soçobra na entranha húmida,
e todo o visco se escreve como um gosto visto.
Seio invertido em que estremece a pena
para o espaço extenso a ser folha na folha.
A falha em que penetro, ó feliz falha,
para que não há nome nem grito,
não peço o teu não, escorro a tinta
que te não diz, e digo-te feliz na folha.
Assim eu falho e sou feliz.
A falha em que prossigo (a folha é lisa)
não diverte, mas desvia, e eu quero que anule
e seja a direcção nula da folha
igual à folha que fale, e que eu falhe feliz.
Aqui seria a forma de um jardim,
a forma, as formas: a presença do corpo.
Sem corpo, um só olhar em torno.
Mas sem tronco, em que apoiar-me?
O gosto já esquecido, tive-o. Não.
As folhas só aqui seriam folhas.
Vi-as. Em vão aqui as lembro. O espaço
só aqui é espaço e as suas folhas
aqui são as iguais, as únicas felizes.
Não nego o que vi, mas aqui é nulo.
Aqui é a sombra e esta sombra seria
feliz sombra vermelha. Na memória
anulada e ressurgida, ó sombra tu serias
minha sombra vermelha.
Que nulo seja ou morra,
no surdo brilho intervalo em que
o movimento me aniquila e escrevo: sim.
A lâmpada de folhas enche a mão.
Amo as fendas, e as pequenas teias
são o enleio do instante.
Que morra ou surja.
Neste campo
o corpo não escolho nem reduzo,
é ampla a folhagem em que me embrenho.
Que morra ou surja, ó espaçosa
cabeleira e o quarto que preenches com teus raios.
Não sou mais do que uma pequena sombra com olhos
para os seus insectos lúcidos.
São nomes sobre o sangue. Nomes vãos
mas que propagam, apagando-se. E
se num ímpeto leve os apreendo,
direi que são azuis ou verdes. E que brilham.
Sou apenas uma sombra com olhos neste instante.
a mão soçobra na entranha húmida,
e todo o visco se escreve como um gosto visto.
Seio invertido em que estremece a pena
para o espaço extenso a ser folha na folha.
A falha em que penetro, ó feliz falha,
para que não há nome nem grito,
não peço o teu não, escorro a tinta
que te não diz, e digo-te feliz na folha.
Assim eu falho e sou feliz.
A falha em que prossigo (a folha é lisa)
não diverte, mas desvia, e eu quero que anule
e seja a direcção nula da folha
igual à folha que fale, e que eu falhe feliz.
Aqui seria a forma de um jardim,
a forma, as formas: a presença do corpo.
Sem corpo, um só olhar em torno.
Mas sem tronco, em que apoiar-me?
O gosto já esquecido, tive-o. Não.
As folhas só aqui seriam folhas.
Vi-as. Em vão aqui as lembro. O espaço
só aqui é espaço e as suas folhas
aqui são as iguais, as únicas felizes.
Não nego o que vi, mas aqui é nulo.
Aqui é a sombra e esta sombra seria
feliz sombra vermelha. Na memória
anulada e ressurgida, ó sombra tu serias
minha sombra vermelha.
Que nulo seja ou morra,
no surdo brilho intervalo em que
o movimento me aniquila e escrevo: sim.
A lâmpada de folhas enche a mão.
Amo as fendas, e as pequenas teias
são o enleio do instante.
Que morra ou surja.
Neste campo
o corpo não escolho nem reduzo,
é ampla a folhagem em que me embrenho.
Que morra ou surja, ó espaçosa
cabeleira e o quarto que preenches com teus raios.
Não sou mais do que uma pequena sombra com olhos
para os seus insectos lúcidos.
São nomes sobre o sangue. Nomes vãos
mas que propagam, apagando-se. E
se num ímpeto leve os apreendo,
direi que são azuis ou verdes. E que brilham.
Sou apenas uma sombra com olhos neste instante.
1 064
António Ramos Rosa
Amor da Palavra, Amor do Corpo
a Maria Aliete Galhoz
A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que te não vejo.
Boca na boca através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.
A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que te não vejo.
Boca na boca através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.
733
António Ramos Rosa
Na Solidão Renovada
Com os dentes.
Sem música,
sem água.
Reptilmente.
*
Na folha do instante
nenhum galo
ainda
canta.
*
Caminho no país do sono lúcido.
A pedra nos olhos. Um olho de pedra.
Minha cabeça de encontro ao sol do chão.
*
Junto do tronco o texto organizava-se. Todas as palavras eram brancas. Era o silêncio para sempre aqui — a primeira folha aberta. O dia, a terra, o meu corpo — um só corpo.
*
Sentados sobre um tronco, sob as silenciosas copas. A energia do verde em torno acende-nos. É um fogo verde que estala nos corpos. Uma chama verde com duas bocas.
*
Este grande bloco sem lábios. Um dia múltiplo, um só dia vazio, e esta mão que vai talvez desenhar a manhã, sulcar o deserto infatigável, abrir o subterrâneo mortal.
*
Regressas aos teus primeiros lábios. É necessária essa palavra de terra ainda molhada, para que acordes. Atravessaste a sombra desse dia opaco e baixo, até ao extremo delírio do deserto. Não temos casa ainda e alguns de nós se apagarão sem a esperança da manhã. Mas a frente é comum na solidão renovada.
Sem música,
sem água.
Reptilmente.
*
Na folha do instante
nenhum galo
ainda
canta.
*
Caminho no país do sono lúcido.
A pedra nos olhos. Um olho de pedra.
Minha cabeça de encontro ao sol do chão.
*
Junto do tronco o texto organizava-se. Todas as palavras eram brancas. Era o silêncio para sempre aqui — a primeira folha aberta. O dia, a terra, o meu corpo — um só corpo.
*
Sentados sobre um tronco, sob as silenciosas copas. A energia do verde em torno acende-nos. É um fogo verde que estala nos corpos. Uma chama verde com duas bocas.
*
Este grande bloco sem lábios. Um dia múltiplo, um só dia vazio, e esta mão que vai talvez desenhar a manhã, sulcar o deserto infatigável, abrir o subterrâneo mortal.
*
Regressas aos teus primeiros lábios. É necessária essa palavra de terra ainda molhada, para que acordes. Atravessaste a sombra desse dia opaco e baixo, até ao extremo delírio do deserto. Não temos casa ainda e alguns de nós se apagarão sem a esperança da manhã. Mas a frente é comum na solidão renovada.
1 152
António Ramos Rosa
A Caminho de Ti, Em Ti
Leve mobilização de um maquinismo suave e ardente.
A alta fenda do ar que se me abre.
A torre acessível ao meu abraço, inteira e viva.
Percorro-te, inundo-te: cálido tronco de água.
Energia liberta, seda que vibra.
Minha mulher viva.
A alta fenda do ar que se me abre.
A torre acessível ao meu abraço, inteira e viva.
Percorro-te, inundo-te: cálido tronco de água.
Energia liberta, seda que vibra.
Minha mulher viva.
1 071
António Ramos Rosa
A Paixão do Ar
Olhar sem caminho em cheio
a tranquila onda muscular
paralela à mão aberta e livre
Uma escrita a nascer dos alvos flancos
a paixão do ar como uma chama
Paixão que une a terra cheia ao mar
o olhar respira em todo o corpo igual
o corpo eleva-se sobre a montanha fácil
O fogo flexível.
a tranquila onda muscular
paralela à mão aberta e livre
Uma escrita a nascer dos alvos flancos
a paixão do ar como uma chama
Paixão que une a terra cheia ao mar
o olhar respira em todo o corpo igual
o corpo eleva-se sobre a montanha fácil
O fogo flexível.
558
António Ramos Rosa
Ritmo do Ritmo
Era a mão que me conduzia por entre os troncos e as folhas.
(Como se houvesse um conhecimento do dia.)
Era a mão ou este olho oblongo correndo longo músculo.
Imersão horizontal oblíqua na claridade viva.
Todo eu sou esta mão ou este olho tenso liso correndo pela calçada.
Ó cúpulas! Ó céu suspenso!
Os pés bem firmes, marcho, plantando-me.
Sou uma árvore. Mil folhas tremem. O sol acompanha-me.
Seiva liberta ascendendo ao olhar, nas veias e nos pulsos.
Condutoras fibras, feixes, sílabas, passos, silêncio e canto.
Andar, glória única, com o sol, por sobre as pedras gastas.
Deslizar como um gato sem me confundir, único, impalpável nada.
Ondulação, cadência, sorvo o sol com todo o rosto.
Dou a mão ao meu olhar, dou o corpo ao meu olhar.
Sou um ritmo único. Respiro. Recomeço.
O mais perto daqui. O mais perto de agora.
(Como se houvesse um conhecimento do dia.)
Era a mão ou este olho oblongo correndo longo músculo.
Imersão horizontal oblíqua na claridade viva.
Todo eu sou esta mão ou este olho tenso liso correndo pela calçada.
Ó cúpulas! Ó céu suspenso!
Os pés bem firmes, marcho, plantando-me.
Sou uma árvore. Mil folhas tremem. O sol acompanha-me.
Seiva liberta ascendendo ao olhar, nas veias e nos pulsos.
Condutoras fibras, feixes, sílabas, passos, silêncio e canto.
Andar, glória única, com o sol, por sobre as pedras gastas.
Deslizar como um gato sem me confundir, único, impalpável nada.
Ondulação, cadência, sorvo o sol com todo o rosto.
Dou a mão ao meu olhar, dou o corpo ao meu olhar.
Sou um ritmo único. Respiro. Recomeço.
O mais perto daqui. O mais perto de agora.
771
António Ramos Rosa
A Língua Árida
Sorvo na magreza da tábua o pó de verão. Calco — um dia, longo hausto — o chão seco, os livros.
Ar do outro lado da montanha — o declive do silêncio. Descer ao chão seguro, pequeno mar entre cabeços, margem lisa, extrema.
Afiar o lápis, fina febre de letra rápida — como um caminho sóbrio, ardente. A pedra onde o sol bateu, o dedo erguido, a marca do dedo na terra.
A parede ríspida que pede a língua, não o lábio. Língua árida que sabe o vento e o caminho. Quase quente, esta pedra, este caminho.
Ar do outro lado da montanha — o declive do silêncio. Descer ao chão seguro, pequeno mar entre cabeços, margem lisa, extrema.
Afiar o lápis, fina febre de letra rápida — como um caminho sóbrio, ardente. A pedra onde o sol bateu, o dedo erguido, a marca do dedo na terra.
A parede ríspida que pede a língua, não o lábio. Língua árida que sabe o vento e o caminho. Quase quente, esta pedra, este caminho.
1 043
António Ramos Rosa
Dia de Verão
Contra a muralha de ar
desfaço os nós da cinza dura
a ânsia larga larga
lucidamente embarco no meu corpo
e no ar
onde mulheres vivas rompem
com o sangue do Verão
rodopiando ancas sonoras
na vertigem direitas contra
a força do ar caindo como uma onda
sobre o sexo que respira violentamente
abertas vulvas felizes na febre fresca
corpos de seda e sede
livres em cada poro que o ar e a luz penetram
desfazendo todos os nós no ar
altas frescas fortalezas
desfaço os nós da cinza dura
a ânsia larga larga
lucidamente embarco no meu corpo
e no ar
onde mulheres vivas rompem
com o sangue do Verão
rodopiando ancas sonoras
na vertigem direitas contra
a força do ar caindo como uma onda
sobre o sexo que respira violentamente
abertas vulvas felizes na febre fresca
corpos de seda e sede
livres em cada poro que o ar e a luz penetram
desfazendo todos os nós no ar
altas frescas fortalezas
1 010
António Ramos Rosa
Iminência
Corda tensa bem viva,
para que acto prestes?
Trajecto a percorrer
ou poço aberto súbito?
Deserto de sede: palma
sobre o papel: o pulso
unido e quente; o liso
fluir de um instrumento.
Aqui no dia nulo
de um olhar sem sombra,
evitar o fascínio
da luz estéril e dura.
Ao afluir da vaga
suspensão, onda a onda:
erguer de queda em queda
o hausto da móvel casa.
Nunca o fim, mas a calma
navegação instável:
roda o silêncio, aspira
a noite do sangue no dia.
Em plena face, sim:
flexível o muro opaco;
a face do outro aflora:
solto e livre e taco a taco.
Estou contra o muro, contra a página,
contra a inércia clara.
Aqui poderá morrer
todo o desejo. Jamais.
Jamais! Para que se erga
no próprio centro vazio
esse tumulto da sombra,
esse outro sono da luz.
Esse abandono que adere
ao pulsar da corda tensa:
a vigília que respira
à flor da sombra. Jamais!
para que acto prestes?
Trajecto a percorrer
ou poço aberto súbito?
Deserto de sede: palma
sobre o papel: o pulso
unido e quente; o liso
fluir de um instrumento.
Aqui no dia nulo
de um olhar sem sombra,
evitar o fascínio
da luz estéril e dura.
Ao afluir da vaga
suspensão, onda a onda:
erguer de queda em queda
o hausto da móvel casa.
Nunca o fim, mas a calma
navegação instável:
roda o silêncio, aspira
a noite do sangue no dia.
Em plena face, sim:
flexível o muro opaco;
a face do outro aflora:
solto e livre e taco a taco.
Estou contra o muro, contra a página,
contra a inércia clara.
Aqui poderá morrer
todo o desejo. Jamais.
Jamais! Para que se erga
no próprio centro vazio
esse tumulto da sombra,
esse outro sono da luz.
Esse abandono que adere
ao pulsar da corda tensa:
a vigília que respira
à flor da sombra. Jamais!
1 000
António Ramos Rosa
Órbita de Verão — 3
Ao rumor longo
o muro
da luz
e a sede seca
do tronco
abrem a garganta
do silêncio.
o muro
da luz
e a sede seca
do tronco
abrem a garganta
do silêncio.
1 081
António Ramos Rosa
Antes da Noite
Eu não fabrico a água.
Estas árvores existem. Estas mãos
estendem-se. Os meus passos
conjugam-se entre árvores, ruas, muita gente.
Mas eis a distância (a do deserto)
e aqui aproximo-me, é um desvio
verde, não a terra encantada,
à beira de ser eu, antecipo a vaga
que a língua move,
parede que foge e que se eleva
sobre a água, sombra e relvas.
O percurso é incerto. A cidade
é longe. E aqui a ausência
de uma árvore.
Interminável suspensão.
Mas a transparência existe.
Os músculos da boca são redondos.
No pulso bate a seiva. Sinto-me vivo.
Ó móvel vagar que eu pronuncio.
E a luz sempre, a luz e a sombra.
Entre uma e outra estendo a rede.
Eu quero beber a água deste dia
antes da noite.
Estas árvores existem. Estas mãos
estendem-se. Os meus passos
conjugam-se entre árvores, ruas, muita gente.
Mas eis a distância (a do deserto)
e aqui aproximo-me, é um desvio
verde, não a terra encantada,
à beira de ser eu, antecipo a vaga
que a língua move,
parede que foge e que se eleva
sobre a água, sombra e relvas.
O percurso é incerto. A cidade
é longe. E aqui a ausência
de uma árvore.
Interminável suspensão.
Mas a transparência existe.
Os músculos da boca são redondos.
No pulso bate a seiva. Sinto-me vivo.
Ó móvel vagar que eu pronuncio.
E a luz sempre, a luz e a sombra.
Entre uma e outra estendo a rede.
Eu quero beber a água deste dia
antes da noite.
973
António Ramos Rosa
Aqui Mereço-Te
O sabor do pão e da terra
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.
A mão flui liberta tão livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra,
o incessante alimento que percorre o meu corpo.
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais,
os alimentos puros,
as espessas e nutritivas paredes do sono,
o teu corpo com todo o vagar da sua massa,
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.
Ao flexível volante trabalhado pelas seivas
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte.
Uma saúde nova vai nascer destes ombros.
A lâmpada respira ao ritmo da terra.
Sei os caminhos da água pelas veredas,
as mãos das ervas finas embriagadas de ar,
o silêncio donde se ergue a torre do canto.
Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este o reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.
Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.
É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hálito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.
A mão flui liberta tão livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra,
o incessante alimento que percorre o meu corpo.
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais,
os alimentos puros,
as espessas e nutritivas paredes do sono,
o teu corpo com todo o vagar da sua massa,
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.
Ao flexível volante trabalhado pelas seivas
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte.
Uma saúde nova vai nascer destes ombros.
A lâmpada respira ao ritmo da terra.
Sei os caminhos da água pelas veredas,
as mãos das ervas finas embriagadas de ar,
o silêncio donde se ergue a torre do canto.
Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este o reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.
Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.
É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hálito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.
1 027
António Ramos Rosa
Irradiação
ventre cavo donde parte a primeira sílaba com a redonda força aspirante
palpitação de abóbada até ao arco da cabeça
ampliação surda que a boca ritma de hausto em hausto
— volante que principia a girar
tensão — atenção no limite extensível campo plasmável
volante em punho
conduzo o corpo para a fonte corporal
as mãos jorram dos braços
o rosto nasce entre as mãos
as tenazes da nuca libertam a cabeça
as espáduas são duas ondas livres
posso descer à terra aos grãos do solo vivo
com as plantas dos pés adiro à terra
formo o meu corpo ao ritmo de todos os contactos
acaricio a casca rugosa de uma árvore
balanço como a árvore visível forma de respiração
moldo-me ao silêncio que se alia à luz
implanto-me dilato-me centro-me disperso-me
o meu amplexo amplia-se de círculo em círculo
nas largas avenidas contenho a trepidação
estou no centro do meu corpo e da cidade
a partir das raízes com as fibras mais tensas
circulo
em toda a parte.
palpitação de abóbada até ao arco da cabeça
ampliação surda que a boca ritma de hausto em hausto
— volante que principia a girar
tensão — atenção no limite extensível campo plasmável
volante em punho
conduzo o corpo para a fonte corporal
as mãos jorram dos braços
o rosto nasce entre as mãos
as tenazes da nuca libertam a cabeça
as espáduas são duas ondas livres
posso descer à terra aos grãos do solo vivo
com as plantas dos pés adiro à terra
formo o meu corpo ao ritmo de todos os contactos
acaricio a casca rugosa de uma árvore
balanço como a árvore visível forma de respiração
moldo-me ao silêncio que se alia à luz
implanto-me dilato-me centro-me disperso-me
o meu amplexo amplia-se de círculo em círculo
nas largas avenidas contenho a trepidação
estou no centro do meu corpo e da cidade
a partir das raízes com as fibras mais tensas
circulo
em toda a parte.
1 128
António Ramos Rosa
Esplendor Calcinado
Calcando o solo, colado ao vento,
ardo de secura, a fronte aberta
para a chama da terra.
Caminho e ardo, o vento sopra
a chama viva,
o sangue sobe, a fome rompe
a parede de ar, a terra cresta
entre instrumentos frios. A terra nasce,
a terra gira no silêncio, o olhar morre.
Voltar à fonte, ao nulo centro,
refluir à vaga fria e dura,
ao extenso campo do abandono errado,
ao rés da terra, ao sono animal,
ao largo ouvido murmurante e escuro.
Caminho e ardo de secura, errante.
Há palavras soltas como terra, há dedos de água esparsos,
sono não reunido, membros entre espaços,
nomes, corpos, pedras, animais de rastos,
a fome crestada sobre um muro branco,
um tronco obscuro à sede morta,
uma tristeza opaca de água estagnada,
a terra com seus dentes calcinados, mortos.
Caminho ao sol. A fome é uma oca brasa
sobre a página vazia do areal.
A terra é um corpo cego na luz, um tronco
sem braços, uma cintura informe.
O sol sobre os terraços mil quadrados vazios,
mil espaços vazios, o espaço da secura
e da sede. Da sede multiplicada ao sol, vazia.
E o sol bate na fronte fria, obscura, da sede obscura.
Minha fronte é de terra, meu corpo terra seca,
meus braços soltos, duros, sobre as dunas desertas,
meu olhar aberto sobre um golfo deserto.
E o sol estampando a nu a sombra fria,
casas, areia, pedra, pedras
e a minha sombra fria.
Terra deserta ao sol.
Corpo deserto ao sol.
Que palavra sobe desta brancura cega, deste olhar branco,
que palavra respira em teu olhar perdido sobre este centro deserto?
Que palavra aquece e esfria, da sombra à luz, do teu corpo ao sol,
da tua sombra ao sol,
que palavra caminha, vive ou morre
no esplendor calcinado?
Abre-te aqui ao refluir sem pálpebras
num corpo de cal, de lágrimas sem memória,
abre-te aqui entre a sombra e a luz,
corpo de terra e ossos, de água obscura e fome
e sede, ó corpo nu, ansiosamente nu,
aberto à luz do sol, à secura da terra!
Caminho e ardo sempre na secura calcinada
sobre a página vazia de um areal sem fim,
assento as plantas firmes sobre a areia lisa.
A cada passo a sede sobe à garganta seca,
a cada passo a terra se cresta sob os pés.
Ó palavras crestadas, secas, como pedras.
Palavras ásperas que desenham ossos, pedras, urtigas.
Palavras com nervuras, com veios, palavras que são lascas
de pedra, palavras que não refrescam,
quentes, obscuras como o pêlo dos animais,
deslocadas e nuas, separadas como pedras,
entre espaços, desertas palavras no deserto.
Palavras áridas,
fronte deserta,
pulso do sol.
ardo de secura, a fronte aberta
para a chama da terra.
Caminho e ardo, o vento sopra
a chama viva,
o sangue sobe, a fome rompe
a parede de ar, a terra cresta
entre instrumentos frios. A terra nasce,
a terra gira no silêncio, o olhar morre.
Voltar à fonte, ao nulo centro,
refluir à vaga fria e dura,
ao extenso campo do abandono errado,
ao rés da terra, ao sono animal,
ao largo ouvido murmurante e escuro.
Caminho e ardo de secura, errante.
Há palavras soltas como terra, há dedos de água esparsos,
sono não reunido, membros entre espaços,
nomes, corpos, pedras, animais de rastos,
a fome crestada sobre um muro branco,
um tronco obscuro à sede morta,
uma tristeza opaca de água estagnada,
a terra com seus dentes calcinados, mortos.
Caminho ao sol. A fome é uma oca brasa
sobre a página vazia do areal.
A terra é um corpo cego na luz, um tronco
sem braços, uma cintura informe.
O sol sobre os terraços mil quadrados vazios,
mil espaços vazios, o espaço da secura
e da sede. Da sede multiplicada ao sol, vazia.
E o sol bate na fronte fria, obscura, da sede obscura.
Minha fronte é de terra, meu corpo terra seca,
meus braços soltos, duros, sobre as dunas desertas,
meu olhar aberto sobre um golfo deserto.
E o sol estampando a nu a sombra fria,
casas, areia, pedra, pedras
e a minha sombra fria.
Terra deserta ao sol.
Corpo deserto ao sol.
Que palavra sobe desta brancura cega, deste olhar branco,
que palavra respira em teu olhar perdido sobre este centro deserto?
Que palavra aquece e esfria, da sombra à luz, do teu corpo ao sol,
da tua sombra ao sol,
que palavra caminha, vive ou morre
no esplendor calcinado?
Abre-te aqui ao refluir sem pálpebras
num corpo de cal, de lágrimas sem memória,
abre-te aqui entre a sombra e a luz,
corpo de terra e ossos, de água obscura e fome
e sede, ó corpo nu, ansiosamente nu,
aberto à luz do sol, à secura da terra!
Caminho e ardo sempre na secura calcinada
sobre a página vazia de um areal sem fim,
assento as plantas firmes sobre a areia lisa.
A cada passo a sede sobe à garganta seca,
a cada passo a terra se cresta sob os pés.
Ó palavras crestadas, secas, como pedras.
Palavras ásperas que desenham ossos, pedras, urtigas.
Palavras com nervuras, com veios, palavras que são lascas
de pedra, palavras que não refrescam,
quentes, obscuras como o pêlo dos animais,
deslocadas e nuas, separadas como pedras,
entre espaços, desertas palavras no deserto.
Palavras áridas,
fronte deserta,
pulso do sol.
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