Poemas neste tema
Alma
António Ramos Rosa
Nesse Momento a Sombra Foi Uma Ferida
Nesse momento a sombra foi uma ferida
e o silêncio foi na sombra o esplendor
porque o nome que disseste era o domínio
que só no silêncio encontraria a face
Nada se abria rasgou-se lentamente
e alguém foi em mim não sei quem fui eu
e uma palavra a mais no intervalo surgiu
de tanta graça no silêncio lida
Não sei se se perdeu se vai perder-se
ou se para sempre o nome em nós sofria
se fomos pelo nome o lábio do silêncio
e o silêncio foi na sombra o esplendor
porque o nome que disseste era o domínio
que só no silêncio encontraria a face
Nada se abria rasgou-se lentamente
e alguém foi em mim não sei quem fui eu
e uma palavra a mais no intervalo surgiu
de tanta graça no silêncio lida
Não sei se se perdeu se vai perder-se
ou se para sempre o nome em nós sofria
se fomos pelo nome o lábio do silêncio
955
António Ramos Rosa
Refaz a Pequena Chama da Montanha
Refaz a pequena chama da montanha
refaz a ardente fuga dos flancos
chama os joelhos e as nádegas sob as ondas
Chama e refaz o rosto sob as máscaras
na nudez sem perdão no perdão da nudez
reclama outro nome outra música outras pedras
Deita-te sobre os seios e o sexo da terra
refaz a ardente fuga dos flancos
chama os joelhos e as nádegas sob as ondas
Chama e refaz o rosto sob as máscaras
na nudez sem perdão no perdão da nudez
reclama outro nome outra música outras pedras
Deita-te sobre os seios e o sexo da terra
1 278
António Ramos Rosa
Uma Figura Errante, Ainda Incerta — E Sempre?
Uma figura errante, ainda incerta — e sempre?
Alguma folha nova caída de algum ramo?
Cai a sóbria noite em teus cabelos negros.
Pela janela vejo os campos divididos.
O cavalo entre nós é a força da paz
que dos teus ombros desce até aos teus joelhos.
Ganhei também meu rosto na sombra dolorosa.
O meu beijo, na música, é um gesto perfeito.
Suavidade intensa, uma estrela entre nós
num chão de suor negro, uma harmonia forte,
neste abraço ganhamos a força e o horizonte.
Alguma folha nova caída de algum ramo?
Cai a sóbria noite em teus cabelos negros.
Pela janela vejo os campos divididos.
O cavalo entre nós é a força da paz
que dos teus ombros desce até aos teus joelhos.
Ganhei também meu rosto na sombra dolorosa.
O meu beijo, na música, é um gesto perfeito.
Suavidade intensa, uma estrela entre nós
num chão de suor negro, uma harmonia forte,
neste abraço ganhamos a força e o horizonte.
994
António Ramos Rosa
Rios E Rios, Palpitação Extrema.
Rios e rios, palpitação extrema
de uma linha sem ruptura. De que matéria
escrita? Todas as linhas se articulam
para o cavalo e o salto.
Com os ossos da testa enfrenta os muros da noite,
a corrida ofegante sabe o fim vermelho,
uma única estria ilumina-lhe o dorso.
Longa linha delida e dolorosa, mas una.
Atravessas as brancas
muralhas. Sobre a palpitação.
Há insectos na erva, nas margens
dilaceradas.
A tua marcha atinge o ponto de ruptura.
Todo o céu rebenta na mais viva ferida,
ó noite mais nocturna, fixação explosiva.
de uma linha sem ruptura. De que matéria
escrita? Todas as linhas se articulam
para o cavalo e o salto.
Com os ossos da testa enfrenta os muros da noite,
a corrida ofegante sabe o fim vermelho,
uma única estria ilumina-lhe o dorso.
Longa linha delida e dolorosa, mas una.
Atravessas as brancas
muralhas. Sobre a palpitação.
Há insectos na erva, nas margens
dilaceradas.
A tua marcha atinge o ponto de ruptura.
Todo o céu rebenta na mais viva ferida,
ó noite mais nocturna, fixação explosiva.
587
António Ramos Rosa
Quem Me Deu o Braço E o Ombro E o Fruto
Quem me deu o braço e o ombro e o fruto
da água limpa do seu corpo ó quando
foi que te vi num espelho sem a sombra
no fulgor do espaço em teus cabelos claros
Todos te viram ninguém te viu e foi então que vi
eras tu não eras tu jamais e eras tu
e sem nome na tua boca sem tua boca
eu vivi na distância inerte e nu
Quem não me viu e me viu e deu o nome
que não havia ao domínio puro da água
quem foi a única que me ouviu que me ouve ainda
que sombra fresca ainda que sopro sobre mim
da água limpa do seu corpo ó quando
foi que te vi num espelho sem a sombra
no fulgor do espaço em teus cabelos claros
Todos te viram ninguém te viu e foi então que vi
eras tu não eras tu jamais e eras tu
e sem nome na tua boca sem tua boca
eu vivi na distância inerte e nu
Quem não me viu e me viu e deu o nome
que não havia ao domínio puro da água
quem foi a única que me ouviu que me ouve ainda
que sombra fresca ainda que sopro sobre mim
1 145
António Ramos Rosa
Quem Pega o Sol do Osso E Lhe Dá a Boca?
Quem pega o sol do osso e lhe dá a boca?
Quem dá o seio firme à mão dilacerada?
Quem saceia de orvalho uma sede nocturna?
Quem abriu esta mão ao turbilhão do dia?
Pulsa a terra e o pulso torna-se o movimento
de fibras minerais ferindo a pedra feliz.
Mil filhos do sol, mil campos, mil abraços
restabelecem a torre, sua pureza rubra.
Ó sabor da alegria, ó sabor de argila!
Aqui é o campo da boca mais sedenta:
Liberta o arco da cabeça,
diz bom dia ao vento.
Quem dá o seio firme à mão dilacerada?
Quem saceia de orvalho uma sede nocturna?
Quem abriu esta mão ao turbilhão do dia?
Pulsa a terra e o pulso torna-se o movimento
de fibras minerais ferindo a pedra feliz.
Mil filhos do sol, mil campos, mil abraços
restabelecem a torre, sua pureza rubra.
Ó sabor da alegria, ó sabor de argila!
Aqui é o campo da boca mais sedenta:
Liberta o arco da cabeça,
diz bom dia ao vento.
1 074
António Ramos Rosa
Fina Nobreza de Ombros Que Persigo
Fina nobreza de ombros que persigo
animal esplendor loucura
cabem num arco de solidão suave
de ternura
E os pulsos de que ardor e perfeição
de que ânsia de delícia exacta
que número absoluto e doloroso e puro
que dourada pulsação no escuro!
animal esplendor loucura
cabem num arco de solidão suave
de ternura
E os pulsos de que ardor e perfeição
de que ânsia de delícia exacta
que número absoluto e doloroso e puro
que dourada pulsação no escuro!
866
António Ramos Rosa
Entre o Desejo E As Flores As Raparigas Altas
Entre o desejo e as flores as raparigas altas
medem a densidade de uma pureza impura,
jogam o jogo intenso da majestade e usura,
raparigas levadas pelas linhas fluentes.
Viver as raparigas no pudor da negrura,
vivê-las altamente e pelas suas virilhas,
tomá-las o mais rápido até ao centro delas,
rodopiando o fogo no ventre de merecê-las.
Ó vivas raparigas da cor do próprio alento,
aprisionai-me a um muro ou entre vós eu caia
no perfume desatado dos vossos corpos límpidos.
medem a densidade de uma pureza impura,
jogam o jogo intenso da majestade e usura,
raparigas levadas pelas linhas fluentes.
Viver as raparigas no pudor da negrura,
vivê-las altamente e pelas suas virilhas,
tomá-las o mais rápido até ao centro delas,
rodopiando o fogo no ventre de merecê-las.
Ó vivas raparigas da cor do próprio alento,
aprisionai-me a um muro ou entre vós eu caia
no perfume desatado dos vossos corpos límpidos.
1 013
António Ramos Rosa
Sinto a Perfeição de Um Corpo
Sinto a perfeição de um corpo
e nos seus olhos perpassa um pouco o medo.
Serei eu quem tu vês?
Quem me abraçou outro dia não é já quem me abraça?
Sinto o não e o sim — e a inflexão da noite.
Vivo à superfície de um corpo negro e fundo.
O amplexo é real
e o que escrevo é o frémito.
Porque é tudo tão breve e tão longo, não sei.
Tenho os olhos fechados de abertos de ternura.
Tenho um pouco a paz de uma noite vivida.
e nos seus olhos perpassa um pouco o medo.
Serei eu quem tu vês?
Quem me abraçou outro dia não é já quem me abraça?
Sinto o não e o sim — e a inflexão da noite.
Vivo à superfície de um corpo negro e fundo.
O amplexo é real
e o que escrevo é o frémito.
Porque é tudo tão breve e tão longo, não sei.
Tenho os olhos fechados de abertos de ternura.
Tenho um pouco a paz de uma noite vivida.
999
António Ramos Rosa
Nada Para Dizer Nem Como Dizer Nada
Nada para dizer nem como dizer nada
um plano de sombra a força opaca
demasiado depressa o fluxo de umas coxas
negras e invioláveis de lábios silenciosos
Uma boca tombada junto à sombra do muro
uma força subterrânea verde sem violência
e o desejo do corpo o lancinante lago
lábios e lâminas nomes perdidos vagos
Porque não o ardente azul e a água do cimo
para a figura oculta e branca e derradeira
porque não o abraço nas raízes do nu
a boca reencontrada na festa da folhagem?
um plano de sombra a força opaca
demasiado depressa o fluxo de umas coxas
negras e invioláveis de lábios silenciosos
Uma boca tombada junto à sombra do muro
uma força subterrânea verde sem violência
e o desejo do corpo o lancinante lago
lábios e lâminas nomes perdidos vagos
Porque não o ardente azul e a água do cimo
para a figura oculta e branca e derradeira
porque não o abraço nas raízes do nu
a boca reencontrada na festa da folhagem?
1 071
António Ramos Rosa
Em Paredes Esverdeadas, À Luz do Nevoeiro,
Em paredes esverdeadas, à luz do nevoeiro,
atravessas as casas e as cabeças dos homens.
Tuas pastagens são a relva e a raiva
viril da perfeição no pavor negro da força,
com que saltas os muros e rebentas os quartos,
onde já foram casas, famílias ou palácios
e corres pelo papel sem fome e no desejo
de um touro ou unicórnio que furasse o pasmo
de tudo ser um além inapreensível, ferro-velho
da vida, cronologias, notícias, tudo alheio,
perícia para atravessares os vales negativos,
as opacas montanhas, os mais pobres mistérios.
atravessas as casas e as cabeças dos homens.
Tuas pastagens são a relva e a raiva
viril da perfeição no pavor negro da força,
com que saltas os muros e rebentas os quartos,
onde já foram casas, famílias ou palácios
e corres pelo papel sem fome e no desejo
de um touro ou unicórnio que furasse o pasmo
de tudo ser um além inapreensível, ferro-velho
da vida, cronologias, notícias, tudo alheio,
perícia para atravessares os vales negativos,
as opacas montanhas, os mais pobres mistérios.
1 046
António Ramos Rosa
Que Diz a Palavra Quando a Plena Rectitude
Que diz a palavra quando a plena rectitude
erige o desejo de a plantar inteira?
Que diz a consciência do ar no corpo
ao ar que trespassa este e aquele e o mesmo corpo?
…………………………………………………..
Eu desejo a palavra do corpo uma única vez
de cada vez que escrevo o sempre bem amado
membro eterno do desejo que fundo cava a cova
cava o sexo nocturno donde a luz do corpo nasce
Quem não ama esse membro doloroso e profundo
quem não chora na muralha do ventre o membro erecto
que mulher não o abraça e beija no cimo ardente
que homem não o quer que pedra viva e rubra
que seja mais dura e vulnerável viva
que vulva não o aspira na bondade mais fecunda?
erige o desejo de a plantar inteira?
Que diz a consciência do ar no corpo
ao ar que trespassa este e aquele e o mesmo corpo?
…………………………………………………..
Eu desejo a palavra do corpo uma única vez
de cada vez que escrevo o sempre bem amado
membro eterno do desejo que fundo cava a cova
cava o sexo nocturno donde a luz do corpo nasce
Quem não ama esse membro doloroso e profundo
quem não chora na muralha do ventre o membro erecto
que mulher não o abraça e beija no cimo ardente
que homem não o quer que pedra viva e rubra
que seja mais dura e vulnerável viva
que vulva não o aspira na bondade mais fecunda?
1 033
António Ramos Rosa
Com Seus Campos, Seus Arbustos, Ele Caminha,
Com seus campos, seus arbustos, ele caminha,
a folhagem solar dentro do corpo.
É um animal cordial e iluminado,
pela sede, pelo odor, pela firmeza.
Cada pálpebra que se fecha
é folha cheia, cada olhar
a mão no dorso quente:
estilhaços de luz, concentração mortal.
Aqui não há venenos mas um cavalo que nasce
da brancura plena e anseia ser a busca
de um animal mais alto, mais puro e mais perfeito.
a folhagem solar dentro do corpo.
É um animal cordial e iluminado,
pela sede, pelo odor, pela firmeza.
Cada pálpebra que se fecha
é folha cheia, cada olhar
a mão no dorso quente:
estilhaços de luz, concentração mortal.
Aqui não há venenos mas um cavalo que nasce
da brancura plena e anseia ser a busca
de um animal mais alto, mais puro e mais perfeito.
1 061
António Ramos Rosa
Quem Vem Negar As Folhas,
Quem vem negar as folhas,
quem as expõe à morte? O pólen do céu?
Este corpo rejuvenescido e verde ainda.
Ardente.
Quem desfaz o sentido e quem me dá a sede?
Aqui a perfeição: a água e o seu outono.
A companhia deste olhar ao rés das ervas.
As pedras que existem só para a compreensão.
E o frio mortal detido. A perfeição do corpo.
Este é o teu dia em que ninguém te nega.
quem as expõe à morte? O pólen do céu?
Este corpo rejuvenescido e verde ainda.
Ardente.
Quem desfaz o sentido e quem me dá a sede?
Aqui a perfeição: a água e o seu outono.
A companhia deste olhar ao rés das ervas.
As pedras que existem só para a compreensão.
E o frio mortal detido. A perfeição do corpo.
Este é o teu dia em que ninguém te nega.
638
António Ramos Rosa
Com o Tremor da Mão,
Com o tremor da mão,
vivendo o ferro de um instante ileso,
a mão no dorso do cavalo destemperado.
Conter aqui o curso desesperado,
a noite.
O rio convulso e negro e essa bandeira escura
que flutua sobre a água.
Retalhar a mão na página,
ferir de alegria o branco,
recuperar a vida na deflagração do orgasmo.
A mão quebrada cede o seu lugar ao pulso.
À água destas linhas, à espécie
mais amarga
de uma amêndoa amorosa.
vivendo o ferro de um instante ileso,
a mão no dorso do cavalo destemperado.
Conter aqui o curso desesperado,
a noite.
O rio convulso e negro e essa bandeira escura
que flutua sobre a água.
Retalhar a mão na página,
ferir de alegria o branco,
recuperar a vida na deflagração do orgasmo.
A mão quebrada cede o seu lugar ao pulso.
À água destas linhas, à espécie
mais amarga
de uma amêndoa amorosa.
1 073
António Ramos Rosa
Aqui Ele Diz a Minha Única Pátria
Aqui ele diz a minha única pátria
era uma pedra era um lugar e uma sombra
não sei em qualquer parte agora não
havia a mão de alguém havia um corpo
e era a minha única pátria a minha sombra
era o que ele dizia a sua amiga
aquela pedra e sombra e árvore aquela amiga
era a sua única pátria agora não
era uma pedra era um lugar e uma sombra
não sei em qualquer parte agora não
havia a mão de alguém havia um corpo
e era a minha única pátria a minha sombra
era o que ele dizia a sua amiga
aquela pedra e sombra e árvore aquela amiga
era a sua única pátria agora não
1 102
António Ramos Rosa
A Mão E o Muro
a Maria de Fátima Marinho
A mão é a mão
a mão no muro
entre o grito e as letras
a violência do silêncio
………………………………………………..…
onde estão as palavras que se apaguem na brancura
que me apaguem
e me disseminem sémen na folha
branco silêncio pedra árvore
………………………………………………..…
A mão tem outra mão ou procura a própria mão
a mão procura a mão sobre o seu próprio muro
os dedos desenham
letras linhas lábios
um animal disperso busca o corpo intacto
as ervas são as palavras destas pedras mudas
Há uma fenda na pedra há uma boca no muro
mas as palavras cessam no silêncio do muro
sem o espaço verde e sem a luz
sem o pulsar da terra sem o calor das pedras
…………………………………………….
A mão é a mão
a mão no muro
mas do outro lado do muro há outra mão
há outro corpo para além do muro
as letras respiram sobre a página
As palavras inscrevem-se sobre o muro da mão
só as letras sobrevivem sobre o muro
a boca busca a boca branca
do corpo que se dissemina sobre a página
O corpo renascerá na folha violenta
entre formigas pedras ervas
no silêncio voraz
na sombra opaca e deslumbrante das palavras?
A mão dissemina o ardor do pulso
no espaço ou no deserto
Ouvir-se-á agora a árvore do silêncio?
Que corpo dessedenta a boca desta mão?
A mão exacta percorre a solidão do muro
cada palavra sufoca as suas letras
e o grito
toda a luz é hostil sobre os membros dilacerados
Pronuncio em vão palavras no silêncio do muro
a violência das letras não se liberta da mão
mas há um grito em cada letra
quando dirão as palavras os gritos das suas letras
quando é que o corpo encontra a própria boca
contra a boca do muro
A mão será a mão da outra mão
O corpo reunir-se-á ao corpo atrás do muro
A mão é a mão
a mão no muro
entre o grito e as letras
a violência do silêncio
………………………………………………..…
onde estão as palavras que se apaguem na brancura
que me apaguem
e me disseminem sémen na folha
branco silêncio pedra árvore
………………………………………………..…
A mão tem outra mão ou procura a própria mão
a mão procura a mão sobre o seu próprio muro
os dedos desenham
letras linhas lábios
um animal disperso busca o corpo intacto
as ervas são as palavras destas pedras mudas
Há uma fenda na pedra há uma boca no muro
mas as palavras cessam no silêncio do muro
sem o espaço verde e sem a luz
sem o pulsar da terra sem o calor das pedras
…………………………………………….
A mão é a mão
a mão no muro
mas do outro lado do muro há outra mão
há outro corpo para além do muro
as letras respiram sobre a página
As palavras inscrevem-se sobre o muro da mão
só as letras sobrevivem sobre o muro
a boca busca a boca branca
do corpo que se dissemina sobre a página
O corpo renascerá na folha violenta
entre formigas pedras ervas
no silêncio voraz
na sombra opaca e deslumbrante das palavras?
A mão dissemina o ardor do pulso
no espaço ou no deserto
Ouvir-se-á agora a árvore do silêncio?
Que corpo dessedenta a boca desta mão?
A mão exacta percorre a solidão do muro
cada palavra sufoca as suas letras
e o grito
toda a luz é hostil sobre os membros dilacerados
Pronuncio em vão palavras no silêncio do muro
a violência das letras não se liberta da mão
mas há um grito em cada letra
quando dirão as palavras os gritos das suas letras
quando é que o corpo encontra a própria boca
contra a boca do muro
A mão será a mão da outra mão
O corpo reunir-se-á ao corpo atrás do muro
1 206
António Ramos Rosa
O Impossível Grito
à Mila
Se eu pudesse caminhar com palavras lentas sóbrias
e se eu pudesse falar-te ou gritar
como um vento selvagem
se tu pudesses ver-me se eu te pudesse olhar
— aqui onde escrevo e nada principia
aqui onde o embate é nulo contra o bloco
onde se cerra o muro onde a ferida não fala
Nenhum impulso emerge do ilimite vazio
nenhum punho se ergue entre as pregas do abismo
Se escrevo ou falo ainda é o mutismo que fala
se olho é através de um não olhar
se prossigo sei que a minha sede é vã
onde estou é aquém de toda a origem
onde estás é além de todo o encontro
E todavia escrevo terminando onde escrevo
sem o gérmen que abriria o diálogo da água
sem a dissonância viva de quem está ainda algures
emparedado
e crê que um grito alguém ainda o ouviria
E todavia se escrevo é porque talvez espere
avançar entre os muros para uma praia secreta
que um sinal ilumine este deserto de cinza
que uma pergunta abale este bloco inamovível
Se eu pudesse falar-te através desta espessura
se tu pudesses ver-me se eu te pudesse olhar
oh quem pudera gritar como o vento selvagem
quem pudera desatar o nó oculto sempre
o nome oculto sempre!
Fui eu que enterrei o meu nome sob a pedra
Fui eu que me enterrei para sempre sob o nome
Tudo em mim é ausência ou um contacto vão
Por isso tu não me vês e eu não te vejo a ti
Mas se eu te escrevo ainda estas palavras nuas
estas palavras mais pobres do que a sombra vazia!
Não será este um caminho uma forma do grito?
Aqui onde escrevo algo principia
aqui o embate contra um bloco negro
aqui se abre um muro aqui a ferida fala
aqui designo a pedra da asfixia
A forma desgarrada de um grito flutua
Se eu pudesse caminhar com palavras lentas sóbrias
e se eu pudesse falar-te ou gritar
como um vento selvagem
se tu pudesses ver-me se eu te pudesse olhar
— aqui onde escrevo e nada principia
aqui onde o embate é nulo contra o bloco
onde se cerra o muro onde a ferida não fala
Nenhum impulso emerge do ilimite vazio
nenhum punho se ergue entre as pregas do abismo
Se escrevo ou falo ainda é o mutismo que fala
se olho é através de um não olhar
se prossigo sei que a minha sede é vã
onde estou é aquém de toda a origem
onde estás é além de todo o encontro
E todavia escrevo terminando onde escrevo
sem o gérmen que abriria o diálogo da água
sem a dissonância viva de quem está ainda algures
emparedado
e crê que um grito alguém ainda o ouviria
E todavia se escrevo é porque talvez espere
avançar entre os muros para uma praia secreta
que um sinal ilumine este deserto de cinza
que uma pergunta abale este bloco inamovível
Se eu pudesse falar-te através desta espessura
se tu pudesses ver-me se eu te pudesse olhar
oh quem pudera gritar como o vento selvagem
quem pudera desatar o nó oculto sempre
o nome oculto sempre!
Fui eu que enterrei o meu nome sob a pedra
Fui eu que me enterrei para sempre sob o nome
Tudo em mim é ausência ou um contacto vão
Por isso tu não me vês e eu não te vejo a ti
Mas se eu te escrevo ainda estas palavras nuas
estas palavras mais pobres do que a sombra vazia!
Não será este um caminho uma forma do grito?
Aqui onde escrevo algo principia
aqui o embate contra um bloco negro
aqui se abre um muro aqui a ferida fala
aqui designo a pedra da asfixia
A forma desgarrada de um grito flutua
1 031
António Ramos Rosa
Tem o Poder Das Águas, a Negra Mãe Fatal
Tem o poder das águas, a negra mãe fatal
que eu saúdo no sono das palavras mais duras,
tem as garras da vida, tem as unhas mortais,
a pele que ela me arranca deixa-me ao vivo
morto. Mas a água cura-me as feridas de esfolado
e novamente avanço para o centro da terra
na noite do meu sono de escrever sem saber
solto na ignorância, na liberdade incerta.
Este cavalo da vida monumento e animal
onde está ele agora? Preciso desse alento
quero criar o mundo com o seu esperma
verde. Quero fabricar contra a morte
o alento, a paz, o sono límpido
de outras palavras vitais, e de outra paz.
que eu saúdo no sono das palavras mais duras,
tem as garras da vida, tem as unhas mortais,
a pele que ela me arranca deixa-me ao vivo
morto. Mas a água cura-me as feridas de esfolado
e novamente avanço para o centro da terra
na noite do meu sono de escrever sem saber
solto na ignorância, na liberdade incerta.
Este cavalo da vida monumento e animal
onde está ele agora? Preciso desse alento
quero criar o mundo com o seu esperma
verde. Quero fabricar contra a morte
o alento, a paz, o sono límpido
de outras palavras vitais, e de outra paz.
1 077
António Ramos Rosa
Eis Uma Parede o Nome E a Sombra do Cavalo
Eis uma parede o nome e a sombra do cavalo
Eis ainda nomes mas a parede perde-os
Uma força antiga e de rumores novos
ouve-se subir do chão até aos arcos longos
Quando perderes a boca e os ossos sobre a trave
quando perderes os dedos e as folhas bem amadas
quando não souberes sequer o teu nome ou o dela
que essência negra e pura te envolverá o corpo?
Eis as pedras em que tropeças e a água ainda é azul
e as palavras as palavras as palavras que procuras
repete-as neste aéreo vácuo em surdina
que não é ainda o silêncio e talvez seja o silêncio
Eis ainda nomes mas a parede perde-os
Uma força antiga e de rumores novos
ouve-se subir do chão até aos arcos longos
Quando perderes a boca e os ossos sobre a trave
quando perderes os dedos e as folhas bem amadas
quando não souberes sequer o teu nome ou o dela
que essência negra e pura te envolverá o corpo?
Eis as pedras em que tropeças e a água ainda é azul
e as palavras as palavras as palavras que procuras
repete-as neste aéreo vácuo em surdina
que não é ainda o silêncio e talvez seja o silêncio
1 129
António Ramos Rosa
Entre o Fogo E Os Dedos Desligados
Entre o fogo e os dedos desligados
entre a cabeça longe na terra ainda vermelha
e a água sem dançar e o corpo sem o verde
enterrado no canal negro
impetuosamente nulo
o nome raso com o odor a fêmea
em que coxas comprimido ou em que boca
trucidado sem nascer
com os pulsos abertos
e os olhos coagulados sobre o muro
serei eu sou eu pedra sem lamento
pedra sem amargura e sem ventre
cabeça sobre o céu deserto
e sem a sede e no vazio e no deserto
entre a cabeça longe na terra ainda vermelha
e a água sem dançar e o corpo sem o verde
enterrado no canal negro
impetuosamente nulo
o nome raso com o odor a fêmea
em que coxas comprimido ou em que boca
trucidado sem nascer
com os pulsos abertos
e os olhos coagulados sobre o muro
serei eu sou eu pedra sem lamento
pedra sem amargura e sem ventre
cabeça sobre o céu deserto
e sem a sede e no vazio e no deserto
1 089
António Ramos Rosa
Tu Que Renasces do Abandono Magia Verde
Tu que renasces do abandono magia verde
magia da montanha e do lago soberbo
tu que renasces soberba do outono
com a música do campo e o vermelho
e o negro e o húmido clamor contido
dá-me o teu seio de consolação nobre
dá-me o teu coração os teus olhos o teu sonho
de quem não és nem podes ser amor de ser
amor no horizonte do teu ser
magia da montanha e do lago soberbo
tu que renasces soberba do outono
com a música do campo e o vermelho
e o negro e o húmido clamor contido
dá-me o teu seio de consolação nobre
dá-me o teu coração os teus olhos o teu sonho
de quem não és nem podes ser amor de ser
amor no horizonte do teu ser
1 104
António Ramos Rosa
Onde Não Treme a Sombra
Onde não treme a sombra
e a cabeça treme com a brecha
e nenhum horizonte e sem a mão
que cega cor se acende algum
amor ou raiva algum alento algum
alguém?
Onde o espaço se desfaz delidamente
onde o osso não resiste
onde a pedra é sonâmbula
onde não se ouve já senão
um rumor duro espesso e duro
como um silêncio iminente
um silêncio não ainda não
e ainda se vive de um ainda não
e a cabeça treme com a brecha
e nenhum horizonte e sem a mão
que cega cor se acende algum
amor ou raiva algum alento algum
alguém?
Onde o espaço se desfaz delidamente
onde o osso não resiste
onde a pedra é sonâmbula
onde não se ouve já senão
um rumor duro espesso e duro
como um silêncio iminente
um silêncio não ainda não
e ainda se vive de um ainda não
1 042
António Ramos Rosa
Animal Te Chamei, Te Chamo E Chamo
Animal te chamei, te chamo e chamo
no sabor vertical da água agudamente.
O centro de água e a garupa impante
do cavalo perseguido pela seta.
O cavalo que escrevo — força do espaço,
pureza do ímpeto e do sangue, é a sede,
é a raiva nova do começo, e a erva
de todo o prado humedecido em sua boca.
Bebe-lhe o orvalho nas narinas puras,
cobre a pele do corpo de seus cascos, vive
da dureza incriada, da rapidez sem vento,
da aspereza do lume, da doçura começada.
Cobrir a folha larga do alento
do animal, cavalo ferido e alto,
parir o vigor do princípio dessa frase
em que o caminho disparou da seta.
no sabor vertical da água agudamente.
O centro de água e a garupa impante
do cavalo perseguido pela seta.
O cavalo que escrevo — força do espaço,
pureza do ímpeto e do sangue, é a sede,
é a raiva nova do começo, e a erva
de todo o prado humedecido em sua boca.
Bebe-lhe o orvalho nas narinas puras,
cobre a pele do corpo de seus cascos, vive
da dureza incriada, da rapidez sem vento,
da aspereza do lume, da doçura começada.
Cobrir a folha larga do alento
do animal, cavalo ferido e alto,
parir o vigor do princípio dessa frase
em que o caminho disparou da seta.
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