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Alma

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Intervalo

É aqui que a terra cede,
a mão soçobra na entranha húmida,
e todo o visco se escreve como um gosto visto.
Seio invertido em que estremece a pena
para o espaço extenso a ser folha na folha.

A falha em que penetro, ó feliz falha,
para que não há nome nem grito,
não peço o teu não, escorro a tinta
que te não diz, e digo-te feliz na folha.
Assim eu falho e sou feliz.

A falha em que prossigo (a folha é lisa)
não diverte, mas desvia, e eu quero que anule
e seja a direcção nula da folha
igual à folha que fale, e que eu falhe feliz.

Aqui seria a forma de um jardim,
a forma, as formas: a presença do corpo.
Sem corpo, um só olhar em torno.

Mas sem tronco, em que apoiar-me?
O gosto já esquecido, tive-o. Não.
As folhas só aqui seriam folhas.
Vi-as. Em vão aqui as lembro. O espaço
só aqui é espaço e as suas folhas
aqui são as iguais, as únicas felizes.

Não nego o que vi, mas aqui é nulo.
Aqui é a sombra e esta sombra seria
feliz sombra vermelha. Na memória
anulada e ressurgida, ó sombra tu serias
minha sombra vermelha.

Que nulo seja ou morra,
no surdo brilho intervalo em que
o movimento me aniquila e escrevo: sim.
A lâmpada de folhas enche a mão.
Amo as fendas, e as pequenas teias
são o enleio do instante.

Que morra ou surja.

Neste campo
o corpo não escolho nem reduzo,
é ampla a folhagem em que me embrenho.
Que morra ou surja, ó espaçosa
cabeleira e o quarto que preenches com teus raios.

Não sou mais do que uma pequena sombra com olhos
para os seus insectos lúcidos.
São nomes sobre o sangue. Nomes vãos
mas que propagam, apagando-se. E
se num ímpeto leve os apreendo,
direi que são azuis ou verdes. E que brilham.
Sou apenas uma sombra com olhos neste instante.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Aqui Mereço-Te

O sabor do pão e da terra
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.

A mão flui liberta tão livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra,
o incessante alimento que percorre o meu corpo.
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais,
os alimentos puros,
as espessas e nutritivas paredes do sono,
o teu corpo com todo o vagar da sua massa,
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.

Ao flexível volante trabalhado pelas seivas
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte.

Uma saúde nova vai nascer destes ombros.
A lâmpada respira ao ritmo da terra.
Sei os caminhos da água pelas veredas,
as mãos das ervas finas embriagadas de ar,
o silêncio donde se ergue a torre do canto.

Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.

É este o reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.
Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.
É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hálito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Esplendor Calcinado

Calcando o solo, colado ao vento,
ardo de secura, a fronte aberta
para a chama da terra.

Caminho e ardo, o vento sopra
a chama viva,
o sangue sobe, a fome rompe
a parede de ar, a terra cresta
entre instrumentos frios. A terra nasce,
a terra gira no silêncio, o olhar morre.

Voltar à fonte, ao nulo centro,
refluir à vaga fria e dura,
ao extenso campo do abandono errado,
ao rés da terra, ao sono animal,
ao largo ouvido murmurante e escuro.

Caminho e ardo de secura, errante.
Há palavras soltas como terra, há dedos de água esparsos,
sono não reunido, membros entre espaços,
nomes, corpos, pedras, animais de rastos,
a fome crestada sobre um muro branco,
um tronco obscuro à sede morta,
uma tristeza opaca de água estagnada,
a terra com seus dentes calcinados, mortos.

Caminho ao sol. A fome é uma oca brasa
sobre a página vazia do areal.
A terra é um corpo cego na luz, um tronco
sem braços, uma cintura informe.
O sol sobre os terraços mil quadrados vazios,
mil espaços vazios, o espaço da secura
e da sede. Da sede multiplicada ao sol, vazia.
E o sol bate na fronte fria, obscura, da sede obscura.

Minha fronte é de terra, meu corpo terra seca,
meus braços soltos, duros, sobre as dunas desertas,
meu olhar aberto sobre um golfo deserto.
E o sol estampando a nu a sombra fria,
casas, areia, pedra, pedras
e a minha sombra fria.

Terra deserta ao sol.
Corpo deserto ao sol.

Que palavra sobe desta brancura cega, deste olhar branco,
que palavra respira em teu olhar perdido sobre este centro deserto?
Que palavra aquece e esfria, da sombra à luz, do teu corpo ao sol,
da tua sombra ao sol,
que palavra caminha, vive ou morre
no esplendor calcinado?

Abre-te aqui ao refluir sem pálpebras
num corpo de cal, de lágrimas sem memória,
abre-te aqui entre a sombra e a luz,
corpo de terra e ossos, de água obscura e fome
e sede, ó corpo nu, ansiosamente nu,
aberto à luz do sol, à secura da terra!

Caminho e ardo sempre na secura calcinada
sobre a página vazia de um areal sem fim,
assento as plantas firmes sobre a areia lisa.
A cada passo a sede sobe à garganta seca,
a cada passo a terra se cresta sob os pés.

Ó palavras crestadas, secas, como pedras.
Palavras ásperas que desenham ossos, pedras, urtigas.
Palavras com nervuras, com veios, palavras que são lascas
de pedra, palavras que não refrescam,
quentes, obscuras como o pêlo dos animais,
deslocadas e nuas, separadas como pedras,
entre espaços, desertas palavras no deserto.

Palavras áridas,
fronte deserta,
pulso do sol.
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