Poemas neste tema
Alma
Fernando Pessoa
Trazes um manto comprido
Trazes um manto comprido
Que não é xaile a valer.
Eu trago em ti o sentido
E não sei que hei-de dizer.
Que não é xaile a valer.
Eu trago em ti o sentido
E não sei que hei-de dizer.
1 354
Fernando Pessoa
Houve um momento entre nós
Houve um momento entre nós
Em que a gente não falou.
Juntos, estávamos sós.
Que bom é assim estar só!
Em que a gente não falou.
Juntos, estávamos sós.
Que bom é assim estar só!
1 459
Fernando Pessoa
Há cortejos, pompas, discursos,
Há cortejos, pompas, discursos,
Na inauguração quotidiana dos meus sentimentos inúteis...
São iluminadas à veneziana por luzes contentes
As minhas decepções, e os meus desesperos vão em carrossel
Por uma necessidade [fatídica?] do destino.
Na inauguração quotidiana dos meus sentimentos inúteis...
São iluminadas à veneziana por luzes contentes
As minhas decepções, e os meus desesperos vão em carrossel
Por uma necessidade [fatídica?] do destino.
1 014
Fernando Pessoa
Às vezes medito,
Às vezes medito,
Às vezes medito, e medito mais fundo, e ainda mais fundo
E todo o mistério das coisas aparece-me como um óleo à superfície,
E todo o universo é um mar de caras de olhos fechados para mim.
Cada coisa — um candeeiro de esquina, uma pedra, uma árvore,
E um olhar que me fita de um abismo incompreensível,
E desfilam no meu coração os deuses todos, e as ideias dos deuses.
Ah, haver coisas!
Ah, haver seres!
Ah, haver maneira de haver seres
De haver haver,
De haver como haver haver,
De haver...
Ah, o existir o fenómeno abstracto — existir,
Haver consciência e realidade,
O que quer que isto seja...
Como posso eu exprimir o horror que tudo isto me causa?
Como posso eu dizer como é isto para se sentir?
Qual é alma de haver ser?
Ah, o pavoroso mistério de existir a mais pequena coisa
Porque é o pavoroso mistério de haver qualquer coisa
Porque é o pavoroso mistério de haver...
Às vezes medito, e medito mais fundo, e ainda mais fundo
E todo o mistério das coisas aparece-me como um óleo à superfície,
E todo o universo é um mar de caras de olhos fechados para mim.
Cada coisa — um candeeiro de esquina, uma pedra, uma árvore,
E um olhar que me fita de um abismo incompreensível,
E desfilam no meu coração os deuses todos, e as ideias dos deuses.
Ah, haver coisas!
Ah, haver seres!
Ah, haver maneira de haver seres
De haver haver,
De haver como haver haver,
De haver...
Ah, o existir o fenómeno abstracto — existir,
Haver consciência e realidade,
O que quer que isto seja...
Como posso eu exprimir o horror que tudo isto me causa?
Como posso eu dizer como é isto para se sentir?
Qual é alma de haver ser?
Ah, o pavoroso mistério de existir a mais pequena coisa
Porque é o pavoroso mistério de haver qualquer coisa
Porque é o pavoroso mistério de haver...
1 205
Fernando Pessoa
Onde é que os mortos dormem? Dorme alguém
Onde é que os mortos dormem? Dorme alguém
Neste universo atomicamente falso?
Neste universo atomicamente falso?
1 563
Fernando Pessoa
Quero, Neera, que os teus lábios laves
Quero, Neera, que os teus lábios laves
Na nascente tranquila
Para que contra a tua febre e a triste
Dor que pões em viver,
Sintas a fresca e calma natureza
Da água, e reconheças
Que não têm penas nem desassossegos
As ninfas das nascentes
Nem mais soluços do que o som da água
Alegre e natural.
As nossas dores, não, Neera, vêm
Das causas naturais
Datam da alma e do infeliz fruir
Da vida com os homens.
Aprende pois, ó aprendiza jovem
Das clássicas delícias,
A não pôr mais tristeza que um suspiro
No modo como vives.
Nasceste pálida, deitando a regra
Da tua vã beleza
Sob a estólida fé das nossas mãos
Medrosas de ter gozo
Demasiado preso à desconfiança
Que vem de teu saber,
Não para essa vã mnemónica
Do futuro fatal.
Façamos vívidas grinaldas várias
De sol, flores e risos
Para ocultar o fundo fiel à Noite
Do nosso pensamento
Curvado já em vida sob a ideia
Do plutónico jugo
Cônscia já da lívida aguardança
Do caos redivivo.
Na nascente tranquila
Para que contra a tua febre e a triste
Dor que pões em viver,
Sintas a fresca e calma natureza
Da água, e reconheças
Que não têm penas nem desassossegos
As ninfas das nascentes
Nem mais soluços do que o som da água
Alegre e natural.
As nossas dores, não, Neera, vêm
Das causas naturais
Datam da alma e do infeliz fruir
Da vida com os homens.
Aprende pois, ó aprendiza jovem
Das clássicas delícias,
A não pôr mais tristeza que um suspiro
No modo como vives.
Nasceste pálida, deitando a regra
Da tua vã beleza
Sob a estólida fé das nossas mãos
Medrosas de ter gozo
Demasiado preso à desconfiança
Que vem de teu saber,
Não para essa vã mnemónica
Do futuro fatal.
Façamos vívidas grinaldas várias
De sol, flores e risos
Para ocultar o fundo fiel à Noite
Do nosso pensamento
Curvado já em vida sob a ideia
Do plutónico jugo
Cônscia já da lívida aguardança
Do caos redivivo.
869
Fernando Pessoa
Quê? Eu morrer?
Quê? Eu morrer?
Morrer? (...) onde centralizar
Sensação (...) e pensamento,
Suprema realidade, único Ser
Passar, deixar de ser! A consciência
Tornar-se inconsciente? E como? O Ser
Passar a Não-Ser? É impensável.
E contudo é impensável o Real.
— Vida (...) inconsciente —
E ela é o Real.
Morrer? (...) onde centralizar
Sensação (...) e pensamento,
Suprema realidade, único Ser
Passar, deixar de ser! A consciência
Tornar-se inconsciente? E como? O Ser
Passar a Não-Ser? É impensável.
E contudo é impensável o Real.
— Vida (...) inconsciente —
E ela é o Real.
1 294
Fernando Pessoa
Afastai-vos de mim, outrora horror
Afastai-vos de mim, outrora horror
De mim pensado, e um grato sono pesa
Já sobre o que me sinto. Como quando
A fadiga, em princípio de dormirmos,
Se torna um prazer vago e um começo
Do sono em que a percamos, assim pouco
A pouco um múrmuro cessar da mente
Me inebria de sombras e me esquece
De mim, e me anoitece lentamente.
De mim pensado, e um grato sono pesa
Já sobre o que me sinto. Como quando
A fadiga, em princípio de dormirmos,
Se torna um prazer vago e um começo
Do sono em que a percamos, assim pouco
A pouco um múrmuro cessar da mente
Me inebria de sombras e me esquece
De mim, e me anoitece lentamente.
1 284
Fernando Pessoa
SOUVENIR
How sweetly sad it is sometimes to hear
Some old loved sound to memory recalled,
To see, an if in dreams, some old dear face,
Some landscape's stretch, some field, some dale, some stream
A memory so sudden, sad and pleasant,
Aught that recalls the days of happy youth.
Then spring in happy pain the tears that wait,
Those subtle tears that wait on thought, and all -
Field stream and voice - all that we hear or see -
Goes from the sense, adorned with mem’ry’s hand
And merges slowly into dreamy light.
I wake; alas! by dreams l was betrayed.
Tis but a semblance that l feel and hear
Because the past, alas! cannot return.
These fields are not the fields I knew, these sounds
Are not the sounds I knew: all those are gone,
And all the past - alas! cannot return.
Some old loved sound to memory recalled,
To see, an if in dreams, some old dear face,
Some landscape's stretch, some field, some dale, some stream
A memory so sudden, sad and pleasant,
Aught that recalls the days of happy youth.
Then spring in happy pain the tears that wait,
Those subtle tears that wait on thought, and all -
Field stream and voice - all that we hear or see -
Goes from the sense, adorned with mem’ry’s hand
And merges slowly into dreamy light.
I wake; alas! by dreams l was betrayed.
Tis but a semblance that l feel and hear
Because the past, alas! cannot return.
These fields are not the fields I knew, these sounds
Are not the sounds I knew: all those are gone,
And all the past - alas! cannot return.
1 538
Fernando Pessoa
Seguro assento na coluna firme [ 2]
Seguro assento na coluna firme
Dos versos em que fico.
Aquele agudo interno movimento
Por quem os fiz pensados
Passa, e eu, outro já que o factor deles,
Póstumo substituo-me.
Chegada a hora, eu próprio serei todo
Menos que essas palavras
E papel, ou papiro escrito e morto
Será mais eu que eu mesmo.
A obra imortal excede o autor da obra;
E é menos dono dela
Quem a fez do que o tempo em que perdura.
Morre a obra a vida nossa.
Durar, sentir, só os altos deuses unem.
Nós não somos inteiros.
Assim os deuses esta nossa regem
Mortal e imortal vida;
Assim o Fado rege que assim rejam.
Mas se assim é, é assim.
Dos versos em que fico.
Aquele agudo interno movimento
Por quem os fiz pensados
Passa, e eu, outro já que o factor deles,
Póstumo substituo-me.
Chegada a hora, eu próprio serei todo
Menos que essas palavras
E papel, ou papiro escrito e morto
Será mais eu que eu mesmo.
A obra imortal excede o autor da obra;
E é menos dono dela
Quem a fez do que o tempo em que perdura.
Morre a obra a vida nossa.
Durar, sentir, só os altos deuses unem.
Nós não somos inteiros.
Assim os deuses esta nossa regem
Mortal e imortal vida;
Assim o Fado rege que assim rejam.
Mas se assim é, é assim.
1 371
Fernando Pessoa
É abismadamente curioso
É abismadamente curioso
E transcendentemente negro e fundo
Ver os seres, os entes a mover-se
A rir a (...), a falar, a (...)
Na luz e no calor; e neles todos
Um mistério que torna tudo negro
E faz a vida horror incompreendido.
Uma noite de Tudo que é um Nada
Um abismo de Nada que é um Tudo.
E transcendentemente negro e fundo
Ver os seres, os entes a mover-se
A rir a (...), a falar, a (...)
Na luz e no calor; e neles todos
Um mistério que torna tudo negro
E faz a vida horror incompreendido.
Uma noite de Tudo que é um Nada
Um abismo de Nada que é um Tudo.
1 678
Fernando Pessoa
IX - Coroai-me de rosas, [1]
Coroai-me de rosas,
Coroai-me em verdade
De rosas —
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta.
Coroai-me em verdade
De rosas —
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta.
1 446
Fernando Pessoa
Esse é um génio, é o que é novo é (...)
Esse é um génio, é o que é novo é (...)
Outro é um deus, e as crianças do mundo não lhe cospem na cara.
Queria ser uma pedra, não aspiro a mais, quero
Ser uma coisa que não possa ter vergonha nem desespero,
Fui rei nos meus sonhos, mas nem sonhos houve, além de mim
E a última palavra que se escreve nos livros é a palavra Fim.
Outro é um deus, e as crianças do mundo não lhe cospem na cara.
Queria ser uma pedra, não aspiro a mais, quero
Ser uma coisa que não possa ter vergonha nem desespero,
Fui rei nos meus sonhos, mas nem sonhos houve, além de mim
E a última palavra que se escreve nos livros é a palavra Fim.
1 328
Fernando Pessoa
HERE AND THERE
Here is the same as there, my friend,
All places in this world are like.
If doomed thy life in grief to spend,
What change can then thy fate amend,
What from thy soul the pain can strike?
When pain doth wound the tired heart
And grief doth tie the fevered eye,
Some joy indeed the world's great art
May to thy pained soul impart -
What's this if joy in thee not lie?
When on my restless couch I lie
And count the throbbing of my breath,
I see the joy of earth and sky
Yet hate it all; why should not I
So keep my coward mind from death?
True joy comes not from outward show
But in our deepest soul doth rest.
What matter if the sun can glow
And stars at night look sweetly so
When hearts are by their grief opprest?
For when the darkness weighs thy thought,
And night doth fall upon thy soul,
Are not again thy sorrows brought?
Is not thy mind in shadows caught?
Do fears not back upon thee roll?
I cannot do but hope; as mine
Thy mind I see to hopes doth bend;
I in my land and thou in thine
We suffer both - our griefs entwine.
Here is the same as there, my friend.
All places in this world are like.
If doomed thy life in grief to spend,
What change can then thy fate amend,
What from thy soul the pain can strike?
When pain doth wound the tired heart
And grief doth tie the fevered eye,
Some joy indeed the world's great art
May to thy pained soul impart -
What's this if joy in thee not lie?
When on my restless couch I lie
And count the throbbing of my breath,
I see the joy of earth and sky
Yet hate it all; why should not I
So keep my coward mind from death?
True joy comes not from outward show
But in our deepest soul doth rest.
What matter if the sun can glow
And stars at night look sweetly so
When hearts are by their grief opprest?
For when the darkness weighs thy thought,
And night doth fall upon thy soul,
Are not again thy sorrows brought?
Is not thy mind in shadows caught?
Do fears not back upon thee roll?
I cannot do but hope; as mine
Thy mind I see to hopes doth bend;
I in my land and thou in thine
We suffer both - our griefs entwine.
Here is the same as there, my friend.
1 405
Fernando Pessoa
V - Há quanto tempo, Portugal, há quanto
V
Há quanto tempo, Portugal, há quanto
Vivemos separados! Ah, mas a alma,
Esta alma incerta, nunca forte ou calma,
Não se distrai de ti, nem bem nem tanto.
Sonho, histérico oculto, um vão recanto...
O rio Furness, que é o que aqui banha,
Só ironicamente me acompanha,
Que estou parado e ele correndo tanto...
Tanto? Sim, tanto relativamente...
Arre, acabemos com as distinções,
As subtilezas, o interstício, o entre,
A metafísica das sensações —
Acabemos com isto e tudo mais...
Ah, que ânsia humana de ser rio ou cais!
Há quanto tempo, Portugal, há quanto
Vivemos separados! Ah, mas a alma,
Esta alma incerta, nunca forte ou calma,
Não se distrai de ti, nem bem nem tanto.
Sonho, histérico oculto, um vão recanto...
O rio Furness, que é o que aqui banha,
Só ironicamente me acompanha,
Que estou parado e ele correndo tanto...
Tanto? Sim, tanto relativamente...
Arre, acabemos com as distinções,
As subtilezas, o interstício, o entre,
A metafísica das sensações —
Acabemos com isto e tudo mais...
Ah, que ânsia humana de ser rio ou cais!
1 081
Fernando Pessoa
OXFORD SHORES'
OXFORD SHORES'
Quero o bem, e quero o mal, e afinal não quero nada.
Estou mal deitado sobre a direita, e mal deitado sobre a esquerda
E mal deitado sobre a consciência de existir.
Estou universalmente mal, metafisicamente mal,
Mas o pior é que me dói a cabeça.
Isso é mais grave que a significação do universo.
Uma vez, ao pé de Oxford, num passeio campestre,
Vi erguer-se, de urna curva da estrada, na distância próxima
A torre-velha de uma igreja acima de casas da aldeia ou vila.
Ficou-me fotográfico esse incidente nulo
Como uma dobra transversal escangalhando o vinco das calças.
Agora vem a propósito...
Da estrada eu previa espiritualidade a essa torre de igreja
Que era a fé de todas as eras, e a eficaz caridade.
Da vila, quando lá cheguei, a torre da igreja era a torre da igreja,
E, ainda por cima, estava ali.
É - se feliz na Austrália, desde que lá se não vá.
Quero o bem, e quero o mal, e afinal não quero nada.
Estou mal deitado sobre a direita, e mal deitado sobre a esquerda
E mal deitado sobre a consciência de existir.
Estou universalmente mal, metafisicamente mal,
Mas o pior é que me dói a cabeça.
Isso é mais grave que a significação do universo.
Uma vez, ao pé de Oxford, num passeio campestre,
Vi erguer-se, de urna curva da estrada, na distância próxima
A torre-velha de uma igreja acima de casas da aldeia ou vila.
Ficou-me fotográfico esse incidente nulo
Como uma dobra transversal escangalhando o vinco das calças.
Agora vem a propósito...
Da estrada eu previa espiritualidade a essa torre de igreja
Que era a fé de todas as eras, e a eficaz caridade.
Da vila, quando lá cheguei, a torre da igreja era a torre da igreja,
E, ainda por cima, estava ali.
É - se feliz na Austrália, desde que lá se não vá.
1 186
Fernando Pessoa
Tão linda e finda a memoro!
Tão linda e finda a memoro!
Tão pequena a enterrarão!
Quem me entalou este choro
Nas goelas do coração?
Tão pequena a enterrarão!
Quem me entalou este choro
Nas goelas do coração?
1 350
Fernando Pessoa
RESOLUTION
Why do I waste in dreams fruitless and vain
The substance of my youth in idle tears?.
Why do I count with feverish eye the years
And number with sad heart the ways of pain?
Why should I weep thus, since there is no gain
To me, to men from sighings and from fears?
Since from afar at me the future sneers,
The while the past with me cannot remain.
High Heaven, that errs not and that wills not wrong
To each on earth doth give a work to do,
A distant recompense and rest remote;
I'll to my work then, so God make me strong
To bring the Demons of mine own self to
Their knees, and take the Devil by the throat.
The substance of my youth in idle tears?.
Why do I count with feverish eye the years
And number with sad heart the ways of pain?
Why should I weep thus, since there is no gain
To me, to men from sighings and from fears?
Since from afar at me the future sneers,
The while the past with me cannot remain.
High Heaven, that errs not and that wills not wrong
To each on earth doth give a work to do,
A distant recompense and rest remote;
I'll to my work then, so God make me strong
To bring the Demons of mine own self to
Their knees, and take the Devil by the throat.
1 052
Fernando Pessoa
Não se preocupem comigo: também tenho a verdade.
Não se preocupem comigo: também tenho a verdade.
Tenho-a a sair da algibeira como um prestidigitador.
Também pertenço...
Ninguém conclui sem mim, é claro,
E estar triste é ter ideias destas.
Ó meu capricho entre terraços aristocráticos,
Comes açorda em mangas de camisa no meu coração.
Tenho-a a sair da algibeira como um prestidigitador.
Também pertenço...
Ninguém conclui sem mim, é claro,
E estar triste é ter ideias destas.
Ó meu capricho entre terraços aristocráticos,
Comes açorda em mangas de camisa no meu coração.
1 376
Fernando Pessoa
Fausto perante o povo alegre
Alegres camponeses, raparigas
Alegres e ditosas,
Como me amarga n'alma essa alegria!
Vendo-a, que bem sinto que nunca a tive!
Nem em criança, ser predestinado,
Alegre era eu assim; no meu brincar
Nas minhas ilusões de infância eu punha
O mal da minha predestinação.
Ao ver vosso dançar, ouvindo
Vossas cantigas
Sobe em mim um amargor que me estonteia
E me faz odiar e desejar.
Odiar o quê e desejar o quê?
Não sei: sei que odeio e que desejo.
Folgai — sinto a ironia dessa vida —
Danças e cantos e a morte avança...
Mas que importa?
Tendes razão — se tendes! -
Vem a morte e nos leva, e a Vossa vida
Envolvida em inconsciências fundas
Foi contudo feliz, enquanto a minha...
Que dizer dela?
Oh horror! horror!
Não nasce em mim nem sombra de alegria
Longínquo e exilado.
Acabemos com esta vida assim!
Acabemos! o modo pouco importa!
Sofrer mais já não posso. Pois verei —
Eu, Fausto, aqueles que não sentem bem
Toda a extensão da felicidade
Gozá-la?
Eu que adaptado tenho
A sensações profundas todo o ser
Não as sentir? Ferve a revolta em mim
Contra a causa da vida que me fez
Qual sou. Eu morrerei e deixarei
Neste mundo isto apenas: uma vida
Sem prazer e sem gozo, sem amor,
Só imersa em estéril pensamento
E desprezo (...) da humanidade.
Mas eu, como entrarei naquela vida?
Eu não nasci para ela.
Alegres e ditosas,
Como me amarga n'alma essa alegria!
Vendo-a, que bem sinto que nunca a tive!
Nem em criança, ser predestinado,
Alegre era eu assim; no meu brincar
Nas minhas ilusões de infância eu punha
O mal da minha predestinação.
Ao ver vosso dançar, ouvindo
Vossas cantigas
Sobe em mim um amargor que me estonteia
E me faz odiar e desejar.
Odiar o quê e desejar o quê?
Não sei: sei que odeio e que desejo.
Folgai — sinto a ironia dessa vida —
Danças e cantos e a morte avança...
Mas que importa?
Tendes razão — se tendes! -
Vem a morte e nos leva, e a Vossa vida
Envolvida em inconsciências fundas
Foi contudo feliz, enquanto a minha...
Que dizer dela?
Oh horror! horror!
Não nasce em mim nem sombra de alegria
Longínquo e exilado.
Acabemos com esta vida assim!
Acabemos! o modo pouco importa!
Sofrer mais já não posso. Pois verei —
Eu, Fausto, aqueles que não sentem bem
Toda a extensão da felicidade
Gozá-la?
Eu que adaptado tenho
A sensações profundas todo o ser
Não as sentir? Ferve a revolta em mim
Contra a causa da vida que me fez
Qual sou. Eu morrerei e deixarei
Neste mundo isto apenas: uma vida
Sem prazer e sem gozo, sem amor,
Só imersa em estéril pensamento
E desprezo (...) da humanidade.
Mas eu, como entrarei naquela vida?
Eu não nasci para ela.
1 521
Fernando Pessoa
Não tenhas nada nas mãos [2]
Não tenhas nada nas mãos
Salvo uma memória na alma
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último
Nada terás deixado.
Tu serás só tu próprio
Não poderão roubar-te
O que nunca tiveste.
Que trono te querem dar
Que Atropos to não tire?...
Que Coroa que não fane
No arbítrio de Minos?
Que horas que não te tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores
O fim da tua estrada?
Colhe as flores. Abdica
E sê Rei de ti próprio.
Salvo uma memória na alma
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último
Nada terás deixado.
Tu serás só tu próprio
Não poderão roubar-te
O que nunca tiveste.
Que trono te querem dar
Que Atropos to não tire?...
Que Coroa que não fane
No arbítrio de Minos?
Que horas que não te tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores
O fim da tua estrada?
Colhe as flores. Abdica
E sê Rei de ti próprio.
2 269
Fernando Pessoa
Ao ouvi-los rir
Ao ouvi-los rir
Parece-me ouvir chasquear de mim
Um demónio horroroso e transcendente,
E simbólico de algo do mistério
Ou do universo. E vendo-os todos como
Que intérpretes inconscientes desse
Torturador obscuro, tomo ódio
A esta ridente humanidade toda,
Folgo de lhes pensar torturas n'alma,
Com que perdessem esse riso e até
As lágrimas na dor e no pavor.
Acordo ao conceber quanto eu odeio
Mais do que isto, mais que a humanidade,
Mas o universo todo, o transcendente
Conteúdo horrendo do meu pensamento,
Com um ódio adaptado a essa grandeza,
E uma impotência de mostrar esse ódio
Que essa grandeza, aumentando-o, tolhe.
Parece-me ouvir chasquear de mim
Um demónio horroroso e transcendente,
E simbólico de algo do mistério
Ou do universo. E vendo-os todos como
Que intérpretes inconscientes desse
Torturador obscuro, tomo ódio
A esta ridente humanidade toda,
Folgo de lhes pensar torturas n'alma,
Com que perdessem esse riso e até
As lágrimas na dor e no pavor.
Acordo ao conceber quanto eu odeio
Mais do que isto, mais que a humanidade,
Mas o universo todo, o transcendente
Conteúdo horrendo do meu pensamento,
Com um ódio adaptado a essa grandeza,
E uma impotência de mostrar esse ódio
Que essa grandeza, aumentando-o, tolhe.
1 117
Fernando Pessoa
Do eterno erro na eterna viagem,
Do eterno erro na eterna viagem,
O mais que saibas na alma que ousa,
É sempre nome, sempre linguagem
O véu e a capa de uma outra cousa.
Nem que conheças de frente o Deus,
Nem que o eterno te dê a mão,
Vês a verdade, rompes os véus,
Tens mais caminho que a solidão.
Todos os astros, inda os que brilham
No céu sem fundo do mundo interno,
São só caminhos que falsos trilham
Eternos passos do erro eterno.
Volta a meu seio, que não conhece
Enigma ou deuses porque os não vê,
Volta a meus braços, neles esquece
Isso que tudo só finge que é.
Meus ramos tecem doceis de sono,
Meus frutos ornam o arvoredo;
Vem a meus braços em abandono
Todos os Deuses fazem só medo.
Não há verdade que consigamos,
Ao Deus dos deuses nunca hás-de ver...
Doceis de sono tecem meus ramos.
Dorme sob eles como qualquer.
O mais que saibas na alma que ousa,
É sempre nome, sempre linguagem
O véu e a capa de uma outra cousa.
Nem que conheças de frente o Deus,
Nem que o eterno te dê a mão,
Vês a verdade, rompes os véus,
Tens mais caminho que a solidão.
Todos os astros, inda os que brilham
No céu sem fundo do mundo interno,
São só caminhos que falsos trilham
Eternos passos do erro eterno.
Volta a meu seio, que não conhece
Enigma ou deuses porque os não vê,
Volta a meus braços, neles esquece
Isso que tudo só finge que é.
Meus ramos tecem doceis de sono,
Meus frutos ornam o arvoredo;
Vem a meus braços em abandono
Todos os Deuses fazem só medo.
Não há verdade que consigamos,
Ao Deus dos deuses nunca hás-de ver...
Doceis de sono tecem meus ramos.
Dorme sob eles como qualquer.
931
Fernando Pessoa
Eu procurei primeiro o pensamento,
Eu procurei primeiro o pensamento,
Eu quis, depois, a imortalidade...
Um como o outro só deram ao meu ser
A sombra fria dos seus vultos negros
Na noite eterna longe dos meus braços...
Eu procurei depois o amor e a vida
P'ra ver se ali esqueceria a dor
Do pensamento e da ciência firme
Da certeza da morte. Mas o amor
É para quem guardou a alma inteira,
E não podia haver amor pr'a mim.
Depois na acção cega e violenta, onde eu
Afogasse de vez toda a consciência
Da vida, quis lançar meu frio ser...
Mas aquilo da alma condenada
Que me fizera em tudo um espectador,
De mim, do mundo, do que quer que fosse,
Proibiu-me outra cousa que assistir
Aos [...] dos outros e aos meus
Friamente de fora, sempre tendo
No fundo do meu ser o mesmo horror...
Ah, mas cansei a dor dentro de mim...
E hoje tenho sono do meu ser...
Dormir, dormir, de dentro d'alma, como
Um Deus que adormecesse e cujo sono
Fora um repouso de tamanho eterno
E feliz absorção em infinito
De inconsciência boa.
Eu quis, depois, a imortalidade...
Um como o outro só deram ao meu ser
A sombra fria dos seus vultos negros
Na noite eterna longe dos meus braços...
Eu procurei depois o amor e a vida
P'ra ver se ali esqueceria a dor
Do pensamento e da ciência firme
Da certeza da morte. Mas o amor
É para quem guardou a alma inteira,
E não podia haver amor pr'a mim.
Depois na acção cega e violenta, onde eu
Afogasse de vez toda a consciência
Da vida, quis lançar meu frio ser...
Mas aquilo da alma condenada
Que me fizera em tudo um espectador,
De mim, do mundo, do que quer que fosse,
Proibiu-me outra cousa que assistir
Aos [...] dos outros e aos meus
Friamente de fora, sempre tendo
No fundo do meu ser o mesmo horror...
Ah, mas cansei a dor dentro de mim...
E hoje tenho sono do meu ser...
Dormir, dormir, de dentro d'alma, como
Um Deus que adormecesse e cujo sono
Fora um repouso de tamanho eterno
E feliz absorção em infinito
De inconsciência boa.
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