Poemas neste tema
Alma
Fernando Pessoa
ODE MARCIAL [a]
ODE MARCIAL
Clarins na noite,
Clarins na noite,
Clarins subitamente distintos na noite...
(É de cavalgada, de cavalgada, de cavalgada o ruído longínquo?)
O que é [que] estremece de diverso pela erva e nas almas?
O que é que se vai alterar e já lá longe se altera —
Na distância, no futuro, na angústia — não se sabe onde — ?
Clarins na noite,
Clarins... na noite,
Clari-i-i-i-ins.....
É de cavalgada,
É de cavalgada, de cavalgada,
É de cavalgada, de cavalgada, de cavalgada
O ruído, ruído, ruído agora já nítido.
Vejo-as no coração e no horror que há em mim:
Valquírias, bruxas, amazonas do assombro...
São um grande sonho — mistério de sombras pegadas que mexe na noite.
Vêm em cavalgada, e a terra estremece duas vezes,
E o coração como a terra estremece duas vezes também.
Vêm do fundo do mundo,
Vêm do abismo das coisas,
Vêm de onde partem as leis que governam tudo;
Vêm de onde a injustiça derrama-se sobre os seres,
Vêm de onde se vê que é inútil amar e querer,
E só a guerra e o mal são o dentro e fora do mundo.
Hela-hô-hôôô...helahô-hôôôôô.......
Clarins na noite,
Clarins na noite,
Clarins subitamente distintos na noite...
(É de cavalgada, de cavalgada, de cavalgada o ruído longínquo?)
O que é [que] estremece de diverso pela erva e nas almas?
O que é que se vai alterar e já lá longe se altera —
Na distância, no futuro, na angústia — não se sabe onde — ?
Clarins na noite,
Clarins... na noite,
Clari-i-i-i-ins.....
É de cavalgada,
É de cavalgada, de cavalgada,
É de cavalgada, de cavalgada, de cavalgada
O ruído, ruído, ruído agora já nítido.
Vejo-as no coração e no horror que há em mim:
Valquírias, bruxas, amazonas do assombro...
São um grande sonho — mistério de sombras pegadas que mexe na noite.
Vêm em cavalgada, e a terra estremece duas vezes,
E o coração como a terra estremece duas vezes também.
Vêm do fundo do mundo,
Vêm do abismo das coisas,
Vêm de onde partem as leis que governam tudo;
Vêm de onde a injustiça derrama-se sobre os seres,
Vêm de onde se vê que é inútil amar e querer,
E só a guerra e o mal são o dentro e fora do mundo.
Hela-hô-hôôô...helahô-hôôôôô.......
1 287
Fernando Pessoa
RAGE
I feel a rage - ay, a rage!
At time that passes, passes away,
A thirst of life nought can assuage,
An anger that nothing can stay.
And every hour that passes by
And merges into night a day
Makes, when I think, my soul to cry:
«Torture eternal, torture without end!
All days pass and not a deed!
A desire strong as a greed
By an ill of will - oh, misery!
To be a dream of pain condemned!»
I feel a rage! 'tis to feel
Mystery and sadness at one time,
Till the maddened brain doth reel,
Looking on that bodiless curse.
The passing of the world, as one
Paralytic at a deed of blood
Which he hath no power to avert.
I feel a stranger before the sun,
A weeper before field and flood,
A cynic before dirt,
A revolt before God.
At time that passes, passes away,
A thirst of life nought can assuage,
An anger that nothing can stay.
And every hour that passes by
And merges into night a day
Makes, when I think, my soul to cry:
«Torture eternal, torture without end!
All days pass and not a deed!
A desire strong as a greed
By an ill of will - oh, misery!
To be a dream of pain condemned!»
I feel a rage! 'tis to feel
Mystery and sadness at one time,
Till the maddened brain doth reel,
Looking on that bodiless curse.
The passing of the world, as one
Paralytic at a deed of blood
Which he hath no power to avert.
I feel a stranger before the sun,
A weeper before field and flood,
A cynic before dirt,
A revolt before God.
1 504
Fernando Pessoa
O mistério de tudo
O mistério de tudo
Aproxima-se tanto do meu ser,
Chega aos olhos meus d'alma tão perto
Que me dissolvo em trevas e imerso
Em trevas me apavoro escuramente.
Aproxima-se tanto do meu ser,
Chega aos olhos meus d'alma tão perto
Que me dissolvo em trevas e imerso
Em trevas me apavoro escuramente.
1 475
Fernando Pessoa
Em cada Consciência o Grande Horror
Em cada Consciência o Grande Horror
Mostra através da máscara os seus olbos.
E o carnal,
Em toda a sua extensão
De nudez da carne e da alma, mirra
Minha alma do pavor de colocar
A mão, na escuridão, sobre a fronte
Do Mistério.
A cópula dos entes, o contacto
Carnal das almas, pávido encontrar-se
Do horror de uma alma com o de outra alma,
Do mistério de um ser com o de outro ser,
Quintessenciar-se local, tangível
Do Mistério, (...)
Escrever
Em palavras de carne, sentindo
O horror e o mistério do Universo.
Com que gesto de alma
Dou o passo de mim até à posse
Do corpo de outro, horrorosamente
Vivo, consciente, atento a mim, tão ele
Como eu sou eu.
Mostra através da máscara os seus olbos.
E o carnal,
Em toda a sua extensão
De nudez da carne e da alma, mirra
Minha alma do pavor de colocar
A mão, na escuridão, sobre a fronte
Do Mistério.
A cópula dos entes, o contacto
Carnal das almas, pávido encontrar-se
Do horror de uma alma com o de outra alma,
Do mistério de um ser com o de outro ser,
Quintessenciar-se local, tangível
Do Mistério, (...)
Escrever
Em palavras de carne, sentindo
O horror e o mistério do Universo.
Com que gesto de alma
Dou o passo de mim até à posse
Do corpo de outro, horrorosamente
Vivo, consciente, atento a mim, tão ele
Como eu sou eu.
1 085
Fernando Pessoa
UMA VOZ: Silente, medonho,
UMA VOZ:
Silente, medonho,
Embebido em sonho
Sombrio e profundo
É o mistério do mundo.
SEGUNDA VOZ:
Tecido de horrores,
Mordido de dores
Agudas de medo,
E do mundo o segredo.
TERCEIRA VOZ:
Submerso
É o Ser do universo.
UMA VOZ DOLORIDA
Mesmo que além do mundo (...) não seja
Ainda assim há-de sonho e dor,
Boca que ri, o lábio que beija
Seu ódio ter, ter o seu horror.
Nem só além do mundo há tristeza,
Silente horror o mistério tem,
Nem que humilde e com singeleza
Seja aqui DOR corno HORROR além.
Há muita voz — ouvi com espanto -
A quem dá o mundo (...) de chorar
Não só pensar tão triste o canto,
Basta viver, para soluçar.
Silente, medonho,
Embebido em sonho
Sombrio e profundo
É o mistério do mundo.
SEGUNDA VOZ:
Tecido de horrores,
Mordido de dores
Agudas de medo,
E do mundo o segredo.
TERCEIRA VOZ:
Submerso
É o Ser do universo.
UMA VOZ DOLORIDA
Mesmo que além do mundo (...) não seja
Ainda assim há-de sonho e dor,
Boca que ri, o lábio que beija
Seu ódio ter, ter o seu horror.
Nem só além do mundo há tristeza,
Silente horror o mistério tem,
Nem que humilde e com singeleza
Seja aqui DOR corno HORROR além.
Há muita voz — ouvi com espanto -
A quem dá o mundo (...) de chorar
Não só pensar tão triste o canto,
Basta viver, para soluçar.
1 938
Fernando Pessoa
INACTION
A thousand hearts are labouring for the good
Of poor mankind ill-civilized and chill;
A thousand minds are making war to ill
With thought or feeling ponderate or rude.
And I alone, as if not understood
By me the suffering that the sense doth fill,
Am sunk in an abeyance deep of will
In a wild, crazy somnolence of mood.
Thus show I mute and cold to misery
Yet not suspected thoughts like dim clouds float,
The presages of horrors, in my mind.
Thus am I miserable and my soul in me,
A skilful helmsman in a helmless boat,
Is like one loving beauty yet born blind.
Of poor mankind ill-civilized and chill;
A thousand minds are making war to ill
With thought or feeling ponderate or rude.
And I alone, as if not understood
By me the suffering that the sense doth fill,
Am sunk in an abeyance deep of will
In a wild, crazy somnolence of mood.
Thus show I mute and cold to misery
Yet not suspected thoughts like dim clouds float,
The presages of horrors, in my mind.
Thus am I miserable and my soul in me,
A skilful helmsman in a helmless boat,
Is like one loving beauty yet born blind.
1 392
Fernando Pessoa
Ruído longínquo e próximo não sei porquê
Ruído longínquo e próximo não sei porquê
Da guerra europeia... Ruído de universo de catástrofe...
Que vai morrer para além de onde ouvimos e vemos?
Em que fronteiras deu a morte rendez-vous
Ao destino das nações?
Ó Águia Imperial, cairás?
Rojar-te-ás, negra amorfa coisa em sangue,
Pela terra, onde sob o teu cair
Ainda tens marcado o sinal das tuas garras para antes formar o voo
Que deste sobre a Europa confusa?
Cairás, ó matutino galo francês,
Sempre saudando a aurora? Que amos saúdas agora
Que sol de sangue no azul pálido do horizonte matutino?
Porque atalhos de sombra que caminho buscas,
Que caminho para onde?
Ó civilizações chegando à encruzilhada nocturna
D'onde tiraram o ponto-de-apoio
E donde partem caminhos curvos não sei para onde,
E não ha luar sobre as indecisões...
Deus seja connosco...
Chora na noite a Senhora de [...],
Torcendo as mãos, de modo a ouvir-se que elas se torcem
No silêncio profundo.
Deus seja connosco no céu e na terra,
Ó Deusa Tutelar do Futuro, ó Ponte
Sobre os abismos do que não sabemos que seja...
Deus seja connosco, e não esqueçamos nunca
Que o mar é eterno e afinal de tudo tranquilo
E a terra grande e mãe e tem a sua bondade
Porque sempre podemos nela recostar a cabeça cansada
E dormir encostados a qualquer coisa.
Clarins na noite, desmaiando... Ó Mistério
Que se está formando lá fora, na Europa, no Império...
Tropel vário de raças inimigas que se chocam
Mais profundamente do que seus exércitos e suas esquadras,
Mais realmente do que homem contra homem e nação contra nação...
Clarins de horror trémulo e frio na noite profunda...
E o quê?... Tambores para além do mistério do mundo?
Tambores de quê... dormis deitados, dobres minúsculos sobre quê?
Passa na noite um só passo soturno do uno exército enorme...
Clarins sobrepostos mais perto na Noite...
Ó Homem de mãos atadas e levado entre sentinelas
Para onde, porque caminho, para ao pé de quem?
Para ao pé [de] quem, clarins anunciadores de quê?
(Tityro, a tua flauta e os campos de Itália sob César Augusto
Ah, porque se armam de lágrimas absurdas os olhos
E que dor é esta, do antigo e do actual e do futuro,
Que dói na alma como uma sensação de exílio?
Tityro a tua flauta em Éclogas longínquas...
Virgílio a adular o César que venceu
Per populum dat juri... Um pobre em guerra,
Ó minha alma intranquila... Ó silêncios que as pontes
Sob as fortalezas antiquissimamente teriam,
Sabeis e vedes que a terra treme sob os passos dos exércitos,
Fluxo eterno e divino das ondas sob os cruzadores e os torpedeiros...
Da guerra europeia... Ruído de universo de catástrofe...
Que vai morrer para além de onde ouvimos e vemos?
Em que fronteiras deu a morte rendez-vous
Ao destino das nações?
Ó Águia Imperial, cairás?
Rojar-te-ás, negra amorfa coisa em sangue,
Pela terra, onde sob o teu cair
Ainda tens marcado o sinal das tuas garras para antes formar o voo
Que deste sobre a Europa confusa?
Cairás, ó matutino galo francês,
Sempre saudando a aurora? Que amos saúdas agora
Que sol de sangue no azul pálido do horizonte matutino?
Porque atalhos de sombra que caminho buscas,
Que caminho para onde?
Ó civilizações chegando à encruzilhada nocturna
D'onde tiraram o ponto-de-apoio
E donde partem caminhos curvos não sei para onde,
E não ha luar sobre as indecisões...
Deus seja connosco...
Chora na noite a Senhora de [...],
Torcendo as mãos, de modo a ouvir-se que elas se torcem
No silêncio profundo.
Deus seja connosco no céu e na terra,
Ó Deusa Tutelar do Futuro, ó Ponte
Sobre os abismos do que não sabemos que seja...
Deus seja connosco, e não esqueçamos nunca
Que o mar é eterno e afinal de tudo tranquilo
E a terra grande e mãe e tem a sua bondade
Porque sempre podemos nela recostar a cabeça cansada
E dormir encostados a qualquer coisa.
Clarins na noite, desmaiando... Ó Mistério
Que se está formando lá fora, na Europa, no Império...
Tropel vário de raças inimigas que se chocam
Mais profundamente do que seus exércitos e suas esquadras,
Mais realmente do que homem contra homem e nação contra nação...
Clarins de horror trémulo e frio na noite profunda...
E o quê?... Tambores para além do mistério do mundo?
Tambores de quê... dormis deitados, dobres minúsculos sobre quê?
Passa na noite um só passo soturno do uno exército enorme...
Clarins sobrepostos mais perto na Noite...
Ó Homem de mãos atadas e levado entre sentinelas
Para onde, porque caminho, para ao pé de quem?
Para ao pé [de] quem, clarins anunciadores de quê?
(Tityro, a tua flauta e os campos de Itália sob César Augusto
Ah, porque se armam de lágrimas absurdas os olhos
E que dor é esta, do antigo e do actual e do futuro,
Que dói na alma como uma sensação de exílio?
Tityro a tua flauta em Éclogas longínquas...
Virgílio a adular o César que venceu
Per populum dat juri... Um pobre em guerra,
Ó minha alma intranquila... Ó silêncios que as pontes
Sob as fortalezas antiquissimamente teriam,
Sabeis e vedes que a terra treme sob os passos dos exércitos,
Fluxo eterno e divino das ondas sob os cruzadores e os torpedeiros...
1 086
Fernando Pessoa
O único mistério no universo
O único mistério no universo
É haver um mistério do universo.
Sim, este sol que sem querer ilumina
A terra e as árvores, e as estações todas;
As pedras em que eu piso, as casas brancas,
Os homens, o convívio humano, a história,
O que se passa — tradição ou fala —
Entre alma e alma — as vozes, as cidades —
Tudo nem traz consigo a explicação
De existir, nem tem boca com que fale.
Por que razão não raia o sol dizendo
O que é? Por que motivo sossegado
Existem pedras sob os meus passos, e ar
Que eu respiro, e eu preciso respirar?
Tudo é uma máquina monstruosa e absurda.
Com todo o corpo e o ver [?], terra da alma,
Ignoramos.
Por que há? Por que há um universo?
Por que é um universo que é este?
Por que é assim composto o universo?
Por que há? Por que há o que há?
Por que há mundo, e porque é que há mundo assim?
For que há aqui, dores, consciência e diferença?
É haver um mistério do universo.
Sim, este sol que sem querer ilumina
A terra e as árvores, e as estações todas;
As pedras em que eu piso, as casas brancas,
Os homens, o convívio humano, a história,
O que se passa — tradição ou fala —
Entre alma e alma — as vozes, as cidades —
Tudo nem traz consigo a explicação
De existir, nem tem boca com que fale.
Por que razão não raia o sol dizendo
O que é? Por que motivo sossegado
Existem pedras sob os meus passos, e ar
Que eu respiro, e eu preciso respirar?
Tudo é uma máquina monstruosa e absurda.
Com todo o corpo e o ver [?], terra da alma,
Ignoramos.
Por que há? Por que há um universo?
Por que é um universo que é este?
Por que é assim composto o universo?
Por que há? Por que há o que há?
Por que há mundo, e porque é que há mundo assim?
For que há aqui, dores, consciência e diferença?
1 579
Fernando Pessoa
Sonhos dentro de sonhos,
Sonhos dentro de sonhos,
Involuções do sonhar,
Os pensamentos são medonhos
Quando se querem aprofundar;
E os corações ficam tristonhos, tristonhos
Quando se sentem sentir pensar.
ilusões dentro d'ilusões
Atormentando o descrer;
Descrenças e crenças são ambas visões
São ambas sonhar, são ambas crer.
Involuções do sonhar,
Os pensamentos são medonhos
Quando se querem aprofundar;
E os corações ficam tristonhos, tristonhos
Quando se sentem sentir pensar.
ilusões dentro d'ilusões
Atormentando o descrer;
Descrenças e crenças são ambas visões
São ambas sonhar, são ambas crer.
1 460
Fernando Pessoa
Seja: / Já que este audaz e imenso pensamento
Seja:
Já que este audaz e imenso pensamento
Me desliga de tudo e me faz negro
Estranho e alheio à existência humana,
O riso, o pranto, o amor,
Visto que tudo me é estranho e outro
E eu isolado estou, já que não sei
Onde a causa ou a essência disto tudo,
Já que conheço que essa íntima essência
Foge do nosso sentimento e que eu
Não a posso odiar, amar, sentir-me
Para com ela,
Odeie o que odiar eu possa, odeie
Este universo todo, de que sou
Isolado, arrancado, desligado,
Com que doridamente coexisto
Sem o compreender nem conceber
Nem amar. Suba a ele o meu ódio.
Sóis, estrelas, natureza inteira
Sou vosso inimigo d’alma todo
(...) o meu ódio todo contra vós.
Só de o dizer sinto-me mais frio e negro
Na consciência de mim. Se ainda nutro
Resto ou lembrança de alegria ou dor
Renego-a e tomo sobre mim o luto
Do [...] ódio infinito
Ao universo inteiro.
Para quê
Nascer homem, (...)
(...) em mim
Os meios e (...) de sentir (
Cérebro e coração e sangue e vida (
E achar-me longe, negramente longe
Do sentimento?
Já que este audaz e imenso pensamento
Me desliga de tudo e me faz negro
Estranho e alheio à existência humana,
O riso, o pranto, o amor,
Visto que tudo me é estranho e outro
E eu isolado estou, já que não sei
Onde a causa ou a essência disto tudo,
Já que conheço que essa íntima essência
Foge do nosso sentimento e que eu
Não a posso odiar, amar, sentir-me
Para com ela,
Odeie o que odiar eu possa, odeie
Este universo todo, de que sou
Isolado, arrancado, desligado,
Com que doridamente coexisto
Sem o compreender nem conceber
Nem amar. Suba a ele o meu ódio.
Sóis, estrelas, natureza inteira
Sou vosso inimigo d’alma todo
(...) o meu ódio todo contra vós.
Só de o dizer sinto-me mais frio e negro
Na consciência de mim. Se ainda nutro
Resto ou lembrança de alegria ou dor
Renego-a e tomo sobre mim o luto
Do [...] ódio infinito
Ao universo inteiro.
Para quê
Nascer homem, (...)
(...) em mim
Os meios e (...) de sentir (
Cérebro e coração e sangue e vida (
E achar-me longe, negramente longe
Do sentimento?
837
Fernando Pessoa
IN THE STREET
I pass before the windows lit
With inward, curtained light,
And in the houses I see flit
Now and again shadows that hit
The curtain's yellowed white.
Others a little gleam but show:
Inside, the people chat, I know.
And I feel cold and feel alone,
Not that I no one have,
But - ah that dreams should ne’er be done! -
That among many I am one,
As among flowers a grave;
One, and more lonely than can be
Imagined conceivably.
If l were born not to aspire
Beyond the life that lead
These people whom life cannot tire,
Who chat and slumber by the fire
Contentedly indeed,
Behind those curtains, by that light
That to the street is somewhat bright;
Could I no more aspire than these,
Were all my wishes bound
In family or social ease,
In worldly, usual jollities
Or children playing round,
Happy were I but to have then
The usual life of usual men.
But oh! I have within my heart
Things that cannot keep still -
A mystic and delirious smart
That doth a restlessness impart,
An ache, a woe, an ill;
I wearied Sysyphus I groan
Against the world's ironic stone.
I, the eternally excluded
From socialness and mirth,
The aching heart whose mind has brooded
Till thought turned raving mad hath flooded
The soul that gave it birth -
I weep to know I have in me
Aught at once joy and misery.
And cold before the normal, cold
And fear‑struck I remain,
As one old, formidably old,
Who doth portentous secrets hold
That he cannot explain
But which the world's show doth suggest
Unto his mind that knows not rest.
How good after dinner to chat
And sit in half a sleep,
Without a duty‑sense to strike flat
All ease, all cosiness to abate
An aspiration deep;
To have an ease no pains do throng
Nor felt as an ease that is wrong.
A home, a rest, a child, a wife -
None of these are for me
Who wish for aught beyond this life
With an incessant inner strife
That knows not victory.
Ay me! and none to comprehend
This wish that doth all things transcend.
Some in some theatre are away
Or other place of joy
And keep, for ever glad and gay,
The hounds of thought and care at bay
That cannot laugh or toy:
These are awaited in some homes,
A faint light from their windows comes.
A cosiness these homes must steep
In something like a slumber,
And in that surface‑living deep
'Tis hard to know that hearts do keep.
......
Yet these are normal; I that sigh
And dread their living - what am I?
Oh joy! oh height of happiness!
To wish no more than life,
To feel of pleasure, of distress,
A normal more, a normal less,
By friend or child or wife!
None of these for my soul can be
For more than madness is in me.
I weep sad tears - oh, not to live
As these in human joy!
Oh, that I could as much believe
As sense and custom joint can give
Which living cannot cloy!
Man's happiness is poor, I know,
But true - a thing all unlike woe.
Sometimes I dream that I might sit
By my own fire, and quiet
Might see my wife and children flit
Half in a sleep and not a whit
In one of dreamy riot;
And I might noble be and pure
In mind, not stupid or obscure.
Sometimes I dream one of these homes
Secluded socially
One for the many thousand tomes
Of life might keep my heart that roams
Weak, desolate and free;
That quiet haply might console
My aching heart, my pining soul.
But as the thought of such a glad
Existence simple here,
As if the thing a venom had
I shiver, tremble and grow sad
As with a mystic fear;
I dread to think my life might pass
Like that of men, as is and was.
I dread to think of a life sweet
By family and friends.
Mine eyes the finite that they meet
Abhor - the houses and the street.
And all things that have ends.
I know not to what I aspire,
Yet know this I cannot desire.
So always incompatible
And by the usual cold,
I go about, my own deep hell,
Hearing to toll in me the bell
That tells me I grow old,
Yet this in such an accent strange
lt bears the mystery of Change.
And so - alas! must e'er I be
A stranger everywhere;
The leper in his leprosy
In his exclusion nears not me
Who cannot living bear:
The world my home, my brother men
Are prisons, chains that bind and pen.
I pass. The windows are behind,
And I forget their peace,
But tremble yet at what my mind
Conceives and feels; and in the wind
I wander without cease,
Glad yet sad in me to perceive
Something none other can conceive.
With inward, curtained light,
And in the houses I see flit
Now and again shadows that hit
The curtain's yellowed white.
Others a little gleam but show:
Inside, the people chat, I know.
And I feel cold and feel alone,
Not that I no one have,
But - ah that dreams should ne’er be done! -
That among many I am one,
As among flowers a grave;
One, and more lonely than can be
Imagined conceivably.
If l were born not to aspire
Beyond the life that lead
These people whom life cannot tire,
Who chat and slumber by the fire
Contentedly indeed,
Behind those curtains, by that light
That to the street is somewhat bright;
Could I no more aspire than these,
Were all my wishes bound
In family or social ease,
In worldly, usual jollities
Or children playing round,
Happy were I but to have then
The usual life of usual men.
But oh! I have within my heart
Things that cannot keep still -
A mystic and delirious smart
That doth a restlessness impart,
An ache, a woe, an ill;
I wearied Sysyphus I groan
Against the world's ironic stone.
I, the eternally excluded
From socialness and mirth,
The aching heart whose mind has brooded
Till thought turned raving mad hath flooded
The soul that gave it birth -
I weep to know I have in me
Aught at once joy and misery.
And cold before the normal, cold
And fear‑struck I remain,
As one old, formidably old,
Who doth portentous secrets hold
That he cannot explain
But which the world's show doth suggest
Unto his mind that knows not rest.
How good after dinner to chat
And sit in half a sleep,
Without a duty‑sense to strike flat
All ease, all cosiness to abate
An aspiration deep;
To have an ease no pains do throng
Nor felt as an ease that is wrong.
A home, a rest, a child, a wife -
None of these are for me
Who wish for aught beyond this life
With an incessant inner strife
That knows not victory.
Ay me! and none to comprehend
This wish that doth all things transcend.
Some in some theatre are away
Or other place of joy
And keep, for ever glad and gay,
The hounds of thought and care at bay
That cannot laugh or toy:
These are awaited in some homes,
A faint light from their windows comes.
A cosiness these homes must steep
In something like a slumber,
And in that surface‑living deep
'Tis hard to know that hearts do keep.
......
Yet these are normal; I that sigh
And dread their living - what am I?
Oh joy! oh height of happiness!
To wish no more than life,
To feel of pleasure, of distress,
A normal more, a normal less,
By friend or child or wife!
None of these for my soul can be
For more than madness is in me.
I weep sad tears - oh, not to live
As these in human joy!
Oh, that I could as much believe
As sense and custom joint can give
Which living cannot cloy!
Man's happiness is poor, I know,
But true - a thing all unlike woe.
Sometimes I dream that I might sit
By my own fire, and quiet
Might see my wife and children flit
Half in a sleep and not a whit
In one of dreamy riot;
And I might noble be and pure
In mind, not stupid or obscure.
Sometimes I dream one of these homes
Secluded socially
One for the many thousand tomes
Of life might keep my heart that roams
Weak, desolate and free;
That quiet haply might console
My aching heart, my pining soul.
But as the thought of such a glad
Existence simple here,
As if the thing a venom had
I shiver, tremble and grow sad
As with a mystic fear;
I dread to think my life might pass
Like that of men, as is and was.
I dread to think of a life sweet
By family and friends.
Mine eyes the finite that they meet
Abhor - the houses and the street.
And all things that have ends.
I know not to what I aspire,
Yet know this I cannot desire.
So always incompatible
And by the usual cold,
I go about, my own deep hell,
Hearing to toll in me the bell
That tells me I grow old,
Yet this in such an accent strange
lt bears the mystery of Change.
And so - alas! must e'er I be
A stranger everywhere;
The leper in his leprosy
In his exclusion nears not me
Who cannot living bear:
The world my home, my brother men
Are prisons, chains that bind and pen.
I pass. The windows are behind,
And I forget their peace,
But tremble yet at what my mind
Conceives and feels; and in the wind
I wander without cease,
Glad yet sad in me to perceive
Something none other can conceive.
1 579
Fernando Pessoa
(após as canções da tarde)
Com o súbito frio do crepúsculo
Entra em minh'alma um frio mais subtil
Corporeamente entra o mistério em mim
E eu comungo a presença ausente sua.
Sua presença (...) se volve eucaristia
De sombra. Sua carne e o seu sangue
De universo e além me tornam seu.
Terras, céus
A irrealidade do mundo
A realidade de Deus,
Tudo sorvo em meu mistério
Tudo é irreal ante mim,
Ó infinitos!
Transcendo o que não tem fim.
Entra em minh'alma um frio mais subtil
Corporeamente entra o mistério em mim
E eu comungo a presença ausente sua.
Sua presença (...) se volve eucaristia
De sombra. Sua carne e o seu sangue
De universo e além me tornam seu.
Terras, céus
A irrealidade do mundo
A realidade de Deus,
Tudo sorvo em meu mistério
Tudo é irreal ante mim,
Ó infinitos!
Transcendo o que não tem fim.
1 374
Fernando Pessoa
FAUSTO: É isto amor? Só isto! Sinto como
FAUSTO: (vindo de casa [...])
É isto amor? Só isto! Sinto como
O cérebro oscilante, um gozo
Mas o coração pesado, frio, e mudo.
Sinto ânsias, desejos
Mas não com meu ser todo. Alguma cousa
No íntimo meu, alguma coisa ali,
Fria, pesada, muda permanece.
Para isto deixei eu a vida antiga
Que já bem não concebo, parecendo
Vaga já.
Já não sinto a agonia muda e funda
Mas uma menos funda e dolorosa
Mas mais terrível raiva e (...)
De movimentos íntimos, desejos
Que são como rancores.
Um cansaço violento e desmedido
De existir e sentir-me aqui e um ódio
Nascido disto vago e horroroso
A tudo e todos por não saber
A causa exacta de tudo.
É isto amor? Só isto! Sinto como
O cérebro oscilante, um gozo
Mas o coração pesado, frio, e mudo.
Sinto ânsias, desejos
Mas não com meu ser todo. Alguma cousa
No íntimo meu, alguma coisa ali,
Fria, pesada, muda permanece.
Para isto deixei eu a vida antiga
Que já bem não concebo, parecendo
Vaga já.
Já não sinto a agonia muda e funda
Mas uma menos funda e dolorosa
Mas mais terrível raiva e (...)
De movimentos íntimos, desejos
Que são como rancores.
Um cansaço violento e desmedido
De existir e sentir-me aqui e um ódio
Nascido disto vago e horroroso
A tudo e todos por não saber
A causa exacta de tudo.
885
Fernando Pessoa
(Depois do amor — na treva)
Eis-me enfim só, oh desejado horror
Eis-me enfim ante ti, oh Universo!
Eis-me aqui, lama e (...) mistério,
Excluído de ti, o eterno expulso
Que não pedia a vida. Eis-me aqui.
Pudesse eu pôr no seu desmedimento
O ódio (...) e afrontar-vos
Com a expressão desse ódio, oh silêncios,
Oh noites ao pensar! eu morreria
De haver interpretado em tanto horror
Um mor horror que interpretar não pode
O que há-de ser palavra ou pensamento.
Eis-me aqui, oh abismo explicado!
Eis-me aqui o maior dos seres todos,
Quebrando aos pés do pensamento forte
A cruz de Cristo e as fórmulas mortais
[...]
Eis-me aqui!
O que há para mim senão vacuidade
No mundo (...), o que me destinastes?
O vazio? O silêncio? A escuridão?
Desses-me o instinto deles, não a plena
Torturação da luz.
Eis-me enfim ante ti, oh Universo!
Eis-me aqui, lama e (...) mistério,
Excluído de ti, o eterno expulso
Que não pedia a vida. Eis-me aqui.
Pudesse eu pôr no seu desmedimento
O ódio (...) e afrontar-vos
Com a expressão desse ódio, oh silêncios,
Oh noites ao pensar! eu morreria
De haver interpretado em tanto horror
Um mor horror que interpretar não pode
O que há-de ser palavra ou pensamento.
Eis-me aqui, oh abismo explicado!
Eis-me aqui o maior dos seres todos,
Quebrando aos pés do pensamento forte
A cruz de Cristo e as fórmulas mortais
[...]
Eis-me aqui!
O que há para mim senão vacuidade
No mundo (...), o que me destinastes?
O vazio? O silêncio? A escuridão?
Desses-me o instinto deles, não a plena
Torturação da luz.
1 339
Fernando Pessoa
Ah não poder tirar de mim os olhos,
Ah não poder tirar de mim os olhos,
Os olhos da minh'alma da minh'alma
(Disso a que alma eu chamo)!
Só sei de duas cousas, nelas absorto
Profundamente: eu e o universo,
O universo e o mistério e eu sentindo
O universo e o mistério, apagados
Humanidade, vida, amor, riqueza.
Oh vulgar, oh feliz! Quem sonha mais
Eu ou tu? Tu que vives inconsciente ,
Ignorando este horror que é existir,
Ser perante o pensamento
Que o não resolve em compreensões, tu
Ou eu, que, analisando e discorrendo
E penetrando (...) nas essências,
Cada vez sinto mais desordenado
Meu pensamento louco e sucumbido,
Cada vez sinto mais como se eu,
Sonhando menos, consciência alerta,
Fosse apenas sonhando mais profundo...
E esta ideia nascida do cansaço
E confusão do meu pensar, consigo
Traz horrores inúmeros, porque traz
Matéria nova para o mistério eterno,
Matéria metafísica em que eu
Me perco a analisar.
Pensar fundo é sentir o desdobrar
Do mistério, ver cada pensamento
Resolver em milhões de incompreensões,
Elementos (...)
Oh tortura, tortura, longa tortura!
Os olhos da minh'alma da minh'alma
(Disso a que alma eu chamo)!
Só sei de duas cousas, nelas absorto
Profundamente: eu e o universo,
O universo e o mistério e eu sentindo
O universo e o mistério, apagados
Humanidade, vida, amor, riqueza.
Oh vulgar, oh feliz! Quem sonha mais
Eu ou tu? Tu que vives inconsciente ,
Ignorando este horror que é existir,
Ser perante o pensamento
Que o não resolve em compreensões, tu
Ou eu, que, analisando e discorrendo
E penetrando (...) nas essências,
Cada vez sinto mais desordenado
Meu pensamento louco e sucumbido,
Cada vez sinto mais como se eu,
Sonhando menos, consciência alerta,
Fosse apenas sonhando mais profundo...
E esta ideia nascida do cansaço
E confusão do meu pensar, consigo
Traz horrores inúmeros, porque traz
Matéria nova para o mistério eterno,
Matéria metafísica em que eu
Me perco a analisar.
Pensar fundo é sentir o desdobrar
Do mistério, ver cada pensamento
Resolver em milhões de incompreensões,
Elementos (...)
Oh tortura, tortura, longa tortura!
976
Fernando Pessoa
SONG OF DIRT
Come, let us speak of dirt!
God's curse is on our head.
Let our lips irreverence blurt!
We are sufferers all; let us, instead
Of prayer, offer God the sacrifice
Of our minds that he curst with crime and vice,
Of our frames that diseases make dread!
Let us offer the tyrant of all,
To hang in the hall of his palace of pain,
A funeral pall,
And a bride's white dress with a stain,
And a widow's weeds, and the crumpled sheets
From the bed of the wife.
Let them be symbols of human strife!
Give we God the dirt of the streets
Of our spirit, made mud with our tears,
The dust of our joys, the mire of our fears,
And the rot of our life!
God's curse is on our head.
Let our lips irreverence blurt!
We are sufferers all; let us, instead
Of prayer, offer God the sacrifice
Of our minds that he curst with crime and vice,
Of our frames that diseases make dread!
Let us offer the tyrant of all,
To hang in the hall of his palace of pain,
A funeral pall,
And a bride's white dress with a stain,
And a widow's weeds, and the crumpled sheets
From the bed of the wife.
Let them be symbols of human strife!
Give we God the dirt of the streets
Of our spirit, made mud with our tears,
The dust of our joys, the mire of our fears,
And the rot of our life!
1 473
Fernando Pessoa
ODE MARCIAL [b]
ODE MARCIAL
Inúmero rio sem água — só gente e coisas
Pavorosamente sem água!
Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!
Helahoho! helahoho!
A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,
(...)
Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.
Helahoho! helahoho!
Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração.
Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles
Que matou, violou, queimou e quebrou,
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso como uma sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito
E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente.
Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.
Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe,
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos.
Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o,
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.
Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviuve e a quem aconteça isto?
Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo
Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém!
Inúmero rio sem água — só gente e coisas
Pavorosamente sem água!
Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!
Helahoho! helahoho!
A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,
(...)
Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.
Helahoho! helahoho!
Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração.
Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles
Que matou, violou, queimou e quebrou,
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso como uma sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito
E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente.
Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.
Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe,
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos.
Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o,
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.
Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviuve e a quem aconteça isto?
Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo
Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém!
1 318
Fernando Pessoa
III - Somos meninos de uma primavera
IIISomos meninos de uma primavera
De que alguém fez tijolos. Quando cismo
Tiro da cigarreira um misticismo
Que acendo e fumo como se o esquecera.
No teu ar de dormir nessa cadeira,
(Reparo agora, feito o exorcismo,
Que o terceiro soneto ergue do abismo)
És sempre a mesma, anónima — terceira...
Ó grande mar atlântico, desculpa!
Cuspi à tua beira três sonetos.
Sim, mas cuspi-os sobre a minha culpa.
Mulher, amor, [alcova?] — sois tercetos!.
Só vós ó mar e céu nos libertais,
Que qualquer trapo incógnito franjais
Sossego? Outrora? Ora adeus! Foi feita
No cárcere a Marília de Dirceu.
De realmente meu só tenho eu.
Pudesse eu pôr um dique ao que em mim espreita,
(No seu perfil de pálida imperfeita,
Recorte morto contra um vivo céu,
De que alguém fez tijolos. Quando cismo
Tiro da cigarreira um misticismo
Que acendo e fumo como se o esquecera.
No teu ar de dormir nessa cadeira,
(Reparo agora, feito o exorcismo,
Que o terceiro soneto ergue do abismo)
És sempre a mesma, anónima — terceira...
Ó grande mar atlântico, desculpa!
Cuspi à tua beira três sonetos.
Sim, mas cuspi-os sobre a minha culpa.
Mulher, amor, [alcova?] — sois tercetos!.
Só vós ó mar e céu nos libertais,
Que qualquer trapo incógnito franjais
Sossego? Outrora? Ora adeus! Foi feita
No cárcere a Marília de Dirceu.
De realmente meu só tenho eu.
Pudesse eu pôr um dique ao que em mim espreita,
(No seu perfil de pálida imperfeita,
Recorte morto contra um vivo céu,
1 122
Fernando Pessoa
HORROR
In the darkness of my soul,
Just as dark as the souls of men,
By the blessing of their eternal curse,
Flashes like a bodiless ghoul,
In its rare fulness above all ken,
The sense of the sense of the universe.
And such a cowardice of thought,
Absorbing all my life and all
I have in me, more gall than gall,
Takes me, that I fear to open my eyes
And my mind to a most horrid surprise,
And I feel my being near to suppression
In a horror past Fancy's confession.
More than the cowardest of beasts
Before a gaping flash overhead,
More than the drunkard in his unrests
Who sees visions of more than dread,
More than all that fear can conceive,
More than madness can make to believe,
More than cannot be imagined,
The sense of the mystery of all,
When it flashes on me full as can be,
Doth my maddened soul appal.
Speak it not ‑ nor can it be spoken, -
No, not the shadow of the sensation,
Of the chord of sanity that is broken
In me by that moment's distress
And intensity of negation;
Think it not, thought is powerless
This horror less than to express.
The meanest thing grows terrible
And the basest thought sublime -
All in a world more horrible
Than the sense of the soul of time,
Than the fear of the depth of death,
Than the remorse of more than crime.
‘Tis half as if its solution it brought,
That mystery that foul is as rot.
Yet if it did so bring
Dead were my thought
And my whole self dead as any thing:
'Tis this that coarsely men can name,
Looking on the face of God.
And that feeling, that sense can more than maim
The spirit, more than make it a clod;
It would kill outright straight, outright,
With a shock of which hell is no mirror,
More than is known in terror,
More than is dreamt of fright.
Just as dark as the souls of men,
By the blessing of their eternal curse,
Flashes like a bodiless ghoul,
In its rare fulness above all ken,
The sense of the sense of the universe.
And such a cowardice of thought,
Absorbing all my life and all
I have in me, more gall than gall,
Takes me, that I fear to open my eyes
And my mind to a most horrid surprise,
And I feel my being near to suppression
In a horror past Fancy's confession.
More than the cowardest of beasts
Before a gaping flash overhead,
More than the drunkard in his unrests
Who sees visions of more than dread,
More than all that fear can conceive,
More than madness can make to believe,
More than cannot be imagined,
The sense of the mystery of all,
When it flashes on me full as can be,
Doth my maddened soul appal.
Speak it not ‑ nor can it be spoken, -
No, not the shadow of the sensation,
Of the chord of sanity that is broken
In me by that moment's distress
And intensity of negation;
Think it not, thought is powerless
This horror less than to express.
The meanest thing grows terrible
And the basest thought sublime -
All in a world more horrible
Than the sense of the soul of time,
Than the fear of the depth of death,
Than the remorse of more than crime.
‘Tis half as if its solution it brought,
That mystery that foul is as rot.
Yet if it did so bring
Dead were my thought
And my whole self dead as any thing:
'Tis this that coarsely men can name,
Looking on the face of God.
And that feeling, that sense can more than maim
The spirit, more than make it a clod;
It would kill outright straight, outright,
With a shock of which hell is no mirror,
More than is known in terror,
More than is dreamt of fright.
1 882
Fernando Pessoa
As mortes
As mortes, o ruído, as violações, o sangue, o brilho das baionetas...
Todas estas coisas são uma só coisa e essa coisa sou Eu...
Todas estas coisas são uma só coisa e essa coisa sou Eu...
1 346
Fernando Pessoa
Aos homens tu produzes palidezes
Aos homens tu produzes palidezes
Da sensação não tristes sempre, a alguns
Um mais acentuado sentimento
De tristeza; mas em mim, ah tarde! trazes,
Em mim m'acordas e m'intensificas
Meu desolado e vago natural.
Qu'importa? Tudo é o mesmo. A mim, quer seja
Manhã inda d'orvalho arrepiada,
Dia, ligeiro em sol, pesado em nuvens
Ou tarde (...)
Ou noite misteriosa e (...)
Tudo, se nele penso, só me amarga
E me angustia.
Tenho no sangue o enigma do universo
E o seu pavor que outros não conhecem
E alguns talvez, mas não profundamente.
Só a mim me foi dado sentir sempre.
E se às vezes pareço indiferente
E em mim mesmo calmo, é apenas
O excesso da dor e do horror
Cuja constante (...) me dói.
Da sensação não tristes sempre, a alguns
Um mais acentuado sentimento
De tristeza; mas em mim, ah tarde! trazes,
Em mim m'acordas e m'intensificas
Meu desolado e vago natural.
Qu'importa? Tudo é o mesmo. A mim, quer seja
Manhã inda d'orvalho arrepiada,
Dia, ligeiro em sol, pesado em nuvens
Ou tarde (...)
Ou noite misteriosa e (...)
Tudo, se nele penso, só me amarga
E me angustia.
Tenho no sangue o enigma do universo
E o seu pavor que outros não conhecem
E alguns talvez, mas não profundamente.
Só a mim me foi dado sentir sempre.
E se às vezes pareço indiferente
E em mim mesmo calmo, é apenas
O excesso da dor e do horror
Cuja constante (...) me dói.
872
Fernando Pessoa
BUILD ME A COTTAGE
Build me a cottage deep
In a forest, a simple, silent home,
Like a breath in a sleep,
Where all wish may be never to roam
And a pleasure all smallness may keep.
A palace high then build,
With confusion of lights and of rooms,
A strange sense to yield,
Whither my desire from the cottage's glooms
May go, to return, unfulfilled.
Then dig me a grave,
That what cottage nor palace can give
I at length may have,
That the weariness of all ways to live
May cease like the last of a wave.
In a forest, a simple, silent home,
Like a breath in a sleep,
Where all wish may be never to roam
And a pleasure all smallness may keep.
A palace high then build,
With confusion of lights and of rooms,
A strange sense to yield,
Whither my desire from the cottage's glooms
May go, to return, unfulfilled.
Then dig me a grave,
That what cottage nor palace can give
I at length may have,
That the weariness of all ways to live
May cease like the last of a wave.
1 455
Fernando Pessoa
Na ampla sala de jantar das tias velhas
Na ampla sala de jantar das tias velhas
O relógio tictaqueava o tempo mais devagar.
Ah o horror da felicidade que se não conheceu
Por se ter conhecido sem se conhecer,
O horror do que foi porque o que está está aqui.
Chá com torradas na província de outrora
Em quantas cidades me tens sido memória e choro!
Eternamente criança,
Eternamente abandonado,
Desde que o chá e as torradas me faltaram no coração.
Aquece, meu coração!
Aquece ao passado,
Que o presente é só uma rua onde passa quem me esqueceu...
O relógio tictaqueava o tempo mais devagar.
Ah o horror da felicidade que se não conheceu
Por se ter conhecido sem se conhecer,
O horror do que foi porque o que está está aqui.
Chá com torradas na província de outrora
Em quantas cidades me tens sido memória e choro!
Eternamente criança,
Eternamente abandonado,
Desde que o chá e as torradas me faltaram no coração.
Aquece, meu coração!
Aquece ao passado,
Que o presente é só uma rua onde passa quem me esqueceu...
1 299
Fernando Pessoa
O horror metafísico de Outrem!
O horror metafísico de Outrem!
O pavor de uma consciência alheia,
Como um deus a espreitar-me! Quem me dera
Ser a única consciência animal
Para não ter olhares sobre mim!
Dos olhos de cada um me fita, vivo,
O mistério de ver; e o horror de verem-me
Abisma-me.
Não posso conceber-me outro, ou pensar
Que a consciência que de mim é gémea
Possa ter outra forma, e um conteúdo
Diferentemente diferente. Só vejo
Homens, bichos, as feras e as aves,
Horrivelmente vivas e fitando.
Sou como um Deus supremo que se houvesse
Reconhecido em mim o único,
E a cujo olhar inúmero se abeira
O horror de mais inúmeros olhares.
Ah, se em mim se reflecte o transcendente
Brilho além de Deus!
O pavor de uma consciência alheia,
Como um deus a espreitar-me! Quem me dera
Ser a única consciência animal
Para não ter olhares sobre mim!
Dos olhos de cada um me fita, vivo,
O mistério de ver; e o horror de verem-me
Abisma-me.
Não posso conceber-me outro, ou pensar
Que a consciência que de mim é gémea
Possa ter outra forma, e um conteúdo
Diferentemente diferente. Só vejo
Homens, bichos, as feras e as aves,
Horrivelmente vivas e fitando.
Sou como um Deus supremo que se houvesse
Reconhecido em mim o único,
E a cujo olhar inúmero se abeira
O horror de mais inúmeros olhares.
Ah, se em mim se reflecte o transcendente
Brilho além de Deus!
1 334