Poemas neste tema
Alma
Fernando Pessoa
O mistério supremo do Universo
O mistério supremo do Universo
O único mistério, tudo e em tudo
É haver um mistério do universo,
É haver o universo, qualquer cousa,
É haver haver. Ó forma abstracta e vaga
Que tão corrente haver em mim demora
Que pensar isto é-me no corpo um frio
Que sopra d'além terra e d'além-túmulo
E vai da alma a Deus.
O único mistério, tudo e em tudo
É haver um mistério do universo,
É haver o universo, qualquer cousa,
É haver haver. Ó forma abstracta e vaga
Que tão corrente haver em mim demora
Que pensar isto é-me no corpo um frio
Que sopra d'além terra e d'além-túmulo
E vai da alma a Deus.
1 303
Fernando Pessoa
Jovem morreste, porque regressaste,
A. Caeiro
Jovem morreste, porque regressaste,
Ó deus inconsciente, onde teus pares
De após Cronos te esperam
Ressuscitados deles.
Antes de ti já era a Natureza,
Mas não a alma de compreendê-la.
Deu-te o deus o instinto
Com que sentir as cousas.
Os deuses imortais reconduziste
À humana visão obscurecida
(...)
(...)
Sós ficamos, mas não abandonados,
Porque a obra, que deixaste, és tu ainda
Qual luz à extinta estrela
Póstuma a terra alaga.
Por seu os deuses contam quem
E com teu nome a divindade prestas
De ser eterna à pátria
Odisseia cidade
Igual des ti às sete que contendem,
Cidades por Homero, ou alcaica Lesbos,
Ou heptápila Tebas
Ogígia mãe de Píndaro.
Jovem morreste, porque regressaste,
Ó deus inconsciente, onde teus pares
De após Cronos te esperam
Ressuscitados deles.
Antes de ti já era a Natureza,
Mas não a alma de compreendê-la.
Deu-te o deus o instinto
Com que sentir as cousas.
Os deuses imortais reconduziste
À humana visão obscurecida
(...)
(...)
Sós ficamos, mas não abandonados,
Porque a obra, que deixaste, és tu ainda
Qual luz à extinta estrela
Póstuma a terra alaga.
Por seu os deuses contam quem
E com teu nome a divindade prestas
De ser eterna à pátria
Odisseia cidade
Igual des ti às sete que contendem,
Cidades por Homero, ou alcaica Lesbos,
Ou heptápila Tebas
Ogígia mãe de Píndaro.
1 427
Fernando Pessoa
IV - Doura o dia. Silente, o vento dura.
........IV
Doura o dia. Silente, o vento dura.
Verde as árvores, mole a terra escura,
Onde flores, vazia a álea e os bancos.
No pinhal erva cresce nos barrancos.
Nuvens vagas no pérfido horizonte.
O moinho longínquo no ermo monte.
Eu alma, que contempla tudo isto,
Nada conhece e tudo reconhece.
Nestas sombras de me sentir existo,
E é falsa a teia que tecer me tece.
Doura o dia. Silente, o vento dura.
Verde as árvores, mole a terra escura,
Onde flores, vazia a álea e os bancos.
No pinhal erva cresce nos barrancos.
Nuvens vagas no pérfido horizonte.
O moinho longínquo no ermo monte.
Eu alma, que contempla tudo isto,
Nada conhece e tudo reconhece.
Nestas sombras de me sentir existo,
E é falsa a teia que tecer me tece.
1 323
Fernando Pessoa
Tenho uma ideia comigo
Tenho uma ideia comigo
De que não quero falar.
Se a ideia fosse um postigo,
Era p’ra te ver passar.
De que não quero falar.
Se a ideia fosse um postigo,
Era p’ra te ver passar.
1 424
Fernando Pessoa
There is no peace save where I am not,
There is no peace save where I am not,
The woods are gay where I never pass,
Nothing but shadows are where my thought
Plunges its feet in the moist dead grass.
Nothing save shadows and day elsewhere
Waiting for those that await and hope.
A horror lays its wind on my hair,
And a cold hand does for my cold hand grope.
Yet nothing in me save pain merits this,
Nothing in me save this merits pain.
Oh, Mother of Shadows, whose ice-dead kiss
Is madness, hasten towards my brain!
The woods are gay where I never pass,
Nothing but shadows are where my thought
Plunges its feet in the moist dead grass.
Nothing save shadows and day elsewhere
Waiting for those that await and hope.
A horror lays its wind on my hair,
And a cold hand does for my cold hand grope.
Yet nothing in me save pain merits this,
Nothing in me save this merits pain.
Oh, Mother of Shadows, whose ice-dead kiss
Is madness, hasten towards my brain!
1 069
Fernando Pessoa
Sob estas árvores ou aquelas árvores
Sob estas árvores ou aquelas árvores
Conduzi a dança,
Conduzi a dança, ninfas singelas
Até ao amplo gozo
Que tomais da vida. Conduzi a dança
E sê quase humanas
Com o vosso gozo derramado em ritmos
Em ritmos solenes
Que a nossa alegria torna maliciosos
Para nossa triste
Vida que não sabe sob as mesmas árvores
Conduzir a dança...
Conduzi a dança,
Conduzi a dança, ninfas singelas
Até ao amplo gozo
Que tomais da vida. Conduzi a dança
E sê quase humanas
Com o vosso gozo derramado em ritmos
Em ritmos solenes
Que a nossa alegria torna maliciosos
Para nossa triste
Vida que não sabe sob as mesmas árvores
Conduzir a dança...
1 483
Fernando Pessoa
37 - SONG
Lilies cast and roses throw
In the way that she must go
Whom the singing planets hymn,
Sister of the seraphim!
Shifting motes of early sun
In the morning freshness spun
To light dresses for the breeze -
Clothe her coming such as these!
Shadows purple, fountain breaths,
Low mists such as dawning wreathes
Round the tree‑tops - these be made
Hers, for whom spring's feast is laid!
She to us from heaven descended
That dreams might with earth seem blended,
And unquietness more blest
Mingle with our life's unrest.
These the chosen offerings
From what earthly deep joy sings -
These to her we daily bear
Lest she pine for heaven here.
In the way that she must go
Whom the singing planets hymn,
Sister of the seraphim!
Shifting motes of early sun
In the morning freshness spun
To light dresses for the breeze -
Clothe her coming such as these!
Shadows purple, fountain breaths,
Low mists such as dawning wreathes
Round the tree‑tops - these be made
Hers, for whom spring's feast is laid!
She to us from heaven descended
That dreams might with earth seem blended,
And unquietness more blest
Mingle with our life's unrest.
These the chosen offerings
From what earthly deep joy sings -
These to her we daily bear
Lest she pine for heaven here.
1 543
Fernando Pessoa
O mistério dos olhos e do olhar
O mistério dos olhos e do olhar
Do sujeito e do objecto, transparente
Ao horror que além dele está; o mudo
Sentimento de se desconhecer,
E a confrangida comoção que nasce
De sentir a loucura do vazio;
O horror duma existência incompreendida
Quando à alma se chega desse horror
Faz toda a dor humana uma ilusão.
Essa é a suprema dor, a vera cruz.
Querem desdenhar o teu sentir orgulho
Oh, Cristo!
Então eu vejo — horror — a íntima alma,
O perene mistério que atravessa
Como um suspiro céus e corações.
Do sujeito e do objecto, transparente
Ao horror que além dele está; o mudo
Sentimento de se desconhecer,
E a confrangida comoção que nasce
De sentir a loucura do vazio;
O horror duma existência incompreendida
Quando à alma se chega desse horror
Faz toda a dor humana uma ilusão.
Essa é a suprema dor, a vera cruz.
Querem desdenhar o teu sentir orgulho
Oh, Cristo!
Então eu vejo — horror — a íntima alma,
O perene mistério que atravessa
Como um suspiro céus e corações.
1 209
Fernando Pessoa
Quero, da vida, só não conhecê-la.
Quero, da vida, só não conhecê-la.
Bastam, a quem o Fado pôs na vida,
As formas sucessórias
Da vida insubsistente.
Pouco serve pensar que são eternos
Os nossos nadas com que na alma amamos
Os outros pobres nadas
Que (...)
Gratos aos deuses, menos pela incerta
Posse do sonhado certo, recolhamos
A mercê passageira
De instantes que não duram.
Bastam, a quem o Fado pôs na vida,
As formas sucessórias
Da vida insubsistente.
Pouco serve pensar que são eternos
Os nossos nadas com que na alma amamos
Os outros pobres nadas
Que (...)
Gratos aos deuses, menos pela incerta
Posse do sonhado certo, recolhamos
A mercê passageira
De instantes que não duram.
1 292
Fernando Pessoa
Fausto no seu laboratório
FAUSTO: (só)
Ondas de aspiração que vãs morreis
Sem mesmo o coração e alma atingir
Do vosso sentimento; ondas de pranto,
Não vos posso chorar, e em mim subis,
Maré imensa rumorosa e surda,
Para morrer na praia do limite
Que a vida impõe ao Ser; ondas saudosas
D'algum mar alto Aonde a praia seja
Um sonho inútil, ou d'alguma terra
Desconhecida mais que a eterna aura
Do eterno sofrimento, e onde formas
Dos olhos d'alma não imaginadas
Vagam, essências lúcidas e (...)
Esquecidas daquilo que chamamos
Suspiro, lágrima, desolação;
Ondas nas quais não posso visionar,
Nem dentro em mim, em sonho, barco ou ilha,
Nem esperança transitória, nem
Ilusão nada da desilusão;
Oh ondas sem brancuras, asperezas,
Mas redondas, como óleos e silentes
No vosso intérmino e total rumor...
Oh ondas d'alma, decaí em lago
Ou levantai-vos ásperas e brancas
Com o sussurro ácido da espuma
Erguei em tempestades no meu ser.
Vós sois um mar sem céu, sem luz, sem ar
Sentido, visto não, rumorejante
Sobre o fundo profundo da minha alma!
Lágrimas, sinto em mim vosso amargor!
Não vos quero chorar. Se vos chorasse
Como chegar — tantas! — ao vosso fim?
Chegado ao vosso fim que encontraria?
Talvez uma aridez desesperada
Uma ânsia vã de não poder trazer-vos
Outra vez para mim para chorar-vos
Em vã consolação inda outra vez!
Não haver alma, inda ideia vã!
Havê-la e imortal, sonho pequeno
De término[?], embora coerente
À sua pequenez. Que mais? Havê-la,
Havê-la e ser mortal, morrer num Todo
Celeste? Vago, vão. Não haverá
Além da morte e da imortalidade
Qualquer cousa maior? Ah, deve haver
Além de vida e morte, ser, não ser,
Um Inominável supertranscendente
Eterno Incógnito e incognoscível!
Deus? Nojo. Céu, inferno? Nojo, nojo.
P'ra quê pensar, se há-de parar aqui
O curto voo do entendimento?
Mais além! Pensamento, mais além!
Ondas de aspiração que vãs morreis
Sem mesmo o coração e alma atingir
Do vosso sentimento; ondas de pranto,
Não vos posso chorar, e em mim subis,
Maré imensa rumorosa e surda,
Para morrer na praia do limite
Que a vida impõe ao Ser; ondas saudosas
D'algum mar alto Aonde a praia seja
Um sonho inútil, ou d'alguma terra
Desconhecida mais que a eterna aura
Do eterno sofrimento, e onde formas
Dos olhos d'alma não imaginadas
Vagam, essências lúcidas e (...)
Esquecidas daquilo que chamamos
Suspiro, lágrima, desolação;
Ondas nas quais não posso visionar,
Nem dentro em mim, em sonho, barco ou ilha,
Nem esperança transitória, nem
Ilusão nada da desilusão;
Oh ondas sem brancuras, asperezas,
Mas redondas, como óleos e silentes
No vosso intérmino e total rumor...
Oh ondas d'alma, decaí em lago
Ou levantai-vos ásperas e brancas
Com o sussurro ácido da espuma
Erguei em tempestades no meu ser.
Vós sois um mar sem céu, sem luz, sem ar
Sentido, visto não, rumorejante
Sobre o fundo profundo da minha alma!
Lágrimas, sinto em mim vosso amargor!
Não vos quero chorar. Se vos chorasse
Como chegar — tantas! — ao vosso fim?
Chegado ao vosso fim que encontraria?
Talvez uma aridez desesperada
Uma ânsia vã de não poder trazer-vos
Outra vez para mim para chorar-vos
Em vã consolação inda outra vez!
Não haver alma, inda ideia vã!
Havê-la e imortal, sonho pequeno
De término[?], embora coerente
À sua pequenez. Que mais? Havê-la,
Havê-la e ser mortal, morrer num Todo
Celeste? Vago, vão. Não haverá
Além da morte e da imortalidade
Qualquer cousa maior? Ah, deve haver
Além de vida e morte, ser, não ser,
Um Inominável supertranscendente
Eterno Incógnito e incognoscível!
Deus? Nojo. Céu, inferno? Nojo, nojo.
P'ra quê pensar, se há-de parar aqui
O curto voo do entendimento?
Mais além! Pensamento, mais além!
1 208
Fernando Pessoa
Meu pobre Portugal,
Meu pobre Portugal,
Dóis-me no coração.
Teu mal é o meu mal
Por imaginação.
Tão fraco, tão doente,
E com a boa cor
Que a tísica põe quente
Na cara, o exterior.
Meu pobre e magro povo
A quem deram, às peças,
Um fato em estado novo
Para que o não pareças!
Tens a cara lavada,
Um fato de se ver
Mas não te deram nada,
Coitado, que comer.
E aí, nessa cadeira,
Jazes, apresentável.
(…)
O transeunte amável.
Dóis-me no coração.
Teu mal é o meu mal
Por imaginação.
Tão fraco, tão doente,
E com a boa cor
Que a tísica põe quente
Na cara, o exterior.
Meu pobre e magro povo
A quem deram, às peças,
Um fato em estado novo
Para que o não pareças!
Tens a cara lavada,
Um fato de se ver
Mas não te deram nada,
Coitado, que comer.
E aí, nessa cadeira,
Jazes, apresentável.
(…)
O transeunte amável.
1 707
Fernando Pessoa
Não leio já; queria abrir um livro
Não leio já; queria abrir um livro
E ver, de chofre, ali, a ciência toda...
Queria ao menos poder crer que, lendo,
E em prolongadas horas lendo e lendo,
No fim alguma cousa me ficava
Do essencial do mundo, que eu subia
Até ao menos cada vez mais perto
Do mistério... Que ele, inda que inatingido,
Ao menos dele que eu [me] aproximava...
Não fosse tudo um (...)
Como uma criança que a fingir sobe
Uns degraus que pintou no chão...
Não leio. Horas intérminas, perdido
De tudo, salvo de uma dolorosa
Consciência vazia de mim próprio,
Como um frio numa noite intensa,
Em frente ao livro aberto vivo e morro...
Nada... E a impaciência fria e dolorosa
De ler p'ra não sonhar e ter perdido
O sonho! Assim como um (...) engenho
Que, abandonado, em vão trabalha ainda,
Sem nexo, sem propósito, eu môo
E remôo a ilusão do pensamento...
E hora a hora na minha estéril alma
Mais fundo o abismo entre meu ser e mim
Se abre, e nesse (...) abismo não há nada...
Ditoso o tempo em que eu sonhava, e às vezes
Eu parava de ler para seguir
Os cortejos em mim... Amor, orgulho,
— Crenças inda! — pintavam os meus sonhos...
E com muita insistência[?], eu era (...)
O amante de belezas (...)
E o rei de povos vagos e submissos;
E quer em braços que eu sonhava, ou entre
As filas (...) prostradas, eu vivia
Sublimes nadas, alegrias sem cor.
Mas
Hoje nenhuma imagem, nenhum vulto
Evoco em mim... Só um deserto aonde
Não a cor dum areal, nem um ar morto
Posso sonhar... Mas tendo só a ideia,
Tendo da cor o pensamento apenas,
Vazio, oco, sem calor nem frio,
Sem posição, nem direcção, nem (...)
Só o vazio lugar do pensamento...
E ver, de chofre, ali, a ciência toda...
Queria ao menos poder crer que, lendo,
E em prolongadas horas lendo e lendo,
No fim alguma cousa me ficava
Do essencial do mundo, que eu subia
Até ao menos cada vez mais perto
Do mistério... Que ele, inda que inatingido,
Ao menos dele que eu [me] aproximava...
Não fosse tudo um (...)
Como uma criança que a fingir sobe
Uns degraus que pintou no chão...
Não leio. Horas intérminas, perdido
De tudo, salvo de uma dolorosa
Consciência vazia de mim próprio,
Como um frio numa noite intensa,
Em frente ao livro aberto vivo e morro...
Nada... E a impaciência fria e dolorosa
De ler p'ra não sonhar e ter perdido
O sonho! Assim como um (...) engenho
Que, abandonado, em vão trabalha ainda,
Sem nexo, sem propósito, eu môo
E remôo a ilusão do pensamento...
E hora a hora na minha estéril alma
Mais fundo o abismo entre meu ser e mim
Se abre, e nesse (...) abismo não há nada...
Ditoso o tempo em que eu sonhava, e às vezes
Eu parava de ler para seguir
Os cortejos em mim... Amor, orgulho,
— Crenças inda! — pintavam os meus sonhos...
E com muita insistência[?], eu era (...)
O amante de belezas (...)
E o rei de povos vagos e submissos;
E quer em braços que eu sonhava, ou entre
As filas (...) prostradas, eu vivia
Sublimes nadas, alegrias sem cor.
Mas
Hoje nenhuma imagem, nenhum vulto
Evoco em mim... Só um deserto aonde
Não a cor dum areal, nem um ar morto
Posso sonhar... Mas tendo só a ideia,
Tendo da cor o pensamento apenas,
Vazio, oco, sem calor nem frio,
Sem posição, nem direcção, nem (...)
Só o vazio lugar do pensamento...
781
Fernando Pessoa
II - Dói viver, nada sou que valha ser.
II
Dói viver, nada sou que valha ser.
Tardo-me porque penso e tudo rui.
Tento saber, porque tentar é ser.
Longe de isto ser tudo, tudo flui.
Mágoa que, indiferente, faz viver.
Névoa que, diferente, em tudo influi.
O exílio nada do que foi sequer
Ilude, fixa, dá, faz ou possui.
Assim, nocturna, a áreas indecisas,
O prelúdio perdido traz à mente
O que das ilhas mortas foi só brisas,
E o que a memória análoga dedica
Ao sonho, e onde, lua na corrente,
Não passa o sonho e a água inútil fica.
Dói viver, nada sou que valha ser.
Tardo-me porque penso e tudo rui.
Tento saber, porque tentar é ser.
Longe de isto ser tudo, tudo flui.
Mágoa que, indiferente, faz viver.
Névoa que, diferente, em tudo influi.
O exílio nada do que foi sequer
Ilude, fixa, dá, faz ou possui.
Assim, nocturna, a áreas indecisas,
O prelúdio perdido traz à mente
O que das ilhas mortas foi só brisas,
E o que a memória análoga dedica
Ao sonho, e onde, lua na corrente,
Não passa o sonho e a água inútil fica.
1 355
Fernando Pessoa
38 - ANAMNESIS
Somewhere where I shall never live
A palace garden bowers
Such beauty that dreams of it grieve.
There, lining walks immemorial,
Great antenatal flowers
My lost life before God recall.
There I was happy and the child
That had cool shadows
Wherein to feel sweetly exiled.
They took all these true things away.
O my lost meadows!
My childhood before Night and Day!
A palace garden bowers
Such beauty that dreams of it grieve.
There, lining walks immemorial,
Great antenatal flowers
My lost life before God recall.
There I was happy and the child
That had cool shadows
Wherein to feel sweetly exiled.
They took all these true things away.
O my lost meadows!
My childhood before Night and Day!
1 160
Fernando Pessoa
Li vaga — inerte — e sonhadoramente li
Li vaga — inerte — e sonhadoramente li
Compreendendo mais do que havia
Em frase (...)
Fechei tremendo, os livros, e sentindo
Como que de detrás da consciência,
Negrume transcendendo o que de horror
(...)
Desde então o constante persistir
Do mistério em minha alma não me deixa
Quieto o espírito, por meditar
Que seja, meditando sempre.
Compreendendo mais do que havia
Em frase (...)
Fechei tremendo, os livros, e sentindo
Como que de detrás da consciência,
Negrume transcendendo o que de horror
(...)
Desde então o constante persistir
Do mistério em minha alma não me deixa
Quieto o espírito, por meditar
Que seja, meditando sempre.
1 335
Fernando Pessoa
Toda a noite ouvi os cães
Toda a noite ouvi os cães
P’ra manhã ouvi os galos.
Tristeza — vem ter connosco.
Prazeres — é ir achá-los.
P’ra manhã ouvi os galos.
Tristeza — vem ter connosco.
Prazeres — é ir achá-los.
1 358
Fernando Pessoa
Frescura do que é regado,
Frescura do que é regado,
Por onde a água inda verte...
Quero dizer-te um bocado
Do que não ouso dizer-te.
Por onde a água inda verte...
Quero dizer-te um bocado
Do que não ouso dizer-te.
1 351
Fernando Pessoa
Saído apenas duma infância
Saído apenas duma infância
Incertamente triste e diferente
Uma vez contemplando dum outeiro
A tinha de colinas majestosa
Que azulada e em perfis desaparecia
No horizonte, contemplando os campos,
Vi de repente como que tudo
Desaparecer, tomando (...)
E um abismo invisível, uma cousa
Nem parecida com a existência
Ocupar não o espaço, mas o modo
Com que eu pensava o visível.
E então o horror supremo que jamais
Deixei depois, mas que aumentando e sendo
O mesmo sempre,
Ocupou-me...
Oh primeira visão interior
Do mistério infinito, em que ruiu
A minha vida juvenil numa hora!
Incertamente triste e diferente
Uma vez contemplando dum outeiro
A tinha de colinas majestosa
Que azulada e em perfis desaparecia
No horizonte, contemplando os campos,
Vi de repente como que tudo
Desaparecer, tomando (...)
E um abismo invisível, uma cousa
Nem parecida com a existência
Ocupar não o espaço, mas o modo
Com que eu pensava o visível.
E então o horror supremo que jamais
Deixei depois, mas que aumentando e sendo
O mesmo sempre,
Ocupou-me...
Oh primeira visão interior
Do mistério infinito, em que ruiu
A minha vida juvenil numa hora!
885
Fernando Pessoa
39 - CHALICE
Chalice of my communion
With the lost thing that gleams!
Communion‑bond of union
Between me and my dreams!
O chalice of love's most!
In thy wine, earth's wine's ghost
To lips that are God's flowers,
My soul has dipped the host
Of my diviner hours.
My lips are as lips kissed.
My sad soul happy sings.
O shining through the mist
Of tremulous angels' wings!
I feel me God's moon's node,
A child again, outside life's road,
Remembering how I found me
When I awoke from God
And felt the world around me.
With the lost thing that gleams!
Communion‑bond of union
Between me and my dreams!
O chalice of love's most!
In thy wine, earth's wine's ghost
To lips that are God's flowers,
My soul has dipped the host
Of my diviner hours.
My lips are as lips kissed.
My sad soul happy sings.
O shining through the mist
Of tremulous angels' wings!
I feel me God's moon's node,
A child again, outside life's road,
Remembering how I found me
When I awoke from God
And felt the world around me.
1 419
Fernando Pessoa
Ah, tudo é símbolo e analogia!
Ah, tudo é símbolo e analogia!
O vento que passa, a noite que esfria
São outra cousa que a noite e o vento —
Sombras de vida e de pensamento.
Tudo que vemos é outra cousa.
A maré vasta, a maré ansiosa,
É o eco de outra maré que está
Onde é real o mundo que há.
Tudo que temos é esquecimento.
A noite fria, o passar do vento
São sombras de mãos cujos gestos são
A ilusão mãe desta ilusão.
O vento que passa, a noite que esfria
São outra cousa que a noite e o vento —
Sombras de vida e de pensamento.
Tudo que vemos é outra cousa.
A maré vasta, a maré ansiosa,
É o eco de outra maré que está
Onde é real o mundo que há.
Tudo que temos é esquecimento.
A noite fria, o passar do vento
São sombras de mãos cujos gestos são
A ilusão mãe desta ilusão.
1 687
Fernando Pessoa
Why do I desire
Why do I desire
What I do not need?
Why does my soul, like fire,
Or a hot abstract greed,
Seek all that is higher?
Why, if not because
It is a soul? (...)
Who can know the cause
When it lies in its whole
Hidden in (...) laws?
Yet this matters not.
What matters is pining
And that stress of thought
That comes of divining
What to wish that may not be got.
What I do not need?
Why does my soul, like fire,
Or a hot abstract greed,
Seek all that is higher?
Why, if not because
It is a soul? (...)
Who can know the cause
When it lies in its whole
Hidden in (...) laws?
Yet this matters not.
What matters is pining
And that stress of thought
That comes of divining
What to wish that may not be got.
1 254
Fernando Pessoa
Was it the lyrical nightingale
Was it the lyrical nightingale
Forgot this music or told this tale?
A murmur of sorrow within me moves
Among the ghosts of unfound loves,
A breath of loss; like a lily faded,
By nought but the spell of that music aided.
I dream, and the sadness of being alive
Is like a mist round the things that strive
For an uttered word or a sense of being.
What sickness of having no seeing but seeing
Haunts with a murmur, thrills with a fear
The unnatural sense of my being here?
Nothing: the moonlight. Nothing: the breeze.
For sure there are, on remoter seas
Than mere containing of thoughts and dreams,
More earthless sorrows, less lucid gleams.
Care, and the fret of not having aught
If there, yet weigh not on life and thought.
Was it the music that came or ended?
Was it that it lost me or that it blended
With that of me that was born to hear it?
A voiceless sighing incarnate spirit,
A murmur of waters that somewhere shine,
A moonlight of dreaming it, a curious wine,
A splendour of opening vision to stars
No separateness from seeing them mars,
A clarion of moon-morn issuing from
The earliest place before love and home —
This, and the music I scarce can hear …
Lie still, my heart! be a dream, my fear!
Forgot this music or told this tale?
A murmur of sorrow within me moves
Among the ghosts of unfound loves,
A breath of loss; like a lily faded,
By nought but the spell of that music aided.
I dream, and the sadness of being alive
Is like a mist round the things that strive
For an uttered word or a sense of being.
What sickness of having no seeing but seeing
Haunts with a murmur, thrills with a fear
The unnatural sense of my being here?
Nothing: the moonlight. Nothing: the breeze.
For sure there are, on remoter seas
Than mere containing of thoughts and dreams,
More earthless sorrows, less lucid gleams.
Care, and the fret of not having aught
If there, yet weigh not on life and thought.
Was it the music that came or ended?
Was it that it lost me or that it blended
With that of me that was born to hear it?
A voiceless sighing incarnate spirit,
A murmur of waters that somewhere shine,
A moonlight of dreaming it, a curious wine,
A splendour of opening vision to stars
No separateness from seeing them mars,
A clarion of moon-morn issuing from
The earliest place before love and home —
This, and the music I scarce can hear …
Lie still, my heart! be a dream, my fear!
1 459
Fernando Pessoa
Quando te apertei a mão
Quando te apertei a mão
Ao modo de assim-assim,
Senti o meu coração
A perguntar-me por mim.
Ao modo de assim-assim,
Senti o meu coração
A perguntar-me por mim.
1 281
Fernando Pessoa
22 - RIVERS
Many rivers run
Down to many seas.
All my cares are one:
On what river of these
Could my heart have peace?
Two banks to each river.
None where I may stray
Hearing the rushes shiver
And seeing the river ever
Pass, yet seem to stay.
Maybe there is another
River, but far from Me.
There l may meet the Brother
Of my eternity.
In what God will this be?
Down to many seas.
All my cares are one:
On what river of these
Could my heart have peace?
Two banks to each river.
None where I may stray
Hearing the rushes shiver
And seeing the river ever
Pass, yet seem to stay.
Maybe there is another
River, but far from Me.
There l may meet the Brother
Of my eternity.
In what God will this be?
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