Poemas neste tema
Alma
Fernando Pessoa
Teus olhos tristes, parados,
Teus olhos tristes, parados,
Coisa nenhuma a fitar...
Ah meu amor, meu amor,
Se eu fora nenhum lugar!
Coisa nenhuma a fitar...
Ah meu amor, meu amor,
Se eu fora nenhum lugar!
1 166
Fernando Pessoa
Tens um livro que não lês,
Tens um livro que não lês,
Tens uma flor que desfolhas;
Tens um coração aos pés
E para ele não olhas.
Tens uma flor que desfolhas;
Tens um coração aos pés
E para ele não olhas.
1 822
Florbela Espanca
Outono
Outono vem em fulvas claridades...
Vamos os dois esp’rá-lo de mãos dadas:
Tu, desfolhando as rosas das estradas,
E eu, escutando o choro das saudades...
Outono vem em doces suavidades...
E a acender fogueiras apagadas
Andam almas no céu, ajoelhadas...
E a terra reza a prece das Trindades.
Choram no bosque os musgos e os fetos.
Vogam nos lagos pálidos e quietos,
Como gôndolas d’oiro, as borboletas.
Meu Amor! Meu Amor! Outono vem...
Beija os meus-olhos roxos, beija-os bem!
Desfolha essas primeiras violetas!...
Vamos os dois esp’rá-lo de mãos dadas:
Tu, desfolhando as rosas das estradas,
E eu, escutando o choro das saudades...
Outono vem em doces suavidades...
E a acender fogueiras apagadas
Andam almas no céu, ajoelhadas...
E a terra reza a prece das Trindades.
Choram no bosque os musgos e os fetos.
Vogam nos lagos pálidos e quietos,
Como gôndolas d’oiro, as borboletas.
Meu Amor! Meu Amor! Outono vem...
Beija os meus-olhos roxos, beija-os bem!
Desfolha essas primeiras violetas!...
4 107
Fernando Pessoa
AUTO DAS BACANTES - Qual é, senhor, a melhor sorte?
Qual é, senhor, a melhor sorte?
Mais vale a vida ou mais querer?
Há, além do portal da morte,
Melhor viver?
Será melhor viver amando
E buscar o amor entre a vida,
Ou, inda que chorando,
Buscar o amor
Onde tudo é a sombra e o vago,
E o guarda negro a fauce estende
Por sobre o desolado lago
Haverá escondida margem,
Oculta região feliz,
Onde outra mais (...) aragem
Banhe um amor como se quis?
Mais vale a vida ou mais querer?
Há, além do portal da morte,
Melhor viver?
Será melhor viver amando
E buscar o amor entre a vida,
Ou, inda que chorando,
Buscar o amor
Onde tudo é a sombra e o vago,
E o guarda negro a fauce estende
Por sobre o desolado lago
Haverá escondida margem,
Oculta região feliz,
Onde outra mais (...) aragem
Banhe um amor como se quis?
1 487
Florbela Espanca
Aos Bons Amigos Da Torre
A todos, sem exceção, muitos abramos:
Raparigas, rapazes, novos, velhos!
Que eu, de alma erguida ao alto e de joelhos,
Os tenha, um só instante, nos meus braços!
Que da nossa afeição os ténues laços
Se tornem firmes como os Evangelhos!
Que dos mais belos, dos mais feios concelhos
Deus, para a Torre, vos dirija os passos!
Até pro ano, firmes, lá na Torre!
Demos as nossas almas esse gosto!
Fica abolida a morte! Ninguém morre!
E queira Deus e mais a Virgem Santa
Que passem o ano bem... mas que em Agosto
Sofram todos dos brônquios e garganta...
Raparigas, rapazes, novos, velhos!
Que eu, de alma erguida ao alto e de joelhos,
Os tenha, um só instante, nos meus braços!
Que da nossa afeição os ténues laços
Se tornem firmes como os Evangelhos!
Que dos mais belos, dos mais feios concelhos
Deus, para a Torre, vos dirija os passos!
Até pro ano, firmes, lá na Torre!
Demos as nossas almas esse gosto!
Fica abolida a morte! Ninguém morre!
E queira Deus e mais a Virgem Santa
Que passem o ano bem... mas que em Agosto
Sofram todos dos brônquios e garganta...
1 780
Florbela Espanca
As Quadras D’Ele Iv
[1]
Sou mais infeliz que os pobres
Que têm fome na rua.
Também eu ando faminta
De beijos da boca tua.
[2]
A saudade é tão cruel,
É uma tão profunda dor,
Que em troca eu quisera o fel
Que bebeu Nosso Senhor!
[3]
A tristeza mais amarga,
A mais negra, a mais tristonha,
Dantes, morava em teus olhos
De luz bendita e risonha.
Dava-se mal a tristeza
Com essa luz d’alegria,
Mudou-se então pros meus olhos
Que choram de noite e dia.
[4]
Há uma palavra na terra
Que tem encantos do céu;
Não é amor, nem esperança.
Nem sequer o nome teu.
Essa palavra tão doce,
De tanta suavidade,
Que me faz chorar de dor
Quando a murmuro: é saudade!
[5]
Amor, é comunhão d’almas
No mesmo sagrado altar;
Contigo, amor da minh’alma,
Quem me dera comungar!
[6]
Não julgues tu que m’importo
Quando passas sem me olhar;
Lembra-me logo o ditado:
“Quem desdenha, quer comprar”!
[7]
Parte a minh’alma em pedaços
E atira-os pelo mundo fora;
Pequenas almas que sentem
Como a grande sente agora!
Chega para encher o mundo
O céu, a terra, os espaços,
Estas almas pequeninas,
Estes pequenos pedaços!
Mesmo assim sendo tão grande
Esta alma, ó sonhos meus!
É pequena pra conter
O fulgor dos olhos teus!
[8]
Abaixo sempre os meus olhos
Quando encontro o teu olhar;
De ver o sol de frente
Ninguém se pode gabar!
Sou mais infeliz que os pobres
Que têm fome na rua.
Também eu ando faminta
De beijos da boca tua.
[2]
A saudade é tão cruel,
É uma tão profunda dor,
Que em troca eu quisera o fel
Que bebeu Nosso Senhor!
[3]
A tristeza mais amarga,
A mais negra, a mais tristonha,
Dantes, morava em teus olhos
De luz bendita e risonha.
Dava-se mal a tristeza
Com essa luz d’alegria,
Mudou-se então pros meus olhos
Que choram de noite e dia.
[4]
Há uma palavra na terra
Que tem encantos do céu;
Não é amor, nem esperança.
Nem sequer o nome teu.
Essa palavra tão doce,
De tanta suavidade,
Que me faz chorar de dor
Quando a murmuro: é saudade!
[5]
Amor, é comunhão d’almas
No mesmo sagrado altar;
Contigo, amor da minh’alma,
Quem me dera comungar!
[6]
Não julgues tu que m’importo
Quando passas sem me olhar;
Lembra-me logo o ditado:
“Quem desdenha, quer comprar”!
[7]
Parte a minh’alma em pedaços
E atira-os pelo mundo fora;
Pequenas almas que sentem
Como a grande sente agora!
Chega para encher o mundo
O céu, a terra, os espaços,
Estas almas pequeninas,
Estes pequenos pedaços!
Mesmo assim sendo tão grande
Esta alma, ó sonhos meus!
É pequena pra conter
O fulgor dos olhos teus!
[8]
Abaixo sempre os meus olhos
Quando encontro o teu olhar;
De ver o sol de frente
Ninguém se pode gabar!
1 813
Florbela Espanca
A luz ignóbil
A luz ignóbil, informe,
É um diamante enorme
Engastado no azul duma safira...
A ignóbil luz
Inunda toda a rua...
O Almas de mentira,
Almas cancerosas,
De virgens que nunca se curvaram
Á janela dos olhos pra ver rosas
E cravos e lilases e verbenas...
Ó Almas de grangrenas,
Almas ’slavas, humildes, misteriosas,
Cruéis, alucinantes, tenebrosas,
Todas em curvas negras como atalhos,
Feitas de retalhos,
Agudas como ralhos
Cortantes como gritos!
Almas onde se perdem infinitos!...
Almas trágicas de feias
Que nunca acreditaram
Em beijos e noivados...
E que desperdiçaram
Quimeras aos braçados
E sonhos as mãos cheias!...
ò almas de assassinos que morreram
E riram e mataram!
Almas de garras que se esclavinharam
Em carnes virgens por sensualidade!
Almas de orgulho e de claridade
Talhadas em diamante!
Almas de gato-tigre, almas de fera!
O ébrios da quimera
O cisternas sem fundo!
Que trazeis nos olhos macerados
Seivas de Primavera...
Todo o horror do mundo!...
Ó Almas de boémios, rutilantes,
Que Não sabem que há sol,
Almas esfuziantes
Que atravessam o mar como um farol!
Ó Almas de poetas, assombradas,
Almas sagradas
De tanto adivinhar!
Almas maravilhadas
De arder em labaredas
Sem nunca se queimar!
Almas de velhas que querem agradar...
De amantes que Não cessam de enganar...
Ó Almas de ladrões
Onde passam, a rir, constelações!
Almas de vagabundos
Onde há charcos e lagos
Pântanos e lamas...
Onde se erguem chamas,
Onde se agitam mundos,
E coisas a morrer...
E sonhos... e afagos...
Almas sem Pátria,
Almas sem rei,
Sem fé nem lei!
Almas de anjos caídos,
Almas que se escondem pra gemer
Como leões feridos!
Vinde todas aqui á minha voz
Que o mundo é ermo
E estamos sós.
Vós todas que sois iguais a mim
O Almas de mentira!
Vinde á minha janela, á minha rua
Ver a ignóbil luz,
A luz informe,
O diamante enorme,
Engastado no azul duma safira...
Vai passar certamente a procissão...
Na minha rua vai um riso franco
Um riso de alvorada!
Há dentro dela tudo quanto é branco!
É urna asa de pomba, desdobrada!...
Brancos os lilases e as rosas...
Mudou-se em prata o oiro das mimosas
E há lirios as molhadas,
Aos feixes, ás braçadas...
Tudo branco, Meu Deus!
Lá vêm os anjos todos de brocado,
De olhos ingénuos e resplendor...
O ar tem o sabor
Dum grande morangal
Que nunca foi tratado...
Olhem as virgens, olhem! Que sorriso!
Vieram do Paraíso
mesmo agora...
E todo o ar
Parece acabadinho de lavar
Ao despontar da aurora...
Caem do céu miríades de penas
Leves como aves...
Dulcíssimas, suaves...
Curvam-se as açucenas...
Em mãos de prata lá vêm os Evangelhos
As casas, ao luar, são mais pequenas
Puseram-se — quem sabe?... — de joelhos...
O ar é virginal...
Um templo de cristal
Onde, rodopiando,
Passam brandas, arfando,
Como asas de pombas sobre as eiras,
O estandarte real
E pendões e bandeiras!...
Quem vem?...
Esvaiu-se num sopro a procissão...
Silencio! Nada! Ninguém!
Pasmo de coisas mortas!
Alucinação!
E o meu coração
Põe-se a bater às portas...
E não abre ninguém!
Ninguém! Ninguém! Ninguém!...
É um diamante enorme
Engastado no azul duma safira...
A ignóbil luz
Inunda toda a rua...
O Almas de mentira,
Almas cancerosas,
De virgens que nunca se curvaram
Á janela dos olhos pra ver rosas
E cravos e lilases e verbenas...
Ó Almas de grangrenas,
Almas ’slavas, humildes, misteriosas,
Cruéis, alucinantes, tenebrosas,
Todas em curvas negras como atalhos,
Feitas de retalhos,
Agudas como ralhos
Cortantes como gritos!
Almas onde se perdem infinitos!...
Almas trágicas de feias
Que nunca acreditaram
Em beijos e noivados...
E que desperdiçaram
Quimeras aos braçados
E sonhos as mãos cheias!...
ò almas de assassinos que morreram
E riram e mataram!
Almas de garras que se esclavinharam
Em carnes virgens por sensualidade!
Almas de orgulho e de claridade
Talhadas em diamante!
Almas de gato-tigre, almas de fera!
O ébrios da quimera
O cisternas sem fundo!
Que trazeis nos olhos macerados
Seivas de Primavera...
Todo o horror do mundo!...
Ó Almas de boémios, rutilantes,
Que Não sabem que há sol,
Almas esfuziantes
Que atravessam o mar como um farol!
Ó Almas de poetas, assombradas,
Almas sagradas
De tanto adivinhar!
Almas maravilhadas
De arder em labaredas
Sem nunca se queimar!
Almas de velhas que querem agradar...
De amantes que Não cessam de enganar...
Ó Almas de ladrões
Onde passam, a rir, constelações!
Almas de vagabundos
Onde há charcos e lagos
Pântanos e lamas...
Onde se erguem chamas,
Onde se agitam mundos,
E coisas a morrer...
E sonhos... e afagos...
Almas sem Pátria,
Almas sem rei,
Sem fé nem lei!
Almas de anjos caídos,
Almas que se escondem pra gemer
Como leões feridos!
Vinde todas aqui á minha voz
Que o mundo é ermo
E estamos sós.
Vós todas que sois iguais a mim
O Almas de mentira!
Vinde á minha janela, á minha rua
Ver a ignóbil luz,
A luz informe,
O diamante enorme,
Engastado no azul duma safira...
Vai passar certamente a procissão...
Na minha rua vai um riso franco
Um riso de alvorada!
Há dentro dela tudo quanto é branco!
É urna asa de pomba, desdobrada!...
Brancos os lilases e as rosas...
Mudou-se em prata o oiro das mimosas
E há lirios as molhadas,
Aos feixes, ás braçadas...
Tudo branco, Meu Deus!
Lá vêm os anjos todos de brocado,
De olhos ingénuos e resplendor...
O ar tem o sabor
Dum grande morangal
Que nunca foi tratado...
Olhem as virgens, olhem! Que sorriso!
Vieram do Paraíso
mesmo agora...
E todo o ar
Parece acabadinho de lavar
Ao despontar da aurora...
Caem do céu miríades de penas
Leves como aves...
Dulcíssimas, suaves...
Curvam-se as açucenas...
Em mãos de prata lá vêm os Evangelhos
As casas, ao luar, são mais pequenas
Puseram-se — quem sabe?... — de joelhos...
O ar é virginal...
Um templo de cristal
Onde, rodopiando,
Passam brandas, arfando,
Como asas de pombas sobre as eiras,
O estandarte real
E pendões e bandeiras!...
Quem vem?...
Esvaiu-se num sopro a procissão...
Silencio! Nada! Ninguém!
Pasmo de coisas mortas!
Alucinação!
E o meu coração
Põe-se a bater às portas...
E não abre ninguém!
Ninguém! Ninguém! Ninguém!...
1 737
Florbela Espanca
A Uma Saudade
Roxa saudade, roxa! Triste... Triste!...
Um doce olhar aveludado e puro
Fazes surgir do meu passado escuro,
Na mesma dor imensa em que surgiste!
És cinza dum amor que Não existe!
Evocas na minh’alma o que murmuro
Sem saber o que, o que procuro
Na minha vida amargamente triste!
Roxa saudade, és um soluço imenso!
O símbolo de tudo quanto penso!
Única luz de tudo quanto eu vejo!
Roxa saudade! Ó meu perfume leve
És um amor que se esqueceu tão breve,
Que nem durou o frémito dum beijo...
Um doce olhar aveludado e puro
Fazes surgir do meu passado escuro,
Na mesma dor imensa em que surgiste!
És cinza dum amor que Não existe!
Evocas na minh’alma o que murmuro
Sem saber o que, o que procuro
Na minha vida amargamente triste!
Roxa saudade, és um soluço imenso!
O símbolo de tudo quanto penso!
Única luz de tudo quanto eu vejo!
Roxa saudade! Ó meu perfume leve
És um amor que se esqueceu tão breve,
Que nem durou o frémito dum beijo...
1 962
Florbela Espanca
Estudantes
Colegas do passado! Em vossas capas belas
Agoniza o luar das minhas ilusões,
Cantando brandamente ao brilho das estrelas
Um canto todo meu! Altivos corações,
Brilhantes olhos lindos, almas só de luz,
Ó doce riso em flor, bendita mocidade!
Eu lanço sobre vos, da minha humilde cruz,
A benção sacrossanta ungida de Saudade!
Andorinhas do céu que o vento da desgraça
Levou para bem longe! A amargosa taça
Do fel, da desdita ficou pra mim somente!
Aonde estareis vós amigos do outrora?
Rindo, talvez cantando enquanto est’alma chora
Rezando enternecida esta oração dolente!...
Agoniza o luar das minhas ilusões,
Cantando brandamente ao brilho das estrelas
Um canto todo meu! Altivos corações,
Brilhantes olhos lindos, almas só de luz,
Ó doce riso em flor, bendita mocidade!
Eu lanço sobre vos, da minha humilde cruz,
A benção sacrossanta ungida de Saudade!
Andorinhas do céu que o vento da desgraça
Levou para bem longe! A amargosa taça
Do fel, da desdita ficou pra mim somente!
Aonde estareis vós amigos do outrora?
Rindo, talvez cantando enquanto est’alma chora
Rezando enternecida esta oração dolente!...
1 851
Florbela Espanca
Crisântemos
Sombrios mensageiros das violetas,
De longas e revoltas cabeleiras;
Brancos, sois o casto olhar das virgens
Pálidas que ao luar, sonham nas eiras.
Vermelhos, gargalhadas triunfantes,
Lábios quentes de sonhos e desejos,
Carícias sensuais d’amor e gozo;
Crisântemos de sangue, vós sois beijos!
Os amarelos riem amarguras,
Os roxos dizem prantos e torturas,
Há-os também cor de fogo, sensuais...
Eu amo os crisântemos misteriosos
Por serem lindos, tristes e mimosos,
Por ser a flor de que tu gostas mais!
De longas e revoltas cabeleiras;
Brancos, sois o casto olhar das virgens
Pálidas que ao luar, sonham nas eiras.
Vermelhos, gargalhadas triunfantes,
Lábios quentes de sonhos e desejos,
Carícias sensuais d’amor e gozo;
Crisântemos de sangue, vós sois beijos!
Os amarelos riem amarguras,
Os roxos dizem prantos e torturas,
Há-os também cor de fogo, sensuais...
Eu amo os crisântemos misteriosos
Por serem lindos, tristes e mimosos,
Por ser a flor de que tu gostas mais!
3 579
Florbela Espanca
À Guerra!
Fala o canhão. Estala o riso da metralha
Os clarins muito ao longe tocam a reunir.
O Deus da guerra ri nos campos de batalha
E tu, ó Pátria minha, ergues-te a sorrir!
Vestes alva cota bordada e rosicleres
Desfraldas a bandeira rubra dos combates,
Levas no heroico seio a alma das mulheres
E ergue-se contigo a alma de teus vates!
Levanta-se do túmulo a voz dos teus heróis,
Cintila em tua fronte o brilho desses sóis,
Até o próprio mar t’incita a combater!
Nun’Álvares arranca a espada de glória
E diz-te em voz serena: “Em busca da vitória
Meu belo Portugal, combate até morrer!”
Os clarins muito ao longe tocam a reunir.
O Deus da guerra ri nos campos de batalha
E tu, ó Pátria minha, ergues-te a sorrir!
Vestes alva cota bordada e rosicleres
Desfraldas a bandeira rubra dos combates,
Levas no heroico seio a alma das mulheres
E ergue-se contigo a alma de teus vates!
Levanta-se do túmulo a voz dos teus heróis,
Cintila em tua fronte o brilho desses sóis,
Até o próprio mar t’incita a combater!
Nun’Álvares arranca a espada de glória
E diz-te em voz serena: “Em busca da vitória
Meu belo Portugal, combate até morrer!”
2 284
Florbela Espanca
As Quadras D’Ele
Em noites calmas, serenas
Quando passeia o luar,
Para sempre á tua porta
E encosta-se a chorar...
E eu que passo também
Na minha dor a cismar,
Paro ao pé dele e ficamos
Abraçados a chorar!
Quando passeia o luar,
Para sempre á tua porta
E encosta-se a chorar...
E eu que passo também
Na minha dor a cismar,
Paro ao pé dele e ficamos
Abraçados a chorar!
1 802
Florbela Espanca
O que mais me comove
O que mais me comove e me contrista
Neste pesar que se apossou de mim
E não saber (que tenebrosa egoísta!)
se te lembras de mim!
Qualquer pesar em que a memoria insista
Recorda a nossa angustia. É uma aflição.
E eu vivo a repetir. Longe da vista...
longe do coração...
Neste pesar que se apossou de mim
E não saber (que tenebrosa egoísta!)
se te lembras de mim!
Qualquer pesar em que a memoria insista
Recorda a nossa angustia. É uma aflição.
E eu vivo a repetir. Longe da vista...
longe do coração...
1 568
Florbela Espanca
Matei a ilusão
Matei a ilusão dentro de mira
Toda a quimera em mim despedacei
Rosas e lírios tudo arranquei
Do meu tranquilo e plácido jardim
Toda a quimera em mim despedacei
Rosas e lírios tudo arranquei
Do meu tranquilo e plácido jardim
1 607
Florbela Espanca
Escrevi o nome teu
Escrevi o nome teu
Na branca areia do mar
Vieram as ondas brincando
Teu lindo nome beijar
Na branca areia do mar
Vieram as ondas brincando
Teu lindo nome beijar
1 853
Florbela Espanca
Às Mães de Portugal
Ó mães doloridas, celestiais,
Misericordiosas,
Ó mães d’olhos benditos, liriais,
Ó mães piedosas
Calai as vossas mágoas, vossas dores!
Longe na crua guerra
Vossos filhos defendem, vencedores,
A nossa linda terra!
E se eles defendem a bandeira
Da terra que adorais,
Onde viram um dia a luz primeira
Ó mães porque chorais?!
Uma lágrima triste, agora é
Cobardia, fraqueza!
Nos campos de batalha cai de pé
A alma portuguesa!
Pela terra de estrelas e tomilhos,
De sol, e de luar;
Deixai ir combater os vossos filhos
Ao longe, heróis do mar!
Dum português bendito, sem igual
Eu sigo o mesmo trilho:
Por cada pedra deste Portugal
Eu arriscava um filho!
Por isso ó mães doridas, pelo leito
De morte, onde ajoelhais,
Esmagai vossa dor dentro do peito,
Ó mães não choreis mais!
A Pátria rouba os filhos, mas é mãe
A mãe de todos nós
Direito de a trair não tem ninguém
Ó mães nem sequer vós!
Misericordiosas,
Ó mães d’olhos benditos, liriais,
Ó mães piedosas
Calai as vossas mágoas, vossas dores!
Longe na crua guerra
Vossos filhos defendem, vencedores,
A nossa linda terra!
E se eles defendem a bandeira
Da terra que adorais,
Onde viram um dia a luz primeira
Ó mães porque chorais?!
Uma lágrima triste, agora é
Cobardia, fraqueza!
Nos campos de batalha cai de pé
A alma portuguesa!
Pela terra de estrelas e tomilhos,
De sol, e de luar;
Deixai ir combater os vossos filhos
Ao longe, heróis do mar!
Dum português bendito, sem igual
Eu sigo o mesmo trilho:
Por cada pedra deste Portugal
Eu arriscava um filho!
Por isso ó mães doridas, pelo leito
De morte, onde ajoelhais,
Esmagai vossa dor dentro do peito,
Ó mães não choreis mais!
A Pátria rouba os filhos, mas é mãe
A mãe de todos nós
Direito de a trair não tem ninguém
Ó mães nem sequer vós!
3 964
Florbela Espanca
Escuta...
À Beatriz Carvalho
Escuta, amor, escuta a voz que ao teu ouvido
Te canta uma canção na rua em que morei,
Essa soturna voz há de contar-te, amigo
Por essa rua minha os sonhos que sonhei!
Fala d’amor a voz em tom enternecido,
Escuta-a com bondade. O muito que te amei
Anda pairando aí em sonho comovido
A envolver-te em oiro!... Assim s’envolve um rei!
Num nimbo de saudade e doce como a asa
Recorta-se no céu a minha humilde casa
Onde ficou minh’alma assim como penada
A arrastar grilhões como um fantasma triste.
É dela a voz que fala, é dela a voz que existe
Na rua em que morei... Anda crucificada!
Escuta, amor, escuta a voz que ao teu ouvido
Te canta uma canção na rua em que morei,
Essa soturna voz há de contar-te, amigo
Por essa rua minha os sonhos que sonhei!
Fala d’amor a voz em tom enternecido,
Escuta-a com bondade. O muito que te amei
Anda pairando aí em sonho comovido
A envolver-te em oiro!... Assim s’envolve um rei!
Num nimbo de saudade e doce como a asa
Recorta-se no céu a minha humilde casa
Onde ficou minh’alma assim como penada
A arrastar grilhões como um fantasma triste.
É dela a voz que fala, é dela a voz que existe
Na rua em que morei... Anda crucificada!
2 164
Florbela Espanca
Morreu a pequenina
Morreu a pequenina... Foi sol-pór
Aquele sol nascente. Quem diria!...
Mas Não! Não pode ser! Não morreria!
Não pode ser tortura o que é amor!
Anda a brincar e a rir seja onde for...
Anda por ali em doida correria...
Abram bem as estrelas do meio-dia,
Vejam se está no seio dalguma flor!...
«Lá vem a Primavera!» oiço dizer;
«A sempre alegre e moça, a sempre bela,
A que das fragas rosas faz nascer!»
Gorjeios... risos... Sim, oiço-os também...
Será a Primavera?... ou será Ela?!
Será a pequenina que além vem?!...
Aquele sol nascente. Quem diria!...
Mas Não! Não pode ser! Não morreria!
Não pode ser tortura o que é amor!
Anda a brincar e a rir seja onde for...
Anda por ali em doida correria...
Abram bem as estrelas do meio-dia,
Vejam se está no seio dalguma flor!...
«Lá vem a Primavera!» oiço dizer;
«A sempre alegre e moça, a sempre bela,
A que das fragas rosas faz nascer!»
Gorjeios... risos... Sim, oiço-os também...
Será a Primavera?... ou será Ela?!
Será a pequenina que além vem?!...
1 929
Florbela Espanca
Liberta!
Eu ponho-me a sonhar transmigrações
Impossíveis, longínquas, milagrosas,
Voos amplos, céus distantes, migrações
Longe... noutras esferas luminosas!
E pelo meu olhar passam visões:
Ilhas de bruma e nácar, d’oiro e rosas...
E eu penso que, liberta de grilhões,
Hei-de aportar as Ilhas misteriosas!
Impossíveis, longínquas, milagrosas,
Voos amplos, céus distantes, migrações
Longe... noutras esferas luminosas!
E pelo meu olhar passam visões:
Ilhas de bruma e nácar, d’oiro e rosas...
E eu penso que, liberta de grilhões,
Hei-de aportar as Ilhas misteriosas!
1 930
Florbela Espanca
Hei-de dar-te
Hei-de dar-te o meu retrato.
Na sua moldura ri.
Beija esse pobre sorriso
Que nasceu pensando em ti.
Na sua moldura ri.
Beija esse pobre sorriso
Que nasceu pensando em ti.
1 568
Florbela Espanca
O que sou eu
O que sou eu, Amor?... Sei lá que sou
Sou tudo e nada, grande e pequenina
Sou a que canta urna ilusão divina
Sou a que chora um mal que acabou.
Eu sei lá, que quimera me beijou
E nunca o soube assim desde menina
Há neste mundo tanta amarga sina
A minha é Não saber nunca quem sou
Esfinge, sonho tonto de desejos
Na tua boca sou urna asa aberta
A palpitar vermelha como os beijos
Andorinha..............a voejar
Sou tudo e nada, grande e pequenina
Sou a que canta urna ilusão divina
Sou a que chora um mal que acabou.
Eu sei lá, que quimera me beijou
E nunca o soube assim desde menina
Há neste mundo tanta amarga sina
A minha é Não saber nunca quem sou
Esfinge, sonho tonto de desejos
Na tua boca sou urna asa aberta
A palpitar vermelha como os beijos
Andorinha..............a voejar
1 660
Florbela Espanca
As Quadras D’Ele I
[1]
Andam sonhos cor do mar
Nas minhas quadras, imersos,
Se queres comigo sonhar,
Canta baixinho os meus versos.
[2]
Saudades e amarguras
Tenho eu todos os dias,
Não podem pois adejar
Em meus versos, alegrias.
Saudades e amarguras
Tenho eu todas as horas,
Quem noites só conheceu,
Não pode cantar auroras.
[3]
Se é um pecado sonhar
Tenho um pecado na vida,
Peço a Deus por tal pecado
A penitência merecida.
Quando o meu sonho morrer
(Que penitência tão dura!)
Vá encontrar em teu peito
Carinhosa sepultura.
[4]
Onde estás ó meu amor,
Que te não vejo apar’cer?
Para que quero eu os olhos
Se não servem pra te ver?
Que m’importa a luz suave
Dos olhos que o mundo tem?
Não posso ver os teus olhos
Não quero ver os de ninguém.
[5]
Tens um coração de pedra
Dentro dum peito de lama
Pois nem sabes distinguir
Quem te odeia ou quem te ama.
Por uma que te despreza,
Teu coração endoidece,
E a pobre que te quer bem
Só teus desprezos merece!
[6]
Desde que o meu bem partiu
Parecem outras as cousas;
Até as pedras da rua
Têm aspectos de lousas!
Quando por acaso as piso,
Perturba-me um tal mistério!...
Como se pisasse à noite
As pedras dum cemitério...
[7]
Teus olhos têm uma cor
Duma expressão tão divina,
Tão misteriosa, tão triste,
Como foi a minha sina.
É uma expressão de saudade
Vogando num mar incerto.
Parecem negros de longe,
Parecem azuis de perto.
Mas nem negros nem azuis
São teus olhos, meu amor,
Seriam da cor da mágoa
Se a mágoa tivesse cor!
[8]
Nem o perfume dos cravos,
Nem a cor das violetas,
Nem o brilho das estrelas,
Nem o sonhar dos poetas,
Pode igualar a beleza
Da primorosa flor,
Que abre na tua boca
O teu riso encantador.
[9]
Levanta os olhos do chão,
Olha de frente pra mim
Fingindo tanto desprezo,
Que podes ganhar assim?
Não andes tão distraído,
Contando as pedras da rua,
Não sei pra que finges tanto...
Tu és meu e eu sou tua...
Levanta os olhos do chão.
Que podes ganhar assim?
Se Deus nos fez um pro outro,
Para que foges de mim?!
[10]
Coveiros, sombrios, desgrenhados,
Fazei-me depressa a cova,
Quero enterrar minha dor
Quero enterrar-me assim nova.
Coveiros, só o corpo é novo,
Que há poucos anos nasceu;
Fazei-me depressa a cova
Que a minha alma morreu.
[11]
Amar a quem nos despreza
É sina que a gente tem;
Eu desprezo quem m’odeia
E adoro quem me quer bem.
[12]
Ai, tirem-me o coração
Que o tenho todo desfeito!
Cada pedaço um punhal
Que trago dentro do peito.
[13]
Eu quero viver contigo
Muito juntinhos os dois
O tempo que dura um beijo,
Embora eu morra depois.
[14]
Meu coração é ruína
Caindo todo a pedaços,
Oh, dai-lhe a hera piedosa
Bendita desses teus braços!
[15]
Quando fito o teu olhar
Tão frio e tão indiferente,
Fico a chorar um amor
Que o teu coração não sente.
[16]
O fado não é da terra,
O fado criou-o Deus,
O fado é andar doidinha
Perdida p’los olhos teus.
[17]
Esmaguei meu coração
Para o triste te esquecer,
Mas ao sentir os teus passos,
Põe-se a bater... a bater...
[18]
Andam pombas assustadas
No teu olhar, adejando,
Mal sentem os meus olhos,
Batem as asas, voando.
[19]
Há sonhos que ao enterrar-se,
Levam dentro do caixão,
Bocados da nossa alma,
Pedaços de coração!
Andam sonhos cor do mar
Nas minhas quadras, imersos,
Se queres comigo sonhar,
Canta baixinho os meus versos.
[2]
Saudades e amarguras
Tenho eu todos os dias,
Não podem pois adejar
Em meus versos, alegrias.
Saudades e amarguras
Tenho eu todas as horas,
Quem noites só conheceu,
Não pode cantar auroras.
[3]
Se é um pecado sonhar
Tenho um pecado na vida,
Peço a Deus por tal pecado
A penitência merecida.
Quando o meu sonho morrer
(Que penitência tão dura!)
Vá encontrar em teu peito
Carinhosa sepultura.
[4]
Onde estás ó meu amor,
Que te não vejo apar’cer?
Para que quero eu os olhos
Se não servem pra te ver?
Que m’importa a luz suave
Dos olhos que o mundo tem?
Não posso ver os teus olhos
Não quero ver os de ninguém.
[5]
Tens um coração de pedra
Dentro dum peito de lama
Pois nem sabes distinguir
Quem te odeia ou quem te ama.
Por uma que te despreza,
Teu coração endoidece,
E a pobre que te quer bem
Só teus desprezos merece!
[6]
Desde que o meu bem partiu
Parecem outras as cousas;
Até as pedras da rua
Têm aspectos de lousas!
Quando por acaso as piso,
Perturba-me um tal mistério!...
Como se pisasse à noite
As pedras dum cemitério...
[7]
Teus olhos têm uma cor
Duma expressão tão divina,
Tão misteriosa, tão triste,
Como foi a minha sina.
É uma expressão de saudade
Vogando num mar incerto.
Parecem negros de longe,
Parecem azuis de perto.
Mas nem negros nem azuis
São teus olhos, meu amor,
Seriam da cor da mágoa
Se a mágoa tivesse cor!
[8]
Nem o perfume dos cravos,
Nem a cor das violetas,
Nem o brilho das estrelas,
Nem o sonhar dos poetas,
Pode igualar a beleza
Da primorosa flor,
Que abre na tua boca
O teu riso encantador.
[9]
Levanta os olhos do chão,
Olha de frente pra mim
Fingindo tanto desprezo,
Que podes ganhar assim?
Não andes tão distraído,
Contando as pedras da rua,
Não sei pra que finges tanto...
Tu és meu e eu sou tua...
Levanta os olhos do chão.
Que podes ganhar assim?
Se Deus nos fez um pro outro,
Para que foges de mim?!
[10]
Coveiros, sombrios, desgrenhados,
Fazei-me depressa a cova,
Quero enterrar minha dor
Quero enterrar-me assim nova.
Coveiros, só o corpo é novo,
Que há poucos anos nasceu;
Fazei-me depressa a cova
Que a minha alma morreu.
[11]
Amar a quem nos despreza
É sina que a gente tem;
Eu desprezo quem m’odeia
E adoro quem me quer bem.
[12]
Ai, tirem-me o coração
Que o tenho todo desfeito!
Cada pedaço um punhal
Que trago dentro do peito.
[13]
Eu quero viver contigo
Muito juntinhos os dois
O tempo que dura um beijo,
Embora eu morra depois.
[14]
Meu coração é ruína
Caindo todo a pedaços,
Oh, dai-lhe a hera piedosa
Bendita desses teus braços!
[15]
Quando fito o teu olhar
Tão frio e tão indiferente,
Fico a chorar um amor
Que o teu coração não sente.
[16]
O fado não é da terra,
O fado criou-o Deus,
O fado é andar doidinha
Perdida p’los olhos teus.
[17]
Esmaguei meu coração
Para o triste te esquecer,
Mas ao sentir os teus passos,
Põe-se a bater... a bater...
[18]
Andam pombas assustadas
No teu olhar, adejando,
Mal sentem os meus olhos,
Batem as asas, voando.
[19]
Há sonhos que ao enterrar-se,
Levam dentro do caixão,
Bocados da nossa alma,
Pedaços de coração!
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Florbela Espanca
Pus-me a colher
Pus-me a colher ’mas saudades,
Do campo, singelos bens,
Quando as ouvi: «Não nos leves,
Não te bastam as que tens?!»
Do campo, singelos bens,
Quando as ouvi: «Não nos leves,
Não te bastam as que tens?!»
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Florbela Espanca
A bondade
A bondade o som de Deus
A bondade a educação
A gente sempre ama os país
A estrela do coração.
A bondade ai a bondade
Aquele anjo de amor
Aquela santa feliz
E a bondade da flor
O anjo vem dar a bondade
A bondade do coração
A bondade para todos
E urna boa educação
feliz de quem tem bondade
E sempre sempre um bom irmão
A bondade a educação
A gente sempre ama os país
A estrela do coração.
A bondade ai a bondade
Aquele anjo de amor
Aquela santa feliz
E a bondade da flor
O anjo vem dar a bondade
A bondade do coração
A bondade para todos
E urna boa educação
feliz de quem tem bondade
E sempre sempre um bom irmão
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