Poemas neste tema
Alma
Fernando Pessoa
Mas o hóspede inconvidado
Mas o hóspede inconvidado
Que mora no meu destino,
Que não sei como é chegado,
Nem de que honras é digno.
Constrange meu ser de casa
A adaptações de disfarce.
(...)
07/04/1929
Que mora no meu destino,
Que não sei como é chegado,
Nem de que honras é digno.
Constrange meu ser de casa
A adaptações de disfarce.
(...)
07/04/1929
4 550
Fernando Pessoa
Entre o luar e o arvoredo,
Entre o luar e o arvoredo,
Entre o desejo e não pensar
Meu ser secreto vai a medo
Entre o arvoredo e o luar.
Tudo é longínquo, tudo é enredo,
Tudo é não ter nem encontrar.
Entre o que a brisa traz e a hora,
Entre o que foi e o que a alma faz,
Meu ser oculto já não chora
Entre a hora e o que a brisa traz.
Tudo não foi, tudo se ignora.
Tudo em silêncio se desfaz.
24/08/1930
Entre o desejo e não pensar
Meu ser secreto vai a medo
Entre o arvoredo e o luar.
Tudo é longínquo, tudo é enredo,
Tudo é não ter nem encontrar.
Entre o que a brisa traz e a hora,
Entre o que foi e o que a alma faz,
Meu ser oculto já não chora
Entre a hora e o que a brisa traz.
Tudo não foi, tudo se ignora.
Tudo em silêncio se desfaz.
24/08/1930
4 416
Fernando Pessoa
Pela rua já serena
Pela rua já serena
Vai a noite
Não sei de que tenho pena,
Nem se é penar isto que tenho...
Pobres dos que vão sentindo
Sem saber do coração!
Ao longe, cantando e rindo,
Um grupo vai sem razão...
E a noite e aquela alegria
E o que medito a sonhar
Formam uma alma vazia
Que paira na orla do ar...
18/06/1929
Vai a noite
Não sei de que tenho pena,
Nem se é penar isto que tenho...
Pobres dos que vão sentindo
Sem saber do coração!
Ao longe, cantando e rindo,
Um grupo vai sem razão...
E a noite e aquela alegria
E o que medito a sonhar
Formam uma alma vazia
Que paira na orla do ar...
18/06/1929
4 311
Fernando Pessoa
Caminho a teu lado mudo
Caminho a teu lado mudo
Sentes-me, vês-me alheado...
Perguntas, sim ou não, não sei...
Tenho saudades de tudo...
Até, porque está passado,
Do próprio mal que passei.
Sim, hoje é um dia feliz.
Será, não sei, incerto
Num princípio não sei quê
Há um sentido que me diz
Que isto – o céu largo e aberto –
É só a sombra do que é...
E lembro em meia-amargura
Do passado, do distante,
E tudo me é solidão...
Que fui nessa noite escura?
Quem sou nesta morte instante?
Não perguntes... Tudo é vão.
04/11/1928
Sentes-me, vês-me alheado...
Perguntas, sim ou não, não sei...
Tenho saudades de tudo...
Até, porque está passado,
Do próprio mal que passei.
Sim, hoje é um dia feliz.
Será, não sei, incerto
Num princípio não sei quê
Há um sentido que me diz
Que isto – o céu largo e aberto –
É só a sombra do que é...
E lembro em meia-amargura
Do passado, do distante,
E tudo me é solidão...
Que fui nessa noite escura?
Quem sou nesta morte instante?
Não perguntes... Tudo é vão.
04/11/1928
4 269
Fernando Pessoa
Cai chuva do céu cinzento
Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.
Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.
Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não,
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração.
15/11/1930
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.
Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.
Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não,
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração.
15/11/1930
5 390
Fernando Pessoa
Passam na rua os cortejos
Passam na rua os cortejos
Das pessoas existentes.
Algumas vão ter ensejos,
Outras vão mudar de fato,
E outras são inteligentes.
Não conheço ali ninguém.
Nem a mim eu me conheço.
Olho-os sem nenhum desdém.
Também vou mudar de fato.
Também vivo e também esqueço.
Passam na rua comigo,
E eu e eles somos nós.
Todos temos um abrigo,
Todos mudamos de fato,
Ai, mas somos nus a sós.
26/09/1930
Das pessoas existentes.
Algumas vão ter ensejos,
Outras vão mudar de fato,
E outras são inteligentes.
Não conheço ali ninguém.
Nem a mim eu me conheço.
Olho-os sem nenhum desdém.
Também vou mudar de fato.
Também vivo e também esqueço.
Passam na rua comigo,
E eu e eles somos nós.
Todos temos um abrigo,
Todos mudamos de fato,
Ai, mas somos nus a sós.
26/09/1930
4 509
Fernando Pessoa
Depois que todos foram
Depois que todos foram
E foi também o dia,
Ficaram entre as sombras
Das áleas do ermo parque
Eu e a minha agonia.
A festa fora alheia
E depois que acabou
Ficaram entre as sombras
Das áleas apertadas
Quem eu fui e quem sou.
Tudo fora por todos.
Brincaram, mas enfim
Ficaram entre as sombras
Das áleas apertadas
Só eu, e eu sem mim.
Talvez que no parque antigo
A festa volte a ser.
Ficaram entre as sombras
Das áleas apertadas
Eu e quem sei não ser.
26/07/1930
E foi também o dia,
Ficaram entre as sombras
Das áleas do ermo parque
Eu e a minha agonia.
A festa fora alheia
E depois que acabou
Ficaram entre as sombras
Das áleas apertadas
Quem eu fui e quem sou.
Tudo fora por todos.
Brincaram, mas enfim
Ficaram entre as sombras
Das áleas apertadas
Só eu, e eu sem mim.
Talvez que no parque antigo
A festa volte a ser.
Ficaram entre as sombras
Das áleas apertadas
Eu e quem sei não ser.
26/07/1930
4 379
Fernando Pessoa
No fim da chuva e do vento
No fim da chuva e do vento
Voltou ao céu que voltou
A lua; e o luar cinzento
De novo, branco, azulou.
Pela imensa constelação
Do céu dobrado e profundo,
Os meus pensamentos vão
Buscando sentir o mundo.
Mas perdeu-se como uma onda
E o sentimento não sonda
O que o pensamento vale.
Que importa? Tantos pensaram
Como penso e pensarei.
02/10/1928
Voltou ao céu que voltou
A lua; e o luar cinzento
De novo, branco, azulou.
Pela imensa constelação
Do céu dobrado e profundo,
Os meus pensamentos vão
Buscando sentir o mundo.
Mas perdeu-se como uma onda
E o sentimento não sonda
O que o pensamento vale.
Que importa? Tantos pensaram
Como penso e pensarei.
02/10/1928
4 150
Fernando Pessoa
EPITÁFIO DESCONHECIDO
EPITÁFIO DESCONHECIDO
Quanta mais alma
Por mais que a alma ande no amplo informe,
A ti, seu lar anterior, do fundo
Da emoção regressou, ó Cristo, e dorme
Nos braços cujo amor é o fim do mundo.
26/06/1929
Quanta mais alma
Por mais que a alma ande no amplo informe,
A ti, seu lar anterior, do fundo
Da emoção regressou, ó Cristo, e dorme
Nos braços cujo amor é o fim do mundo.
26/06/1929
4 863
Fernando Pessoa
O céu de todos os Invernos
O céu de todos os Invernos
Cobre em meu ser todo o Verão...
Vai p'rás profundas dos infernos
E deixa em paz meu coração!
Por ti meu pensamento é triste,
Meu sentimento anda estrangeiro;
A tua ideia em mim insiste
Como uma falta de dinheiro.
Não posso dominar meu sonho.
Não te posso obrigar a amar.
Que hei-de fazer? Fico tristonho.
Mas a tristeza há-de acabar.
Bem sei, bem sei... A dor de corno...
Mas não fui eu que lho chamei.
Amar-te causa-me transtorno,
Lá que transtorno é que não sei...
Ridículo? É claro. E todos?
Mas a consciência de o ser, fi-la bas-
tante clara deitando-a a rodos
Em cinco quadras de oito sílabas.
03/04/1929
Cobre em meu ser todo o Verão...
Vai p'rás profundas dos infernos
E deixa em paz meu coração!
Por ti meu pensamento é triste,
Meu sentimento anda estrangeiro;
A tua ideia em mim insiste
Como uma falta de dinheiro.
Não posso dominar meu sonho.
Não te posso obrigar a amar.
Que hei-de fazer? Fico tristonho.
Mas a tristeza há-de acabar.
Bem sei, bem sei... A dor de corno...
Mas não fui eu que lho chamei.
Amar-te causa-me transtorno,
Lá que transtorno é que não sei...
Ridículo? É claro. E todos?
Mas a consciência de o ser, fi-la bas-
tante clara deitando-a a rodos
Em cinco quadras de oito sílabas.
03/04/1929
3 957
Fernando Pessoa
GLOSA
Minha alma sabe-me a antiga
Mas sou de minha lembrança,
Como um eco, uma cantiga.
Bem sei que isto não é nada,
Mas quem dera a alma que seja
O que isto é, como uma estrada.
Talvez eu fosse feliz
Se houvesse em mim o perdão
Do que isto quase que diz.
Porque o esforço é vil e vão,
A verdade, quem a quis?
Escuta só, meu coração.
09/11/1929
Mas sou de minha lembrança,
Como um eco, uma cantiga.
Bem sei que isto não é nada,
Mas quem dera a alma que seja
O que isto é, como uma estrada.
Talvez eu fosse feliz
Se houvesse em mim o perdão
Do que isto quase que diz.
Porque o esforço é vil e vão,
A verdade, quem a quis?
Escuta só, meu coração.
09/11/1929
4 401
Fernando Pessoa
Ó sorte de olhar mesquinho
Ó sorte de olhar mesquinho
E gestos de despedida,
Apanha-me do caminho
Como a uma coisa caída...
Resvalei à via velha
Do colo de quem sonhava.
Leva-me como na celha
O sabão de quem lavava...
Quem quer saber de quem fora
Quem eu fora se outro fosse...
Olha-me e deita-me fora
Como quem farta de doce.
24/06/1930
E gestos de despedida,
Apanha-me do caminho
Como a uma coisa caída...
Resvalei à via velha
Do colo de quem sonhava.
Leva-me como na celha
O sabão de quem lavava...
Quem quer saber de quem fora
Quem eu fora se outro fosse...
Olha-me e deita-me fora
Como quem farta de doce.
24/06/1930
4 198
Fernando Pessoa
Quero ser livre insincero
Quero ser livre insincero
Sem crença, dever ou posto.
Prisões, nem de amor as quero.
Não me amem, porque não gosto.
Quando canto o que não minto
E choro o que sucedeu,
É que esqueci o que sinto
E julgo que não sou eu.
De mim mesmo viandante
Olho as músicas na aragem,
E a minha mesma alma errante
É uma canção de viagem.
26/08/1930
Sem crença, dever ou posto.
Prisões, nem de amor as quero.
Não me amem, porque não gosto.
Quando canto o que não minto
E choro o que sucedeu,
É que esqueci o que sinto
E julgo que não sou eu.
De mim mesmo viandante
Olho as músicas na aragem,
E a minha mesma alma errante
É uma canção de viagem.
26/08/1930
5 164
Fernando Pessoa
Há um grande som no arvoredo.
Há um grande som no arvoredo.
Parece um mar que há lá em cima.
É o vento, e o vento faz um medo...
Não sei se um coração me estima...
Sozinho sob os astros certos
Meu coração não sai da vida...
Ó vastos céus, iguais e abertos,
Que é esta alma indefinida?
21/10/1930
Parece um mar que há lá em cima.
É o vento, e o vento faz um medo...
Não sei se um coração me estima...
Sozinho sob os astros certos
Meu coração não sai da vida...
Ó vastos céus, iguais e abertos,
Que é esta alma indefinida?
21/10/1930
4 151
Fernando Pessoa
Meu ruído de alma cala.
Meu ruído de alma cala.
E aperto a mão no peito,
Porque sob o efeito
Da arte que faz trejeito,
O que é de Cristo fala.
Cega, porca, lixo
Da vida que n'alma tem,
Esta criança vem.
Que Deus é que do além
Teve este mau capricho?
26/08/1930
E aperto a mão no peito,
Porque sob o efeito
Da arte que faz trejeito,
O que é de Cristo fala.
Cega, porca, lixo
Da vida que n'alma tem,
Esta criança vem.
Que Deus é que do além
Teve este mau capricho?
26/08/1930
3 899
Fernando Pessoa
Na margem verde da estrada
Na margem verde da estrada
Os malmequeres são meus.
Já trago a alma cansada –
Não é disso... é de Deus.
Se Deus me quisesse dá-la
Havia de achar maneira...
A estrada de cá da vala
Tem malmequeres à beira.
Se os quero, colho-os, e tenho
Cuidado com os partir.
Cada um que vejo e apanho
Dá um estalinho ao sair.
São malmequeres aos molhos,
Iguaizinhos para ver.
E nem põe neles os olhos,
Dá a mão pra os receber.
Não é esmola que envergonhe,
Nem coisa dada sem mais.
É pra que a menina os ponha
Onde o peito faz sinais.
Tirei-os do campo ao lado
Para a menina os trazer...
E nem me mostra o agrado
De um olhar para me ver...
É assim a minha sina.
Tirei-os de onde iam bem,
Só para os dar à menina –
E agradeceu-me a ninguém.
31/08/1930
Os malmequeres são meus.
Já trago a alma cansada –
Não é disso... é de Deus.
Se Deus me quisesse dá-la
Havia de achar maneira...
A estrada de cá da vala
Tem malmequeres à beira.
Se os quero, colho-os, e tenho
Cuidado com os partir.
Cada um que vejo e apanho
Dá um estalinho ao sair.
São malmequeres aos molhos,
Iguaizinhos para ver.
E nem põe neles os olhos,
Dá a mão pra os receber.
Não é esmola que envergonhe,
Nem coisa dada sem mais.
É pra que a menina os ponha
Onde o peito faz sinais.
Tirei-os do campo ao lado
Para a menina os trazer...
E nem me mostra o agrado
De um olhar para me ver...
É assim a minha sina.
Tirei-os de onde iam bem,
Só para os dar à menina –
E agradeceu-me a ninguém.
31/08/1930
4 271
Fernando Pessoa
Deixo ao cego e ao surdo
Deixo ao cego e ao surdo
A alma com fronteiras,
Que eu quero sentir tudo
De todas as maneiras.
Do alto de ter consciência
Contemplo a terra e o céu
Olho-os com inocência...
Nada que vejo é meu.
Mas vejo tão atento
Tão neles me disperso
Que cada pensamento
Me torna já diverso.
E como são estilhaços
Do ser, as coisas dispersas
Quebro a alma em pedaços
E em pessoas diversas.
E se a própria alma vejo
Com outro olhar,
Pergunto se há ensejo
De por isto a julgar.
Ah, tanto como a terra
E o mar e o vasto céu.
Quem se crê próprio erra,
Sou vário e não sou meu.
Se as coisas são estilhaços
Do saber do universo,
Seja eu os meus pedaços,
Impreciso e diverso.
Se quanto sinto é alheio
E de mim se sente,
Como é que a alma veio
A acabar-se em ente?
Assim eu me acomodo
Com o que Deus criou,
Deixo teu diverso modo
Diversos modos sou.
Assim a Deus imito,
Que quando fez o que é
Tirou-lhe o infinito
E a unidade até.
24/08/1930
A alma com fronteiras,
Que eu quero sentir tudo
De todas as maneiras.
Do alto de ter consciência
Contemplo a terra e o céu
Olho-os com inocência...
Nada que vejo é meu.
Mas vejo tão atento
Tão neles me disperso
Que cada pensamento
Me torna já diverso.
E como são estilhaços
Do ser, as coisas dispersas
Quebro a alma em pedaços
E em pessoas diversas.
E se a própria alma vejo
Com outro olhar,
Pergunto se há ensejo
De por isto a julgar.
Ah, tanto como a terra
E o mar e o vasto céu.
Quem se crê próprio erra,
Sou vário e não sou meu.
Se as coisas são estilhaços
Do saber do universo,
Seja eu os meus pedaços,
Impreciso e diverso.
Se quanto sinto é alheio
E de mim se sente,
Como é que a alma veio
A acabar-se em ente?
Assim eu me acomodo
Com o que Deus criou,
Deixo teu diverso modo
Diversos modos sou.
Assim a Deus imito,
Que quando fez o que é
Tirou-lhe o infinito
E a unidade até.
24/08/1930
4 574
Fernando Pessoa
Relógio, morre —
Relógio, morre –
Momentos vão...
Nada já ocorre
Ao coração
Senão, senão...
Bem que perdi,
Mal que deixei,
Nada aqui
Montes sem lei
Onde estarei...
Ninguém comigo!
Desejo ou tenho?
Sou o inimigo –
De onde é que venho?
O que é que estranho?
01/03/1930
Momentos vão...
Nada já ocorre
Ao coração
Senão, senão...
Bem que perdi,
Mal que deixei,
Nada aqui
Montes sem lei
Onde estarei...
Ninguém comigo!
Desejo ou tenho?
Sou o inimigo –
De onde é que venho?
O que é que estranho?
01/03/1930
4 122
Fernando Pessoa
E ou jazigo haja
E ou jazigo haja
Ou sótão com pó,
Bebé foi-se embora.
Minha alma está só.
26/08/1930
Ou sótão com pó,
Bebé foi-se embora.
Minha alma está só.
26/08/1930
4 357
Fernando Pessoa
Tão vago é o vento que parece
Tão vago é o vento que parece
Que as folhas fremem só por vida.
Dorme um calar em que se esquece
Em que é que o campo nos convida?
Não sei. Anónimo de mim,
Não posso erguer uma intenção
Do saco em que me sinto assim,
Caído nesse verde chão.
Com a alma feita em animal,
A quem o sol é um lombo quente.
Aceito como a brisa real
A sensação de ser quem sente.
E os olhos que me pesam baixo
Olham pela alma o campo e a estrada.
No chão um fósforo é o que acho.
Nas sensações não acho nada.
31/08/1930
Que as folhas fremem só por vida.
Dorme um calar em que se esquece
Em que é que o campo nos convida?
Não sei. Anónimo de mim,
Não posso erguer uma intenção
Do saco em que me sinto assim,
Caído nesse verde chão.
Com a alma feita em animal,
A quem o sol é um lombo quente.
Aceito como a brisa real
A sensação de ser quem sente.
E os olhos que me pesam baixo
Olham pela alma o campo e a estrada.
No chão um fósforo é o que acho.
Nas sensações não acho nada.
31/08/1930
3 888
Fernando Pessoa
Mais triste do que o que acontece
Mais triste do que o que acontece
É o que nunca aconteceu.
Meu coração, quem o entristece?
Quem o faz meu?
Na nuvem vem o que escurece
O grande campo sob o céu.
Memórias? Tudo é o que esquece.
A vida é quanto se perdeu.
E há gente que não enlouquece!
Ai do que em mim me chamo eu!
09/06/1930
É o que nunca aconteceu.
Meu coração, quem o entristece?
Quem o faz meu?
Na nuvem vem o que escurece
O grande campo sob o céu.
Memórias? Tudo é o que esquece.
A vida é quanto se perdeu.
E há gente que não enlouquece!
Ai do que em mim me chamo eu!
09/06/1930
4 366
Fernando Pessoa
Vai leve a sombra
Vai leve a sombra
Por sobre a água.
Assim meu sonho
Na minha mágoa.
Como quem dorme
Esqueço a viver.
Despertarei
Ao sol volver.
Nuvem ou brisa,
Sonho ou (...) dada
Faz sentir; passa,
E não foi nada.
03/08/1930
Por sobre a água.
Assim meu sonho
Na minha mágoa.
Como quem dorme
Esqueço a viver.
Despertarei
Ao sol volver.
Nuvem ou brisa,
Sonho ou (...) dada
Faz sentir; passa,
E não foi nada.
03/08/1930
4 095
Fernando Pessoa
Gnomos do luar que faz selvas
Gnomos do luar que faz selvas
As florestas sossegadas,
Que sois silêncios nas relvas,
E em almas abandonadas
Fazeis sombras enganadas,
Que sempre se a gente olha
Acabastes de passar
E só um tremor de folha
Que o vento pode explicar
Fala de vós sem falar,
Levai-me no vosso rastro,
Que em minha alma quero ser
Como vosso corpo, um astro
Que só brilha quando houver
Quem o suponha sem ver.
Ah, sentir tudo de todos os feitios!
Não ter alma, não ter
Só diversos modos –
Seja eu leitura variada
Para mim mesmo!
Assim eu que canto ou choro
Quero velar-me e partir.
Lembrando o que não memoro,
Alguém me saiba sentir,
Mas ninguém me definir.
26/08/1930
As florestas sossegadas,
Que sois silêncios nas relvas,
E em almas abandonadas
Fazeis sombras enganadas,
Que sempre se a gente olha
Acabastes de passar
E só um tremor de folha
Que o vento pode explicar
Fala de vós sem falar,
Levai-me no vosso rastro,
Que em minha alma quero ser
Como vosso corpo, um astro
Que só brilha quando houver
Quem o suponha sem ver.
Ah, sentir tudo de todos os feitios!
Não ter alma, não ter
Só diversos modos –
Seja eu leitura variada
Para mim mesmo!
Assim eu que canto ou choro
Quero velar-me e partir.
Lembrando o que não memoro,
Alguém me saiba sentir,
Mas ninguém me definir.
26/08/1930
3 647
Fernando Pessoa
De aqui a pouco acaba o dia.
Daqui a pouco acaba o dia.
Não fiz nada.
Também, que coisa é que faria?
Fosse o que fosse, estava errada.
Daqui a pouco a noite vem.
Chega em vão
Para quem como eu só tem
Para contar o coração.
E após a noite a irmos dormir
Torna o dia.
Nada farei senão sentir.
Também que coisa é que faria?
31/08/1930
Não fiz nada.
Também, que coisa é que faria?
Fosse o que fosse, estava errada.
Daqui a pouco a noite vem.
Chega em vão
Para quem como eu só tem
Para contar o coração.
E após a noite a irmos dormir
Torna o dia.
Nada farei senão sentir.
Também que coisa é que faria?
31/08/1930
5 141