Temas
Poemas neste tema

Cidade e Cotidiano

Charles Bukowski

Charles Bukowski

As Garotinhas

lá no norte da Califórnia
ele estava de pé no púlpito
e estivera lendo por algum tempo
poemas sobre
a natureza e a bondade
do homem.

ele sabia que tudo estava
certo e não se podia culpá-lo:
ele era um professor e nunca
estivera na cadeia ou num bordel
nunca tivera uma lata velha que enguiçou
no meio de um engarrafamento;
jamais precisara de mais de
3 drinques durante sua noite mais
selvagem;
jamais tinha sido logrado, espancado,
assaltado,
nem fora mordido por um cachorro
ele recebia cartas bacanas de Gary
Snyder, e seu rosto era
amável, liso e
meigo.
sua esposa jamais o traíra,
nem tivera sua sorte.

ele disse, “vou ler apenas mais
3 poemas e então
desço daqui e passo a
palavra ao Bukowski”.

“oh, não, William”, disseram todas
as garotinhas em seus vestidos rosas
e azuis e brancos e laranjas e
lavandas, “oh, não, William,
leia um pouco mais, leia um pouco
mais”!

ele leu mais um poema e então disse,
“este será o último poema que
lerei”.

“oh, não, William”, disseram todas as
garotinhas em seus vestidos transparentes
vermelhos e verdes, “oh, não, William”, disseram
todas as garotinhas em seus jeans colados
com pequenos corações a eles bordados,
“oh, não, William”, disseram todas as garotinhas,
“leia mais poemas, leia mais poemas!”

mas ele manteve a palavra.
terminou o poema e desceu do púlpito e
desapareceu. quando me levantei para ler
as garotinhas se agitaram em
seus assentos e algumas delas assobiaram e
algumas fizeram comentários a meu respeito
que usarei em outra ocasião.

duas ou três semanas depois
recebi uma carta de William
dizendo que tinha gostado de fato da minha leitura.
um cavalheiro de verdade.
eu estava na cama de cuecas e com uma
ressaca de 3 dias. perdi o envelope
mas peguei a carta e fiz com ela
um aviãozinho como aqueles que
aprendi a fazer na época do
colégio. ele cruzou o quarto
antes de aterrissar entre um velho programa de corrida
e um par de cuecas carimbadas.

não nos correspondemos desde então.
1 115
Charles Bukowski

Charles Bukowski

$$$$$$

sempre tive problemas com
dinheiro.
num dos lugares em que trabalhei
todos comiam cachorro-quente
e batatas fritas
na cantina da empresa
3 dias antes de cada
pagamento.
eu queria uns bifes,
cheguei inclusive a procurar o gerente
da cantina e
exigir que ele servisse
uns bifes. ele se recusou.

Eu esqueci do dia do pagamento.
eu tinha um alto grau de indiferença e
o dia do pagamento chegava e todos
não falavam em outra
coisa.
“pagamento?” eu dizia, “diabo, hoje é dia de
receber? me esqueci de pegar meu
último cheque...”

“pare de falar merda, cara...”

“não, não, é sério...”

eu me erguia e ia até o caixa
e claro que o cheque estava lá
e na volta eu o mostrava
a todos eles. “Jesus Cristo, esqueci completamente
do negócio...”

por alguma razão isso os deixava
furiosos. então o funcionário do caixa
aparecia. eu tinha dois
cheques. “Jesus”, eu dizia, “dois cheques”.
e eles ficavam
furiosos.
alguns deles mantinham
dois empregos.

No pior dos dias
chovia pesadamente
eu não tinha uma capa de chuva então
vesti um velho casaco que eu não usava havia
meses e
cheguei um pouco atrasado
quando eles já estavam no batente.
procurei por cigarros nos bolsos
e num deles encontrei uma nota de
cinco dólares:
“ei, vejam”, eu disse, “acabo de encontrar cinco pratas
que eu não sabia que tinha, que
beleza”.

“ei, cara, não venha com essa
merda!”

“não, não, estou falando sério, de verdade, lembro
de ter vestido este casaco quando
estava bêbado e vagando de bar
em bar. já me tomaram dinheiro muitas vezes,
fiquei desconfiado... tiro o dinheiro da
minha carteira e o escondo em
outras partes.”

“sente de uma vez e comece a
trabalhar.”

meti a mão num bolso interno:
“ei, vejam, tem um VINTÃO aqui! Deus, não sabia
que tinha este VINTÃO!
estou
RICO!”

“ninguém está achando graça, seu
filho da puta...”

“ei, meu Deus, aqui tem mais OUTRA
de vinte! é muita, muita muita
grana... eu sabia que não tinha gasto todo o
dinheiro naquela noite. pensei que tinham me
levado os cobres outra vez...”

continuei vasculhando o
casaco. “ei, aqui tem uma de dez e
aqui mais um cinquinho! meu Deus...”

“escute, já disse pra você sentar
e calar a boca...”

“meu Deus, estou RICO... não preciso nem mais
deste emprego...”

“cara, senta aí...”

achei mais outra de dez depois que me sentei
mas não disse
nada.
podia sentir as ondas de ódio e
estava confuso,
eles achavam que eu tinha
armado toda aquela história
apenas para fazê-los se
sentirem mal. não era o que eu
queria. pessoas que tem que passar a cachorros-quentes e
batatas fritas por
3 dias antes de sair o pagamento
já se sentem mal o
suficiente.

sentei-me
inclinei-me para a frente e
comecei a
trabalhar.

do lado de fora
continuava
chovendo.
660
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Artistas:

ela me escreveu por anos.
“estou bebendo vinho na cozinha.
chove lá fora. as crianças
estão na escola.”

ela era uma cidadã qualquer
ocupada com sua alma, sua máquina de escrever
e sua
reputação como poeta underground.

ela escrevia decentemente e com honestidade
mas apenas depois que outros já
haviam aberto o caminho.

me ligava bêbada às 2 da manhã
às 3
enquanto o marido dormia.

“é bom ouvir a sua voz”, ela
dizia.

“é bom ouvir a sua voz também”, eu
dizia.

que diabo, você
sabe.

ela finalmente apareceu. acho que teve
algo a ver com
The Chapparal Poets Society of California.
eles tinham que eleger seus quadros. ela me ligou
do hotel deles.

“estou aqui”, ela disse, “vamos eleger
os representantes.”
“ok, ótimo”, eu disse, “escolha uns realmente bons”.

desliguei.

o telefone voltou a tocar.
“ei, você não quer me ver?”

“claro”, eu disse, “qual é o endereço?”

depois que ela disse até logo eu bati uma
troquei as meias
bebi meia garrafa de vinho e
segui até lá.

estavam todos bêbados e tentavam
se foder mutuamente.

levei-a para minha casa.

ela vestia uma calcinha cor-de-rosa
com fitinhas.

bebemos uma pouco de cerveja e
fumamos e falamos sobre
Ezra Pound, depois
dormimos.

já não tenho claro
se a levei para o
aeroporto ou
não.

ela continua me escrevendo cartas
e eu as respondo
da pior maneira possível
torcendo para que ela
desista.

algum dia talvez ela alcance a
fama como Erica
Jong. (seu rosto não é lá essas coisas
mas seu corpo é legal)
e eu pensarei,
meu Deus, o que foi que eu fiz?
estraguei tudo.
ou melhor: eu não estraguei
nada.

enquanto isso tenho o número de sua caixa postal
e é melhor eu informar a ela
que meu segundo romance sairá
em setembro.
isso deverá manter os seus mamilos duros
enquanto considero a possibilidade de
Francine du Plessix Gray[4].
1 096