Poemas neste tema
Cidade e Cotidiano
Fernando Pessoa
O Chiado sabe-me a açorda.
O Chiado sabe-me a açorda.
Corro ao fluir do Tejo lá em baixo.
Mas nem ali há universo.
E o tédio persiste como uma mão regando no escuro.
Corro ao fluir do Tejo lá em baixo.
Mas nem ali há universo.
E o tédio persiste como uma mão regando no escuro.
1 465
Fernando Pessoa
E o som só dentro do relógio acentuado
E o som só dentro do relógio acentuado
No serão sem ninguém das casas de jantar da província
Põe-me o tempo inteiro em cima da alma,
E enquanto não chega a hora do chá das tias velhas,
O meu coração ouve o tempo passar e sofre comigo.
Tic-tac mais sonolento que o dos outros relógios —
Na parede, de madeira, este tem pêndulo e oscila.
O meu coração tem saudades não sabe de quê.
Tenho que morrer...
Tic-tac mecânico e certo — serão sereno mecânico na província.
No serão sem ninguém das casas de jantar da província
Põe-me o tempo inteiro em cima da alma,
E enquanto não chega a hora do chá das tias velhas,
O meu coração ouve o tempo passar e sofre comigo.
Tic-tac mais sonolento que o dos outros relógios —
Na parede, de madeira, este tem pêndulo e oscila.
O meu coração tem saudades não sabe de quê.
Tenho que morrer...
Tic-tac mecânico e certo — serão sereno mecânico na província.
1 623
Fernando Pessoa
É Carnaval, e estão as ruas cheias
É Carnaval, e estão as ruas cheias
De gente que conserva a sensação,
Tenho intenções, pensamento, ideias,
Mas não posso ter máscara nem pão.
Esta gente é igual, eu sou diverso —
Mesmo entre os poetas não me aceitariam.
Às vezes nem sequer ponho isto em verso —
E o que digo, eles nunca assim diriam.
Que pouca gente a muita gente aqui!
Estou cansado, com cérebro e cansaço.
Vejo isto, e fico, extremamente aqui
Sozinho com o tempo e com o espaço.
Detrás de máscaras nosso ser espreita,
Detrás de bocas um mistério acode
Que meus versos anódinos enjeita.
Sou maior ou menor? Com mãos e pés
E boca falo e mexo-me no mundo.
Hoje, que todos são máscaras, és
Um ser máscara-gestos, em tão fundo...
De gente que conserva a sensação,
Tenho intenções, pensamento, ideias,
Mas não posso ter máscara nem pão.
Esta gente é igual, eu sou diverso —
Mesmo entre os poetas não me aceitariam.
Às vezes nem sequer ponho isto em verso —
E o que digo, eles nunca assim diriam.
Que pouca gente a muita gente aqui!
Estou cansado, com cérebro e cansaço.
Vejo isto, e fico, extremamente aqui
Sozinho com o tempo e com o espaço.
Detrás de máscaras nosso ser espreita,
Detrás de bocas um mistério acode
Que meus versos anódinos enjeita.
Sou maior ou menor? Com mãos e pés
E boca falo e mexo-me no mundo.
Hoje, que todos são máscaras, és
Um ser máscara-gestos, em tão fundo...
1 209
Fernando Pessoa
RONDEAU - Faz noite em meu coração.
Faz noite em meu coração.
Tenho sono de dormir.
Já me esqueci do porvir.
Não demorem muito, então!
Que o Bi fez chichi no chão.
Não precisam consentir.
Basta-lhe só comichão.
Na cara esfregou o pão
E a manteiga no sorrir,
E fez um chichi no chão.
Vendo bem, e com razão,
Onde o faria? (Advertir
Que o penico é para rir)
No tecto? Claro que não.
O Bi fez chichi no chão.
Envoy
Princesa, este mundo a ir
Para o nada é um sonho vão.
Mande uma (com um esfregão)
Dama de honor aqui vir
Que o Bi fez chichi no chão.
Tenho sono de dormir.
Já me esqueci do porvir.
Não demorem muito, então!
Que o Bi fez chichi no chão.
Não precisam consentir.
Basta-lhe só comichão.
Na cara esfregou o pão
E a manteiga no sorrir,
E fez um chichi no chão.
Vendo bem, e com razão,
Onde o faria? (Advertir
Que o penico é para rir)
No tecto? Claro que não.
O Bi fez chichi no chão.
Envoy
Princesa, este mundo a ir
Para o nada é um sonho vão.
Mande uma (com um esfregão)
Dama de honor aqui vir
Que o Bi fez chichi no chão.
1 362
Fernando Pessoa
Tão pouco heráldica a vida!
Tão pouco heráldica a vida!
Tão sem tronos e ouropéis quotidianos!
Tão de si própria oca, tão do sentir-se despida
Afogai-me, ó ruído da acção, no som dos vossos oceanos!
Sede abençoados, (...) carros, comboios e trens
Respirar regular de fábricas, motores trementes a atroar
Com vossa crónica (...)
Sede abençoados, vós ocultais-me a mim...
Vós ocultais o silêncio real e inteiro da Hora
Vós despis de seu murmúrio o mistério
Aquele que dentro de mim quase grita, quase, quase chora
Dorme em vosso embalar férreo,
Levai-me para longe de eu saber que vida é que sinto
Enchei de banal e de material o meu ouvido vosso
A vida que eu vivo — ó (...) - é a vida que me minto
Só tenho aquilo que (...); só quero o que ter não posso.
Tão sem tronos e ouropéis quotidianos!
Tão de si própria oca, tão do sentir-se despida
Afogai-me, ó ruído da acção, no som dos vossos oceanos!
Sede abençoados, (...) carros, comboios e trens
Respirar regular de fábricas, motores trementes a atroar
Com vossa crónica (...)
Sede abençoados, vós ocultais-me a mim...
Vós ocultais o silêncio real e inteiro da Hora
Vós despis de seu murmúrio o mistério
Aquele que dentro de mim quase grita, quase, quase chora
Dorme em vosso embalar férreo,
Levai-me para longe de eu saber que vida é que sinto
Enchei de banal e de material o meu ouvido vosso
A vida que eu vivo — ó (...) - é a vida que me minto
Só tenho aquilo que (...); só quero o que ter não posso.
956
Fernando Pessoa
O Íbis, ave do Egipto,
O Íbis, ave do Egipto,
Pousa sempre sobre um pé
(O que é
Esquisito).
É uma ave sossegada
Porque assim não anda nada.
Uma cegonha parece
Porque é uma cegonha.
Sonha
E esquece —
Propriedade notável
De toda ave aviável.
Quando vejo esta Lisboa,
Digo sempre, Ah quem me dera
(E essa era
Boa)
Ser um íbis esquisito,
Ou pelo menos estar no Egipto.
Pousa sempre sobre um pé
(O que é
Esquisito).
É uma ave sossegada
Porque assim não anda nada.
Uma cegonha parece
Porque é uma cegonha.
Sonha
E esquece —
Propriedade notável
De toda ave aviável.
Quando vejo esta Lisboa,
Digo sempre, Ah quem me dera
(E essa era
Boa)
Ser um íbis esquisito,
Ou pelo menos estar no Egipto.
1 421
Fernando Pessoa
Levava eu um jarrinho
Levava eu um jarrinho
P’ra ir buscar vinho
Levava um tostão
P’ra comprar pão;
E levava uma fita
Para ir bonita.
Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro p’ra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!
Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Para ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.
P’ra ir buscar vinho
Levava um tostão
P’ra comprar pão;
E levava uma fita
Para ir bonita.
Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro p’ra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!
Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Para ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.
1 838
Fernando Pessoa
No ocaso, sobre Lisboa, no tédio dos dias que passam,
No ocaso, sobre Lisboa, no tédio dos dias que passam,
Fixo no tédio do dia que passa permanentemente
Moro na vigília involuntária como um fecho de porta
Que não fecha coisa nenhuma.
Meu coração involuntário, impulsivo,
Naufraga a esfinges indigentes
Nas consequências e fins, [acordando?] no [além?]...
Fixo no tédio do dia que passa permanentemente
Moro na vigília involuntária como um fecho de porta
Que não fecha coisa nenhuma.
Meu coração involuntário, impulsivo,
Naufraga a esfinges indigentes
Nas consequências e fins, [acordando?] no [além?]...
1 399
Fernando Pessoa
TRAMWAY
TRAMWAY
Aqui vou eu num carro eléctrico, mais umas trinta ou quarenta pessoas,
Cheio (só) das minhas ideias imortais, (creio que boas).
Amanhã elas, postas em verso, serão
Por toda a Europa, por todo o mundo (quem sabe?!)
Triunfo meta, início, clarão
Que talvez não acabe.
E quem sobe? Que sente? O que vai a meu lado
Só sente em mim que sou o que, estrangeiro,
Tem o lugar da ponta, e do extremo, apanhado
Por quem entra primeiro.
Que o que vale são as ideias que tenho, enfim,
O resto, o que aqui está sentado, sou eu,
Vestido, visual, regular, sempre em mim,
Sob o azul do céu.
Ah, Destino dos deuses, dai-me ao menos o siso
Ao que em mim pensa a vida de ter um profundo
Senso essencial, mas certeiro e conciso
Da vida e do mundo!
Sei, sob o céu que é que toca as minhas ideias,
Sob o céu mais análogo ao que penso comigo
Que este carro vai com os bancos cheios
Para onde eu sigo.
E o ponto de absurdo de tudo isto qual é?
Onde é que está aqui o erro que sinto?
A minha razão enternecida aqui perde pé
E pensando minto,
Mas a que verdade minto, que ponte,
Há entre o que é falso aqui e o que é certo?
Se o que sinto e penso, não sei sequer como o conte,
Se o que está a descoberto
Agora no meu meditar é uma treva e um abismo
Que hei-de fazer da minha consciência dividida?
Oh, carro absurdo e irreal, onde está quanto cismo?
De que lado é que é a vida?
Aqui vou eu num carro eléctrico, mais umas trinta ou quarenta pessoas,
Cheio (só) das minhas ideias imortais, (creio que boas).
Amanhã elas, postas em verso, serão
Por toda a Europa, por todo o mundo (quem sabe?!)
Triunfo meta, início, clarão
Que talvez não acabe.
E quem sobe? Que sente? O que vai a meu lado
Só sente em mim que sou o que, estrangeiro,
Tem o lugar da ponta, e do extremo, apanhado
Por quem entra primeiro.
Que o que vale são as ideias que tenho, enfim,
O resto, o que aqui está sentado, sou eu,
Vestido, visual, regular, sempre em mim,
Sob o azul do céu.
Ah, Destino dos deuses, dai-me ao menos o siso
Ao que em mim pensa a vida de ter um profundo
Senso essencial, mas certeiro e conciso
Da vida e do mundo!
Sei, sob o céu que é que toca as minhas ideias,
Sob o céu mais análogo ao que penso comigo
Que este carro vai com os bancos cheios
Para onde eu sigo.
E o ponto de absurdo de tudo isto qual é?
Onde é que está aqui o erro que sinto?
A minha razão enternecida aqui perde pé
E pensando minto,
Mas a que verdade minto, que ponte,
Há entre o que é falso aqui e o que é certo?
Se o que sinto e penso, não sei sequer como o conte,
Se o que está a descoberto
Agora no meu meditar é uma treva e um abismo
Que hei-de fazer da minha consciência dividida?
Oh, carro absurdo e irreal, onde está quanto cismo?
De que lado é que é a vida?
949
Fernando Pessoa
O único mistério no universo
O único mistério no universo
É haver um mistério do universo.
Sim, este sol que sem querer ilumina
A terra e as árvores, e as estações todas;
As pedras em que eu piso, as casas brancas,
Os homens, o convívio humano, a história,
O que se passa — tradição ou fala —
Entre alma e alma — as vozes, as cidades —
Tudo nem traz consigo a explicação
De existir, nem tem boca com que fale.
Por que razão não raia o sol dizendo
O que é? Por que motivo sossegado
Existem pedras sob os meus passos, e ar
Que eu respiro, e eu preciso respirar?
Tudo é uma máquina monstruosa e absurda.
Com todo o corpo e o ver [?], terra da alma,
Ignoramos.
Por que há? Por que há um universo?
Por que é um universo que é este?
Por que é assim composto o universo?
Por que há? Por que há o que há?
Por que há mundo, e porque é que há mundo assim?
For que há aqui, dores, consciência e diferença?
É haver um mistério do universo.
Sim, este sol que sem querer ilumina
A terra e as árvores, e as estações todas;
As pedras em que eu piso, as casas brancas,
Os homens, o convívio humano, a história,
O que se passa — tradição ou fala —
Entre alma e alma — as vozes, as cidades —
Tudo nem traz consigo a explicação
De existir, nem tem boca com que fale.
Por que razão não raia o sol dizendo
O que é? Por que motivo sossegado
Existem pedras sob os meus passos, e ar
Que eu respiro, e eu preciso respirar?
Tudo é uma máquina monstruosa e absurda.
Com todo o corpo e o ver [?], terra da alma,
Ignoramos.
Por que há? Por que há um universo?
Por que é um universo que é este?
Por que é assim composto o universo?
Por que há? Por que há o que há?
Por que há mundo, e porque é que há mundo assim?
For que há aqui, dores, consciência e diferença?
1 577
Fernando Pessoa
Nos dias de grandes acontecimentos
... Como, nos dias de grandes acontecimentos no centro da cidade,
Nos bairros quase-excêntricos as conversas em silêncio às portas
A expectativa em grupos...
Ninguém sabe nada.
Leve rastro de brisa
Coisa nenhuma que é real
E que, com um afago ou um sopro
Toca o que há até que seja...
Magnificência da naturalidade.
Coração.
Que Áricas inéditas em cada desejo!
Que melhores coisas que tudo lá longe!
Meu cotovelo toca no da vizinha do eléctrico
Com uma involuntariedade fruste
Curto-circuito da proximidade...
Ideias ao acaso
Como um balde que se entornou —
Fito-o é um balde entornado...
Jaz: jazo...
Nos bairros quase-excêntricos as conversas em silêncio às portas
A expectativa em grupos...
Ninguém sabe nada.
Leve rastro de brisa
Coisa nenhuma que é real
E que, com um afago ou um sopro
Toca o que há até que seja...
Magnificência da naturalidade.
Coração.
Que Áricas inéditas em cada desejo!
Que melhores coisas que tudo lá longe!
Meu cotovelo toca no da vizinha do eléctrico
Com uma involuntariedade fruste
Curto-circuito da proximidade...
Ideias ao acaso
Como um balde que se entornou —
Fito-o é um balde entornado...
Jaz: jazo...
1 269
Fernando Pessoa
OS EMIGRADOS
OS EMIGRADOS
Sós nas grandes cidades desamigas,
Sem falar a língua que se fala nem a que se pensa
Mutilados da relação com os outros
Que depois contado na pátria os triunfos da sua estada.
Coitados dos que conquistam Londres e Paris!
Voltam ao lar sem melhores maneiras nem melhores caras
Apenas sonharam de perto o que viram —
Permanentemente estrangeiros.
Mas não rio deles. Tenho eu feito outra coisa com o ideal?
E o propósito que uma vez formei num hotel planeando a legenda?
É um dos pontos negros da biografia que não tive.
Sós nas grandes cidades desamigas,
Sem falar a língua que se fala nem a que se pensa
Mutilados da relação com os outros
Que depois contado na pátria os triunfos da sua estada.
Coitados dos que conquistam Londres e Paris!
Voltam ao lar sem melhores maneiras nem melhores caras
Apenas sonharam de perto o que viram —
Permanentemente estrangeiros.
Mas não rio deles. Tenho eu feito outra coisa com o ideal?
E o propósito que uma vez formei num hotel planeando a legenda?
É um dos pontos negros da biografia que não tive.
998
Fernando Pessoa
Ah as horas indecisas
Ah as horas indecisas em que a minha vida parece de um outro...
As horas do crepúsculo no terraço dos cafés cosmopolitas!
Na hora de olhos húmidos em que se acendem as luzes
E o cansaço sabe vagamente a uma febre passada.
As horas do crepúsculo no terraço dos cafés cosmopolitas!
Na hora de olhos húmidos em que se acendem as luzes
E o cansaço sabe vagamente a uma febre passada.
1 402
Fernando Pessoa
III - Corre, raio de rio, e leva ao mar
III
Corre, raio de rio, e leva ao mar
A minha indiferença subjectiva!
Qual «leva ao mar»! Tua presença esquiva
Que tem comigo e com o meu pensar?
Lesma de sorte! Vivo a cavalgar
A sombra de um jumento. A vida viva
Vive a dar nomes ao que não se activa,
Morre a pôr etiquetas ao grande ar...
Escancarado Furness, mais três dias
Te aturarei, pobre engenheiro preso
A sucessibilíssimas vistorias...
Depois, ir-me-ei embora, eu e o desprezo
(E tu irás do mesmo modo que ias),
Qualquer, na gare, de cigarro aceso...
Corre, raio de rio, e leva ao mar
A minha indiferença subjectiva!
Qual «leva ao mar»! Tua presença esquiva
Que tem comigo e com o meu pensar?
Lesma de sorte! Vivo a cavalgar
A sombra de um jumento. A vida viva
Vive a dar nomes ao que não se activa,
Morre a pôr etiquetas ao grande ar...
Escancarado Furness, mais três dias
Te aturarei, pobre engenheiro preso
A sucessibilíssimas vistorias...
Depois, ir-me-ei embora, eu e o desprezo
(E tu irás do mesmo modo que ias),
Qualquer, na gare, de cigarro aceso...
1 103
Fernando Pessoa
Quando ao domingo passeias
Quando ao domingo passeias
Levas um vestido claro.
Não é o que te conheço
Mas é em ti que reparo.
Levas um vestido claro.
Não é o que te conheço
Mas é em ti que reparo.
1 317
Fernando Pessoa
A WINTER DAY
I
'Tis a void winter day, sad as a moan.
A sense of loneliness, as of a stone
Upon a grave, or of a rock in sea
Rests like a mighty shadow over me.
I am unnerved, unminded by the pall
Of solemn clouds that, weighty over all,
Curtail the vision; and upon mine ear
The City's rumble brings despair and fear
To crush my spirit free and wild.
The rain,
Reiterated horribly, again
Beast with its drops at my cold window‑pane
With such a sound as makes us know it cold.
The world is ghostly, undaylike and old,
And weary passengers, with cautious tread,
Yet hurried, walk within the streets soul‑dead
In the unkindness of their hue of lead.
The streets are streamlets, and perpetual
A sound of little waters, on roof, on wall,
Down in the streets, in pipes, in window‑glass
And into rooms doth wetly come and pass.
All is the rain's.
All is pale wetness, darkness inly cold,
A sentiment of waste things and of old
Making all things exterior sorrows, pains;
And all we hear and feel and know and see
Is wrapt around as with a masking cloak
In inconceivable monotony.
All in the houses and up from the street
Is a long watery shuffle of heavy feet,
A sound of drenched garments, and a sense
Of a sad chillness, latently intense.
Through cracks in doors and windows a gust cold
Of wind penetrates like a memory of old
Times to make freeze my body, ill reclined
Upon a couch, a sufferer with my mind.
Life in the streets is sad, a monotone
More dull than usual ordinariness:
Business and work have lost their usual stress,
The vender's cries are each of them a moan
Grotesque, desolate, as forlorn and half‑dead
Hearts might produce which make a war (?) attempt
At talking normally, as if they not bled.
Half‑childish urchins, gloriously unkempt
Laugh at the water that cart‑wheels upshed.
The muddy urchins in the streets that play
Make shades of envy in my soul to stay.
Couples, some newly‑married, others not,
Who in the commonness of their no‑thought
Have a deep happiness I would not have,
A joy to which I would prefer the grave,
Pass in the street. some gay and some sedate.
I feel me no like men in any way.
I envy those - I speak true - without hate
And without admiration, isolate (?).
I would that l were happy as they are
But not with that their happiness. Thus far
Such living as theirs is were unto me
Misery, penury, monotony.
Alas for all who dream! Alas for us,
Poor poets, more or less mad, more or less
Foolish! In this consists true happiness!
In knowing how to be monotonous.
Happy are they who can see without sorrow
To‑day yield us to‑morrow
And yet to‑morrow and to‑day to them
Different days because different days,
Which are to me (save that they pass) the same.
II
The view I have of this cold winter day,
The deep depression that makes my thoughts stray
Is but a symbol and a synthesis
Of what my life perpetually is.
How deep my thoughts in pain and sadness are!
How wreck'd my soul in its intense despair!
How desolate, disconsolately mute
My heart is of the words that like scents shoot
From the full flower of true youthfulness!
How locked am I within my own distress!
How in the tragic circle soul‑confined
Of my abhorred self!
Not one ambition leads me - power nor pelf,
No wish for fame, no love of poor mankind.
But I am weary, desolate and cold
E'vn as this winter day. I have grown old
In watching dreams go by and pass away
Leaving a memory pure and bright
Of aught that was and died as light
Without the living horror of decay.
Is this thy life, irresolute soul of mine?
How pale the sun of thy sad morn doth shine!
How it forebodes the cloudiness that comes
Outstretched wings of the storm whose muffled drums
Of warning in the paling day are heard
Deep in the distance lesseningly blurred.
Thou look'st not death nor evil in the face
Poor soul despairing in life's troubled race!
All forms of life, all things have been to thee
Mutations of eternal misery.
All years, all homes to thee have been
In the same drama many a change of scene.
Thou hast not learned to live, but thou dost cling
Madly to life (dreading Death's night severe),
As if life or the world were anything!
'Tis a void winter day, sad as a moan.
A sense of loneliness, as of a stone
Upon a grave, or of a rock in sea
Rests like a mighty shadow over me.
I am unnerved, unminded by the pall
Of solemn clouds that, weighty over all,
Curtail the vision; and upon mine ear
The City's rumble brings despair and fear
To crush my spirit free and wild.
The rain,
Reiterated horribly, again
Beast with its drops at my cold window‑pane
With such a sound as makes us know it cold.
The world is ghostly, undaylike and old,
And weary passengers, with cautious tread,
Yet hurried, walk within the streets soul‑dead
In the unkindness of their hue of lead.
The streets are streamlets, and perpetual
A sound of little waters, on roof, on wall,
Down in the streets, in pipes, in window‑glass
And into rooms doth wetly come and pass.
All is the rain's.
All is pale wetness, darkness inly cold,
A sentiment of waste things and of old
Making all things exterior sorrows, pains;
And all we hear and feel and know and see
Is wrapt around as with a masking cloak
In inconceivable monotony.
All in the houses and up from the street
Is a long watery shuffle of heavy feet,
A sound of drenched garments, and a sense
Of a sad chillness, latently intense.
Through cracks in doors and windows a gust cold
Of wind penetrates like a memory of old
Times to make freeze my body, ill reclined
Upon a couch, a sufferer with my mind.
Life in the streets is sad, a monotone
More dull than usual ordinariness:
Business and work have lost their usual stress,
The vender's cries are each of them a moan
Grotesque, desolate, as forlorn and half‑dead
Hearts might produce which make a war (?) attempt
At talking normally, as if they not bled.
Half‑childish urchins, gloriously unkempt
Laugh at the water that cart‑wheels upshed.
The muddy urchins in the streets that play
Make shades of envy in my soul to stay.
Couples, some newly‑married, others not,
Who in the commonness of their no‑thought
Have a deep happiness I would not have,
A joy to which I would prefer the grave,
Pass in the street. some gay and some sedate.
I feel me no like men in any way.
I envy those - I speak true - without hate
And without admiration, isolate (?).
I would that l were happy as they are
But not with that their happiness. Thus far
Such living as theirs is were unto me
Misery, penury, monotony.
Alas for all who dream! Alas for us,
Poor poets, more or less mad, more or less
Foolish! In this consists true happiness!
In knowing how to be monotonous.
Happy are they who can see without sorrow
To‑day yield us to‑morrow
And yet to‑morrow and to‑day to them
Different days because different days,
Which are to me (save that they pass) the same.
II
The view I have of this cold winter day,
The deep depression that makes my thoughts stray
Is but a symbol and a synthesis
Of what my life perpetually is.
How deep my thoughts in pain and sadness are!
How wreck'd my soul in its intense despair!
How desolate, disconsolately mute
My heart is of the words that like scents shoot
From the full flower of true youthfulness!
How locked am I within my own distress!
How in the tragic circle soul‑confined
Of my abhorred self!
Not one ambition leads me - power nor pelf,
No wish for fame, no love of poor mankind.
But I am weary, desolate and cold
E'vn as this winter day. I have grown old
In watching dreams go by and pass away
Leaving a memory pure and bright
Of aught that was and died as light
Without the living horror of decay.
Is this thy life, irresolute soul of mine?
How pale the sun of thy sad morn doth shine!
How it forebodes the cloudiness that comes
Outstretched wings of the storm whose muffled drums
Of warning in the paling day are heard
Deep in the distance lesseningly blurred.
Thou look'st not death nor evil in the face
Poor soul despairing in life's troubled race!
All forms of life, all things have been to thee
Mutations of eternal misery.
All years, all homes to thee have been
In the same drama many a change of scene.
Thou hast not learned to live, but thou dost cling
Madly to life (dreading Death's night severe),
As if life or the world were anything!
1 752
Fernando Pessoa
SAUDAÇÃO A W. WHITMAN [c]
SAUDAÇÂO A W. WHITMAN
Para cantar-te,
Para cantar-te como tu quererias que te cantassem,
Melhor é cantar a terra, o mar, as cidades e os campos —
Os homens, as mulheres, as crianças,
As profissões, [...], as (...)
Todas as coisas que, juntas, formam a síntese-universo,
Todas as coisas que, separadas, valem a síntese-Universo,
Todas as coisas que universais formam a síntese Deus.
Ah, o poema que te cantasse bem,
Seria o poema que todo cantasse tudo,
O poema em que estivessem todas as vestes e todas as sedas —
Todos os perfumes e todos os sabores
E o contacto em todos os sentidos do tacto de todas as coisas tangíveis.
Poema que dispensasse a música, música com vida,
Poema que transcendesse a pintura, pintura com alma
Para cantar-te,
Para cantar-te como tu quererias que te cantassem,
Melhor é cantar a terra, o mar, as cidades e os campos —
Os homens, as mulheres, as crianças,
As profissões, [...], as (...)
Todas as coisas que, juntas, formam a síntese-universo,
Todas as coisas que, separadas, valem a síntese-Universo,
Todas as coisas que universais formam a síntese Deus.
Ah, o poema que te cantasse bem,
Seria o poema que todo cantasse tudo,
O poema em que estivessem todas as vestes e todas as sedas —
Todos os perfumes e todos os sabores
E o contacto em todos os sentidos do tacto de todas as coisas tangíveis.
Poema que dispensasse a música, música com vida,
Poema que transcendesse a pintura, pintura com alma
1 306
Fernando Pessoa
P. DAS HORAS — Parte II
P. DAS HORAS — Parte II —
Grandes estandartes de fumo das chaminés das fábricas
Sobre os telhados (...)
Ó poderosamente gritos de combate!
Vago rumor silencioso e comercial das ruas...
E a ordem inconsciente dos que vão e vêm
Pelas fitas dos passeios...
À hora de sol em que as lojas descem os toldos
Grandes estandartes de fumo das chaminés das fábricas
Sobre os telhados (...)
Ó poderosamente gritos de combate!
Vago rumor silencioso e comercial das ruas...
E a ordem inconsciente dos que vão e vêm
Pelas fitas dos passeios...
À hora de sol em que as lojas descem os toldos
1 313
Fernando Pessoa
Com bandas militares
Com bandas militares à frente, compostas de volantes e hélices,
Com uma vanguarda sonora de sereia de automóvel e de barco
Com um estardalhaço longínquo, com saltos e alardes
De bombos e pratos, com (...)
Desencadeio-me a saudar-te. Pum!
Pum, pum, pum...
Pu-u-u-u-u-m!
Com uma vanguarda sonora de sereia de automóvel e de barco
Com um estardalhaço longínquo, com saltos e alardes
De bombos e pratos, com (...)
Desencadeio-me a saudar-te. Pum!
Pum, pum, pum...
Pu-u-u-u-u-m!
1 080
Fernando Pessoa
Lavas a roupa na selha
Lavas a roupa na selha
Com um vagar apressado,
E o brinco na tua orelha
Acompanha o teu cuidado.
Com um vagar apressado,
E o brinco na tua orelha
Acompanha o teu cuidado.
1 435
Fernando Pessoa
Através do ruído do café cheio de gente
Através do ruído do café cheio de gente
Chega-me a brisa que passa pelo convés
Nas longas viagens, no alto mar, no verão
Perto dos trópicos (no amontoado nocturno do navio —
Sacudido regularmente pela hélice palpitante —
Vejo passar os uniformes brancos dos oficiais de bordo).
E essa brisa traz um ruído de mar-alto, pluro-mar
E a nossa civilização não pertence à minha reminiscência.
Chega-me a brisa que passa pelo convés
Nas longas viagens, no alto mar, no verão
Perto dos trópicos (no amontoado nocturno do navio —
Sacudido regularmente pela hélice palpitante —
Vejo passar os uniformes brancos dos oficiais de bordo).
E essa brisa traz um ruído de mar-alto, pluro-mar
E a nossa civilização não pertence à minha reminiscência.
1 343
Fernando Pessoa
PARAGEM. ZONA
PARAGEM. ZONA
Tragam-me esquecimento em travessas!
Quero comer o abandono da vida!
Quero perder o hábito de gritar para dentro.
Arre, já basta! Não sei o quê. mas já basta...
Então viver amanhã, hein?... E o que se faz de hoje?
Viver amanhã por ter adiado hoje?
Comprei por acaso um bilhete para esse espectáculo?
Que gargalhadas daria quem pudesse rir!
E agora aparece o eléctrico — o de que eu estou à espera —
Antes fosse outro... Ter de subir já!
Ninguém me obriga, mas deixai-o passar, porquê?
Só deixando passar todos, e a mim mesmo, e à vida...
Que náusea no estômago real que é a alma consciente!
Que sono bom o ser outra pessoa qualquer...
Já compreendo porque é que as crianças querem ser guarda-freios...
Não, não compreendo nada...
Tarde de azul e ouro, alegria das gentes, olhos claros da vida...
Tragam-me esquecimento em travessas!
Quero comer o abandono da vida!
Quero perder o hábito de gritar para dentro.
Arre, já basta! Não sei o quê. mas já basta...
Então viver amanhã, hein?... E o que se faz de hoje?
Viver amanhã por ter adiado hoje?
Comprei por acaso um bilhete para esse espectáculo?
Que gargalhadas daria quem pudesse rir!
E agora aparece o eléctrico — o de que eu estou à espera —
Antes fosse outro... Ter de subir já!
Ninguém me obriga, mas deixai-o passar, porquê?
Só deixando passar todos, e a mim mesmo, e à vida...
Que náusea no estômago real que é a alma consciente!
Que sono bom o ser outra pessoa qualquer...
Já compreendo porque é que as crianças querem ser guarda-freios...
Não, não compreendo nada...
Tarde de azul e ouro, alegria das gentes, olhos claros da vida...
2 363
Fernando Pessoa
Ah, os primeiros minutos nos cafés de novas cidades!
Ah, os primeiros minutos nos cafés de novas cidades!
A chegada pela manhã a cais ou a gares
Cheios de um silêncio repousado e claro!
Os primeiros passantes nas ruas das cidades a que se chega...
E o som especial que o correr das horas tem nas viagens...
Os ónibus ou os eléctricos ou os automóveis...
O novo aspecto das ruas de novas terras...
A paz que parecem ter para a nossa dor
O bulício alegre para a nossa tristeza
A falta de monotonia para o nosso coração cansado!...
As praças nitidamente quadradas e grandes,
As ruas com as casas que se aproximam ao fim,
As ruas transversais revelando súbitos interesses,
E através disto tudo, como uma coisa que inunda e nunca transborda,
O movimento, o movimento
Rápida coisa colorida e humana que passa e fica...
Os portos com navios parados.
Excessivamente navios parados,
Com barcos pequenos ao pé esperando...
A chegada pela manhã a cais ou a gares
Cheios de um silêncio repousado e claro!
Os primeiros passantes nas ruas das cidades a que se chega...
E o som especial que o correr das horas tem nas viagens...
Os ónibus ou os eléctricos ou os automóveis...
O novo aspecto das ruas de novas terras...
A paz que parecem ter para a nossa dor
O bulício alegre para a nossa tristeza
A falta de monotonia para o nosso coração cansado!...
As praças nitidamente quadradas e grandes,
As ruas com as casas que se aproximam ao fim,
As ruas transversais revelando súbitos interesses,
E através disto tudo, como uma coisa que inunda e nunca transborda,
O movimento, o movimento
Rápida coisa colorida e humana que passa e fica...
Os portos com navios parados.
Excessivamente navios parados,
Com barcos pequenos ao pé esperando...
1 356
Fernando Pessoa
Mas mesmo assim, de repente mas de vagar, de vagar,
Mas mesmo assim, de repente mas de vagar, de vagar,
Atravessando todas estas coisas modernas e presentes,
Vindo naturalmente através de todas estas coisas e estes ruídos,
Como se tudo isto fosse um vidro fosco transparente a essa luz,
Através do ruído dos guindastes, pelos interstícios do marulhar dos barcos,
Coando pelas frinchas dos assobios dos comboios,
Misteriosamente repassando, ensopando a faina das gentes,
Torna, através do moderno e do actual, a eterna voz marítima,
A eterna voz representativa das grandes coisas oceânicas,
Atravessando todas estas coisas modernas e presentes,
Vindo naturalmente através de todas estas coisas e estes ruídos,
Como se tudo isto fosse um vidro fosco transparente a essa luz,
Através do ruído dos guindastes, pelos interstícios do marulhar dos barcos,
Coando pelas frinchas dos assobios dos comboios,
Misteriosamente repassando, ensopando a faina das gentes,
Torna, através do moderno e do actual, a eterna voz marítima,
A eterna voz representativa das grandes coisas oceânicas,
1 372