Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
António Ramos Rosa
Jardim Sol
A lucidez é uma música da água
a respiração compreende sem imagens
Estamos dentro do incessante enigma
Somos a claridade do enigma
A facilidade é um rio
e um silêncio animal
Luz fácil
luz feliz
sol sem ruído jardim
sol
O caminho é uma pausa
o silêncio sem caminho
a respiração compreende sem imagens
Estamos dentro do incessante enigma
Somos a claridade do enigma
A facilidade é um rio
e um silêncio animal
Luz fácil
luz feliz
sol sem ruído jardim
sol
O caminho é uma pausa
o silêncio sem caminho
1 135
António Ramos Rosa
Mediadora da Ausência
O sol é uma noite suave.
Silencioso triunfo da noite e da nudez.
Cintilantes frutos erguem-se
do abismo. Serenidade fresca.
Reconheço um caminho entre dois reinos.
Jogos da elipse e do contíguo.
Puros relevos. Os negros emblemas
da luz. Os fósseis do rigor.
De que desolado fundo surge a árvore
ou o rosto? O arbitrário poder
das pedras. Ser sem qualidades,
consciência sem palavras.
Paciência na cor e na pedra
do ser. O esplendor dos sulcos brancos.
Abóbada de ausência, círculo do universo.
O que permanece ondula entre o verde e o vento.
Silencioso triunfo da noite e da nudez.
Cintilantes frutos erguem-se
do abismo. Serenidade fresca.
Reconheço um caminho entre dois reinos.
Jogos da elipse e do contíguo.
Puros relevos. Os negros emblemas
da luz. Os fósseis do rigor.
De que desolado fundo surge a árvore
ou o rosto? O arbitrário poder
das pedras. Ser sem qualidades,
consciência sem palavras.
Paciência na cor e na pedra
do ser. O esplendor dos sulcos brancos.
Abóbada de ausência, círculo do universo.
O que permanece ondula entre o verde e o vento.
551
António Ramos Rosa
Deixar Sem Caminho Até Ao Alcance
Deixar sem caminho até ao alcance
de não querer possuir
à deriva do silêncio
na súbita tranquilidade do vazio
em que a abertura nos abre e nos sustém.
de não querer possuir
à deriva do silêncio
na súbita tranquilidade do vazio
em que a abertura nos abre e nos sustém.
966
António Ramos Rosa
Não Há Termo Sobre
Não há termo sobre
o suporte diáfano.
Só a evidência nua do que sou
sem resistência quase, fluindo.
o suporte diáfano.
Só a evidência nua do que sou
sem resistência quase, fluindo.
1 150
António Ramos Rosa
Mediadora da Lucidez Espacial
Principia por
uma inclinação
leve
coincidência frágil
rumor aceso
de que silêncio outro?
entrar
escutar
onde não se erguem perguntas
em abandono límpido
num impulso de terra
em espacial lucidez.
uma inclinação
leve
coincidência frágil
rumor aceso
de que silêncio outro?
entrar
escutar
onde não se erguem perguntas
em abandono límpido
num impulso de terra
em espacial lucidez.
1 056
António Ramos Rosa
Mediadora do Inicial Constante
Fuga que restitui: ritmo
de cinzas. Obscuro
destino na aragem
das artérias.
O longínquo respira num corpo
de penumbra.
No alento se abre
o labirinto.
Visão do ilimite compacto.
Surge
o inicial constante.
Unidade vertical de um convertido abismo.
de cinzas. Obscuro
destino na aragem
das artérias.
O longínquo respira num corpo
de penumbra.
No alento se abre
o labirinto.
Visão do ilimite compacto.
Surge
o inicial constante.
Unidade vertical de um convertido abismo.
1 003
António Ramos Rosa
Generosa É a Lentidão Que Rasga
Generosa é a lentidão que rasga
o gesto que suporta de frente
a dimensão propícia do vazio.
O fundo pronuncia um animal de ternura.
o gesto que suporta de frente
a dimensão propícia do vazio.
O fundo pronuncia um animal de ternura.
975
António Ramos Rosa
No Vislumbre da Visão
No vislumbre da visão
o tacto do repouso a dispersão
do acaso e os campos de abandono
onde a nudez habita.
o tacto do repouso a dispersão
do acaso e os campos de abandono
onde a nudez habita.
1 123
António Ramos Rosa
O Que Súbito No Vértice Reconhece
O que súbito no vértice reconhece
o vazio navegável do instante.
o vazio navegável do instante.
1 137
António Ramos Rosa
É Um Rumor Apagado Talvez
É um rumor apagado talvez
a esquiva expansão de um corpo.
Viver seguindo este impulso ténue
através do esquecimento.
a esquiva expansão de um corpo.
Viver seguindo este impulso ténue
através do esquecimento.
632
António Ramos Rosa
Meditar a Pausa do Acaso Feliz
Meditar a pausa do acaso feliz.
Uma ordem dócil, subterrânea, fiel.
As formas ondulam na morada simples.
Uma efusão nasce do emergir de um mundo.
Uma ordem dócil, subterrânea, fiel.
As formas ondulam na morada simples.
Uma efusão nasce do emergir de um mundo.
985
António Ramos Rosa
O Que Desperta E É Um Reino Suave
O que desperta e é um reino suave
já sem máscaras vazio sombrio ainda
não há escolha para ser ali há a leveza
do que não existe a semelhança nasce.
já sem máscaras vazio sombrio ainda
não há escolha para ser ali há a leveza
do que não existe a semelhança nasce.
1 148
António Ramos Rosa
Nas Artérias da Atenção, o Rumor
Nas artérias da atenção, o rumor
do ínfimo, um tufo transparente
forma-se do que se perde
em atmosfera soberana e leve.
do ínfimo, um tufo transparente
forma-se do que se perde
em atmosfera soberana e leve.
1 085
António Ramos Rosa
Mais Que Superfície a Urdidura
Mais que superfície a urdidura
que se levanta e cai
e é cinza e sol no seu múltiplo limite.
que se levanta e cai
e é cinza e sol no seu múltiplo limite.
564
António Ramos Rosa
Não Querer Na Espera
Não querer na espera
até ao tácito oculto que interroga.
Arquear-se entre os arcos de água
até ao fundo e nascer flexível signo.
até ao tácito oculto que interroga.
Arquear-se entre os arcos de água
até ao fundo e nascer flexível signo.
1 029
António Ramos Rosa
Sem Desígnios Sem Pedir Transparências
Sem desígnios sem pedir transparências
procurar a estância nula.
Onde a afirmação sem fundo
onde secreta continua a linha
cuja vibração se esvai
até ao princípio onde se respira sem desígnios.
procurar a estância nula.
Onde a afirmação sem fundo
onde secreta continua a linha
cuja vibração se esvai
até ao princípio onde se respira sem desígnios.
1 082
António Ramos Rosa
No Abrigo Idêntico Ao Intacto Aceso,
No abrigo idêntico ao intacto aceso,
habitando o esplendor
da nudez material. Sentir
a morada íntegra, primeira
sobre o suporte imprescrutável.
habitando o esplendor
da nudez material. Sentir
a morada íntegra, primeira
sobre o suporte imprescrutável.
1 068
António Ramos Rosa
Tu Existes Na Lentidão de Um Círculo
Tu existes na lentidão de um círculo
numa latência imóvel. És uma
lâmpada que ilumina o início.
O ar rodeia-te e sulcas o inominado.
numa latência imóvel. És uma
lâmpada que ilumina o início.
O ar rodeia-te e sulcas o inominado.
1 095
António Ramos Rosa
Já Não Há Desespero Onde Desperta
Já não há desespero onde desperta
o sabor da atenção. A vigília
abre a estância à cabeleira clara.
Suave é a sombra do intacto arcano.
o sabor da atenção. A vigília
abre a estância à cabeleira clara.
Suave é a sombra do intacto arcano.
1 048
António Ramos Rosa
No Côncavo da Sombra Sem Domínio
No côncavo da sombra sem domínio
aderindo ao integral inominado
a inocência flui apagando o seu fluxo
na igualdade do incontido fundo.
aderindo ao integral inominado
a inocência flui apagando o seu fluxo
na igualdade do incontido fundo.
1 067
António Ramos Rosa
Saborear a Lenta Emanação
Saborear a lenta emanação
do limiar. Sorver a alteridade.
Abrir a luz com deslumbradas mãos.
Traçar a fugidia figura da origem.
do limiar. Sorver a alteridade.
Abrir a luz com deslumbradas mãos.
Traçar a fugidia figura da origem.
1 083
António Ramos Rosa
A Distância Que Nasce Na Frescura
A distância que nasce na frescura
da distorção fluida
todos os sinais são pontes para
o implantado segredo da espessura.
da distorção fluida
todos os sinais são pontes para
o implantado segredo da espessura.
1 098
António Ramos Rosa
Ruptura/Continuidade
Cansei-me não das palavras, nem da vida, cansei-me. Cansei-me da linguagem, não do real. Cansei-me da realidade, não da linguagem. Nunca me cansei, nunca pude cansar-me na (da) realidade. Impossível ter-me cansado se nunca caminhei sobre a língua, sobre a lande, sobre a glande. Que digo eu, que diz a linguagem? Diz a língua urgente, a beleza urgente a pique, a orientação viva? Que é o poema, que é a língua? Perguntas só por perguntar ou porque não há respostas, não há caminho, não há cama, não há coma? O que há é linguagem, é a visão de um ininteligível fragmento do real. Tu viajaste. Nunca saíste do teu quarto. Nunca viajaste no teu quarto. Ignoras o espaço, o eros do espaço. Ignoras o espaço. A linguagem apresenta-te, representa-te a árvore, a pedra, a água, o linho e a seda de um corpo, o rictus da máscara, o ritmo do real inatingível. A linguagem é um corpo vivo, mas também é eloquência, grandiloquência, verbo inflado, empolamento de útero sem nascimento, válvula de hemorragias. Cansaste-te não do sémen nem da disseminação (da utopia) da linguagem, mas das suas versões eloquentes, demasiado belas para poderem corresponder ao (quase) imperceptível murmúrio da realidade? A realidade é linguagem, a linguagem é realidade? Porque te emaranhas nos círculos do inferno cerebral? Não é a realidade que procuras, a realidade natural, a realidade animal, a realidade sensual? Sai, se puderes, deste poema vicioso, abre a janela (abre-a, se puderes) abre e respira. Respira a linguagem (do real), respira o poema (real), não, não podes respirar sem a linguagem, não podes abrir a janela sem romperes o cordão que te liga ao umbigo deste poema fétido que se cerra e que se abre mas que não é como uma pálpebra nem como um lábio, que não é nada, nada, nada, pois nem é um grito, nem uma gruta, nem uma trave, nem uma pedra. A linguagem desdiz tudo o que diz e desdizendo diz. É preciso apagar este poema, enterrá-lo na areia como um animal e que dele reste só a areia redemoinhando acima do focinho que tenta a sufocada respiração. Acima da respiração. A linguagem que respira é o verbo da erva, a palavra verde que murmura e nada diz se diz o nada, o imperceptível sorriso das coisas que não choraram, a alacridade eterna ( efémera) de uma chama, de um espaço, de um corpo.
1 176