Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Fernando Pessoa
Heia o quê? Heia porquê? Heia p’ra onde?
Heia o quê? Heia porquê? Heia p’ra onde?
Heia até onde?
Heia p’ra onde, corcel suposto?
Heia p’ra onde, comboio imaginário?
Heia p’ra onde, seta, pressa, velocidade
Todas só eu a penar por elas
Todas só eu a não tê-las por todos os meus nervos fora.
Heia p’ra onde, se não há onde nem como?
Heia p’ra onde, se estou sempre onde estou e nunca adiante
Nunca adiante, nem sequer atrás,
Mas sempre fatalissimamente no lugar do meu corpo,
Humanissimamente no ponto-pensar da minha alma,
Sempre o mesmo átomo indivisível da personalidade divina?
Heia p’ra onde ó tristeza de não realizar o que quero?
Heia p’ra onde, para quê, o quê, sem o quê?
Heia, heia, heia, mas ó minha incerteza, p’ra onde?
Não escrever versos, versos, versos a respeito do ferro,
Mas ver, ter, ser o ferro e ser isso os meus versos,
Versos — ferro — versos, círculo material-psíquico-eu
(quando parte o último comboio?)
Heia até onde?
Heia p’ra onde, corcel suposto?
Heia p’ra onde, comboio imaginário?
Heia p’ra onde, seta, pressa, velocidade
Todas só eu a penar por elas
Todas só eu a não tê-las por todos os meus nervos fora.
Heia p’ra onde, se não há onde nem como?
Heia p’ra onde, se estou sempre onde estou e nunca adiante
Nunca adiante, nem sequer atrás,
Mas sempre fatalissimamente no lugar do meu corpo,
Humanissimamente no ponto-pensar da minha alma,
Sempre o mesmo átomo indivisível da personalidade divina?
Heia p’ra onde ó tristeza de não realizar o que quero?
Heia p’ra onde, para quê, o quê, sem o quê?
Heia, heia, heia, mas ó minha incerteza, p’ra onde?
Não escrever versos, versos, versos a respeito do ferro,
Mas ver, ter, ser o ferro e ser isso os meus versos,
Versos — ferro — versos, círculo material-psíquico-eu
(quando parte o último comboio?)
1 365
Fernando Pessoa
SAUDAÇÃO [b]
Heia? Heia o quê e porquê?
O que tiro eu de heia! ou de qualquer coisa,
Que valha pensar em heia!?
Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos...
No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder,
E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio
Mas o Império finda nas nossas veias aguadas
E a Poesia foi a da nossa incompetência para agir...
Tu, cantador de profissões enérgicas, Tu o Poeta do Extremo, do Porto,
Tu, músculo da inspiração, com musas masculinas por destaque,
Tu, afinal, inocente em viva histeria,
Afinal apenas “acariciador da vida”,
Mole ocioso, paneleiro pelo menos na intenção,
— Bem... isso era contigo — mas onde é que aí está a Vida?
Eu, engenheiro como profissão, Farto de tudo e de todos,
Eu, exageradamente supérfluo, guerreando as coisas
Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral,
Bóia das minhas sensações desgarradas pelo temporal,
Âncora do meu navio já quebrada pr'ó fundo
Eu feito cantor da Vida e da Força — acreditas?
Eu, como tu, enérgico, salutar, nos versos —
E afinal sincero como tu, ardendo em ter toda a Europa no cérebro,
No cérebro explosivo e sem diques,
Na inteligência mestra e dinâmica,
Na sensualidade carimbo, projector, marca, cheque
P’ra que diabo vivemos, e fazemos versos?
Raios partam a mandriice que nos faz poetas,
A degenerescência que nos engana artistas,
O tédio fundamental que nos pretende enérgicos e modernos,
Quando o que queremos é distrair-nos, dar-nos ideia da vida
Porque nada fazemos e nada somos, a vida corre-nos lenta nas veias.
Vejamos ao menos, Walt, as coisas bem pela verdade...
Bebamos isto como um remédio amargo
E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida
Sem quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão
Isto, afinal é saudar-te?
Seja o que for, é saudar-te,
Seja o que valha, é amar-te,
Seja o que calhe, é concordar contigo...
Seja o que for é isto. E tu compreendes, tu gostas,
Tu, a chorar no meu ombro, concordas, meu velho, comigo —
(Quando parte o último comboio? —
Vilegiatura em Deus...)
Vamos, confiadamente, vamos...
Isto tudo deve ter um outro sentido
Melhor que viver e ter tudo...
Deve haver um ponto da consciência
Em que a paisagem se transforme
E comece a interessar-nos, a acudir-nos, a sacudir-nos...
Em que comece ti haver fresco na alma
E sol e campo nos sentidos despertos [...]
Seja onde for a Estação, lá nos encontraremos...
Espera-me à porta, Walt; lá estarei...
Lá estarei sem o universo, sem a vida, sem eu-próprio, sem nada...
E relembraremos, a sós, silenciosos, com a nossa dor
O grande absurdo do mundo, a dura inépcia das coisas
E sentirei, o mistério sentirei tão longe, tão longe, tão longe,
Tão absoluta e abstractamente longe,
Definitivamente longe.
O que tiro eu de heia! ou de qualquer coisa,
Que valha pensar em heia!?
Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos...
No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder,
E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio
Mas o Império finda nas nossas veias aguadas
E a Poesia foi a da nossa incompetência para agir...
Tu, cantador de profissões enérgicas, Tu o Poeta do Extremo, do Porto,
Tu, músculo da inspiração, com musas masculinas por destaque,
Tu, afinal, inocente em viva histeria,
Afinal apenas “acariciador da vida”,
Mole ocioso, paneleiro pelo menos na intenção,
— Bem... isso era contigo — mas onde é que aí está a Vida?
Eu, engenheiro como profissão, Farto de tudo e de todos,
Eu, exageradamente supérfluo, guerreando as coisas
Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral,
Bóia das minhas sensações desgarradas pelo temporal,
Âncora do meu navio já quebrada pr'ó fundo
Eu feito cantor da Vida e da Força — acreditas?
Eu, como tu, enérgico, salutar, nos versos —
E afinal sincero como tu, ardendo em ter toda a Europa no cérebro,
No cérebro explosivo e sem diques,
Na inteligência mestra e dinâmica,
Na sensualidade carimbo, projector, marca, cheque
P’ra que diabo vivemos, e fazemos versos?
Raios partam a mandriice que nos faz poetas,
A degenerescência que nos engana artistas,
O tédio fundamental que nos pretende enérgicos e modernos,
Quando o que queremos é distrair-nos, dar-nos ideia da vida
Porque nada fazemos e nada somos, a vida corre-nos lenta nas veias.
Vejamos ao menos, Walt, as coisas bem pela verdade...
Bebamos isto como um remédio amargo
E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida
Sem quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão
Isto, afinal é saudar-te?
Seja o que for, é saudar-te,
Seja o que valha, é amar-te,
Seja o que calhe, é concordar contigo...
Seja o que for é isto. E tu compreendes, tu gostas,
Tu, a chorar no meu ombro, concordas, meu velho, comigo —
(Quando parte o último comboio? —
Vilegiatura em Deus...)
Vamos, confiadamente, vamos...
Isto tudo deve ter um outro sentido
Melhor que viver e ter tudo...
Deve haver um ponto da consciência
Em que a paisagem se transforme
E comece a interessar-nos, a acudir-nos, a sacudir-nos...
Em que comece ti haver fresco na alma
E sol e campo nos sentidos despertos [...]
Seja onde for a Estação, lá nos encontraremos...
Espera-me à porta, Walt; lá estarei...
Lá estarei sem o universo, sem a vida, sem eu-próprio, sem nada...
E relembraremos, a sós, silenciosos, com a nossa dor
O grande absurdo do mundo, a dura inépcia das coisas
E sentirei, o mistério sentirei tão longe, tão longe, tão longe,
Tão absoluta e abstractamente longe,
Definitivamente longe.
1 555
Fernando Pessoa
Sonhos dentro de sonhos,
Sonhos dentro de sonhos,
Involuções do sonhar,
Os pensamentos são medonhos
Quando se querem aprofundar;
E os corações ficam tristonhos, tristonhos
Quando se sentem sentir pensar.
ilusões dentro d'ilusões
Atormentando o descrer;
Descrenças e crenças são ambas visões
São ambas sonhar, são ambas crer.
Involuções do sonhar,
Os pensamentos são medonhos
Quando se querem aprofundar;
E os corações ficam tristonhos, tristonhos
Quando se sentem sentir pensar.
ilusões dentro d'ilusões
Atormentando o descrer;
Descrenças e crenças são ambas visões
São ambas sonhar, são ambas crer.
1 454
Fernando Pessoa
(Antes do monólogo da treva)
(...) e alucinadas pré-sensações
Impelem-me, desvairam-me, ocupam
Tumultuariamente e ardentemente
O doloroso vácuo do meu ser.
Incapaz de pensar, apenas sinto
Um atropelamento do sentir
E confusões confusas, explosão
De tendências, desejos, ânsias, sonhos
Desatenuadamente dolorosos.
Impelem-me, desvairam-me, ocupam
Tumultuariamente e ardentemente
O doloroso vácuo do meu ser.
Incapaz de pensar, apenas sinto
Um atropelamento do sentir
E confusões confusas, explosão
De tendências, desejos, ânsias, sonhos
Desatenuadamente dolorosos.
883
Fernando Pessoa
Tantos poemas contemporâneos!
Tantos poemas contemporâneos!
Tantos poetas absolutamente de hoje —
Interessante tudo, interessantes todos...
Ah, mas é tudo quase...
É tudo vestíbulo
E tudo só para escrever.
Nem arte,
Nem ciência
Nem verdadeira nostalgia...
Este olhou bem o silêncio desse cipreste...
Esse viu bem o poente por trás do cipreste...
Este reparou bem na emoção que tudo isso daria...
Mas depois?...
Ah, meus poetas, meus poemas — e depois?
O pior é sempre o depois...
É que para dizer é preciso pensar —
Pensar com o segundo pensamento —
E vocês meus velhos, poetas e poemas,
Pensam só com a rapidez primária da asneira — é (...) e da pena —
Mais vale o clássico seguro.
Mais vale o soneto contente.
Mais vale qualquer coisa, ainda que má,
Que os arredores inconstruídos duma qualquer coisa boa...
"Tenho a minha alma!"
Não, não tens: tens a sensação dela.
Cuidado com a sensação.
Muitas vezes é dos outros,
E muitas vezes é nossa
Só pelo acidente estonteado de a sentirmos...
Tantos poetas absolutamente de hoje —
Interessante tudo, interessantes todos...
Ah, mas é tudo quase...
É tudo vestíbulo
E tudo só para escrever.
Nem arte,
Nem ciência
Nem verdadeira nostalgia...
Este olhou bem o silêncio desse cipreste...
Esse viu bem o poente por trás do cipreste...
Este reparou bem na emoção que tudo isso daria...
Mas depois?...
Ah, meus poetas, meus poemas — e depois?
O pior é sempre o depois...
É que para dizer é preciso pensar —
Pensar com o segundo pensamento —
E vocês meus velhos, poetas e poemas,
Pensam só com a rapidez primária da asneira — é (...) e da pena —
Mais vale o clássico seguro.
Mais vale o soneto contente.
Mais vale qualquer coisa, ainda que má,
Que os arredores inconstruídos duma qualquer coisa boa...
"Tenho a minha alma!"
Não, não tens: tens a sensação dela.
Cuidado com a sensação.
Muitas vezes é dos outros,
E muitas vezes é nossa
Só pelo acidente estonteado de a sentirmos...
1 635
Fernando Pessoa
Choro como a criança a quem falta a lua perto,
Choro como a criança a quem falta a lua perto,
Como o amante abandonado pela que não tem ainda,
Com o livro inexplícito do seu Reino por vir,
O que se julga em vão Motor,
Eixo do movimento dos espíritos,
Fulcro das ambições sombrias,
Auge dinâmico das tropas da ascensão,
Ou, mais claro e mais rápido,
ProtopIasma do mundo matemático do futuro!
Quem sou eu, afinal, por que te saúdo?
Quem com nome e língua e sem voz?
A labuta prostituta do [caldeamento?] de (...)
Nos altos fornos de mim!
Como o amante abandonado pela que não tem ainda,
Com o livro inexplícito do seu Reino por vir,
O que se julga em vão Motor,
Eixo do movimento dos espíritos,
Fulcro das ambições sombrias,
Auge dinâmico das tropas da ascensão,
Ou, mais claro e mais rápido,
ProtopIasma do mundo matemático do futuro!
Quem sou eu, afinal, por que te saúdo?
Quem com nome e língua e sem voz?
A labuta prostituta do [caldeamento?] de (...)
Nos altos fornos de mim!
946
Fernando Pessoa
THE WORLD OFFENDED
I said unto the world one day:
«I suspect thee of existence!»
And the world showed a smiled resistance
To what I did say.
«Let us go to court», he replied; «go we
Before a Court both wise and rare.
Let Reason one judge of our cause be;
Imagination be also there
And Feeling the judges our cause to hear.»
We went before the Court, and Reason
Said to me: «Thy crime is half‑treason!
The World's acquitted of what thou say'st:
Of existence 'tis guilty not.
This by the written code of Thought
In the pages of Unrest.»
(I was but in the costs condemned
Of the suit I lost as play;
But those, they leave me poor and yet
Are more than I can pay.)
«I suspect thee of existence!»
And the world showed a smiled resistance
To what I did say.
«Let us go to court», he replied; «go we
Before a Court both wise and rare.
Let Reason one judge of our cause be;
Imagination be also there
And Feeling the judges our cause to hear.»
We went before the Court, and Reason
Said to me: «Thy crime is half‑treason!
The World's acquitted of what thou say'st:
Of existence 'tis guilty not.
This by the written code of Thought
In the pages of Unrest.»
(I was but in the costs condemned
Of the suit I lost as play;
But those, they leave me poor and yet
Are more than I can pay.)
1 342
Fernando Pessoa
Então vindas d’Além de Deus
(Então vindas d’Além de Deus, como um arrepio, mesmo do Ser sem falar; insinuam-se no vácuo estas palavras:)
O INOMINÁVEL:
No meu abismo medonho
Se despenha mudamente
A catarata de sonho
Do mundo eterno e presente.
Formas e ideias eu bebo
E o mistério e horror do mundo
Silentemente recebo
No meu abismo profundo.
O Ser-em-si nem é o nome
Do meu ser inominável;
No meu mundo Maëlstrom,
O grande mundo inestável,
Como um suspiro se apaga,
E um silêncio mais que infindo
Acolhe o morrer da vaga
Que em mim se vai esvaindo.
O INOMINÁVEL:
No meu abismo medonho
Se despenha mudamente
A catarata de sonho
Do mundo eterno e presente.
Formas e ideias eu bebo
E o mistério e horror do mundo
Silentemente recebo
No meu abismo profundo.
O Ser-em-si nem é o nome
Do meu ser inominável;
No meu mundo Maëlstrom,
O grande mundo inestável,
Como um suspiro se apaga,
E um silêncio mais que infindo
Acolhe o morrer da vaga
Que em mim se vai esvaindo.
1 387
Fernando Pessoa
Quanto mais claro
Quanto mais claro
Vejo em mim, mais escuro é o que vejo.
Quanto mais compreendo mais,
Menos me sinto compreendido. Ó horror
Da vida paradoxal deste pensar...
Vejo em mim, mais escuro é o que vejo.
Quanto mais compreendo mais,
Menos me sinto compreendido. Ó horror
Da vida paradoxal deste pensar...
1 302
Fernando Pessoa
Como varia
Como varia
A sensualidade, a inteligência,
A vontade, o (...) de um a outro,
Assim varia em todos a intuição
Do universal mistério. Sentem todos
Uns vagamente, outros conscientemente
O mistério, mas eu mais do que todos.
A sensualidade, a inteligência,
A vontade, o (...) de um a outro,
Assim varia em todos a intuição
Do universal mistério. Sentem todos
Uns vagamente, outros conscientemente
O mistério, mas eu mais do que todos.
1 485
Fernando Pessoa
A morte — esse pior que tem por força que acontecer;
A morte — esse pior que tem por força que acontecer;
Esse cair para o fundo do poço sem fundo;
Esse escurecer universal para dentro;
Esse apocalipse da consciência , com a queda de todas as estrelas —
Isso que será meu um dia,
Um dia pertíssimo, pertíssimo,
Pinta de negro todas as minhas sensações,
E é areia sem corpo escorrendo-me por entre os dedos
O pensamento e a vida.
A gare no deserto, deserta;
O intérprete mudo;
O boneco humano sem olhos nem boca
Embandeirado a fogo-fátuo
Num mar que é só puro espaço
Sob um céu sacudido por relâmpagos pretos...
Sinistra singre, roída de vermes audíveis a quilha sentiente
E sejam os mastros dedos de âmbar, longuíssimos,
Apontando o vácuo das coisas (que é o abismo em tudo)...
As velas de um reposteiro vermelho lindo e baço
Se abram ao vento soprando de um buraco enorme sem fim,
E comecem, fora do tempo, uma viagem ao fim de tudo.
Estica um horror consciente no gemer dos cabos...
O ruído do ranger da madeira é dentro da alma...
O avanço velocíssimo é uma coisa que falta...
E se a vida é horizontal, isto dá-se verticalmente...
Esse cair para o fundo do poço sem fundo;
Esse escurecer universal para dentro;
Esse apocalipse da consciência , com a queda de todas as estrelas —
Isso que será meu um dia,
Um dia pertíssimo, pertíssimo,
Pinta de negro todas as minhas sensações,
E é areia sem corpo escorrendo-me por entre os dedos
O pensamento e a vida.
A gare no deserto, deserta;
O intérprete mudo;
O boneco humano sem olhos nem boca
Embandeirado a fogo-fátuo
Num mar que é só puro espaço
Sob um céu sacudido por relâmpagos pretos...
Sinistra singre, roída de vermes audíveis a quilha sentiente
E sejam os mastros dedos de âmbar, longuíssimos,
Apontando o vácuo das coisas (que é o abismo em tudo)...
As velas de um reposteiro vermelho lindo e baço
Se abram ao vento soprando de um buraco enorme sem fim,
E comecem, fora do tempo, uma viagem ao fim de tudo.
Estica um horror consciente no gemer dos cabos...
O ruído do ranger da madeira é dentro da alma...
O avanço velocíssimo é uma coisa que falta...
E se a vida é horizontal, isto dá-se verticalmente...
625
Fernando Pessoa
A PARTIDA [c]
A PARTIDA
E eu o complexo, eu o numeroso,
Eu a saturnália de todas as possibilidades,
Eu o quebrar do dique de todas as personalizações,
Eu o excessivo, eu o sucessivo, eu o (...)
Eu o prolixo até de continências e paragens,
Eu que tenho vivido através do meu sangue e dos meus nervos
Todas as sensibilidades correspondentes a rodas as metafísicas
Que tenho desembarcado em todos os portos da alma,
Passado em aeroplano sobre todas as terras do espírito,
Eu o explorador de todos os sertões do raciocínio,
O (...)
O criador de Weltanschauungen,
Pródigo semeador pela minha própria indiferença
De correntes de moderno todas diferentes
Todas no momento em que são concebidas verdades
Todas pessoas diferentes, todas eu-próprio apenas —
Eu morrerei assim? Não: o universo é grande
E tem possibilidade de coisas infinitas acontecerem.
Não: tudo é melhor e maior que nós o pensamos
E a morte revelará coisas absolutamente inéditas...
Deus será mais contente.
Salve, ó novas coisas, a acontecer-me quando eu morrer,
Nova mobilidade do universo a despontar no meu horizonte
Quando definitivamente
Como um vapor largando do cais para longa viagem,
Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma
Eu largado para X, perturbado pela partida
Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes,
Cheio de fé no Novo, de Crença limpa no Ultramar,
Eia — por aí fora, por esses mares internado,
À busca do meu futuro — nas terras, lagos e rios
Que ligam a redondeza da terra — todo o Universo —
Que oscila à vista. Eia por aí fora...
Ave atque vale, ó prodigioso Universo...
Haverá primeiro
Uma grande aceleração das sensações, um (...)
Com grandes dérapages nas estradas da minha consciência,
(...)
(E até à aterissage final do meu aero (...) )
Uma grande conglobação das sensações incontíguas,
Veloz silvo voraz do espaço entre a alma e Deus
Do meu (...)
Os meus estados de alma, de sucessivos, tornar-se-ão simultâneos,
Toda a minha individualidade se amarrotará num só ponto,
E quando, prestes a partir,
Tudo quanto vivo, e o que viverei para além do mundo,
Será fundido num só conjunto homogéneo e incandescente
E com um tal aumentar do ruído dos motores
Que se torna um ruído já não férreo, mas apenas abstracto,
Irei num silvo de sonho de velocidade pelo Incógnito fora
Deixando prados, paisagens, vilas dos dois lados
E cada vez mais no confim, nos longes do cognoscível,
Sulco de movimento no estaleiro das coisas,
Nova espécie de eternidade dinâmica ondeando através da eternidade estática —
s-s-s-ss-sss
z-z-z-z-z-z automóvel divino
E eu o complexo, eu o numeroso,
Eu a saturnália de todas as possibilidades,
Eu o quebrar do dique de todas as personalizações,
Eu o excessivo, eu o sucessivo, eu o (...)
Eu o prolixo até de continências e paragens,
Eu que tenho vivido através do meu sangue e dos meus nervos
Todas as sensibilidades correspondentes a rodas as metafísicas
Que tenho desembarcado em todos os portos da alma,
Passado em aeroplano sobre todas as terras do espírito,
Eu o explorador de todos os sertões do raciocínio,
O (...)
O criador de Weltanschauungen,
Pródigo semeador pela minha própria indiferença
De correntes de moderno todas diferentes
Todas no momento em que são concebidas verdades
Todas pessoas diferentes, todas eu-próprio apenas —
Eu morrerei assim? Não: o universo é grande
E tem possibilidade de coisas infinitas acontecerem.
Não: tudo é melhor e maior que nós o pensamos
E a morte revelará coisas absolutamente inéditas...
Deus será mais contente.
Salve, ó novas coisas, a acontecer-me quando eu morrer,
Nova mobilidade do universo a despontar no meu horizonte
Quando definitivamente
Como um vapor largando do cais para longa viagem,
Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma
Eu largado para X, perturbado pela partida
Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes,
Cheio de fé no Novo, de Crença limpa no Ultramar,
Eia — por aí fora, por esses mares internado,
À busca do meu futuro — nas terras, lagos e rios
Que ligam a redondeza da terra — todo o Universo —
Que oscila à vista. Eia por aí fora...
Ave atque vale, ó prodigioso Universo...
Haverá primeiro
Uma grande aceleração das sensações, um (...)
Com grandes dérapages nas estradas da minha consciência,
(...)
(E até à aterissage final do meu aero (...) )
Uma grande conglobação das sensações incontíguas,
Veloz silvo voraz do espaço entre a alma e Deus
Do meu (...)
Os meus estados de alma, de sucessivos, tornar-se-ão simultâneos,
Toda a minha individualidade se amarrotará num só ponto,
E quando, prestes a partir,
Tudo quanto vivo, e o que viverei para além do mundo,
Será fundido num só conjunto homogéneo e incandescente
E com um tal aumentar do ruído dos motores
Que se torna um ruído já não férreo, mas apenas abstracto,
Irei num silvo de sonho de velocidade pelo Incógnito fora
Deixando prados, paisagens, vilas dos dois lados
E cada vez mais no confim, nos longes do cognoscível,
Sulco de movimento no estaleiro das coisas,
Nova espécie de eternidade dinâmica ondeando através da eternidade estática —
s-s-s-ss-sss
z-z-z-z-z-z automóvel divino
4 989
Fernando Pessoa
Concordar não posso
Concordar não posso
Em que alguém mais do que eu tenha sentido
O mistério completo do universo
Completo e profundo.
Em que alguém mais do que eu tenha sentido
O mistério completo do universo
Completo e profundo.
1 328
Fernando Pessoa
Às vezes passam
Às vezes passam
Em mim relâmpagos do pensamento
Intuitivo e aprofundador
Que angustiadamente me revelam
Momentos dum mistério que apavora;
Duvidosos, deslembrados, confrangem-me
De terror que entontece o pensamento
E vagamente passa, e o meu ser volve
À escuridão e ao menor horror.
No sangue frio que nas veias minhas
Gira, no ar que sorvo, luz que vejo,
Circula, entra, nada-me uma dor;
E eu talvez à ternura outrora afeito
(Se o pensamento me não dominasse)
Sinto — como não sei — a alma mirrada
E pálida no ser.
Não é apenas, (...), o pensamento
Que assim me traz; é o pensamento fundo,
A consciência funda e absoluta
De todos os problemas minuciosos
Do mundo, transsentidos no meu ser.
Em mim relâmpagos do pensamento
Intuitivo e aprofundador
Que angustiadamente me revelam
Momentos dum mistério que apavora;
Duvidosos, deslembrados, confrangem-me
De terror que entontece o pensamento
E vagamente passa, e o meu ser volve
À escuridão e ao menor horror.
No sangue frio que nas veias minhas
Gira, no ar que sorvo, luz que vejo,
Circula, entra, nada-me uma dor;
E eu talvez à ternura outrora afeito
(Se o pensamento me não dominasse)
Sinto — como não sei — a alma mirrada
E pálida no ser.
Não é apenas, (...), o pensamento
Que assim me traz; é o pensamento fundo,
A consciência funda e absoluta
De todos os problemas minuciosos
Do mundo, transsentidos no meu ser.
1 254
Fernando Pessoa
A CRIME
Do you know the crime I committed
Nearly twenty years ago?
At that crime my heart is torn.
What my crime was do you know?
'T was the crime of being born.
And every day another crime
I commit, and ever have done
Up to now in the face of Time.
Do you know what crime this is?
'Tis the crime of living on.
Do you know what evil's disgrace
Has made an outcast's my lot
And sundered me from my race?
Do you know what crime is that?
'Tis the crime of having thought.
Nearly twenty years ago?
At that crime my heart is torn.
What my crime was do you know?
'T was the crime of being born.
And every day another crime
I commit, and ever have done
Up to now in the face of Time.
Do you know what crime this is?
'Tis the crime of living on.
Do you know what evil's disgrace
Has made an outcast's my lot
And sundered me from my race?
Do you know what crime is that?
'Tis the crime of having thought.
1 582
Fernando Pessoa
A QUESTION
«Tell me», one day to a poet said
A deep, brutal man,
«If you had to choose between seeing dead
Your wife whom you do love so well
And the loss complete, irreparable,
Of your verses all, instead -
Which loss would you rather feel?»
The poet glanced with sudden woe
And deep distress at him who so
Broke with a question ill‑foreseen
His inner silence half‑serene,
And he did not answer; and the other
Smiled, as elder to younger brother:
The tortured glance of startled sense
And sudden self‑knowledge intense
And newness of self‑consciousness
Was bitter, as ev'n he could guess.
More than a smile were violence.
A deep, brutal man,
«If you had to choose between seeing dead
Your wife whom you do love so well
And the loss complete, irreparable,
Of your verses all, instead -
Which loss would you rather feel?»
The poet glanced with sudden woe
And deep distress at him who so
Broke with a question ill‑foreseen
His inner silence half‑serene,
And he did not answer; and the other
Smiled, as elder to younger brother:
The tortured glance of startled sense
And sudden self‑knowledge intense
And newness of self‑consciousness
Was bitter, as ev'n he could guess.
More than a smile were violence.
1 585
Fernando Pessoa
Caminhamos sobre abismos
Caminhamos sobre abismos
Ai de quem o sente. A noite, uma noite funda
Cerca-nos, ai de quem conhece
Como ela é funda, como é inescrutável.
Pulsam-me as veias
Alucinadamente e um terror novo
Obtém-me, o terror de mim mesmo.
Ai de quem o sente. A noite, uma noite funda
Cerca-nos, ai de quem conhece
Como ela é funda, como é inescrutável.
Pulsam-me as veias
Alucinadamente e um terror novo
Obtém-me, o terror de mim mesmo.
1 427
Fernando Pessoa
A essência de mistério o seu horror
A essência de mistério o seu horror
Está não só em nada compreender
Mas em não saber porque nada se compreende.
Está não só em nada compreender
Mas em não saber porque nada se compreende.
1 340
Fernando Pessoa
A PARTIDA [a]
A PARTIDA
Agora que os dedos da Morte à roda da minha garganta
Sensivelmente começam a pressão definitiva...
E que tomo consciência exorbitando os meus olhos,
Olho p'ra trás de mim, reparo pelo passado fora
Vejo quem fui, e sobretudo quem não fui
Considero lucidamente o meu passado misto
E acho que houve um erro
Ou em eu viver ou em eu viver assim.
Será sempre que quando a Morte me entra no quarto
E fecha a porta a chave por dentro,
E a coisa é definitiva, inabalável,
Sem Cour de cassation para o meu destino findo,
Será sempre que, quando a meia-noite soa na vida
Uma exasperação de calma, uma lucidez indesejada
Acorda como uma coisa anterior à infância no meu partir?
Último arranco, extenuante clarão, de chama que a seguir se apaga
Frio esplendor do fogo de artifício antes da cinza completa,
Trovão máximo sobre as nossas cabeças, por onde
Se sabe que a trovoada, por estar [...], decresceu.
Viro-me para o passado.
Sinto-me ferir na carne.
Olho com essa espécie de alegria da lucidez completa
Para a falência instintiva que houve na minha vida
Vão apagar o último candeeiro
Na rua amanhecente de minha Alma!
Sinal de [..]
O último candeeiro que apagam!
Mas antes que eu veja a verdade, pressinto-a
Antes que a conheça, amo-a.
Viro-me para trás, para o passado, não [visiono? ];
Olho e o passado é uma espécie de futuro para mim.
Mestre, Alberto Caeiro, que eu conheci no princípio
E a quem depois abandonei como um espantalho reles,
Hoje reconheço o erro, e choro dentro de mim,
Choro com a alegria de ver a lucidez com que choro
E embandeiro em arco à minha morte e à minha falência sem fim,
Embandeiro em arco a descobri-la, só a saber quem ela é.
Ergo-me em fim das almofadas quase cómodas
E volto ao meu remorso sadio.
Agora que os dedos da Morte à roda da minha garganta
Sensivelmente começam a pressão definitiva...
E que tomo consciência exorbitando os meus olhos,
Olho p'ra trás de mim, reparo pelo passado fora
Vejo quem fui, e sobretudo quem não fui
Considero lucidamente o meu passado misto
E acho que houve um erro
Ou em eu viver ou em eu viver assim.
Será sempre que quando a Morte me entra no quarto
E fecha a porta a chave por dentro,
E a coisa é definitiva, inabalável,
Sem Cour de cassation para o meu destino findo,
Será sempre que, quando a meia-noite soa na vida
Uma exasperação de calma, uma lucidez indesejada
Acorda como uma coisa anterior à infância no meu partir?
Último arranco, extenuante clarão, de chama que a seguir se apaga
Frio esplendor do fogo de artifício antes da cinza completa,
Trovão máximo sobre as nossas cabeças, por onde
Se sabe que a trovoada, por estar [...], decresceu.
Viro-me para o passado.
Sinto-me ferir na carne.
Olho com essa espécie de alegria da lucidez completa
Para a falência instintiva que houve na minha vida
Vão apagar o último candeeiro
Na rua amanhecente de minha Alma!
Sinal de [..]
O último candeeiro que apagam!
Mas antes que eu veja a verdade, pressinto-a
Antes que a conheça, amo-a.
Viro-me para trás, para o passado, não [visiono? ];
Olho e o passado é uma espécie de futuro para mim.
Mestre, Alberto Caeiro, que eu conheci no princípio
E a quem depois abandonei como um espantalho reles,
Hoje reconheço o erro, e choro dentro de mim,
Choro com a alegria de ver a lucidez com que choro
E embandeiro em arco à minha morte e à minha falência sem fim,
Embandeiro em arco a descobri-la, só a saber quem ela é.
Ergo-me em fim das almofadas quase cómodas
E volto ao meu remorso sadio.
1 723
Fernando Pessoa
Quisera / Do pensamento e sentimento dessas
Quisera
Do pensamento e sentimento dessas
Almas ser testemunha subjectiva.
De que está cheia aquela vacuidade,
E em que pensam, se não pensam nunca.
Outro mistério — o de vários seres,
Formas talvez de um mesmo que os transcende,
Compreendendo-se (...) por serem
Profundamente o mesmo. E assim acrescendo-se
Assim (...) numa espécie
De egoísmo transcendental.
Do pensamento e sentimento dessas
Almas ser testemunha subjectiva.
De que está cheia aquela vacuidade,
E em que pensam, se não pensam nunca.
Outro mistério — o de vários seres,
Formas talvez de um mesmo que os transcende,
Compreendendo-se (...) por serem
Profundamente o mesmo. E assim acrescendo-se
Assim (...) numa espécie
De egoísmo transcendental.
1 307
Fernando Pessoa
Não é medo que faça estremecer
Não é medo que faça estremecer
Nem olhar trás de si, nem recear
Inda que vagamente incoerentemente...
Não tão humano horror: Este é o horror
Do mistério, do incompreendido.
Ah mas o estremecer do pensamento
É horroroso além de todo o horror.
Nem olhar trás de si, nem recear
Inda que vagamente incoerentemente...
Não tão humano horror: Este é o horror
Do mistério, do incompreendido.
Ah mas o estremecer do pensamento
É horroroso além de todo o horror.
1 336
Fernando Pessoa
Um dia / Pensei na fama e em mim o sonho veio
Um dia
Pensei na fama e em mim o sonho veio
Da glória: ver-me (...) e conhecido,
Ouvir em lábios belos o meu nome
E (...) querendo conhecer-me...
Mas isto, mal sonhado era, já trazia
Consigo um amargor estranho e (...)
Que explicar não podia e que não posso.
Antes de fama ter, tinha-lhe horror!
E eu desejava a fama a que temia.
É que sentia já talvez a vaga
Necessidade de fechar em mim
Toda a força do vivo pensamento
Que a palavra trai sempre. Mas era mais
Aquele horror à fama que eu amava
E que, querendo não podia qu'rer.
Era talvez um vago conhecer
Do vazio de tudo. Pois se a terra
Acabará, seus (...) e (...)
Com ela não acabarão? Não sei.
Talvez além do acabar exista
O haver o mistério (...) no Ser.
Não sei; sei só que um dia, num repente,
A abster-me decidi de fama e glória
Para... Mas para quê? Para pensar
Amarga e mudamente e, dia a dia,
Sentir verter em mim o fel
Da desolada desesperação.
Escrever, mas o que é que escreveria?
Se eu sei esta verdade; além do ser
Há o mistério; se sei esta e nenhuma outra,
Que verdade daria eu ao mundo?
E não dar-lhe verdade grão mal era.
Pensei na fama e em mim o sonho veio
Da glória: ver-me (...) e conhecido,
Ouvir em lábios belos o meu nome
E (...) querendo conhecer-me...
Mas isto, mal sonhado era, já trazia
Consigo um amargor estranho e (...)
Que explicar não podia e que não posso.
Antes de fama ter, tinha-lhe horror!
E eu desejava a fama a que temia.
É que sentia já talvez a vaga
Necessidade de fechar em mim
Toda a força do vivo pensamento
Que a palavra trai sempre. Mas era mais
Aquele horror à fama que eu amava
E que, querendo não podia qu'rer.
Era talvez um vago conhecer
Do vazio de tudo. Pois se a terra
Acabará, seus (...) e (...)
Com ela não acabarão? Não sei.
Talvez além do acabar exista
O haver o mistério (...) no Ser.
Não sei; sei só que um dia, num repente,
A abster-me decidi de fama e glória
Para... Mas para quê? Para pensar
Amarga e mudamente e, dia a dia,
Sentir verter em mim o fel
Da desolada desesperação.
Escrever, mas o que é que escreveria?
Se eu sei esta verdade; além do ser
Há o mistério; se sei esta e nenhuma outra,
Que verdade daria eu ao mundo?
E não dar-lhe verdade grão mal era.
1 356
Fernando Pessoa
Many an evil, many a bliss
Many an evil, many a bliss
Go to make existence' hell,
But the greatest evil of all is this:
To live and to know it well.
Since this from life at once we see
Thus simply gathered,
Must not the greatest bliss then be
To die and know oneself dead?
That's true, as far as I guess,
That's true and impossible,
As far as I know and tell.
So much for happiness!
Go to make existence' hell,
But the greatest evil of all is this:
To live and to know it well.
Since this from life at once we see
Thus simply gathered,
Must not the greatest bliss then be
To die and know oneself dead?
That's true, as far as I guess,
That's true and impossible,
As far as I know and tell.
So much for happiness!
1 246
Fernando Pessoa
Sou mais que o SER que transcende
Sou mais que o SER que transcende
Criatura e Criador.
Se esse SER ninguém entende,
Ele a mim e ao meu horror
Menos. Vida, pensamento,
Tudo o que nem se adivinha...
É tudo como um momento
Numa eternidade minha.
Mais que mundo e eternidade
Num, siIente cataclismo,
Mais que ideia, ser, verdade,
Acaba no meu abismo.
E essas águas que esvair
Se vêm ao meu profundo —
Ninguém as ouve a cair,
Nem eu me concebo um fundo.
Criatura e Criador.
Se esse SER ninguém entende,
Ele a mim e ao meu horror
Menos. Vida, pensamento,
Tudo o que nem se adivinha...
É tudo como um momento
Numa eternidade minha.
Mais que mundo e eternidade
Num, siIente cataclismo,
Mais que ideia, ser, verdade,
Acaba no meu abismo.
E essas águas que esvair
Se vêm ao meu profundo —
Ninguém as ouve a cair,
Nem eu me concebo um fundo.
1 263