Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Fernando Pessoa
III - Somos meninos de uma primavera
IIISomos meninos de uma primavera
De que alguém fez tijolos. Quando cismo
Tiro da cigarreira um misticismo
Que acendo e fumo como se o esquecera.
No teu ar de dormir nessa cadeira,
(Reparo agora, feito o exorcismo,
Que o terceiro soneto ergue do abismo)
És sempre a mesma, anónima — terceira...
Ó grande mar atlântico, desculpa!
Cuspi à tua beira três sonetos.
Sim, mas cuspi-os sobre a minha culpa.
Mulher, amor, [alcova?] — sois tercetos!.
Só vós ó mar e céu nos libertais,
Que qualquer trapo incógnito franjais
Sossego? Outrora? Ora adeus! Foi feita
No cárcere a Marília de Dirceu.
De realmente meu só tenho eu.
Pudesse eu pôr um dique ao que em mim espreita,
(No seu perfil de pálida imperfeita,
Recorte morto contra um vivo céu,
De que alguém fez tijolos. Quando cismo
Tiro da cigarreira um misticismo
Que acendo e fumo como se o esquecera.
No teu ar de dormir nessa cadeira,
(Reparo agora, feito o exorcismo,
Que o terceiro soneto ergue do abismo)
És sempre a mesma, anónima — terceira...
Ó grande mar atlântico, desculpa!
Cuspi à tua beira três sonetos.
Sim, mas cuspi-os sobre a minha culpa.
Mulher, amor, [alcova?] — sois tercetos!.
Só vós ó mar e céu nos libertais,
Que qualquer trapo incógnito franjais
Sossego? Outrora? Ora adeus! Foi feita
No cárcere a Marília de Dirceu.
De realmente meu só tenho eu.
Pudesse eu pôr um dique ao que em mim espreita,
(No seu perfil de pálida imperfeita,
Recorte morto contra um vivo céu,
1 122
Fernando Pessoa
Choro como a criança a quem falta a lua perto,
Choro como a criança a quem falta a lua perto,
Como o amante abandonado pela que não tem ainda,
Com o livro inexplícito do seu Reino por vir,
O que se julga em vão Motor,
Eixo do movimento dos espíritos,
Fulcro das ambições sombrias,
Auge dinâmico das tropas da ascensão,
Ou, mais claro e mais rápido,
ProtopIasma do mundo matemático do futuro!
Quem sou eu, afinal, por que te saúdo?
Quem com nome e língua e sem voz?
A labuta prostituta do [caldeamento?] de (...)
Nos altos fornos de mim!
Como o amante abandonado pela que não tem ainda,
Com o livro inexplícito do seu Reino por vir,
O que se julga em vão Motor,
Eixo do movimento dos espíritos,
Fulcro das ambições sombrias,
Auge dinâmico das tropas da ascensão,
Ou, mais claro e mais rápido,
ProtopIasma do mundo matemático do futuro!
Quem sou eu, afinal, por que te saúdo?
Quem com nome e língua e sem voz?
A labuta prostituta do [caldeamento?] de (...)
Nos altos fornos de mim!
953
Fernando Pessoa
... Mas eu não ouso. Ó horror e tortura
... Mas eu não ouso. Ó horror e tortura!
O transcendente horror de um ser humano!
Beijar na boca uma consciência, um ser humano!
Beijar na boca uma consciência, um ser,
O mistério encarnado em nu e sólido.
A nudez(...)
Há entre alma e alma um abismo. Saber
Que me está vendo uma alma em (...), nudez
E acto de amor!
Não a nudez da estátua,
Mas a nudez viva, cheia de olhar-me
Até que me apavoro de pensá-lo.
Nem tenho gestos para saber amar,
Nem alma para tirar ao mero-oco
Pensar aqueles gestos, o horror
Que vem de eles saberem a mistério.
O transcendente horror de um ser humano!
Beijar na boca uma consciência, um ser humano!
Beijar na boca uma consciência, um ser,
O mistério encarnado em nu e sólido.
A nudez(...)
Há entre alma e alma um abismo. Saber
Que me está vendo uma alma em (...), nudez
E acto de amor!
Não a nudez da estátua,
Mas a nudez viva, cheia de olhar-me
Até que me apavoro de pensá-lo.
Nem tenho gestos para saber amar,
Nem alma para tirar ao mero-oco
Pensar aqueles gestos, o horror
Que vem de eles saberem a mistério.
1 483
Fernando Pessoa
(Antes do monólogo da treva)
(...) e alucinadas pré-sensações
Impelem-me, desvairam-me, ocupam
Tumultuariamente e ardentemente
O doloroso vácuo do meu ser.
Incapaz de pensar, apenas sinto
Um atropelamento do sentir
E confusões confusas, explosão
De tendências, desejos, ânsias, sonhos
Desatenuadamente dolorosos.
Impelem-me, desvairam-me, ocupam
Tumultuariamente e ardentemente
O doloroso vácuo do meu ser.
Incapaz de pensar, apenas sinto
Um atropelamento do sentir
E confusões confusas, explosão
De tendências, desejos, ânsias, sonhos
Desatenuadamente dolorosos.
892
Fernando Pessoa
LUCIFER: Como quando o mortal, que a terra habita,
Como quando o mortal, que a terra habita,
Aprende que esse céu todo estrelado
É cheio de outros mundos, na infinita
Pluralidade do criado,
E um abismo se lhe abre na consciência
E uma realidade invisível gela,
Seu sentimento da existência,
E um novo ser-de-tudo se revela,
Assim, pensando e, a meu modo, vendo
Na interna imensidão do espaço abstracto,
Fui como deuses vários conhecendo,
Todos eternos e infinitos sendo,
Os astros.
E vi que Deus, se é tudo para o mundo,
Se a substância e o ser do nosso ser
Não é o único Deus mais que profundo.
Há infinitos de infinitos.
Por isso, Deus é eterno e infinito, e tudo,
Sim mesmo o tudo que é, Deus o transcende.
Porém muita ciência a mais ascende
Que a esse único Deus que a tudo excede.
Além do transcender-se que Deus é.
E ergui então a voz amargurada,
Porque o conhecimento transcendente
Deixa a alma exânime e gelada.
E clamei contra Deus o além-Deus,
Disse aos meus pares o segredo ominoso.
Eterno condenado, errarei sempre
Sempre maldito,
Porque este mundo (...)
Só sendo mais que Deus eu poderia
Transcender o infinito do infinito
E nascer para o inumerável dia...
Como, banido, o arqueiro Filoctetes
Sou só na alma porque vi o abismo.
Excluso eterno (...)
A vida pávida que cismo.
Sou morte, porque sei que o infinito,
É limitado, e assim Deus morre em mim.
Deus sabe que é uno, um e infinito,
Mas eu sei que Deus, sendo-o, não o é.
Mais longe que Deus vai meu ser proscrito.
Aprende que esse céu todo estrelado
É cheio de outros mundos, na infinita
Pluralidade do criado,
E um abismo se lhe abre na consciência
E uma realidade invisível gela,
Seu sentimento da existência,
E um novo ser-de-tudo se revela,
Assim, pensando e, a meu modo, vendo
Na interna imensidão do espaço abstracto,
Fui como deuses vários conhecendo,
Todos eternos e infinitos sendo,
Os astros.
E vi que Deus, se é tudo para o mundo,
Se a substância e o ser do nosso ser
Não é o único Deus mais que profundo.
Há infinitos de infinitos.
Por isso, Deus é eterno e infinito, e tudo,
Sim mesmo o tudo que é, Deus o transcende.
Porém muita ciência a mais ascende
Que a esse único Deus que a tudo excede.
Além do transcender-se que Deus é.
E ergui então a voz amargurada,
Porque o conhecimento transcendente
Deixa a alma exânime e gelada.
E clamei contra Deus o além-Deus,
Disse aos meus pares o segredo ominoso.
Eterno condenado, errarei sempre
Sempre maldito,
Porque este mundo (...)
Só sendo mais que Deus eu poderia
Transcender o infinito do infinito
E nascer para o inumerável dia...
Como, banido, o arqueiro Filoctetes
Sou só na alma porque vi o abismo.
Excluso eterno (...)
A vida pávida que cismo.
Sou morte, porque sei que o infinito,
É limitado, e assim Deus morre em mim.
Deus sabe que é uno, um e infinito,
Mas eu sei que Deus, sendo-o, não o é.
Mais longe que Deus vai meu ser proscrito.
1 451
Fernando Pessoa
As mortes
As mortes, o ruído, as violações, o sangue, o brilho das baionetas...
Todas estas coisas são uma só coisa e essa coisa sou Eu...
Todas estas coisas são uma só coisa e essa coisa sou Eu...
1 346
Fernando Pessoa
Never have I so deeply felt my exclusion from mankind.
Never have I so deeply felt my exclusion from mankind.
To one side the sane, to the other side the lame and the halt and the blind;
To one side the healthy, the good, the strong, those in life's prime,
To the other side the slaves of genius, of madness, of crime.
Build prisons and hospitals and Bedlams. To one side the glad,
To the other side the sickly, the stupid, the ill and the mad.
At no time have I felt so deep the gulf between me and men.
Is it idiocy, madness or crime, or genius - or what is this pain?
I have felt it to-day with full truth and have felt to remember it well:
I am one thrown aside ‑ a torturer and tortured in my being's hell;
Yet I asked not to live, nor had choice of my living's rotten worth,
I had no power on my life, nor am I guilty of my birth.
So I shall sing my song without hope, cheerless and forlorn,
That men may learn - at least they may laugh - to what some hearts are born;
Song all mystery, all symbols, contradictions in ignoble dance,
But that this is madness complete not the smallest ignorance;
Song all of tortures of soul, of a being's human abysm
And never a doubt but this is but raving egotism;
Song of evil, song of hate, song of revolt, song of love
Of Nature, of Mother Nature, the earth at my feet and the sky above;
Song of the hatred of customs, of creeds, of conventions, of institutions
Song of madness unpondering to human prostitutions;
Song of one that better were dead, song of one set aside,
Song of one that hell and earth conspired and combined to deride.
Peace! let the sane be set on that side and the mad on this side.
To one side the sane, to the other side the lame and the halt and the blind;
To one side the healthy, the good, the strong, those in life's prime,
To the other side the slaves of genius, of madness, of crime.
Build prisons and hospitals and Bedlams. To one side the glad,
To the other side the sickly, the stupid, the ill and the mad.
At no time have I felt so deep the gulf between me and men.
Is it idiocy, madness or crime, or genius - or what is this pain?
I have felt it to-day with full truth and have felt to remember it well:
I am one thrown aside ‑ a torturer and tortured in my being's hell;
Yet I asked not to live, nor had choice of my living's rotten worth,
I had no power on my life, nor am I guilty of my birth.
So I shall sing my song without hope, cheerless and forlorn,
That men may learn - at least they may laugh - to what some hearts are born;
Song all mystery, all symbols, contradictions in ignoble dance,
But that this is madness complete not the smallest ignorance;
Song all of tortures of soul, of a being's human abysm
And never a doubt but this is but raving egotism;
Song of evil, song of hate, song of revolt, song of love
Of Nature, of Mother Nature, the earth at my feet and the sky above;
Song of the hatred of customs, of creeds, of conventions, of institutions
Song of madness unpondering to human prostitutions;
Song of one that better were dead, song of one set aside,
Song of one that hell and earth conspired and combined to deride.
Peace! let the sane be set on that side and the mad on this side.
1 518
Fernando Pessoa
Diálogo na treva?
Cresce em mim uma onda de agonia
E de calado horror que surge e salta
Pelas cavernas fundas da minha alma
E em fissuras ocultas do meu ser
Aponta-as aparecendo, uma onda turva
Duma maré silenciosa e escura
Que cresce e ocupa-me e me afoga em mim.
Quero fugir-lhe e soerguer-me, abrir
Um voo e ela sobe-me, silente,
Em (...) naufragadora.
Cresce em mim e eu transido desse horror
Vejo sempre mais perto do que cria
Sempre em remotas dobras elevando-se
Das solidões do meu ser e cada vez
Mais dentro em mim.
Sois um desejo, uma ânsia, uma agonia?
O que quereis, que me impelis subindo
Não sei para que horror velando um fim?
Para que sou eu vosso? Aonde levais
Esta alma que só sabe resistir? Ergueis-me
Em guerra contra o ser, e eu odeio
O que vejo em minha frente, O Imediato.
Por isso, oh mares, sóis, estrelas, ventos,
Oh enigmas parados numa vida
De enigmas cheia desprendidamente,
Eu dou-vos vida só para odiar-vos,
Eu não sou vosso. Deste dia avante
Sou o inimigo de ser, sou o hórrido,
(...)
O crime eterno de não ter razão
De existir e fitar-me. Digo adeus
A tudo que se pode amar ou crer,
A tudo que na terra vive ou dorme.
Cousas com um sol exterior vão [...]
Eu faço-vos escuras do meu ódio.
Caia uma treva imensa na minh’alma
Para com tudo, seja eu a noite,
Esquecendo-se em ser.
Sobe,
Avassala-me, túrbida corrente,
Mas tu e eu em ti. Ciência,
Eu substituo-vos a escuridão
Da essência do meu ser e vosso ser.
E de calado horror que surge e salta
Pelas cavernas fundas da minha alma
E em fissuras ocultas do meu ser
Aponta-as aparecendo, uma onda turva
Duma maré silenciosa e escura
Que cresce e ocupa-me e me afoga em mim.
Quero fugir-lhe e soerguer-me, abrir
Um voo e ela sobe-me, silente,
Em (...) naufragadora.
Cresce em mim e eu transido desse horror
Vejo sempre mais perto do que cria
Sempre em remotas dobras elevando-se
Das solidões do meu ser e cada vez
Mais dentro em mim.
Sois um desejo, uma ânsia, uma agonia?
O que quereis, que me impelis subindo
Não sei para que horror velando um fim?
Para que sou eu vosso? Aonde levais
Esta alma que só sabe resistir? Ergueis-me
Em guerra contra o ser, e eu odeio
O que vejo em minha frente, O Imediato.
Por isso, oh mares, sóis, estrelas, ventos,
Oh enigmas parados numa vida
De enigmas cheia desprendidamente,
Eu dou-vos vida só para odiar-vos,
Eu não sou vosso. Deste dia avante
Sou o inimigo de ser, sou o hórrido,
(...)
O crime eterno de não ter razão
De existir e fitar-me. Digo adeus
A tudo que se pode amar ou crer,
A tudo que na terra vive ou dorme.
Cousas com um sol exterior vão [...]
Eu faço-vos escuras do meu ódio.
Caia uma treva imensa na minh’alma
Para com tudo, seja eu a noite,
Esquecendo-se em ser.
Sobe,
Avassala-me, túrbida corrente,
Mas tu e eu em ti. Ciência,
Eu substituo-vos a escuridão
Da essência do meu ser e vosso ser.
1 365
Fernando Pessoa
Seja: / Já que este audaz e imenso pensamento
Seja:
Já que este audaz e imenso pensamento
Me desliga de tudo e me faz negro
Estranho e alheio à existência humana,
O riso, o pranto, o amor,
Visto que tudo me é estranho e outro
E eu isolado estou, já que não sei
Onde a causa ou a essência disto tudo,
Já que conheço que essa íntima essência
Foge do nosso sentimento e que eu
Não a posso odiar, amar, sentir-me
Para com ela,
Odeie o que odiar eu possa, odeie
Este universo todo, de que sou
Isolado, arrancado, desligado,
Com que doridamente coexisto
Sem o compreender nem conceber
Nem amar. Suba a ele o meu ódio.
Sóis, estrelas, natureza inteira
Sou vosso inimigo d’alma todo
(...) o meu ódio todo contra vós.
Só de o dizer sinto-me mais frio e negro
Na consciência de mim. Se ainda nutro
Resto ou lembrança de alegria ou dor
Renego-a e tomo sobre mim o luto
Do [...] ódio infinito
Ao universo inteiro.
Para quê
Nascer homem, (...)
(...) em mim
Os meios e (...) de sentir (
Cérebro e coração e sangue e vida (
E achar-me longe, negramente longe
Do sentimento?
Já que este audaz e imenso pensamento
Me desliga de tudo e me faz negro
Estranho e alheio à existência humana,
O riso, o pranto, o amor,
Visto que tudo me é estranho e outro
E eu isolado estou, já que não sei
Onde a causa ou a essência disto tudo,
Já que conheço que essa íntima essência
Foge do nosso sentimento e que eu
Não a posso odiar, amar, sentir-me
Para com ela,
Odeie o que odiar eu possa, odeie
Este universo todo, de que sou
Isolado, arrancado, desligado,
Com que doridamente coexisto
Sem o compreender nem conceber
Nem amar. Suba a ele o meu ódio.
Sóis, estrelas, natureza inteira
Sou vosso inimigo d’alma todo
(...) o meu ódio todo contra vós.
Só de o dizer sinto-me mais frio e negro
Na consciência de mim. Se ainda nutro
Resto ou lembrança de alegria ou dor
Renego-a e tomo sobre mim o luto
Do [...] ódio infinito
Ao universo inteiro.
Para quê
Nascer homem, (...)
(...) em mim
Os meios e (...) de sentir (
Cérebro e coração e sangue e vida (
E achar-me longe, negramente longe
Do sentimento?
835
Fernando Pessoa
Concordar não posso
Concordar não posso
Em que alguém mais do que eu tenha sentido
O mistério completo do universo
Completo e profundo.
Em que alguém mais do que eu tenha sentido
O mistério completo do universo
Completo e profundo.
1 332
Fernando Pessoa
Como varia
Como varia
A sensualidade, a inteligência,
A vontade, o (...) de um a outro,
Assim varia em todos a intuição
Do universal mistério. Sentem todos
Uns vagamente, outros conscientemente
O mistério, mas eu mais do que todos.
A sensualidade, a inteligência,
A vontade, o (...) de um a outro,
Assim varia em todos a intuição
Do universal mistério. Sentem todos
Uns vagamente, outros conscientemente
O mistério, mas eu mais do que todos.
1 501
Fernando Pessoa
Os mistérios profundos e horrorosos;
Os mistérios profundos e horrorosos;
Haver isto que há, este ser
E haver um ser, maior horror ainda
De poucos, ou dum só, compreendido.
E haver eu ser eu.
Haver isto que há, este ser
E haver um ser, maior horror ainda
De poucos, ou dum só, compreendido.
E haver eu ser eu.
916
Fernando Pessoa
A morte — esse pior que tem por força que acontecer;
A morte — esse pior que tem por força que acontecer;
Esse cair para o fundo do poço sem fundo;
Esse escurecer universal para dentro;
Esse apocalipse da consciência , com a queda de todas as estrelas —
Isso que será meu um dia,
Um dia pertíssimo, pertíssimo,
Pinta de negro todas as minhas sensações,
E é areia sem corpo escorrendo-me por entre os dedos
O pensamento e a vida.
A gare no deserto, deserta;
O intérprete mudo;
O boneco humano sem olhos nem boca
Embandeirado a fogo-fátuo
Num mar que é só puro espaço
Sob um céu sacudido por relâmpagos pretos...
Sinistra singre, roída de vermes audíveis a quilha sentiente
E sejam os mastros dedos de âmbar, longuíssimos,
Apontando o vácuo das coisas (que é o abismo em tudo)...
As velas de um reposteiro vermelho lindo e baço
Se abram ao vento soprando de um buraco enorme sem fim,
E comecem, fora do tempo, uma viagem ao fim de tudo.
Estica um horror consciente no gemer dos cabos...
O ruído do ranger da madeira é dentro da alma...
O avanço velocíssimo é uma coisa que falta...
E se a vida é horizontal, isto dá-se verticalmente...
Esse cair para o fundo do poço sem fundo;
Esse escurecer universal para dentro;
Esse apocalipse da consciência , com a queda de todas as estrelas —
Isso que será meu um dia,
Um dia pertíssimo, pertíssimo,
Pinta de negro todas as minhas sensações,
E é areia sem corpo escorrendo-me por entre os dedos
O pensamento e a vida.
A gare no deserto, deserta;
O intérprete mudo;
O boneco humano sem olhos nem boca
Embandeirado a fogo-fátuo
Num mar que é só puro espaço
Sob um céu sacudido por relâmpagos pretos...
Sinistra singre, roída de vermes audíveis a quilha sentiente
E sejam os mastros dedos de âmbar, longuíssimos,
Apontando o vácuo das coisas (que é o abismo em tudo)...
As velas de um reposteiro vermelho lindo e baço
Se abram ao vento soprando de um buraco enorme sem fim,
E comecem, fora do tempo, uma viagem ao fim de tudo.
Estica um horror consciente no gemer dos cabos...
O ruído do ranger da madeira é dentro da alma...
O avanço velocíssimo é uma coisa que falta...
E se a vida é horizontal, isto dá-se verticalmente...
633
Fernando Pessoa
Não é medo que faça estremecer
Não é medo que faça estremecer
Nem olhar trás de si, nem recear
Inda que vagamente incoerentemente...
Não tão humano horror: Este é o horror
Do mistério, do incompreendido.
Ah mas o estremecer do pensamento
É horroroso além de todo o horror.
Nem olhar trás de si, nem recear
Inda que vagamente incoerentemente...
Não tão humano horror: Este é o horror
Do mistério, do incompreendido.
Ah mas o estremecer do pensamento
É horroroso além de todo o horror.
1 343
Fernando Pessoa
Outr'ora quis a fama — e não a quis,
Outrora quis a fama — e não a quis,
Que a fama, a popularidade, o ser
Conhecido, falado — quando não visto —
Confrange-me dum terror que não compreendo.
Violação do meu ser se me aparenta
Um desvergonhamento, não sei como.
Hoje um desgosto imenso e (...)
D'altos fins e de empresas elevadas
Boceja-me no espírito turvado
(No) coração vago de não sentir.
Que a fama, a popularidade, o ser
Conhecido, falado — quando não visto —
Confrange-me dum terror que não compreendo.
Violação do meu ser se me aparenta
Um desvergonhamento, não sei como.
Hoje um desgosto imenso e (...)
D'altos fins e de empresas elevadas
Boceja-me no espírito turvado
(No) coração vago de não sentir.
1 037
Fernando Pessoa
Então vindas d’Além de Deus
(Então vindas d’Além de Deus, como um arrepio, mesmo do Ser sem falar; insinuam-se no vácuo estas palavras:)
O INOMINÁVEL:
No meu abismo medonho
Se despenha mudamente
A catarata de sonho
Do mundo eterno e presente.
Formas e ideias eu bebo
E o mistério e horror do mundo
Silentemente recebo
No meu abismo profundo.
O Ser-em-si nem é o nome
Do meu ser inominável;
No meu mundo Maëlstrom,
O grande mundo inestável,
Como um suspiro se apaga,
E um silêncio mais que infindo
Acolhe o morrer da vaga
Que em mim se vai esvaindo.
O INOMINÁVEL:
No meu abismo medonho
Se despenha mudamente
A catarata de sonho
Do mundo eterno e presente.
Formas e ideias eu bebo
E o mistério e horror do mundo
Silentemente recebo
No meu abismo profundo.
O Ser-em-si nem é o nome
Do meu ser inominável;
No meu mundo Maëlstrom,
O grande mundo inestável,
Como um suspiro se apaga,
E um silêncio mais que infindo
Acolhe o morrer da vaga
Que em mim se vai esvaindo.
1 394
Fernando Pessoa
SAUDAÇÃO [b]
Heia? Heia o quê e porquê?
O que tiro eu de heia! ou de qualquer coisa,
Que valha pensar em heia!?
Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos...
No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder,
E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio
Mas o Império finda nas nossas veias aguadas
E a Poesia foi a da nossa incompetência para agir...
Tu, cantador de profissões enérgicas, Tu o Poeta do Extremo, do Porto,
Tu, músculo da inspiração, com musas masculinas por destaque,
Tu, afinal, inocente em viva histeria,
Afinal apenas “acariciador da vida”,
Mole ocioso, paneleiro pelo menos na intenção,
— Bem... isso era contigo — mas onde é que aí está a Vida?
Eu, engenheiro como profissão, Farto de tudo e de todos,
Eu, exageradamente supérfluo, guerreando as coisas
Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral,
Bóia das minhas sensações desgarradas pelo temporal,
Âncora do meu navio já quebrada pr'ó fundo
Eu feito cantor da Vida e da Força — acreditas?
Eu, como tu, enérgico, salutar, nos versos —
E afinal sincero como tu, ardendo em ter toda a Europa no cérebro,
No cérebro explosivo e sem diques,
Na inteligência mestra e dinâmica,
Na sensualidade carimbo, projector, marca, cheque
P’ra que diabo vivemos, e fazemos versos?
Raios partam a mandriice que nos faz poetas,
A degenerescência que nos engana artistas,
O tédio fundamental que nos pretende enérgicos e modernos,
Quando o que queremos é distrair-nos, dar-nos ideia da vida
Porque nada fazemos e nada somos, a vida corre-nos lenta nas veias.
Vejamos ao menos, Walt, as coisas bem pela verdade...
Bebamos isto como um remédio amargo
E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida
Sem quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão
Isto, afinal é saudar-te?
Seja o que for, é saudar-te,
Seja o que valha, é amar-te,
Seja o que calhe, é concordar contigo...
Seja o que for é isto. E tu compreendes, tu gostas,
Tu, a chorar no meu ombro, concordas, meu velho, comigo —
(Quando parte o último comboio? —
Vilegiatura em Deus...)
Vamos, confiadamente, vamos...
Isto tudo deve ter um outro sentido
Melhor que viver e ter tudo...
Deve haver um ponto da consciência
Em que a paisagem se transforme
E comece a interessar-nos, a acudir-nos, a sacudir-nos...
Em que comece ti haver fresco na alma
E sol e campo nos sentidos despertos [...]
Seja onde for a Estação, lá nos encontraremos...
Espera-me à porta, Walt; lá estarei...
Lá estarei sem o universo, sem a vida, sem eu-próprio, sem nada...
E relembraremos, a sós, silenciosos, com a nossa dor
O grande absurdo do mundo, a dura inépcia das coisas
E sentirei, o mistério sentirei tão longe, tão longe, tão longe,
Tão absoluta e abstractamente longe,
Definitivamente longe.
O que tiro eu de heia! ou de qualquer coisa,
Que valha pensar em heia!?
Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos...
No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder,
E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio
Mas o Império finda nas nossas veias aguadas
E a Poesia foi a da nossa incompetência para agir...
Tu, cantador de profissões enérgicas, Tu o Poeta do Extremo, do Porto,
Tu, músculo da inspiração, com musas masculinas por destaque,
Tu, afinal, inocente em viva histeria,
Afinal apenas “acariciador da vida”,
Mole ocioso, paneleiro pelo menos na intenção,
— Bem... isso era contigo — mas onde é que aí está a Vida?
Eu, engenheiro como profissão, Farto de tudo e de todos,
Eu, exageradamente supérfluo, guerreando as coisas
Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral,
Bóia das minhas sensações desgarradas pelo temporal,
Âncora do meu navio já quebrada pr'ó fundo
Eu feito cantor da Vida e da Força — acreditas?
Eu, como tu, enérgico, salutar, nos versos —
E afinal sincero como tu, ardendo em ter toda a Europa no cérebro,
No cérebro explosivo e sem diques,
Na inteligência mestra e dinâmica,
Na sensualidade carimbo, projector, marca, cheque
P’ra que diabo vivemos, e fazemos versos?
Raios partam a mandriice que nos faz poetas,
A degenerescência que nos engana artistas,
O tédio fundamental que nos pretende enérgicos e modernos,
Quando o que queremos é distrair-nos, dar-nos ideia da vida
Porque nada fazemos e nada somos, a vida corre-nos lenta nas veias.
Vejamos ao menos, Walt, as coisas bem pela verdade...
Bebamos isto como um remédio amargo
E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida
Sem quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão
Isto, afinal é saudar-te?
Seja o que for, é saudar-te,
Seja o que valha, é amar-te,
Seja o que calhe, é concordar contigo...
Seja o que for é isto. E tu compreendes, tu gostas,
Tu, a chorar no meu ombro, concordas, meu velho, comigo —
(Quando parte o último comboio? —
Vilegiatura em Deus...)
Vamos, confiadamente, vamos...
Isto tudo deve ter um outro sentido
Melhor que viver e ter tudo...
Deve haver um ponto da consciência
Em que a paisagem se transforme
E comece a interessar-nos, a acudir-nos, a sacudir-nos...
Em que comece ti haver fresco na alma
E sol e campo nos sentidos despertos [...]
Seja onde for a Estação, lá nos encontraremos...
Espera-me à porta, Walt; lá estarei...
Lá estarei sem o universo, sem a vida, sem eu-próprio, sem nada...
E relembraremos, a sós, silenciosos, com a nossa dor
O grande absurdo do mundo, a dura inépcia das coisas
E sentirei, o mistério sentirei tão longe, tão longe, tão longe,
Tão absoluta e abstractamente longe,
Definitivamente longe.
1 565
Fernando Pessoa
Quisera / Do pensamento e sentimento dessas
Quisera
Do pensamento e sentimento dessas
Almas ser testemunha subjectiva.
De que está cheia aquela vacuidade,
E em que pensam, se não pensam nunca.
Outro mistério — o de vários seres,
Formas talvez de um mesmo que os transcende,
Compreendendo-se (...) por serem
Profundamente o mesmo. E assim acrescendo-se
Assim (...) numa espécie
De egoísmo transcendental.
Do pensamento e sentimento dessas
Almas ser testemunha subjectiva.
De que está cheia aquela vacuidade,
E em que pensam, se não pensam nunca.
Outro mistério — o de vários seres,
Formas talvez de um mesmo que os transcende,
Compreendendo-se (...) por serem
Profundamente o mesmo. E assim acrescendo-se
Assim (...) numa espécie
De egoísmo transcendental.
1 312
Fernando Pessoa
Tantos poemas contemporâneos!
Tantos poemas contemporâneos!
Tantos poetas absolutamente de hoje —
Interessante tudo, interessantes todos...
Ah, mas é tudo quase...
É tudo vestíbulo
E tudo só para escrever.
Nem arte,
Nem ciência
Nem verdadeira nostalgia...
Este olhou bem o silêncio desse cipreste...
Esse viu bem o poente por trás do cipreste...
Este reparou bem na emoção que tudo isso daria...
Mas depois?...
Ah, meus poetas, meus poemas — e depois?
O pior é sempre o depois...
É que para dizer é preciso pensar —
Pensar com o segundo pensamento —
E vocês meus velhos, poetas e poemas,
Pensam só com a rapidez primária da asneira — é (...) e da pena —
Mais vale o clássico seguro.
Mais vale o soneto contente.
Mais vale qualquer coisa, ainda que má,
Que os arredores inconstruídos duma qualquer coisa boa...
"Tenho a minha alma!"
Não, não tens: tens a sensação dela.
Cuidado com a sensação.
Muitas vezes é dos outros,
E muitas vezes é nossa
Só pelo acidente estonteado de a sentirmos...
Tantos poetas absolutamente de hoje —
Interessante tudo, interessantes todos...
Ah, mas é tudo quase...
É tudo vestíbulo
E tudo só para escrever.
Nem arte,
Nem ciência
Nem verdadeira nostalgia...
Este olhou bem o silêncio desse cipreste...
Esse viu bem o poente por trás do cipreste...
Este reparou bem na emoção que tudo isso daria...
Mas depois?...
Ah, meus poetas, meus poemas — e depois?
O pior é sempre o depois...
É que para dizer é preciso pensar —
Pensar com o segundo pensamento —
E vocês meus velhos, poetas e poemas,
Pensam só com a rapidez primária da asneira — é (...) e da pena —
Mais vale o clássico seguro.
Mais vale o soneto contente.
Mais vale qualquer coisa, ainda que má,
Que os arredores inconstruídos duma qualquer coisa boa...
"Tenho a minha alma!"
Não, não tens: tens a sensação dela.
Cuidado com a sensação.
Muitas vezes é dos outros,
E muitas vezes é nossa
Só pelo acidente estonteado de a sentirmos...
1 651
Fernando Pessoa
A essência de mistério o seu horror
A essência de mistério o seu horror
Está não só em nada compreender
Mas em não saber porque nada se compreende.
Está não só em nada compreender
Mas em não saber porque nada se compreende.
1 354
Fernando Pessoa
THE WORLD OFFENDED
I said unto the world one day:
«I suspect thee of existence!»
And the world showed a smiled resistance
To what I did say.
«Let us go to court», he replied; «go we
Before a Court both wise and rare.
Let Reason one judge of our cause be;
Imagination be also there
And Feeling the judges our cause to hear.»
We went before the Court, and Reason
Said to me: «Thy crime is half‑treason!
The World's acquitted of what thou say'st:
Of existence 'tis guilty not.
This by the written code of Thought
In the pages of Unrest.»
(I was but in the costs condemned
Of the suit I lost as play;
But those, they leave me poor and yet
Are more than I can pay.)
«I suspect thee of existence!»
And the world showed a smiled resistance
To what I did say.
«Let us go to court», he replied; «go we
Before a Court both wise and rare.
Let Reason one judge of our cause be;
Imagination be also there
And Feeling the judges our cause to hear.»
We went before the Court, and Reason
Said to me: «Thy crime is half‑treason!
The World's acquitted of what thou say'st:
Of existence 'tis guilty not.
This by the written code of Thought
In the pages of Unrest.»
(I was but in the costs condemned
Of the suit I lost as play;
But those, they leave me poor and yet
Are more than I can pay.)
1 351
Fernando Pessoa
Um dia / Pensei na fama e em mim o sonho veio
Um dia
Pensei na fama e em mim o sonho veio
Da glória: ver-me (...) e conhecido,
Ouvir em lábios belos o meu nome
E (...) querendo conhecer-me...
Mas isto, mal sonhado era, já trazia
Consigo um amargor estranho e (...)
Que explicar não podia e que não posso.
Antes de fama ter, tinha-lhe horror!
E eu desejava a fama a que temia.
É que sentia já talvez a vaga
Necessidade de fechar em mim
Toda a força do vivo pensamento
Que a palavra trai sempre. Mas era mais
Aquele horror à fama que eu amava
E que, querendo não podia qu'rer.
Era talvez um vago conhecer
Do vazio de tudo. Pois se a terra
Acabará, seus (...) e (...)
Com ela não acabarão? Não sei.
Talvez além do acabar exista
O haver o mistério (...) no Ser.
Não sei; sei só que um dia, num repente,
A abster-me decidi de fama e glória
Para... Mas para quê? Para pensar
Amarga e mudamente e, dia a dia,
Sentir verter em mim o fel
Da desolada desesperação.
Escrever, mas o que é que escreveria?
Se eu sei esta verdade; além do ser
Há o mistério; se sei esta e nenhuma outra,
Que verdade daria eu ao mundo?
E não dar-lhe verdade grão mal era.
Pensei na fama e em mim o sonho veio
Da glória: ver-me (...) e conhecido,
Ouvir em lábios belos o meu nome
E (...) querendo conhecer-me...
Mas isto, mal sonhado era, já trazia
Consigo um amargor estranho e (...)
Que explicar não podia e que não posso.
Antes de fama ter, tinha-lhe horror!
E eu desejava a fama a que temia.
É que sentia já talvez a vaga
Necessidade de fechar em mim
Toda a força do vivo pensamento
Que a palavra trai sempre. Mas era mais
Aquele horror à fama que eu amava
E que, querendo não podia qu'rer.
Era talvez um vago conhecer
Do vazio de tudo. Pois se a terra
Acabará, seus (...) e (...)
Com ela não acabarão? Não sei.
Talvez além do acabar exista
O haver o mistério (...) no Ser.
Não sei; sei só que um dia, num repente,
A abster-me decidi de fama e glória
Para... Mas para quê? Para pensar
Amarga e mudamente e, dia a dia,
Sentir verter em mim o fel
Da desolada desesperação.
Escrever, mas o que é que escreveria?
Se eu sei esta verdade; além do ser
Há o mistério; se sei esta e nenhuma outra,
Que verdade daria eu ao mundo?
E não dar-lhe verdade grão mal era.
1 369
Fernando Pessoa
Many an evil, many a bliss
Many an evil, many a bliss
Go to make existence' hell,
But the greatest evil of all is this:
To live and to know it well.
Since this from life at once we see
Thus simply gathered,
Must not the greatest bliss then be
To die and know oneself dead?
That's true, as far as I guess,
That's true and impossible,
As far as I know and tell.
So much for happiness!
Go to make existence' hell,
But the greatest evil of all is this:
To live and to know it well.
Since this from life at once we see
Thus simply gathered,
Must not the greatest bliss then be
To die and know oneself dead?
That's true, as far as I guess,
That's true and impossible,
As far as I know and tell.
So much for happiness!
1 253
Fernando Pessoa
A CRIME
Do you know the crime I committed
Nearly twenty years ago?
At that crime my heart is torn.
What my crime was do you know?
'T was the crime of being born.
And every day another crime
I commit, and ever have done
Up to now in the face of Time.
Do you know what crime this is?
'Tis the crime of living on.
Do you know what evil's disgrace
Has made an outcast's my lot
And sundered me from my race?
Do you know what crime is that?
'Tis the crime of having thought.
Nearly twenty years ago?
At that crime my heart is torn.
What my crime was do you know?
'T was the crime of being born.
And every day another crime
I commit, and ever have done
Up to now in the face of Time.
Do you know what crime this is?
'Tis the crime of living on.
Do you know what evil's disgrace
Has made an outcast's my lot
And sundered me from my race?
Do you know what crime is that?
'Tis the crime of having thought.
1 599