Poemas neste tema
Corpo
Herberto Helder
Queria Tocar Na Cabeça de Um Leopardo Louco
Queria tocar na cabeça de um leopardo louco, no luxo
mandibular. Sentir os dedos tornarem-se
de granito. Sentir a deslumbrante
ressaca de pêlo
baixo arrebatar-me furiosamente os cinco dedos.
Como cinco balas de granito.
Uma estrela voltaica.
E tragá-la. E de súbito toda aquela púrpura nocturna
entrar por mim dentro, da mão à cara.
Ou uma ferida que me apanhasse de perna a perna.
Entrar em mim
a fábula da demência e da animal
elegância. Sei que o sangue me pontua, e estremeço
de poro em poro
com tanto ouro suado que me envenena.
Sei que toco.
Que há uma combustão nas partes sexuais
da minha morte. E se olho esse espelho exalado
de mim mesmo, vejo
pérolas, a anestesia das pérolas. Mas
o fósforo precipita-se onde
arrefece a carne, e se torna ligeira. E uma dor
instrumental, a minha própria música
descoberta, enreda-me como o som enreda
os tubos de um órgão.
E então nenhuma razão me escurece além do crime,
da metáfora directa
de um leopardo aluado como uma jóia. E ele levanta
a constelação craniana. Aboca avança, límpida
chaga
até ao meu rosto. E neste espelho das coisas de repente
unidas todas, beija-me por mim dentro até
ao coração.
No meio.
Onde se morre do silêncio central
da terra.
mandibular. Sentir os dedos tornarem-se
de granito. Sentir a deslumbrante
ressaca de pêlo
baixo arrebatar-me furiosamente os cinco dedos.
Como cinco balas de granito.
Uma estrela voltaica.
E tragá-la. E de súbito toda aquela púrpura nocturna
entrar por mim dentro, da mão à cara.
Ou uma ferida que me apanhasse de perna a perna.
Entrar em mim
a fábula da demência e da animal
elegância. Sei que o sangue me pontua, e estremeço
de poro em poro
com tanto ouro suado que me envenena.
Sei que toco.
Que há uma combustão nas partes sexuais
da minha morte. E se olho esse espelho exalado
de mim mesmo, vejo
pérolas, a anestesia das pérolas. Mas
o fósforo precipita-se onde
arrefece a carne, e se torna ligeira. E uma dor
instrumental, a minha própria música
descoberta, enreda-me como o som enreda
os tubos de um órgão.
E então nenhuma razão me escurece além do crime,
da metáfora directa
de um leopardo aluado como uma jóia. E ele levanta
a constelação craniana. Aboca avança, límpida
chaga
até ao meu rosto. E neste espelho das coisas de repente
unidas todas, beija-me por mim dentro até
ao coração.
No meio.
Onde se morre do silêncio central
da terra.
1 016
Herberto Helder
Iii B
A água nas torneiras, nos diamantes, nos copos.
E entre inocência e inteligência estudava-se a arte.
Exemplo: a arte do ar queimado que passa pela boca
se a mão de alguém entra por mim dentro
e revolve
canos grossos, artérias, intestinos,
o sangue.
Deus, mão entrada.
A voz encurva-me todo.
Nos fulcros, à mesa, pelo fogo, onde as linhas se encontram nos
grandes
objectos do mundo, sento-me,
e alimento-me, e a fruta adoça-se até ao oculto,
e eu sei tudo, e esqueço.
Quis Deus que eu entenebrecesse.
Que se fizesse em mim a abertura por onde saem
madeiras frias, ferros
para os talheres,
carne,
e jarras que trepidam com a força das corolas,
diamantes por onde se bebe.
Deus disse: um idioma que brilhe.
E eu trabalho para este espaço em que ponho a mão a peso
de sangue, o dom
de exercer os instrumentos terrestres.
Se vibram os arcos da respiração,
se a baforada encrespa o ar quente nas linhas.
E entre inocência e inteligência estudava-se a arte.
Exemplo: a arte do ar queimado que passa pela boca
se a mão de alguém entra por mim dentro
e revolve
canos grossos, artérias, intestinos,
o sangue.
Deus, mão entrada.
A voz encurva-me todo.
Nos fulcros, à mesa, pelo fogo, onde as linhas se encontram nos
grandes
objectos do mundo, sento-me,
e alimento-me, e a fruta adoça-se até ao oculto,
e eu sei tudo, e esqueço.
Quis Deus que eu entenebrecesse.
Que se fizesse em mim a abertura por onde saem
madeiras frias, ferros
para os talheres,
carne,
e jarras que trepidam com a força das corolas,
diamantes por onde se bebe.
Deus disse: um idioma que brilhe.
E eu trabalho para este espaço em que ponho a mão a peso
de sangue, o dom
de exercer os instrumentos terrestres.
Se vibram os arcos da respiração,
se a baforada encrespa o ar quente nas linhas.
1 053
Herberto Helder
A Menstruação Quando Na Cidade Passava
A menstruação quando na cidade passava
o ar. As raparigas respirando,
comendo figos — e a menstruação quando na cidade
corria o tempo pelo ar.
Eram cravos na neve. As raparigas
riam, gritavam — e as figueiras soprando de dentro
os figos, com seus pulmões de esponja
branca. E as raparigas
comiam cravos pelo ar.
E elas riam na neve e gritavam: era
o tempo da menstruação.
As maçãs resvalavam na casa.
Alguém falava: neve. A noite vinha
partir a cabeça das estátuas, e as maçãs
resvalavam no telhado — alguém
falava: sangue.
Na casa, elas riam — e a menstruação
corria pelas cavernas brancas das esponjas,
e partiam-se as cabeças das estátuas.
Cravos — era alguém que falava assim.
E as raparigas respirando, comendo
figos na neve.
Alguém falava: maçãs. E era o tempo.
O sangue escorria dos pescoços de granito,
a criança abatia a boca negra
sobre a neve nos figos — e elas gritavam
na sombra da casa.
Alguém falava: sangue, tempo.
As figueiras sopravam no ar que
corria, as máquinas amavam. E um peixe
percorrendo, como uma antiga palavra
sensível, a página desse amor.
E alguém falava: é a neve.
As raparigas riam dentro da menstruação,
comendo neve. As cabeças das
estátuas estavam cheias de cravos,
e as crianças abatiam a boca negra sobre
os gritos. A noite vinha pelo ar,
na sombra resvalavam as maçãs.
E era o tempo.
E elas riam no ar, comendo
a noite,
alimentando-se de figos e de neve.
E alguém falava: crianças.
E a menstruação escorria em silêncio —
na noite, na neve —
espremida das esponjas brancas, lá na noite
das raparigas
que riam na sombra da casa, resvalando,
comendo cravos. E alguém falava:
é um peixe percorrendo a página de um amor
antigo. E as raparigas
gritavam.
As vacas então espreitando,
e nos focinhos consumia-se o lume em silêncio.
Pelas janelas os violinos
passavam pelo ar. E a menstruação nas raparigas
escorria pela sombra, e elas
gritavam e comiam areia. Alguém falava:
fogo. E as vacas passavam pelos violinos.
E as janelas em silêncio escorriam
o seu fogo. E as admiráveis
raparigas cantavam a sua canção, como
uma palavra antiga escorrendo
numa página pela neve,
coroada de figos. E no fogo as crianças
eram tocadas pelo tempo da menstruação.
Alimentavam-se apenas de figos e de areia.
E pelo tempo fora,
riam — e a neve cobria a sua página de tempo,
e as vacas resvalavam na sombra.
Em silêncio o seu lume escorria das esponjas.
Partiam-se as cabeças dos violinos.
As raparigas, cantando as suas crianças,
comiam figos.
A noite comia areia.
E eram cravos nas cavernas brancas.
Menstruação — falava alguém. O ar passava —
e pela noite, em silêncio,
a menstruação escorria pela neve.
o ar. As raparigas respirando,
comendo figos — e a menstruação quando na cidade
corria o tempo pelo ar.
Eram cravos na neve. As raparigas
riam, gritavam — e as figueiras soprando de dentro
os figos, com seus pulmões de esponja
branca. E as raparigas
comiam cravos pelo ar.
E elas riam na neve e gritavam: era
o tempo da menstruação.
As maçãs resvalavam na casa.
Alguém falava: neve. A noite vinha
partir a cabeça das estátuas, e as maçãs
resvalavam no telhado — alguém
falava: sangue.
Na casa, elas riam — e a menstruação
corria pelas cavernas brancas das esponjas,
e partiam-se as cabeças das estátuas.
Cravos — era alguém que falava assim.
E as raparigas respirando, comendo
figos na neve.
Alguém falava: maçãs. E era o tempo.
O sangue escorria dos pescoços de granito,
a criança abatia a boca negra
sobre a neve nos figos — e elas gritavam
na sombra da casa.
Alguém falava: sangue, tempo.
As figueiras sopravam no ar que
corria, as máquinas amavam. E um peixe
percorrendo, como uma antiga palavra
sensível, a página desse amor.
E alguém falava: é a neve.
As raparigas riam dentro da menstruação,
comendo neve. As cabeças das
estátuas estavam cheias de cravos,
e as crianças abatiam a boca negra sobre
os gritos. A noite vinha pelo ar,
na sombra resvalavam as maçãs.
E era o tempo.
E elas riam no ar, comendo
a noite,
alimentando-se de figos e de neve.
E alguém falava: crianças.
E a menstruação escorria em silêncio —
na noite, na neve —
espremida das esponjas brancas, lá na noite
das raparigas
que riam na sombra da casa, resvalando,
comendo cravos. E alguém falava:
é um peixe percorrendo a página de um amor
antigo. E as raparigas
gritavam.
As vacas então espreitando,
e nos focinhos consumia-se o lume em silêncio.
Pelas janelas os violinos
passavam pelo ar. E a menstruação nas raparigas
escorria pela sombra, e elas
gritavam e comiam areia. Alguém falava:
fogo. E as vacas passavam pelos violinos.
E as janelas em silêncio escorriam
o seu fogo. E as admiráveis
raparigas cantavam a sua canção, como
uma palavra antiga escorrendo
numa página pela neve,
coroada de figos. E no fogo as crianças
eram tocadas pelo tempo da menstruação.
Alimentavam-se apenas de figos e de areia.
E pelo tempo fora,
riam — e a neve cobria a sua página de tempo,
e as vacas resvalavam na sombra.
Em silêncio o seu lume escorria das esponjas.
Partiam-se as cabeças dos violinos.
As raparigas, cantando as suas crianças,
comiam figos.
A noite comia areia.
E eram cravos nas cavernas brancas.
Menstruação — falava alguém. O ar passava —
e pela noite, em silêncio,
a menstruação escorria pela neve.
1 257
Herberto Helder
V C
O astro peristáltico passado da vagina à boca,
mãe e filho, pelo filho passado
à luz escrita:
com dedos virgens
arranco ao mundo os objectos da noite e do dia,
arranco-os, brilhando, disponho-os
assim urgentes
na teia electrónica do idioma:
e em todas as linhas de mármore do poema do nascimento
sinto o abalo,
a respiração narrativa:
orvalho sobre a fruta,
fruta no prato,
e garfo e faca para abrir o coração da fruta
na mesa ponta a ponta acesa:
insectos cheios de nome, o astro como uma aranha na teia
devora-os vivos
— e então eu morro do que nasci na boca,
e ponho o mármore em cima do poema para que nada se mova.
mãe e filho, pelo filho passado
à luz escrita:
com dedos virgens
arranco ao mundo os objectos da noite e do dia,
arranco-os, brilhando, disponho-os
assim urgentes
na teia electrónica do idioma:
e em todas as linhas de mármore do poema do nascimento
sinto o abalo,
a respiração narrativa:
orvalho sobre a fruta,
fruta no prato,
e garfo e faca para abrir o coração da fruta
na mesa ponta a ponta acesa:
insectos cheios de nome, o astro como uma aranha na teia
devora-os vivos
— e então eu morro do que nasci na boca,
e ponho o mármore em cima do poema para que nada se mova.
1 128
Herberto Helder
Iii J
O dia meteu-se para dentro: a água enche o meu sono
e transborda.
Os dons obscurecem-me.
Nas redes da pedra coa-se o muito forte
das matérias. E numa volta espasmódica a curva exaltada arranca
dos fundos da carne trémula
grandes massas côncavas, difíceis, terrestres, convexas.
Meto para dentro a linha sísmica,
ponho os dedos de fora,
e a linha
— os pontos poderosos das palavras:
amor, velocidade, morte, metamorfose — a linha
vibra, a linha do mundo. Escreva-se:
obscurece, revela.
Nos lugares frios as pedras longamente pousadas sobre leques de água.
Nem sempre se tem a voltagem das coisas: mesa aqui, fogão aceso,
torneiras fechadas com aquela assombrosa massa de água
atrás, à espera,
roupas, madeiras, livros.
Oh como alguém espera que a luz se levante asperamente até à cara
Ou se espera ver em alguém assim
tocado ver
o sangue nos orifícios da cabeça, ou
melhor:
amígdalas, palato, língua, a voz tratada a sangue e rapidez.
E a maneira de andar na escuridão sob as gotas,
cuidar da ferida, cuidar
da gramática, árduo cuidar, quem
pensaria?, cuidar da música,
do mundo.
Há um azul selvagem defronte se alguém se vira,
nas costas rebenta a espuma.
Que sim, que os elementos através da casa: um espaço
na beleza: água atrás das paredes,
fogo nas botijas,
cristal nas unhas.
Mantém o nome, tu, o gás cingido pelos aros de ferro, mesa
e papéis, a morte atenta, mantém-na, tarda, não
tarda, abertas, fechadas
as torneiras.
Oh mundo escrito dolorosamente nas faixas de seda
saída de bichos como que
plenos, em brasa, mas
macios, saída
do âmago dos bichos.
Quem morre morre, tão fulgurante nas mãos e na testa.
O bafo trabalha nas linhas perigosas.
A estrela estala.
e transborda.
Os dons obscurecem-me.
Nas redes da pedra coa-se o muito forte
das matérias. E numa volta espasmódica a curva exaltada arranca
dos fundos da carne trémula
grandes massas côncavas, difíceis, terrestres, convexas.
Meto para dentro a linha sísmica,
ponho os dedos de fora,
e a linha
— os pontos poderosos das palavras:
amor, velocidade, morte, metamorfose — a linha
vibra, a linha do mundo. Escreva-se:
obscurece, revela.
Nos lugares frios as pedras longamente pousadas sobre leques de água.
Nem sempre se tem a voltagem das coisas: mesa aqui, fogão aceso,
torneiras fechadas com aquela assombrosa massa de água
atrás, à espera,
roupas, madeiras, livros.
Oh como alguém espera que a luz se levante asperamente até à cara
Ou se espera ver em alguém assim
tocado ver
o sangue nos orifícios da cabeça, ou
melhor:
amígdalas, palato, língua, a voz tratada a sangue e rapidez.
E a maneira de andar na escuridão sob as gotas,
cuidar da ferida, cuidar
da gramática, árduo cuidar, quem
pensaria?, cuidar da música,
do mundo.
Há um azul selvagem defronte se alguém se vira,
nas costas rebenta a espuma.
Que sim, que os elementos através da casa: um espaço
na beleza: água atrás das paredes,
fogo nas botijas,
cristal nas unhas.
Mantém o nome, tu, o gás cingido pelos aros de ferro, mesa
e papéis, a morte atenta, mantém-na, tarda, não
tarda, abertas, fechadas
as torneiras.
Oh mundo escrito dolorosamente nas faixas de seda
saída de bichos como que
plenos, em brasa, mas
macios, saída
do âmago dos bichos.
Quem morre morre, tão fulgurante nas mãos e na testa.
O bafo trabalha nas linhas perigosas.
A estrela estala.
1 209
Herberto Helder
Iv K
Com uma pêra, dou-lhe um nome de erro
entre mim e tudo, na mão, amadureço
enquanto ela se torna propícia,
amarela ao influxo do vento de estrela para estrela.
O sangue da mão ensombra a fruta na sua volta
de átomos, abala
imagem, arquitectura.
E o espaço que isto cria: a noite
aparece no ar. E dura, leve, tersa, curva,
a linha
do fogo entrecruza
os pontos paralelos: a pêra desde o esplendor,
a mão desde
o equilíbrio, os centros
do sistema geral do corpo, o buraco negro.
Morro?
Escrevo apenas, e o hausto aspira
dedos e pêra, enigma e sentido, ordem, peso, o papel onde assenta
a constelação do mundo com esse buraco
negro e as palavras em torno.
No instante extremo de
desaparecerem.
Se morro, é por exemplo.
entre mim e tudo, na mão, amadureço
enquanto ela se torna propícia,
amarela ao influxo do vento de estrela para estrela.
O sangue da mão ensombra a fruta na sua volta
de átomos, abala
imagem, arquitectura.
E o espaço que isto cria: a noite
aparece no ar. E dura, leve, tersa, curva,
a linha
do fogo entrecruza
os pontos paralelos: a pêra desde o esplendor,
a mão desde
o equilíbrio, os centros
do sistema geral do corpo, o buraco negro.
Morro?
Escrevo apenas, e o hausto aspira
dedos e pêra, enigma e sentido, ordem, peso, o papel onde assenta
a constelação do mundo com esse buraco
negro e as palavras em torno.
No instante extremo de
desaparecerem.
Se morro, é por exemplo.
1 143
Herberto Helder
Adolescentes Repentinos
Adolescentes repentinos, não sabem, apenas o tormento de um excesso
giratório. Com as cabeças zoológicas.
Os anéis nas patas.
Oprime-os para dentro um clarão dançante.
Aquilo que são fora.
A cegueira dos chifres que levantam
como uma enorme estrela
desabraçada. A sua ligeireza busca o peso
da pedra. E o peso que têm
de pura luz sem peso, o movimento sinistro
no chão,
o terror, uma
riqueza violenta — buscam alguém que os toque.
Na boca.
Que os torne transparentes, circulatórios.
E quando as turquesas se cruzam de mão a mão, deixando-as
em brasa,
vê-se que são anjos tocados pelas viboras, anjos
anatómicos e atrozes.
Expostos à lua como animais. Que são escuros
nas espáduas.
Devastam o mundo só de olhá-lo com força.
O sono que os ataca mostra-os
cheios de artérias. E então a delicadeza pesa-lhes
como a morte. Basta tocá-los na cara para que fiquem
brancos. Atravessá-los com o sangue venoso
da insónia, da nossa matéria.
E então a sua carne é uma estrela suada.
giratório. Com as cabeças zoológicas.
Os anéis nas patas.
Oprime-os para dentro um clarão dançante.
Aquilo que são fora.
A cegueira dos chifres que levantam
como uma enorme estrela
desabraçada. A sua ligeireza busca o peso
da pedra. E o peso que têm
de pura luz sem peso, o movimento sinistro
no chão,
o terror, uma
riqueza violenta — buscam alguém que os toque.
Na boca.
Que os torne transparentes, circulatórios.
E quando as turquesas se cruzam de mão a mão, deixando-as
em brasa,
vê-se que são anjos tocados pelas viboras, anjos
anatómicos e atrozes.
Expostos à lua como animais. Que são escuros
nas espáduas.
Devastam o mundo só de olhá-lo com força.
O sono que os ataca mostra-os
cheios de artérias. E então a delicadeza pesa-lhes
como a morte. Basta tocá-los na cara para que fiquem
brancos. Atravessá-los com o sangue venoso
da insónia, da nossa matéria.
E então a sua carne é uma estrela suada.
547
Herberto Helder
4
Boca.
Brûlure, blessure. Onde
desembocam, como se diz em nome, os canais muitos.
Pura consumpção em voz alta, ou num murmúrio,
entre sangue venoso, ou
traça de lume. Gangrena,
música,
uma bolha.
Arte medonha da paixão.
Um poro monstruoso que respira o mundo.
Nele se coroam
o escuro, o fôlego, o ar ardido.
O ouro, o ouro.
Tubo sonoro por onde se coa o corpo.
Se escoa todo.
Em quartos abalados trabalho na massa tremenda
dos poemas.
Que me olham de tão perto que eu ardo.
Um dia hei-de ficar todo límpido,
ou calcinado nervo a nervo. Ou por me ver
Deus
de um canto das palavras, com sistinos
dedos pintados em torno à voragem
diuturna, tocando na matéria.
Ininterrupto, eléctrico.
Alguém poderia dar um grito.
Quase morro de medo ao sentir o meu nome.
Penso que apenas numa hora o sangue encharcaria
a roupa de alto a baixo, enquanto
brilha o rosto.
Às vezes Deus torna-me rápido.
Às vezes há um candelabro.
Às vezes há os mortos de que se extrai o mármore.
Pelo poder do nome, traz-se a casa,
quarto a quarto,
até ao centro. Fazem-se profundas
casas de mármore. Mas nunca
serei branco nestas câmaras com um candelabro no meio.
Separam-nas membranas,
espelhos vivos, teias
de espelho. E de braços abertos, entre as suas imagens,
dormem as pessoas. Cerradas
com um galho de centelhas. E Deus não me perdoa a carnagem
sonora. Há um candelabro, uma cratera na sala,
ou é como se houvesse.
Nunca durmo.
Só tenho as mãos à frente, entre o rosto
e a fogueira.
Máxima visão, no abismo, de um planeta de quartzo.
Brûlure, blessure. Onde
desembocam, como se diz em nome, os canais muitos.
Pura consumpção em voz alta, ou num murmúrio,
entre sangue venoso, ou
traça de lume. Gangrena,
música,
uma bolha.
Arte medonha da paixão.
Um poro monstruoso que respira o mundo.
Nele se coroam
o escuro, o fôlego, o ar ardido.
O ouro, o ouro.
Tubo sonoro por onde se coa o corpo.
Se escoa todo.
Em quartos abalados trabalho na massa tremenda
dos poemas.
Que me olham de tão perto que eu ardo.
Um dia hei-de ficar todo límpido,
ou calcinado nervo a nervo. Ou por me ver
Deus
de um canto das palavras, com sistinos
dedos pintados em torno à voragem
diuturna, tocando na matéria.
Ininterrupto, eléctrico.
Alguém poderia dar um grito.
Quase morro de medo ao sentir o meu nome.
Penso que apenas numa hora o sangue encharcaria
a roupa de alto a baixo, enquanto
brilha o rosto.
Às vezes Deus torna-me rápido.
Às vezes há um candelabro.
Às vezes há os mortos de que se extrai o mármore.
Pelo poder do nome, traz-se a casa,
quarto a quarto,
até ao centro. Fazem-se profundas
casas de mármore. Mas nunca
serei branco nestas câmaras com um candelabro no meio.
Separam-nas membranas,
espelhos vivos, teias
de espelho. E de braços abertos, entre as suas imagens,
dormem as pessoas. Cerradas
com um galho de centelhas. E Deus não me perdoa a carnagem
sonora. Há um candelabro, uma cratera na sala,
ou é como se houvesse.
Nunca durmo.
Só tenho as mãos à frente, entre o rosto
e a fogueira.
Máxima visão, no abismo, de um planeta de quartzo.
1 036
Herberto Helder
Não Te Queria
Não te queria quebrada pelos quatro elementos.
Nem apanhada apenas pelo tacto;
ou no aroma;
ou pela carne ouvida, aos trabalhos das luas
na funda malha de água.
Ou ver-te entre os braços a operação de uma estrela.
Nem que só a falcoaria me escurecesse como um golpe,
trémulo alimento entre roupa
alta,
nas camas.
Magnificência.
Levantava-te
em música, em ferida
— aterrada pela riqueza —
a negra jubilação. Levantava-te em mim como uma coroa.
Fazia tremer o mundo.
E queimavas-me a boca, pura
colher de ouro tragada
viva. Brilhava-te a língua.
Eu brilhava.
Ou que então, entrecravados num só contínuo nexo,
nascesse da carne única
uma cana de mármore.
E alguém, passando, cortasse o sopro
de uma morte trançada. Lábios anónimos, no hausto
de árdua fêmea e macho
anelados em si, criassem um órgão novo entre a ordem.
Modulassem.
E a pontadas de fogo, pulsavam os rostos, emplumavam-se.
Os animais bebiam, ficavam cheios da rapidez da água.
Os planetas fechavam-se nessa
floresta de som e unânime
pedra. E éramos, nós, o fausto violento, transformador
da terra.
Nome do mundo, diadema.
Nem apanhada apenas pelo tacto;
ou no aroma;
ou pela carne ouvida, aos trabalhos das luas
na funda malha de água.
Ou ver-te entre os braços a operação de uma estrela.
Nem que só a falcoaria me escurecesse como um golpe,
trémulo alimento entre roupa
alta,
nas camas.
Magnificência.
Levantava-te
em música, em ferida
— aterrada pela riqueza —
a negra jubilação. Levantava-te em mim como uma coroa.
Fazia tremer o mundo.
E queimavas-me a boca, pura
colher de ouro tragada
viva. Brilhava-te a língua.
Eu brilhava.
Ou que então, entrecravados num só contínuo nexo,
nascesse da carne única
uma cana de mármore.
E alguém, passando, cortasse o sopro
de uma morte trançada. Lábios anónimos, no hausto
de árdua fêmea e macho
anelados em si, criassem um órgão novo entre a ordem.
Modulassem.
E a pontadas de fogo, pulsavam os rostos, emplumavam-se.
Os animais bebiam, ficavam cheios da rapidez da água.
Os planetas fechavam-se nessa
floresta de som e unânime
pedra. E éramos, nós, o fausto violento, transformador
da terra.
Nome do mundo, diadema.
595
Herberto Helder
Mulheres Correndo, Correndo Pela Noite.
Mulheres correndo, correndo pela noite.
O som de mulheres correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredoras magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.
Lenços vivos com suas patas abertas
como magnólias
correndo, lembradas, patas pela noite
viva. Levando, lembrando, correndo.
E o som delas batendo como estrelas
nas portas. O céu por cima, as crinas negras
batendo: é o som delas. Lembradas,
correndo. Estrelas. Eu ouço: passam, lembrando.
As grandiosas patas brancas abertas no som,
à porta, com o céu lembrando.
Crinas correndo pela noite, lenços vivos
batendo como magnólias levadas pela noite,
abertas, correndo, lembrando.
De repente, as letras. O rosto sufocado como
se fosse abril num canto da noite.
O rosto no meio das letras, sufocado a um canto,
de repente.
Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços
sufocados, lembrando letras, levando
lenços, letras — nas patas
negras, grandiosamente abertas.
Como se fosse abril, sufocadas no meio.
Era o som delas, como se fosse abril a um canto
da noite, lembrando.
Ouço: são elas que partem. E levam
o sangue cheio de letras, as patas floridas
sobre a cabeça, correndo, pensando.
Atiram-se para a noite com o sonho terrível
de um lenço vivo.
E vão batendo com as estrelas nas portas. E sobre
a cabeça branca, as patas lembrando
pela noite dentro.
O rosto sufocado, o som abrindo, muito
lembrado. E a cabeça correndo, e eu ouço:
são elas que partem, pensando.
Então acordo de dentro e, lembrando, fico
de lado. E ouço correr, levando
grandiosos lenços contra a noite com estrelas
batendo nas patas
como magnólias pensando, abertas, correndo.
Ouço de lado: é o som. São elas, lembrando
de lado, com as patas
no meio das letras, o rosto sufocado
correndo pelas portas grandiosas, as crinas
brancas batendo. E eu ouço: é o som delas
com as patas negras, com as magnólias negras
contra a noite.
Correndo, lembrando, batendo.
O som de mulheres correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredoras magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.
Lenços vivos com suas patas abertas
como magnólias
correndo, lembradas, patas pela noite
viva. Levando, lembrando, correndo.
E o som delas batendo como estrelas
nas portas. O céu por cima, as crinas negras
batendo: é o som delas. Lembradas,
correndo. Estrelas. Eu ouço: passam, lembrando.
As grandiosas patas brancas abertas no som,
à porta, com o céu lembrando.
Crinas correndo pela noite, lenços vivos
batendo como magnólias levadas pela noite,
abertas, correndo, lembrando.
De repente, as letras. O rosto sufocado como
se fosse abril num canto da noite.
O rosto no meio das letras, sufocado a um canto,
de repente.
Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços
sufocados, lembrando letras, levando
lenços, letras — nas patas
negras, grandiosamente abertas.
Como se fosse abril, sufocadas no meio.
Era o som delas, como se fosse abril a um canto
da noite, lembrando.
Ouço: são elas que partem. E levam
o sangue cheio de letras, as patas floridas
sobre a cabeça, correndo, pensando.
Atiram-se para a noite com o sonho terrível
de um lenço vivo.
E vão batendo com as estrelas nas portas. E sobre
a cabeça branca, as patas lembrando
pela noite dentro.
O rosto sufocado, o som abrindo, muito
lembrado. E a cabeça correndo, e eu ouço:
são elas que partem, pensando.
Então acordo de dentro e, lembrando, fico
de lado. E ouço correr, levando
grandiosos lenços contra a noite com estrelas
batendo nas patas
como magnólias pensando, abertas, correndo.
Ouço de lado: é o som. São elas, lembrando
de lado, com as patas
no meio das letras, o rosto sufocado
correndo pelas portas grandiosas, as crinas
brancas batendo. E eu ouço: é o som delas
com as patas negras, com as magnólias negras
contra a noite.
Correndo, lembrando, batendo.
1 332
Herberto Helder
Iii K
Num espaço unido a luz sacode
o peso, o curvo, o muito:
laranjas a chamejar contra paredões de água.
Ou então coze-se o oco, faz-se um púcaro,
o fôlego encurva as massas de vidro,
a água pára no barro côncavo.
Imagem unânime do mundo.
A imagem estremece pela potência da água,
o papel estremece pela potência da frase
que o atravessa,
aqueduto.
Mas se a mão se amaciasse para que a frase
fosse delgada como a seda, se de súbito
a seda se rasgasse pela força
de um nome último?
A ascensão do aloés: vê-se,
fica-se bêbado. E tão leve o esperma.
De noite os cabelos crescem tanto que neles se amarra a cabeça,
crescem a cada pancada do sangue,
cada sopro.
Num tronco escreve-se o nome do mundo,
aferida do mundo,
a seiva freme nos dedos.
Que tocam, os dedos, no pénis e nos testículos:
e sente-se em baixo o furor
do ouro.
Com erros misteriosos escreve-se o poema primeiro do tempo:
música, sintaxe, massas
em equilíbrio, a ortografia, o número,
o mais respirado, espaçoso, primário, terrestre
poema
das vozes, das luzes.
A água jorra no caos, fecha-se a água nos tanques:
bebe-se. Mergulha dentro da água
um galho
de estrelas maduras. O esperma torna-se espesso.
Morre-se de alvoroço.
Ressuscita-se, hoje.
o peso, o curvo, o muito:
laranjas a chamejar contra paredões de água.
Ou então coze-se o oco, faz-se um púcaro,
o fôlego encurva as massas de vidro,
a água pára no barro côncavo.
Imagem unânime do mundo.
A imagem estremece pela potência da água,
o papel estremece pela potência da frase
que o atravessa,
aqueduto.
Mas se a mão se amaciasse para que a frase
fosse delgada como a seda, se de súbito
a seda se rasgasse pela força
de um nome último?
A ascensão do aloés: vê-se,
fica-se bêbado. E tão leve o esperma.
De noite os cabelos crescem tanto que neles se amarra a cabeça,
crescem a cada pancada do sangue,
cada sopro.
Num tronco escreve-se o nome do mundo,
aferida do mundo,
a seiva freme nos dedos.
Que tocam, os dedos, no pénis e nos testículos:
e sente-se em baixo o furor
do ouro.
Com erros misteriosos escreve-se o poema primeiro do tempo:
música, sintaxe, massas
em equilíbrio, a ortografia, o número,
o mais respirado, espaçoso, primário, terrestre
poema
das vozes, das luzes.
A água jorra no caos, fecha-se a água nos tanques:
bebe-se. Mergulha dentro da água
um galho
de estrelas maduras. O esperma torna-se espesso.
Morre-se de alvoroço.
Ressuscita-se, hoje.
1 095
Herberto Helder
Canção Em Quatro Sonetos
A maçã precipitada, os incêndios da noite, a neve forte
e a rude beleza da cabeça.
— Quem ouvirá em que planetas esta imagem
da minha morte, quando eu abrir o lenço
sobre o coração terrível e suspenso?
Uma criança de sorriso cru
vive em mim sem dar um passo, amando
respirar em sua roupa o cheiro
do sangue maternal. O vício
do sono apouca as frias glicínias
do seu cabelo inocente,
inocente. Ela não sofre e apenas sente
a máquina que é, com cabeleira e dedos cheios
de energia rápida: a magia, os segredos.
Tantos nomes que não há para dizer o silêncio—
a combustão interior do tempo;
uma maçã cortada, uma pomba de éter:
o pensamento.
Não te chames mais, adolescente
comendo uvas negras.
Abres a camisa em que escutas todas as mãos do vento.
E vês atrás de ti as máquinas resolutas
de fabricar as formas rápidas,
e convulsas, do esquecimento.
Isto no ar há-de ficar como frio limpo.
O meu nome parou diante
do instante mortal que o guardara.
Evapora-se a roupa, mas não sinto.
Ás vezes, sobre um soneto voraz e abrupto, passa
uma rapariga lenta que não sabe,
e cuja graça se abaixa e movimenta na obscura
pintura de um paraíso mortal.
Nesse soneto nocturno escrevo que grito, ou então que durmo,
ou que às vezes enlouqueço. E a matéria grave
e delicada do seu corpo pousa no centro
desse sopro feroz. E o soneto
veloz abranda um pouco, e ela curva o corpo
teatral — e o ânus sobe como uma flor animal.
O meu pénis avança, no soneto que soletro
como uma dança, ou um peixe negro nos
frios planos sombrios e sonâmbulos:
— a aliança intrínseca de um pénis e de um ânus.
Sobre os cotovelos a água olha o dia sobre
os cotovelos. Batem as folhas da luz
um pouco abaixo do silêncio. Quero saber
o nome de quem morre: o vestido de ar
ardendo, os pés em movimento no meio
do meu coração. O nome:
madeira que arqueja, seca desde o fundo
do seu tempo vegetal coarctado.
E, ao abrir-se a toalha viva, o
nome: a beleza a voltar-se para trás, com seus
pulmões de algodão queimando.
Uma serpente de ouro abraça os quadris
negros e molhados. E a água que se debruça
olha a loucura com seu nome: indecifrável, cego.
e a rude beleza da cabeça.
— Quem ouvirá em que planetas esta imagem
da minha morte, quando eu abrir o lenço
sobre o coração terrível e suspenso?
Uma criança de sorriso cru
vive em mim sem dar um passo, amando
respirar em sua roupa o cheiro
do sangue maternal. O vício
do sono apouca as frias glicínias
do seu cabelo inocente,
inocente. Ela não sofre e apenas sente
a máquina que é, com cabeleira e dedos cheios
de energia rápida: a magia, os segredos.
Tantos nomes que não há para dizer o silêncio—
a combustão interior do tempo;
uma maçã cortada, uma pomba de éter:
o pensamento.
Não te chames mais, adolescente
comendo uvas negras.
Abres a camisa em que escutas todas as mãos do vento.
E vês atrás de ti as máquinas resolutas
de fabricar as formas rápidas,
e convulsas, do esquecimento.
Isto no ar há-de ficar como frio limpo.
O meu nome parou diante
do instante mortal que o guardara.
Evapora-se a roupa, mas não sinto.
Ás vezes, sobre um soneto voraz e abrupto, passa
uma rapariga lenta que não sabe,
e cuja graça se abaixa e movimenta na obscura
pintura de um paraíso mortal.
Nesse soneto nocturno escrevo que grito, ou então que durmo,
ou que às vezes enlouqueço. E a matéria grave
e delicada do seu corpo pousa no centro
desse sopro feroz. E o soneto
veloz abranda um pouco, e ela curva o corpo
teatral — e o ânus sobe como uma flor animal.
O meu pénis avança, no soneto que soletro
como uma dança, ou um peixe negro nos
frios planos sombrios e sonâmbulos:
— a aliança intrínseca de um pénis e de um ânus.
Sobre os cotovelos a água olha o dia sobre
os cotovelos. Batem as folhas da luz
um pouco abaixo do silêncio. Quero saber
o nome de quem morre: o vestido de ar
ardendo, os pés em movimento no meio
do meu coração. O nome:
madeira que arqueja, seca desde o fundo
do seu tempo vegetal coarctado.
E, ao abrir-se a toalha viva, o
nome: a beleza a voltar-se para trás, com seus
pulmões de algodão queimando.
Uma serpente de ouro abraça os quadris
negros e molhados. E a água que se debruça
olha a loucura com seu nome: indecifrável, cego.
1 170
Herberto Helder
Ii E
Ainda não é a coluna madura de uma árvore, não fabrica
fruta amarela gota a gota,
ninguém debaixo fica tão fresco,
lento,
essencial, que aprenda uma língua
respirada em cada furo que tem uma língua da natureza
das coisas —
a boca na ponta de um animal e na outra
o ânus, e o sangue ponta a ponta, ou uma haste para correr
o líquido do ouro — ainda
não se despiu nem mostrou o umbigo,
ninguém lhe entalhou no flanco
uma estrela que batesse de dentro para fora como um nome de baptismo,
o meu nome se me olho,
chaga atrás do paredão de um astro,
na obscuridade se a estaca rebenta
— e já se nomeia onde é mais suave,
cordão em torno do cérebro
doce quando sangra na soldadura dos cornos,
porque já se nomeia,
escuro na pedra e frio na água, quando
molha os dedos,
quando murmura por cima,
quando o sopro se levanta à altura dos ouvidos,
que nome tem, próximo
do seu estilo
duro, unha na falangeta, e o dedo que soletra cegamente
botão a botão,
estaca,
ah se a estaca fremisse tão pontuada como um corpo entregue ao sono,
poros à vista e tripas no avesso,
e não se diz em que idioma
dorme ou acorda, diz-se que a sua palavra se entrança
com a nossa, vasos com vasos cingindo o sangue
poderoso.
fruta amarela gota a gota,
ninguém debaixo fica tão fresco,
lento,
essencial, que aprenda uma língua
respirada em cada furo que tem uma língua da natureza
das coisas —
a boca na ponta de um animal e na outra
o ânus, e o sangue ponta a ponta, ou uma haste para correr
o líquido do ouro — ainda
não se despiu nem mostrou o umbigo,
ninguém lhe entalhou no flanco
uma estrela que batesse de dentro para fora como um nome de baptismo,
o meu nome se me olho,
chaga atrás do paredão de um astro,
na obscuridade se a estaca rebenta
— e já se nomeia onde é mais suave,
cordão em torno do cérebro
doce quando sangra na soldadura dos cornos,
porque já se nomeia,
escuro na pedra e frio na água, quando
molha os dedos,
quando murmura por cima,
quando o sopro se levanta à altura dos ouvidos,
que nome tem, próximo
do seu estilo
duro, unha na falangeta, e o dedo que soletra cegamente
botão a botão,
estaca,
ah se a estaca fremisse tão pontuada como um corpo entregue ao sono,
poros à vista e tripas no avesso,
e não se diz em que idioma
dorme ou acorda, diz-se que a sua palavra se entrança
com a nossa, vasos com vasos cingindo o sangue
poderoso.
1 029
Herberto Helder
I M
Porque abalando as águas côncavas o acordou a lua e empurrou para fora,
e ele estava amarrado pelo meio movendo os membros nos abismos do mundo,
o espaço pulmonar do sangue,
o espaço do sangue na cabeça,
e depois disseram: está vivo!,
e bateram, cortaram, limparam, estiveram
a ver esse pedaço de matéria fechada, a matéria vibrante aberta
nos orifícios intensos,
vivo!, disseram, aquele que um dia,
a mão sobre a mesa em cada linha celular,
a potência refluxa da mesa na mão por ele dentro, e já ninguém
batia e cortava e soprava e fechava e abria, ninguém
com o tremor das teias de sangue na cabeça, as teias de seiva
na mesa, e a mão em cima, e ele passava
do mais profundo para o mais leve na obscuridade,
o mais absoluto,
ninguém que dissesse: as águas exaltadas,
aura,
e ele era impelido por entre os renques de luz
plenamente.
e ele estava amarrado pelo meio movendo os membros nos abismos do mundo,
o espaço pulmonar do sangue,
o espaço do sangue na cabeça,
e depois disseram: está vivo!,
e bateram, cortaram, limparam, estiveram
a ver esse pedaço de matéria fechada, a matéria vibrante aberta
nos orifícios intensos,
vivo!, disseram, aquele que um dia,
a mão sobre a mesa em cada linha celular,
a potência refluxa da mesa na mão por ele dentro, e já ninguém
batia e cortava e soprava e fechava e abria, ninguém
com o tremor das teias de sangue na cabeça, as teias de seiva
na mesa, e a mão em cima, e ele passava
do mais profundo para o mais leve na obscuridade,
o mais absoluto,
ninguém que dissesse: as águas exaltadas,
aura,
e ele era impelido por entre os renques de luz
plenamente.
1 138
Herberto Helder
Texto 8
Nenhuma atenção se esqueceu de me cravar os dedos
na massa malévola e fervente e levemente doce
de um grande “vocabulário”
até que apenas quis ter as mãos expostas ao ar
e à minha frente o deserto pétreo das cacofonias
uma pobre selvática e eriçada “linguagem”
uma crua “exposição de designações”
brutais sem vícios de beleza ou graça
ou ambiguidade
chegar à “leitura explícita” de mim mesmo “texto”
sem marés “colocado” definitivamente
sempre em mim se avizinhou o “excesso vocal”
da “vocação silenciosa”
sempre a “movimentação errática” se aproximou
de um “sono extenso” e logo entendi
mal se fez para os meus olhos a “dança imóvel”
o acesso à “paragem fremente” foi-me dado
como ciência infusa
o palco apenas sem cenários a personagem sem gestos
a fala “não aposta nem suposta”
isto só bastaria como “acto”
de cima e de baixo uma luz “indiscutível”
bloco visão fulminante do “sentido” de tudo
a impossibilidade de “rotações e translações”
precipitação mortal e ainda voluta faiscante
para o corpo chegar-se o arco de si próprio
tangível apertado completo
contudo estão sempre a virar-me para a “paisagem”
dizem “vê as colinas a andarem em todos os espaços
ao mesmo tempo”
levam-me assim à audácia dos “espectáculos”
desviam de mim “o centro” essa paixão da unidade
“o compacto discurso” das trevas ou da luz
“gradações” sibilam eles contentes da subtileza
mas eu estou para além disso unido às vísceras
pelo seu próprio fogo
não me enxameiem a cabeça com as aspas coruscantes
uma nostalgia dourada do “dicionário” que eu podia
trava-se um pouco “a marcha”
mas vou para um “silêncio que treme”
“o violino sobre a mesa” a poeira que vem
“produzir a eternidade”
depois a alegria total de uma tentação dos dedos
parados
franquear a violência luminosa
suspensa
qualquer maneira de intervir na “música”
subindo por dentro a “temperatura” até os termómetros
caírem por eles abaixo
e a “explosão” preparada sorver-se implosivamente
e para sempre se restabelecer a “linha viva”
que une ao ar a labareda
um discurso sem palavras atravessado pela febre
fria
de um saber extremo “irredutível”
na massa malévola e fervente e levemente doce
de um grande “vocabulário”
até que apenas quis ter as mãos expostas ao ar
e à minha frente o deserto pétreo das cacofonias
uma pobre selvática e eriçada “linguagem”
uma crua “exposição de designações”
brutais sem vícios de beleza ou graça
ou ambiguidade
chegar à “leitura explícita” de mim mesmo “texto”
sem marés “colocado” definitivamente
sempre em mim se avizinhou o “excesso vocal”
da “vocação silenciosa”
sempre a “movimentação errática” se aproximou
de um “sono extenso” e logo entendi
mal se fez para os meus olhos a “dança imóvel”
o acesso à “paragem fremente” foi-me dado
como ciência infusa
o palco apenas sem cenários a personagem sem gestos
a fala “não aposta nem suposta”
isto só bastaria como “acto”
de cima e de baixo uma luz “indiscutível”
bloco visão fulminante do “sentido” de tudo
a impossibilidade de “rotações e translações”
precipitação mortal e ainda voluta faiscante
para o corpo chegar-se o arco de si próprio
tangível apertado completo
contudo estão sempre a virar-me para a “paisagem”
dizem “vê as colinas a andarem em todos os espaços
ao mesmo tempo”
levam-me assim à audácia dos “espectáculos”
desviam de mim “o centro” essa paixão da unidade
“o compacto discurso” das trevas ou da luz
“gradações” sibilam eles contentes da subtileza
mas eu estou para além disso unido às vísceras
pelo seu próprio fogo
não me enxameiem a cabeça com as aspas coruscantes
uma nostalgia dourada do “dicionário” que eu podia
trava-se um pouco “a marcha”
mas vou para um “silêncio que treme”
“o violino sobre a mesa” a poeira que vem
“produzir a eternidade”
depois a alegria total de uma tentação dos dedos
parados
franquear a violência luminosa
suspensa
qualquer maneira de intervir na “música”
subindo por dentro a “temperatura” até os termómetros
caírem por eles abaixo
e a “explosão” preparada sorver-se implosivamente
e para sempre se restabelecer a “linha viva”
que une ao ar a labareda
um discurso sem palavras atravessado pela febre
fria
de um saber extremo “irredutível”
598
Herberto Helder
I G
Se te inclinas nos dias inteligentes — entende-se
como neles se forma a seda, como
no corpo se forma o vestido.
Seda e carne fundidas pelo sangue uma na outra.
O nome é: pulsação da luz.
E tu danças a quantas braças de labareda —
a mais fechada, mais aberta
zona
espasmódica: ar revolvido em redor
da pedraria atiçada.
como neles se forma a seda, como
no corpo se forma o vestido.
Seda e carne fundidas pelo sangue uma na outra.
O nome é: pulsação da luz.
E tu danças a quantas braças de labareda —
a mais fechada, mais aberta
zona
espasmódica: ar revolvido em redor
da pedraria atiçada.
1 073
Herberto Helder
Texto 6
Não se esqueçam de uma energia bruta e de uma certa
maneira delicada de colocá-la no “espaço”
ponham-na a andar a correr a saber
sobre linhas curvas e linhas rectas “fulminantes”
ponham-na sobre patins com o stique e a bola como
"ponto de referência” ou como “pretexto espaço-tempo”
para aplicação da “dança”
experimentem uma ou duas vezes ou três reter determinada
“imagem” e metam-na “para dentro” assim imóvel
e fiquem parados “aí” com a imagem parada talvez brilhando
(• qualquer coisa como uma sagrada suspensão
e abrindo os olhos então o jogo retoma a imagem
que entretanto ficou incrustada no escuro a brilhar sempre
e dela “parece” que o movimento parte de novo
é uma “linguagem” e energia e delicadeza atravessam o ar
espectáculo do “verbo primeiro e último” apanhem a figura “absoluta”
do pé esquerdo o patim refulge a mão direita “prolonga-se”
vamos achar bem que o stique seja a “respiração”
extrema e extensa
a bola põe-se a “caligrafar” todo um sistema de planos
intensos leves
"metáfora” decerto minuto a minuto destruída pela pergunta
"que jogo é este para o entendimento dos olhos?”
a resposta “alegria” tudo esgota
mas só um sentimento de urgência corporal dá ao jogo
uma “necessária dimensão”
“o jogo respira?” perguntam e diz-se “que respira”
“então deixem-no lá viver” como se se tratasse de
“uma criatura”
podemos confundir “isto” com “acertar”?
o jogo apenas acerta consigo mesmo e este acerto é o próprio
“jogo”
nele ressaltam só qualidades de acção força delicadeza
envolvimento em si mesmo
e o prazer de maquinar o universo numa restrita
organização de linhas vividas em “iminência”
de imagem em imagem se transfere o corpo
sempre à beira de “ser” e parando e continuando
e ainda “apagando e recomeçando” como se continuamente
bebesse de si e tivesse o ar pequeno para demonstrar
a grandeza de si a si mesmo
“referido a quê senão ao absurdo de um espelho?”
“a enviar-se” cerradamente entre os seus limites
zona frequentada pela “ausência viva”
destreza porque sim forma porque sim aplicação porque sim
de tudo em tudo
de nada em nada pelo gozo “básico” de “estar a ser”
maneira delicada de colocá-la no “espaço”
ponham-na a andar a correr a saber
sobre linhas curvas e linhas rectas “fulminantes”
ponham-na sobre patins com o stique e a bola como
"ponto de referência” ou como “pretexto espaço-tempo”
para aplicação da “dança”
experimentem uma ou duas vezes ou três reter determinada
“imagem” e metam-na “para dentro” assim imóvel
e fiquem parados “aí” com a imagem parada talvez brilhando
(• qualquer coisa como uma sagrada suspensão
e abrindo os olhos então o jogo retoma a imagem
que entretanto ficou incrustada no escuro a brilhar sempre
e dela “parece” que o movimento parte de novo
é uma “linguagem” e energia e delicadeza atravessam o ar
espectáculo do “verbo primeiro e último” apanhem a figura “absoluta”
do pé esquerdo o patim refulge a mão direita “prolonga-se”
vamos achar bem que o stique seja a “respiração”
extrema e extensa
a bola põe-se a “caligrafar” todo um sistema de planos
intensos leves
"metáfora” decerto minuto a minuto destruída pela pergunta
"que jogo é este para o entendimento dos olhos?”
a resposta “alegria” tudo esgota
mas só um sentimento de urgência corporal dá ao jogo
uma “necessária dimensão”
“o jogo respira?” perguntam e diz-se “que respira”
“então deixem-no lá viver” como se se tratasse de
“uma criatura”
podemos confundir “isto” com “acertar”?
o jogo apenas acerta consigo mesmo e este acerto é o próprio
“jogo”
nele ressaltam só qualidades de acção força delicadeza
envolvimento em si mesmo
e o prazer de maquinar o universo numa restrita
organização de linhas vividas em “iminência”
de imagem em imagem se transfere o corpo
sempre à beira de “ser” e parando e continuando
e ainda “apagando e recomeçando” como se continuamente
bebesse de si e tivesse o ar pequeno para demonstrar
a grandeza de si a si mesmo
“referido a quê senão ao absurdo de um espelho?”
“a enviar-se” cerradamente entre os seus limites
zona frequentada pela “ausência viva”
destreza porque sim forma porque sim aplicação porque sim
de tudo em tudo
de nada em nada pelo gozo “básico” de “estar a ser”
613
Herberto Helder
Texto 3
Afinal a ideia é sempre a mesma o bailarino a pôr o pé
no sítio uma coisa muito forte
na cabeça no coração nos intestinos no nosso próprio pé
pode imaginar-se a ventania quer dizer
"o que acontece ao ar” é a dança
pois vejam o que está a fazer o bailarino que desata por aí fora
(por “aí dentro” seria melhor) ele varre o espaço
se me permitem varre-o com muita evidência
somos obrigados a “ver isso”
que faz o pé forte no sítio forte o pé leve no sítio leve
o sítio rítmico no pé rítmico?
e digo assim porque se trata do princípio “de cima para baixo
de baixo para cima”
que faz? que fazem? oh apenas um pouco de geometria
em termos de tempo um pouco de velocidade
dm termos de espaço dentro de tempo
"vamos lá encher o tempo com rapidez de espaço”
pensam os pés dele quando o ar está pronto
o “problema” do bailarino é coisa que não interessa por aí além
mas são chegados os tempos da agonia
estamos “exaltados” com este pensamento de morte
é preciso pensar no “ritmo” é uma das nossas congeminações exaltadas
na realidade algo se transformou desde que ele começou a dançar
sem qualquer auxílio excepto
não haver ainda nomes para “isso” e haver os ingredientes
do espectáculo i. e. a qualidade “forte” do sítio
esperem pela abertura de negociações entre “não” e “sim”
hão-de ver como coisas dessas se passam
não vai ser fácil os recursos de designação as acomodações várias
já se não encontram às ordens de vossências
comecem a aperceber-se da “energia” como “instrumento”
de criar “situações cheias de novidade”
vai haver muito nevoeiro nessas cabeças
e ainda ‘o coração caiu-lhe aos pés” o banal
a contas com o inesperado talvez então se tenha a ideia de murmurar
os pés subiram-lhe ao coração”
pois vão dizendo que exagero logo se verá
também Jorge Luis Borges escreveu esta coisa um nadinha espantosa
a lua da qual tinha caído um leão” nunca se pode saber
maçãs caem Newton cai na armadilha
quedas não faltam umas por causa das outras
os impérios caem etc. o assunto do bailarino cai
mas sempre em cima da cabeça e estamos para ver
Cristo a andar sobre as águas é ainda o caso do bailarino
“o estilo”
claro que “isto” apavora
a dança faz parte do medo se assim me posso exprimir
no sítio uma coisa muito forte
na cabeça no coração nos intestinos no nosso próprio pé
pode imaginar-se a ventania quer dizer
"o que acontece ao ar” é a dança
pois vejam o que está a fazer o bailarino que desata por aí fora
(por “aí dentro” seria melhor) ele varre o espaço
se me permitem varre-o com muita evidência
somos obrigados a “ver isso”
que faz o pé forte no sítio forte o pé leve no sítio leve
o sítio rítmico no pé rítmico?
e digo assim porque se trata do princípio “de cima para baixo
de baixo para cima”
que faz? que fazem? oh apenas um pouco de geometria
em termos de tempo um pouco de velocidade
dm termos de espaço dentro de tempo
"vamos lá encher o tempo com rapidez de espaço”
pensam os pés dele quando o ar está pronto
o “problema” do bailarino é coisa que não interessa por aí além
mas são chegados os tempos da agonia
estamos “exaltados” com este pensamento de morte
é preciso pensar no “ritmo” é uma das nossas congeminações exaltadas
na realidade algo se transformou desde que ele começou a dançar
sem qualquer auxílio excepto
não haver ainda nomes para “isso” e haver os ingredientes
do espectáculo i. e. a qualidade “forte” do sítio
esperem pela abertura de negociações entre “não” e “sim”
hão-de ver como coisas dessas se passam
não vai ser fácil os recursos de designação as acomodações várias
já se não encontram às ordens de vossências
comecem a aperceber-se da “energia” como “instrumento”
de criar “situações cheias de novidade”
vai haver muito nevoeiro nessas cabeças
e ainda ‘o coração caiu-lhe aos pés” o banal
a contas com o inesperado talvez então se tenha a ideia de murmurar
os pés subiram-lhe ao coração”
pois vão dizendo que exagero logo se verá
também Jorge Luis Borges escreveu esta coisa um nadinha espantosa
a lua da qual tinha caído um leão” nunca se pode saber
maçãs caem Newton cai na armadilha
quedas não faltam umas por causa das outras
os impérios caem etc. o assunto do bailarino cai
mas sempre em cima da cabeça e estamos para ver
Cristo a andar sobre as águas é ainda o caso do bailarino
“o estilo”
claro que “isto” apavora
a dança faz parte do medo se assim me posso exprimir
801
Herberto Helder
Texto 10
Encontro-me na posição de estar freneticamente suspenso
das “cenas” nos fundos da “noite”
algum “teatro” vem declarar-se pronto para as suas “leituras”
O “movimento” procura o “corpo”
propriamente
permissivo limpo uma “biografia” de animal
feita
da sua fome e sede e da sua viagem “até onde”
“lugares” encontrados “narrativas” a ocupar uma “atenção última”
a flor que se organizou de um povoamento
de “esforços” florais “tentativas” erros riquíssimos
a cena traz ondas de treva o silêncio que a “tradição” manda:
“gaste-se”
1 raz alguns truques de “estancar e escoar”
um pouco de pavor enquanto há “véspera”
mas não é sempre a noite? entanto já se institui
u ma “crónica diuturna” um helicóptero “por extensão”
persegue a sua paisagem uma paixão do pormenor inventa
os seus “óculos” porque há “coisas para saber”
e para já sabe-se que entre as coisas para saber espera
“a coisa” para saber dessas coisas
o lado tenebroso do corpo que avança debaixo das luzes?
agora “a abertura irradiante” da treva por onde
não bem surpresa não bem milagre não bem tremer de pés e mãos
não bem isto ou aquilo
mas uma “vertigem” que encontrou a “altura” justa
se instalou nela fez “a perpetuidade da época de perigo”
agarra-se a esse “destino” a “personagem” saída
do “trabalho das palavras” dobra-se sobre esse medo
esse pasmo e alegria essa antropófaga festa
de “estar sobre si” e de essa obscura dominação
“estar em cima dela”
polpa asfixiando o caroço e agora o caroço
cancro de frias nervuras fortes tão “praticável”
a “cena” em que os doces buracos se abrem ao veneno
essa “troca” de malevolência íntima e energia íntima
uma “ironia” como que intangível com que se pintam
cenários de montanhas em metal ramagens vermelhas
irrompendo de paredes negras
uma lua aparentemente desaproveitada
tudo “inteligências” para “o equívoco” pés descalços
que chegam para iludir a ilusão de iludir
e depois apenas “o corpo” onde é “o sítio de nascer”
com as suas obras todas implícitas
a noite onde se habituou a noite que ele habituou
a ser a única sua noite
e o pano corre “escreve-se” depressa a si mesmo
“o texto”
o corpo escreve-se “como seria e é” que não acaba e começa
grande e sempre na “altura” propícia e precipício teatral “maior”
e nem “a mão” se moveu para que fosse “escriturada”
das “cenas” nos fundos da “noite”
algum “teatro” vem declarar-se pronto para as suas “leituras”
O “movimento” procura o “corpo”
propriamente
permissivo limpo uma “biografia” de animal
feita
da sua fome e sede e da sua viagem “até onde”
“lugares” encontrados “narrativas” a ocupar uma “atenção última”
a flor que se organizou de um povoamento
de “esforços” florais “tentativas” erros riquíssimos
a cena traz ondas de treva o silêncio que a “tradição” manda:
“gaste-se”
1 raz alguns truques de “estancar e escoar”
um pouco de pavor enquanto há “véspera”
mas não é sempre a noite? entanto já se institui
u ma “crónica diuturna” um helicóptero “por extensão”
persegue a sua paisagem uma paixão do pormenor inventa
os seus “óculos” porque há “coisas para saber”
e para já sabe-se que entre as coisas para saber espera
“a coisa” para saber dessas coisas
o lado tenebroso do corpo que avança debaixo das luzes?
agora “a abertura irradiante” da treva por onde
não bem surpresa não bem milagre não bem tremer de pés e mãos
não bem isto ou aquilo
mas uma “vertigem” que encontrou a “altura” justa
se instalou nela fez “a perpetuidade da época de perigo”
agarra-se a esse “destino” a “personagem” saída
do “trabalho das palavras” dobra-se sobre esse medo
esse pasmo e alegria essa antropófaga festa
de “estar sobre si” e de essa obscura dominação
“estar em cima dela”
polpa asfixiando o caroço e agora o caroço
cancro de frias nervuras fortes tão “praticável”
a “cena” em que os doces buracos se abrem ao veneno
essa “troca” de malevolência íntima e energia íntima
uma “ironia” como que intangível com que se pintam
cenários de montanhas em metal ramagens vermelhas
irrompendo de paredes negras
uma lua aparentemente desaproveitada
tudo “inteligências” para “o equívoco” pés descalços
que chegam para iludir a ilusão de iludir
e depois apenas “o corpo” onde é “o sítio de nascer”
com as suas obras todas implícitas
a noite onde se habituou a noite que ele habituou
a ser a única sua noite
e o pano corre “escreve-se” depressa a si mesmo
“o texto”
o corpo escreve-se “como seria e é” que não acaba e começa
grande e sempre na “altura” propícia e precipício teatral “maior”
e nem “a mão” se moveu para que fosse “escriturada”
636
Herberto Helder
Um Deus Lisérgico
Ele viu, a muitas noites de distância o Rosto
saturado de furos ígneos absorvido
em sua própria velocidade
ressaca silenciosa um rosto precipitado
para dentro
noutro lado do que é visto nas formas:
lacunas, parêntesis desapossados, duas tensões
de parte a parte da figura
— ferroadas brancas Ele viu
a fria floresta erguer-se sob o movimento nocturno
das massas e o volume cru do Rosto
com tudo ordenado em si a energia dos pontos
fixos
curva de aço a matéria geral húmida:
água leite desordenado
os meandros percurso feminino
Ele viu sobre o espaço maternal
uma coruscação
estampa presa dentro do fluido
desenvolvimento
a cabeça de um prego engolfado na madeira
e a ponta fulminante
um relâmpago noutra parte o Rosto
martelado nas suas vísceras um nó
veloz, parado como feito no tecido doloroso
da atenção Ele viu o Rosto
e toda a leveza ameaçadora era tragada
pelo núcleo essa primeira sutura
no remoinho da carne
sobre os níveis primários temperaturas vagarosas
o granito bombardeado por refluxos celestes
enxuto, raspado
enquanto a chuva iluminava toda a frente
das terras e o alto aberto e os corredores vaginais
da substância a força da Lua no Capricórnio
e tenacidade
Acima das jubas molhadas pelo sangue
ele viu o Rosto com seus buracos vertiginosos
concentração
de um feixe de linhas brutais centripetamente
o Rosto a respirar dentro dele
como as malhas dos pulmões onde saltava
o oxigénio selvático
saturado de furos ígneos absorvido
em sua própria velocidade
ressaca silenciosa um rosto precipitado
para dentro
noutro lado do que é visto nas formas:
lacunas, parêntesis desapossados, duas tensões
de parte a parte da figura
— ferroadas brancas Ele viu
a fria floresta erguer-se sob o movimento nocturno
das massas e o volume cru do Rosto
com tudo ordenado em si a energia dos pontos
fixos
curva de aço a matéria geral húmida:
água leite desordenado
os meandros percurso feminino
Ele viu sobre o espaço maternal
uma coruscação
estampa presa dentro do fluido
desenvolvimento
a cabeça de um prego engolfado na madeira
e a ponta fulminante
um relâmpago noutra parte o Rosto
martelado nas suas vísceras um nó
veloz, parado como feito no tecido doloroso
da atenção Ele viu o Rosto
e toda a leveza ameaçadora era tragada
pelo núcleo essa primeira sutura
no remoinho da carne
sobre os níveis primários temperaturas vagarosas
o granito bombardeado por refluxos celestes
enxuto, raspado
enquanto a chuva iluminava toda a frente
das terras e o alto aberto e os corredores vaginais
da substância a força da Lua no Capricórnio
e tenacidade
Acima das jubas molhadas pelo sangue
ele viu o Rosto com seus buracos vertiginosos
concentração
de um feixe de linhas brutais centripetamente
o Rosto a respirar dentro dele
como as malhas dos pulmões onde saltava
o oxigénio selvático
744
Herberto Helder
Texto 12
Sei de um poeta que passou os anos mais próximos do seu
“suicídio”
a bater com os nós dos dedos pelas paredes a abrir e fechar
as mãos para que o ar saltasse
como “modeladas” (“moduladas”) aparas de “som”
um poeta nos limites da “consumação” à procura
de um “ponto de apoio” apenas levemente “perceptível”
para a terrífica massa de “silêncio” que lhe cabia
a ele que procurara sob as ameaças da confusão
“estabelecer as vozes”
uma vez pensara: “que o corpo permitisse o corpo”
e fora para diante com essa ideia
era decerto uma decisão “explosiva”
ele estava sentado a fazer aquilo “por dentro”
e foi-se vendo pelo seu “rosto” que não era fácil tomar a cargo
a coruscante “caligrafia do mundo”
mas ele tomou-a até onde pôde e o “corpo” era já
o outro lado da “agonia” um “texto monstruoso” que se “decifrava”
apenas “a si próprio”
depois veio o toque no estuque e nas portas que finalmente
não davam nenhuma saída ao excesso “corporal”
de tanto “trabalho” tanta “poética transgressora” tanto
“nome” abusivamente “físico”
veio o ar espadanando à passagem da “natação”
desesperada
avisos de um nó de som a ainda ingénua “vacilação de planos”
quando a vozearia criara por fim a “distância”
uma “fractura no espaço” a “virgula” a fremir
na “ausência” isso o “sitio” onde apoiar a “alavanca”
porque essa “energia do silêncio” já atingira
algumas partes da “biografia” dele do “sono” de tudo quanto
fizera seu ou lhe viera
enfaixado no “sangue” e o que pretendia era só
colocar a “música extrema” ao alcance dos “ouvidos”
referir a uma “pauta” o silêncio em toda a parte
estivera como tanta gente a “ressuscitar”
metade do tempo e metade dele a “morrer” muito e muito
achava então que tudo deveria ser levado
até à “decifração”
por fim havia isso de estuque e dedos para tentar saber
e o ar como deserto a ver se dele irrompia
“o princípio da fertilidade”
do rosto não sei se era “a luz” que o alagava
ou “a noite de tantas noites”
enquanto o “suicídio” se acercava não como uma espécie
de “regra final de ouro”
acercava-se apenas e os dedos a baterem sempre na madeira
e o ar fendendo-se enquanto fremiam ainda
as barbatanas a ver se havia alguma coisa a seu favor
no mundo que não havia
1971
“suicídio”
a bater com os nós dos dedos pelas paredes a abrir e fechar
as mãos para que o ar saltasse
como “modeladas” (“moduladas”) aparas de “som”
um poeta nos limites da “consumação” à procura
de um “ponto de apoio” apenas levemente “perceptível”
para a terrífica massa de “silêncio” que lhe cabia
a ele que procurara sob as ameaças da confusão
“estabelecer as vozes”
uma vez pensara: “que o corpo permitisse o corpo”
e fora para diante com essa ideia
era decerto uma decisão “explosiva”
ele estava sentado a fazer aquilo “por dentro”
e foi-se vendo pelo seu “rosto” que não era fácil tomar a cargo
a coruscante “caligrafia do mundo”
mas ele tomou-a até onde pôde e o “corpo” era já
o outro lado da “agonia” um “texto monstruoso” que se “decifrava”
apenas “a si próprio”
depois veio o toque no estuque e nas portas que finalmente
não davam nenhuma saída ao excesso “corporal”
de tanto “trabalho” tanta “poética transgressora” tanto
“nome” abusivamente “físico”
veio o ar espadanando à passagem da “natação”
desesperada
avisos de um nó de som a ainda ingénua “vacilação de planos”
quando a vozearia criara por fim a “distância”
uma “fractura no espaço” a “virgula” a fremir
na “ausência” isso o “sitio” onde apoiar a “alavanca”
porque essa “energia do silêncio” já atingira
algumas partes da “biografia” dele do “sono” de tudo quanto
fizera seu ou lhe viera
enfaixado no “sangue” e o que pretendia era só
colocar a “música extrema” ao alcance dos “ouvidos”
referir a uma “pauta” o silêncio em toda a parte
estivera como tanta gente a “ressuscitar”
metade do tempo e metade dele a “morrer” muito e muito
achava então que tudo deveria ser levado
até à “decifração”
por fim havia isso de estuque e dedos para tentar saber
e o ar como deserto a ver se dele irrompia
“o princípio da fertilidade”
do rosto não sei se era “a luz” que o alagava
ou “a noite de tantas noites”
enquanto o “suicídio” se acercava não como uma espécie
de “regra final de ouro”
acercava-se apenas e os dedos a baterem sempre na madeira
e o ar fendendo-se enquanto fremiam ainda
as barbatanas a ver se havia alguma coisa a seu favor
no mundo que não havia
1971
568
Herberto Helder
I H
Beleza ou ciência: uma nova maneira súbita
— os frutos unidos à sua árvore,
precipícios,
as mãos embriagadas.
E os animais aprofundam-se, encurvam-se os dias,
as pêras brilham,
o teu vestido é grande se te olho devagar.
O teu corpo transmite-se ao vestido.
Penso na glória do teu corpo.
E inclina-se a luz até os dias caírem dentro dos dias invisíveis.
Aterra move-se sobre os lados, ensinas-me
o que não saberei nunca:
a água ronda.
Dentro de uma zona aberta com muita força:
música,
o exercício de uma palavra maior que as outras todas,
e a minha idade — ciência tão mortal onde és
absoluta.
— os frutos unidos à sua árvore,
precipícios,
as mãos embriagadas.
E os animais aprofundam-se, encurvam-se os dias,
as pêras brilham,
o teu vestido é grande se te olho devagar.
O teu corpo transmite-se ao vestido.
Penso na glória do teu corpo.
E inclina-se a luz até os dias caírem dentro dos dias invisíveis.
Aterra move-se sobre os lados, ensinas-me
o que não saberei nunca:
a água ronda.
Dentro de uma zona aberta com muita força:
música,
o exercício de uma palavra maior que as outras todas,
e a minha idade — ciência tão mortal onde és
absoluta.
1 087
Herberto Helder
24
porque já me não lavo,
porque desde os oitenta só me lavava em água soberba
(água que não há)
porque mal acordo tenho muita pressa e vou correndo ver
se o sonho bate certo
(com que pode bater certo sonho tão limpo?)
porque o mundo seria turvo e eu não me curvaria nunca,
e então não me lavo,
ileso o corpo,
sôpro que me tinha no ar,
impalpável tecido de um jogo,
o sentimento de não haver nenhum tempo
senão aquele mesmo nenhum que era sempre:
à noite vinha o orvalho,
manhã muito cedo era só sossego,
depois a erva estremecia e moviam-se as colinas
para sítios que ninguém sabia,
depois a gente banhava-se que era tudo quanto se podia ver
em cima do universo:
a terra não tinha costuras,
nem secreto e aberto, nem dentro e fora, nem sujo e limpo,
nem ninguém tomava banho senão aquilo:
estou tão lavado que estremeço de tudo o igual a mim mesmo,
limpo tanto que mete medo desde o chão ao imenso arco
do abraço com aquilo sossêgo:
nome de banho senão êste:
externo extenso extremo
escrito tão magno
tamanho banho:
denominação: dominação de tudo
— nome é baptismo,
imo é o sítio
porque desde os oitenta só me lavava em água soberba
(água que não há)
porque mal acordo tenho muita pressa e vou correndo ver
se o sonho bate certo
(com que pode bater certo sonho tão limpo?)
porque o mundo seria turvo e eu não me curvaria nunca,
e então não me lavo,
ileso o corpo,
sôpro que me tinha no ar,
impalpável tecido de um jogo,
o sentimento de não haver nenhum tempo
senão aquele mesmo nenhum que era sempre:
à noite vinha o orvalho,
manhã muito cedo era só sossego,
depois a erva estremecia e moviam-se as colinas
para sítios que ninguém sabia,
depois a gente banhava-se que era tudo quanto se podia ver
em cima do universo:
a terra não tinha costuras,
nem secreto e aberto, nem dentro e fora, nem sujo e limpo,
nem ninguém tomava banho senão aquilo:
estou tão lavado que estremeço de tudo o igual a mim mesmo,
limpo tanto que mete medo desde o chão ao imenso arco
do abraço com aquilo sossêgo:
nome de banho senão êste:
externo extenso extremo
escrito tão magno
tamanho banho:
denominação: dominação de tudo
— nome é baptismo,
imo é o sítio
796
Herberto Helder
Texto 4
Eu podia abrir um mapa: “o corpo” com relevos crepitantes
e depressões e veias hidrográficas e tudo o mais
morosas linhas e gravações um pouco obscuras
quando “ler” se fendia nalguma parte um buraco
que chegava repentinamente de dentro
a clareira arremessada pelo sono acima
insónia vulcânica sala contendo toda a febre táctil
furibunda maneira
esse era então uma espécie de “lugar interno”
áspera geologia alcalina e varrida e crua
exposta assim à leitura que se esqueceu do seu “medo
O corpo com todas as “incursões” caligráficas
“referências” florais “desvios” ortográficos da família dos carnívoros
“antropofagias” gramaticais e “pègadas”
ainda ferventes
ou minas com o frio bater e o barulho escorrendo
“um mapa” onde se lia completamente o sangue e suas franjas
de ouro o irado desregramento da “traça
primeira” e o apuramento do mel com a labareda
inclusa o corpo na prancheta
para a lisura sentada onde se risca a posição mortal
“um papel” apenas a branca tensão do néon
no tecto o jorro de cima “declarando” qualquer rispidez
a suavidade toda uma bastarda
graça
de infiltração na sonolência ou explosiva
“vigilância” combustão das massas ao comprido
do “desenho” irregular
e só então assim desterrado do ruído nos subúrbios
ele apenas agora “composição” forte e atada de elementos
escarpas rapidamente
decorrendo
corpo que se faltava em tempo “fotografia”
de um “estudo” para sempre
como lhe bastava ser possível tão-só uma certa
temperatura
grutas aberturas minerais palpitações no subsolo
tremores
anfractuosidades esponjas onde pulsavam canais dolorosos
e a arfante matéria irrompendo nos écrans
com o susto leve das “manchas” que se uniam
essa energia sem espaço súbita “geometria” a costurar de fora
mordeduras velozes delicadezas
nervuras vivas
para seguir até ao fim “com os olhos”
como uma paisagem de espinhos faiscantes
“o contorno” que queima de uma lâmpada acesa
toda a noite no gabinete do cartógrafo
e depressões e veias hidrográficas e tudo o mais
morosas linhas e gravações um pouco obscuras
quando “ler” se fendia nalguma parte um buraco
que chegava repentinamente de dentro
a clareira arremessada pelo sono acima
insónia vulcânica sala contendo toda a febre táctil
furibunda maneira
esse era então uma espécie de “lugar interno”
áspera geologia alcalina e varrida e crua
exposta assim à leitura que se esqueceu do seu “medo
O corpo com todas as “incursões” caligráficas
“referências” florais “desvios” ortográficos da família dos carnívoros
“antropofagias” gramaticais e “pègadas”
ainda ferventes
ou minas com o frio bater e o barulho escorrendo
“um mapa” onde se lia completamente o sangue e suas franjas
de ouro o irado desregramento da “traça
primeira” e o apuramento do mel com a labareda
inclusa o corpo na prancheta
para a lisura sentada onde se risca a posição mortal
“um papel” apenas a branca tensão do néon
no tecto o jorro de cima “declarando” qualquer rispidez
a suavidade toda uma bastarda
graça
de infiltração na sonolência ou explosiva
“vigilância” combustão das massas ao comprido
do “desenho” irregular
e só então assim desterrado do ruído nos subúrbios
ele apenas agora “composição” forte e atada de elementos
escarpas rapidamente
decorrendo
corpo que se faltava em tempo “fotografia”
de um “estudo” para sempre
como lhe bastava ser possível tão-só uma certa
temperatura
grutas aberturas minerais palpitações no subsolo
tremores
anfractuosidades esponjas onde pulsavam canais dolorosos
e a arfante matéria irrompendo nos écrans
com o susto leve das “manchas” que se uniam
essa energia sem espaço súbita “geometria” a costurar de fora
mordeduras velozes delicadezas
nervuras vivas
para seguir até ao fim “com os olhos”
como uma paisagem de espinhos faiscantes
“o contorno” que queima de uma lâmpada acesa
toda a noite no gabinete do cartógrafo
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