Poemas neste tema
Corpo
António Ramos Rosa
8. E Boca Ou Acidente de Palavra
8
E boca ou acidente de palavra
aspecto de estrutura
ou ideia de rosa ou de cavalo.
Nome do seio sob
a renda de areia ou
arbusto de ser inanimado
na luz harmoniosa.
Animal ou palavra animal
e árvore ou ideia seio de água
única da sede inicial.
E boca ou acidente de palavra
aspecto de estrutura
ou ideia de rosa ou de cavalo.
Nome do seio sob
a renda de areia ou
arbusto de ser inanimado
na luz harmoniosa.
Animal ou palavra animal
e árvore ou ideia seio de água
única da sede inicial.
1 082
António Ramos Rosa
26. Aprendi o Jogo E o Não Jogo
26
Aprendi o jogo e o não jogo
com a lâmpada obscura na nudez das ervas
declinando sempre a perda das palavras
e a prática pedestre das pernas obscenas.
Restituir e não restituir ou seja o rastro
os joelhos negros o incêndio límpido
e sóbrio membro o único unicórnio.
A figura é isto: os quatro membros: e o membro
branco e erecto sol sal e sangue
e a interrupção dos aspectos prática poética.
Aprendi o jogo e o não jogo
com a lâmpada obscura na nudez das ervas
declinando sempre a perda das palavras
e a prática pedestre das pernas obscenas.
Restituir e não restituir ou seja o rastro
os joelhos negros o incêndio límpido
e sóbrio membro o único unicórnio.
A figura é isto: os quatro membros: e o membro
branco e erecto sol sal e sangue
e a interrupção dos aspectos prática poética.
892
António Ramos Rosa
40. o Cão Sem Sombra E a Face Oblíqua
40
O cão sem sombra e a face oblíqua
na infância azul da face
uma janela alta o vazio os astros.
Um gesto da matéria amorosa negra
a flecha do não ser na ferrugem do muro
a questão interrompida o sexo nu.
Quando no opaco a oblíqua ferida
rasga as paralelas do ser e a flecha fere
a outra flecha vermelha na ferrugem.
O cão sem sombra e a face oblíqua
na infância azul da face
uma janela alta o vazio os astros.
Um gesto da matéria amorosa negra
a flecha do não ser na ferrugem do muro
a questão interrompida o sexo nu.
Quando no opaco a oblíqua ferida
rasga as paralelas do ser e a flecha fere
a outra flecha vermelha na ferrugem.
1 079
António Ramos Rosa
14. Este (Aqui Formulado) Sobre Os Cílios
14
Este (aqui formulado) sobre os cílios
ou as pestanas pretas pretas mesmo
sob o deserto dele, a casa nuvem.
Terra (designação que nega) areia
do grito das pestanas, cílios sérios,
adormecendo a noite da folhagem.
Arranca à aragem o perfume sóbrio
desses cílios negros cílios
e colhe aí a perfumada imagem.
Este (aqui formulado) sobre os cílios
ou as pestanas pretas pretas mesmo
sob o deserto dele, a casa nuvem.
Terra (designação que nega) areia
do grito das pestanas, cílios sérios,
adormecendo a noite da folhagem.
Arranca à aragem o perfume sóbrio
desses cílios negros cílios
e colhe aí a perfumada imagem.
1 059
António Ramos Rosa
34. a Que For Nua a Nua Nuvem
34
A que for nua a nua nuvem
branca e por ser pobre lâmpada
por amor de Sílvia e suas pernas altas
por amor dos seus pequenos pulsos.
Pela imagem da folha em ti aberta
pelos cabelos pelos ombros por estas sílabas
por todo o frágil fragmento Sílvia
tu serás incandescente como a silva ardente.
Por ti que nunca foste a alta
rapariga que tu foste por ti Sílvia
eu não escrevo as palavras florescentes
mas o túmulo pobre do amor ausente.
A que for nua a nua nuvem
branca e por ser pobre lâmpada
por amor de Sílvia e suas pernas altas
por amor dos seus pequenos pulsos.
Pela imagem da folha em ti aberta
pelos cabelos pelos ombros por estas sílabas
por todo o frágil fragmento Sílvia
tu serás incandescente como a silva ardente.
Por ti que nunca foste a alta
rapariga que tu foste por ti Sílvia
eu não escrevo as palavras florescentes
mas o túmulo pobre do amor ausente.
1 114
António Ramos Rosa
21. Não Ao Espelho Em Que Ela Se Retira
21
Não ao espelho em que ela se retira
mas pela fractura que abre o outro lado
onde a visão se quebra onde começa o além
a outra força branca vital visão do braço.
Sim à terra putrefacta à terra verde
à terra ferida aos excrementos verdes
sim à ruptura desse braço quebrado
que abre a visão da terra extrema.
Fractura da visão: o mesmo, o outro
o centro e o não centro, o lado outro
onde a boca bebe a terra como outra boca a boca.
Não ao espelho em que ela se retira
mas pela fractura que abre o outro lado
onde a visão se quebra onde começa o além
a outra força branca vital visão do braço.
Sim à terra putrefacta à terra verde
à terra ferida aos excrementos verdes
sim à ruptura desse braço quebrado
que abre a visão da terra extrema.
Fractura da visão: o mesmo, o outro
o centro e o não centro, o lado outro
onde a boca bebe a terra como outra boca a boca.
1 087
António Ramos Rosa
38. Tu Sabes o Sabor do Sono E a Pausa
38
Tu sabes o sabor do sono e a pausa
do sono sobre as pernas luminosas
e mais a secreta terra não vermelha.
Não ardente a escrita aqui: do campo
aranha inocente
de patas musicais
silenciosa deusa na verdura.
Condensando a cabeça e o tronco branco
decepado sobre o não sentir ou não viver
eis o braço o pedaço ardente e frio.
Tu sabes o sabor do sono e a pausa
do sono sobre as pernas luminosas
e mais a secreta terra não vermelha.
Não ardente a escrita aqui: do campo
aranha inocente
de patas musicais
silenciosa deusa na verdura.
Condensando a cabeça e o tronco branco
decepado sobre o não sentir ou não viver
eis o braço o pedaço ardente e frio.
1 104
António Ramos Rosa
36. Imagem (Não Ardente Aqui) da Figura
36
Imagem (não ardente aqui) da figura
ardente e enterrada sob o ventre
do cavalo e da mulher ardente igreja
sendo a pausa do seio vermelho e branco.
A nuvem que atravessa o dom da boca
da imagem liberta do deserto
institui o segredo do ouvido da ave
abrindo o horizonte às negras ancas.
Traição presente da nuvem da figura
redução ao simples animal da erva
pedra para saber o segredo do insecto.
Imagem (não ardente aqui) da figura
ardente e enterrada sob o ventre
do cavalo e da mulher ardente igreja
sendo a pausa do seio vermelho e branco.
A nuvem que atravessa o dom da boca
da imagem liberta do deserto
institui o segredo do ouvido da ave
abrindo o horizonte às negras ancas.
Traição presente da nuvem da figura
redução ao simples animal da erva
pedra para saber o segredo do insecto.
1 063
António Ramos Rosa
39. Esta É a Folha, E a Folha
39
Esta é a folha, e a folha
de terra, mas a água da lâmpada
breve.
Que ela me diga a não-palavra
de palavra, a terra
e o corpo renascendo sob a árvore
e o espaço que é o espaço
o espaço.
E a terra da terra, o corpo
da figura
soprando a nuvem sobre as pernas
da mulher descoberta na ilha do seu quarto.
Esta é a folha, e a folha
de terra, mas a água da lâmpada
breve.
Que ela me diga a não-palavra
de palavra, a terra
e o corpo renascendo sob a árvore
e o espaço que é o espaço
o espaço.
E a terra da terra, o corpo
da figura
soprando a nuvem sobre as pernas
da mulher descoberta na ilha do seu quarto.
595
António Ramos Rosa
20. de Amor — Na Pedra E Cinza Verde
20
De amor — na pedra e cinza verde
o corpo no húmus sem jardim
memória que perdeu o azul anel.
De amor por ela e por ele, o sim
da ausência neste espaço não
iluminado mas branco, imune
por amor do amor no vazio amado.
Qualidade do instante na boca, língua
de palpitante sede que ressurge o corpo
para além da memória, na pedra do incesto.
De amor — na pedra e cinza verde
o corpo no húmus sem jardim
memória que perdeu o azul anel.
De amor por ela e por ele, o sim
da ausência neste espaço não
iluminado mas branco, imune
por amor do amor no vazio amado.
Qualidade do instante na boca, língua
de palpitante sede que ressurge o corpo
para além da memória, na pedra do incesto.
915
António Ramos Rosa
Terra Para Pronunciar…
Terra para pronunciar com os dentes da terra, terra escalavrada, presença e memória e espaço da ausência, espaço e desejo de espaço, e já o espaço do desejo, assim a terra negra, escalavrada, corpo branco e mudo.
1 319
António Ramos Rosa
23. Clamor do Sangue Respiração Montanha
23
Clamor do sangue respiração montanha
renascendo sobre os sabres luz do corpo
riso informulado do respirar da árvore.
E folha sobre folha ardência de outro corpo
e mais ardor de ser mais corpo sobre o corpo
vivacidade vermelha de inesgotável óleo.
Terra e sangue maravilha negra
de substância de entusiasmo e altitude
ilimitado corpo sobre o campo iluminado.
Clamor do sangue respiração montanha
renascendo sobre os sabres luz do corpo
riso informulado do respirar da árvore.
E folha sobre folha ardência de outro corpo
e mais ardor de ser mais corpo sobre o corpo
vivacidade vermelha de inesgotável óleo.
Terra e sangue maravilha negra
de substância de entusiasmo e altitude
ilimitado corpo sobre o campo iluminado.
1 172
António Ramos Rosa
Amamos Num Vislumbre Terra Suspensa
Amamos num vislumbre terra suspensa
chamamos limiar a esta chama
e uma ideia de fogo branco habita o pulso
um vaso negro irradia sobre o branco
Amamos o limiar o pólen dos mortos
na sombra desta palma deste odor de chama
chamamos alta a esta chama nua
E é uma mulher direita imóvel nua
Amamos esta terra esta sombra da mão
amamos esta escrita de água e dança obscura
caminhamos contra o hálito da noite
chamamos limiar a esta chama
e uma ideia de fogo branco habita o pulso
um vaso negro irradia sobre o branco
Amamos o limiar o pólen dos mortos
na sombra desta palma deste odor de chama
chamamos alta a esta chama nua
E é uma mulher direita imóvel nua
Amamos esta terra esta sombra da mão
amamos esta escrita de água e dança obscura
caminhamos contra o hálito da noite
1 033
António Ramos Rosa
A Espessura É Branca
A espessura da árvore
é branca
A casa repercute
os favos do silêncio
Ouço a medula da madeira
o pudor do silêncio jovem
O sangue circula sem bandeiras
ri na brancura
do corpo
Um rosto sob a cabeleira
rompe
no ardor do instante
em relâmpagos de ternura
Todas as hastes livres nascem
do quadrado aberto
sobre o rio
A palavra é um rosto que deixa ver o branco
do seu tremor
Do branco ao negro o branco
fogo
de uma árvore que estala em cada mão
O tronco antigo
é a casa nova
nos seus ramos vivos
*
Não uma escrita invulgar mas como as ervas
pobres. Como as pedras.
Tu poderás captar o esplendor.
Chamar-lhe-ás suave sob um sono de árvores.
Caminharás entre as plantas. Sentirás a sua sede.
E o olhar abrir-se-á no escuro fresco.
Ninguém te dirá que não te perdes na
densa água negra. Ou no branco papel.
Nunca apagarás o desejo. Nem
desistirás de procurar o lugar
ainda que lhe chames ausência.
Procura e não procures. Não existe um centro.
Mas a clareira por vezes
de súbito retém-nos.
*
Não é o tempo da lucidez amada.
Não é o tempo do templo, não invoques
a chama da árvore. Estende o braço na água.
Escreve como se não escrevesses.
Este é um campo onde plantas brancas
se avermelham às vezes nos quadrados.
Se puderes aviva as fugidias
relações
de uma parede de sombra
interrompe o clamor da cidade
lê os indecifráveis signos da força silenciosa.
Que os insectos estalem de súbito no ardor
de uma estação precária
e entre as ruínas, a frescura da luz,
de umas palavras: argila fogo pedra
iluminem o frágil rosto macerado.
*
A linguagem das coisas é um sono
verde. E tu não procuras
ver, tu vês a sombra e o espaço.
E o teu desejo é no lugar a água branca.
A casa junto aos juncos,
memória anulada, amor de nada e súbita
queda num apagado rumor de um nome.
A terra que pronuncias sabe ao desejo
de uma boca nas ervas
ou de um vaso escuro cheio de água clara.
Tudo o que se diz fica por dizer.
Como se um elemento faltasse na paisagem,
mas de súbito na distância próxima
a figura de luz do horizonte.
é branca
A casa repercute
os favos do silêncio
Ouço a medula da madeira
o pudor do silêncio jovem
O sangue circula sem bandeiras
ri na brancura
do corpo
Um rosto sob a cabeleira
rompe
no ardor do instante
em relâmpagos de ternura
Todas as hastes livres nascem
do quadrado aberto
sobre o rio
A palavra é um rosto que deixa ver o branco
do seu tremor
Do branco ao negro o branco
fogo
de uma árvore que estala em cada mão
O tronco antigo
é a casa nova
nos seus ramos vivos
*
Não uma escrita invulgar mas como as ervas
pobres. Como as pedras.
Tu poderás captar o esplendor.
Chamar-lhe-ás suave sob um sono de árvores.
Caminharás entre as plantas. Sentirás a sua sede.
E o olhar abrir-se-á no escuro fresco.
Ninguém te dirá que não te perdes na
densa água negra. Ou no branco papel.
Nunca apagarás o desejo. Nem
desistirás de procurar o lugar
ainda que lhe chames ausência.
Procura e não procures. Não existe um centro.
Mas a clareira por vezes
de súbito retém-nos.
*
Não é o tempo da lucidez amada.
Não é o tempo do templo, não invoques
a chama da árvore. Estende o braço na água.
Escreve como se não escrevesses.
Este é um campo onde plantas brancas
se avermelham às vezes nos quadrados.
Se puderes aviva as fugidias
relações
de uma parede de sombra
interrompe o clamor da cidade
lê os indecifráveis signos da força silenciosa.
Que os insectos estalem de súbito no ardor
de uma estação precária
e entre as ruínas, a frescura da luz,
de umas palavras: argila fogo pedra
iluminem o frágil rosto macerado.
*
A linguagem das coisas é um sono
verde. E tu não procuras
ver, tu vês a sombra e o espaço.
E o teu desejo é no lugar a água branca.
A casa junto aos juncos,
memória anulada, amor de nada e súbita
queda num apagado rumor de um nome.
A terra que pronuncias sabe ao desejo
de uma boca nas ervas
ou de um vaso escuro cheio de água clara.
Tudo o que se diz fica por dizer.
Como se um elemento faltasse na paisagem,
mas de súbito na distância próxima
a figura de luz do horizonte.
1 066
António Ramos Rosa
Quase Se Disse Quase
Quase se disse quase
sobre os joelhos sob os muros
quase os dedos no murmúrio lento
quase na ferida a ferida lábio e língua
e foram dois na muralha sem cavalos
folha a folha deitados sobre a sombra
e o verde crespo do sexo na boca
o esplendor obscuro entre as pernas claras
e foram um só na pedra branca
pela língua interior da terra e da folhagem
sobre os joelhos sob os muros
quase os dedos no murmúrio lento
quase na ferida a ferida lábio e língua
e foram dois na muralha sem cavalos
folha a folha deitados sobre a sombra
e o verde crespo do sexo na boca
o esplendor obscuro entre as pernas claras
e foram um só na pedra branca
pela língua interior da terra e da folhagem
1 076
António Ramos Rosa
Se Fosse o Espaço Ou o Corpo
Se fosse o espaço ou o corpo
se fosse a porta sobre a terra escura
E o livro assim começa: quantas pedras
se lêem nele e são a sombra só
de umas palavras
Se fosse a terra se fosse a espera
de uma folha
flutuando sobre a água (nesse livro)
se fosse a imagem (a dança e a mulher)
se fosse o caminho pobre e a folhagem
(No livro tudo se perde entre a ausência
e o ardor Que sombra o atravessa
que terra indemonstrável?)
Se fosse o pulso se fosse a casa aberta
(no livro só as feridas
do corpo sem o corpo e sem as margens)
se fosse o combate da presença viva
se fosse o lugar
verdadeiro
(No livro só as partes dilaceradas negras
a interminável repetição
sobre o deserto)
se fosse a porta sobre a terra escura
E o livro assim começa: quantas pedras
se lêem nele e são a sombra só
de umas palavras
Se fosse a terra se fosse a espera
de uma folha
flutuando sobre a água (nesse livro)
se fosse a imagem (a dança e a mulher)
se fosse o caminho pobre e a folhagem
(No livro tudo se perde entre a ausência
e o ardor Que sombra o atravessa
que terra indemonstrável?)
Se fosse o pulso se fosse a casa aberta
(no livro só as feridas
do corpo sem o corpo e sem as margens)
se fosse o combate da presença viva
se fosse o lugar
verdadeiro
(No livro só as partes dilaceradas negras
a interminável repetição
sobre o deserto)
533
António Ramos Rosa
Seja o Que For Murmúrio Muro
Seja o que for Murmúrio muro
Risco no opaco
Sem lâmpada na inércia branca
Os olhos ardem sob o gelo
Em equilíbrio encontrar que folha
sobre folha ou pedra
Nenhuma árvore aqui
Vocábulo nu Palavra nula
no muro
As imagens não dançam
sobre a imagem
Podes dizer pedra vento terra
Podes dizer o suicídio nulo
As imagens não dançam nos terraços
iguais e brancos brancos e iguais
nenhuma mulher se despe ou despenteia
nenhum vento desalinha este rectângulo
Podes dizer agora que a imagem
é nula como o corpo
Risco no opaco
Sem lâmpada na inércia branca
Os olhos ardem sob o gelo
Em equilíbrio encontrar que folha
sobre folha ou pedra
Nenhuma árvore aqui
Vocábulo nu Palavra nula
no muro
As imagens não dançam
sobre a imagem
Podes dizer pedra vento terra
Podes dizer o suicídio nulo
As imagens não dançam nos terraços
iguais e brancos brancos e iguais
nenhuma mulher se despe ou despenteia
nenhum vento desalinha este rectângulo
Podes dizer agora que a imagem
é nula como o corpo
1 030
António Ramos Rosa
Eis a Primeira Proposição Clara
Eis a primeira proposição clara
a que trouxe o vinho e o cristal da terra
Derramaste o óleo no limiar da face
e sobre as pernas deslizou a chama verde
e sobre as pálpebras os cordões da terra
a boca soçobrou no limiar da treva
Eis a última proposição da terra
a tua língua abriu a ferida viva
a palavra soltou-se do sexo da terra
a que trouxe o vinho e o cristal da terra
Derramaste o óleo no limiar da face
e sobre as pernas deslizou a chama verde
e sobre as pálpebras os cordões da terra
a boca soçobrou no limiar da treva
Eis a última proposição da terra
a tua língua abriu a ferida viva
a palavra soltou-se do sexo da terra
990
António Ramos Rosa
É a Superfície o Que Se Passa À Superfície
É a superfície o que se passa à superfície
língua folhagem
instantâneo caminho sopro
de sinais
E dizer é aqui no muro
no escuro da pedra
uma visão que dilucida a fome
das mãos
e torna a precária erva um bem dizível
É o que passa e jorra não sei de
que lado do silêncio que ilumina
a macia terra cega
e não só lâmpada não só arco ou anca
mas a mesa árida mas o rosto de lama
língua folhagem
instantâneo caminho sopro
de sinais
E dizer é aqui no muro
no escuro da pedra
uma visão que dilucida a fome
das mãos
e torna a precária erva um bem dizível
É o que passa e jorra não sei de
que lado do silêncio que ilumina
a macia terra cega
e não só lâmpada não só arco ou anca
mas a mesa árida mas o rosto de lama
1 125
António Ramos Rosa
Não Reflectir Não Pousar Isto É Uma
Não reflectir não pousar isto é uma
modulação uma parcela viva uma outra forma do ar
(mas uma parede separa-te da própria folha onde escreves)
todas as palavras se buscam sobre degraus de espuma
aproximamo-nos de uma montanha ou de um parágrafo luminoso
Desejaria escrever sobre a perfeita unidade nocturna
sobre o eclipse do teu corpo que é uma única sílaba e uma elipse
e as cores e as pausas das cores no teu corpo os teus ombros nas ervas
que abstracções tão vivas que intensidades leves
eu lembro-me sempre dessa lâmpada que se extingue no teu quarto
a uma hora indeterminável e absolutamente incoincidente
eu guardo na boca o sabor das tuas coxas cálidas e musgosas
e esta é a hora do silêncio nas ervas e nos pulsos flutuantes
modulação uma parcela viva uma outra forma do ar
(mas uma parede separa-te da própria folha onde escreves)
todas as palavras se buscam sobre degraus de espuma
aproximamo-nos de uma montanha ou de um parágrafo luminoso
Desejaria escrever sobre a perfeita unidade nocturna
sobre o eclipse do teu corpo que é uma única sílaba e uma elipse
e as cores e as pausas das cores no teu corpo os teus ombros nas ervas
que abstracções tão vivas que intensidades leves
eu lembro-me sempre dessa lâmpada que se extingue no teu quarto
a uma hora indeterminável e absolutamente incoincidente
eu guardo na boca o sabor das tuas coxas cálidas e musgosas
e esta é a hora do silêncio nas ervas e nos pulsos flutuantes
1 016
António Ramos Rosa
O Corpo Não Ardente
O corpo não ardente
mas obscuro
um sulco e os sombrios flancos
da imagem sob a lâmpada
No contacto não perfeito
inacabado braço inalcançável pulso
querer é dilacerar escrever rasgar
A imagem não se fixa nenhum contorno
exacto
Por um corpo inabalável pelo braço
pela dor branca pelo suplício exacto
mas obscuro
um sulco e os sombrios flancos
da imagem sob a lâmpada
No contacto não perfeito
inacabado braço inalcançável pulso
querer é dilacerar escrever rasgar
A imagem não se fixa nenhum contorno
exacto
Por um corpo inabalável pelo braço
pela dor branca pelo suplício exacto
1 151
António Ramos Rosa
Há Um Animal Que Ilumina o Caminho
Há um animal que ilumina o caminho
de uma boca a outra boca de um seio a outro seio
e há um repouso na noite material de um negro espesso
no espaço do vento na profunda esfera do ventre
quem move as vibrações mínimas do sangue e as cores da página
sabemos onde a pedra reina onde os olhos se perdem
onde se bebe a água do ventre onde as cigarras se calam
O que desejamos agora são as luzes dos barcos as encostas imóveis
as pálpebras da terra e o sulco que se desce
com os pulsos do medo e do frio da noite
até um lugar onde a espessura se abre entre o vento e a sombra
e as palavras repousam na pedra do horizonte
Falamos sem o saber da argila de uma lâmpada uma lenta inclinação
e a noite vacila a linguagem vacila há uma falha um grito
quem poderá fugir sobre a face da terra
quem poderá colocar um ponto nesta frase
ninguém decidirá a opacidade trémula e nula
quem avança é uma sombra a sombra de uma sombra
e se alguém fala se alguém diz árvore lâmina
verá ainda o rosto desfeito na paciência da areia
o último sinal inútil a chuva das setas sobre o muro
de uma boca a outra boca de um seio a outro seio
e há um repouso na noite material de um negro espesso
no espaço do vento na profunda esfera do ventre
quem move as vibrações mínimas do sangue e as cores da página
sabemos onde a pedra reina onde os olhos se perdem
onde se bebe a água do ventre onde as cigarras se calam
O que desejamos agora são as luzes dos barcos as encostas imóveis
as pálpebras da terra e o sulco que se desce
com os pulsos do medo e do frio da noite
até um lugar onde a espessura se abre entre o vento e a sombra
e as palavras repousam na pedra do horizonte
Falamos sem o saber da argila de uma lâmpada uma lenta inclinação
e a noite vacila a linguagem vacila há uma falha um grito
quem poderá fugir sobre a face da terra
quem poderá colocar um ponto nesta frase
ninguém decidirá a opacidade trémula e nula
quem avança é uma sombra a sombra de uma sombra
e se alguém fala se alguém diz árvore lâmina
verá ainda o rosto desfeito na paciência da areia
o último sinal inútil a chuva das setas sobre o muro
1 123
António Ramos Rosa
Atravessar o Deserto
Repetem-se as palavras como a erva.
Entre o corpo e o muro há um vazio voraz.
Este é o intervalo entre os flancos da terra.
Esta a boca sem lábios que lê os ossos da página.
O poema reúne todas as partes vivas.
A palavra apaga-se na nudez que se propaga.
As letras renascem de uma inércia atroz.
O corpo é um soluço sem sol e sem palavras.
Como passar o deserto sem a água do silêncio?
Como atravessar a página sem a sombra das letras?
As perguntas são ardentes imagens que se despem.
A nudez recomeça entre todas as letras.
O sentido percorre os ombros do silêncio.
Não há diferença alguma entre o corpo e a sombra.
O poema é legível nesta unidade obscura.
A claridade é o livre interrogar que avança.
O poema é o ardor do espaço, o deserto incandescente.
Entre o corpo e o muro há um vazio voraz.
Este é o intervalo entre os flancos da terra.
Esta a boca sem lábios que lê os ossos da página.
O poema reúne todas as partes vivas.
A palavra apaga-se na nudez que se propaga.
As letras renascem de uma inércia atroz.
O corpo é um soluço sem sol e sem palavras.
Como passar o deserto sem a água do silêncio?
Como atravessar a página sem a sombra das letras?
As perguntas são ardentes imagens que se despem.
A nudez recomeça entre todas as letras.
O sentido percorre os ombros do silêncio.
Não há diferença alguma entre o corpo e a sombra.
O poema é legível nesta unidade obscura.
A claridade é o livre interrogar que avança.
O poema é o ardor do espaço, o deserto incandescente.
1 280
António Ramos Rosa
Aqui Se Abre Um Parêntese
Aqui se abre um parêntese
cinza verde
que restou do dia
(foi tudo água e sombra sobre sombra
e água)
esquecidas folhas
Aqui se fecha o punho deste dia
e os limites claros
que a mão não encontrou
Aqui outra sombra entre parênteses
(a mão penetra na folhagem nocturna)
aqui no chão da noite
o corpo espera
atravessar o não de terra negra
cinza verde
que restou do dia
(foi tudo água e sombra sobre sombra
e água)
esquecidas folhas
Aqui se fecha o punho deste dia
e os limites claros
que a mão não encontrou
Aqui outra sombra entre parênteses
(a mão penetra na folhagem nocturna)
aqui no chão da noite
o corpo espera
atravessar o não de terra negra
970