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Poemas neste tema

Criatividade e Inspiração

Herberto Helder

Herberto Helder

(É Uma Dedicatória)

Se alargas os braços desencadeia-se uma estrela de mão
a mão transparente, e atrás,
nas embocaduras da noite,
o mundo completo treme como uma árvore
luzindo
com a respiração. E ofereces,
das unhas à garganta
talhada, a deslumbrante queimadura do sono.
— Em teu próprio torvelinho se afundam
as coisas. Porque és um vergão raiando entre
esses braços
que irrompem da minha morte se durmo, da loucura
se a veia
violenta que me atravessa a cabeça se torna
ignea como
um rio abrupto num mapa. Quando as salas
negras fotográficas
imprimem a sensivel trama das estações
com as paisagens por cima. E
jorras
desde as costas dos espelhos, seu coração
arrancado pelos dedos todos de que se escreve
o movimento inteiro.
Nunca digas o meu nome se esse nome
não for o do medo. Ou se rapidamente o lume se não repartir
nas formas
lavradas como chamas à tua volta. Os animais
que essa labareda ilumina
na boca. Desde a obscuridade
de tudo que tudo
é inocente. Nunca se pode ver a noite toda de súbito.
E da fronte aos quadris em tuas linhas, és
cega, fechada.
A minha força é a desordem. Reluzes
na têmpera enxuta — queima-te.
O ouro desloca a tua cara. Um nervo
atravessa as frementes, delicadas massas
das imagens:
como uma ferida límpida desde a nascença pela carne
fora. Es alta em mim por essa
cicatriz que se abre ao dormir e quando
se acorda fica aberta.

— Esta
espécie de crime que é escrever uma frase que seja
uma pessoa magnificada.
Uma frase cosida ao fôlego, ou um relâmpago
estancado
nos espelhos. E às vezes é uma raiz engolfada, e quando toca
a fundura das paisagens, as constelações mudam
no chão. A truculência
que se traça como uma frase na pessoa, uma queimadura
branca. Porque ela mostra as devastações
magnéticas
da matéria. Na frase vejo os fulcros da pessoa.
Por furos acerbos as estações que se escoam
e a inquebrantável
paisagem que as persegue por dentro. A frase
que é uma pálpebra
viva
como roupa fechada sobre a radiação das veias.
Que é uma cara, uma cratera.
Ou um hausto animal das unhas à testa
onde
fulguram os cornos em coroa.
E esta massa ofegante é queimada por um
suspiro, um alimento brutal.
O teu rosto cerca-me, a minha
morte cerca o teu rosto como uma clareira
pulsando
na luz cortada. A pessoa
que é uma frase: astro
rude cruamente encordoado entre as omoplatas.
Como se um nervo cosesse todas as partes pungentes e selvagens
da carne. Como
se a tua frase fosse um buraco brilhando até aos pulmões,
com o sangue e a língua
na minha garganta. A beleza que te trabalha
deixa-te
árdua e intacta
no mundo, entre o sangue estrangulado na minha memória.
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Herberto Helder

Herberto Helder

(A Morte Própria)

E estás algures, em ilhas, selada pelo teu próprio brilho,
enquanto a terra me queima os dedos e os dedos
entram no coração como uma queimadura e o coração
propagado
é o incêndio na cabeça — às vezes
a cabeça não sabe que os pulmões arrastam
as labaredas do mundo como um grande buraco
de vozes: um rumor
de crepitações: uma força: uma rapidez
entre as formas — espelhos luzindo
atrás dos rostos: e tu levantas um braço:
trazes do fundo de tudo a raiz ainda viva de cada coisa:
uma constelação magnética entre os pés afastados
— eu vejo a tua morte no meu próprio movimento:
na chama correndo pela paisagem
fora, a paisagem
que ergues, que depois abandonas ao seu próprio espaço
de paisagem no tempo,
externa: atravessada por noites,
por luzes, transformações, ideias de quem vê,
pelos seus desenvolvimentos ocultos — vejo
que ressuscito no teu modo, essa espécie de estilo
ou energia,
quando casa e paisagem circulam como ilhas
numa torrente à volta —
e então o que tocas é esse teu mesmo coração cruzado
por imagens luxuosas: o filme aceso:
membranas do corpo rutilando à passagem dos astros de mármore —
e o teu rosto arranca-se à sombria gravidade
do fundo
da beleza, dos poderes terrestres e o peso
de tanta profundidade: e um instante explode
essa estrela embrenhada na minha cabeça, como
o coração se aprofunda, os dedos
puxam
as linhas de lume com que se cose a terra,
a fenda do seu sangue abismado — às vezes
o espelho é o meu próprio corpo,
a sua ferida: mas entre ilhas, sob
o que circula: espuma do ar, os cometas,
no sono sumptuoso
de animais
quase fixos, os rostos abertos aos raios dos nossos rostos,
aos nossos dedos que lhes chegam ao meio do coração —
porque tudo anda dentro de mim, e o mundo
esgota-se
no teu movimento entre laços
de sangue, cabelos luzindo, as pedras
inclinadas para os teus lugares respiradores: a árvore
crescendo a cada paragem, com toda a tua inspiração
na minha morte, aqui, uma árvore
combustível
onde a fruta faísca: paraíso de espaços múltiplos
e velozes,
entranhado em mim como se eu fosse a árvore
e tu fosses um espelho que a árvore despedaçasse pela sua força
e no espelho eu, como uma imagem, fosse despedaçado,
brilhando.


1978.
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Herberto Helder

Herberto Helder

1.

A teoria era esta: arrasar tudo — mas alguém pegou
na máquina de filmar e pôs em gravitação uma cabeça recolhendo-a
de um lado e descrevendo-a de outro lado num sulco
vibrante “parecia um meteoro”
como se fosse muito simples e então a cabeça desaparecia “a lua”
a ferver a grande velocidade pelo céu dentro
“um buraco”
via-se apenas a intensidade “estávamos com medo pois aquilo
assemelhava-se a uma revelação” e foi quando ele apanhou a cabeça
outra vez
e era agora uma cabeça furiosa
“cheia de peso” dizia-se “a luz agarra qualquer coisa”
oh sim: “com toda a violência”
pensai num bocado de carne despedaçado entre as mandíbulas
de um tigre: e depois deixou cair esse rosto sustentado atrás
pela bela caixa craniana com aquele rastro de cometa
“que é isto?” perguntou-se — e pusemo-nos todos a pensar bastante
“havia ali um senso arcaico da paixão”
talvez uma coisa tão remota e bárbara como: o fausto:
o pavor:
a caça: “é um movimento uma forma” disse ele
“é preciso voltar ao princípio”
e então começámos a usar os olhos com a ferocidade das objectivas
sem truques capturando tudo selvaticamente
e havia por vezes a vertente das espáduas desalojadas
um caudal sumptuoso
cortado “era tão estranho!” pela ligeireza dos dedos abertos
delicado pentagrama a duas alturas
“uma estrela refractada” para falar do que se viu
na projecção do filme e então podia-se adiar tudo menos aquela ideia
de que “não digo beleza” de que uma força
impelia tudo e a rapidez criava formas
linhas de translação feixes
de desenvolvimento ao longo das paisagens redondas como
abismos
recorria-se ainda a imagens para devolver essa cabeça
ao fulgor da sua precipitação contra os olhos
a queda “como oxigénio a arder” e a fuga
e a correria em que voltava para subir e rodar
de um modo que dizíamos: “indomavelmente”
porque vistas assim as coisas eram de uma fatalidade total
e a irrevogável maneira que tinham de ser livres
soltas
impunes
— na sua firmeza: “inocentes” — isso fazia medo
e havia em nós “um estilo de ver” que nos arrastava
implacavelmente para a loucura e a alegria
“porque era preciso destruir tudo” sim “de extremo a extremo”
para encontrar “o centro” onde o calcanhar gira
e roda o corpo todo
o sítio talvez onde se formam as massas dos espelhos
de que saltam fortemente “os astros os rostos”
e não haver “exemplo” mas apenas uma forma rudimentar
desfechada
contra tudo aqui escavando achado o veio
a limpidez primeiramente: aquilo: a cabeça móvel apanhada
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Herberto Helder

Herberto Helder

Joelhos, Salsa, Lábios, Mapa.

Joelhos, salsa, lábios, mapa.

As letras dormiam na noite inclinada, e eram
silveiras bravas. Por elas
escorregava o sono inclinado: mercúrio,
salsa leve.
Unidas as letras nos cotovelos, unidas
dormindo
nos seus frios joelhos de letras.
Por baixo, os mapas redondos com seu
mercúrio leve e a sua
salsa leve inclinada. Bravias
silveiras escorregando nos mapas.
Meus lábios unidos às letras dormindo.
Esse, isso — cabelo quente,
telha molhada.

Fogo, vestido, cidade, areia.

Cantando as mulheres palpitavam às portas,
sonhando com atenção. E eu —
engenheiro móvel — enquanto
a noite sensível.
Martelos batiam borboletas como sons
na cidade de areia.
As letras vergavam num sonho.
Cantando linho agudo na atenção
sensível, vergadas às portas,
mulheres cantavam, palpitando letras
na cidade de areia.
Longe, perto — cabelo
quente, telha molhada.

Mulheres, mercúrio, noite, fábrica.

Através do livro raso, um estupendo k
negro de tanto amor.
E o meu grito, copo de pé através
de frias fábricas.
o radar pontuava a viagem das rosas.
Vírgulas na neve batendo nas rosas.
Ww, tt, aspas, parêntesis sensíveis.
Enquanto através alguém ia gritando
pela noite, pela neve — o seu amor:
cabelo quente, telha molhada.

Engenheiro, letra, grito, aspas.

A terra irada escrevia o seu livro raso.
Enquanto por baixo as letras dos peixes
fazendo som.
Eles vinham sonhando, elas vinham sonhando.
Como vírgulas num mapa—os peixes, as letras
vergavam num sonho.
Martelos batendo som nos peixes.
Por baixo os martelos, por cima o radar,
no meio os peixes, as letras, as rosas.
E dentro de mim as vírgulas grandes —
cor de martelos,
som de rosas.
Esse grito, essa letra — cabelo quente, telha
molhada.

Som, radar, peixe, k.

E um terrível amor —pontapé estupendo,
tempestade de areia.
Então o cabelo respirava como uma tábua
irada. Longe, perto — as silveiras
vergavam ao som de mulheres
cantando vírgulas, peixes e aspas.
Enquanto a visão de um copo de pé e da letra k.
E a minha alegria, fábrica de
cabelo quente, telha molhada.

Copo, muro, livro, tábua.

Então o meu cabelo respirava.
Telhas voavam pelos canais —11, tt, ii — durante
todo o pensamento, e os cabelos
no muro batiam finas estátuas.
Abrindo no escuro, durante toda a neve,
os copos, os vestidos, os mapas.
E dentro de mim, rompendo peixes,
uma noite sensível cor de martelos.
Esse grito, essa vírgula, esse amor, esse
martelo louco
nas borboletas. Então o meu cabelo
respirava — cabelo quente, telha
molhada.

Neve, borboleta, vírgula, estátua.

Na noite sensível — louco, louco —
loucamente levantava sobre o livro raso
essa letra k.
Elas tinham asas de castiçal na cara.
Enquanto eu — engenheiro móvel — na fria
fábrica, um copo de pé, um sentimento
de areia. Irado amor em todos
os mapas — cabelo quente,
telha molhada.

Martelo, sono, rosa, porta.

Eu comia fogo ao pé das cerejas.
Álcool escorrendo num retrato aberto
ao contrário da noite.
E as cerejas dormiam de tão abertas —
líricas e loucas.
E eu, álcool escorrendo
pelas fábricas de neve, abertas.
A cabeça aguda dormia nos ares
de um livro raso — cabelo
quente, telha molhada.

Cara, retrato, canal, álcool.

Sinistro na mão um peixe levantado
louco, alguém
gritando, ia gritando pela fábrica fora.
Rosas enoveladas vergavam no sono,
enquanto letras com os cabelos
escorrendo num muro.
Extraordinário, pendurado no sono
sinistro, um negro peixe
morria durante a neve inteira.
Com esse peixe, alguém ia gritando:
cabelo quente, telha molhada.

Gritando, cor de martelo, em peixes
com som de rosas:

Castiçal, silveira, linho — e:

porta porta.

1963.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Iii D

(Vd. suplemento ‘Artefactos’’ do jornal Expresso de/f,.6.1994)
Abre o buraco à força de homem,
faz um segredo:
o tema é: bater a massa enxuta, batê-la a pulso até
que transpire toda, respire
toda,
o negro com o amarelo revolvido,
quebrar a água em cima;
que as lojas convivam: loja da água primeva,
e a do fogo —
entre as coisas desabridas quero a minha arte mulheril, diz
ela, fornalhas:
da altura das mãos à altura dos tectos,
um cântaro abraçado no seu arco vivo,
cântaros,
O estendal do visível,
e riscos e combinações de riscos, riscos de estrelas lapidadas
— sento-me nos tronos um a um, diz ela: é uma sarça:
como se os imanes corressem pelas limalhas, as substâncias
rebarbativas, substâncias
ao palpite, quantidade
e a qualidade ganha no crivo: O amarelo por instinto,
ciência da noite —
alguém levanta-se de um sonho e,
com ferida e minúcia e fervor,
mexe nessas pequenas coisas,
uma técnica do ouro
na escuridão:
por mistério é que existe, por mistério
é transparente, ou vermelha, mistério
é o dom que nem sempre vê quem olha de fora —
exemplos de enquanto se temperam as argilas, se lavram,
e nascem talhas, potes, bilhas, tocamos em louças e elas vibram:
são o adorno e poderio dos sítios onde morremos
— como se diz: pneuma,
terrífica é a terra e no entanto nada mais do que um pouco:
criar matérias —
e depois, a nossos pés, constelações, e as caras
alumbradas pelas áscuas dentro delas, nós, as soberanas
de trono em trono,
movendo
as labaredas, coando-as através do elemento água:
se alguém mete de encontro à respiração as corolas cerâmicas das
jarras,
faz um segredo, isso: caldeia
os artefactos:
ouro que transborda,
e o mundo.
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Herberto Helder

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V E

Selaram-no com um nó vivo como se faz a um odre,
a ele, o dos membros trançados, o recôndito.
Podiam arrancá-lo aos limbos, à virgindade, ao pouco,
destrançá-lo
para o potente e o suave do mundo:
as ramas de leite que se devoram,
sal e mel que se devoram,
pão, o alimento ígneo,
a testa lavorada pela estrela saída agora da forja.
Custara-lhe que a cabeça e os membros atravessassem a vagina
materna.
Mas depois os dois lados da cabeça refulgiram muito,
e ele ergueu-se à altura do seu nome,
antebraços apanhando a luz, pés a correr como em cima de água,
torso puro: algures, algo.
E então selaram-no, e à púrpura nele, e à música jubilatória dos
tubos na boca,
nó de couro num odre vivo,
a frescura como uma chaga:
louco, bêbado. E selado
luzia.
Duro, o sopro e o sangue tornaram-no duro,
as mães não o acalentam, ele,
o sombrio filho das gramáticas,
porque já não quer o peso, o pesadelo:
membros por cima da cabeça e por baixo da barriga,
saco selado a nós de osso, vivo, saco
vivo, osso vivo, dentro um montão
de tripas
brilhando, autor,
como se ele mesmo fosse o poema, lembra-se, o primeiro, talhando
o fôlego,
o das substâncias
quentes, respiração e soluço, o dos elementos:
coziam-se pinhas, pérolas, abelhas, o floral das varas: lume,
se Deus atiçasse ao mesmo tempo as obras —
com uma volta de vento nas mãos fazia
um dia total, o abismo,
ou propriamente o pomar do mundo:
paus estuando de uma agudeza para dentro das frutas,
as laranjeiras com as labaredas,
colinas,
as colinas estremecem pelo poder das laranjas,
ou outros exemplos: que as mães trazem da sua noite a curva
arcaicamente rútila de uma bilha e levam-na até à água fechada, e
abrem-na,
e a água é rútila na bilha,
e por cima do ar comburente e da água tão forte,
poema do começo,
o sistema sideral infunde-se nos trabalhos do terror e da doçura:
a ideia, a idade,
o idioma:
o mais rouco ou mais leve ou de azougue —
poema que desconheço, o antigo, o novíssimo,
o que devora
a mão que o escreve: no papel fica apenas
sal de ouro,
e vê-se tão bem como o rosto se eleva
da sua condição de cometa escarpado caído
raso,
e depois erguido defronte das câmaras,
por entre as pranchas de mármore das florestas da terra,
limpo, lento
— um toque secreto na têmpora,
o tremor da música na boca,
porque é o primeiro e o último baptismo:
o poema escreve o poeta nos recessos mais baixos,
às vezes o nome enche-se de água quebrada no gargalo da bilha,
às vezes é um nome esvaziado de água:
a sangue grosso,
a árduo sopro,
quando o rosto inquilino da luz já não se filma.

1991 e 1994.
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Herberto Helder

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Texto 11

“Estudara” muito pouco o comportamento das paisagens
“do tempo” pergunto “que sabia ele?”
bruscamente voltara-se para uma explosão de álcool
algures na “biografia” no “mapa” dele naquelas partes
que mexem de leve
junto ao fígado? à espinal medula? coração? intestinos?
nada conhecia das “transcrições” que logo começam a ferver
se caem sob os olhos
foi apenas o melhor numa “agonia transparente para si mesma”
um morto veloz na maneira de pôr os dedos
sobre a “escrita impossível”
treinara o medo como se faz com uma foca
tinha uma cabeça muito boa para isso
e o medo apanhava no ar o seu peixe cruamente alimentar
percebia ainda que “tudo” poderia ser “electrocutado”
de “luz e trevas” não distinguia nada e desejava
da sua “desatenção paciente” e do “vocabulário em pânico”
fazer pelas cercanias da sua morte fazer talvez
uma espécie de “jardinagem” o menos peremptória possível
mas exaltante
alguém às vezes passando debruçava-se queria “respostas”
“o que era e quem e como e onde e porquê”
tudo curiosidades estranhas ao seu tão grave “trabalho”
todos os dias mais lhe cresciam os “órgãos” inúteis
devotara-se ao “movimento” assustador da “limalha”
magnetizada morria morria de pura limalha andante
e alguém passando desejaria saber do “íman”
“onde? qual?” e talvez “para quê?”
sim senhores ele trabalhava bem nestes “instrumentos” pequenos
eram para sempre o seu “modo de escrever” a tempo
“o erro todo”
da infância fora para a adolescência e daí entrara
nos territórios ferozes e mais tarde pendera-se em pinha
fervilhando maduramente como um unido enxame dourado
de abelhas negras
bem se lhe podia chamar “analfabeto” se algo se pode
chamar a quem se interesse tanto
por “nada” do “alfabeto”
“ele via alguma coisa?” perguntam “via por acaso
o que vinha fazendo por fora ou que por fora lhe faziam
a ele às imagens às épocas aos centros
e subúrbios de tudo?”
nunca encontrara a contas com qualquer “casa”
qualquer “operário” tão desavindo com a sua obra
como ele
tudo estava no “sítio” certo onde não estava
apenas o “talento” dele de estar lá
por isso nunca fazia bem o que fazia bem
era um “mestre” na “arte longa” de perder “gramática”
e por isso é que ia sabendo como era isso tudo
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Herberto Helder

Herberto Helder

Texto 2

Não se vai entregar aos vários “motores” a fabricação do estio
o sussurro da noite apresentada pormenores
para um “estilo de silêncio” ou inclinações graves
expectando “instantes iluminatórios” é certo que o cenário
ganharia uma qualidade empolgante
mas desiste-se porque “a mão” vem depressa
indagam: que mão? que direcção? que posição?
indagam que “acção de surpresa e sacralidade” (se há)
o que houver “e vê-se pela pressa” é uma
espécie de vivacidade ou uma turbulência íntima
e ao mesmo tempo cautela poder serena destreza
de “chamar” de dentro do pavor e “unir” por cima
do pavor
agora estamos a fazer força para afastar o excesso
de planos multiplicidades antropofagias para os lados todos
que andam
“procuram um centro?” sim “uma razão de razões”
uma zona suficiente leve fixa uma como que
“interminabilidade”
serve o cabelo serve uma pedra redonda — a submissão
de um animal colocado sobre o seu próprio sangue ingénuo
temas de dias consumidos ou consumados teatros para saídas
altas entradas altas saídas baixas entradas baixas “movimentos”
aí mesmo é que se desmata o sítio excepcional
o acaso da ocasião fértil por si
mão para “escrever” um propósito inerente a natureza compacta
de um “peso movimentado” até se encontrar como
“peso próprio”
esta doçura que é o escândalo dos “mortos usando
cabeças de ouro o terror da riqueza”
mão apenas em dedicatória a lavouras desconhecidas
da “festa”
ela mesma a sua festa inferida de aí estar
sobre o rosto que se imprime de dentro a “rotação”
irresistível enquanto desce enquanto os lábios
fervem da sua “lepra” e trevas e luzes se combinam
numa tensão interna
“escrita e escritura” desenvolvidas pelo silêncio
que as não ameaça mas de si as libera como uma
borboleta ávida uma dona do espaço
visível proprietária da luz e sua extensão
“sinal” daquilo que se abriu por sua energia mesma
e nenhum arrepio de horror sequer um “transe”
fere o flanco oferecido ao mundo
apenas um “nascimento” o ritmo trabalhado noutro e trabalhando
outro ritmo como a malha das artérias
um mapa uma flor quentíssima em fundo de atmosfera
601
Herberto Helder

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Texto 9

Porque também “isso” acontece dizer-se que se lavra
a cantaria ou o ar ou mesmo
“espaços de luminosidade” a negra dança lavra-se
sobre
a ficção unitária do mundo é um modo demorado
de ver “uma porta que se abre” afinal subitamente
de uma certa ordem para uma ordem certa
pela “revelação” fulgura aqui a sabedoria do “tacto”
dedos a ler por linhas quentes
e pensa-se que se há-de encontrar “um nó”
o fulcro dessa palpitação a correria dos “sinais”
para uma “pauta” através de “temperaturas”
surgem ideias como “atmosferas” ou “climas”
regista-se entretanto que é uma “transformação do ritmo”
“rosto”
alguma coisa que procura equilibrar-se acima das águas
que requer “a sua zona” além das neblinas e vapores
uma “escrita” com a glória própria cometida contra
ameaças climáticas distorções de leitura ligas suspeitas
de matéria “levezas e pesos” precipitados irreferenciáveis volúveis
quem é? que é? que limite estabelece ao concreto?
que desencadeamento solicita ao meio das forças?
o rosto dirigido não já para o seu próprio “reflexo
irradiante” mas a “absorção” do poder difundido
para um novo impulso centrífugo
“diálogo daqui para lá” cerrada conversa
entre forma e formas troca sem fendas comunicação
ininterrupta
o eco da pancada é a outra pancada e uma pancada única
sustém a tensão do som uma “permanência”
dos sentidos voltados “entre si” para o que são
em si mesmos “sentidos de algo irrefutável”
a forma enfim criada pelo “gosto de ser” e para
o “gosto de que seja”
que a vergastem luzes e serão as “suas” luzes
gravita dentro e fora do que é o seu
“movimento interior” e “exterior movimento” ao longo
da “resposta” quando tudo pergunta “onde?”
decerto se tece o que sobre ela fervilha
de “temporal”
fios partidos ondas quebradas a chama que se desliga
da obra quando a mão se levanta da prata
mas ficará “gravação” do tumulto na geometria ou severo
“número” em tudo o que atravessa a desordem
das coisas geralmente “todas elas”
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Herberto Helder

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Texto 1

Todo o discurso é apenas o símbolo de uma inflexão
da voz
a insinuação de um gesto uma temperatura
ã sua extraordinária desordem preside um pensamento
melhor diria “um esforço” não coordenador (de modo algum)
mas de “moldagem” perguntavam “estão a criar moldes?”
não senhores para isso teria de preexistir um “modelo”
u ma ideia organizada um cânone
queremos sugerir coisas como “imagem de respiração”
“imagem de digestão”
“imagem de dilatação”
"imagem de movimentação”
"com as palavras?” perguntavam eles e devo dizer que era
uma pergunta perigosa um alarme colocando para sempre
algo como o confessado amor das palavras
no centro
não tentamos criar abóboras com a palavra “abóboras”
não é um sentido propiciatório da linguagem
introduzimos furtivamente planos que ocasionais
ocupações (“des-sintonizar” aberto o caminho
para antigas explicações “discursos de discursos de discursos” etc.)
fixemos essa ideia de “planos”
podemos admiti-los como “uma espécie de casas”
ou “uma espécie de campos”
e então evidente para serem habitados percorridos gastos
Será que se pretende ainda identificar “linguagem” e “vida”?
uma vez se designou mão para que a mão fosse
uma vez o discurso sugeriu a mão para que a mão fosse
uma vez o discurso foi a mão
partia-se sempre de um entusiasmo arbitrário
era esse o “espírito” o “destino” da linguagem
agora estamos a veras palavras como possibilidades
de respiração digestão dilatação movimentação
experimentamos a pequena possibilidade de uma inflexão quente
“elas estão andando por si próprias!” exclama alguém
estão a falar a andar umas com as outras
a falar umas com as outras
estão lançadas por aí fora a piscar o olho a ter inteligência
para todos os lados
sugerindo obliquamente que se reportam
a um novo universo ao qual é possível assistir
ver
como se vê o que comporta uma certa inflexão
de voz
é uma espécie de cinema das palavras
ou uma forma de vida assustadoramente juvenil
se calhar vão destruir-nos sob o título
“os autómatos invadem” mas invadem o quê?
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Herberto Helder

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Texto 10

Encontro-me na posição de estar freneticamente suspenso
das “cenas” nos fundos da “noite”
algum “teatro” vem declarar-se pronto para as suas “leituras”
O “movimento” procura o “corpo”
propriamente
permissivo limpo uma “biografia” de animal
feita
da sua fome e sede e da sua viagem “até onde”
“lugares” encontrados “narrativas” a ocupar uma “atenção última”
a flor que se organizou de um povoamento
de “esforços” florais “tentativas” erros riquíssimos
a cena traz ondas de treva o silêncio que a “tradição” manda:
“gaste-se”
1 raz alguns truques de “estancar e escoar”
um pouco de pavor enquanto há “véspera”
mas não é sempre a noite? entanto já se institui
u ma “crónica diuturna” um helicóptero “por extensão”
persegue a sua paisagem uma paixão do pormenor inventa
os seus “óculos” porque há “coisas para saber”
e para já sabe-se que entre as coisas para saber espera
“a coisa” para saber dessas coisas
o lado tenebroso do corpo que avança debaixo das luzes?
agora “a abertura irradiante” da treva por onde
não bem surpresa não bem milagre não bem tremer de pés e mãos
não bem isto ou aquilo
mas uma “vertigem” que encontrou a “altura” justa
se instalou nela fez “a perpetuidade da época de perigo”
agarra-se a esse “destino” a “personagem” saída
do “trabalho das palavras” dobra-se sobre esse medo
esse pasmo e alegria essa antropófaga festa
de “estar sobre si” e de essa obscura dominação
“estar em cima dela”
polpa asfixiando o caroço e agora o caroço
cancro de frias nervuras fortes tão “praticável”
a “cena” em que os doces buracos se abrem ao veneno
essa “troca” de malevolência íntima e energia íntima
uma “ironia” como que intangível com que se pintam
cenários de montanhas em metal ramagens vermelhas
irrompendo de paredes negras
uma lua aparentemente desaproveitada
tudo “inteligências” para “o equívoco” pés descalços
que chegam para iludir a ilusão de iludir
e depois apenas “o corpo” onde é “o sítio de nascer”
com as suas obras todas implícitas
a noite onde se habituou a noite que ele habituou
a ser a única sua noite
e o pano corre “escreve-se” depressa a si mesmo
“o texto”
o corpo escreve-se “como seria e é” que não acaba e começa
grande e sempre na “altura” propícia e precipício teatral “maior”
e nem “a mão” se moveu para que fosse “escriturada”
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